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sexta-feira, 3 de julho de 2015

Buracos negros financeiros: nutrição e cuidados básicos


30/6/2015, [*] Dmitry Orlov, Club Orlov
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Sergey Glazyev

Há algum tempo, tive o prazer de ouvir Sergey Glazyev – economista, político, membro da Academia de Ciências da Rússia e conselheiro do presidente Putin – dizer algo que confirmou muito bem o que sempre pensei. Glazyev disse que qualquer um que saiba matemática pode ver que os EUA estão à beira do colapso, porque a dívida interna norte-americana cresce exponencialmente. Não são palavras que político europeu ou norte-americano ande dizendo por aí em público, talvez nem sussurradamente na cama, porque nos EUA travesseiros têm ouvidos, e, se acontecer assim, o tal político receberá tratamento de Dominique Strauss-Kahn (cuja ilustre carreira terminou quando, numa visita aos EUA, foi falsamente acusado de estupro, e preso). Por essas e outras nenhum político europeu (e dos norte-americanos, então, nem se fala), pode jamais declarar o óbvio, por mais óbvio que seja.
A essa altura, os russos já sabem muito bem disso. Sim, manter diálogo e relações cordiais com europeus é importante. Mas que fique bem entendido que europeus não passam de fantoches dos EUA sem vontade nem poder para tomar decisões próprias. Melhor talvez falar com os norte-americanos diretamente? Infelizmente, também são fantoches. Funcionários do governo e políticos norte-americanos são todos fantoches controlados por lobbyistas de grandes empresas e oligarcas sinistros. Mas, aqui, o choque: esses também são fantoches, controlados pelos simples imperativos do lucro e da preservação da riqueza respectivamente. De fato, são todos fantoches de cabo a rabo, de cima a baixo. E no fundo, por baixo deles, há um gigantesco, eternamente em expansão, buraco negro financeiro.
Você gosta de seu buraco negro? Se não tem muita certeza de que gosta, deixe-me fazer-lhe algumas perguntas: Você gosta do fato de que seus cartões de crédito ainda funcionem, ou de poder ainda deixar dinheiro no banco e até pegar dinheiro num caixa de atendimento automático, ou de já estar recebendo ou algum dia, sim, receber uma aposentadoria? Você gosta de poder obter coisas úteis – comida, combustível, passagens de avião – em troca de meros pedaços de papel impressos com retratos de homens brancos falecidos? Você gosta de ter acesso à internet, de ter lâmpadas acesas, água na pia? Bem, se você gosta dessas coisas, nesse caso você também tem de gostar do buraco negro financeiro, porque é ele que torna possíveis todas essas coisas, apesar de você viver num país quebrado, falido, em bancarrota. Talvez seja daquelas relações de amor-ódio: você ama conseguir fingir que está tudo ótimo, mesmo você sabendo que não está, e quer curtir mais um pouco do bussiness-como-sempre, antes que tudo vá prô inferno, seja só mais alguns dias, seja um, dois anos. Mas você odeia saber que é altamente possível que o buraco o sugue para o fundo, momento a partir do qual você estará sugado, digo, definitivamente ferrado.
Experimento do Buraco Negro dá dramaticamente ERRADO

Nos EUA, até agora, o buraco negro tem sugado famílias individualmente consideradas (embora às vezes sugue cidades inteiras, feito Detroit, Michigan ou Bakersfield, Califórnia ou Camden, New Jersey). Com a ajuda da gangue das hipotecas fraudulentas, ele suga casas e as cospe de volta, oneradas por dívidas podres. Com a ajuda da indústria médica, ele suga gente doente e cospe os doentes de volta, falidos. Com a ajuda da gangue das universidades privadas, suga gente jovem cheia de esperanças, e cospe formados nas “especializações” mais ridiculamente inúteis e com as pernas e o espírito quebrados pela mais obscena dívida “estudantil” que se possa imaginar. Com a ajuda do complexo industrial-militar, suga praticamente qualquer coisa e cospe cadáveres, tragédias ambientais, terroristas e instabilidade global. E assim vai.
Mas o buraco negro financeiro pode também sugar países. Nesse momento, está ocupadíssimo tentando devorar a Grécia, mas está difícil, porque a Grécia é – adivinhem! – estado democrático. Esse fato surpreendeu os fantoches do buraco negro, que já começaram a clamar por “mudança de regime” na Grécia, para que a Grécia possa ser obrigada a render-se, antes de o buraco negro morrer de fome.
O processo pelo qual o buraco negro financeiro suga países inteiros é o seguinte. Se o buraco negro não encontra coisas suficientes para sugar logo de início, ele então põe os mercados financeiros em queda livre. Instrumentos financeiros de países que estejam longe do buraco negro – lá, na periferia – caem mais depressa. Em busca de “paraíso seguro”, o dinheiro flui para fora desses países e diretamente para dentro dos países “núcleo” firmemente agarrados em torno do buraco negro financeiro – EUA, Alemanha, Japão e uns poucos outros. O buraco negro devora esse dinheiro, mas logo novamente já fica com fome e quer mais. E, porque os países da periferia já estão agora financeiramente fracos demais para resistirem, podem ser facilmente convertidos em ração para buraco negro financeiro. A devoração começa quando o país é sobrecarregado com dívida externa que jamais poderá pagar, o que força o país-comida a “amortizar” só parcelas da dívida, que não pode deixar de pagar completamente, porque os empréstimos para pagar dívidas são como uma linha vital de abastecimento pela qual o país recebe... mais dívidas. E assim os bancos podem ser mantidos em funcionamento, os caixas de autoatendimento abastecidos, as lâmpadas acesas e tal e tal.
O povo vai direto para Buraco Negro

Para conseguir pagar parcelas da tal dívida, o país é forçado a desmantelar a própria sociedade e a própria economia. E lhe são impostos: o mais total ARROCHO e a privatização de tudo que haja à vista (e cada empresa privatizada é empresa a ser pescada para dentro do saco das dívidas impagáveis, ou só “amortizáveis” com mais dívidas); e o país é forçado a entregar a própria soberania, a qual, rendida, passa a pertencer a organizações transnacionais, como FMI ou BCE, todas diretamente envolvidas na alimentação e na prestação de serviços de atenção à saúde do buraco negro financeiro.
E quem comanda tudo isso? – você poderia perguntar. Se tudo é buraco negro, se não há outra coisa além de buraco negro financeiro, os fantoches encarregados de mantê-lo saudável e bem alimentado e as desgraçadas vítimas do buraco negro financeiro, nesse caso... quem toma as decisões? Bem, fato é que o buraco negro financeiro é racional. Embora também seja muito, muito estúpido. E o meio que conhece para fazer acontecer o que deseja que aconteça é destruir o cérebro e o coração dos seus fantoches – o que os torna incapazes de compreender certas coisas. Mas estupidez é faca de dois gumes, e ao servir-se dela para chegar mais rapidamente ao objetivo, o buraco negro financeiro distorce também o seu próprio objetivo.
Por exemplo, há pouco tempo, o buraco negro financeiro encontrou objeto grande demais, que quis sugar, mas não conseguiu. O objeto chama-se Federação Russa. Controla território imenso, farto em todos os tipos de recursos naturais que o buraco negro financeiro muito gostaria de privatizar e converter em empréstimos colaterais e sugar para dentro do bucho. Problema é que o lugar está cheio de russos, gente difícil, com a qual os fantoches do buraco negro não conseguem lidar bem. Os russos insistem que os fantoches se mantenham à distância, para lá daquela linha vermelha real bem ali, e, se se mexerem, eles engatilham a pistola e fim de conversa fiada.


É situação que exige negociação, mas o buraco negro financeiro é exemplarmente estúpido, como já disse, e só conhece uma tática de negociação. Ele ordena e põe-se à espera que o outro lado se renda. Se não se rende, vêm as pressões: sanções, ataques contra a moeda, transações financeiras tornadas impossíveis, de tão complicadas, confisco de propriedade do país resistente e por aí vai – e outra vez, é só esperar pela rendição. Se nem isso tudo funcionar, então o país é bombardeado até ser convertido em montes de ruínas, pela OTAN. Ou, caso a OTAN não queira participar, o país é bombardeado exclusivamente pelos EUA, até ser convertido em montes de ruínas.
Em geral funciona, embora não tenha funcionado no caso da Federação Russa. Mas o buraco negro financeiro é muito, muito estúpido e fica lá, só repetindo, só repetindo, só repetindo. De tanto que só repete, só repete, só repete, a mente dos fantoches-agentes se atrapalha mesmo, de verdade, a ponto de eles já não entenderem nem a repetição, repetição, repetição deles mesmos.
Por exemplo, todo mundo sabe que pressionar a Rússia não funciona: segundo a 3ª Lei de Newton, toda a ação produz reação igual e oposta, e a Rússia é grande demais e não adianta empurrá-la, que ela não se move nem um passo – e é o empurrador que, de tanto que se esforça, acaba machucado. É feito tentar mudar a órbita da Terra, saltando de uma cadeira com os joelhos tensos (vídeo no fim do parágrafo), bom truque se você quiser atrair atenção médica. Os russos até agradeceram pelas sanções, porque afinal apareceu boa razão para investirem no desenvolvimento da própria economia doméstica e na autossuficiência. Mas os fantoches-agentes, cujos cérebros já foram sugados pelo buraco negro financeiro, nada vêem, nem compreendem e ficam lá, empurra e empurra, fazendo naufragar, no processo, as próprias economias.
Mas se as sanções não funcionam, é tempo de recorrer à opção militar. Para isso, é preciso inventar um casus belli – um motivo para ir à guerra. Foi quando o buraco negro financeiro enlouqueceu completamente: “A Rússia invadiu a Crimeia!” – sim, sim, talvez tenha invadido há algumas centenas de anos, mas já há séculos a Rússia está lá, recentemente já há até acordo internacional sobre o caso, mas... E que importa tudo isso?! (Ah! E não há o que comprove que a Crimeia foi algum dia dada à Ucrânia, porque Nikita Khrushchev alterou toda a papelada, antes de entregar o presente). Não interessa! Não interessa! A Rússia invadiu a Ucrânia e pronto! E sim, sim, sempre, é verdade todos os dias que se escrevam com “d”, mas foi muito safadinha e retirou as tropas antes que alguém pudesse fotografar, uma fotinho, que fosse, deles, por lá. OK, OK, mas isso também não interessa, porque a Rússia está prontinha para invadir a Estônia, a Letônia e a Lituânia e, pode ser, também a Polônia. Mas... vai invadir como? Você... Você acha que é fácil como tomar um ônibus para o festival de música de Jūrmala? Pode ser que seja, mas, o festival já acabou e até os fãs de música que invadiram o país vizinho já estão de volta, dormindo em casa. OK, OK, também não interessa. E os fantoches-agentes só fazem repetir “invasão russa!”, “invasão russa!” sem parar. É o dano cerebral típico de quem vive muito próximo do buraco negro financeiro. Como esse sujeito (foto abaixo), coitado, por exemplo. Bate que bate o maxilar inferior, sempre “agressão russa”, “agressão russa”, enquanto bolina uma imaginária vaca de estimação, tentando acalmar-se. Deus o ajude!

Robert Work, Secretário Adjunto de Defesa dos EUA

De volta ao mundo real: os infelizes fantoches-agentes do buraco negro financeiro não conseguem entender que, se se trata de Rússia, não há opção militar: o poder nuclear funciona aí como excelente argumento de contenção estratégica, é território muito bem defendido e não tem qualquer intenção agressiva contra seja quem for.
Mas os fantoches com a mente perturbada, nada veem, nem isso nem coisa alguma, e lá estão, empilhando os mais variados tipos de lixo militar obsoleto nas fronteiras da Rússia, e até já ameaçaram levar para a Europa os seus mísseis nucleares Pershing de alcance médio e obsoletos. São obsoletos, porque os russos têm agora o sistema S-300, com o qual podem neutralizar todos os Pershings. A opção militar tampouco funcionará, mas não conte aos fantoches-agentes – eles não suportarão informação dessa natureza, sem sofrerem novos danos neurológicos extensos.
De volta à Grécia: a pequena Grécia com certeza não é a poderosa Rússia, mas mesmo assim se recusou a capitular ante as exigências do buraco negro financeiro. Recebeu ordens para destruir completamente a própria sociedade e a própria economia, como condição para manter a linha de dinheiro de sobrevida que lhe enviariam o FMI e o BCE.
Muito inconvenientemente para o buraco negro financeiro e seus fantoches, a Grécia não é algum obscuro país “de 3º mundo”, povoado de gente de pele escura com quem o buraco negro financeiro não quer que a filha dele case: é país europeu e berço da civilização e da democracia europeias. A Grécia conseguiu eleger governo que bem que tentou negociar em boa fé, mas os fantoches-agentes não negociam – eles ordenam, ameaçam e machucam até que chegar onde querem, ou até que a cabeça deles exploda.
Vai ser interessante assistir ao que vem por aí.
Se o buraco negro financeiro conseguir sugar a Grécia, que país virá depois dela? Itália, Espanha ou Portugal? E, com o processo a continuar, quando chegará o momento em que gente em quantidade suficiente decida que basta?

O jornalismo é também responsável pelo Buraco Negro

Porque quando gente em quantidade suficiente decidir que basta, o buraco negro financeiro se encolherá. Não é buraco negro verdadeiro, feito de matéria tão densa que o seu campo gravitacional segura tudo, até a luz. O buraco negro financeiro é buraco negro fake, constituído da ganância combinada de todos.
No âmago dele só há ganância. Ganância envolta em medo por todos os lados e ele se autossustenta alimentando-se de medo, cada vez de mais medo.
Se puder continuar a sugar pessoas, famílias, países inteiros, pode manter viva a ganância que tem no âmago. Mas se não puder, nesse caso a ganância também se converterá em medo, tudo se autoconsumirá e o buraco negro financeiro se terá autodevorado.
Espero que quando acontecer, todos os seus fantoches ruins-da-cabeça livrem-se dele, percebam o quanto estavam errados e quem sabem acham algo útil para fazer – criar ovelhas, plantar hortaliças, desenterrar caranguejos...

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[*] Dmitry Orlov é um engenheiro russo-americano e escritor sobre temas relacionados ao declínio econômico, ecológico e político dos Estados Unidos. Orlov acredita que o colapso será o resultado dos orçamentos militares, enormes déficits do governo e um sistema político que não responde e declínio da produção de petróleo. Orlov nasceu em Leningrado (agora São Petersburgo) e se mudou para os Estados Unidos com 12 anos. Tem bacharelado em Engenharia de Computação e Mestrado em Lingüística Aplicada. Foi testemunha ocular do colapso da União Soviética durante os ano 1980-90. Entre 2005 e 2006 escreveu uma série de artigos sobre o colapso da União Soviética publicada em Peak Oil. Em 2006 publicou o Manifesto Orlov on-line, A Nova Era da Vela. Em 2007, ele e sua esposa venderam seu apartamento em Boston e compraram um veleiro, equipado com painéis solares e seis meses de fornecimento de gás propano e capaz de armazenar grande quantidade de produtos alimentícios. Chamou “cápsula de sobrevivência”. Continua a escrever regularmente no seu blog “Clube Orlov” e no EnergyBulletin.Net

terça-feira, 21 de abril de 2015

Oligarcas ucranianos sobreviveram um ano sem Estado. E agora? Que futuro os espera?

14/4/2015, [*] Ivan Lizan – The Vineyard of the Saker
Traduzido do russo para inglês por Aleksey e para português pela Vila Vudu

Os principais oligarcas da Ucrânia
(clique na legenda para aumentar)
Desde a vitória da “revolução da dignidade” já transcorreu um ano, o que nos permite fazer um cálculo provisório de perdas/ganhos das atividades oligárquicas na Ucrânia e compreender quem, dos mais ativos participantes do golpe da Praça Maidan, venceu, quem perdeu, e o que o futuro reserva aos oligarcas ucranianos.

Era liso, no papel. [Os generais] esqueceram as ravinas”. [1]

O objetivo básico da primeira revolução, a Maidan “de veludo”, organizada por Sergei Lyovochkin, cujo apogeu foi o espancamento dos que se manifestavam pró-Europa dia 30/11/2013 – mudou o modelo das relações entre os clãs oligárquicos da república ucraniana.

O clã de Donetsk, chefiado por Yanukovich e Akhmetov, opôs-se ao clã Dnepropetrovsk, cujo símbolo era Yulia Timoshenko e cujo mais rico oligarca-membro era Igor Kolomoisky. A principal reclamação do clã de “Dnepropetrovsk” ao clã de “Donetsk” era contra o apetite insaciável por riquezas, da família de Viktor Fedorovich Yanukovich; e contra a posição deles, de não assinarem os acordos de euro-associação, que satisfariam muito bem os objetivos de alguns oligarcas, interessados em integrar a cadeia de mercadorias em nível de base. (A luta por mais riquezas).

Os acordos de Moscou, que foram iniciados por Mykola Azarov, não apenas satisfizeram apetites de oligarcas ucranianos, mas foram também o início de um processo de redirecionamento gradual da Ucrânia no rumo da união aduaneira encabeçada pela Rússia. Mas em janeiro de 2014, com os eventos da Praça Maidan, ficou claro que, nas grandes questões de geopolítica mais ampla, os oligarcas ucranianos não eram orquestradores de qualquer grande jogo, mas peças de valor apenas mediano, que estavam sendo operadas e movimentadas pelos EUA.

Fato é que, em fevereiro, os oligarcas já haviam perdido praticamente todo e qualquer controle sobre as atividades das massas revolucionárias, e o único que, retrospectivamente, obtivera algum benefício fora Igor Kolomoisky. Os outros estavam entre os que quase perderam muito mais do que ganharam.

A revolução não devora só os próprios filhos, devora também os pais.

É difícil saber se os oligarcas ucranianos previram e contabilizaram as diferentes combinações possíveis e os resultados de suas atividades revolucionárias na Ucrânia ou não. Provavelmente tentaram prever e contabilizar alguma coisa, mas com certeza não previram corretamente os resultados. Se se consideram os resultados do ano passado, pode-se garantir que nenhum dos oligarcas ganhou coisa alguma em termos de capital agregado. Nenhum deles ficou mais rico.

O oligarca cujas riquezas mais sofreram foi o príncipe do Donbass, Rinat Akhmetov, que perdeu quase metade de seu capital e todos os seus domínios feudais. A única coisa que ainda mantém Akhmetov à tona é a sólida reserva de força e energia do império DETEK, que faz salivar a concorrência, mas não pode ser facilmente atacada por causa de sua importância estratégica e complexo gerenciamento. Detalhe a considerar é que a DETEK inclui usinas de energia térmica, elemento chave no sistema energético da Ucrânia, minas de produção e estruturas de transporte de carvão. Outro fator chave é que confiscar esse item do patrimônio de Akhmetov poderá gerar riscos imprevisíveis para toda a elite de Kiev.

A DETEK de energia possui inclusive usinas nucleares
De qualquer modo, a guerra no leste do país e a luta contra Igor Kolomoisky abalaram Akhmetov muito gravemente, e ante os eventos em curso e as perdas que tem sofrido, é bem provável que chegue completamente quebrado ao dia de Ano Novo. As usinas de produção de aço de Rinat Akhmetov lá estão, em território da República Popular de Donetsk; e quase todas as suas propriedades no Donbass estão sendo disputadas por Kiev e pela República Popular de Donetsk.

Um dos organizadores da Maidan “de veludo”, Dmitry Firtash, está hoje na Áustria, cujo governo está decidindo se o extradita para os EUA. Firtash era o principal empresário da indústria química na Ucrânia, especializado na fabricação de fertilizantes. Problemas com o fornecimento de gás, a moeda ucraniana desvalorizada e a contração do mercado interno fizeram encolher a demanda por fertilizantes, o que levou ao fechamento de suas fábricas. A fábrica “Styrene” em Gorlovskiy, por exemplo, em território da República Popular de Donetsk, foi duramente atingida durante os bombardeios que a região sofreu. A prisão de Firtash mostrou a posição frágil desse específico oligarca ucraniano, que teve confiscada também sua usina de nitrogênio, “Tajik Nitrogen”, no distante Tadjiquistão, além de suas propriedades na Ucrânia.

Viktor Pinchuk também não se deu bem; sua empresa produtora de tubulações foi à falência e o negócio de seguros também morreu pouco depois.

Vadim Novinsky está virtualmente falido, e os prejuízos de sua indústria de construção de navios já chegam a US$ 4 bilhões, que corresponde ao valor estimado do contrato (hoje já perdido) para a construção de um navio tanque para a Gazprom russa, no estaleiro de Nikolaev. Seu banco Forum também sofreu; e investigação iniciada em fevereiro no “Smart group” podem levar à encampação também dessa propriedade de Novinsky.

Sergei Taruta é caso de perfeita bancarrota (nas próprias palavras dele, ao descrever sua situação financeira). Mas esse magnata não foi à bancarrota por ter cavado trincheiras entre a fronteira russa e o Donbass, mas porque perdeu suas propriedades que estão hoje em território da República Popular de Donetsk.

Konstantin Zhevago e Sergei Tigipko caíram fora e decidiram não se envolver na disputa. Escaparam com escoriações leves, mas o capital deles também perdeu peso. Os negócios de Zhevago estão padecendo porque os preços da mineração de ferro desabaram, e banco dele, “Finance and Credit”, está à beira da falência. Os negócios de Tigipko devem chegar ao fundo do poço em breve, e ele também está bem próximo da total ruína financeira.

“Governo é assunto do [Banco] Private. Oligarca, aí sim, sou eu” (Igor Kolomoisky)

Ao final do ano passado, os únicos oligarcas que se mantinham em pé na Ucrânia eram Igor Kolomoisky e seus colegas no grupo financeiro e industrial “Privat”. Apesar da redução no capital, “Private” tem precisamente o que outros oligarcas e suas organizações não têm: muito músculo.

Sede do Privatbank em Dnipropetrowsk
Igor Kolomoisky e os dois Gennadys próximos dele, Korban e Bogolyubov, conseguiram por causa de suas últimas posições, alugar mercenários a tempo e formar milícias privadas próprias. As mudanças no poder ajudaram a dar-lhes cobertura, não só na proteção ao patrimônio já existente, mas, também, para ampliar a influência deles nas regiões de Odessa, Zaporozhye e Kharkov, criando praticamente um estado dentro do estado, no qual Igor Kolomoisky tornou-se líder. Nas eleições parlamentares, o grupo “Private” consolidou sua representação no Parlamento e várias vezes “derrotou” Kiev. Poroshenko e Yatsenyuk foram obrigados não só a alocar bilhões para refinanciar dívidas do “Private,” e fingir que não viram o roubo de 603 mil toneladas de petróleo do principal oleoduto, mas também tiveram de tolerar Kolomoiskiy como governador nomeado da região de Dnipropetrovsk, e seu vice-governador, Igor Papitzu, no governo da região de Odessa. Não é possível remover Papitzu e Kolomoiskiy sem declarar guerra ao banco “Private”, não há qualquer garantia de vitória contra aquelas poderosas milícias armadas, e ninguém em Kiev decide-se a dar tal e tão temerário passo.

De fato, Kolomoysky é o único oligarca na Ucrânia que representa real ameaça contra os governantes de Kiev e, por sua vez, é uma força de reserva para Washington, que os EUA poderão usar depois da bancarrota dos projetos políticos hoje em andamento.

Bem-sucedidos gerenciadores de crises

Enquanto isso, o concorrente de Kolomoiskiy é o presidente Petro Poroshenko, o qual, apesar de os lucros de sua empresa Roshen terem aumentado nove vezes, é, no geral, completo perdedor. Nem o tráfico de armas está ajudando o oligarca-presidente através de sua empresa de construção e engenharia “A Forja de Lênin”. Lateralmente, deve-se observar que o Banco MIB, de Poroshenko, está crescendo; durante o ano passado o capital foi aumentado em 85%, mais, provavelmente que os lucros, graças ao talento e ao trabalho duro do ex-dentista-chefe Oleksandr Yanukovych.

Também Arseniy Yatsenyuk muito trabalhou para esse resultado, e certamente aumentou o capital do banco, com o desenvolvimento do crédito e aumento do custo do dinheiro diretamente para o comércio de armas. Mas os resultados de Arseny Petrovich não foram bons, por causa das dificuldades para provar a propriedade dos suprimentos e fundos [trecho incompreensível].

Sobreviver à destruição do habitat

O problema que mais atormenta todos os oligarcas ucranianos é que já não controlam os processos políticos no país no qual ganhavam dinheiro. O máximo em que os dois, Poroshenko e Kolomoysky, conseguem interferir é no processo de realocação de recursos do orçamento e na distribuição de bens atraentes. Mas não conseguem mais interferir, como faziam antes, na economia.

O procedimento de cercar Yanukovich e confiscar todos os seus bens, que coincidiu com os primeiros passos do roteiro montado para desintegrar a Ucrânia, levou à destruição da burguesia de sempre e da oligarquia ucraniana. Se antes as questões de segurança pessoal eram deixadas por conta do governo ucraniano e das organizações policiais mantidas pelo orçamento do Estado, quando o Estado entrou em colapso aumentaram, para todos, os custos do componente defensivo do poder.

Manifestação anti-Maidan na Praça Lenin, Donetsk
27/2/2015
O colapso da economia e o colapso não controlado do sistema bancário não atingirão só os meros mortais, mas também os oligarcas, supremas divindades da oligarquia. Ainda é possível, para eles, realocar os bens saqueados do patrimônio da Ucrânia. Mas manter o butim e fazê-lo render e gerar lucros em dólares tornou-se inacreditavelmente difícil.

Desde que engenharia e metalurgia entraram em queda livre, e há um buraco de proporções épicas no orçamento, só sobreviverão os oligarcas e respectivos grupos que:

●– mantenham alguma conexão com o Departamento de Defesa, para monopolizar os serviços de reparos de equipamentos, para o exército de Kiev;

●– enquadrem-se bem no esquema de compra e venda de armas e de prestação de ajuda pelo ocidente, inclusive financeira;

●– consigam manter vivos os respectivos negócios relacionados a importação e exportação, negócios que são críticos para manter a moeda, ou controlem setores estratégicos da economia (desde que PPG “Private” sobreviva, porque é a espinha dorsal do monopólio da produção de ligas de ferro e exportação de moeda, e Rinat Akhmetov, com sua holding DETEK a fornecer eletricidade).

Os oligarcas ucranianos do agro-business também enfrentarão dificuldades: o preço dos fertilizantes, do maquinário e do combustível subirá consideravelmente, e o acesso ao crédito será mais difícil. Mas os oligarcas transferirão o aumento dos custos para os fazendeiros e outros atores de mercado, e a troca de grãos por moeda não será afetada.

A paulada mais dura desabará sobre os banqueiros, a falência do “Delta Bank” e a corrida catastrófica de depositantes para retirar seus fundos do banco, a incapacidade para pagar juros aos clientes sobre os depósitos levará à morte a maioria dos bancos e todo o sistema financeiro da Ucrânia. O último a tombar no mercado bancário da Ucrânia será o banco “Private” de Igor Kolomoisky.

Delta Bank sofre "corrida" de seus depositantes
A redução nas oportunidades para pilhagens tornará mais feroz a guerra entre os oligarcas, e o país se desintegrará em várias “prefeituras”, só formalmente incluídas numa una e indivisível (e fictícia) Ucrânia.

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Este ano será crucial para a oligarquia ucraniana, os mesmos oligarcas que destruíram o próprio habitat. O Estado, sim, tem curvas e oblíquas, mas sempre foi bom provedor. Agora, os oligarcas estão forçados a construir suas “prefeituras” feudais sobre as ruínas da Ucrânia; e terão de viver independentemente.

A experiência da Ucrânia mostra que a ausência completa de qualquer senso de proporções na privatização dos lucros e socialização das perdas do Estado levou à ruína dos que, precisamente, parasitavam o próprio corpo do Estado. Com certeza os leitores ouvirão falar, ano que vem, de outros gerentões talentosos, mas perdulários e arrogantes, que tiveram de fugir do país onde um dia viveram da própria fama de empreendedores de sucesso.

O sistema econômico ucraniano que trabalhava sobre um conjunto de bens, empresas e organizações que pertenciam a diferentes oligarcas, exauriu-se e já não se aguenta sobre as próprias pernas. Porque dentro de um ano, dois anos, guerra de igual intensidade, ou ainda pior, reduzirá ainda mais a taxa de funcionamento da Ucrânia, não só para os oligarcas como também para o povo, quando as últimas instituições do Estado que ainda estejam em funcionamento também entrarem em colapso.

Consequentemente, então, tudo terá de começar do zero: a nacionalização-estatização e a industrialização.
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Nota dos tradutores
[1] Era liso, no papel. [Os generais] esqueceram as ravinas é  frase de Tolstoi, já convertida em provérbio, que os russos usam muito.
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[*] Ivan Lizan é um jornalista ucraniano especializado em geopolítica.

domingo, 29 de março de 2015

Feudalismo Financeiro

24/3/2015, [*] Dmitry OrlovClub Orlov
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Era uma vez, há muito, muito tempo, quanto todas as partes mais densamente ocupadas do mundo tinham uma coisa que se chamava “feudalismo”. Era um modo de organizar hierarquicamente a sociedade. Tipicamente, no topo ficava um soberano (rei, príncipe, imperador, faraó, combinado com alguns altos sacerdotes). Abaixo do soberano havia vários estratos de nobres, com títulos hereditários. Abaixo dos nobres vinham os plebeus, que também herdavam o seu lugar na vida, fosse um pedaço de terra sobre o qual se sangravam de tanto trabalhar, ou o direito de trabalhar em algum tipo de oficina de produção ou comércio, no caso de artesãos e mercadores. Todos aí eram fixados às respectivas posições por laços de fidelidade, impostos e deveres consuetudinários: impostos e deveres consuetudinários fluíam de baixo para cima na pirâmide social, e privilégios e proteção, de cima para baixo.

Foi sistema notavelmente resiliente, que se autoperpetuava, largamente baseado no uso da terra e de outros recursos renováveis, todos, de fato, movidos a energia solar. A riqueza era basicamente derivada da terra e dos vários usos da terra. Aí abaixo, está um organograma simplificado da muito estimada ordem de uma sociedade medieval.

Rei, Duque, Conde, Cavaleiro, Servo
O feudalismo foi sistema de estado essencialmente estável. As pressões propulacionais eram aliviadas principalmente por emigração, guerra, pestes e, falhando todas as anteriores, fomes gerais periódicas. Vez ou outra, guerras de conquista abriam novas vias temporárias para que houvesse crescimento econômico, mas dado que terra e sol são finitos, a coisa resultava, mesmo, num jogo de soma zero.

Mas tudo isso mudou, quando o feudalismo foi substituído pelo capitalismo. O que tornou possível a mudança foi a exploração de recursos não renováveis, o mais importante dos quais foi a energia a extrair da queima de hidrocarbometos fossilizados: primeiro, turfa; depois, carvão; depois petróleo e gás natural. De repente, a capacidade produtiva separou-se da disponibilidade de terra e luz solar, e pode ser quase, embora não, multiplicada ao infinito, bastando para isso, simplesmente, queimar mais e mais hicrocarbonetos. O uso de energia, indústria e população, tudo isso, começou a crescer exponencialmente.

Um novo sistema de relações econômicas foi criado, baseado no dinheiro que se pode criar à vontade, sob a forma de dívida, que pode ser paga com juros usando os produtos da sempre crescente produção futura. Comparado ao sistema estável prévio, a mudança levou a uma nova premissa: que o futuro sempre será maior e mais rico –, suficientemente rico para sempre devolver principal e juros.

Com esse novo arranjo capitalista, as velhas relações e os costumes feudais caíram em desuso, substituídos por um  novo sistema no qual os cada vez mais ricos proprietários de capitão armaram-se contra um trabalho cada vez mais miserável e despossuído. O movimento sindical e a negociação coletiva permitiu que o trabalho ainda se aguentasse por algum tempo, mas depois, por inúmeros fatores (como a automação e a globalização) minaram o movimento trabalhista, deixando os proprietários de capital com a alavancagem que pediram a Deus, contra uma população excedente de ex-trabalhadores industriais.

Enquanto isso, os donos do capital formaram a própria pseudo aristocracia deles, mas sem os títulos nem dos deveres e privilégios hereditários. Toda a nova ordem predatória deles baseava-se numa única coisa: valor líquido. O número de cifrões de dólares a pessoa tem associada ao próprio nome, é o que basta para determinar a posição dela em sociedade.


Mas eventualmente, quase todas as fontes locais aproveitáveis de energia baseada em hidrocarbonetos foram exauridas, e tiveram de ser substituídas por outras, mais distantes, mais difíceis e mais caras de produzir. Só isso já consumiu gorda mordida do crescimento econômico, porque a cada ano que passava mais e mais crescimento tinha de ser ceifado para produzir a energia necessária só para manter (e nem pensar em crescer!) o sistema. Ao mesmo tempo, a indústria produziu enorme quantidade de produtos colaterais indesejáveis: poluição e degradação ambientais, desestabilização do clima e outras externalidades. Eventualmente, elas passaram a deixar-se ver em prêmios mais altos de seguro e para remediar danos por desastres naturais e provocados pelo homem, o que acrescentou mais um amortecedor sobre o crescimento econômico.

O crescimento da população também tem seu preço. Vocês sabem, populações maiores traduzem-se em maiores centros populacionais, e resultados de pesquisas mostram que, quanto maior a cidade, maior o consumo per capita de energia. Diferente do que se vê com organismos biológicos (quanto maior o animal, mais lento o seu metabolismo), a intensidade da atividade necessária para sustentar um centro populacional aumenta conforme aumente a população. Observe que em grandes cidades, as pessoas falam mais depressa, andam mais depressa e em geral vivem e operam mais intensamente em agendas mais apertadas, só para se manterem vivas. Toda essa atividade frenética rouba energia que se poderia usar para construir um futuro maior e mais rico. Sim, o futuro pode ser (por enquanto) cada vez mais populoso, mas a forma de colônia humana que cresce mais depressa em todo o planeta é a favela urbana – sem serviços sociais, sem água e esgotos, fértil em crimes e criminosos e, de modo geral, sem qualquer segurança.

O que isso significa é que o crescimento é negócio autolimitado. E observem que já alcançamos aqueles limites e, em alguns casos, já os ultrapassamos, e muito.  As malfadadas práticas, mais recentes, de fraturamento hidráulicos do depósitos de xisto e de extração de petróleo por vapor, de terras betuminosas, são indicativas de o quanto as fontes de combustíveis fósseis estão-se esgotando rapidamente. A desestabilização climática está produzindo tempestades cada vez mais violentas e secas cada vez mais severas (a Califórnia só tem água para mais um ano); prevê-se que países inteiros desaparecerão por causa da subida do nível dos oceanos, estações de monções fora de hora e inundações das plantações por águas de degelo. A poluição também já alcançou limites inimagináveis em muitas áreas: o ar é irrespirável em Paris, como em Pequim, a ponto de atividades industriais serem proibidas, apenas para que as pessoas consigam respirar. A radiatividade dos núcleos fundidos dos reatores nucleares em Fukushima no Japão já está sendo detectada em peixes apanhados do outro lado do Oceano Pacífico.

Todos esses problemas estão causando efeito estranhíssimo que se constata no dinheiro. Na fase anterior, de crescimento do capitalismo, foi criado o dinheiro para fazer avançar o consumo e, com isso, estimular o crescimento econômico. Mas há uns poucos anos, alcançou-se um limite nos EUA, que, naquele momento ainda estavam no epicentro da atividade econômica global (antes de serem eclipsados pela China), quando uma unidade da nova dívida produzia menos que uma unidade de crescimento econômico. Com isso, se tornou impossível avançar, mesmo com juros sobre dinheiro futuro.

Se, antes, o dinheiro havia sido emprestado para produzir crescimento, naquele momento o dinheiro passava a ter de ser emprestado, em quantidades cada vez maiores, simplesmente para evitar o colapso financeiro e industrial. Consequentemente, as taxas de juros sobre novas dívidas foram reduzidas até chegarem a zero, algo que viria a ser conhecido como ZIRP, sigla em inglês para Zero Interest Rate Policy [Política de Taxa de Juros Zero]. Para tornar as coisas ainda mais suaves, os bancos centrais passaram a aceitar em depósito o dinheiro que emprestaram a juros zero, o que sempre garantia um pequenino lucro, permitindo aos bancos lucrar sem fazer absolutamente coisa alguma.

Não surpreendentemente, fazer absolutamente nada mostrou-se atividade absolutamente inefetiva, e por todo o planeta economias começaram a encolher. Muitos países recorreram ao truque de mascarar as próprias estatísticas para apresentar quadro mais rosado, mas se há estatística que nunca mente é a que afere a energia consumida. É indicador que sempre permite medir o nível geral da atividade econômica; e está caindo em todo o mundo. Resultado disso, uma super oferta de petróleo, e preço muito, muito mais barato que antes. Outro indicador que jamais mente é o Índice Báltico Seco [ing. Baltic Dry Index], que traça o nível de atividade nos embarques; e que também desabou.

Assim aconteceu que a política ZIRP preparou o estágio para o desenvolvimento seguinte, muito mais estranho, inusual: as taxas de juros começaram a ficar negativas, tantos nos empréstimos como nos depósitos. Adeus políticas de taxas de juros zero, bom-dia políticas de taxas de juros abaixo de zero!

Os bancos centrais em todo o mundo estão começando a fazer empréstimos ‘cobrando’ juros negativos. É absoluta verdade: alguns bancos centrais, atualmente, PAGAM algumas instituições financeiras para que tomem dinheiro emprestado! Ao mesmo tempo, as taxas de juro sobre depósitos bancários também se tornaram negativas: manter o seu dinheiro num banco agora é privilégio pelo qual se tem de pagar.

Mas as taxas de juros não são negativas, é claro, para todos. Acesso a dinheiro grátis é um privilégio e os privilegiados, claro, são os banqueiros e os empresários que eles financiam. Os que têm de tomar emprestado para financiar moradias são menos privilegiados; os que tomam emprestado para pagar pela própria educação, são ainda menos privilegiados. Os que absolutamente não contam com nenhum privilégio, privilégio zero, são os que são obrigados a comprar comida com cartão de crédito, ou tomam empréstimos que cobram juros diários, para pagar aluguel.

Todas as funções que emprestar dinheiro desempenhou um dia nas economias capitalistas foram abandonadas. Antigamente, a ideia era que se podia obter acesso ao capital baseado num bom plano de negócio, e que isso permitia que o empreendedorismo florescesse e que se formassem muitos novos negócios. Uma vez que qualquer pessoa (não só alguns privilegiados) podiam tomar um empréstimo e começar um negócio, significava que o sucesso econômico, sim, pelo menos em certa medida, dependia de talento e méritos. Mas agora a formação de negócios está andando para trás, com muito mais empresas que desaparecem do mundo, do que novas empresas; e a mobilidade social já se converteu, em vasta proporção, em coisa do passado.

O que resta hoje é uma sociedade muito rigidamente estratificada, com privilégios distribuídos conforme riqueza herdada: os do topo são pagos para emprestar, e surfam uma onda de dinheiro gratuito; os de baixo são empurrados cada vez mais para a servidão das dívidas e da miséria.

A política das taxas de juro abaixo de zero garante o suporte para um novo feudalismo? Com certeza não conseguirá reverter o deslizar ladeira abaixo, porque os fatores que estão impondo limites ao crescimento não são suscetíveis de manipulação financeira, uma vez que são, pela própria natureza, fatores físicos. Claro: não há dinheiro grátis no mundo que consiga fazer renascer novas quantidades de recursos naturais. O dinheiro grátis pode, isso sim, congelar a hierarquia social em torno dos possuidores de capital – mas só por algum tempo  não para sempre.

Para todos os lados onde se olhe, a economia em processo terminal de encolhimento acaba por levar a revolta popular, guerra e bancarrota, o que leva o dinheiro a parar de funcionar, em vários sentidos. Em geral há desvalorização, falência de bancos, incapacidade para financiar importações e cancelamento de aposentadorias no setor público. O desejo de sobreviver leva as pessoas a focarem-se em obter acesso direto aos recursos físicos, distribuindo-os, no máximo entre amigos e familiares.


Por sua vez, isso faz com que os mecanismos de mercado se tornem extremamente opacos e distorcidos, e em muitos casos parem completamente de operar. Sob essas circunstâncias, o número de cifrões de dólar que o sujeito tenha associados ao próprio nome passa a ser critério muito controverso, e deve-se esperar que a hierarquia social entre os donos do capital emborque e torne-se instável. Poucos dentre eles têm os talentos necessários para converter-se em senhores-da-guerra, e esses depenam o demais e os varrem do mundo. Mas principalmente, numa situação na qual as instituições faliram, na qual fábricas e outras empresas já não funcionam, e onde propriedades imobiliárias já foram saqueadas ou invadidas e ocupadas por saqueadores, torna-se muito difícil calcular o valor líquido de cada um. Assim sendo, o organograma da sociedade pós-capitalista será mais ou menos o seguinte (onde “#REF!” é o que o Excel escreve quando encontra, numa fórmula, alguma referência a célula não inválida).




Termo bom, bastante preciso, para esse estado de coisas, é “anarquia”. Se algum novo nível (baixo) de subsistência do estado for alcançado, o processo aristocrático de formação pode recomeçar do zero. Mas, a menos que, por algum sortilégio ou magia, se encontre nova fonte de combustíveis fósseis baratos, o novo processo terá de prosseguir pelas linhas tradicionais, feudais.
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[*] Dmitry Orlov é um engenheiro russo-americano e escritor sobre temas relacionados ao declínio econômico, ecológico e político dos Estados Unidos. Orlov acredita que o colapso será o resultado dos orçamentos militares, enormes déficits do governo e um sistema político que não responde e declínio da produção de petróleo. Orlov nasceu em Leningrado (agora São Petersburgo) e se mudou para os Estados Unidos com 12 anos. Tem bacharelado em Engenharia de Computação e Mestrado em Lingüística Aplicada. Foi testemunha ocular do colapso da União Soviética durante os ano 1980-90. Entre 2005 e 2006 escreveu uma série de artigos sobre o colapso da União Soviética publicada em Peak Oil. Em 2006 publicou o Manifesto Orlov on-line, A Nova Era da Vela. Em 2007, ele e sua esposa venderam seu apartamento em Boston e compraram um veleiro, equipado com painéis solares e seis meses de fornecimento de gás propano e capaz de armazenar grande quantidade de produtos alimentícios. Chamou “cápsula de sobrevivência”. Continua a escrever regularmente no seu blog “Clube Orlov” e no EnergyBulletin.Net