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terça-feira, 5 de agosto de 2014

As mentiras de Israel: sem olhos em Gaza

3/8/2014, [*] Jonathan Cook (de Nazaré), Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Soldado Hadar Goldin - capturado em combate
Um incidente no fim de semana – a noticiada captura, pelo Hamás, de um soldado israelense na 6ª-feira (1/8/2014), servindo-se de um dos túneis – serviu para ilustrar de modo notável as camadas de mentiras que Israel tem conseguido lançar sobre os fatos do ataque contra Gaza.

No domingo, com o exército dando sinais de que iniciaria retirada limitada, Israel declarou que Hadar Goldin estava morto, possivelmente soterrado num dos túneis que teria desabado sob bombardeio naquela área. A família do soldado disse que o exército o abandonara.

Nem os funcionários do governo de Israel nem a imprensa viram de modo objetivo a operação do Hamás. Goldin não teria sido “capturado”, mas sequestrado – como se estivesse passeando e tivesse sido atacado por ladrões de rua.

Como acontece frequentemente, muitos jornalistas ocidentais acompanharam a versão dos israelenses. O London Times gritava na primeira página: “Sequestrado em Gaza”. O Boston Globe trazia matéria sobre “soldado israelense apanhado”.

Pelas reações ocidentais, era claro, também, que a captura do soldado era considerado notícia mais importante que qualquer dos massacres de civis palestinos ao longo de semanas.

O cálculo cínico de Israel – um soldado valeria mais que grande número de civis palestinos mortos – ecoou pelos corredores da diplomacia e das redações em Washington, Londres e Paris.

Rafah, onde o soldado Goldin foi capturado em operação de guerra
Foi posta em circulação também a falsa “notícia” segundo a qual, ao atacar um grupo de soldados em Rafah e capturar o soldado Goldin, o Hamás teria violado os primeiros minutos de um cessar-fogo humanitário de 72 horas.

O Washington Post noticiou as circunstâncias em que um suicida-bomba do Hamás teria emergido de um túnel para explodir-se, o que teria matado dois soldados e Goldin foi puxado para dentro do túnel:

Na manhã de 6ª-feira (1/8/2014), soldados israelenses trabalhavam no sul da Faixa de Gaza, preparando-se para destruir um túnel do Hamás, como informaram oficiais militares israelenses. De repente, militantes palestinos emergiram de um buraco.

O repórter da CBS, Charlie D’Agata papagueou o mesmo briefing distribuído aos jornalistas pelos israelenses; e, como tampouco o WPost, não percebeu que estava expondo a grande mentira geral.

O soldado teria sido “sequestrado durante operação para limpar os túneis. E o sequestro teria acontecido depois de o cessar-fogo ter sido declarado” – como os israelenses e seus jornalistas de serviço não se cansavam de repetir. Mas... se o cessar-fogo já estava vigente, o que faziam naquela área o soldado Goldin e seus companheiros, explodindo túneis? Caberia talvez aos combatentes do Hamás entrar nos túneis e esperar para serem explodidos durante o cessar-fogo? Ou quem violava o cessar-fogo era, isso sim, Israel?

Túnel típico do Hamás em Gaza
Então, veio a explosão de fúria dos militares israelenses, quando perceberam que faltava um soldado. Os correspondentes israelenses admitiram que foi invocado o “procedimento Hannibal”: usar de todos os meios possíveis para impedir que qualquer soldado seja capturado vivo; inclusive matá-lo. A ideia é impedir que o inimigo tenha uma vantagem psicológica na negociação.

A furiosa massa de fogo parece ter sido ordenada para garantir que nem Goldin nem seus captores jamais saíssem vivos daquele túnel; mas, nesse processo, Israel matou dúzias de palestinos.

Foi mais uma ilustração de que Israel absolutamente não se preocupa com a segurança de civis. Pelo menos ¾ dos mais de 1.700 palestinos assassinados até agora são não-combatentes; e praticamente todas as baixas israelenses são soldados. Esse tem sido o padrão em todos os recentes confrontos em que Israel esteve envolvida.

Também as justificativas dos israelenses para levar a luta para dentro de Gaza vieram recheadas com camadas e camadas de mentiras.

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu disse que Israel teria sido arrastada para uma guerra de necessidade. Barack Obama imediatamente lhe fez eco: Israel teria pleno direito de defender-se de uma barragem de foguetes lançados de Gaza. Na sequência o pretexto passou a ser “destruir os túneis do terror”. A lógica, aí, é profundamente viciada.

O Hamás luta pela liberdade de Gaza e dos TPO's
Israel está ocupando e sitiando Gaza, o que confere aos gazenses o direito, nos termos da lei internacional, de lutar pela própria liberdade. Como seria admissível que o violador das leis, o opressor, o ocupante, mantivesse algum direito de autodefesa? Se Israel tem objeções a ser atacada e agredida, Israel que pare de fazer, da vida de suas vítimas, um inferno sem fim.

O grau no qual a narrativa da “autodefesa” de Israel passou a dominar toda a cobertura “jornalística” e todas as declarações “diplomáticas” apareceu muito claramente numa entrevista na CNN. A âncora Carol Costello perguntou com ar muito sério, a um entrevistado com ar de susto ante a imbecilidade da pergunta: “Por que o Hamás não mostra a Israel onde estão aqueles túneis?”.

Também significativamente, Israel também ocultou a verdade de que se serviu de um acontecimento exterior, para essa nova rodada de ataques contra o Hamás – e de que o fez calculadamente.

Uma repórter da BBC confirmou recentemente com um porta-voz da polícia israelense um boato que circulava entre os correspondentes militares já há semanas. Já se sabia que o grupo que sequestrou os três israelenses na Cisjordânia – evento que teria motivado a campanha de Israel contra o Hamás – agira sozinho, por conta própria.

Netanyahu mentiu que teria provas abundantes de que o Hamás teria sido responsável; foi o que bastou para que o exército se pusesse a prender centenas de membros do Hamás e a bombardear as instituições do partido na Cisjordânia.

Nathan Thrall
O ataque foi a provocação necessária: o Hamás autorizou os seus grupos ativistas a lançar os primeiros foguetes, ainda em número limitado. O analista Nathan Thrall observou recentemente que o Hamás havia impressionado o exército israelense até ali, porque havia feito valer o cessar-fogo acordado com Israel 18 meses antes; e, isso apesar de Israel ter violado os termos do mesmo acordo e mantido o cerco de Gaza.

Afinal, com os foguetes, Netanyahu encontrou a desculpa de que precisava para atacar Gaza.

Mas qual foi a razão real de Netanyahu para atacar Gaza dessa vez? Para que se serviu de tantas mentiras e encenações? Para esconder o quê?

Parece que Netanyahu quis pôr fim a uma ameaça estratégica: não os foguetes nem os túneis do Hamás, mas o governo de unidade entre os dois partidos políticos e antigos rivais, Hamás e Fatah. A unidade palestina criava o risco de aumentar a pressão sobre Netanyahu para negociar; ou, talvez, de fazer ressurgir uma campanha mais crível, dessa vez, pelo reconhecimento da soberania do estado palestino na ONU.

Mas o impressionante aparelho de guerra do Hamás, surpreendente, de fato, dessa vez, contra Israel – Israel perdeu dúzias de soldados; e os foguetes, agora, de longo alcance contra Israel (o Hamás conseguiu manter fechado o único aeroporto internacional de Israel por alguns poucos dias), e o tempo de resistência, que causou perdas de mais de US$4 bilhões para a economia israelense – obrigaram Netanyahu a retroceder e a mudar seus planos.

Por hora, Netanyahu parece estar preferindo retirar os soldados israelenses, em vez de ser empurrado, por pressão internacional, a negociar com o Hamás. Ele sabe que a principal demanda será que Israel ponha fim ao cerco de Gaza.

Benyamin Netanyahu
Mas, no longo prazo, é possível que Netanyahu venha a precisar da unidade palestina, pelo menos nos seus próprios termos, como meio para “controlar” o poder e os ganhos do Hamás.

Quando Israel estava começando seu ataque contra Gaza, Netanyahu virou-se na direção da Cisjordânia. Alertou que “jamais poderá haver qualquer acordo pelo qual descuidemos do controle da segurança” na Cisjordânia, de medo de que, dado o tamanho muito maior da Cisjordânia, o Hamás venha a criar ali “outras 20 Gazas”.

Estava dizendo que jamais haverá estado palestino. Alguma espécie de entidade “desmilitarizada”, circunscrita e absolutamente dependente de Israel e dos EUA, é o máximo que Israel jamais aceitará discutir.

Permitir que Mahmoud Abbas e o Fatah passem a governar também Gaza, sim, justificaria aliviar o cerco. Mas se, e somente se, Abbas assumir a tarefa de pôr fim à infraestrutura militar do Hamás e concordar em exportar para Gaza o modelo que estabeleceu na Cisjordânia – de acomodação incondicional e infindável com Israel e EUA e com o que lhe ordenem.


[*] Jonathan Cook (nascido em 1965) é escritor e jornalista freelance baseado em Nazaré, Israel, que escreve sobre o Oriente Médio e, mais especificamente, sobre o conflito israelense-palestino. Cook nasceu e cresceu em Buckinghamshire, Inglaterra. Recebeu o bacharelado em Filosofia e Política na Southampton University, em 1987, diplomou-se já com pós-graduação em jornalismo na Cardiff University, em 1989 com mestrado em Oriente Médio com estudos na  School of Oriental and African Studies, em 2000. A carreira de foca no jornalismo começou em 1988 como repórter e editor para jornais regionais de anúncios em Southampton no Southampton Evening Echo. Foi sub-editor freelance de vários jornais nacionais no período de 1994 até 1996 como jornalista da equipe do The Guardian e entre 1996 e 2001 do The Observer.
Desde setembro de 2001 Cook, como free lance, está baseado em Nazaré, Israel. Continuou a escrever colunas para o The Guardian até 2007, uma publicação ele abandonou em 2011 em represália ao comportamento do Guardian sobre Gilad Atzmon, Julian Assange, Noam Chomsky e outros escritores e jornalistas. Artigos de Cook também foram publicados no The International Herald TribuneLe Monde DiplomatiqueAl-Ahram WeeklyAl JazeeraThe National (Abu Dhabi), antiwar.com , CounterPunchDissident VoiceThe Electronic IntifadaMondoweissAlterNet e Mídia Lens entre outros. Em 2011, Cook recebeu um prêmio especial Martha Gellhorn de jornalismo por seu trabalho sobre o Oriente Médio. Escreveu 3 livros “solo” e vários outros em coparticipação

domingo, 3 de agosto de 2014

Quando Israel já não existir, o mundo ainda falará, com honra, dos túneis do Hamás

Os túneis de Cu Chi: o poderoso passado do Vietnã

Sistema típico de túneis do Vietcong
(clique na imagem para aumentar)

2/5/2004, [*] Tibor Krausz, The Washington Post  
Excerto traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

“Os túneis são monumento universal poderoso da força do desejo humano contra as mais inenarráveis calamidades”

Cu Chi - esquema de túneis 
(clique na imagem para aumentar)
Há luz no fim do túnel – literalmente, uns três metros à frente. Minhas pernas doem de tanto engatinhar, coberto de lama, o suor pingando do rosto.

“Preparado para o terceiro nível?” – Tien me provoca, falando por cima do ombro abaixado. – “Claro”, menti, até que emergimos – e afinal havia espaço para ficar em pé – num dormitório subterrâneo onde se viam colchões feitos de restos de paraquedas norte-americanos remendados, como espécie de bandeiras esticadas entre quatro bambus espetados no chão lamacento. Tien – meu guia, magro como espeto, ágil como lagarto, 22 anos – conduzira-me por 40 metros de túneis, um caminho complexo como rede subterrânea de canos, de teto claustrofobicamente baixo e estreitíssimos, com espaço só para engatinhar.  

Túnel atual (1,2m) com o dobro da altura original
“Temos muita sorte” – disse Tien quando afinal consegui esticar as pernas. – “Durante a Guerra Americana, esses túneis tinham metade dessa altura, e as pessoas tinham de se arrastar sobre a barriga.” Nem havia, pensei eu, as lanternas tão úteis dispostas ao longo do percurso. Mas mesmo com esses luxos de hoje e sem o perigo de armadilhas mortais a cada passo e de haver um inimigo em cada canto do túnel, ainda é muito assustador andar por esses túneis.

Cozinha subterrânea
(clique na imagem para aumentar)
Estamos cerca de 5 metros abaixo da superfície, engatinhando por um conjunto de túneis conservados como monumento à Resistência dos Vietcongs em Ben Duoc, distrito de Cu Chi, cerca de 65 km a noroeste da cidade de Ho Chi Minh, ex-Saigon. Esses túneis são parte de uma rede de parques temáticos que o governo do Vietnã mantém por todo o país, em homenagem aos heróis da guerra de Resistência vietnamita contra os EUA, que inclui dentre outros, trechos conservados da Zona Desmilitarizada ao longo do paralelo 17, e áreas de My Lai onde aconteceu um dos maiores massacres de toda a guerra, de moradores da região, por soldados dos EUA.

Uma das entradas/saídas dos túneis
Os túneis são monumento universal poderoso da força do desejo humano contra as mais inenarráveis calamidades.

Cerca de 100 metros andando para baixo e já descemos outros 4 metros (a curta distância da área permanentemente saturada de água) e chegamos ao 3º nível de um labirinto subterrâneo de quatro pisos que, na origem, estendia-se por talvez mais de 240 quilômetros. Não importa o que você pense sobre a Guerra Americana (que é como os vietnamitas chamam o que o ocidente conhece como Guerra do Vietnã) e as causas que a geraram, é obrigatório baixar a cabeça em homenagem à coragem e à decisão dos soldados vietnamitas: pelo menos 45 mil homens e mulheres do Vietnã morreram defendendo esses túneis de Cu Chi.

Armadilha com estrepes nas entradas/saídas dos túneis
Os túneis são uma rede que poderia ser sempre ampliada, engenhosamente disfarçada, de abrigos para guerrilheiros, que se estendiam dos arredores de Saigon até a fronteira do Camboja, e que interconectava arsenais, vilas e bases de apoio para os vietnamitas. Ali havia pontos de descanso, bancadas de produzir armas, munição, apetrechos de autoproteção, cozinhas com chaminés para dispersão de fumaça e odores e, até, auditórios e salas de projeção de filmes.

Respiradouro 
Entrada/saída aumentada para visitação
Escada subterrânea usualmente construída sob alçapão em alguma das casas de vila
Como era/é a movimentação nos túneis
(clique na imagem para aumentar)
Localização das "facilidades"
(clique na imagem para aumentar) 
Construídos ao longo de duas décadas, a partir do início dos anos 1940s, os túneis dariam abrigo a soldados-camponeses que nem sapatos tinham, contra exército militar incomparavelmente mais equipado e armado. “Meu avô e meu pai, os dois, ajudaram a construir esses túneis” – diz Tien, cheio de orgulho. Os moradores da região cavavam o solo de argila vermelha (mole demais durante as chuvas de monções e duro como pedra durante a estação seca) com enxadas e com as próprias mãos. (...)



[*] Tibor Krausz é jornalista e escritor atualmente baseado no Sudeste Asiático. Escreveu sobre ampla variedade de assuntos da América do Norte, Europa, Oriente Médio e em todo o Sudeste Asiático. É correspondente da revista The Jerusalem Report e do jornal The Christian Science Monitor. Seus artigos também são publicados pelos The Washington Post, The Jerusalem Post, The Sydney Morning Herald, The South China Morning Post, The Guardian Weekly, The National Post e muitas outras publicações. Destacamos, entre muito outros artigos, um sobre a estada de uma semana com a auto-proclamada Tribo Perdida de Israel (orig.: Lost Tribe of Israel) em local remoto do nordeste da Índia; outro contando sobre a degustação de foie gras em almoço privado com o rei Sihanouk do Camboja no Phnom Penh's Grand Palace; outros sobre os apertos que passou desviando-se de balas no centro de Bangkok, enquanto escrevia sobre a sangrenta repressão do exército tailandês contra os manifestantes anti-governamentais; e sobre seu renascimento espiritual obtido, como se acredita, colocando-se em um caixão durante uma cerimônia de purificação na Tailândia no Coffin Temple.