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segunda-feira, 20 de abril de 2015

Transgênicos: Ucrânia será a portadora do veneno que se espalhará pela Europa

17/4/2015, [*] Ulson Gunnar – Neo Eastern Outlook, NEO
Tradução - mberublue


A Rússia não permite transgênicos
Quando o Washington Post faz a opção de elaborar um condescendente e insultuoso editorial dirigido a nações inteiras defendendo as impropriedades ocidentais, qualquer um pode assumir sem medo de errar que a verdade estará exatamente na direção oposta àquela que oWashington Post quer impor.

No que diz respeito às companhias biotécnicas norte americanas e suas tentativas de infestar o planeta inteiro com organismos geneticamente modificados (Transgênicos ou OGMs), em particular as suas tentativas de corromper toda a Europa com seus venenos indesejados através de uma porta dos fundos (Ucrânia), isso serviu de motivo para a Rússia a alertar seus vizinhos europeus orientais. Até o golpe armado levado a efeito em 2013/2014, também chamado de “Euromaidan” a Ucrânia sempre rejeitou categoricamente os GMOs.

Agora, com um regime comprado e obediente instalado em Kiev, as decisões políticas, econômicas e militares que foram tomadas levaram a Ucrânia à situação de ser mais ou menos uma nação sem soberania. Acompanhando essa perda de soberania, veio uma completa apatia na vontade ucraniana da própria preservação, e por isso a permissão para que ocorresse a semeadura em seus campos com venenos contaminantes e inseguros, que passaram de categoricamente proibidos para a aceitação total.

Isso nos leva de volta para o Washington Post e a mais um de seus editoriais recentemente publicados. Título: “A Rússia afirma que os investimentos ocidentais nas fazendas ucranianas são um plano para dominar o mundo inteiro” (Russia says Western investiment in Ukraine’s farms is a plot to take over the world)Primeiro, o jornal tenta desclassificar as acusações russas de que a Monsanto está atualmente em movimento para a Ucrânia com planos de fazer do país uma enorme fazenda de grãos geneticamente modificados, afirmando que tais acusações são infundadas. Quer dizer, isso até que o próprioWashington Post admite que é exatamente o que a Monsanto está fazendo. A peça assevera:

Há muito tempo que a Ucrânia tenta mostrar-se para a Europa como o futuro celeiro de comida para o continente, afirmando que os investimentos ocidentais são a chave para que se faça a exploração adequada de suas terras negras, hoje impropriamente exploradas. Mas o governo russo insiste em fazer do conhecimento geral que essas conversas de desenvolvimento agrícola não passam de um plano para ajudar companhias como a Monsanto a dominar o mercado mundial.

Então, o jornal admite:

Há muito tempo está proibido na Ucrânia o cultivo de organismos geneticamente modificados, assim como a venda de terras agricultáveis.

Em seguida, admite:

Mas o acordo de associação recentemente assinado entre a Ucrânia e a União Europeia no último ano pode ter criado um novo espaço que potencialmente permita o cultivo de culturas geneticamente modificadas na Ucrânia.

Finalmente, o Post menciona a Monsanto:

A Monsanto – talvez a companhia mais associada com os produtos geneticamente modificados – já declarou seu interesse em investir na Ucrânia ano passado (de se notar que a companhia também opera na Rússia, mas não com organismos geneticamente modificados como o faz na Ucrânia).

Milho transgênico
Em que mais estaria investindo a Monsanto na Ucrânia, além de organismos geneticamente modificados, coisa que não podia fazer antes? A Ucrânia é a vítima perfeita para hospedar a Monsanto e outras companhias semelhantes com seus organismos infectados diretamente no coração da Europa.

Com própria Europa já relaxando alguns de seus regulamentos contra TRANSGÊNICOS (OGMs), provavelmente sem o consentimento da população, que fica a cada dia mais consciente dos perigos e procurando alternativas orgânicas, as companhias como a Monsanto esperam produzir grãos organicamente modificados que se espalharão pelo continente a partir dos campos totalmente desregulados da Ucrânia até que se tornem onipresentes na Europa, como já o são nos Estados Unidos.

Em outros lugares do mundo a agricultura de massa tem tentado usar outras “portas dos fundos” para introduzir seus produtos em regiões onde eles são peremptoriamente rejeitados, incluindo a Ásia, onde o Arroz Dourado foi proposto como uma solução  para a luta contra a “deficiência de vitamina A” mesmo quando se sabe que basta plantar um pouco de cenouras para conseguir esse objetivo de forma muito mais fácil e barata e sem o risco de introduzir uma cepa de arroz que contaminaria irremediavelmente as espécies de arroz asiático, além de serem rejeitadas de pronto pelos consumidores. 

Arroz Dourado (transgênico)
Já em outras ocasiões, como por exemplo na implantação dos interesses ocidentais no Afeganistão, a “ajuda” foi usada como uma maneira de introduzir o agronegócio intensivo e os TRANSGÊNICOS (OGMS) na região.

Então, pela admissão do próprio Washington Post e pelo simples exame do que a Monsanto e companhias semelhantes já fizeram por todo o mundo, eles mesmos não podem deixar de admitir que a Federação Russa está certa ao expor as intenções óbvias da Monsanto na Ucrânia e no resto da Europa.

O jornal Washington Post, assim como muitos outros jornais através da Europa e dos Estados Unidos há muito tempo serve os interesses da elite endinheirada, entre os quais muitos estão no agronegócio intensivo e na biotecnologia agrícola. O Post e outros jornais confundem e ofuscam as intenções da Monsanto até que já seja tarde demais para anular a corrupção genética que suas espécies vegetais modificadas infligem aos campos da Ucrânia, até então protegidos por uma soberania que não mais existe.

Como muitas outras coisas na Ucrânia atualmente, o assim chamado “Euromaidan”, que supostamente deveria impulsionar o país na conquista de mais liberdade e auto determinação, claramente arrancou da Ucrânia as duas coisas. Sua liberdade e sua capacidade de determinar por si mesma o que mais lhe convêm. Partindo de um militarismo imposto a seu povo, para uma economia saqueada por interesses estrangeiros, até um governo direta e literalmente presidido por estrangeiros e finalmente chegando agora a seus campos que serão envenenados por TRANGÊNICOS, a ruína da Ucrânia está próxima de completar-se, e será vista como um testemunho perene do que quer dizer na realidade o ocidente quando fala em “democratização”.

Manifestação contra transgênicos na França

Ninguém comprará as espécies envenenadas pela modificação genética

Ainda nos comentários feitos pela Rússia sobre a iminente espoliação da indústria agrícola da Ucrânia pela Monsanto e outras congêneres, o Post relata:

Nikolai Patrushev, Secretário do Conselho de Segurança russo disse em um encontro na terça feira com seus congêneres na Organização de Cooperação de Xangai, que o ocidente tem planos de cultivar “espécies geneticamente modificadas” na Ucrânia. Sugeriu que isso seria um erro crasso, porque, “para não dizer outra coisa, a Europa jamais aprovará tais produtos”.

Como colaborador e lobista do agronegócio intensivo, o Washington Post tenta subestimar este fato. Mas em outros locais, mesmo dentro da mídia ocidental, existem reportagens mostrando que mesmo os Estados Unidos, indubitavelmente uma potência agrícola, tem que importar milho orgânico porque os consumidores norte americanos se recusam a comer os produtos oriundos de organismos geneticamente modificados que são cultivados nos EUA.

Vários transgênicos cultivados no mundo
(Clique na imagem para aumentar)

Em sua reportagem “Como os consumidores exigem comida orgânica, os Estados Unidos são forçados a importar milho” (orig. U.S. forced to import corn as shoppers demand organic food) a Bloomberg (agência de notícias de finanças e mercado, com abrangência mundial – NT) assevera:

Uma demanda crescente por orgânicos e a recente dependência total dos agricultores norte americanos dos produtos geneticamente modificados, nomeadamente milho e soja, tornaram inevitável um aumento de importações de outras nações nas quais as espécies, em grande parte, ainda estão livres de bioengenharia. Importações como o milho da Romênia e a soja da Índia estão em expansão, de acordo com uma análise de dados do comércio dos Estados Unidos realizada quarta feira pela Organização de Comércio de Produtos Orgânicos e a Universidade Estatal da Pennsylvania.

A humilhação que representa o fato de um país historicamente auto suficiente ter que importar um grão tão básico como o milho porque a sua produção doméstica está totalmente envenenada é uma lição que qualquer ucraniano deveria anotar e observar atentamente para o bem não apenas de sua dignidade, mas de seu próprio senso de sobrevivência. Mesmo quando o “milagre” dos organismos geneticamente modificados se tornou pó no esperto mercado norte americano, as corporações estadunidenses estão subornando o infinitamente servil regime que tomou lugar na Ucrânia, para colocar o pescoço daquele país na mesma forca.

Porém em uma coisa o Washington Post está correto. A Rússia está louca se pensa que a Monsanto está para dominar o mundo inteiro. A corporação, apesar de incontáveis bilhões de dólares gastos em lobbies, propaganda, subornos [inclusive no AGRONEGÓCIO aqui no Brasil (Nrc)] e outras formas de persuasão de massa, está falhando miseravelmente em convencer as pessoas a ingerir seus venenos, mesmo naqueles países onde está firmemente estabelecida. No entanto, a Rússia tenta lançar alguma luz sobre o que a Monsanto está tentando fazer na Ucrânia, obviamente contra os próprios interesses do país. Trata-se apenas de mais um exemplo de como o golpe levado a efeito no assim chamado “Euromaidan” nada tinha a ver com liberdade, e tudo a ver com o sequestro de mais um país por Washington e Wall Street, e da pilhagem de seus recursos, em detrimento do próprio povo, tudo em nome da “democracia”.

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[*] Ulson Gunnar – Ulson Gunnar é jornalista e escritor baseado em New York, especialista em geopolítica. Escreve especialmente para NEO – New Eastern Outloock.
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domingo, 3 de agosto de 2014

Quando Israel já não existir, o mundo ainda falará, com honra, dos túneis do Hamás

Os túneis de Cu Chi: o poderoso passado do Vietnã

Sistema típico de túneis do Vietcong
(clique na imagem para aumentar)

2/5/2004, [*] Tibor Krausz, The Washington Post  
Excerto traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

“Os túneis são monumento universal poderoso da força do desejo humano contra as mais inenarráveis calamidades”

Cu Chi - esquema de túneis 
(clique na imagem para aumentar)
Há luz no fim do túnel – literalmente, uns três metros à frente. Minhas pernas doem de tanto engatinhar, coberto de lama, o suor pingando do rosto.

“Preparado para o terceiro nível?” – Tien me provoca, falando por cima do ombro abaixado. – “Claro”, menti, até que emergimos – e afinal havia espaço para ficar em pé – num dormitório subterrâneo onde se viam colchões feitos de restos de paraquedas norte-americanos remendados, como espécie de bandeiras esticadas entre quatro bambus espetados no chão lamacento. Tien – meu guia, magro como espeto, ágil como lagarto, 22 anos – conduzira-me por 40 metros de túneis, um caminho complexo como rede subterrânea de canos, de teto claustrofobicamente baixo e estreitíssimos, com espaço só para engatinhar.  

Túnel atual (1,2m) com o dobro da altura original
“Temos muita sorte” – disse Tien quando afinal consegui esticar as pernas. – “Durante a Guerra Americana, esses túneis tinham metade dessa altura, e as pessoas tinham de se arrastar sobre a barriga.” Nem havia, pensei eu, as lanternas tão úteis dispostas ao longo do percurso. Mas mesmo com esses luxos de hoje e sem o perigo de armadilhas mortais a cada passo e de haver um inimigo em cada canto do túnel, ainda é muito assustador andar por esses túneis.

Cozinha subterrânea
(clique na imagem para aumentar)
Estamos cerca de 5 metros abaixo da superfície, engatinhando por um conjunto de túneis conservados como monumento à Resistência dos Vietcongs em Ben Duoc, distrito de Cu Chi, cerca de 65 km a noroeste da cidade de Ho Chi Minh, ex-Saigon. Esses túneis são parte de uma rede de parques temáticos que o governo do Vietnã mantém por todo o país, em homenagem aos heróis da guerra de Resistência vietnamita contra os EUA, que inclui dentre outros, trechos conservados da Zona Desmilitarizada ao longo do paralelo 17, e áreas de My Lai onde aconteceu um dos maiores massacres de toda a guerra, de moradores da região, por soldados dos EUA.

Uma das entradas/saídas dos túneis
Os túneis são monumento universal poderoso da força do desejo humano contra as mais inenarráveis calamidades.

Cerca de 100 metros andando para baixo e já descemos outros 4 metros (a curta distância da área permanentemente saturada de água) e chegamos ao 3º nível de um labirinto subterrâneo de quatro pisos que, na origem, estendia-se por talvez mais de 240 quilômetros. Não importa o que você pense sobre a Guerra Americana (que é como os vietnamitas chamam o que o ocidente conhece como Guerra do Vietnã) e as causas que a geraram, é obrigatório baixar a cabeça em homenagem à coragem e à decisão dos soldados vietnamitas: pelo menos 45 mil homens e mulheres do Vietnã morreram defendendo esses túneis de Cu Chi.

Armadilha com estrepes nas entradas/saídas dos túneis
Os túneis são uma rede que poderia ser sempre ampliada, engenhosamente disfarçada, de abrigos para guerrilheiros, que se estendiam dos arredores de Saigon até a fronteira do Camboja, e que interconectava arsenais, vilas e bases de apoio para os vietnamitas. Ali havia pontos de descanso, bancadas de produzir armas, munição, apetrechos de autoproteção, cozinhas com chaminés para dispersão de fumaça e odores e, até, auditórios e salas de projeção de filmes.

Respiradouro 
Entrada/saída aumentada para visitação
Escada subterrânea usualmente construída sob alçapão em alguma das casas de vila
Como era/é a movimentação nos túneis
(clique na imagem para aumentar)
Localização das "facilidades"
(clique na imagem para aumentar) 
Construídos ao longo de duas décadas, a partir do início dos anos 1940s, os túneis dariam abrigo a soldados-camponeses que nem sapatos tinham, contra exército militar incomparavelmente mais equipado e armado. “Meu avô e meu pai, os dois, ajudaram a construir esses túneis” – diz Tien, cheio de orgulho. Os moradores da região cavavam o solo de argila vermelha (mole demais durante as chuvas de monções e duro como pedra durante a estação seca) com enxadas e com as próprias mãos. (...)



[*] Tibor Krausz é jornalista e escritor atualmente baseado no Sudeste Asiático. Escreveu sobre ampla variedade de assuntos da América do Norte, Europa, Oriente Médio e em todo o Sudeste Asiático. É correspondente da revista The Jerusalem Report e do jornal The Christian Science Monitor. Seus artigos também são publicados pelos The Washington Post, The Jerusalem Post, The Sydney Morning Herald, The South China Morning Post, The Guardian Weekly, The National Post e muitas outras publicações. Destacamos, entre muito outros artigos, um sobre a estada de uma semana com a auto-proclamada Tribo Perdida de Israel (orig.: Lost Tribe of Israel) em local remoto do nordeste da Índia; outro contando sobre a degustação de foie gras em almoço privado com o rei Sihanouk do Camboja no Phnom Penh's Grand Palace; outros sobre os apertos que passou desviando-se de balas no centro de Bangkok, enquanto escrevia sobre a sangrenta repressão do exército tailandês contra os manifestantes anti-governamentais; e sobre seu renascimento espiritual obtido, como se acredita, colocando-se em um caixão durante uma cerimônia de purificação na Tailândia no Coffin Temple.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Íntegra do acordo de cessar-fogo [e fim do bloqueio! Grande vitória do Hamás] na Faixa de Gaza


21/11/2012, Washington Post, EUA
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Comentário entreouvido na Vila Vudu: Essa é a íntegra do acordo de cessar-fogo [e fim do bloqueio] entre Israel e os palestinos [o Washington Post não explica, mas, de fato, o acordo é entre Israel e o Hamás] em Gaza. O texto foi distribuído em conferência de imprensa no Cairo, na presença da Secretária de Estado Hillary Clinton [que ninguém sabe por que estava lá ou o que fazia! O patrocinador do acordo é, completamente, O EGITO] e do Ministro de Relações Exteriores do Egito, Mohamed Amr...


1. a. Israel deve cessar todas as hostilidades na Faixa de Gaza, em terra, mar e ar, inclusive incursões contra indivíduos [orig. targeting of individuals].

b. Todos os grupos palestinos devem cessar todas as hostilidades a partir da Faixa de Gaza contra Israel, inclusive o lançamento de foguetes e ataques nas áreas de fronteira.

c. Devem-se abrir todas as passagens e facilitar o movimento de pessoas e o trânsito de bens e produtos e devem ter fim todas as restrições à livre movimentação dos residentes em áreas de fronteira. Os procedimentos para implementar essas medidas devem começar a ser analisados e definidos 24 horas depois do início do cessar-fogo.

d. Outras questões que se imponham serão analisadas com a rapidez necessária.

2. Mecanismo de implementação:

a. Esse cessar-fogo entra em vigência à zero hora.

b. O Egito receberá garantia das partes de que cada parte se compromete a cumprir o que fica aqui acordado.

c. Cada parte se compromete a não praticar atos que firam os termos desse acordo. Em caso de ocorrências que firam o que aqui fica acordado, o Egito, como patrocinador desse termo de entendimento, deve ser notificado, para acompanhamento.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Documentos secretos espalhados pelo chão, nas ruínas do consulado dos EUA em Benghazi, Líbia


3/10/2012, Michael Birnbaum, Washington Post
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na Vila Vudu:  Dizer “caos total” e “loucura total” é pouco. Francamente. Mas, afinal, ninguém conseguiria fazer bem feitas tantas guerras, em tantos pontos tão distantes, todas ao mesmo tempo, né-não? Pior do que está fica.

Michael Birnbaum
BENGHAZI, Líbia — Mais de três semanas depois dos ataques nessa cidade, dos quais resultou a morte do embaixador dos EUA na Líbia e de três outros cidadãos norte-americanos, ainda há hoje documentos sensíveis, praticamente sem qualquer proteção, nas ruínas da missão dos EUA aqui. Qualquer pessoa pode ler sem qualquer dificuldade sobre detalhes secretos das operações dos EUA na Líbia.

Documentos com detalhes dos esforços para receber e distribuir armamento, protocolos secretos para evacuação de emergência, todo o roteiro da viagem que o embaixador Christopher Stevens fez em território líbio até Benghazi e anotações sobre os líbios contratados para fazer a segurança da missão estavam hoje entre os itens espalhados pelo chão do complexo, quando um repórter do Washington Post e um intérprete visitaram o prédio.

Apesar de os portões principais do complexo terem sido trancados (vários dias depois do ataque), o prédio foi visitado por saqueadores e caçadores de curiosidades, que entravam e saíam livremente, nos dias de caos generalizado, logo depois do ataque. Já se suspeita que muitos documentos tenham sumido.

O governo líbio não providenciou qualquer tipo de zeladoria ou guarda para o prédio, e investigadores líbios só o visitaram uma vez, segundo membros da família do proprietário do prédio, que acompanharam a visita dos jornalistas, hoje cedo.

Dois guardas de uma empresa privada de segurança, pagos pelo proprietário do prédio, são a única vigilância que se vê no local, onde há duas grandes casas de residência, além da construção onde funcionava o consulado, cercada, apenas em alguns pontos, por um muro de apenas 1,5m de altura.

Mark Toner
“A segurança do local tem sido um problema, é claro” – disse Mark Toner, vice-porta-voz do Departamento de Estado, em resposta a perguntas sobre as atuais condições do prédio em Benghazi. “Tivemos de evacuar o pessoal do governo dos EUA, na noite do ataque. Depois do ataque, pedimos reforço de segurança para o local, e continuamos a trabalhar sobre isso com o governo líbio”.

Entregamos ao Departamento de Estado cópias de alguns dos documentos que encontramos no local. Ninguém nos pediu sigilo, nem que o conteúdo dos documentos não fosse publicado.

Nenhum dos documentos está marcado como secreto, mas não é a primeira vez que jornalistas tropeçam em documentos desse tipo nas ruínas daquele prédio. A rede CNN encontrou lá, mês passado, páginas do diário do embaixador e divulgou detalhes, o que lhes valeu furiosa resposta do Departamento de Estado. Diferentes daquele diário, os documentos que encontramos são todos documentos oficiais.

Pelo menos um dos documentos encontrados entre os destroços indica que os norte-americanos que trabalhavam ali estavam discutindo o risco de algum tipo de ataque no início de setembro, o que se lê em comentário datado de dois dias antes do ataque que destruiu o prédio. O documento é um memorando datado de 9 de setembro, do gabinete do encarregado da segurança do consulado dos EUA e dirigido à Brigada dos Mártires “17 de fevereiro”, a milícia aliada do governo líbio que fazia a guarda do consulado, no qual se traçam planos para organizar uma “quick reaction force”, QRF [força de reação rápida], que garantiria a segurança do consulado e do pessoal.

“No caso de a missão dos EUA ser atacada” – diz o documento – a QRF solicitará apoio adicional da Brigada dos Mártires “17 de fevereiro”.

Outro documento informa – nomes, fotografias, números de telefone e outras informações pessoais – sobre os líbios contratados para fazer a segurança da missão, empregados de uma empresa privada britânica, Blue Mountain. Alguns desses líbios dizem que temem hoje pela vida. E o Departamento de Estado já disse que também se preocupa com a segurança deles. (...)

Os empregados da empresa Blue Mountain deveriam fazer trabalho complementar de segurança, junto com os membros da milícia armada. Guardas dos dois grupos estavam na missão, na noite de 11/9.

No memorando não assinado, da missão dos EUA para a milícia, que parece ser um rascunho, solicita-se que “os guardas comprem e façam a manutenção de suas armas e munição” – nos termos do documento.

A segurança parece ter sido sempre mínima, com três ou mais membros, sempre que o “funcionário superior” – o chefe da missão ou o embaixador – estivessem no complexo.

Estando ausente o funcionário superior, só um membro da milícia permanecia à frente do prédio, junto ao portão principal, das 8 h da manhã até a meia-noite. Entre meia-noite e 8 h da manhã, um miliciano era escalado para fazer a ronda em torno do complexo. Os milicianos deviam trabalhar um mínimo de oito horas por dia, e recebiam, como pagamento, $28 por dia, o que se pode considerar salário médio em Benghazi. E moravam no complexo.

O memorando diz que a milícia deve reunir mais guardas, chamados de um outro complexo próximo da missão dos EUA, no caso de a missão ser atacada, sugerindo que os norte-americanos preocupavam-se com o risco de a guarda regular ser insuficiente numa emergência.

Embaixador Chistopher Stevens
O itinerário da viagem de Stevens até Benghazi inclui uma lista de praticamente todos seus movimentos previstos para o período em que lá permanecesse, dado que a visita estava prevista para durar de 10 a 15 de setembro. Nessa lista há nomes e números de telefones de líbios já agendados para encontrar-se com o embaixador. Alguns desses sírios não divulgaram publicamente seus contatos com Stevens e podem vir a ser ameaçados no caso de esse relacionamento ser tornado público.

A agenda prevê reuniões de briefings com funcionários americanos, um jantar privado com influentes líderes locais e reuniões com chefes de milícias, empresários, ativistas da sociedade civil e professores. O ponto alto da visita foi a inauguração do American Space, centro previsto para funcionar como centro educacional e núcleo de irradiação da cultura dos EUA.

Inúmeras cópias dessa agenda-itinerário estavam ainda espalhadas pelo chão de várias salas do complexo. Uma delas parece ser a cópia do próprio embaixador; estava no chão, perto de uma cadeira, no dormitório onde o embaixador dormia.

O complexo ainda cheirava a fumaça hoje, e todos os prédios foram saqueados. Mobília revirada, vidros quebrados, papéis e documentos por toda parte. Lustres no chão. E, numa cozinha, comida apodrecida.

Mas na parte externa do complexo, os jardins estão floridos e absolutamente nada sofreram. Há goiabeiras carregadas de goiabas; grandes cachos de uvas pendendo das fileiras de vinhas.

Novos guardas recém-contratados parecem estar vivendo numa pequena guarita, junto ao portão principal, onde se vê um acolchoado fino no chão e utensílios para preparar refeições.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O Pentágono quer enlouquecer... os “jihadistas”!


Acredite quem quiser

11/8/2011, Tom Engelhardt, Tom Dispatch
Aug 17, 2011 Asia Times Obline,
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Inclua o que você lerá adiante na categoria dos parágrafos de jornal que ninguém leu, mas que, se lidos, poriam a nação de cabelos em pé. É parágrafo para provocar calafrios nos políticos, disparar os alarmes de incêndios e catástrofes e ‘ameaças’, e seria excelente motivo para que os deputados e senadores mudassem de assunto e parassem, afinal, de fingir que discutem a ‘crise’ da dívida dos EUA.

Semana passada, dois repórteres do New York Times, Eric Schmitt e Thom Shanker, publicaram matéria na Sunday Review daquele jornal sob o título “Depois do 11/9, uma era de espiões que são cozinheiros, funileiros, encanadores, pedreiros, carpinteiros, alfaiates e jihadistas”.[1] A matéria comentava os mais recentes avanços do pensamento do Pentágono sobre contraterrorismo: a teoria da “detenção” [orig. deterrence]. (Evidentemente, um amálgama de velhas ideias sobre “contenção” da Guerra Fria, com bomba atômica para destruir quem não se deixe “conter” e tenha de ser “detido”, requentadas pelos rapazes que habitam hoje, em tempos de Jihad, o prédio de cinco lados.) O artigo de Schmitt e Shanker é, como os leitores são informados em nota, adaptação de pesquisa que os repórteres estão fazendo para seu próximo livro, Counterstrike: The Untold Story of America’s Secret Campaign Against Al Qaeda.

Copio aqui, então, o tal parágrafo, enterrado no meio da matéria, e que, se tivesse sido lido, faria os leitores saltarem, em pânico, das poltronas do domingo:

“Consideremos o que os especialistas norte-americanos em computadores estão fazendo pela internet, talvez o mais amplo paraíso seguro de terroristas, pela qual recrutam, levantam dinheiro e planejam ataques futuros em escala global.
Especialistas norte-americanos tornaram-se super eficientes no trabalho de forjar as assinaturas eletrônicas que a Al Qaeda usa para autenticar suas declarações e manifestos distribuídos pela rede, e postam ordens e instruções dirigidas aos militantes, algumas delas tão horrendas que, como o Pentágono espera, farão vacilar a convicção de jovens jihadistas, que ainda não se tenham decidido a abraçar definitivamente a causa; o plano do Pentágono prevê que, ante ordens para que executem ações tão terríveis, muitos jovens recuarão e se afastarão do movimento Jihad.”

Os itálicos são meus. Como os autores sugerem que façamos, espiemos por um momento por essa inacreditável, bizarra, pequena janela que se abre para o modo como o Pentágono pensa. Para começar, não se sabe onde trabalham esses “especialistas norte-americanos em computadores”. Talvez trabalhem no Pentágono, talvez em alguma sala do National Counterterrorism Center, mas, sejam quem forem e trabalhem onde trabalharem, a pergunta da semana, do mês, do ano é a seguinte: “Que diabo serão as tais “ordens e instruções” que distribuem, e que, de “tão horrendas”, “farão vacilar a convicção de jovens jihadistas, que ainda não se tenham decidido a abraçar definitivamente a causa”?

Mesmo que nossos especialistas em computadores fossem, de fato, capazes de convencer jovens muçulmanos ainda vacilantes a desertar de suas crenças jihadista  – e eu não apostaria um vintém nas competências do Pentágono nesse campo –, o que estará acontecendo com jovens muçulmanos (e também velhos, por que não?), que absolutamente não sejam vacilantes e já se decidiram a abraçar definitivamente a causa... E que tomem como autênticas as ordens “horrendas” que recebam (do Pentágono), para praticar ações “tão terríveis”?!

É situação potencialmente Frankenstein – e só nos restam perguntas e mais perguntas. Que tipo de monstros os especialistas militares do Pentágono (especialistas em computadores) estão fabricando? 

Outra pergunta: quem, exatamente, supervisiona o trabalho desses “especialistas” e as mensagens “horrendas” que saem da cabeça deles? (Deve-se supor que não escrevam em inglês; e todos sabemos que agentes realmente competentes nas línguas árabe, pashtum, dari e farsi – escritas! – são poucos no Pentágono, não estão todos no mesmo local e, assim sendo... Quem confere o que seja lá quem for realmente escreve?!)

Não podemos esquecer que já tivemos exemplo de programa semelhantemente alucinado, sem supervisão possível, que acabou sendo descoberto, chegou aos jornais revelado como escândalo e resultou na morte – real, não cenográfica – de pelo menos dois agentes da Polícia de Fronteira dos EUA, além, é claro, de muitos mexicanos. 

No final de 2009, a Agência Federal do Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos lançou um hoje infame programa de rastreamento de armas no Arizona, chamado “Operação Rápidos e Furiosos” (referência a uma série de filmes sobre carros e disputas de ‘rachas’ urbanos). O objetivo era rastrear as armas que os cartéis de drogas vendiam através da fronteira; para tanto, o programa fez circular pela fronteira armas reais; como depois se soube, mais de 2.000. Segundo o Washington Post, os agentes da polícia de fronteira “receberam instruções para não agir nem questionar [os contrabandistas de armas], e deixar as armas serem levadas, com o objetivo de descobrir para onde iam”. Foi exatamente o que os agentes fizeram durante mais de um ano, até que se descobriu – e não se sabe quem ainda não sabia disso – que as armas “chegaram às ruas” e às piores mãos imagináveis.

Jon Stewart, no programa Daily Show, levantou problema interessante: “Se o Plano que a Agência Federal de Armas de Fogo aprovou para impedir que armas norte-americanas caiam na mãos dos cartéis de droga é fornecer armas americanas aos cartéis de droga... Queria saber, por favor: Que planos eles rejeitaram?”

Pode-se fazer a mesma pergunta também sobre o programa anti-jihadismo do Pentágono, que envolve mensagens que, supostamente, devem soar ‘extremistas demais’ aos ouvidos de jovens muçulmanos, a ponto de levá-los a abandonar o movimento. Não seria hora de alguém tomar providências para saber que ‘ordens’ horrendas o Pentágono anda distribuindo para jihadistas?

O que, diabos, os tais “especialistas” estão mandando os jihadistas fazerem? E se, em vez de levá-los a desistir da causa, as ordens “horrendas” forem tomadas ao pé da letra? Afinal, se os jovens jihadistas são pressupostos “confusos e contráditórios”, nada impede que tomem as “ordens horrendas” como... perfeitamente exequíveis e, mesmo, altamente recomendáveis para imediata execução! E se isso acontecer, e os jihadistas interpretarem as ordens de modos não previstos pelos seus mandantes do Pentágono... E se alguém morrer numa dessas “ações horrendas”? E mesmo que em alguns casos funcionem como o Pentágono prevê que funcionem, o que impede que as mesmas mensagens funcionem diferentemente, noutros casos? E o que impede, por exemplo, que algumas daquelas “ordens horrendas” sejam horrendas a ponto de ordenar ações contra norte-americanos?

Não há dúvidas: alguém deve imprimir aquele parágrafo de Schmitt e Shanker num cartaz gigante e colar num muro que se veja do Capitólio, até que alguém exija ampla investigação do ‘programa’ do Pentágono para jihadistas jovens. Se já aconteceu no Comitê de Armas de Fogo, por que não aconteceria também no Pentágono? Alguém consegue pensar em malversação mais completa, do dinheiro dos contribuintes? (...)

Não pensem em “contenção” nem em “detenção”. Pensem em receber o troco, pelo que os EUA estão fazendo ao mundo. E se algum dia descobrirmos que “especialistas em computadores” a serviço do Pentágono e sob ordens do Pentágono podem ser os responsáveis por algum ataque “horrendo” contra nós mesmos?



Nota dos tradutores
[1] 7/8/2011, NYT, Sunday Review, “After 9/11, an Era of Tinker, Tailor, Jihadist, Spy”.