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segunda-feira, 27 de abril de 2015

No mesmo dia, dois casos mostram a completa podridão dos EUA

25 de abril/2015 – [*] Ted Rall – Information Clearing House
Tradução mberublue

Obama brinda o sofrimento causado pelos drones

Por acaso você ainda pensa que os Estados Unidos é governado por gente decente? Que o sistema não é totalmente corrupto e injusto?

Pois duas histórias acontecidas em 23 de abril deste ano deveriam pelo menos servir para acordar você.

Matar crianças com drones é POLÍTICA EXTERNA dos EUA

Primeiro caso: o Presidente Obama admitiu que um de seus drones “Predator” matou dois trabalhadores em ajuda humanitária, um deles norte americano e outro, italiano, que foram feitos reféns pela Al Qaeda no Paquistão. De acordo com reportagem do jornal The Guardiana falha na especificidade (sobre os alvos) sugerem que, a despeito da altamente propagada e suposta mudança de política promovida por Obama, que restringiria os assassinatos via drones, entre outras coisas, passando a requerer a certeza antecipada de que os “alvos terroristas” estariam realmente presentes, os Estados Unidos continuam lançando suas operações de ataques assassinos sem o necessário conhecimento sobre quem se procura matar, uma prática que veio a ser conhecida como “ataque assinado” (original “signature strike” no sentido de ser baseado em dados de inteligência - padrões de comportamento obtidos por interceptações, fontes humanas e vigilância aérea analisados pela agências norte americanas - que decidiriam então, se esses padrões de comportamento significariam a "assinatura" de uma pessoa ou grupo de pessoas como terroristas. Uma loucura total – NT).

“Falha de especificidade” não passa de um eufemismo desavergonhado. Conforme reportagem do grupo Retrieve (organização inglesa em defesa de direitos humanos fundada em 1999 pelo advogado Clive Stafford Smith - NT) os Estados Unidos marcaram 41 pessoas para morrer, assinalados como “terroristas” – mas na realidade inimigos dos regimes corruptos do Iêmen e do Paquistão – através de ataques de drones durante o ano de 2014. Graças às tais “falhas de especificidade” um total de 1.150 pessoas foram mortas. O que nem por isso incluiu todos os 41 “marcados”, muitos dos quais escaparam ilesos.

A grande maioria dos mortos por drones são civis

A expressão falsa de Obama fingindo estar pesaroso foi digna de um canastrão. Apertando os lábios em uma expressão sinto/não sinto à maneira de Bill Clinton, o Presidente parecia na realidade estar fingindo tristeza por uma coisa que acontecera em janeiro. Tenha dó, cara... pensa mesmo que vamos acreditar que você passou os últimos três meses todo tristeza e lágrimas – claro, excluindo todos os discursos e aparições públicas onde estava às gargalhadas e fazendo piadas? Exatamente no mesmo dia em que fingiu tristeza, o presidente também riu por causa da comparação do caso com o campeão do Super Bowl, o time do New England Patriots. “Esta história toda já passou um pouco dos limites”, assentiu ele (relacionando o caso dos drones com o escândalo DeflateGate – “escândalo” criado pelo time de futebol americano, ao desinflar bolas de futebol durante o jogo – NT). Muito triste, ele. Mas rindo.

Bem confuso.

Juro que os racistas da extrema direita estão certos em odiar o presidente. Mas eles o odeiam por razões totalmente erradas.

De qualquer maneira, qual o motivo que levou a Casa Branca a demorar tanto tempo para finalmente admitir que matou um de nossos melhores cidadãos? “Levamos semanas para relacionar as mortes relatadas (dos reféns) com os ataques por drones”, relatou o jornal The New York Times citando funcionários da Casa Branca. Mas em suas notas preparadas acintosamente, Obama afirma que “não é possível capturar estes terroristas” – então, os ataques por drones.

Milhares de civis foram assassinados pelo drones dos EUA

A Administração Obama acha que somos assim tão estúpidos?

O fato de que se pode descobrir quem morreu em um ataque de drones (mesmo que apenas bem depois do ataque) indica que há fonte de Inteligência confiável originada das áreas marcadas como alvo, provavelmente proporcionada por aliados locais, talvez polícia ou exército. Ora, se há policiais ou tropas que são confiáveis a ponto de fornecer informações, então, obviamente, é possível solicitar a estes aliados que capturem os alvos individuais.

Resumo da ópera: o governo dos Estados Unidos está bombardeando pessoas a torto e a direito pelo mundo afora, sem a menor ideia de quem está sendo bombardeado. Além do mais, estes assassinatos de cunho político são ilegais. Mentiram, dizendo que tais fatos não mais estavam acontecendo. Agora, tem a ousadia desavergonhada de fingir tristeza pelos próprios feitos, que poderiam ser perfeitamente evitáveis. São repugnantes e brutais, e deveriam ser fechados em uma prisão pelo resto da vida.

David Petraeus e a “amante-biógrafa”, Paula Broadwell

Segundo caso: David Petraeus, antigo bam-bam-bam da mídia, queridinho das redações, general sob Bush e no início dos anos Obama, recebeu um puxão de orelhas – claro, com liberdade condicional e multa de US$ 100.000 – por passar informações e documentos confidenciais de forma ilegal para pessoas não autorizadas, e depois mentir a respeito do fato, quando inquirido por agentes federais que o questionaram.

Lá vamos nós outra vez: mais provas de que, no sistema jurídico americano, algumas pessoas voam na primeira classe, enquanto o resto de nós se aperta na classe turística, mesmo.

Neste mundo às avessas, gente como Petraeus, que deveria já estar preso, porque sua posição superior lhe fez ser incrustado na administração com imenso poder e responsabilidade, caminha livre, enquanto os patetas menos ranqueados como nós, se cometermos o mesmo crime, seremos tratados como se fôssemos Al Capone.

O cabo Chelsea Manning, que revelou os documentos oficiais dos crimes de guerra dos Estados Unidos no Iraque, através do WikiLeaks, deu com os costados na prisão por 35 anos. Edward Snowden, administrador de sistemas de 31 anos que trabalhava para uma firma terceirizada que prestava serviços para a NSA e que revelou que o governo dos Estados Unidos está lendo todos os nossos e-mails e ouvindo o que dizemos ao telefone, encara a possibilidade de passar a vida na prisão.

Dois anos de liberdade condicional. Enquanto isso, professores que ajudaram seus alunos a enganar os testes padronizados receberam pena de sete anos na prisão. Para Petraeus, que passou a trabalhar para um fundo de investimentos, US$ 100.000 é apenas uma boa gorjeta para o caddy (carregador de tacos para os jogadores de golfe – NT).

Há algo que adiciona loucura ao insulto: o fato de que o motivo pelo qual Petraeus colocou em perigo a segurança nacional é venal: ele deu os documentos para a sua amante, que escreveu sua biografia autorizada.

Edward Snowden e Chelsea Manning
De a eles o PRÊMIO NOBEL DA PAZ!

Manning e Snowden, são heróis que deveriam ser objeto de desfiles honrosos e receber medalhas presidenciais da Liberdade, mas não foram glorificados. Eles apenas queriam informar ao povo norte americano sobre as atrocidades que se cometiam em seu nome, e sobre as violações de seus direitos mais básicos, incluindo-se o direito à privacidade.

Antes de ser apanhado com a boca na botija e enquanto compartilhava informações confidenciais com sua amante, Petraeus teve o descaramento indizível de pontificar hipocritamente sobre um funcionário da CIA que disponibilizou informações sensíveis. Diferentemente de Petraeus, porém, o sujeito da CIA recebeu a justiça reservada aos patetas: 30 meses na prisão.

Fechando o assunto, Petraeus pontificou bombasticamente em 2012: na realidade, há consequências sérias para aqueles que se acreditam acima das leis que protegem nossos verdadeiros colegas e permite que as agências norte americanas possam trabalhar com o grau adequado de sigilo.

Bem. Se você é viajante de primeira classe, as consequências são mínimas.

_______________________________________________________

[*] Ted Rall – Frederick Theodore “Ted” Rall é escritor e cartunista vinculado ao jornal The Los Angeles Times. Seus cartoons são distribuídos para cerca de 100 jornais norte-americanos. Já foi correspondente de guerra e escreve artigos sobre a Ásia Central, sua especialidade.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Pepe Escobar: “O que há de tão sexy em Benghazi?”


16/11/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Pepe Escobar
O Pentágono do Amor – como no affair Petraeus-Broadwell-Kelley-Allen-agente-de-torso-nu-do-FBI – é farsa que continua a dar flor. O problema é que não se trata de sexo, mentiras & e-mails. Trata-se, sempre e só, de Benghazi.

Com escândalo ou sem, o general David Petraeus finalmente aceitou depor, em data ainda a ser marcada, ante a Comissão de Inteligência do Senado sobre o 11/9, o ataque, em 2012, ao consulado dos EUA na Líbia, no qual foram mortos o embaixador Chris Stevens e três outros cidadãos norte-americanos; é possível que lhe perguntem sobre o que a CIA fazia lá antes, durante e depois do ataque.

Barack Obama
Quanto ao presidente Obama, na primeira conferência de imprensa depois de reeleito, tratou de alertar os Republicanos – que, há semanas, vêm tentando distorcer Benghazi para que sirva aos seus objetivos – de que “me perseguirem”; perseguirem a embaixadora na ONU, Susan Rice, “que nada teve a ver com Benghazi, e apenas fazia uma apresentação baseada em informes de segurança que recebeu”; e “enlamear sua reputação” (tudo isso) é “revoltante, inadmissível”.

Mais do que os Republicanos enfrentarem problemas com o presidente, a coisa parece que tem a ver com Petraeus enfrentar problemas com a nação. Sempre em surto de negação obsessiva, os Republicanos evidentemente pirarão quando Petraeus contar ao Senado exatamente o que contou à Casa Branca há dois meses. O general – e em seguida a secretária de Estado Hillary Clinton, mais Susan Rice – todos, disseram que o ataque em Benghazi foi resultado daquele filme ridículo sobre o profeta Maomé que circulou em vídeo pelo YouTube.

David Petraeus
Àquela altura, o affair de Petraeus com a biógrafa-gata Paula Broadwell, já era passado. Mas o general, provavelmente, não sabia que já estava fisgado também na investigação que a socialite de Tampa, Jill Kelley, inspirara ao FBI, sobre e-mails persecutórios que ela recebera de Paula. E aí, semana passada, a investigação veio miraculosamente à tona, imediatamente depois das eleições, exatamente quando Petraeus foi convocado a depor no Senado. O general, ao que tudo indica, errou as contas estratégicas e não conseguiu salvar o próprio emprego. Mas não há o que leve a duvidar de que ele terá bom desempenho em seu “Especial Benghazi”.

A lean, mean killing machine [1]

Paula Broadwell
A possibilidade de que o general, hoje caído em desgraça, sairá limpo no que tenha a ver com o atual modus operandi da CIA é tão remota quando vermos Paula Broadwell no papel de Branca de Neve. Desde que Petraeus foi nomeado por Obama para dirigir a CIA, a agência foi convertida em máquina paramilitar de matar – não exatamente um paraíso de Inteligência Humana (HUMINT). Só ações clandestinas, agentes mascarados nas sombras, distante de qualquer controle pelo Executivo, Legislativo ou Judiciário ou pela mídia; de fato, absolutamente fora de qualquer controle.

Essa militarização linha duríssima da CIA implica a agência jamais ter reconhecido a Guerra dos Drones. Para nem falar sobre como se decidem os alvos dos assassinatos predefinidos, do Chifre da África à Península Arábica e as áreas tribais do Paquistão; e sobre quem é sorteado para ganhar ou mais um dia de vida ou a morte. O que torna tudo ainda mais absurdo é que a CIA recebeu, da Casa Branca, a missão de investigar com imparcialidade a sua própria empreitada de guerra suja.

Dick Chaney
Tudo isso nos leva inevitavelmente de volta a Benghazi – e à notícia-bomba, divulgada pelo canal Fox News, [2]citando fonte anônima de Washington, segundo a qual havia, no consulado em Benghazi, um “anexo da CIA” onde estavam “detidos” três combatentes de milícias líbias (leia-se: jihadistas salafistas) para interrogatórios (leia-se: para atividades aquáticas de recreação e afogamento à moda Dick Cheney).

As sessões de interrogatório estariam sob responsabilidade de “empresas terceirizadas”, uma coleção sombria de “ex” Agentes Especiais (a própria CIA encarregou-se de lembrar à opinião pública que “desde janeiro de 2009 já não tinha autoridade para fazer prisioneiros, nos termos da Lei [orig. Executive Order] 13.491)”.

Antes, também foram “hóspedes” em Benghazi combatentes de várias guerras e conflitos no Norte da África e no Oriente Médio. Em resumo: o tal “anexo” da CIA era um dos principais buracos negros de todo o Norte da África.

Assim sendo, temos uma prisão “secreta” da CIA funcionando dentro de um consulado norte-americano – e, obviamente sem responder ao Departamento de Estado – ocupada por “ex” e atuais empresas privadas de Forças Especiais contratadas, recebendo “entregas especiais” de prisioneiros para interrogatório e cuidando de práticas de “detenção” (leia-se: tortura) que são ilegais nos EUA. Toda essa gente trabalhava para Petraeus – não para Hillary Clinton.

É mais do que provável que não seja o único desses estabelecimentos recreacionais – porque há Forças Especiais em ação por todo o Norte da África - e já se sabe que a CIA mantém outra dessas prisões ilegais na Somália.

Aposto um celeiro cheio de garrafas de Chateau Petrus, que o general não dirá palavra sobre tudo isso, no depoimento ao Senado. O general repetirá que a culpa de tudo que houve em Benghazi é do vídeo sobre o Profeta Maomé.

E há também o caso das Gataghazis

Gataghazis (Broadwell&Kelley)
O caso das Gataghazis é o máximo: a Biógrafa-Gata Paula e sua briga virtual de foice no escuro contra Jill Kelley (gata libanesa-norte-americana, também conhecida pelos codinomes de Jill Khawam, Gilberte J Kelley, Gigi Khawam, Gigi Kelley, que mantinha um negócio de “planejamento de eventos sociais” gratuitos na base do Comando Central (CENTCOM) em Tampa, Flórida. E, isso, ainda sem falar da espantosissimamente trabalhosa troca de e-mails (mais de 30 mensagens por dia) todos os dias, entre Kelley e o general John Allen e que durou, no mínimo, com certeza, três anos. É claro que o general Allen não tinha mãos para cuidar daquele amaldiçoado, chatíssimo, problema dos Talibã.

O Tampa Bay Times tem publicado vastas matérias, todos os dias, sobre a metamorfose da “reputação, consagrada por décadas, de hospitalidade e acolhimento gentil dos militares”. O jornal diz que o “marco zero” das novas travessuras sexuais “não é o Pentágono, mas uma mansão no bulevar Bayshore, onde vive uma família com apetites lascivos insaciáveis e dívidas gigantescas”: é onde moram os Kelleys [3].

Com tanta torpeza e lascívia no mercado dos contatos “sociais”, difícil é alguém pensar em política externa. Mesmo assim, tudo leva a crer que Benghazi seja só um aperitivo do que está cozinhando na Síria.

Benghazi – como Darnah, no litoral – alimentou a guerra da OTAN na Líbia fornecendo incontáveis jihadistas salafistas, inclusive gente ligada à al-Qaeda, através do “ex” Grupo Islâmico de Combate Líbio [orig. Libya Islamic Fighting Group (LIFG)].

Abdelhakim Belhadj
Não há dúvida alguma de que o embaixador Chris Stevens estava em contato íntimo com essa poderosa linha “rebelde” – inclusive com o superastro islamista Abdelhakim Belhadj. Depois que o coronel Gaddafi foi capturado e assassinado pelos “rebeldes” – com amplo apoio dos mísseis dos EUA e de soldados de Forças Especiais do Qatar por terra – islamistas líbios, com Belhaj à frente, começaram a contrabandear jihadistas salafistas armados até os dentes para juntar-se aos rebeldes sírios que querem derrubar o governo de Assad.

Demorou, mas afinal Hillary e o Departamento de Estado acordaram e perceberam o risco a que se expunham, de um contragolpe. Essa é uma das principais razões pelas quais Hillary tem tanta pressa para “refundar” a liderança da oposição síria, o que foi sacramentado no último fim de semana em Doha.

Na sua primeira conferência de imprensa, Obama limitou-se a repetir platitudes sobre a Síria (“estivemos sempre em contato com a comunidade internacional” e “consultamos repetidas vezes a oposição”, além de Turquia, Jordânia e Israel; muito significativamente, Obama não citou dois atores chaves do Conselho de Cooperação do Golfo, anti-Assad: a Arábia Saudita e o Qatar). Alertou sobre “elementos extremistas” infiltrados na oposição Síria; e não se comprometeu a armá-los. Não, pelo menos, oficialmente.

Hillary Clinton
Amanhã, 6ª-feira (16/11/2012), começa em Londres a segunda reunião de “amigos” da Síria – para dar sequência aos planos de Hillary para demitir uns e empossar outros dos tais “amigos”. O ocidente será então oficialmente apresentado ao novo líder da oposição, Maaz al-Khatib – que toda a empresa-imprensa ocidental repete, em frenesi, que seria “moderado”, com “impecáveis credenciais revolucionárias” e que deseja, segundo suas próprias palavras, conduzir a Síria na direção de converter-se em “estado cívico”.

É farsa tão ridícula quanto os contos das Gataghazis. Al-Khatib já disse que os problemas sírios só se resolvem com “armas”. A França – a qual, sob Hollande, permanece tão pateticamente neocolonialista quanto nos idos do rei Sarkô – já o reconheceu como líder e também reconheceu a nova oposição, criada essencialmente por pressão dos EUA e do Qatar, sob vagas promessas de muito dinheiro.

Maaz al-Khatib
Al-Khatib – ex imã da mesquita Umayyad em Damasco, posição que jamais obteria sem o aval da inteligência síria – é conhecido por ter convocado a Jihad para salvar o mundo muçulmano (há notícia em árabe, mas nada que o Google Translate não dê conta [4]). E o golpe fatal: Al-Khatib está convencido de que Facebook é complô de EUA-Israel contra os árabes. [5]

Com amigos como EUA, França, Arábia Saudita, Qatar e Turquia, a Síria não precisa de inimigos. Quanto à volta do chicote no lombo de quem chicoteia, preparem-se: o que aconteceu em Benghazi é só o aperitivo do que os inimigos dos EUA estão preparando.

Os EUA já não podem contar, nem com Petraeus, nem com Allen para defender a pátria? Ora! Podem convocar Jill Kelley! Ela a-do-ra quatro estrelas!



Notas de rodapé

[1]  Aprox., “uma máquina de matar enxuta”. A expressão aplica-se aos Marines e circulou muito, em tom de elogio e propaganda em 2004, na tomada de Fallujah, no Iraque. Vídeo a seguir:


[2]  Vídeo a seguir:


[4]  27/10/2012, Darbuna, Ahmed Maaz Khatib al-Hassani em: Arquivo Diário de 27/10/2012(Para ler em português acione o Google Translate).

[5] 17/2/2008, Darbuna, Ahmed Maaz Khatib al-Hassani em: “Arquivo Diário de 17/2/2008  (Para ler em português acione o Google Translate).

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Pepe Escobar: David Petraeus e “Skyfall”: general em queda livre


13/11/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Pepe Escobar
Meu nome é Petraeus. David Petraeus. Caia fora, Bond! Nem-vem, com seu Skyfall; aqui o negócio é sério, blockbuster garantido e certificado, filme de ação política & segurança nacional que põe no chinelo todos os demais.

Hollywood já cunhou a frase para o filme: “Ele tinha acesso livre aos níveis máximos de segurança. Mas gostava de mulheres erradas em maus lençóis...”.

Quanto ao elenco, Daniel Craig pode fazer O General, embora, nesse caso, no telecomando de um míssil Hellfire, não de um Aston Martin, e em uniforme camuflado (e muitas condecorações), em vez de um terno Tom Ford-vestido-para-matar. Demi Moore – voluptuosidade em pessoa como sempre – para fazer “Paula”. E um sortido de iraquianos e afegãos, no papel de “dano colateral”.

Vasta imundície não descreve nem o começo dos pressupostos fatos – o diretor da CIA, general aposentado David Petraeus, renuncia ao cargo por causa de um escândalo de cama, apenas dois dias depois da reeleição do presidente Barack Obama, mas semanas depois de acusações vindas de todos os lados, relacionadas à exata missão da CIA na Líbia, aquela terra esquecida por Deus, que a OTAN “libertou” e bandos de milicianos “governam”.

Como tantos roteiros de filmes do tipo “descubra-o-assassino”, ninguém sabe o suficiente para descobrir coisa alguma. Ninguém sabe por que o caso só vazou na 6ª-feira passada (aliás, só um dia depois de o presidente Obama ter sido informado), embora o Advogado Geral, Eric Holder – conhecido como “Velozes e Furiosos” – soubesse de tudo “desde o verão passado”, segundo aqueles proverbiais “funcionários norte-americanos” anônimos.

David Petraeus e Paula Broadwell
Ninguém sabe o que o FBI planejava fazer antes de o mundo vir abaixo e soltarem-se todos os demônios –, uma vez que a investigação em curso ao longo de quatro meses descobriu que Petraeus e sua amante, formada em West Point, maníaca por malhação, biógrafa e adoradora, Paula Broadwell, não pecaram contra a segurança nacional.

Mas, sim, talvez tenham pecado. Para começar, O General – liberado para acesso total ao mais alto nível da segurança nacional – usava uma reles conta g-mail para escrever safadezas à namorada, tática que o Washington Post – descreve bizarramente como “tática de terroristas que tenham razões para suspeitar de espionagem” [1]. E, quando vazou que o FBI não encontrara “grandes falhas de segurança”, a informação importante foi, precisamente, que HAVIA falhas de segurança.

“Não se meta com o meu cara”

Floridian Jill Kelley
A encenação de alcova tem elementos farsescos suficientes para fazer Molière pular na tumba. A coisa começou quando Floridian Jill Kelley reclamou de ter recebido e-mails persecutórios de Paula, coautora (com Vernon Loeb, jornalista do Washington Post) da biografia All In: The Education of General David Petraeus, publicada em janeiro. Paula e Petraeus já estavam mergulhados “num clima” e nas vias de fato desde novembro de 2011, dois meses antes de Obama nomeá-lo para dirigir a CIA. Caso flagrante de biógrafa de cama-e-mesa.

Paula talvez tenha suspeitado de que estivesse envolvida num quadrângulo, não num triângulo sexual. Obviamente, não sabia muito sobre Jill Kelley – a terceira mulher na farsa, além das demais (Paula e a esposa de Petraeus, hoje apresentada como “a furiosa” Holly). O jornal Tampa Bay Times descreveu O General como um avô, para a família de Kelley.

Kelley também é atriz/fator crucialmente importante: “ligação social” com a máquina de matar/contraguerrilha suprema, soturna, do Pentágono, o Comando Conjunto de Operações Especiais [orig. Joint Special Operations Command (JSOC)] com base em Fort Bragg. É crucial saber que foi esse Comando Conjunto de Operações Especiais que, ao que se sabe, levou a CIA e o Pentágono até o que aconteceu durante o ataque contra o Consulado dos EUA em Benghazi, quando foi assassinado o embaixador Chris Stevens.

Nada disso, é claro, teria qualquer importância aos olhos de Paula. Nos e-mails intimidatórios, que culminaram na renúncia de Petraeus, ela ordena que Kelley “Não se meta com o meu cara”.

Quanto ao “cara” de Paula, ele tem muito a explicar. Para começar: por que a CIA disse à Casa Branca que a tragédia de Benghazi fora provocada por aquele vídeo estúpido sobre o Profeta Maomé no YouTube? Por que não disse que foi ataque coordenado por jihadistas salafistas armados e treinados pela OTAN?

E, não menos importante: por que O General não decidiu cometer seu suicídio ritual seppuku há duas semanas, quanto os agentes do FBI lhe falaram, direta e pessoalmente, sobre a investigação? Terá pensado, O General, em não bombardear o governo Obama e, na prática, entregar a presidência, de bandeja, ao Partido Republicano? Ou, quem sabe, tinha ainda esperanças de que a coisa toda seria acobertada [2], feito festa de casamento pashtun que desapareceu na fumaça e da poeira levantadas por aquele míssil Hellfire?

Segundo o The New York Times, a coisa toda explodiu no final de outubro, depois que um empregado “não identificado” do FBI – agora já identificado como o homem que mandava fotos dele mesmo, sem camisa, para Jill Kelley – pôs a boca no mundo e cantou as pedras para o Líder da Maioria na Câmara de Representantes, Eric Cantor. Ninguém sabe qual era a agenda desse informante do FBI.

Robert Mueller III,
diretor do FBI
Em resumo: o FBI não cuidou de manter secreta a investigação. Cantor, segundo o Times, teve reunião séria com Robert Mueller III, diretor do FBI, no dia de Halloween; daí em diante, ninguém sabe o que aconteceu, até o dia 6/11, das eleições, quando o FBI voltou a seguir procedimentos de manual e contou a James Clapper Jr, Diretor da Inteligência Nacional, sobre o romance no dormitório da CIA. Dizer que Mueller e Cantor também têm muito o que explicar é dizer o mínimo dos mínimos.

Com toda a imprensa-empresa dos EUA totalmente em surto, a narrativa dominante continua a ser que O General Samurai fez a coisa honrada e renunciou. Tudo como sempre, no bom velho Puritanismo norte-americano. Você pode ser uma máquina de matar, responsável pela morte de número jamais calculado de civis. Mas não se atreva a trair sua devotada esposa.

O General deve estar pensando que escolheu a profissão errada. Que ambiente impiedoso! James Bond veste os ternos mais deslumbrantes, bebe incontáveis martinis, dirige um Aston Martin, mata todos os bandidos do mal à vista e traça todas as gostosas do universo!

O guerreiro fracassado

Para começar, David Petraeus sempre foi mais gênio de Relações Públicas, que samurai. Seu modelo cinematográfico inspirador poderia ser o Capitão Willard, como vivido por Martin Sheen no Apocalypse Now de Coppola: o guerreiro intelectual. Petraeus, o qual, por bastante tempo, se autoposicionou como possível candidato à presidência para 2012, foi esperto o bastante para vender à opinião pública dos EUA – e à imprensa-empresa dócil dominante – a ideia de que saíra vencedor das duas guerras, do Iraque e do Afeganistão. O que jamais passou de duas monumentais mentiras.

O etos de porta giratória em Washington – nesse caso, entre o Pentágono e a CIA – alcançou novos píncaros de absurdo quando Petraeus, que adaptou suas táticas de contraguerrilha do Iraque para o Afeganistão (invadir, limpar, ocupar e construir), foi posto na direção da CIA, para analisar... a contraguerrilha no Afeganistão. Os Talibã devem rolar de rir por todo o Hindu Kush, cada vez que ouvem falar do “sucesso” da contraguerrilha de Petraeus – sucesso o qual, por falar nisso, o próprio Petraeus e outros generais do Pentágono conseguiram vender a Obama, no final de 2009.

Petraeus é produto do Pentágono. Jamais conseguiria, por meios próprios, livrar-se da lógica imperante da Guerra Sem Fim, criada e fixada pelos estrategistas Republicanos do que Alain Joxe, cientista político francês, chamou de “neoliberalismo de guerra”.

Muqtada al-Sadr Mahdi
O Iraque e o Afeganistão foram manifestações do mais puro “neoliberalismo de guerra”. A “avançada” de Petraeus no Iraque foi pura fraude. Quando ele chegou com suas malas cheias de dinheiro, para convencer guerrilheiros sunitas a combater a al-Qaeda no Iraque, não os soldados dos EUA, a verdadeira avançada já estava em andamento: foi a avançada liderada pelo Ministério do Interior do Iraque e pelo Exército de Muqtada al-Sadr Mahdi – que já praticamente concluíra a limpeza étnica de Bagdá e áreas circundantes, revertendo o equilíbrio populacional, para favorecer os xiitas. Quanto aos guerrilheiros sunitas, eles pelo menos embolsaram o dinheiro dos EUA, ao mesmo tempo em que continuavam a luta deles contra o governo de Bagdá, dominado pelos xiitas.

A equipe de política externa de Obama supôs, provavelmente, que a conversa fiada de Petraeus sobre contraguerrilha garantiria ao Iraque – e, depois, ao Afeganistão – alguma coisa que, pelo menos, pudesse ser apresentada como democracia intercomunidades, o que salvaria a cara dos EUA em termos de retirada dos soldados, na esperança de que não fosse cópia perfeita da correria que se viu em torno do último helicóptero que tentava fugir de um telhado de Saigon, em 1975.

Barack Obama e David Petraeus na Casa Branca
Mas o fato é que Petraeus não conquistou nenhum coração e nenhuma mente nem no Iraque nem no Afeganistão; sua tática de invadir, limpar, ocupar e construir levou, de fato, a coisa alguma, nos dois casos – e ainda não se falou de tortura, assassinatos ilegais, detenções ilegais e guerra suja disseminada por todos os cantos. Sua “miniavançada” só teria alguma chance de sucesso no Afeganistão (e, mesmo isso, já seria descabido) se não fosse “mini”; se tivesse acesso a centenas de milhares de soldados – projeto politicamente inaceitável, nos EUA.

E, depois, aconteceu Benghazi. Muito provavelmente, o consulado dos EUA em Benghazi já era uma espécie de casa-forte da CIA, esconderijo de espiões – sob responsabilidade, portanto, de Petraeus, não do Departamento de Estado. Por isso, precisamente, “Paula” disse, em conversa casual, informal, na Universidade de Denver, dia 26 de outubro, que havia “prisioneiros” no consulado [3] (a CIA negou veementemente – o que sugere fortemente que haja aí, no mínimo, um grão de verdade).

É absolutamente indiscutível que o consulado foi atacado por jihadistas salafistas. O Departamento de Estado entrou como bode expiatório – e Petraeus/CIA conseguiram safar-se, sem pagar por sua incompetência. Quer dizer... Até que eclodiu a farsa do dormitório & mulheres.

Ainda resta por determinar se alguém em Washington ousará fazer as perguntas pertinentes. Ainda resta ver se a guerra de drones de Petraeus, incansável, hiper contraproducente (para nem falar da quantidade inacreditável de “danos colaterais”), será reavaliada. Ainda resta saber se Obama 2.0 decidir-se-á a fazer diplomacia – não guerra suja – na intersecção entre a Ásia Central e o Sul da Ásia.

Ray McGovern
O inestimável Ray McGovern, ex-analista da CIA, sugere que Obama pare imediatamente de dar ouvidos a “falsos especialistas – neoconservadores da Brookings, AEI e gente desse tipo – e busque a opinião de especialistas genuínos, como Paul Pillar, ex-assessor para o Oriente Próximo; Lawrence Wilkerson, ex-chefe de gabinete do Departamento de Estado; e o especialista em História Militar Andrew Bacevich (tenente-coronel, aposentado). Gente de papo reto, todos esses; gente que não tem interesse em “guerras longas”; gente que não mentirá ao presidente. Ao presidente caberá ouvir o que tenham a dizer”.

Mas... Podemos, todos, esquecer o pessoal do papo reto. O diretor em exercício da CIA, hoje, é Michael Morell, pau mandado do czar do contraterrorismo, John Brennan. Quanto ao General, triste epílogo: não arranjou carros incríveis, nada de martinis, nada de ternos Tom Ford, necas de salvar o mundo. E não leva a mocinha.



Notas de tradução

[1] 12/11/2012, Washington Post, Max Fisher, onde se lê num trecho (traduzido a seguir) de: Here’s the e-mail trick Petraeus and Broadwell used to communicate.

Petraeus e Broadwell, ao que se sabe, usaram um truque conhecido de terroristas e adolescentes, para ocultar o tráfego de mensagens por e-mail”, disse um dos investigadores. Em vez de enviar as mensagens para a caixa de entrada do outro, cada um redigia sua mensagem e salvava a mensagem como “rascunho” ou a transferia para a pasta “lixeira” – continuou o investigador. O outro, assim, podia entrar na mesma conta e ler os rascunhos que lá houvesse. Esse sistema não gera tráfego de mensagens, que qualquer investigação poderia facilmente rastrear. O truque tornou-se muito usado como tática de terroristas que tenham razões para suspeitar de espionagem.

[2] 12/11/2012, Washington Post, Sari Horwitz, Kimberly Kindy and Scott Wilson, em: Petraeus hoped affair would stay secret and he could keep his job as CIA director

[3] 12/11/2012, Rússia Today TV, Paula Broadwell em: Petraeus mistress reveals real motive behind Benghazi attack” (VIDEO) a seguir”: