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sexta-feira, 3 de julho de 2015

Buracos negros financeiros: nutrição e cuidados básicos


30/6/2015, [*] Dmitry Orlov, Club Orlov
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Sergey Glazyev

Há algum tempo, tive o prazer de ouvir Sergey Glazyev – economista, político, membro da Academia de Ciências da Rússia e conselheiro do presidente Putin – dizer algo que confirmou muito bem o que sempre pensei. Glazyev disse que qualquer um que saiba matemática pode ver que os EUA estão à beira do colapso, porque a dívida interna norte-americana cresce exponencialmente. Não são palavras que político europeu ou norte-americano ande dizendo por aí em público, talvez nem sussurradamente na cama, porque nos EUA travesseiros têm ouvidos, e, se acontecer assim, o tal político receberá tratamento de Dominique Strauss-Kahn (cuja ilustre carreira terminou quando, numa visita aos EUA, foi falsamente acusado de estupro, e preso). Por essas e outras nenhum político europeu (e dos norte-americanos, então, nem se fala), pode jamais declarar o óbvio, por mais óbvio que seja.
A essa altura, os russos já sabem muito bem disso. Sim, manter diálogo e relações cordiais com europeus é importante. Mas que fique bem entendido que europeus não passam de fantoches dos EUA sem vontade nem poder para tomar decisões próprias. Melhor talvez falar com os norte-americanos diretamente? Infelizmente, também são fantoches. Funcionários do governo e políticos norte-americanos são todos fantoches controlados por lobbyistas de grandes empresas e oligarcas sinistros. Mas, aqui, o choque: esses também são fantoches, controlados pelos simples imperativos do lucro e da preservação da riqueza respectivamente. De fato, são todos fantoches de cabo a rabo, de cima a baixo. E no fundo, por baixo deles, há um gigantesco, eternamente em expansão, buraco negro financeiro.
Você gosta de seu buraco negro? Se não tem muita certeza de que gosta, deixe-me fazer-lhe algumas perguntas: Você gosta do fato de que seus cartões de crédito ainda funcionem, ou de poder ainda deixar dinheiro no banco e até pegar dinheiro num caixa de atendimento automático, ou de já estar recebendo ou algum dia, sim, receber uma aposentadoria? Você gosta de poder obter coisas úteis – comida, combustível, passagens de avião – em troca de meros pedaços de papel impressos com retratos de homens brancos falecidos? Você gosta de ter acesso à internet, de ter lâmpadas acesas, água na pia? Bem, se você gosta dessas coisas, nesse caso você também tem de gostar do buraco negro financeiro, porque é ele que torna possíveis todas essas coisas, apesar de você viver num país quebrado, falido, em bancarrota. Talvez seja daquelas relações de amor-ódio: você ama conseguir fingir que está tudo ótimo, mesmo você sabendo que não está, e quer curtir mais um pouco do bussiness-como-sempre, antes que tudo vá prô inferno, seja só mais alguns dias, seja um, dois anos. Mas você odeia saber que é altamente possível que o buraco o sugue para o fundo, momento a partir do qual você estará sugado, digo, definitivamente ferrado.
Experimento do Buraco Negro dá dramaticamente ERRADO

Nos EUA, até agora, o buraco negro tem sugado famílias individualmente consideradas (embora às vezes sugue cidades inteiras, feito Detroit, Michigan ou Bakersfield, Califórnia ou Camden, New Jersey). Com a ajuda da gangue das hipotecas fraudulentas, ele suga casas e as cospe de volta, oneradas por dívidas podres. Com a ajuda da indústria médica, ele suga gente doente e cospe os doentes de volta, falidos. Com a ajuda da gangue das universidades privadas, suga gente jovem cheia de esperanças, e cospe formados nas “especializações” mais ridiculamente inúteis e com as pernas e o espírito quebrados pela mais obscena dívida “estudantil” que se possa imaginar. Com a ajuda do complexo industrial-militar, suga praticamente qualquer coisa e cospe cadáveres, tragédias ambientais, terroristas e instabilidade global. E assim vai.
Mas o buraco negro financeiro pode também sugar países. Nesse momento, está ocupadíssimo tentando devorar a Grécia, mas está difícil, porque a Grécia é – adivinhem! – estado democrático. Esse fato surpreendeu os fantoches do buraco negro, que já começaram a clamar por “mudança de regime” na Grécia, para que a Grécia possa ser obrigada a render-se, antes de o buraco negro morrer de fome.
O processo pelo qual o buraco negro financeiro suga países inteiros é o seguinte. Se o buraco negro não encontra coisas suficientes para sugar logo de início, ele então põe os mercados financeiros em queda livre. Instrumentos financeiros de países que estejam longe do buraco negro – lá, na periferia – caem mais depressa. Em busca de “paraíso seguro”, o dinheiro flui para fora desses países e diretamente para dentro dos países “núcleo” firmemente agarrados em torno do buraco negro financeiro – EUA, Alemanha, Japão e uns poucos outros. O buraco negro devora esse dinheiro, mas logo novamente já fica com fome e quer mais. E, porque os países da periferia já estão agora financeiramente fracos demais para resistirem, podem ser facilmente convertidos em ração para buraco negro financeiro. A devoração começa quando o país é sobrecarregado com dívida externa que jamais poderá pagar, o que força o país-comida a “amortizar” só parcelas da dívida, que não pode deixar de pagar completamente, porque os empréstimos para pagar dívidas são como uma linha vital de abastecimento pela qual o país recebe... mais dívidas. E assim os bancos podem ser mantidos em funcionamento, os caixas de autoatendimento abastecidos, as lâmpadas acesas e tal e tal.
O povo vai direto para Buraco Negro

Para conseguir pagar parcelas da tal dívida, o país é forçado a desmantelar a própria sociedade e a própria economia. E lhe são impostos: o mais total ARROCHO e a privatização de tudo que haja à vista (e cada empresa privatizada é empresa a ser pescada para dentro do saco das dívidas impagáveis, ou só “amortizáveis” com mais dívidas); e o país é forçado a entregar a própria soberania, a qual, rendida, passa a pertencer a organizações transnacionais, como FMI ou BCE, todas diretamente envolvidas na alimentação e na prestação de serviços de atenção à saúde do buraco negro financeiro.
E quem comanda tudo isso? – você poderia perguntar. Se tudo é buraco negro, se não há outra coisa além de buraco negro financeiro, os fantoches encarregados de mantê-lo saudável e bem alimentado e as desgraçadas vítimas do buraco negro financeiro, nesse caso... quem toma as decisões? Bem, fato é que o buraco negro financeiro é racional. Embora também seja muito, muito estúpido. E o meio que conhece para fazer acontecer o que deseja que aconteça é destruir o cérebro e o coração dos seus fantoches – o que os torna incapazes de compreender certas coisas. Mas estupidez é faca de dois gumes, e ao servir-se dela para chegar mais rapidamente ao objetivo, o buraco negro financeiro distorce também o seu próprio objetivo.
Por exemplo, há pouco tempo, o buraco negro financeiro encontrou objeto grande demais, que quis sugar, mas não conseguiu. O objeto chama-se Federação Russa. Controla território imenso, farto em todos os tipos de recursos naturais que o buraco negro financeiro muito gostaria de privatizar e converter em empréstimos colaterais e sugar para dentro do bucho. Problema é que o lugar está cheio de russos, gente difícil, com a qual os fantoches do buraco negro não conseguem lidar bem. Os russos insistem que os fantoches se mantenham à distância, para lá daquela linha vermelha real bem ali, e, se se mexerem, eles engatilham a pistola e fim de conversa fiada.


É situação que exige negociação, mas o buraco negro financeiro é exemplarmente estúpido, como já disse, e só conhece uma tática de negociação. Ele ordena e põe-se à espera que o outro lado se renda. Se não se rende, vêm as pressões: sanções, ataques contra a moeda, transações financeiras tornadas impossíveis, de tão complicadas, confisco de propriedade do país resistente e por aí vai – e outra vez, é só esperar pela rendição. Se nem isso tudo funcionar, então o país é bombardeado até ser convertido em montes de ruínas, pela OTAN. Ou, caso a OTAN não queira participar, o país é bombardeado exclusivamente pelos EUA, até ser convertido em montes de ruínas.
Em geral funciona, embora não tenha funcionado no caso da Federação Russa. Mas o buraco negro financeiro é muito, muito estúpido e fica lá, só repetindo, só repetindo, só repetindo. De tanto que só repete, só repete, só repete, a mente dos fantoches-agentes se atrapalha mesmo, de verdade, a ponto de eles já não entenderem nem a repetição, repetição, repetição deles mesmos.
Por exemplo, todo mundo sabe que pressionar a Rússia não funciona: segundo a 3ª Lei de Newton, toda a ação produz reação igual e oposta, e a Rússia é grande demais e não adianta empurrá-la, que ela não se move nem um passo – e é o empurrador que, de tanto que se esforça, acaba machucado. É feito tentar mudar a órbita da Terra, saltando de uma cadeira com os joelhos tensos (vídeo no fim do parágrafo), bom truque se você quiser atrair atenção médica. Os russos até agradeceram pelas sanções, porque afinal apareceu boa razão para investirem no desenvolvimento da própria economia doméstica e na autossuficiência. Mas os fantoches-agentes, cujos cérebros já foram sugados pelo buraco negro financeiro, nada vêem, nem compreendem e ficam lá, empurra e empurra, fazendo naufragar, no processo, as próprias economias.
Mas se as sanções não funcionam, é tempo de recorrer à opção militar. Para isso, é preciso inventar um casus belli – um motivo para ir à guerra. Foi quando o buraco negro financeiro enlouqueceu completamente: “A Rússia invadiu a Crimeia!” – sim, sim, talvez tenha invadido há algumas centenas de anos, mas já há séculos a Rússia está lá, recentemente já há até acordo internacional sobre o caso, mas... E que importa tudo isso?! (Ah! E não há o que comprove que a Crimeia foi algum dia dada à Ucrânia, porque Nikita Khrushchev alterou toda a papelada, antes de entregar o presente). Não interessa! Não interessa! A Rússia invadiu a Ucrânia e pronto! E sim, sim, sempre, é verdade todos os dias que se escrevam com “d”, mas foi muito safadinha e retirou as tropas antes que alguém pudesse fotografar, uma fotinho, que fosse, deles, por lá. OK, OK, mas isso também não interessa, porque a Rússia está prontinha para invadir a Estônia, a Letônia e a Lituânia e, pode ser, também a Polônia. Mas... vai invadir como? Você... Você acha que é fácil como tomar um ônibus para o festival de música de Jūrmala? Pode ser que seja, mas, o festival já acabou e até os fãs de música que invadiram o país vizinho já estão de volta, dormindo em casa. OK, OK, também não interessa. E os fantoches-agentes só fazem repetir “invasão russa!”, “invasão russa!” sem parar. É o dano cerebral típico de quem vive muito próximo do buraco negro financeiro. Como esse sujeito (foto abaixo), coitado, por exemplo. Bate que bate o maxilar inferior, sempre “agressão russa”, “agressão russa”, enquanto bolina uma imaginária vaca de estimação, tentando acalmar-se. Deus o ajude!

Robert Work, Secretário Adjunto de Defesa dos EUA

De volta ao mundo real: os infelizes fantoches-agentes do buraco negro financeiro não conseguem entender que, se se trata de Rússia, não há opção militar: o poder nuclear funciona aí como excelente argumento de contenção estratégica, é território muito bem defendido e não tem qualquer intenção agressiva contra seja quem for.
Mas os fantoches com a mente perturbada, nada veem, nem isso nem coisa alguma, e lá estão, empilhando os mais variados tipos de lixo militar obsoleto nas fronteiras da Rússia, e até já ameaçaram levar para a Europa os seus mísseis nucleares Pershing de alcance médio e obsoletos. São obsoletos, porque os russos têm agora o sistema S-300, com o qual podem neutralizar todos os Pershings. A opção militar tampouco funcionará, mas não conte aos fantoches-agentes – eles não suportarão informação dessa natureza, sem sofrerem novos danos neurológicos extensos.
De volta à Grécia: a pequena Grécia com certeza não é a poderosa Rússia, mas mesmo assim se recusou a capitular ante as exigências do buraco negro financeiro. Recebeu ordens para destruir completamente a própria sociedade e a própria economia, como condição para manter a linha de dinheiro de sobrevida que lhe enviariam o FMI e o BCE.
Muito inconvenientemente para o buraco negro financeiro e seus fantoches, a Grécia não é algum obscuro país “de 3º mundo”, povoado de gente de pele escura com quem o buraco negro financeiro não quer que a filha dele case: é país europeu e berço da civilização e da democracia europeias. A Grécia conseguiu eleger governo que bem que tentou negociar em boa fé, mas os fantoches-agentes não negociam – eles ordenam, ameaçam e machucam até que chegar onde querem, ou até que a cabeça deles exploda.
Vai ser interessante assistir ao que vem por aí.
Se o buraco negro financeiro conseguir sugar a Grécia, que país virá depois dela? Itália, Espanha ou Portugal? E, com o processo a continuar, quando chegará o momento em que gente em quantidade suficiente decida que basta?

O jornalismo é também responsável pelo Buraco Negro

Porque quando gente em quantidade suficiente decidir que basta, o buraco negro financeiro se encolherá. Não é buraco negro verdadeiro, feito de matéria tão densa que o seu campo gravitacional segura tudo, até a luz. O buraco negro financeiro é buraco negro fake, constituído da ganância combinada de todos.
No âmago dele só há ganância. Ganância envolta em medo por todos os lados e ele se autossustenta alimentando-se de medo, cada vez de mais medo.
Se puder continuar a sugar pessoas, famílias, países inteiros, pode manter viva a ganância que tem no âmago. Mas se não puder, nesse caso a ganância também se converterá em medo, tudo se autoconsumirá e o buraco negro financeiro se terá autodevorado.
Espero que quando acontecer, todos os seus fantoches ruins-da-cabeça livrem-se dele, percebam o quanto estavam errados e quem sabem acham algo útil para fazer – criar ovelhas, plantar hortaliças, desenterrar caranguejos...

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[*] Dmitry Orlov é um engenheiro russo-americano e escritor sobre temas relacionados ao declínio econômico, ecológico e político dos Estados Unidos. Orlov acredita que o colapso será o resultado dos orçamentos militares, enormes déficits do governo e um sistema político que não responde e declínio da produção de petróleo. Orlov nasceu em Leningrado (agora São Petersburgo) e se mudou para os Estados Unidos com 12 anos. Tem bacharelado em Engenharia de Computação e Mestrado em Lingüística Aplicada. Foi testemunha ocular do colapso da União Soviética durante os ano 1980-90. Entre 2005 e 2006 escreveu uma série de artigos sobre o colapso da União Soviética publicada em Peak Oil. Em 2006 publicou o Manifesto Orlov on-line, A Nova Era da Vela. Em 2007, ele e sua esposa venderam seu apartamento em Boston e compraram um veleiro, equipado com painéis solares e seis meses de fornecimento de gás propano e capaz de armazenar grande quantidade de produtos alimentícios. Chamou “cápsula de sobrevivência”. Continua a escrever regularmente no seu blog “Clube Orlov” e no EnergyBulletin.Net

quarta-feira, 13 de maio de 2015

O Calcanhar de Aquiles dos EUA

12/5/2015, [*] Dmitri OrlovClub Orlov
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

  
Baltimore

Sábado passado, houve em Moscou um vastíssimo Desfile da Vitória, comemorativo dos 70 anos da rendição dos nazistas alemães ao Exército Vermelho, e da implantação da bandeira soviética no alto do prédio do Reichstag em Berlim. Houve alguns aspectos raros nesse desfile, que gostaria de destacar, porque conflitam com a narrativa da propaganda ocidental oficial.

Primeiro, não desfilaram só soldados russos, naquele dia: soldados de dez outras nações também tomaram parte, inclusive a Guarda de Honra chinesa (vídeo no fim do parágrafo) e um contingente de Granadeiros da Índia. Dignitários dessas nações lá estavam presentes, e o Presidente chinês Xi Jinping e a esposa estavam sentados ao lado do Presidente Vladimir Putin, o qual, no discurso de abertura do desfile, alertou contra as tentativas para criar um mundo unipolar – palavras fortes, destinadas declaradamente aos EUA e aos aliados ocidentais dos EUA.


Segundo, exame rápido do equipamento militar que atravessou pelo chão a Praça Vermelha, ou que a sobrevoou, indica que, exceto a mútua autoaniquilação nuclear, não há muito que os EUA possam lançar contra a Rússia, que a Rússia não consiga neutralizar.

Tudo sugere que as tentativas dos EUA para isolar a Rússia resultaram no exato oposto: se 10 nações, entre as quais a maior economia do mundo, somando 3 bilhões de pessoas, querem deixar de lado as diferenças e se pôr ombro a ombro com os russos para enfrentar as tentativas dos EUA de implantar alguma dominação global, nesse caso é bem claro que o plano dos EUA não tem possibilidade de funcionar.

A mídia-empresa ocidental só fez repetir que “líderes ocidentais” não compareceram à celebração, em surto de vaidade ferida ou porque obedecem ordens do governo Obama. Mas seja pelo motivo que for, a ausência só chama a atenção para a irrelevância daqueles “líderes”, seja para derrotar Hitler, seja para comemorar a derrota sobre Hitler 70 anos depois.

Putin, em seu discurso, contudo, agradeceu especificamente aos franceses, britânicos e norte-americanos pela ajuda para o esforço de guerra. Lamento que não tenha agradecido também aos belgas, que tanto ajudaram em Dunquerque.

Um pequeno detalhe do desfile chamou especialmente a atenção: o Ministro da Defesa Sergei Shoigu, budista, nascido na República de Tuva, e um dos mais respeitados líderes russos, que comandou o Ministério de Emergências, antes de assumir o Ministério da Defesa, fez algo que nenhum de seus antecessores jamais fez: no instante de iniciar a cerimônia, antes de pôr o quepe, o Ministro fez o sinal da Cruzà maneira dos russos ortodoxos. Esse simples gesto converteu o desfile, de simples exibição de pompa militar, num ritual sagrado.

Na sequência, veio a marcha, em passos lentos, com duas bandeiras lado a lado [não começaram lado a lado: a bandeira soviética veio à frente [1]] da bandeira russa, a bandeira que foi desfraldada no topo do Reichstag em Berlim no Dia da Vitória, há 70 anos [a bandeira que foi posta no topo do Reichstag em Berlim é outra, diferente da que desfilou sábado [2]]. A marcha foi acompanhada por uma canção popular durante a IIª Guerra Mundial. O título? “A Guerra Sagrada” – vídeo no fim do parágrafo] . A mensagem é clara: o povo russo e os militares russos outra vez se põem nas mãos de Deus, a serviço de Deus, para sacrificar-se mais uma vez para salvar o mundo das violências de (mais) um império do mal.


Para os que tentem desmentir qualquer dessas ideias, porque seriam propaganda do estado russo, há mais uma coisa que todos têm de saber. Ouviram falar da procissão que se organizou espontaneamente, na qual, depois do desfile oficial, meio milhão de pessoas marcharam por Moscou com retratos de parentes mortos na IIª Guerra Mundial? O evento recebeu o nome de O Regimento Imortal (Бессмертный полк). [3] Vídeo a seguir: 


Procissões semelhantes aconteceram em muitas cidades em toda a Rússia, com número estimado de participantes em torno de 4 milhões. A imprensa ocidental ou não noticiou ou apresentou o Regimento Imortal como tentativa de Putin, para provocar sentimentos antiocidentais. Ora! Pura propaganda, isso sim, meus companheiros de viagem espacial, é esse tipo de “cobertura jornalística”!

Não, não foi propaganda. Foi manifestação entusiasmada, espontânea, de sentimento público genuíno. Quem se dedicar a refletir sobre isso, um instante que seja, logo perceberá que não se pode “montar” artificialmente cenas desse tipo. E a ideia de que milhões de pessoas prostituiriam a própria morte para finalidades de propaganda é, sinceramente, cínica e insultante.

Em vez de entrar em colapso silencioso, os EUA resolveram comprar briga com a Rússia. Parece que já perderam a briga, mas permanece uma questão: quantos países a mais os EUA ainda conseguirão destruir, antes de os EUA aprenderem a suportar a ideia de que sua derrota e desintegração são inevitáveis?

Como Putin disse no verão passado, no fórum da juventude Seliger,

Tenho a impressão de que basta os EUA tocarem, que qualquer coisa vira Líbia e Iraque.

Vladimir Putin no Fórum da Juventude em Seliger
(29/8/2014)
É verdade. Os EUA têm vivido em frenesi de destruição, um país depois do outro. O Iraque foi esquartejado, a Líbia é terra de ninguém, a Síria está convertida em área de desastre humanitário, o Egito, em ditadura militar que executa programa de prisões em massa.

O mais recente fiasco dos EUA é o Iêmen, onde o governo pró-EUA foi recentemente derrubado, e os cidadãos norte-americanos que não conseguiram escapar a tempo tiveram de esperar que russos e chineses os resgatassem e os despachassem para os EUA.

Mas foi o fiasco norte-americano anterior ao Iêmen, o fiasco na Ucrânia, que mobilizou os russos, bem como os chineses, que afinal decidiram que os EUA foram longe demais, e que novos passos na mesma direção resultarão em escalada automática.

O plano dos russos, com chineses, indianos e grande parte do resto do mundo, é preparar-se para guerra com os EUA, ao mesmo tempo em que fazem o possível para evitar qualquer guerra. O tempo está do lado dos pacifistas, porque a cada dia que passa eles se fortalecem, enquanto os EUA só enfraquecem. Mas enquanto esse processo prossegue, os EUA podem “tocar” mais alguns países, convertendo tudo em Líbia ou Iraque.

A Grécia será a próxima da lista? Ou, quem sabe, jogam sob o trem os estados bálticos (Estônia, Letônia, Lituânia), que são hoje membros da OTAN (quer dizer, cordeiros a serem sacrificados)? A Estônia está apenas a algumas horas de carro da segunda maior cidade russa, São Petersburgo; tem grande população russa; tem capital habitada por maioria russa; e tem governo furiosamente antirrusso. Dos quatro itens, só um não faz sentido algum. Será o próximo, em fase de preparação para a autodestruição?

Algumas repúblicas da Ásia Central, no sensível “baixo ventre” da Rússia, também podem já estar maduras para serem também “tocadas” pela vara de condão de desgraças dos EUA.

Não há dúvida possível de que os norte-americanos continuarão a espalhar desgraças pelo mundo, sempre “tocando” países vulneráveis, exploráveis, pelo maior tempo que consigam. Mas há outra pergunta que se tem de perguntar: os norte-americanos nunca usam a própria vara de condão de desgraças para se autodesgraçarem? Porque, se se pensa bem, o próximo candidato a desgraça extrema com conversão em terra arrasada a bombas, pode ser o próprio país, os EUA eles mesmos. Consideremos essa opção.

Como os eventos em Ferguson, e mais recentemente também em Baltimore, já indicaram, as tensões entre afro-norte-americanos e a Polícia só fazem escalar, a tal ponto que explosões começam a acontecer por todos os lados, cada vez mais prováveis.

Protestos em Baltimore (maio/2015)
A “guerra às drogas”, nos EUA, foi guerra essencialmente contra homens negros latinos; cerca de 1/3 da população de negros jovens está encarcerada. Os mesmos homens jovens negros norte-americanos estão também expostos a alto risco de serem baleados pela Polícia. A bem da verdade deve-se dizer que a Polícia também está exposta a alto risco de ser baleada por homens jovens negros, o que leva os policiais a viverem com medo e a reagir sem qualquer ponderação ou equilíbrio.

Com a economia andando a passos firmes rumo ao colapso – perto de 100 milhões de norte-americanos em idade laboral estão desempregados (“fora da força de trabalho”, como dizem os técnicos, como se os pobres lá estivessem por vontade própria) – já pode estar bem claro, para parcela sempre crescente da população, que continuar a cooperar com as autoridades deixou de ser estratégia útil: de um modo ou de outro, você sempre acaba ou preso ou morto; mas você nunca alcança qualquer dos benefícios temporários que advêm de ignorar a lei.

Há uma interessante assimetria na habilidade da mídia-empresa nos EUA para bloquear informações sobre agitação e insurgência civis: se a coisa acontece do outro lado do mundo, então as notícias são, ou cuidadosamente calibradas, ou totalmente suprimidas. (Alguma rede norte-americana de notícias informou sobre o recente reinício dos bombardeiros contra áreas civis, pelos militares ucranianos? Claro que não). Isso é possível, porque os norte-americanos são notoriamente narcísicos e muitíssimo indiferentes ao resto do planeta, do qual os norte-americanos pouco sabem (e o que pensam que sabem frequentemente está errado).

Mas se a agitação acontece dentro dos EUA, então os mais variados veículos da mídia-empresa disputam entre eles a coroa do “noticiário” mais sensacionalizado, para obter maior “visibilidade” e atrair mais dinheiro de anunciantes. 

A mídia-empresa dominante nos EUA é controlada com mão de ferro por um pequeno grupo de grandes empresas e conglomerados, o que faz da informação nos EUA um só enorme monopólio, mas no que tenha a ver com vender tempo a anunciantes, ainda predominam os princípios do mercado de publicidade.

Assim sendo, há potencial para um ciclo positivo de retroalimentação: mais agitação civil corresponde a “noticiário” mais sensacionalizado, o qual, por sua vez amplifica a agitação civil, o que permite noticiário ainda mais sensacionalizado. E há um segundo ciclo positivo de retroalimentação: quanto mais agitação civil há (ou é noticiada, mesmo que nem haja), mais a política responde com mais violência mais desequilibrada, o que gera mais indignação e fúria nas ruas, o que amplifica a agitação social.

Esses dois ciclos de retroalimentação podem continuar a desenvolver-se sem qualquer controle por algum tempo, mas o final, como se viu em todos os incidentes recentes desse tipo, é sempre igual: aparecem os soldados da Guarda Nacional, toque de recolher, lei marcial.

A rápida intromissão dos militares pode parecer meio estranha, considerando que a maioria dos departamentos de Polícia, até nas menores cidades, já foram nos anos recente pesadamente militarizados, e até o pessoal da segurança em algumas áreas de escolas já andam em veículos militares e armados com metralhadoras. Mas a progressão é natural.

Por um lado, quando as pessoas que habitualmente recorrem à força bruta descobrem que a força bruta não está funcionando, elas naturalmente assumem que não esteja funcionando porque estão usando pouca força bruta, força bruta de menos. Por outro lado, se o sistema de justiça criminal já não passa de travesti e se converteu em matadouro, por que não encurtar a tramitação burocrática e impor logo a lei marcial?

Protestos em Baltimore (maio/2015)
Já há quantidade escandalosamente gigantesca de armas de todos os tipo nos EUA, e mais armas virão, sobretudo agora, quando os EUA estão sendo forçados a fechar bases militares no exterior por falta de dinheiro para mantê-las. E todas essas armas serão usadas, pela mesma razão e do mesmo modo como se passou a usar tantos tijolos vermelhos em Boston. Vocês sabem: começaram a chegar a Boston muitos, muitos tijolos vermelhos, descarregados aqui por navios britânicos, que os traziam como lastro.

Daí surgiu o ímpeto de fazer alguma coisa com tantos tijolos vermelhos. Mas construir prédios de tijolos é processo difícil, trabalhoso, sobretudo se os construtores vivem bêbados. Então a solução encontrada foi usar os tijolos vermelhos para pavimentar calçadas – coisa que qualquer um faz, mesmo caído de quatro pelo chão. O mesmo vai acontecer com o equipamento militar que está sendo repatriado para os EUA. Será usado, porque aí estará, à mão; e será usado do modo mais estúpido possível: um mesmo povo, uns atirando contra os outros.

Mas coisas ruins sempre acontecem a militares que recebam ordens para matar o seu próprio povo. Uma coisa é andar matando aqueles “cabeças de toalha” [orig. “towel-heads”] em terra distante; outra coisa, bem diferente, é receber ordens para atirar em alguém que pode ser seu próprio irmão que vem pela rua na qual você nasceu e foi criado. Esse tipo de ordens resulta em fragging (soldados que assassinam os próprios superiores), em desobediência e em movimentos de deserção ou de defesa do lado oposto.

E é aí que as coisas ficam interessantes. Porque, você sabe, se você atira contra, prende, detém ou por qualquer modo abusa de uma população civil desarmada por tempo suficiente, a resposta que fatalmente surge é uma insurgência armada. Não há como as prisões, para organizar insurgências.

Por exemplo: o ISIS, ou o Califato Islâmico, foi ideado por gente que, antes, trabalhara para Saddam Hussein, durante o tempo em que os norte-americanos os mantiveram presos. Colheram aquela oportunidade para planejar e construir uma estrutura organizacional eficiente; na sequência, quando foram soltos, voltaram a encontrar-se e puseram-se a trabalhar. Manter presos 1/3 dos norte-americanos negros jovens é a melhor maneira de favorecer que eles se organizem e organizem uma insurgência efetiva.

Para ser efetiva, uma insurgência carece de muitas, muitas armas. Aqui, mais uma vez, há um procedimento para adquirir tecnologia militar que já se tornou quase rotina.

Terroristas do ISIS usam armas e veículos cedidos pelos EUA
Que armas estão sendo usadas pelo ISIS? Ora, armas norte-americanas, é claro, que os EUA forneceram ao regime, em Bagdá, e que o ISIS capturou como troféus quando o exército iraquiano recusou-se a lutar e se escafedeu. E que armas estão sendo usadas pelos rebeldes houthis no Iêmen? Ora, armas norte-americanas, é claro, que os EUA forneceram ao governo que lá havia e que já foi derrubado, e que era pró-EUA. E que armas estão sendo usadas contra o regime de Bashar al-Assad na Síria? Ora, armas norte-americanas, é claro, vendidas aos terroristas pelo governo ucraniano, que as obteve dos EUA.

Há um padrão aqui: seja onde for que os EUA armem, treinem e equipem um exército, esse exército tem fortes chances de simplesmente derreter, com as suas armas caindo imediatamente nas mãos dos que precisam delas para usá-las contra os interesses norte-americanos.

E por que, afinal, esse mesmo padrão não se aplicaria também nas muitas áreas nas quais os EUA já puseram o próprio país sob ocupação militar?

Mais uma vez, é onde as coisas ficam realmente interessantes: uma insurgência bem armada, bem organizada, constituída por e composta de pessoas realmente radicais, gente furiosamente indignada, pessoas que absolutamente nada têm a perder e estão lutando pelo próprio palmo de terra e pelas próprias famílias, e que encontrarão pela frente militares norte-americanos derrotados, desmoralizados, que sempre falharam espetacularmente em absolutamente todos os países que eles “tocaram”.

Há quem diga que “a burocracia do establishment é invencível”. Mas e se você tiver uma divisão de tanques para controlar as quatro esquinas em torno do palácio do governo, canhões apontados em todas as direções, atirando contra tudo que se mova? E se você tiver infantaria suficiente para tocar a campainha de todas as casas de todos os burocratas-chefes da cidade? Não se alterariam as probabilidades de vitória contra pelo menos uma burocracia de um establishment?

Os EUA talvez tenham de “tocar” mais alguns países, antes de se verem diante desse cenário, mas é provável que (exceto no caso de guerra total) mais dia menos dia o “feitiço” que os EUA espalham pelo mundo como destruição completa e garantida volte-se contra o “feiticeiro” (vídeo no fim do parágrafo). Quando acontecer, todos aqueles países cujos soldados desfilaram pela Praça Vermelha no sábado passado já não precisarão se preocupar com os EUA.


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Notas dos tradutores

[1] A bandeira soviética (da 79ª Divisão de Infantaria do Exército Vermelho, que lutou em Stalingrado) pode ser vista, desfraldada aos 7’54 do vídeo a seguir; e novamente, melhor, logo depois, sempre à frente da bandeira da Federação Russa.



Ver também, sobre isso, o postado em: 11/5/2015, redecastorphoto, Hoje aconteceu algo verdadeiramente extraordinário


[2] A bandeira abaixo, desfraldada no topo do Reichstag, é outra bandeira, também soviética; mas não é a bandeira que desfilou.



[3] ATENÇÃO: Esse tipo de precisão é indispensável, não porque altere o espírito do argumento de Orlov (e não altera), mas porque estamos trabalhando aqui com vários sinais significativos, que não podem ser alterados, sem que se altere a mensagem dos russos. E nada mais importante, hoje, que a mensagem dos russos (que são BRICS, como o Brasil, a Índia, a China e a África do Sul), se se sabe que, do outro lado, há as Nulands, as Clintons, os Bushes & canalha “midiática” adjunta.

Digam o que disserem cronistas anticomunistas (o Saker, de The Vineyard of the Saker, por exemplo, que acompanhamos, sim, mas que, sim, é militantemente anticomunista), os russos não descartam o próprio passado comunista, com a facilidade com que os cronistas anticomunistas fazem crer que teriam descartado. O passado comunista dos russos apareceu bem marcado, também, por exemplo, na bela cerimônia de abertura dos jogos de Socchi. Só o “jornalismo” ocidental não viu e ensinou a não ver.

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[*] Dmitry Orlov é um engenheiro russo-americano e escritor sobre temas relacionados ao declínio econômico, ecológico e político dos Estados Unidos. Orlov acredita que o colapso será o resultado dos orçamentos militares, enormes déficits do governo e um sistema político que não responde e declínio da produção de petróleo. Orlov nasceu em Leningrado (agora São Petersburgo) e se mudou para os Estados Unidos com 12 anos. Tem bacharelado em Engenharia de Computação e Mestrado em Lingüística Aplicada. Foi testemunha ocular do colapso da União Soviética durante os ano 1980-90. Entre 2005 e 2006 escreveu uma série de artigos sobre o colapso da União Soviética publicada em Peak OilEm 2006 publicou o Manifesto Orlov on-line, A Nova Era da Vela. Em 2007, ele e sua esposa venderam seu apartamento em Boston e compraram um veleiro, equipado com painéis solares e seis meses de fornecimento de gás propano e capaz de armazenar grande quantidade de produtos alimentícios. Chamou “cápsula de sobrevivência”. Continua a escrever regularmente no seu blog “Clube Orlov” e no EnergyBulletin.Net