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terça-feira, 5 de agosto de 2014

As mentiras de Israel: sem olhos em Gaza

3/8/2014, [*] Jonathan Cook (de Nazaré), Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Soldado Hadar Goldin - capturado em combate
Um incidente no fim de semana – a noticiada captura, pelo Hamás, de um soldado israelense na 6ª-feira (1/8/2014), servindo-se de um dos túneis – serviu para ilustrar de modo notável as camadas de mentiras que Israel tem conseguido lançar sobre os fatos do ataque contra Gaza.

No domingo, com o exército dando sinais de que iniciaria retirada limitada, Israel declarou que Hadar Goldin estava morto, possivelmente soterrado num dos túneis que teria desabado sob bombardeio naquela área. A família do soldado disse que o exército o abandonara.

Nem os funcionários do governo de Israel nem a imprensa viram de modo objetivo a operação do Hamás. Goldin não teria sido “capturado”, mas sequestrado – como se estivesse passeando e tivesse sido atacado por ladrões de rua.

Como acontece frequentemente, muitos jornalistas ocidentais acompanharam a versão dos israelenses. O London Times gritava na primeira página: “Sequestrado em Gaza”. O Boston Globe trazia matéria sobre “soldado israelense apanhado”.

Pelas reações ocidentais, era claro, também, que a captura do soldado era considerado notícia mais importante que qualquer dos massacres de civis palestinos ao longo de semanas.

O cálculo cínico de Israel – um soldado valeria mais que grande número de civis palestinos mortos – ecoou pelos corredores da diplomacia e das redações em Washington, Londres e Paris.

Rafah, onde o soldado Goldin foi capturado em operação de guerra
Foi posta em circulação também a falsa “notícia” segundo a qual, ao atacar um grupo de soldados em Rafah e capturar o soldado Goldin, o Hamás teria violado os primeiros minutos de um cessar-fogo humanitário de 72 horas.

O Washington Post noticiou as circunstâncias em que um suicida-bomba do Hamás teria emergido de um túnel para explodir-se, o que teria matado dois soldados e Goldin foi puxado para dentro do túnel:

Na manhã de 6ª-feira (1/8/2014), soldados israelenses trabalhavam no sul da Faixa de Gaza, preparando-se para destruir um túnel do Hamás, como informaram oficiais militares israelenses. De repente, militantes palestinos emergiram de um buraco.

O repórter da CBS, Charlie D’Agata papagueou o mesmo briefing distribuído aos jornalistas pelos israelenses; e, como tampouco o WPost, não percebeu que estava expondo a grande mentira geral.

O soldado teria sido “sequestrado durante operação para limpar os túneis. E o sequestro teria acontecido depois de o cessar-fogo ter sido declarado” – como os israelenses e seus jornalistas de serviço não se cansavam de repetir. Mas... se o cessar-fogo já estava vigente, o que faziam naquela área o soldado Goldin e seus companheiros, explodindo túneis? Caberia talvez aos combatentes do Hamás entrar nos túneis e esperar para serem explodidos durante o cessar-fogo? Ou quem violava o cessar-fogo era, isso sim, Israel?

Túnel típico do Hamás em Gaza
Então, veio a explosão de fúria dos militares israelenses, quando perceberam que faltava um soldado. Os correspondentes israelenses admitiram que foi invocado o “procedimento Hannibal”: usar de todos os meios possíveis para impedir que qualquer soldado seja capturado vivo; inclusive matá-lo. A ideia é impedir que o inimigo tenha uma vantagem psicológica na negociação.

A furiosa massa de fogo parece ter sido ordenada para garantir que nem Goldin nem seus captores jamais saíssem vivos daquele túnel; mas, nesse processo, Israel matou dúzias de palestinos.

Foi mais uma ilustração de que Israel absolutamente não se preocupa com a segurança de civis. Pelo menos ¾ dos mais de 1.700 palestinos assassinados até agora são não-combatentes; e praticamente todas as baixas israelenses são soldados. Esse tem sido o padrão em todos os recentes confrontos em que Israel esteve envolvida.

Também as justificativas dos israelenses para levar a luta para dentro de Gaza vieram recheadas com camadas e camadas de mentiras.

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu disse que Israel teria sido arrastada para uma guerra de necessidade. Barack Obama imediatamente lhe fez eco: Israel teria pleno direito de defender-se de uma barragem de foguetes lançados de Gaza. Na sequência o pretexto passou a ser “destruir os túneis do terror”. A lógica, aí, é profundamente viciada.

O Hamás luta pela liberdade de Gaza e dos TPO's
Israel está ocupando e sitiando Gaza, o que confere aos gazenses o direito, nos termos da lei internacional, de lutar pela própria liberdade. Como seria admissível que o violador das leis, o opressor, o ocupante, mantivesse algum direito de autodefesa? Se Israel tem objeções a ser atacada e agredida, Israel que pare de fazer, da vida de suas vítimas, um inferno sem fim.

O grau no qual a narrativa da “autodefesa” de Israel passou a dominar toda a cobertura “jornalística” e todas as declarações “diplomáticas” apareceu muito claramente numa entrevista na CNN. A âncora Carol Costello perguntou com ar muito sério, a um entrevistado com ar de susto ante a imbecilidade da pergunta: “Por que o Hamás não mostra a Israel onde estão aqueles túneis?”.

Também significativamente, Israel também ocultou a verdade de que se serviu de um acontecimento exterior, para essa nova rodada de ataques contra o Hamás – e de que o fez calculadamente.

Uma repórter da BBC confirmou recentemente com um porta-voz da polícia israelense um boato que circulava entre os correspondentes militares já há semanas. Já se sabia que o grupo que sequestrou os três israelenses na Cisjordânia – evento que teria motivado a campanha de Israel contra o Hamás – agira sozinho, por conta própria.

Netanyahu mentiu que teria provas abundantes de que o Hamás teria sido responsável; foi o que bastou para que o exército se pusesse a prender centenas de membros do Hamás e a bombardear as instituições do partido na Cisjordânia.

Nathan Thrall
O ataque foi a provocação necessária: o Hamás autorizou os seus grupos ativistas a lançar os primeiros foguetes, ainda em número limitado. O analista Nathan Thrall observou recentemente que o Hamás havia impressionado o exército israelense até ali, porque havia feito valer o cessar-fogo acordado com Israel 18 meses antes; e, isso apesar de Israel ter violado os termos do mesmo acordo e mantido o cerco de Gaza.

Afinal, com os foguetes, Netanyahu encontrou a desculpa de que precisava para atacar Gaza.

Mas qual foi a razão real de Netanyahu para atacar Gaza dessa vez? Para que se serviu de tantas mentiras e encenações? Para esconder o quê?

Parece que Netanyahu quis pôr fim a uma ameaça estratégica: não os foguetes nem os túneis do Hamás, mas o governo de unidade entre os dois partidos políticos e antigos rivais, Hamás e Fatah. A unidade palestina criava o risco de aumentar a pressão sobre Netanyahu para negociar; ou, talvez, de fazer ressurgir uma campanha mais crível, dessa vez, pelo reconhecimento da soberania do estado palestino na ONU.

Mas o impressionante aparelho de guerra do Hamás, surpreendente, de fato, dessa vez, contra Israel – Israel perdeu dúzias de soldados; e os foguetes, agora, de longo alcance contra Israel (o Hamás conseguiu manter fechado o único aeroporto internacional de Israel por alguns poucos dias), e o tempo de resistência, que causou perdas de mais de US$4 bilhões para a economia israelense – obrigaram Netanyahu a retroceder e a mudar seus planos.

Por hora, Netanyahu parece estar preferindo retirar os soldados israelenses, em vez de ser empurrado, por pressão internacional, a negociar com o Hamás. Ele sabe que a principal demanda será que Israel ponha fim ao cerco de Gaza.

Benyamin Netanyahu
Mas, no longo prazo, é possível que Netanyahu venha a precisar da unidade palestina, pelo menos nos seus próprios termos, como meio para “controlar” o poder e os ganhos do Hamás.

Quando Israel estava começando seu ataque contra Gaza, Netanyahu virou-se na direção da Cisjordânia. Alertou que “jamais poderá haver qualquer acordo pelo qual descuidemos do controle da segurança” na Cisjordânia, de medo de que, dado o tamanho muito maior da Cisjordânia, o Hamás venha a criar ali “outras 20 Gazas”.

Estava dizendo que jamais haverá estado palestino. Alguma espécie de entidade “desmilitarizada”, circunscrita e absolutamente dependente de Israel e dos EUA, é o máximo que Israel jamais aceitará discutir.

Permitir que Mahmoud Abbas e o Fatah passem a governar também Gaza, sim, justificaria aliviar o cerco. Mas se, e somente se, Abbas assumir a tarefa de pôr fim à infraestrutura militar do Hamás e concordar em exportar para Gaza o modelo que estabeleceu na Cisjordânia – de acomodação incondicional e infindável com Israel e EUA e com o que lhe ordenem.


[*] Jonathan Cook (nascido em 1965) é escritor e jornalista freelance baseado em Nazaré, Israel, que escreve sobre o Oriente Médio e, mais especificamente, sobre o conflito israelense-palestino. Cook nasceu e cresceu em Buckinghamshire, Inglaterra. Recebeu o bacharelado em Filosofia e Política na Southampton University, em 1987, diplomou-se já com pós-graduação em jornalismo na Cardiff University, em 1989 com mestrado em Oriente Médio com estudos na  School of Oriental and African Studies, em 2000. A carreira de foca no jornalismo começou em 1988 como repórter e editor para jornais regionais de anúncios em Southampton no Southampton Evening Echo. Foi sub-editor freelance de vários jornais nacionais no período de 1994 até 1996 como jornalista da equipe do The Guardian e entre 1996 e 2001 do The Observer.
Desde setembro de 2001 Cook, como free lance, está baseado em Nazaré, Israel. Continuou a escrever colunas para o The Guardian até 2007, uma publicação ele abandonou em 2011 em represália ao comportamento do Guardian sobre Gilad Atzmon, Julian Assange, Noam Chomsky e outros escritores e jornalistas. Artigos de Cook também foram publicados no The International Herald TribuneLe Monde DiplomatiqueAl-Ahram WeeklyAl JazeeraThe National (Abu Dhabi), antiwar.com , CounterPunchDissident VoiceThe Electronic IntifadaMondoweissAlterNet e Mídia Lens entre outros. Em 2011, Cook recebeu um prêmio especial Martha Gellhorn de jornalismo por seu trabalho sobre o Oriente Médio. Escreveu 3 livros “solo” e vários outros em coparticipação

quinta-feira, 21 de março de 2013

Jonathan Cook: “Só faltaram as bênçãos de Obama...”


Muito palavreado, promessas magras, ação zero contra o roubo de terras da Palestina pelos judeus

20/3/2013, Jonathan Cook, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Jonathan Cook
Quem esperava que Barack Obama desembarcasse em Israel para forçar palestinos e israelenses a negociar, depois de quatro anos de impasse total no processo de paz, se decepcionará muito tristemente.

A viagem do presidente dos EUA que se inicia hoje talvez seja “histórica” – a primeira, de Obama, a Israel e aos territórios palestinos – mas o próprio Obama já cuidou de fazer todo o possível para esvaziar qualquer expectativa.

No fim de semana, líderes árabe-norte-americanos revelaram que Obama deixara bem claro que não apresentaria qualquer plano de paz, porque Israel já sinalizara que não tem interesse em acordo com os palestinos.

Dúvidas que por acaso persistissem sobre as intenções de Israel foram varridas, com o anúncio de um novo gabinete, rapidamente empossado antes da chegada de Obama. O novo governo faz o anterior, também de Benjamin Netanyahu – já considerado o mais linha-dura de toda a história de Israel – parecer quase moderado.

Colônias exclusivas para judeus em terras roubadas da Palestina
Ynet, um website de notícias muito popular em Israel, noticiou que os colonos saudaram o novo gabinete como a realização de seu “sonho erótico molhado”.

Zahava Gal-On
Zahava Gal-On, líder do partido de oposição Meretz, observou que o novo gabinete “muito fará pelos colonos e nada, absolutamente, pelo resto da sociedade israelense”.

O partido dos próprios colonos, “Lar Judeu”, foi premiado com três ministérios chaves – comércio e indústria, Jerusalém e moradia – além de controlar a comissão de finanças do Parlamento, o que basta para assegurar que as colônias exclusivas para judeus frutificarão durante seu mandato.

Não há sequer a mínima chance de o partido “Lar Judeu” aceitar congelamento de construções nas colônias semelhante ao que Obama propôs e no qual insistiu no primeiro mandato. Em vez disso, o partido acelerará o ritmo das construções e do desenvolvimento de indústrias além da Lista Verde, para tornar mais atraentes as colônias e promover a venda de moradias.

Uzi Landau
Uzi Landau, do partido de extrema direita “Israel nosso Lar”, de Avigdor Lieberman, ficou com o portfólio de turismo e rapidamente direcionará recursos para promover os muitos endereços bíblicos na Cisjordânia, para encorajar a visitação de israelenses e turistas.

O novo ministro da Defesa, que supervisiona a ocupação, é o único funcionário cuja posição que lhe dá competência para obstruir essa colonização “grátis-para-todos”; mas Moshe Yaalon, do partido Likud, ex-comandante militar, é conhecido pelo fervoroso apoio à ocupação e aos colonos.

É verdade que o grande partido, Yesh Atid, de Yair Lapid, centrista, também está representado. Mas sua influência, só diplomática, será posta sob rédea curta, porque seus cinco ministérios cuidarão de questões domésticas, bem-estar, saúde e ciência.

Moshe Yaalon
A única exceção, Shai Piron, novo Ministro da Educação, é rabino e colono, do qual só se deve esperar prosseguimento do atual programa de viagens escolares às colônias, continuando os bem-sucedidos esforços dos colonos para integrar-se na sociedade.

Longe de preparar-se para fazer concessões ao presidente dos EUA, Netanyahu só faz declarar seu apoio ao plano do partido Lar Judeu, para anexar novas vastas porções da Cisjordânia.

O único ministro com interesse pressuposto em conversações diplomáticas, mas quase exclusivamente orientado por seus esforços de autopromoção para permanecer popular na Casa Branca, é Tzipi Livni. Ela sabe bem o quanto são limitadas as oportunidades para negociar: o processo de paz só foi superficialmente mencionado no acordo da coalizão.

Obama, aparentemente consciente de que estará diante de governo ainda mais intransigente que o anterior, optou por não falar ao Parlamento. Em vez disso, discursará para platéia mais receptiva, de estudantes israelenses, em ação que funcionários dos EUA têm chamado de “uma ofensiva de charme”.

Devem-se esperar muito palavreado, promessas magras e ação zero contra a ocupação.

Yair Lapid
Sinal da relutância da Casa Branca, que foge da questão das colônias ilegais nos territórios ocupados, seus representantes na ONU recusaram-se a participar, na 2ª-feira, de um debate no Conselho de Direitos Humanos que apresentou as colônias como forma de “deplorável anexação” da Cisjordânia e de Jerusalém Leste.

A abordagem “não é comigo” de Obama satisfará seu eleitorado nos EUA. Pesquisa feita pela rede ABC-TV mostrou que o maior número de norte-americanos (55%) apoiam Israel, contra 5% que apóiam os palestinos. Maioria ainda maior, 70%, entende que os EUA devem deixar que os dois lados discutam e decidam o próprio futuro.

Israelenses comuns, o público que o presidente dos EUA quer atingir, tampouco veem com bons olhos qualquer envolvimento dos EUA. Outra pesquisa recente mostra que 53% preveem que Obama não protegerá interesses de Israel; e 80% entendem que com Obama, nos próximos quatro anos, não acontecerá qualquer avanço na questão com os palestinos. O estado de espírito dominante é de indiferença, mais de que de expectativa.

Shai Piron
Todas essas são boas razões para explicar por que nem Obama nem Netanyahu dedicarão grande atenção à questão palestina, durante a visita de três dias. Como o analista Daniel Levy observou: “Obama vem, sobretudo, para fazer declarações sobre os laços que unem EUA e Israel, não para falar da ocupação ilegal”.

É o que entendem também muitos palestinos, cada dia mais exasperados pelo obstrucionismo dos norte-americanos. Funcionários dos EUA que foram a Belém, na preparação da visita que Obama fará à cidade na 6ª-feira, foram colhidos em várias manifestações anti-Obama. E esperam-se novas manifestações hoje, em Ramallah.

Outros palestinos protestam hoje, montando uma nova comunidade de barracas em terra palestina ocupada próxima de Jerusalém. Inúmeros outros acampamentos desse tipo, montados antes, foram violentamente demolidos por soldados israelenses.

Os organizadores esperam chamar a atenção para a hipocrisia dos EUA no apoio à ocupação israelense: colonos judeus são autorizados a construir, com apoio do governo de Israel, em territórios ocupados – o que é flagrante violação da lei internacional; e os palestinos são impedidos por soldados israelenses de desenvolver o próprio território, o mesmo que a comunidade internacional já reconheceu como estado palestino, com representantes na ONU.

Barack Obama, obedientemente, aceita as ordens de "Bibi" Netanyahu
A mensagem escrita nas entrelinhas dessa visita de Obama é que o governo de Netanyahu tem carta branca para fazer avançar sua agenda de violências, sem nada temer de Washington, além, no máximo, de algum protesto simbólico.

O novo gabinete israelense não perdeu tempo para definir suas prioridades legislativas. A primeira nova lei já anunciada é uma “lei básica” que mudará a definição oficial do Estado, de modo a que os aspectos “judeus” sobreponham-se aos elementos “democráticos” – movimento que o jornal Haaretz qualificou de “insano”.

Dentre outras determinações de lei, há uma que limita a aplicação de fundos públicos, que passam a só poder ser aplicados em novas comunidades de judeus. É um arranjo cínico, com o qual Netanyahu visa a aplacar um crescente movimento de protesto em Telavive, que começa a exigir moradia a preços mais acessíveis para todos.

Oferecendo terra a preço subsidiado para novas colônias na Cisjordânia e em Jerusalém Leste, Netanyahu consegue expandir as colônias, rouba mais terra dos palestinos, cala os protestos e desestabiliza a oposição. Só precisava, de fato, das bênçãos de Obama.
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quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Uma política de pensamento para a Era da Internet? O perigoso culto pró “Guardian”

Jonathan Cook

28/9/2011, Jonathan Cook, Counterpunch
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Não há melhor prova da revolução que a internet está fazendo, oferecendo acesso à melhor informação e a comentários-interpretações bem informados, que a reação da imprensa-empresa da “mídia” dominante.

Pela primeira vez, públicos ocidentais – ou, pelo menos, os que podem comprar computadores – encontram meios para escapar à vigilância dos cães de guarda de nossas infelizes democracias “midiáticas”. Dados que em outros tempos foram mantidos cuidadosamente secretos podem hoje ser lidos e pesquisados por gente que não é paga para não deixar ver a hipocrisia ocidental. Wikileaks, sobretudo, rapidamente demoliu os sistemas hierárquicos tradicionais de distribuir informação.

A imprensa – pelo menos o componente de esquerda que se supõe que haja na imprensa – deveria estar comemorando essa revolução; deveria, também, é claro, estar trabalhando para viabilizar essas novas conquistas. Mas, não. Praticamente todas as empresas de comunicação e jornalismo trabalham só para cooptar as conquistas, para domá-las ou subvertê-las. Como se pode ver, jornalistas e colunistas considerados progressistas cada vez mais usam suas plataformas na imprensa dominante para desacreditar e ridicularizar os arautos dos novos tempos.

Bom objeto de estudo, quanto a isso, é o jornal britânico Guardian, considerado o jornal mais decididamente à esquerda da Grã-Bretanha, que rapidamente vai ganhando status e culto de “jornal cult” nos EUA, onde muitos leitores tendem a assumir que, naquelas páginas, encontrarão a mais límpida verdade, em amostra de todo o campo do pensamento crítico de esquerda.

É verdade que o Guardian oferece bom material de reportagem e, vez ou outra, algum comentário mais aprofundado. Talvez por estar mais longe do coração do império, o jornal ofereça antídoto parcial à cobertura acovardada da imprensa-empresa nos EUA.

Mesmo assim, nada aconselha crer que o Guardian seria algum tipo de livre mercado para ideias progressistas ou para os dissidentes de esquerda. Aliás, longe disso: o jornal policia rigorosamente o que se pode e não se pode dizer em suas páginas, por razões bem pouco nobres, como examinamos adiante.

Até há pouco tempo, os leitores ainda podiam viver na confortável ignorância de que vários autores e pensadores, interessantes ou provocadores, são, sim, terminantemente proibidos para citação ou menção nas páginas do Guardian. Antes das versões online, o Guardian ainda podia alegar as dificuldades de espaço, para não incluir mais amplo espectro de vozes. Esse motivo, é claro, desapareceu, com o crescimento da Internet.

Desde o primeiro momento, o Guardian viu tanto o potencial de crescimento quanto a potencial ameaça que lhe vieram com a revolução da Internet. Respondeu com a criação de um blog aparentemente aberto a todos (Comment is Free), no qual contava domesticar parte da energia bruta liberada pela internet. Arregimentou um exército de escritores, ativistas e propagandistas, a maioria sem qualquer remuneração, dos dois lados do Atlântico, para ajudar a reposicionar a marca Guardian como o suprassumo da imprensa-empresa democrática e pluralista.

Mas nunca, desde o início, o blog Comment is Free (CiF) foi tão livre quanto se dizia – senão no sentido de que a empresa Guardian sempre se sentiu livre para não pagar salário aos “colaboradores” que trabalham no blog. Inúmeros autores da esquerda, sobretudo os considerados “fora do esquema” [orig. “beyond the pale”] no contexto da velha imprensa-empresa, continuaram, como antes, sem acesso à tal nova plataforma “democrática”. Outros, dentre os quais eu mesmo, logo descobrimos que havia limites aparentemente inexplicáveis, mas sempre intransponíveis, para o que se podia escrever no blog CiF (e limites que nada tinham a ver com moral ou bons costumes).

Nada disso deveria ser questão importante. Afinal, há muitos outros lugares onde publicar, além do Blog CiF do Guardian, para fazer-se ouvir. Por toda a rede há dissidentes distribuindo análises alternativas dos eventos atuais e chamando a atenção para a informação que a imprensa-empresa não publica ou publica como notícia sem importância.

Mas, em vez de acolher esse tipo de concorrência, ou de resignar-se ao surgimento de imprensa realmente pluralista, o Guardian reverteu à imagem-tipo de antes. Voltou a autoapresentar-se como “a política de pensamento” da esquerda.

De novidade que, dessa vez, nada garante que algum jornal-empresa consiga silenciar completamente a “esquerda que contesta”. A internet acabou com a fácil solução de antes, quando os jornais-empresas silenciavam, por exclusão absoluta, as vozes de contestação. Pelo que se vê hoje, o Guardian adotou a tática de desqualificar os autores que, por serem realmente provocadores ou por suas ideias realmente avançadas, possam fazer-ver a covarde política conformista, enquadrada, do Guardian.

E o Guardian passou a desacreditar “a esquerda” – que nenhum dos jornalistas e colunistas do jornal jamais define – em campanha que nada tem a ver com algum tipo democrático de luta de ideias. E, sempre, o Guardian encontra amparo nos imensos recursos das empresas e corporações proprietárias do jornal. Quando ataca autores e pensadores dissidentes, os atacados só muito raramente, e na maioria das vezes nunca, encontram plataforma “com igual espaço e destaque” para defenderem-se. E já se viu que o Guardian é sempre muito relutante, e resiste o mais que consiga, a garantir justo direito de resposta a quem o jornal-empresa calunia.

Além do quê, e quase imperceptivelmente, o Guardian praticamente nunca encampa as ideias desses autores ou jornalistas “não alinhados”. Em termos populares, o Guardian marca a canela do jogador, não marca a bola. Cria e distribui calúnias, que vão das apenas absurdas às claramente difamatórias, que empurram aqueles autores ou jornalistas ou pensadores para o território do absurdo, do não razoável, ou do sórdido inadmissível.

Exemplo típico da nova estratégia do Guardian viu-se essa semana, em artigo impresso nas páginas de editoriais e colunistas do próprio jornal – disponíveis também online, e espaço muitíssimo mais prestigioso que o Blog Comment is Free  que o jornal encomendou a autor socialista, Andy Newman [1], com instruções expressas para que dissesse que o músico judeu israelense Gilad Atzmon [2] seria antissemita, de uma tendência de antissemitismo discernível na esquerda.

Jonathan Freedland, colunista empregado “star” do Guardian e obcecado na perseguição a antissemitas, tuitou para seus seguidores que o artigo de Newman seria “importante”, porque “conclama a esquerda a começar a atacar o antissemitismo também em suas fileiras.” [3]

Não tenho notícia de Atzmon ter algum dia manifestado ideias antissemitas – nem antes nem depois de ler o artigo de Newman.

Como já se tornou rotina nessa nova modalidade de assassinato de reputação pelo Guardian, o artigo não faz qualquer esforço para provar que Atzmon seria antissemita ou para mostrar que haveria qualquer motivo para pôr em evidência essa sua pressuposta falha de caráter. (Diga-se, de passagem, que no artigo de Newman há idêntica acusação de antissemitismo contra Alison Weir, do blog “If Americans Knew” e também contra nossa página [Counterpunch] na internet, por termos publicado artigo assinado por Weir, sobre o papel de Israel no tráfico de órgãos [4]).

Atzmon acaba de publicar um livro sobre a identidade judaica, The Wandering Who? [“Errante”, quem?], já elogiado por figuras respeitadas como Richard Falk, professor emérito da escola de Direito em Princeton, e por John Mearsheimer, conhecido professor de política da Chicago University.

Mas Newman não critica o livro nem extrai dele qualquer citação. De fato, tudo sugere que sequer tenha lido o livro de Atzmon ou tenha qualquer ideia do que contém.

Newman abre o artigo com elogios ao talento e à mestria musicais de Atzmon, com uma referência muito vaga a escritos seus, pressupostos “antissemitas”. Em seguida, algumas longas frases extraídas de escritos de Atzmon, suficientemente longas para sugerir alguma suspeita (não se sabe exatamente do quê); e curtas demais e por demais afastadas de qualquer contexto para provar qualquer coisa, inclusive um pressuposto antissemitismo – mas prova suficiente, talvez, para atender à política de pensamento do Guardian e de seus leitores menos críticos e mais subservientes. Nada, na coluna publicada, comprova que Atzmon algum dia tenha sido antissemita: o jornal assume que ele é antissemita, o colunista escreve que ele é antissemita, ninguém comprova ou demonstra coisa alguma. E assassina-se mais uma reputação. (...)

Apesar disso, o Guardian garante seu imprimatur à difamação assinada por Newman, contra Atzmon (apresentado ali como “teórico da conspiração, pingando de desprezo por judeus”), não oferece qualquer prova de coisa alguma e tudo fica por isso mesmo. Jornalismo digno do Pravda, nos dias de glória de Stálin! (...)

O Guardian, como várias outras grandes corporações de imprensa-empresa, recebe fortes investimentos – em termos financeiros e também em termos ideológicos – para dar irrestrito apoio à atual ordem mundial. Em tempos de jornais impressos, o Guardian tinha meios para excluir e silenciar – e hoje, em tempos de internet –, dedica-se a demonizar as vozes da esquerda que se arriscam a questionar um sistema de poder e controle por grandes empresas, poder e controle dos quais o Guardian é uma das peças chave.

Quem leia o Guardian é rapidamente levado a crer que uma meia dúzia de dissidentes dispersos e os intelectuais de esquerda seriam dos principais problemas que nossa sociedade enfrenta – problema comparável, em magnitude, à ação de nossas elites moralmente comprometidas, autoridades policiais corrompidas e sistema financeiro depravado.

Atzmon e algum seu pressuposto antissemitismo seria talvez problema mais grave que a ação do AIPAC (America-Israel Public Affairs Comittee)? (...) Assange e WikiLeaks seriam mais grave ameaça ao futuro do planeta que o presidente Barack Obama dos EUA? Leitores do Guardian são diariamente induzidos a crer que sim.



Notas dos tradutores
[1] 25/9/2011, Andy Newman, “Gilad Atzmon, antisemitism and the left” [Gilad Atzmon, antissemitismo e a esquerda],  (em inglês).
[2] Ver 19/9/2011, Gilad Atzmon, 19/9/2011, “Obama, o estado palestino e a esquizofrenia sionista”, em português; e  Gilad Atzmon, 23/9/2011 “Tragédia Americana”, em português.
[4] Allison Weir, “Israeli Organ Harvesting”, Counterpunch, ed. fim de semana, 29-30/8/2009, (em inglês).