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segunda-feira, 27 de abril de 2015

No mesmo dia, dois casos mostram a completa podridão dos EUA

25 de abril/2015 – [*] Ted Rall – Information Clearing House
Tradução mberublue

Obama brinda o sofrimento causado pelos drones

Por acaso você ainda pensa que os Estados Unidos é governado por gente decente? Que o sistema não é totalmente corrupto e injusto?

Pois duas histórias acontecidas em 23 de abril deste ano deveriam pelo menos servir para acordar você.

Matar crianças com drones é POLÍTICA EXTERNA dos EUA

Primeiro caso: o Presidente Obama admitiu que um de seus drones “Predator” matou dois trabalhadores em ajuda humanitária, um deles norte americano e outro, italiano, que foram feitos reféns pela Al Qaeda no Paquistão. De acordo com reportagem do jornal The Guardiana falha na especificidade (sobre os alvos) sugerem que, a despeito da altamente propagada e suposta mudança de política promovida por Obama, que restringiria os assassinatos via drones, entre outras coisas, passando a requerer a certeza antecipada de que os “alvos terroristas” estariam realmente presentes, os Estados Unidos continuam lançando suas operações de ataques assassinos sem o necessário conhecimento sobre quem se procura matar, uma prática que veio a ser conhecida como “ataque assinado” (original “signature strike” no sentido de ser baseado em dados de inteligência - padrões de comportamento obtidos por interceptações, fontes humanas e vigilância aérea analisados pela agências norte americanas - que decidiriam então, se esses padrões de comportamento significariam a "assinatura" de uma pessoa ou grupo de pessoas como terroristas. Uma loucura total – NT).

“Falha de especificidade” não passa de um eufemismo desavergonhado. Conforme reportagem do grupo Retrieve (organização inglesa em defesa de direitos humanos fundada em 1999 pelo advogado Clive Stafford Smith - NT) os Estados Unidos marcaram 41 pessoas para morrer, assinalados como “terroristas” – mas na realidade inimigos dos regimes corruptos do Iêmen e do Paquistão – através de ataques de drones durante o ano de 2014. Graças às tais “falhas de especificidade” um total de 1.150 pessoas foram mortas. O que nem por isso incluiu todos os 41 “marcados”, muitos dos quais escaparam ilesos.

A grande maioria dos mortos por drones são civis

A expressão falsa de Obama fingindo estar pesaroso foi digna de um canastrão. Apertando os lábios em uma expressão sinto/não sinto à maneira de Bill Clinton, o Presidente parecia na realidade estar fingindo tristeza por uma coisa que acontecera em janeiro. Tenha dó, cara... pensa mesmo que vamos acreditar que você passou os últimos três meses todo tristeza e lágrimas – claro, excluindo todos os discursos e aparições públicas onde estava às gargalhadas e fazendo piadas? Exatamente no mesmo dia em que fingiu tristeza, o presidente também riu por causa da comparação do caso com o campeão do Super Bowl, o time do New England Patriots. “Esta história toda já passou um pouco dos limites”, assentiu ele (relacionando o caso dos drones com o escândalo DeflateGate – “escândalo” criado pelo time de futebol americano, ao desinflar bolas de futebol durante o jogo – NT). Muito triste, ele. Mas rindo.

Bem confuso.

Juro que os racistas da extrema direita estão certos em odiar o presidente. Mas eles o odeiam por razões totalmente erradas.

De qualquer maneira, qual o motivo que levou a Casa Branca a demorar tanto tempo para finalmente admitir que matou um de nossos melhores cidadãos? “Levamos semanas para relacionar as mortes relatadas (dos reféns) com os ataques por drones”, relatou o jornal The New York Times citando funcionários da Casa Branca. Mas em suas notas preparadas acintosamente, Obama afirma que “não é possível capturar estes terroristas” – então, os ataques por drones.

Milhares de civis foram assassinados pelo drones dos EUA

A Administração Obama acha que somos assim tão estúpidos?

O fato de que se pode descobrir quem morreu em um ataque de drones (mesmo que apenas bem depois do ataque) indica que há fonte de Inteligência confiável originada das áreas marcadas como alvo, provavelmente proporcionada por aliados locais, talvez polícia ou exército. Ora, se há policiais ou tropas que são confiáveis a ponto de fornecer informações, então, obviamente, é possível solicitar a estes aliados que capturem os alvos individuais.

Resumo da ópera: o governo dos Estados Unidos está bombardeando pessoas a torto e a direito pelo mundo afora, sem a menor ideia de quem está sendo bombardeado. Além do mais, estes assassinatos de cunho político são ilegais. Mentiram, dizendo que tais fatos não mais estavam acontecendo. Agora, tem a ousadia desavergonhada de fingir tristeza pelos próprios feitos, que poderiam ser perfeitamente evitáveis. São repugnantes e brutais, e deveriam ser fechados em uma prisão pelo resto da vida.

David Petraeus e a “amante-biógrafa”, Paula Broadwell

Segundo caso: David Petraeus, antigo bam-bam-bam da mídia, queridinho das redações, general sob Bush e no início dos anos Obama, recebeu um puxão de orelhas – claro, com liberdade condicional e multa de US$ 100.000 – por passar informações e documentos confidenciais de forma ilegal para pessoas não autorizadas, e depois mentir a respeito do fato, quando inquirido por agentes federais que o questionaram.

Lá vamos nós outra vez: mais provas de que, no sistema jurídico americano, algumas pessoas voam na primeira classe, enquanto o resto de nós se aperta na classe turística, mesmo.

Neste mundo às avessas, gente como Petraeus, que deveria já estar preso, porque sua posição superior lhe fez ser incrustado na administração com imenso poder e responsabilidade, caminha livre, enquanto os patetas menos ranqueados como nós, se cometermos o mesmo crime, seremos tratados como se fôssemos Al Capone.

O cabo Chelsea Manning, que revelou os documentos oficiais dos crimes de guerra dos Estados Unidos no Iraque, através do WikiLeaks, deu com os costados na prisão por 35 anos. Edward Snowden, administrador de sistemas de 31 anos que trabalhava para uma firma terceirizada que prestava serviços para a NSA e que revelou que o governo dos Estados Unidos está lendo todos os nossos e-mails e ouvindo o que dizemos ao telefone, encara a possibilidade de passar a vida na prisão.

Dois anos de liberdade condicional. Enquanto isso, professores que ajudaram seus alunos a enganar os testes padronizados receberam pena de sete anos na prisão. Para Petraeus, que passou a trabalhar para um fundo de investimentos, US$ 100.000 é apenas uma boa gorjeta para o caddy (carregador de tacos para os jogadores de golfe – NT).

Há algo que adiciona loucura ao insulto: o fato de que o motivo pelo qual Petraeus colocou em perigo a segurança nacional é venal: ele deu os documentos para a sua amante, que escreveu sua biografia autorizada.

Edward Snowden e Chelsea Manning
De a eles o PRÊMIO NOBEL DA PAZ!

Manning e Snowden, são heróis que deveriam ser objeto de desfiles honrosos e receber medalhas presidenciais da Liberdade, mas não foram glorificados. Eles apenas queriam informar ao povo norte americano sobre as atrocidades que se cometiam em seu nome, e sobre as violações de seus direitos mais básicos, incluindo-se o direito à privacidade.

Antes de ser apanhado com a boca na botija e enquanto compartilhava informações confidenciais com sua amante, Petraeus teve o descaramento indizível de pontificar hipocritamente sobre um funcionário da CIA que disponibilizou informações sensíveis. Diferentemente de Petraeus, porém, o sujeito da CIA recebeu a justiça reservada aos patetas: 30 meses na prisão.

Fechando o assunto, Petraeus pontificou bombasticamente em 2012: na realidade, há consequências sérias para aqueles que se acreditam acima das leis que protegem nossos verdadeiros colegas e permite que as agências norte americanas possam trabalhar com o grau adequado de sigilo.

Bem. Se você é viajante de primeira classe, as consequências são mínimas.

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[*] Ted Rall – Frederick Theodore “Ted” Rall é escritor e cartunista vinculado ao jornal The Los Angeles Times. Seus cartoons são distribuídos para cerca de 100 jornais norte-americanos. Já foi correspondente de guerra e escreve artigos sobre a Ásia Central, sua especialidade.

domingo, 15 de dezembro de 2013

“Os EUA provavelmente jamais saberão tudo que Snowden tem”

14/12/2013, [*] Mark Mazzetti e [**] Michael S. Schmidt, The New York Times
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Edward Snowden
WASHINGTON – A inteligência e os órgãos policiais e de justiça dos EUA concluíram que é possível que jamais venham a saber com precisão satisfatória tudo que o ex-empregado de empresa contratada pela Agência de Segurança Nacional, Edward J. Snowden, extraiu dos computadores super secretos do governo, antes de deixar os EUA, disseram altos funcionários federais norte-americanos.

Os investigadores permanecem no escuro sobre a extensão da quebra de segurança dos dados, em parte porque a unidade da Agência de Segurança Nacional dos EUA no Havaí, onde Snowden trabalhava – diferente de outras unidades – não estava equipada com programas atualizados que permitissem àquela agência de espionagem monitorar os pontos, de seu vasto horizonte de computação, em que os empregados estivessem navegando em cada momento.

Seis meses depois de a investigação ter sido iniciada, os funcionários disseram que Snowden havia coberto suas pistas logando-se em sistemas sigilosos mediante as senhas de outros empregados da agência, e depois de invadir firewalls instalados para limitar o acesso a algumas partes do sistema.

Consumiram-se centenas e centenas de horas-homem para reconstruir tudo que ele copiou, e ainda não se sabe a extensão do que ele tem – disse um alto funcionário do governo. Sei que parece loucura, mas tudo, nesse caso, é loucura.

NSA - Entrada principal em Fort Meade, Maryland
A evidência de que Snowden tenha sido tão hábil a ponto de ter conseguido explorar os pontos cegos nos sistemas da mais secreta agência de espionagem dos EUA ilustra bem o quanto a segurança de computadores ainda é precária, mesmo depois de anos de o presidente Obama ter ordenado que os padrões de segurança fossem melhorados, depois das revelações de WikiLeaks em 2010.

As revelações de Snowden dispararam um debate nacional sobre a extensão dos poderes da Agência de Segurança Nacional dos EUA para espionar, em casa e no exterior, e condenaram o governo Obama a ter de tentar remendar relações com aliados, depois de o mundo saber que os EUA espionaram governantes de outros países.

Uma comissão presidencial de aconselhamento, que examinou as operações da Agência de Segurança Nacional, entregou ontem (6ª-feira, 13/12/2013) o seu relatório ao presidente Obama. A Casa Branca disse que o relatório não será divulgado até o próximo mês, quando o presidente Obama já tiver decidido quais recomendações acatará e quais rejeitará.

Snowden entregou o arquivo de documentos a pequeno grupo de jornalistas, e alguns deles partilharam documentos com várias empresas de notícias – o que acabou por revelar a espionagem contra governos amigos. Em entrevista ao The New York Times em outubro, Snowden disse que entregara os documentos que copiou a jornalistas e que não conservou cópias adicionais.

Richard (Rick) Ledgett, provável sucessor de Keith Alexander no comando da NSA
Recentemente, um alto funcionário da Agência de Segurança Nacional disse a repórteres que acredita que Snowden ainda tem documentos que não revelou. Esse funcionário, Rick Ledgett, que chefia a força-tarefa da Agência que está examinando o vazamento produzido por Snowden, disse que consideraria a possibilidade de os EUA garantirem anistia a Snowden, em troca daqueles documentos.

Sim, minha opinião pessoal é que sim, vale a pena conversar sobre isso – disse Ledgett à CBS News. Eu exigiria garantias de que o resto dos dados estariam fechados para sempre e meu padrão de exigência, nesse caso, seria muito alto. Teria de ser mais que a simples palavra dele.

Snowden está vivendo e trabalhando na Rússia, sob asilo concedido por um ano. O governo russo recusou-se a extraditar Snowden para os EUA, onde Snowden foi acusado pelo Departamento de Justiça, em junho, por crimes de espionagem e roubo de propriedade do estado.

Snowden disse que voltaria aos EUA, se recebesse anistia, mas nada garante que o presidente Obama – a quem, provavelmente, caberia tomar a decisão de anistiá-lo – optaria por essa via, dado o dano que o governo alega que os vazamentos teriam causado à segurança nacional.

Dado que a Agência de Segurança Nacional ainda não sabe exatamente o que Snowden tem, os funcionários são informados dos vazamentos, quase sempre, pelos jornalistas que trabalham na publicação dos documentos, o que os deixa sem tempo para prevenir outros países sobre revelações que estejam a caminho.

Enquanto a segurança da Agência tenta reciclar sua rede de computadores, na sequência do que pode ter sido a maior invasão em arquivos de informação secreta de toda a história dos EUA, o Departamento de Justiça continuou sua investigação sobre Snowden.

Segundo altos funcionários do governo, agentes do FBI do escritório de campo do gabinete, em Washington, acreditam que Snowden tenha metodicamente baixado os arquivos ao longo de vários meses, enquanto trabalhava como empregado terceirizado do governo, no Havaí. Para os mesmos agentes do FBI, Snowden trabalhou sozinho.

Mas, apesar da vasta expertise técnica de Snowden, alguns funcionários norte-americanos culpam a segurança da Agência, por não ter instalado software que detectasse atividade não usual nos computadores pelo pessoal que trabalha ali – 35 mil empregados, a maior força de trabalho de todas as agências de inteligência.

Chelsea Manning
Depois de episódio semelhante em 2010 – quando um cabo do exército, Chelsea Manning, [1] entregou centenas de milhares de arquivos de conversas e de telegramas diplomáticos ao grupo WikiLeaks – o governo Obama tomou medidas para evitar que outro empregado do estado copiasse e distribuísse grandes quantidades de material secreto.

Em outubro de 2011, o presidente Obama assinou uma Ordem Executiva que criou uma força-tarefa encarregada de “deter, detectar e mitigar ameaças internas, incluindo salvaguardar informação secreta, contra exploração, concessão ou qualquer outra revelação não autorizada”. A força-tarefa, comandada pelo advogado-geral e pelo diretor da inteligência nacional, tem a responsabilidade de desenvolver políticas e novas tecnologias para proteger informação secreta.

Mas uma das mudanças, a atualização dos sistemas de computadores, para rastrear as trilhas por onde se movimentem os empregados das agências de inteligência, foi muito lenta.

Não conseguimos mexer numa chave e ter todas as mudanças implementadas num instante – disse um funcionário da inteligência norte-americana.

Lonny Anderson
Lonny Anderson, chefe de tecnologia da Agência de Segurança Nacional dos EUA, disse em entrevista recente que muito do que Snowden copiou veio de partes do sistema de computadores abertos a qualquer pessoa que tivesse autorização de alto nível de segurança. E que parte de seu trabalho era deslocar grandes quantidades de dados entre diferentes partes do sistema.

Mas, disse Anderson, as atividades de Snowden não eram monitoradas de perto e não dispararam nenhum tipo de sinal de alerta.

“A lição a aprender, para nós, é que é preciso acabar com o anonimato” para todos que tenham acesso a sistemas secretos, disse Anderson em entrevista ao Blog Lawfare, parte de uma série que aquela página prepara-se para publicar essa semana.

Funcionários disseram que Snowden, que entendia a fundo a arquitetura dos computadores da Agência de Segurança Nacional, poderia já saber que os escritórios do Havaí estavam atrasados, em relação a outros, na instalação dos programas de monitoramento.

Segundo um ex-funcionário do governo que falou recentemente com o general Keith B. Alexander, diretor da Agência de Segurança Nacional dos EUA, o general disse que, no momento em que Snowden estava copiando os documentos, a agência de espionagem estava a meses de iniciar a instalação de sistemas que capturariam a atividade.

Enquanto avançavam as investigações pelo FBI e pela Agência de Segurança Nacional, o Departamento de Estado e a Casa Branca ainda estão tendo de absorver o impacto das revelações de Snowden contra as relações diplomáticas dos EUA e outros países.

Há esforços em andamento, pelo Departamento de Estado, para fazer contato com outros países e explicar a eles o que se sabe sobre o que Snowden gravou – disse um alto funcionário do governo. O mesmo funcionário disse que: (...) o Departamento de Estado costumava considerar a espionagem contra governantes estrangeiros como “a coisa de sempre” [orig. “business as usual”] entre nações.



Nota dos tradutores
[1] Interessante observar aqui que o New York Times dá à Chelsea Manning o nome que ela declarou que prefere, quando mudou de identidade social, de Bradley (nome masculino), para Chelsea (nome feminino).
Já os infinitamente imbecis jornalistas do Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão) insistem em dizer e escrever “presidente” (designação masculina) para a presidenta Dilma, que não mudou de sexo, nem de identidade social, e, simplesmente, declarou que preferia que se usasse, para ela, o substantivo “presidenta” (designação feminina).
À parte a imbecilidade do que os jornalistas do Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão) insistem em dizer, escrever e ensinar a repetir, há a considerar também a inominável grosseria e a repugnante arrogância. Muito piores, como se vê, até, que a do NYT.
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[*] Mark Mazzetti é jornalista do New York Times e foi premiado com o Pulitzer de 2009 na categoria de Jornalismo Internacional juntamente com 3 outros profissionais da imprensa-empresa dos EUA.



[**] Michael S. Schmidt é correspondente do New York Times em Washington, DC.