quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Pepe Escobar: “O que há de tão sexy em Benghazi?”


16/11/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Pepe Escobar
O Pentágono do Amor – como no affair Petraeus-Broadwell-Kelley-Allen-agente-de-torso-nu-do-FBI – é farsa que continua a dar flor. O problema é que não se trata de sexo, mentiras & e-mails. Trata-se, sempre e só, de Benghazi.

Com escândalo ou sem, o general David Petraeus finalmente aceitou depor, em data ainda a ser marcada, ante a Comissão de Inteligência do Senado sobre o 11/9, o ataque, em 2012, ao consulado dos EUA na Líbia, no qual foram mortos o embaixador Chris Stevens e três outros cidadãos norte-americanos; é possível que lhe perguntem sobre o que a CIA fazia lá antes, durante e depois do ataque.

Barack Obama
Quanto ao presidente Obama, na primeira conferência de imprensa depois de reeleito, tratou de alertar os Republicanos – que, há semanas, vêm tentando distorcer Benghazi para que sirva aos seus objetivos – de que “me perseguirem”; perseguirem a embaixadora na ONU, Susan Rice, “que nada teve a ver com Benghazi, e apenas fazia uma apresentação baseada em informes de segurança que recebeu”; e “enlamear sua reputação” (tudo isso) é “revoltante, inadmissível”.

Mais do que os Republicanos enfrentarem problemas com o presidente, a coisa parece que tem a ver com Petraeus enfrentar problemas com a nação. Sempre em surto de negação obsessiva, os Republicanos evidentemente pirarão quando Petraeus contar ao Senado exatamente o que contou à Casa Branca há dois meses. O general – e em seguida a secretária de Estado Hillary Clinton, mais Susan Rice – todos, disseram que o ataque em Benghazi foi resultado daquele filme ridículo sobre o profeta Maomé que circulou em vídeo pelo YouTube.

David Petraeus
Àquela altura, o affair de Petraeus com a biógrafa-gata Paula Broadwell, já era passado. Mas o general, provavelmente, não sabia que já estava fisgado também na investigação que a socialite de Tampa, Jill Kelley, inspirara ao FBI, sobre e-mails persecutórios que ela recebera de Paula. E aí, semana passada, a investigação veio miraculosamente à tona, imediatamente depois das eleições, exatamente quando Petraeus foi convocado a depor no Senado. O general, ao que tudo indica, errou as contas estratégicas e não conseguiu salvar o próprio emprego. Mas não há o que leve a duvidar de que ele terá bom desempenho em seu “Especial Benghazi”.

A lean, mean killing machine [1]

Paula Broadwell
A possibilidade de que o general, hoje caído em desgraça, sairá limpo no que tenha a ver com o atual modus operandi da CIA é tão remota quando vermos Paula Broadwell no papel de Branca de Neve. Desde que Petraeus foi nomeado por Obama para dirigir a CIA, a agência foi convertida em máquina paramilitar de matar – não exatamente um paraíso de Inteligência Humana (HUMINT). Só ações clandestinas, agentes mascarados nas sombras, distante de qualquer controle pelo Executivo, Legislativo ou Judiciário ou pela mídia; de fato, absolutamente fora de qualquer controle.

Essa militarização linha duríssima da CIA implica a agência jamais ter reconhecido a Guerra dos Drones. Para nem falar sobre como se decidem os alvos dos assassinatos predefinidos, do Chifre da África à Península Arábica e as áreas tribais do Paquistão; e sobre quem é sorteado para ganhar ou mais um dia de vida ou a morte. O que torna tudo ainda mais absurdo é que a CIA recebeu, da Casa Branca, a missão de investigar com imparcialidade a sua própria empreitada de guerra suja.

Dick Chaney
Tudo isso nos leva inevitavelmente de volta a Benghazi – e à notícia-bomba, divulgada pelo canal Fox News, [2]citando fonte anônima de Washington, segundo a qual havia, no consulado em Benghazi, um “anexo da CIA” onde estavam “detidos” três combatentes de milícias líbias (leia-se: jihadistas salafistas) para interrogatórios (leia-se: para atividades aquáticas de recreação e afogamento à moda Dick Cheney).

As sessões de interrogatório estariam sob responsabilidade de “empresas terceirizadas”, uma coleção sombria de “ex” Agentes Especiais (a própria CIA encarregou-se de lembrar à opinião pública que “desde janeiro de 2009 já não tinha autoridade para fazer prisioneiros, nos termos da Lei [orig. Executive Order] 13.491)”.

Antes, também foram “hóspedes” em Benghazi combatentes de várias guerras e conflitos no Norte da África e no Oriente Médio. Em resumo: o tal “anexo” da CIA era um dos principais buracos negros de todo o Norte da África.

Assim sendo, temos uma prisão “secreta” da CIA funcionando dentro de um consulado norte-americano – e, obviamente sem responder ao Departamento de Estado – ocupada por “ex” e atuais empresas privadas de Forças Especiais contratadas, recebendo “entregas especiais” de prisioneiros para interrogatório e cuidando de práticas de “detenção” (leia-se: tortura) que são ilegais nos EUA. Toda essa gente trabalhava para Petraeus – não para Hillary Clinton.

É mais do que provável que não seja o único desses estabelecimentos recreacionais – porque há Forças Especiais em ação por todo o Norte da África - e já se sabe que a CIA mantém outra dessas prisões ilegais na Somália.

Aposto um celeiro cheio de garrafas de Chateau Petrus, que o general não dirá palavra sobre tudo isso, no depoimento ao Senado. O general repetirá que a culpa de tudo que houve em Benghazi é do vídeo sobre o Profeta Maomé.

E há também o caso das Gataghazis

Gataghazis (Broadwell&Kelley)
O caso das Gataghazis é o máximo: a Biógrafa-Gata Paula e sua briga virtual de foice no escuro contra Jill Kelley (gata libanesa-norte-americana, também conhecida pelos codinomes de Jill Khawam, Gilberte J Kelley, Gigi Khawam, Gigi Kelley, que mantinha um negócio de “planejamento de eventos sociais” gratuitos na base do Comando Central (CENTCOM) em Tampa, Flórida. E, isso, ainda sem falar da espantosissimamente trabalhosa troca de e-mails (mais de 30 mensagens por dia) todos os dias, entre Kelley e o general John Allen e que durou, no mínimo, com certeza, três anos. É claro que o general Allen não tinha mãos para cuidar daquele amaldiçoado, chatíssimo, problema dos Talibã.

O Tampa Bay Times tem publicado vastas matérias, todos os dias, sobre a metamorfose da “reputação, consagrada por décadas, de hospitalidade e acolhimento gentil dos militares”. O jornal diz que o “marco zero” das novas travessuras sexuais “não é o Pentágono, mas uma mansão no bulevar Bayshore, onde vive uma família com apetites lascivos insaciáveis e dívidas gigantescas”: é onde moram os Kelleys [3].

Com tanta torpeza e lascívia no mercado dos contatos “sociais”, difícil é alguém pensar em política externa. Mesmo assim, tudo leva a crer que Benghazi seja só um aperitivo do que está cozinhando na Síria.

Benghazi – como Darnah, no litoral – alimentou a guerra da OTAN na Líbia fornecendo incontáveis jihadistas salafistas, inclusive gente ligada à al-Qaeda, através do “ex” Grupo Islâmico de Combate Líbio [orig. Libya Islamic Fighting Group (LIFG)].

Abdelhakim Belhadj
Não há dúvida alguma de que o embaixador Chris Stevens estava em contato íntimo com essa poderosa linha “rebelde” – inclusive com o superastro islamista Abdelhakim Belhadj. Depois que o coronel Gaddafi foi capturado e assassinado pelos “rebeldes” – com amplo apoio dos mísseis dos EUA e de soldados de Forças Especiais do Qatar por terra – islamistas líbios, com Belhaj à frente, começaram a contrabandear jihadistas salafistas armados até os dentes para juntar-se aos rebeldes sírios que querem derrubar o governo de Assad.

Demorou, mas afinal Hillary e o Departamento de Estado acordaram e perceberam o risco a que se expunham, de um contragolpe. Essa é uma das principais razões pelas quais Hillary tem tanta pressa para “refundar” a liderança da oposição síria, o que foi sacramentado no último fim de semana em Doha.

Na sua primeira conferência de imprensa, Obama limitou-se a repetir platitudes sobre a Síria (“estivemos sempre em contato com a comunidade internacional” e “consultamos repetidas vezes a oposição”, além de Turquia, Jordânia e Israel; muito significativamente, Obama não citou dois atores chaves do Conselho de Cooperação do Golfo, anti-Assad: a Arábia Saudita e o Qatar). Alertou sobre “elementos extremistas” infiltrados na oposição Síria; e não se comprometeu a armá-los. Não, pelo menos, oficialmente.

Hillary Clinton
Amanhã, 6ª-feira (16/11/2012), começa em Londres a segunda reunião de “amigos” da Síria – para dar sequência aos planos de Hillary para demitir uns e empossar outros dos tais “amigos”. O ocidente será então oficialmente apresentado ao novo líder da oposição, Maaz al-Khatib – que toda a empresa-imprensa ocidental repete, em frenesi, que seria “moderado”, com “impecáveis credenciais revolucionárias” e que deseja, segundo suas próprias palavras, conduzir a Síria na direção de converter-se em “estado cívico”.

É farsa tão ridícula quanto os contos das Gataghazis. Al-Khatib já disse que os problemas sírios só se resolvem com “armas”. A França – a qual, sob Hollande, permanece tão pateticamente neocolonialista quanto nos idos do rei Sarkô – já o reconheceu como líder e também reconheceu a nova oposição, criada essencialmente por pressão dos EUA e do Qatar, sob vagas promessas de muito dinheiro.

Maaz al-Khatib
Al-Khatib – ex imã da mesquita Umayyad em Damasco, posição que jamais obteria sem o aval da inteligência síria – é conhecido por ter convocado a Jihad para salvar o mundo muçulmano (há notícia em árabe, mas nada que o Google Translate não dê conta [4]). E o golpe fatal: Al-Khatib está convencido de que Facebook é complô de EUA-Israel contra os árabes. [5]

Com amigos como EUA, França, Arábia Saudita, Qatar e Turquia, a Síria não precisa de inimigos. Quanto à volta do chicote no lombo de quem chicoteia, preparem-se: o que aconteceu em Benghazi é só o aperitivo do que os inimigos dos EUA estão preparando.

Os EUA já não podem contar, nem com Petraeus, nem com Allen para defender a pátria? Ora! Podem convocar Jill Kelley! Ela a-do-ra quatro estrelas!



Notas de rodapé

[1]  Aprox., “uma máquina de matar enxuta”. A expressão aplica-se aos Marines e circulou muito, em tom de elogio e propaganda em 2004, na tomada de Fallujah, no Iraque. Vídeo a seguir:


[2]  Vídeo a seguir:


[4]  27/10/2012, Darbuna, Ahmed Maaz Khatib al-Hassani em: Arquivo Diário de 27/10/2012(Para ler em português acione o Google Translate).

[5] 17/2/2008, Darbuna, Ahmed Maaz Khatib al-Hassani em: “Arquivo Diário de 17/2/2008  (Para ler em português acione o Google Translate).

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