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terça-feira, 28 de maio de 2013

Obama: a vitória na Síria já lhe escapou

21/5/2013, Jeremy Salt*, Al-Ahram Online, Cairo
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Jeremy Salt* é professor associado de História e Política do Oriente Médio, na Bilkent University, em Ancara, Turquia.


A realidade – que não aparece nos veículos da imprensa-empresa mundial – é que as forças “rebeldes” estão já em colapso e que o regime de Assad impôs-se contra as gangues armadas por estrangeiros que invadiram a Síria. Assad e seu governo estão vencendo a guerra. Assim sendo, o que fará o ocidente?

Por mais que repita que “todas as opções estão sobre a mesa”, Barack Obama já tenta claramente se afastar de qualquer envolvimento mais profundo na Síria, agora que já se vê que só um ataque direto, intervenção com ocupação militar, conseguirá derrubar o governo de Damasco. Só nos últimos meses, as gangues armadas perderam milhares de homens. Embora o conflito ainda se prorrogue por algum tempo, não há dúvida, entre os especialistas, de que o Exército Sírio está já muito próximo de controlar completamente o levante.
Maaz al-Khatib

Os patrocinadores dessa aventura estão em total confusão. Como antes, a Coalizão Nacional Síria já implodira, agora também o Conselho Nacional Sírio já implodiu. Maaz al-Khatib já é voz apenas marginal. Ghassan Hitto é o único ser no planeta a ostentar o título de Primeiro-Ministro de um comitê. Toda essa gente é causa completamente perdida.

No mundo real, não no mundo dos delírios, há um vídeo de horror em que se vê um comandante “rebelde” que corta o peito e come, ou pelo menos morde, o coração de um soldado morto. Discute-se se seria um pulmão, talvez o fígado. Os jornais parecem inseguros; dão a impressão de que seria importantíssimo identificar com precisão o exato órgão mastigado. Longe de tentar negar a autoria do ato canibalesco, o perpetrador assume e apropria-se dele e vangloria-se de como retalhou, em pedaços, vários cadáveres de shabihas”. Vídeo a seguir: 


O canibalismo parece ser a mais recente inovação, mas a verdade é que não há o que os psicopatas armados das incontáveis gangues não tenham feito dentro da Síria. Ou, talvez, não se devesse chamar de psicopatas homens capazes de fazer o que fizeram? Afinal, quem mais se deixaria arregimentar para guerra tão absolutamente sem sentido, além de psicopatas? 

O autodefinido Exército Sírio Livre diz que caçará o homem que arrancou o coração do soldado. Ótimo. Que cace também os “rebeldes” cortadores de gargantas e “rebeldes” degoladores em geral. Que cace os “rebeldes” que assassinaram funcionários públicos, antes de jogar os cadáveres pelas janelas do prédio dos correios em Al-Bab. E aproveite para caçar também seus próprios companheiros de armas que deliberadamente jogam carros-bomba contra civis.

Ghassan Hitto
E que não se esqueça de caçar os assassinos do Imã e de 50 fiéis que rezavam numa mesquita em Damasco. E, ainda, os estupradores e sequestradores, inclusive os chechenos que sequestraram dois bispos ainda mantidos em cativeiro em Aleppo, enquanto os líderes cristãos dos governos ocidentais fingem que nada têm a ver com aquilo. Na caçada dos bandidos que macularam a gloriosa reputação do "Exército Sírio Livre", aliás, nem é preciso procurar muito longe, porque há inúmeros bandidos bem ali, nas próprias fileiras. Provas não faltam. A imprensa tem vasta coleção de macabros vídeos nos telefones celulares e câmeras de mão, imagens de rostos muito facilmente identificáveis, porque eles se orgulham muito do que fizeram e querem exibir-se para o mundo. Essa é a gente que a Arábia Saudita e o Qatar dedicaram-se a armar pesadamente, e carregaram de dinheiro, para que tomassem a Síria.  

Essa é a realidade por trás da narrativa de ficção e mentiras que a empresa-imprensa global distribuiu para o mundo ao longo dos últimos dois anos. Nenhum jornalismo: só a regurgitação de cada mentira, de cada exagero, de cada distorção produzida por “ativistas” e pelo chamado Observatório Sírio de Direitos Humanos, de Londres – segundo o qual o “regime” sírio estaria sempre a ponto de desabar, várias vezes por dia; e todas as atrocidades eram sempre, sempre, obra dos soldados sírios. Exceto por alguns poucos artigos assinados recentemente por Robert Fisk, praticamente nenhum veículo de nenhum grande grupo da imprensa-empresa comercial no mundo ocidental noticiou eventos e comentou o conflito do ponto de vista do exército e do governo da Síria.

Bashar al-Assad
Jornalistas eram conduzidos através da fronteira por grupos “rebeldes” e só faziam repetir o que os tais “rebeldes” (eventualmente, canibais) lhes contavam. É como acreditar em tudo que escreviam os “jornalistas” incorporados às tropas do exército dos EUA, como se o que relataram fosse o que realmente acontecia no Iraque. E, também como no Iraque, repetem agora a mesma propaganda sobre “armas químicas”.

Até que, afinal, a mentira sucumbiu e a realidade apareceu. Quem está em colapso não é o governo de Assad, mas os “rebeldes”. Daqui em diante, só a intervenção militar armada e direta, com coturnos em solo, conseguirá salvar os “rebeldes”. Mas, com o governo sírio já contando com sólido apoio dos russos... Não será fácil pôr coturnos norte-americanos em solo sírio. Obama continua pressionado para “fazer mais”, mas não dá qualquer sinal de interesse em deixar-se sugar ainda mais para o fundo do pântano criado pelos seus “rebeldes” na Síria. E outros não darão nem meio passo, se os EUA não marcharem à frente. A Alemanha já se declarou contra qualquer envolvimento; a Áustria disse que já está fornecendo armas aos “rebeldes”, o que a Grã-Bretanha gostaria de ter feito, e que, antes do fim do embargo na União Europeia, que terminará dia 31 de maio em curso, é violar leis internacionais.

Recep Tayyp Erdogan
Essa semana, todos os holofotes concentraram-se sobre o Primeiro-Ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, e a viagem que fez a Washington para discutir a Síria com Barack Obama. A Turquia teve papel central no desenrolar do conflito sírio. Arábia Saudita, Qatar e Líbia forneceram dinheiro e armas, mas foi a Turquia, cujo território ficou aberto para a mobilização de gangues armadas que cruzavam a fronteira para depor o “regime”. Erdogan não se afastou um passo da posição que assumiu contra Bashar Al-Assad há mais de dois anos. O único caso claro de uso de arma química em ataque foi o composto de cloro embalado numa ogiva e disparado contra um posto do Exército Sírio em Khan Al-Assal, que matou vários soldados e civis. Mas Erdogan continua a repetir que foi o Exército Sírio que usou armas químicas e que, ao fazê-lo cruzou a tal “linha vermelha” que Obama inventara. Perguntado, pouco antes de partir para Washington, se apoiaria a implantação de uma zona aérea de exclusão, respondeu: “Desde o início diríamos que sim”.

Semana passada, carros carregados com mais de uma tonelada de C4 e TNT foram explodidos na província de Hatay, na cidade fronteiriça de Reyhanli. Foram mortas, no mínimo, 51 pessoas. A destruição foi massiva. Prédios da administração municipal e dúzias de lojas ficaram soterrados nos escombros. Na sequência, carros com placas sírias foram destruídos e refugiados sírios atacados por grupos da região, enfurecidos. Enquanto destruíam, amaldiçoavam Erdogan. A atrocidade seguiu um padrão já familiar aos sírios: uma primeira explosão e em seguida, quando as pessoas se aproximam para socorrer os feridos da primeira explosão, a segunda bomba, para aumentar o número de vítimas.

Apesar de o governo turco ter declarado que teria sido trabalho de um grupo terrorista que colaboraria com a inteligência (mukhabarat) síria, só as gangues armadas ou um dos governos que as apoia teria algum motivo para cometer tamanha violência. O Exército Sírio está cercando os “rebeldes”, o “conselho dos traidores” baseado em Doha já implodiu, e norte-americanos e russos estão sentando para conversar. Aquele ataque foi claramente planejado e executado para atrair a Turquia diretamente para o conflito, através da fronteira.

Resultado do ataque a Reyhanli (Turquia) tentando levar  à intervenção direta na Síria
O ataque contra Reyhanli aconteceu uma semana depois que Israel lançou uma série de ataques selvagens contra a Síria. Não foi simples ataque de um míssil. Dois ataques em três dias, durando cada um várias horas, com bombardeio cerrado em torno de Damasco, sugerem fortemente que o objetivo era provocar resposta dos sírios, o que abriria a porta para guerra generalizada, na qual até o Irã poderia ser atacado. Israel alegou que o alvo seria um carregamento de mísseis destinados ao Hezbollah, mas, embora um centro de pesquisa e uma fábrica militar de produção de alimentos tenham sido atingidos, não se viu nem sinal de que algum míssil tivesse sido destruído. Os ataques revelaram-se fracasso político e estratégico. Imediatamente, na sequência, Putin aplicou “uma carraspana” em Netanyahu e o castigou, ou fornecendo ou ameaçando fornecer à Síria mísseis antiaéreos avançados S300. Só a insuperável arrogância do governo israelense explica que tenha insistido que outros ataques viriam, se necessários, e que destruiriam o governo sírio, caso houvesse retaliação.

Bill Keller
Obama está agora sob pressão doméstica para “fazer mais”. Em Washington, os mesmos que clamavam por guerra contra o Iraque clamam pela ampliação do conflito na Síria. O senador Bob Menendez, empenhado apoiador de Israel, como virtualmente todos os congressistas, apresentou projeto de lei que autoriza o governo dos EUA a fornecer armas aos “rebeldes” (como se os EUA já não estivessem fazendo exatamente isso clandestinamente, diretamente ou usando a Arábia Saudita e o Qatar).

O ex-editor do New York Times, Bill Keller, apoiou abertamente a guerra do Iraque e agora quer também que os EUA armem “os rebeldes” e “defendam os civis ameaçados de ser massacrados dentro das próprias casas” na Síria. Não fala, é claro, dos civis massacrados pelas gangues já armadas.

O Washington Post acabou por ter de admitir que o Exército Sírio está em marcha vitoriosa para controlar o conflito, mas nem por isso desiste de tentar mudar o rumo dos acontecimentos

“E se os EUA não intervierem na Síria?” pergunta em editorial, para poder responder-se, o jornal a ele mesmo: a Síria será fraturada, partida em várias áreas sectárias; a Frente Jabhat Al-Nusra assumirá o controle no norte e “remanescentes do regime” ficarão com faixas na parte oeste. A guerra sectária se espalhará e alcançará o Iraque – como se isso já não tivesse acontecido, consequência da invasão norte-americana – e o Líbano. Armas químicas cairão em mãos erradas, “o que provavelmente forçará Israel a intervir, para impedir que cheguem às mãos do Hezbollah ou da Al-Qaeda”. E, se os EUA não intervierem logo, para impedir que tudo isso aconteça, Turquia e Arábia Saudita “poderão concluir que os EUA já não são aliado confiável”.

Há outras respostas muito mais prováveis àquele “o que acontecerá”. O Exército Sírio expulsará do território sírio os “rebeldes” sobreviventes; e Bashar resultará ainda mais popular do que antes, depois de ter enfrentado com sucesso o maior desafio que se impôs ao Estado sírio em toda a sua história. Haverá eleições em 2014. Bashar será eleito presidente com 75% dos votos. Essa, pelo menos, é a previsão da CIA.

RecepTayyp Erdogan (E) e Barack Obama (D) na Conferência de Imprensa de 16/5/2013
Erdogan chegou a Washington também desejando que Obama “faça mais”, mas é mais do que claro que o presidente dos EUA não quer fazer coisa alguma, muito menos, mais. A imprensa-empresa turca noticiou que Obama dissera que Assad “tem de” sair [orig. “must”], mas não foi o que Obama disse. Obama escolheu muito atentamente cada palavra. Na conferência de imprensa ao lado de Erdogan, ele não disse que Assad “tem de” sair; disse que Assad “precisa” [orig. “needs”] ir e “precisa” transferir o poder para um corpo transicional. É diferença absolutamente importante. Pessoalmente, Obama não quer chegar ao fim de seu governo afundado numa guerra impopular, que os EUA não vencerão, guerra que, além do mais, pode muito rapidamente extrapolar o plano regional e converter-se em crise global.

John Kerry (E) e Sergey Lavrov (D) na reunião de Moscou em 7/5/2013
Pesquisa recente do Instituto Pew mostrou que o povo norte-americano já não tolera guerras no Oriente Médio. E a conversa entre Kerry e Lavrov indica que, dessa vez, já deixado para trás o Acordo de Genebra de julho de 2012, os EUA estão seriamente interessados em negociar um fim para a crise na Síria, mesmo que outros não considerem ainda sequer essa possibilidade. Se há alguma ameaça a pesar contra a posição dos EUA, o mais provável é que esteja crescendo entre seus amigos e aliados.


quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Pepe Escobar: “O que há de tão sexy em Benghazi?”


16/11/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Pepe Escobar
O Pentágono do Amor – como no affair Petraeus-Broadwell-Kelley-Allen-agente-de-torso-nu-do-FBI – é farsa que continua a dar flor. O problema é que não se trata de sexo, mentiras & e-mails. Trata-se, sempre e só, de Benghazi.

Com escândalo ou sem, o general David Petraeus finalmente aceitou depor, em data ainda a ser marcada, ante a Comissão de Inteligência do Senado sobre o 11/9, o ataque, em 2012, ao consulado dos EUA na Líbia, no qual foram mortos o embaixador Chris Stevens e três outros cidadãos norte-americanos; é possível que lhe perguntem sobre o que a CIA fazia lá antes, durante e depois do ataque.

Barack Obama
Quanto ao presidente Obama, na primeira conferência de imprensa depois de reeleito, tratou de alertar os Republicanos – que, há semanas, vêm tentando distorcer Benghazi para que sirva aos seus objetivos – de que “me perseguirem”; perseguirem a embaixadora na ONU, Susan Rice, “que nada teve a ver com Benghazi, e apenas fazia uma apresentação baseada em informes de segurança que recebeu”; e “enlamear sua reputação” (tudo isso) é “revoltante, inadmissível”.

Mais do que os Republicanos enfrentarem problemas com o presidente, a coisa parece que tem a ver com Petraeus enfrentar problemas com a nação. Sempre em surto de negação obsessiva, os Republicanos evidentemente pirarão quando Petraeus contar ao Senado exatamente o que contou à Casa Branca há dois meses. O general – e em seguida a secretária de Estado Hillary Clinton, mais Susan Rice – todos, disseram que o ataque em Benghazi foi resultado daquele filme ridículo sobre o profeta Maomé que circulou em vídeo pelo YouTube.

David Petraeus
Àquela altura, o affair de Petraeus com a biógrafa-gata Paula Broadwell, já era passado. Mas o general, provavelmente, não sabia que já estava fisgado também na investigação que a socialite de Tampa, Jill Kelley, inspirara ao FBI, sobre e-mails persecutórios que ela recebera de Paula. E aí, semana passada, a investigação veio miraculosamente à tona, imediatamente depois das eleições, exatamente quando Petraeus foi convocado a depor no Senado. O general, ao que tudo indica, errou as contas estratégicas e não conseguiu salvar o próprio emprego. Mas não há o que leve a duvidar de que ele terá bom desempenho em seu “Especial Benghazi”.

A lean, mean killing machine [1]

Paula Broadwell
A possibilidade de que o general, hoje caído em desgraça, sairá limpo no que tenha a ver com o atual modus operandi da CIA é tão remota quando vermos Paula Broadwell no papel de Branca de Neve. Desde que Petraeus foi nomeado por Obama para dirigir a CIA, a agência foi convertida em máquina paramilitar de matar – não exatamente um paraíso de Inteligência Humana (HUMINT). Só ações clandestinas, agentes mascarados nas sombras, distante de qualquer controle pelo Executivo, Legislativo ou Judiciário ou pela mídia; de fato, absolutamente fora de qualquer controle.

Essa militarização linha duríssima da CIA implica a agência jamais ter reconhecido a Guerra dos Drones. Para nem falar sobre como se decidem os alvos dos assassinatos predefinidos, do Chifre da África à Península Arábica e as áreas tribais do Paquistão; e sobre quem é sorteado para ganhar ou mais um dia de vida ou a morte. O que torna tudo ainda mais absurdo é que a CIA recebeu, da Casa Branca, a missão de investigar com imparcialidade a sua própria empreitada de guerra suja.

Dick Chaney
Tudo isso nos leva inevitavelmente de volta a Benghazi – e à notícia-bomba, divulgada pelo canal Fox News, [2]citando fonte anônima de Washington, segundo a qual havia, no consulado em Benghazi, um “anexo da CIA” onde estavam “detidos” três combatentes de milícias líbias (leia-se: jihadistas salafistas) para interrogatórios (leia-se: para atividades aquáticas de recreação e afogamento à moda Dick Cheney).

As sessões de interrogatório estariam sob responsabilidade de “empresas terceirizadas”, uma coleção sombria de “ex” Agentes Especiais (a própria CIA encarregou-se de lembrar à opinião pública que “desde janeiro de 2009 já não tinha autoridade para fazer prisioneiros, nos termos da Lei [orig. Executive Order] 13.491)”.

Antes, também foram “hóspedes” em Benghazi combatentes de várias guerras e conflitos no Norte da África e no Oriente Médio. Em resumo: o tal “anexo” da CIA era um dos principais buracos negros de todo o Norte da África.

Assim sendo, temos uma prisão “secreta” da CIA funcionando dentro de um consulado norte-americano – e, obviamente sem responder ao Departamento de Estado – ocupada por “ex” e atuais empresas privadas de Forças Especiais contratadas, recebendo “entregas especiais” de prisioneiros para interrogatório e cuidando de práticas de “detenção” (leia-se: tortura) que são ilegais nos EUA. Toda essa gente trabalhava para Petraeus – não para Hillary Clinton.

É mais do que provável que não seja o único desses estabelecimentos recreacionais – porque há Forças Especiais em ação por todo o Norte da África - e já se sabe que a CIA mantém outra dessas prisões ilegais na Somália.

Aposto um celeiro cheio de garrafas de Chateau Petrus, que o general não dirá palavra sobre tudo isso, no depoimento ao Senado. O general repetirá que a culpa de tudo que houve em Benghazi é do vídeo sobre o Profeta Maomé.

E há também o caso das Gataghazis

Gataghazis (Broadwell&Kelley)
O caso das Gataghazis é o máximo: a Biógrafa-Gata Paula e sua briga virtual de foice no escuro contra Jill Kelley (gata libanesa-norte-americana, também conhecida pelos codinomes de Jill Khawam, Gilberte J Kelley, Gigi Khawam, Gigi Kelley, que mantinha um negócio de “planejamento de eventos sociais” gratuitos na base do Comando Central (CENTCOM) em Tampa, Flórida. E, isso, ainda sem falar da espantosissimamente trabalhosa troca de e-mails (mais de 30 mensagens por dia) todos os dias, entre Kelley e o general John Allen e que durou, no mínimo, com certeza, três anos. É claro que o general Allen não tinha mãos para cuidar daquele amaldiçoado, chatíssimo, problema dos Talibã.

O Tampa Bay Times tem publicado vastas matérias, todos os dias, sobre a metamorfose da “reputação, consagrada por décadas, de hospitalidade e acolhimento gentil dos militares”. O jornal diz que o “marco zero” das novas travessuras sexuais “não é o Pentágono, mas uma mansão no bulevar Bayshore, onde vive uma família com apetites lascivos insaciáveis e dívidas gigantescas”: é onde moram os Kelleys [3].

Com tanta torpeza e lascívia no mercado dos contatos “sociais”, difícil é alguém pensar em política externa. Mesmo assim, tudo leva a crer que Benghazi seja só um aperitivo do que está cozinhando na Síria.

Benghazi – como Darnah, no litoral – alimentou a guerra da OTAN na Líbia fornecendo incontáveis jihadistas salafistas, inclusive gente ligada à al-Qaeda, através do “ex” Grupo Islâmico de Combate Líbio [orig. Libya Islamic Fighting Group (LIFG)].

Abdelhakim Belhadj
Não há dúvida alguma de que o embaixador Chris Stevens estava em contato íntimo com essa poderosa linha “rebelde” – inclusive com o superastro islamista Abdelhakim Belhadj. Depois que o coronel Gaddafi foi capturado e assassinado pelos “rebeldes” – com amplo apoio dos mísseis dos EUA e de soldados de Forças Especiais do Qatar por terra – islamistas líbios, com Belhaj à frente, começaram a contrabandear jihadistas salafistas armados até os dentes para juntar-se aos rebeldes sírios que querem derrubar o governo de Assad.

Demorou, mas afinal Hillary e o Departamento de Estado acordaram e perceberam o risco a que se expunham, de um contragolpe. Essa é uma das principais razões pelas quais Hillary tem tanta pressa para “refundar” a liderança da oposição síria, o que foi sacramentado no último fim de semana em Doha.

Na sua primeira conferência de imprensa, Obama limitou-se a repetir platitudes sobre a Síria (“estivemos sempre em contato com a comunidade internacional” e “consultamos repetidas vezes a oposição”, além de Turquia, Jordânia e Israel; muito significativamente, Obama não citou dois atores chaves do Conselho de Cooperação do Golfo, anti-Assad: a Arábia Saudita e o Qatar). Alertou sobre “elementos extremistas” infiltrados na oposição Síria; e não se comprometeu a armá-los. Não, pelo menos, oficialmente.

Hillary Clinton
Amanhã, 6ª-feira (16/11/2012), começa em Londres a segunda reunião de “amigos” da Síria – para dar sequência aos planos de Hillary para demitir uns e empossar outros dos tais “amigos”. O ocidente será então oficialmente apresentado ao novo líder da oposição, Maaz al-Khatib – que toda a empresa-imprensa ocidental repete, em frenesi, que seria “moderado”, com “impecáveis credenciais revolucionárias” e que deseja, segundo suas próprias palavras, conduzir a Síria na direção de converter-se em “estado cívico”.

É farsa tão ridícula quanto os contos das Gataghazis. Al-Khatib já disse que os problemas sírios só se resolvem com “armas”. A França – a qual, sob Hollande, permanece tão pateticamente neocolonialista quanto nos idos do rei Sarkô – já o reconheceu como líder e também reconheceu a nova oposição, criada essencialmente por pressão dos EUA e do Qatar, sob vagas promessas de muito dinheiro.

Maaz al-Khatib
Al-Khatib – ex imã da mesquita Umayyad em Damasco, posição que jamais obteria sem o aval da inteligência síria – é conhecido por ter convocado a Jihad para salvar o mundo muçulmano (há notícia em árabe, mas nada que o Google Translate não dê conta [4]). E o golpe fatal: Al-Khatib está convencido de que Facebook é complô de EUA-Israel contra os árabes. [5]

Com amigos como EUA, França, Arábia Saudita, Qatar e Turquia, a Síria não precisa de inimigos. Quanto à volta do chicote no lombo de quem chicoteia, preparem-se: o que aconteceu em Benghazi é só o aperitivo do que os inimigos dos EUA estão preparando.

Os EUA já não podem contar, nem com Petraeus, nem com Allen para defender a pátria? Ora! Podem convocar Jill Kelley! Ela a-do-ra quatro estrelas!



Notas de rodapé

[1]  Aprox., “uma máquina de matar enxuta”. A expressão aplica-se aos Marines e circulou muito, em tom de elogio e propaganda em 2004, na tomada de Fallujah, no Iraque. Vídeo a seguir:


[2]  Vídeo a seguir:


[4]  27/10/2012, Darbuna, Ahmed Maaz Khatib al-Hassani em: Arquivo Diário de 27/10/2012(Para ler em português acione o Google Translate).

[5] 17/2/2008, Darbuna, Ahmed Maaz Khatib al-Hassani em: “Arquivo Diário de 17/2/2008  (Para ler em português acione o Google Translate).