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segunda-feira, 27 de abril de 2015

No mesmo dia, dois casos mostram a completa podridão dos EUA

25 de abril/2015 – [*] Ted Rall – Information Clearing House
Tradução mberublue

Obama brinda o sofrimento causado pelos drones

Por acaso você ainda pensa que os Estados Unidos é governado por gente decente? Que o sistema não é totalmente corrupto e injusto?

Pois duas histórias acontecidas em 23 de abril deste ano deveriam pelo menos servir para acordar você.

Matar crianças com drones é POLÍTICA EXTERNA dos EUA

Primeiro caso: o Presidente Obama admitiu que um de seus drones “Predator” matou dois trabalhadores em ajuda humanitária, um deles norte americano e outro, italiano, que foram feitos reféns pela Al Qaeda no Paquistão. De acordo com reportagem do jornal The Guardiana falha na especificidade (sobre os alvos) sugerem que, a despeito da altamente propagada e suposta mudança de política promovida por Obama, que restringiria os assassinatos via drones, entre outras coisas, passando a requerer a certeza antecipada de que os “alvos terroristas” estariam realmente presentes, os Estados Unidos continuam lançando suas operações de ataques assassinos sem o necessário conhecimento sobre quem se procura matar, uma prática que veio a ser conhecida como “ataque assinado” (original “signature strike” no sentido de ser baseado em dados de inteligência - padrões de comportamento obtidos por interceptações, fontes humanas e vigilância aérea analisados pela agências norte americanas - que decidiriam então, se esses padrões de comportamento significariam a "assinatura" de uma pessoa ou grupo de pessoas como terroristas. Uma loucura total – NT).

“Falha de especificidade” não passa de um eufemismo desavergonhado. Conforme reportagem do grupo Retrieve (organização inglesa em defesa de direitos humanos fundada em 1999 pelo advogado Clive Stafford Smith - NT) os Estados Unidos marcaram 41 pessoas para morrer, assinalados como “terroristas” – mas na realidade inimigos dos regimes corruptos do Iêmen e do Paquistão – através de ataques de drones durante o ano de 2014. Graças às tais “falhas de especificidade” um total de 1.150 pessoas foram mortas. O que nem por isso incluiu todos os 41 “marcados”, muitos dos quais escaparam ilesos.

A grande maioria dos mortos por drones são civis

A expressão falsa de Obama fingindo estar pesaroso foi digna de um canastrão. Apertando os lábios em uma expressão sinto/não sinto à maneira de Bill Clinton, o Presidente parecia na realidade estar fingindo tristeza por uma coisa que acontecera em janeiro. Tenha dó, cara... pensa mesmo que vamos acreditar que você passou os últimos três meses todo tristeza e lágrimas – claro, excluindo todos os discursos e aparições públicas onde estava às gargalhadas e fazendo piadas? Exatamente no mesmo dia em que fingiu tristeza, o presidente também riu por causa da comparação do caso com o campeão do Super Bowl, o time do New England Patriots. “Esta história toda já passou um pouco dos limites”, assentiu ele (relacionando o caso dos drones com o escândalo DeflateGate – “escândalo” criado pelo time de futebol americano, ao desinflar bolas de futebol durante o jogo – NT). Muito triste, ele. Mas rindo.

Bem confuso.

Juro que os racistas da extrema direita estão certos em odiar o presidente. Mas eles o odeiam por razões totalmente erradas.

De qualquer maneira, qual o motivo que levou a Casa Branca a demorar tanto tempo para finalmente admitir que matou um de nossos melhores cidadãos? “Levamos semanas para relacionar as mortes relatadas (dos reféns) com os ataques por drones”, relatou o jornal The New York Times citando funcionários da Casa Branca. Mas em suas notas preparadas acintosamente, Obama afirma que “não é possível capturar estes terroristas” – então, os ataques por drones.

Milhares de civis foram assassinados pelo drones dos EUA

A Administração Obama acha que somos assim tão estúpidos?

O fato de que se pode descobrir quem morreu em um ataque de drones (mesmo que apenas bem depois do ataque) indica que há fonte de Inteligência confiável originada das áreas marcadas como alvo, provavelmente proporcionada por aliados locais, talvez polícia ou exército. Ora, se há policiais ou tropas que são confiáveis a ponto de fornecer informações, então, obviamente, é possível solicitar a estes aliados que capturem os alvos individuais.

Resumo da ópera: o governo dos Estados Unidos está bombardeando pessoas a torto e a direito pelo mundo afora, sem a menor ideia de quem está sendo bombardeado. Além do mais, estes assassinatos de cunho político são ilegais. Mentiram, dizendo que tais fatos não mais estavam acontecendo. Agora, tem a ousadia desavergonhada de fingir tristeza pelos próprios feitos, que poderiam ser perfeitamente evitáveis. São repugnantes e brutais, e deveriam ser fechados em uma prisão pelo resto da vida.

David Petraeus e a “amante-biógrafa”, Paula Broadwell

Segundo caso: David Petraeus, antigo bam-bam-bam da mídia, queridinho das redações, general sob Bush e no início dos anos Obama, recebeu um puxão de orelhas – claro, com liberdade condicional e multa de US$ 100.000 – por passar informações e documentos confidenciais de forma ilegal para pessoas não autorizadas, e depois mentir a respeito do fato, quando inquirido por agentes federais que o questionaram.

Lá vamos nós outra vez: mais provas de que, no sistema jurídico americano, algumas pessoas voam na primeira classe, enquanto o resto de nós se aperta na classe turística, mesmo.

Neste mundo às avessas, gente como Petraeus, que deveria já estar preso, porque sua posição superior lhe fez ser incrustado na administração com imenso poder e responsabilidade, caminha livre, enquanto os patetas menos ranqueados como nós, se cometermos o mesmo crime, seremos tratados como se fôssemos Al Capone.

O cabo Chelsea Manning, que revelou os documentos oficiais dos crimes de guerra dos Estados Unidos no Iraque, através do WikiLeaks, deu com os costados na prisão por 35 anos. Edward Snowden, administrador de sistemas de 31 anos que trabalhava para uma firma terceirizada que prestava serviços para a NSA e que revelou que o governo dos Estados Unidos está lendo todos os nossos e-mails e ouvindo o que dizemos ao telefone, encara a possibilidade de passar a vida na prisão.

Dois anos de liberdade condicional. Enquanto isso, professores que ajudaram seus alunos a enganar os testes padronizados receberam pena de sete anos na prisão. Para Petraeus, que passou a trabalhar para um fundo de investimentos, US$ 100.000 é apenas uma boa gorjeta para o caddy (carregador de tacos para os jogadores de golfe – NT).

Há algo que adiciona loucura ao insulto: o fato de que o motivo pelo qual Petraeus colocou em perigo a segurança nacional é venal: ele deu os documentos para a sua amante, que escreveu sua biografia autorizada.

Edward Snowden e Chelsea Manning
De a eles o PRÊMIO NOBEL DA PAZ!

Manning e Snowden, são heróis que deveriam ser objeto de desfiles honrosos e receber medalhas presidenciais da Liberdade, mas não foram glorificados. Eles apenas queriam informar ao povo norte americano sobre as atrocidades que se cometiam em seu nome, e sobre as violações de seus direitos mais básicos, incluindo-se o direito à privacidade.

Antes de ser apanhado com a boca na botija e enquanto compartilhava informações confidenciais com sua amante, Petraeus teve o descaramento indizível de pontificar hipocritamente sobre um funcionário da CIA que disponibilizou informações sensíveis. Diferentemente de Petraeus, porém, o sujeito da CIA recebeu a justiça reservada aos patetas: 30 meses na prisão.

Fechando o assunto, Petraeus pontificou bombasticamente em 2012: na realidade, há consequências sérias para aqueles que se acreditam acima das leis que protegem nossos verdadeiros colegas e permite que as agências norte americanas possam trabalhar com o grau adequado de sigilo.

Bem. Se você é viajante de primeira classe, as consequências são mínimas.

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[*] Ted Rall – Frederick Theodore “Ted” Rall é escritor e cartunista vinculado ao jornal The Los Angeles Times. Seus cartoons são distribuídos para cerca de 100 jornais norte-americanos. Já foi correspondente de guerra e escreve artigos sobre a Ásia Central, sua especialidade.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Transgênicos: Ucrânia será a portadora do veneno que se espalhará pela Europa

17/4/2015, [*] Ulson Gunnar – Neo Eastern Outlook, NEO
Tradução - mberublue


A Rússia não permite transgênicos
Quando o Washington Post faz a opção de elaborar um condescendente e insultuoso editorial dirigido a nações inteiras defendendo as impropriedades ocidentais, qualquer um pode assumir sem medo de errar que a verdade estará exatamente na direção oposta àquela que oWashington Post quer impor.

No que diz respeito às companhias biotécnicas norte americanas e suas tentativas de infestar o planeta inteiro com organismos geneticamente modificados (Transgênicos ou OGMs), em particular as suas tentativas de corromper toda a Europa com seus venenos indesejados através de uma porta dos fundos (Ucrânia), isso serviu de motivo para a Rússia a alertar seus vizinhos europeus orientais. Até o golpe armado levado a efeito em 2013/2014, também chamado de “Euromaidan” a Ucrânia sempre rejeitou categoricamente os GMOs.

Agora, com um regime comprado e obediente instalado em Kiev, as decisões políticas, econômicas e militares que foram tomadas levaram a Ucrânia à situação de ser mais ou menos uma nação sem soberania. Acompanhando essa perda de soberania, veio uma completa apatia na vontade ucraniana da própria preservação, e por isso a permissão para que ocorresse a semeadura em seus campos com venenos contaminantes e inseguros, que passaram de categoricamente proibidos para a aceitação total.

Isso nos leva de volta para o Washington Post e a mais um de seus editoriais recentemente publicados. Título: “A Rússia afirma que os investimentos ocidentais nas fazendas ucranianas são um plano para dominar o mundo inteiro” (Russia says Western investiment in Ukraine’s farms is a plot to take over the world)Primeiro, o jornal tenta desclassificar as acusações russas de que a Monsanto está atualmente em movimento para a Ucrânia com planos de fazer do país uma enorme fazenda de grãos geneticamente modificados, afirmando que tais acusações são infundadas. Quer dizer, isso até que o próprioWashington Post admite que é exatamente o que a Monsanto está fazendo. A peça assevera:

Há muito tempo que a Ucrânia tenta mostrar-se para a Europa como o futuro celeiro de comida para o continente, afirmando que os investimentos ocidentais são a chave para que se faça a exploração adequada de suas terras negras, hoje impropriamente exploradas. Mas o governo russo insiste em fazer do conhecimento geral que essas conversas de desenvolvimento agrícola não passam de um plano para ajudar companhias como a Monsanto a dominar o mercado mundial.

Então, o jornal admite:

Há muito tempo está proibido na Ucrânia o cultivo de organismos geneticamente modificados, assim como a venda de terras agricultáveis.

Em seguida, admite:

Mas o acordo de associação recentemente assinado entre a Ucrânia e a União Europeia no último ano pode ter criado um novo espaço que potencialmente permita o cultivo de culturas geneticamente modificadas na Ucrânia.

Finalmente, o Post menciona a Monsanto:

A Monsanto – talvez a companhia mais associada com os produtos geneticamente modificados – já declarou seu interesse em investir na Ucrânia ano passado (de se notar que a companhia também opera na Rússia, mas não com organismos geneticamente modificados como o faz na Ucrânia).

Milho transgênico
Em que mais estaria investindo a Monsanto na Ucrânia, além de organismos geneticamente modificados, coisa que não podia fazer antes? A Ucrânia é a vítima perfeita para hospedar a Monsanto e outras companhias semelhantes com seus organismos infectados diretamente no coração da Europa.

Com própria Europa já relaxando alguns de seus regulamentos contra TRANSGÊNICOS (OGMs), provavelmente sem o consentimento da população, que fica a cada dia mais consciente dos perigos e procurando alternativas orgânicas, as companhias como a Monsanto esperam produzir grãos organicamente modificados que se espalharão pelo continente a partir dos campos totalmente desregulados da Ucrânia até que se tornem onipresentes na Europa, como já o são nos Estados Unidos.

Em outros lugares do mundo a agricultura de massa tem tentado usar outras “portas dos fundos” para introduzir seus produtos em regiões onde eles são peremptoriamente rejeitados, incluindo a Ásia, onde o Arroz Dourado foi proposto como uma solução  para a luta contra a “deficiência de vitamina A” mesmo quando se sabe que basta plantar um pouco de cenouras para conseguir esse objetivo de forma muito mais fácil e barata e sem o risco de introduzir uma cepa de arroz que contaminaria irremediavelmente as espécies de arroz asiático, além de serem rejeitadas de pronto pelos consumidores. 

Arroz Dourado (transgênico)
Já em outras ocasiões, como por exemplo na implantação dos interesses ocidentais no Afeganistão, a “ajuda” foi usada como uma maneira de introduzir o agronegócio intensivo e os TRANSGÊNICOS (OGMS) na região.

Então, pela admissão do próprio Washington Post e pelo simples exame do que a Monsanto e companhias semelhantes já fizeram por todo o mundo, eles mesmos não podem deixar de admitir que a Federação Russa está certa ao expor as intenções óbvias da Monsanto na Ucrânia e no resto da Europa.

O jornal Washington Post, assim como muitos outros jornais através da Europa e dos Estados Unidos há muito tempo serve os interesses da elite endinheirada, entre os quais muitos estão no agronegócio intensivo e na biotecnologia agrícola. O Post e outros jornais confundem e ofuscam as intenções da Monsanto até que já seja tarde demais para anular a corrupção genética que suas espécies vegetais modificadas infligem aos campos da Ucrânia, até então protegidos por uma soberania que não mais existe.

Como muitas outras coisas na Ucrânia atualmente, o assim chamado “Euromaidan”, que supostamente deveria impulsionar o país na conquista de mais liberdade e auto determinação, claramente arrancou da Ucrânia as duas coisas. Sua liberdade e sua capacidade de determinar por si mesma o que mais lhe convêm. Partindo de um militarismo imposto a seu povo, para uma economia saqueada por interesses estrangeiros, até um governo direta e literalmente presidido por estrangeiros e finalmente chegando agora a seus campos que serão envenenados por TRANGÊNICOS, a ruína da Ucrânia está próxima de completar-se, e será vista como um testemunho perene do que quer dizer na realidade o ocidente quando fala em “democratização”.

Manifestação contra transgênicos na França

Ninguém comprará as espécies envenenadas pela modificação genética

Ainda nos comentários feitos pela Rússia sobre a iminente espoliação da indústria agrícola da Ucrânia pela Monsanto e outras congêneres, o Post relata:

Nikolai Patrushev, Secretário do Conselho de Segurança russo disse em um encontro na terça feira com seus congêneres na Organização de Cooperação de Xangai, que o ocidente tem planos de cultivar “espécies geneticamente modificadas” na Ucrânia. Sugeriu que isso seria um erro crasso, porque, “para não dizer outra coisa, a Europa jamais aprovará tais produtos”.

Como colaborador e lobista do agronegócio intensivo, o Washington Post tenta subestimar este fato. Mas em outros locais, mesmo dentro da mídia ocidental, existem reportagens mostrando que mesmo os Estados Unidos, indubitavelmente uma potência agrícola, tem que importar milho orgânico porque os consumidores norte americanos se recusam a comer os produtos oriundos de organismos geneticamente modificados que são cultivados nos EUA.

Vários transgênicos cultivados no mundo
(Clique na imagem para aumentar)

Em sua reportagem “Como os consumidores exigem comida orgânica, os Estados Unidos são forçados a importar milho” (orig. U.S. forced to import corn as shoppers demand organic food) a Bloomberg (agência de notícias de finanças e mercado, com abrangência mundial – NT) assevera:

Uma demanda crescente por orgânicos e a recente dependência total dos agricultores norte americanos dos produtos geneticamente modificados, nomeadamente milho e soja, tornaram inevitável um aumento de importações de outras nações nas quais as espécies, em grande parte, ainda estão livres de bioengenharia. Importações como o milho da Romênia e a soja da Índia estão em expansão, de acordo com uma análise de dados do comércio dos Estados Unidos realizada quarta feira pela Organização de Comércio de Produtos Orgânicos e a Universidade Estatal da Pennsylvania.

A humilhação que representa o fato de um país historicamente auto suficiente ter que importar um grão tão básico como o milho porque a sua produção doméstica está totalmente envenenada é uma lição que qualquer ucraniano deveria anotar e observar atentamente para o bem não apenas de sua dignidade, mas de seu próprio senso de sobrevivência. Mesmo quando o “milagre” dos organismos geneticamente modificados se tornou pó no esperto mercado norte americano, as corporações estadunidenses estão subornando o infinitamente servil regime que tomou lugar na Ucrânia, para colocar o pescoço daquele país na mesma forca.

Porém em uma coisa o Washington Post está correto. A Rússia está louca se pensa que a Monsanto está para dominar o mundo inteiro. A corporação, apesar de incontáveis bilhões de dólares gastos em lobbies, propaganda, subornos [inclusive no AGRONEGÓCIO aqui no Brasil (Nrc)] e outras formas de persuasão de massa, está falhando miseravelmente em convencer as pessoas a ingerir seus venenos, mesmo naqueles países onde está firmemente estabelecida. No entanto, a Rússia tenta lançar alguma luz sobre o que a Monsanto está tentando fazer na Ucrânia, obviamente contra os próprios interesses do país. Trata-se apenas de mais um exemplo de como o golpe levado a efeito no assim chamado “Euromaidan” nada tinha a ver com liberdade, e tudo a ver com o sequestro de mais um país por Washington e Wall Street, e da pilhagem de seus recursos, em detrimento do próprio povo, tudo em nome da “democracia”.

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[*] Ulson Gunnar – Ulson Gunnar é jornalista e escritor baseado em New York, especialista em geopolítica. Escreve especialmente para NEO – New Eastern Outloock.
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quinta-feira, 19 de março de 2015

O Exército Comum Europeu reduzirá a influência dos EUA na Europa? É o fim da OTAN?

18/3/2015, [*] Mahdi Darius Nazemroaya – Global Research
Tradução mberublue.


Proteção frente à Rússia seria a justificativa para a criação da Força Militar da União Europeia, mas também estaria no cenário a redução da influência dos Estados Unidos, agora que houve desencontros entre a União Europeia e Alemanha frente a OTAN e EUA, em relação à Ucrânia.

O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, em declarações ao jornal alemão Welt am Sonntagafirmou ter chegado o tempo da criação de uma força militar unificada da União Europeia. A retórica de Juncker versou sobre “a defesa dos valores da União Europeia”, insinuando que a criação de uma força armada europeia teria sido pensada como consequência de polêmicas com a Rússia, como maneira de enviar uma mensagem à Moscou.

Apesar da vontade, argumentação e polêmica da criação de uma tal força estar baseada na Rússia, a ideia real está dirigida diretamente contra os Estados Unidos. Nas entrelinhas estão as tensões que se desenvolveram entre os Estados Unidos, de um lado, e a União Europeia e a Alemanha, de outro. É por isso que a Alemanha reagiu de maneira entusiástica à proposta, dando total apoio para a confecção de um acordo que permita a criação de uma força armada  da União Europeia.

Anteriormente a Força Militar da União Europeia já havia sido pensada de forma mais séria durante os desenvolvimentos da invasão ilegal contra o Iraque em 2003, quando a Alemanha, França, Bélgica e Luxemburgo reuniram-se para discutir a possibilidade da criação de tal força como alternativa à OTAN, dominada pelos Estados Unidos. A ideia é recorrente quando situações similares acontecem. Em 2003, o atrito foi causado pela invasão liderada pelos EUA contra o Iraque. Em 2015, a vontade da criação da força armada da UE ocorre porque aumenta a polêmica entre Alemanha e Estados Unidos, relacionada à crise ucraniana.

Berlim e Paris estão repensando?

Para se compreender as recentes e intensas demandas pela constituição de um exército europeu temos que observar os acontecimentos ocorridos entre novembro de 2014 e março de 2015. Começaram quando Alemanha e França começaram a dar sinais de que estavam pensando melhor sobre as intenções belicistas que OTAN e EUA estavam evidentemente desenvolvendo e levando a efeito na Ucrânia e Europa Oriental.

As divergências entre Estados Unidos e França/Alemanha surgiram depois que Tony Blinken, antigo Vice Conselheiro para a Segurança Nacional de Barack Obama e atualmente Vice Secretário de Estado, o número dois da diplomacia do Departamento de Estado dos EUA anunciou que o Pentágono ia enviar armas para a Ucrânia durante uma inquirição do Congresso dos Estados Unidos sobre sua nomeação, que se realizou em 19 de novembro de 2014. Como colocou o Fiscal Times,

(...) ao revelar que está pensando em armar a Ucrânia, Washington golpeia ao mesmo tempo a Rússia e os europeus.

A resposta russa a Blinken veio através do Ministro de Relações Exteriores da Rússia, por meio de declaração de que se o Pentágono derramasse armas na Ucrânia, seria não apenas uma escalada perigosa do conflito, mas um sério sinal enviado pelos Estados Unidos de que a dinâmica do conflito ucraniano estaria mudando.

Tanque Abrams dos EUA destinado a junta de Kiev desembarca em Riga, na Letônia, em 9/3/2015
Percebendo que as coisas poderiam e na realidade já estavam saindo do controle, França e Alemanha reagiram através de uma iniciativa para a paz por meio de conversações diplomáticas levadas a efeito em Minsk, Belarus, que eventualmente conduziram a um novo acordo de cessar fogo, sob a coordenação do “Formato da Normandia”, que consistiu dos representantes da França, Alemanha, Rússia e Ucrânia.

Os pessimistas podem argumentar que França e Alemanha só optaram pelas vias diplomáticas em fevereiro de 2015 porque os rebeldes do leste ucraniano, ou Novorussia como eles se denominam, derrotaram as forças de Kiev. Em outras palavras, a motivação primária pela diplomacia teria ocorrido apenas para salvar o governo de Kiev de ruir completamente mesmo antes de encontrar uma solução justa para o conflito no leste da Ucrânia. Em certa medida isso é bem verdade, mas a dupla Franco/Germânica também teve a motivação de não ver a Europa transformada em um inferno que transformaria a tudo e todos em cinzas escaldantes.

Tornaram-se visíveis as diferenças transatlânticas durante a Conferência de Segurança de Munique, em fevereiro. Roberto Corker, Senador dos Estados Unidos e Presidente do Comitê do Senados dos Estados Unidos para Relações Exteriores comentou durante uma sessão de pergunta e resposta com a Chanceler alemã Angela Merkel que hoje se acredita no Congresso dos EUA que Berlin se empenhava em impedir que Washington publicamente aumentasse a ajuda militar dos Estados Unidos e da OTAN para as autoridades em Kiev.

Na resposta ao Senador Corker, a chanceler Merkel foi muito explícita ao afirmar que a crise aguda pela qual passa atualmente a Ucrânia não poderia ser resolvida por meios militares e que a abordagem dos Estados Unidos não seria proficiente e ainda teria o condão de tornar as coisas muito piores do que já estão. Quando Merkel foi pressionada pelo membro do Parlamento Britânico, Malcom Rifkind, Presidente do Comitê de Inteligência e Segurança do Parlamento Britânico, ela afirmou que mandar mais armas a Kiev era irreal, além de inútil. Merkel exortou o britânico a “encarar a realidade”. Salientou ainda a chanceler que não há perspectiva de segurança para a Europa sem a Rússia.

Exército dos EUA em manobra nos países bálticos
Os esforços dos Estados Unidos, que queriam levar seus aliados europeus para a crescente militarização do conflito na Ucrânia foram contrariados pela posição assumida publicamente pela Alemanha. Enquanto o Secretário de Estado americano, John Kerry, teve que se abalar na tentativa de convencer a mídia e o público de que não havia qualquer ruptura ou estremecimento entre Washington e as posições da França e Alemanha, o rompimento foi largamente anunciado quando o Senador norte americano John McCain, notório fomentador de guerras perdeu mais uma vez as estribeiras enquanto visitava a Bavária. Conforme relatado ele chamou a iniciativa de paz da França e Alemanha, de palhaçadas de Moscou. Passou então à crítica aberta contra Angela Merkel em uma entrevista para o canal alemão Zweites Deutsches Fernsehen – ZDF, o que levou o membro do parlamento alemão, Peter Tauber, Secretário Geral da União Democrática Cristã (CDU) a exigir um pedido de desculpas do Senador McCain.


O ressentimento alemão com o controle da OTAN pelos EUA

Bloomberg escreveu em fevereiro:

Mesmo levando em conta a retórica alarmista sobre os bárbaros russos no portão, os países da OTAN estão relutantes em gastar dinheiro com base apenas em falatório. Aumento real de gastos militares neste ano, apenas nos países que fazem fronteira com a Rússia. Quanto aos demais, na maioria houve cortes. Independentemente do que dizem seus líderes sobre Vladimir Putin, eles não parecem acreditar que ele seja uma ameaça real para o ocidente.

No entanto, Washington não desiste. Quando da ofensiva da França e da Alemanha pela paz teve início em fevereiro, o general Philip Breedlove – que é o Supremo Comandante Militar da OTAN – disse em Munique que:

(...) penso que não devemos deixar de lado a possibilidade da opção militar na Ucrânia.

Ora, o general Breedlove é um oficial da Força Aérea dos Estados Unidos, de cujo governo recebe ordens, o que faz com que a estrutura militar da OTAN esteja sob o comando dos Estados Unidos. Enquanto Paris e Berlim tentam desescalar o conflito, Washington sobe a aposta na guerra, usando Breedlove e o Secretário Geral da OTAN, Jens Stoltenberg.

Depois de falar com o Comitê das Forças Armadas do Congresso, o general Breedlove voltou a alegar que cresce a agressão russa na Ucrânia. A Alemanha, no entanto, refutou Breedlove classificando suas afirmações como uma propaganda perigosa.

Philip Breedlove
O jornal Der Spiegel noticiou em 6/3/2015:

Os líderes alemães ficaram estupefatos. Não conseguiam entender sobre o que diabos falava Breedlove. E não era a primeira vez. Mais uma vez, o governo da Alemanha, apoiado pelas informações reunidas pelo Bundesnachrichtendienst (BND), a agência de inteligência externa da Alemanha não compartilhou a visão do Supremo Comando Aliado na Europa (SACEUR), da OTAN.

Enquanto Berlim tentava abafar os relatos sobre as rachaduras nas relações com a OTAN sobre os comentários desastrados de Breedlove, o Ministro de Relações Exteriores da Alemanha, Steinmeier, candidamente admitiu que era real o desacordo entre a Alemanha, Estados Unidos e OTAN, durante visita à Letônia em 7/3/2015. Na verdade, o que Steinmeier fez foi rebater e desmentir tanto as declarações dos Estados Unidos, quanto as da OTAN sobre a agressão russa na Ucrânia.

Na Letônia, a Alta Representante da União Europeia para Política Externa e Segurança, Federica Mogherini, deu anuência às declarações de Steinmeier. Em Riga, declarou aos repórteres que a União Europeia buscará uma abordagem realística com Moscou e que não forçará nem será forçada por ninguém na direção de uma relação de confrontação com a Rússia. Trata-se de uma mensagem tácita para Washington: A União Europeia já entendeu que não há paz possível na Europa sem a Rússia e não será posicionada como mero peão dos Estados Unidos contra Moscou.

A própria Alemanha é a cereja do bolo, o prêmio principal para os Estados Unidos no que tange ao conflito na Ucrânia, pela sua grande influência nos rumos da União Europeia. Assim, os Estados unidos continuarão a jogar lenha na fogueira na Ucrânia para desestabilizar a Europa e a Eurásia. Faz isso porque pode perfeitamente prever que Rússia de Europa caminhando juntos e formando um Mercado Comum de Lisboa a Vladivostok é o pesadelo presente nos sonhos das aspirações geopolíticas de Washington.

O Fiscal Times apresenta realisticamente a série de comunicados de altos oficiais americanos sobre o envio de armas dos Estados Unidos para a Ucrânia:

Dada a coreografia ensaiada repetidamente os analistas em Washington dizem que a probabilidade mais alta é a de que tudo não passa de um exercício de relações públicos para assegurar apoio para um programa de entrega de armas que já estaria além dos estágios iniciais de planejamento, conforme notícia veiculada em 9/2/2015.


Viktor Orban e Vladimir Putin
Na realidade, depois da Conferência de Segurança de Munique, revelou-se que carregamentos clandestinos de armas já estavam sendo feitos para Kiev. O Presidente russo, Vladimir Putin, tornou o fato de conhecimento público durante uma conferência de imprensa conjunta com o Primeiro Ministro Húngaro, Viktor Orban, em Budapeste quando disse que:

(...) armas já estão sendo entregues secretamente para as autoridades em Kiev.

No mesmo mês, um artigo intitulado O que devem fazer os Estados Unidos e a OTAN para preservar a Independência da Ucrânia e resistir à agressão russa, foi publicado discutindo a necessidade de enviar armas para a Ucrânia – suprimentos estes que variariam desde peças sobressalentes até mísseis de grosso calibre – como uma forma de finalmente lutar contra a Rússia. O artigo foi elaborado por um triunvirato dos principaisthink-thanks dos Estados Unidos, O Brookings Institute, o Atlantic Council e o Chicago Council on Global Affairs – os dois últimos fazem parte da torre de marfim do “think-tankistan” que faz parte dos círculos de Washington. Trata-se da mesma gangue que advogou pela invasão do Iraque, da Líbia, da Síria e do Irã.

OTAN, presta atenção! Um exército europeu unificado no horizonte?

O apelo pela formação de uma força militar da União Europeia tanto pela Alemanha quanto pela Comissão Europeia vem no contexto das divisões entre Europa e Washington. 

A união Europeia e a Alemanha já entenderam plenamente que não há muito o que fazer para impedir as ações de Washington enquanto os EUA tiverem algo a dizer em relação à segurança europeia. Tanto Berlim quanto uma larga porção da Europa estão furiosos pela maneira pela qual os Estados Unidos estão usando a OTAN para cuidar de seus interesses e influenciar os acontecimentos dentro da Europa. Se não uma maneira de pressionar nas negociações entre a UE com Washington, os apelos pela formação de uma força militar europeia destinam-se a reduzir a influência de Washington na Europa e talvez, extinguir a OTAN.




Um exército que tornasse possível dispensar a OTAN teria um enorme peso estratégico negativo para os Estados Unidos. Neste contexto, Washington perderia seu apoio ocidental na Eurásia. O que automaticamente representaria o fim do jogo na participação americana no tabuleiro do xadrez geopolítico da Eurásia, nas palavras do antigo Conselheiro para a Segurança Nacional dos Estados Unidos, Zbigniev Brzezinski.

Os serviços de inteligência nos Estados Unidos já estão em alerta em relação aos riscos que um exército europeu representaria para a influência norte americana. A influente revista mensal Comissão de Judeus Americanos – que é filiada aos noecons do circulo de Washington pergunta no título de artigo elaborado por Seth Mandel: Por que a Alemanha está enfraquecendo a OTAN?. Enquanto isso, o Washington Examiner repica com outra pergunta impertinente, no título do artigo de Hoskingson: O que está acontecendo com a influência dos Estados Unidos?.

É por isso que os fantoches mais abjetos dos Estados Unidos na Europa – especificamente Inglaterra, Polônia e os três Estados Bálticos – fazem um alarido oposicionista à ideia de uma força militar comum. Enquanto Paris está ainda relutante de juntar-se aos apelos pelo exército da Europa, a sempre oportunista líder política de direita Marine Le Pen já afirmou ter chegado o tempo em que a França deve sair da sombra dos Estados Unidos.

O Primeiro Ministro inglês, David Cameron, retrucou a Jean-Claude Juncker afirmando que a ideia não passa de uma fantasia escandalosa, declarando que a segurança é atribuição nacional de cada país e não responsabilidade da União Europeia. Polônia e Letônia também reagiram ceticamente à proposta. Essas declarações só servem aos interesses dos Estados Unidos na preservação da OTAN como um instrumento de sua influência na Europa e na Eurásia.

10 Downing Street
10 Downing Street (endereço da residência oficial e gabinete do Primeiro Ministro da Inglaterra – NT) se contradiz quanto a ser o exército um assunto nacional e não assunto coletivo. Recentemente, em 2010, Londres assinou um tratado que na essência criou uma força militar naval conjunta com a França, compartilhando porta-aviões, o que se tornou, na prática, uma força militar conjunta. Além disso o exército Britânico e os setores industriais militares da Inglaterra se encontram integrados com os dos Estados Unidos em vários graus.

Aqui há várias questões a serem examinadas. Serão os apelos para a formação de um exército europeu apenas uma forma de pressionar os Estados Unidos ou uma tentativa real para conter a influência de Washington na Europa? Mais: terão os movimentos efetuados por Berlim e seus parceiros nessa direção o objetivo de extinguir a influência de Washington na Europa através da desativação da OTAN pela criação de um exército comum europeu?

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[*] Mahdi Darius Nazemroaya é cientista social, escritor premiado, colunista e pesquisador. Suas obras são reconhecidas internacionalmente em uma ampla série de publicações e foram traduzidas para mais de vinte idiomas, incluindo alemão, árabe, italiano, russo, turco, espanhol, português, chinês, coreano, polonês, armênio, persa, holandês e romeno. Seu trabalho em ciências geopolíticas e estudos estratégicos tem sido usado por várias instituições acadêmicas e de defesa de teses em universidades e escolas preparatórias de oficiais militares. É convidado freqüente em redes internacionais de notícias como analista de geopolítica e especialista em Oriente Médio.   
Recentemente, em viagem pela América Central, contactou a Frente Sandinista de Libertação Nacional, em sua base em León, na Nicarágua. Como Observador Internacional esteve em El Salvador no primeiro turno das eleições.