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quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Netanyahu nas cordas? Palestinos derrubam mais um governo israelense

3/12/2014, [*] Gilad AtzmonCounterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Por Karras

Vez ou outra, líderes políticos e militares israelenses são derrotados pelas próprias guerras israelenses. A Primeira-Ministra Golda Meir e seu comandante do exército (David “Dado” Elazar) foram mandados de volta para casa depois dos erros estúpidos de 1973 (Guerra do Yom Kippur). O Primeiro-Ministro Menachem Begin perdeu a sanidade depois da primeira guerra no Líbano (1982). O Ministro da Defesa, Amir Peretz e seu comandante do exército Dan Halutz’ foram tratados com dureza pela mídia israelense depois da derrota de Israel no Líbano, em 2006. O Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu paga agora o preço do mais recente desastre israelense em Gaza e do levante de palestinos que veio imediatamente depois.

Nações fortes tendem a unir-se em torno dos comandantes em tempos de crise. Os israelenses não, são como crianças mimadas. Preferem virar-se contra os comandantes em tempos de conflito, mas não porque anseiem por paz. É exatamente o contrário: querem vitória conclusiva; rios de sangue árabe pelas ruas. Bibi não lhes deu o que queriam. Aos olhos de muitos patriotas israelenses, Bibi é mole.

Israel não se saiu bem na mais recente rodada de violência. O exército de Israel não conquistou um, que fosse, objetivo militar importante. Depois de poucos dias, o exército israelense teve de retirar-se, humilhado e exaurido. Os militares israelenses já admitiram que não souberam dar resposta militar à balística palestina, aos tuneis e a coragem sem fim dos palestinos. Além do mais, o conflito em Gaza respingou sobre a Cisjordânia e cidades israelenses. Na verdade, o gabinete de Netanyahu demorou a reagir. Parecia colhido de surpresa pelos eventos. Agora, muitos israelenses já admitem abertamente que o futuro do Estado Judeu é mais sombrio a cada dia.

Por Latuff
establishment político israelense seguiu rapidamente a maré de opinião pública – com total radicalização. Os falcões querem que o estado admita que é um “lar judeu”, em vez de uma “democracia judaica” (expressão que, só ela, já é uma contradição entre os termos). Os centristas e a esquerda israelense insiste que Israel tem de manter a mentira “democrática”. Soa bem e os Goyim acreditam, como argumentaram.

Hoje (3/12/2014) cedo, o Primeiro-Ministro Netanyahu anunciou novas eleições, depois de demitir dois ministros chaves de seu governo – Yair Lapid, líder do partido Yesh Atid e Ministro das Finanças; e Tzipi Livni, líder do Hatnua e Ministra da Justiça.

Livni e Lapid opuseram-se à Lei Nacional de Israel e deram a Netanyahu oportunidade de ouro para se reafirmar como devotado judeu nacionalista patriótico. Acho que Netanyahu sobreviverá a esse round político.

Mas há um ponto, nessa história, pequeno, mas significativo. Há sete meses, era Netanyahu que pressionava cada vez mais a Autoridade Palestina, o Hamás e a população palestina, num esforço para quebrar o governo de unidade dos palestinos. Seis meses de violência depois, uma guerra em Gaza e uma 3ª Intifada em produção, os palestinos mostram-se mais unidos que nunca. E o governo de Netanyahu está caindo aos pedaços.
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[*] Gilad Atzmon (músico e escritor) nasceu em Israel em 1963 e estudou na Academia Rubin de Música, Jerusalém (Composição e Jazz). Multi-instrumentista, toca saxofones, clarinete e instrumentos de sopro étnicos. Seu álbum Exile foi o álbum de jazz BBC do ano em 2003. Ele foi descrito por John Lewis noThe Guardian como “o mais hardest-gigging homem do jazz britânico”. Atzmon viaja extensivamente pelo mundo tocando em festivais, salas de concertos e clubes. Até 1994, foi produtor-arranjador de vários projetos de dança e rock israelenses, realizando na Europa e nos EUA a reprodução de música étnica, bem como rock e jazz. Anima seu blog com vários artigos políticos.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

O fim de Israel

21/7/2014, [*] Gilad Atzmon  
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Os crimes de guerra de Israel
No discurso que fez à nação o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu reconheceu ontem que a guerra contra Gaza é uma batalha pela existência do Estado Judeu. Netanyahu está certo. E Israel não pode vencer essa batalha; não pode sequer definir que vitória poderia advir dessa batalha. Claro que a batalha não se trava pela posse dos túneis ou pela operação subterrânea da resistência: os túneis são armas da resistência, não são a resistência. Os militantes do Hamás e de Gaza atraíram Israel para uma zona de batalha na qual Israel jamais vencerá; e o Hamas impôs as condições, escolheu o campo e escreveu os termos que exige para concluir esse ciclo de violência.

Por dez dias, Netanyahu fez tudo que pôde para evitar a operação por terra, pelo exército de Israel. Ele sabia que Israel não conhece resposta militar à resistência palestina. Netanyahu sabia que uma derrota em solo erradicaria o pouco que resta do poder de contenção que o exército israelense ainda tem.

Há cinco dias, Israel – pelo menos aos olhos dos próprios apoiadores – estaria no comando da situação. Via seus cidadãos convertidos em alvos de fogo infinito de foguetes, mas ainda mostrava alguma moderação, só matando palestinos civis bem de longe, o que ajudava a preservar uma fantasia de força, de poder. Tudo isso mudou rapidamente, a partir do início da operação em terra lançada por Israel.

Agora, mais uma vez, Israel está envolvida em colossais crimes de guerra, crimes contra a humanidade, crimes contra população civil. E, pelo menos estrategicamente, seus comandos de elite da infantaria estão sendo dizimados nas batalha cara-a-cara em Gaza.

Apesar da clara superioridade tecnológica de Israel e do maior poder de fogo, os militantes palestinos estão derrotando Israel na guerra de solo. E já conseguiram levar a guerra para território israelense. E a chuva de foguetes sobre Telavive não dá sinais de arrefecer.

A derrota do exército de Israel em Gaza deixa sem qualquer esperança o Estado Judeu. A moral é simples. Se você insiste em viver em terra dos outros, a força militar é ingrediente essencial para impedir que os roubados lutem pelos próprios direitos.

O nível de baixas no exército israelense e as filas de soldados da elite israelense voltando para casa em caixões é mensagem muito clara para israelenses e palestinos: a superioridade militar de Israel é coisa do passado. Não há futuro para o Estado-Só-de-Judeus na Palestina. Se quiserem, que tentem noutro lugar.
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[*] Gilad Atzmon (músico e escritor) nasceu em Israel em 1963 e estudou na Academia Rubin de Música, Jerusalém (Composição e Jazz). Multi-instrumentista, toca saxofones, clarinete e instrumentos de sopro étnicos .Seu álbum Exile foi o álbum de jazz BBC do ano em 2003. Ele foi descrito por John Lewis no The Guardian como “o mais hardest-gigging homem do jazz britânico”. Atzmon viaja extensivamente pelo mundo tocando em festivais, salas de concertos e clubes. Até 1994, foi produtor-arranjador de vários projetos de dança e rock israelenses, realizando na Europa e nos EUA a reprodução de música étnica, bem como rock e jazz. Anima seu blog com vários artigos políticos.

terça-feira, 12 de março de 2013

O apartheid em Israel é pior que o que se viu na África do Sul


A solidariedade aos palestinos também já é zona ocupada?

8-10/3/2013, Gilad Atzmon, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Gilad Atzmon
Para envolver-se em ações de solidariedade aos palestinos, você, antes, tem de aceitar que os judeus seriam especiais; e que o sofrimento dos judeus seria mais sofrimento que o de qualquer outro povo; e que os judeus seriam povo escolhido; e que o Holocausto dos judeus teria sido o pior de todos os genocídios que a humanidade conheceu; e que o antissemitismo seria racismo mais vil que todos os racismos vis que a humanidade conheceu. E por aí vai.

Mas, quando se trata de palestinos... É exatamente o contrário! Por alguma razão incompreensível, deve-se crer que os palestinos, o povo palestino e a luta dos palestinos, absolutamente nada teriam de especial.

De fato, os palestinos foram vítimas de um movimento racista, nacionalista e expansionista judeu como jamais o mundo conheceu outro. Mas temos de aceitar que, como se os palestinos fossem indianos ou africanos como outros, o seu padecimento não passaria de sofrimento resultante do colonialismo do século 19 – e ali estaria implantado mais um caso de algum já nosso velho conhecido sistema de Apartheid.

Por essa contabilidade, os judeus, os sionistas e os israelenses seriam excepcionais, superiores, nada se compararia a eles; e os palestinos seriam comuns, vulgares, apenas mais um capítulo de uma narrativa política maior, sempre um caso a mais, dentre outros semelhantes. O sofrimento dos palestinos nada teria a ver com os traços específicos que têm o nacionalismo judeu e o racismo judeu; nem, sequer, com a política externa dos EUA dominada pelo AIPAC. Nada disso. Os palestinos são sempre vítimas de uma mesma dinâmica tediosa, banal, geral, abstrata, sem nada, sem nenhuma, sem uma única especificidade, coisa “histórica”, que acontece sempre.

Se é assim... há perguntas muito sérias a serem respondidas.

Alguém algum dia ouviu falar de movimento de solidariedade ou de libertação que se orgulhasse de ser movimento tedioso, banal, sem graça, chatíssimo? Alguém algum dia ouviu falar de movimento de solidariedade que se degrada ele mesmo e o povo ao qual afeta solidariedade, para convertê-lo em peça mumificada a ser exibida num museu de eventos do materialismo histórico? De minha parte, nunca ouvi falar de coisa semelhante. Os negros sul-africanos apresentavam o próprio sofrimento como repetição incansável de sofrimentos “históricos”, contra os quais nada se poderia jamais fazer? Viam-se, eles mesmos, como iguais a qualquer outro negro? Martin Luther King creria, talvez, que suas irmãs e irmãos seriam inerentemente “iguais” a quaisquer outros povos cujo destino seria sofrer, sofrer, sofrer? É claro que não!

Assim sendo... Como é possível que o movimento de solidariedade aos palestinos tenha naufragado tão completamente, que seus porta-vozes e apoiadores disputam entre si para ver quem consegue apagar mais completamente a especificidade da luta dos palestinos, fazendo-a parecer como mero capítulo de alguma tendência histórica já petrificada, chamada “colonialismo” ou chamada “apartheid”?

Roubo de território da Palestina por Israel
A resposta é simples. A Solidariedade aos Palestinos também é zona ocupada. Como qualquer zona ocupada, os movimentos de solidariedade aos palestinos também já estão cooptados e alinhados na luta contra... O antissemitismo!

Devida e elegantemente militante contra o racismo, plena e adequadamente engajado nas questões de LGBT na Palestina, mas, por alguma razão insondável, o movimento de solidariedade aos palestinos é quase completamente indiferente ao destino de milhões de palestinos que vivem em campos de concentração e ao seu DIREITO DE RETORNO à terra natal. [Ler também: “Is the Anti-Occupation Movement Driven by Defenders of Genocide?”].

Tudo isso pode mudar. Os palestinos e seus apoiadores podem começar a ver a própria causa como ela de fato é e pelo que de fato é: única e especial. Afinal, nem é tão difícil. Se o nacionalismo judeu é inerentemente excepcional (como proclamam os sionistas), nada mais obviamente claro do que as vítimas dessa especialíssima missão racista que os judeus se autoatribuem serem, elas também, no mínimo, vítimas especialíssimas de crime especialíssimo.

Hummus Tzabar
Até agora, os movimentos de solidariedade aos palestinos ainda não conseguiram libertar a Palestina, mas com certeza já conseguiram criar uma Indústria de Solidariedade à Palestina – em vasta medida financiada por sionistas liberais. Não há canto do planeta onde não se ouça falar de algum “boicote” ou de alguma sanção... ao mesmo tempo em que o comércio entre Israel e Grã-Bretanha cresce sem parar [Ler: “Boycott, what boycott? UK-Israel trade booming] e compra-se a griffe Hummus Tzabar em praticamente qualquer loja de comida na Grã-Bretanha.

Todos esses esforços para reduzir o sacrifício dos palestinos a uma narrativa materialista generalista, datada, tediosa, devem ser expostos como o que são: tentativa de não contrariar o projeto dos sionistas liberais.

A verdade é que o sofrimento dos palestinos é, sim, único, jamais se viu coisa semelhante na história do mundo; é, no mínimo, tão raro, tão sem igual e sem comparação, quanto o próprio projeto sionista.

Ronnie Kasrils
Ontem, encontrei esse comentário, de um ministro sul-africano, Ronnie Kasrils, falando do que via nos territórios ocupados da Palestina: 

O que se vê aqui é muito pior que o apartheid. A brutalidade dos israelenses faz o apartheid da África do Sul parecer piquenique. Na África do Sul, jamais tivemos jatos de guerra atacando cidades. Nunca houve áreas sitiadas durante meses e meses. Nenhum tanque de guerra jamais destruiu casas, na África do Sul do apartheid.

Kasrils está certíssimo, infelizmente. O que Israel faz aos palestinos é muito pior que o apartheid e muitíssimo mais sofisticado que qualquer colonialismo. E por quê? Porque o que os sionistas fizeram e continuam a fazer tampouco é apartheid ou algum dia foi colonialismo. O apartheid visava a explorar a mão de obra africana. Israel quer que todos os palestinos morram.

É mais que hora, afinal, de ver o extraordinário, único, específico sofrimento que Israel impõe aos palestinos. Simultaneamente, é mais que hora de denunciar o crime dos sionistas, à luz da cultura, da política e da identidade dos judeus.

O movimento de solidariedade aos palestinos conseguirá fazer tudo isso? É possível que consiga. Mas, antes, ele terá de livrar-se, o próprio movimento, de todo o sionismo.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Spielberg versus Tarantino: Hollywood e o passado


17/2/2013, Gilad Atzmon, Information Clearing House
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Gilad Atzmon
Vê-se a história, quase sempre, como tentativa de produzir narrativa estruturada do passado. Dizem que nos contam o que realmente aconteceu, mas em muitos casos, não é bem assim. A história parece existir para esconder nossas vergonhas, como que para apagar do mundo os vários elementos, eventos, incidentes e ocorrências com as quais absolutamente não sabemos lidar. A história, portanto, pode ser vista como sistema de ocultamento.

Assim sendo, o papel do verdadeiro historiador é semelhante ao do psicanalista: os dois têm de desvelar o reprimido. Para o psicanalista, é o inconsciente. Para o historiador, a nossa vergonha coletiva.

Mas, cabe perguntar, quantos historiadores abraçam de fato essa tarefa? Quantos historiadores têm a coragem necessária para abrir a caixa de Pandora? Quantos historiadores têm a coragem para desafiar a verdade da História dos Judeus? Quantos historiadores têm a coragem de perguntar “por que só os judeus”? Por que os judeus padecem sempre? Será culpa dos Goyim que seriam inerentemente assassinos, ou há algo que atormenta, por dentro, o coletivismo ou a cultura dos judeus? Evidentemente, os judeus absolutamente não são os únicos: todos os passados de todos os povos são também problemáticos.

Como, afinal, os palestinos explicam a eles mesmos por que, depois de mais de um século de lutas, ainda acordam, todos os dias, para ver que sua verdadeira capital está convertida num paraíso de ONGs mantidas pela Open Society de George Soros?

Os britânicos são capazes de, de uma vez por todas, olhar a própria cara no espelho e explicar a eles mesmos por que, no seu Museu das Guerras Imperiais, meteram uma exposição sobre o Holocausto dedicada à destruição dos judeus? Não seriam mais valentes, os britânicos, se olhassem para as muitas Shoas que eles mesmos infligiram a outros? Afinal, os britânicos podem escolher qualquer uma, na monumental lista de desgraças que eles mesmos provocaram e provocam pelo mundo.

O Guardião versus Atenas

O passado é território perigoso; pode nos levar a histórias inconvenientes. Basta isso, para explicar por que o verdadeiro historiador é, não raro, apresentado como inimigo público. Mas a Esquerda inventou solução acadêmica para lidar com essa questão. O historiador “progressista” opera para produzir o conto “politicamente correto”, “inofensivo”, do passado. Com muitos ziguezagues, navega a própria rota, pagando o que lhe cobrem os eventos ocultados e criando infindáveis desvios ad-hoc que mantêm o “reprimido” sempre intactamente reprimido. O sujeito progressista aí está para produzir narrativas “não essencialistas” e “não ofensivas” do passado; e o chamado “reacionário” lá está, e paga o pato.

O jornal The Guardian é emblemático dessa abordagem. Baniu toda e qualquer crítica contra a cultura judaica ou contra a juidaicidade, e oferece plataforma televisiva para que dois sionistas obsessivos, doidos furiosos, discutam cultura árabe e islamismo. O Guardian não se incomoda com ofender “islamistas” ou “nacionalistas” britânicos, mas cuida muito atentamente de não ferir sensibilidades judaicas. Tais versões da política ou do passado são imunes à qualquer verdade, coerência, consistência ou integridade. De fato, o discurso progressista fracassa sempre que se trate de operar como “o guardião da verdade” – e aqui me refiro, em particular, ao discurso da esquerda.

Evidentemente, há alternativa à atitude “progressista” em relação ao passado. O verdadeiro historiador é um filósofo – e um essencialista – pensador que propõe a questão “o que significa estar no mundo e o que se exige para viver entre outros?”. O verdadeiro historiador vai além do singular, do particular e do pessoal. Ele ou ela vive em busca da condição de possibilidade do que comanda nosso passado, presente e futuro. O verdadeiro historiador opera entre o Ser e o Tempo; ele ou ela, em busca de uma lição humanista e de um insight ético, procurando no poema, na arte, na beleza, a razão, mas procurando também o medo. O verdadeiro historiador é um essencialista que escava em busca do ocultado, porque sabe que o reprimido é o núcleo duro da verdade.

Leo Strauss oferece insight muito útil nesse campo. A civilização ocidental, argumenta ele, oscila entre dois polos intelectuais e espirituais – Atenas e Jerusalém. Atenas – berço da democracia, lar da razão, da filosofia, da arte e da ciência. Jerusalém – cidade de Deus, na qual a lei de Deus vige. O filósofo, o verdadeiro historiador, ou, no que tenha a ver, o essencialista, é, obviamente, o ateniense. O jerusalemita, no que tenha a ver, é “o guardião do discurso”, o que vigia a entrada, só para manter a lei, à custa do êxtase, da poesia, da beleza, da razão e da verdade.

Spielberg versus Tarantino

Steven Spielberg
Hollywood nos oferece via para assistir a essa oscilação entre Atenas e Jerusalém: entre o jerusalemita “guardião do discurso” e o opositor ateniense – o inimigo público “essencialista”. No campo esquerdo do mapa, temos Steven Spielberg, o gênio “progressista”. À direita dele encontramos a poiesis encarnada, Quentin Tarantino, o “essencialista”.

Spielberg nos supre com o mais consumado épico histórico desinfetado. Os fatos são selecionados a dedo para produzir um conto premeditadamente pseudo ético que mantém o discurso, a lei e a ordem “corretos”, mas, muito mais importante, mantém o primado do sofrimento exclusivo dos judeus (Lista de Schindler e Munique). Spielberg dá vida a uma grande visada épica, retrospectiva, do passado. A tática de Spielberg é, quase sempre, bem simples. Ele simplesmente expõe, justapostos, os termos de uma oposição binária transparente: nazistas X judeus; israelenses X palestinos; norte X sul; decência X escravidão. Sempre se sabe, de saída, quem são os bonzinhos e quem são os malvados. Sabe-se de saída, claramente, a quem se aliar.

A oposição binária, sim, é rota segura. Oferece clara distinção entre “Kosher” e “proibido”. Mas Spielberg está longe de ser mente simplória. Também permite oscilação milimetricamente calculada, premeditada. Em gesto universalista, admitirá um nazista na família dos bons. Deixará que um palestino esquisito apareça como vítima. Qualquer coisa pode acontecer, desde que a moldura básica do discurso permaneça intacta. Spielberg é claramente um arquiguardião do discurso – mestre na própria arte, sem dúvida prenderá a atenção do público, ininterruptamente, por pelo menos 90 minutos de um coquetel histórico feito de semifatos. Ao espectador, só compete seguir a trama até o final, quando então a mensagem ética pré-mastigada e pré-digerida já estará replantada, em segurança, no coração do universo de autoadoração narcísica de cada espectador.

Quentin Tarantino
Diferente de Spielberg, Tarantino não se preocupa com a factualidade; pode até rejeitar qualquer historicidade. Tarantino pode bem acreditar que a noção de “mensagem” ou de moralidade ande superestimada. Tarantino é essencialista, interessado na natureza humana, no Ser; e parece fascinado, em especial, pela vingança e a universalidade da vingança. Por razões óbvias, seu integralmente ficcional Bastardos Inglórios lança luz sobre a sede coletiva de sangue dos israelenses, claramente detectada no momento da Operação Chumbo Derretido. A criação cinemática ficcional de um comando assassino e vingativo de judeus na 2ª Guerra Mundial ali está para lançar luz e fazer ver a devastadora realidade contemporânea dos lobbies judeus sedentos de vingança, em sua sanha incansável em busca de uma guerra mundial contra o Irã e o resto todo. Mas Bastardos Inglórios pode bem ter também um apelo universal, porque o “olho por olho” do Velho Testamento já está convertido em impulso político que move os anglo-norte-americanos depois do 11/9.

Abe Lincoln versus Django

Nos trabalhos recentes, vê-se, bem claro, o choque espiritual entre o jerusalemita Spielberg e o ateniense Tarantino.

A história da escravidão nos EUA é, sim, tópico problemático, e, por razões óbvias, muitos aspectos desse capítulo ainda permanecem secretos, sob domínio do ocultado. Mais uma vez, Spielberg e Tarantino produziram relatos marcadamente diferentes do mesmo tema.

No seu épico histórico recente, Lincoln, Spielberg converteu Abraham Lincoln num neoconservador “moral-intervencionista” o qual, contra todas as possibilidades (políticas), aboliu a escravidão. Acho que Spielberg conhece o suficiente da história dos EUA para dar-se conta de que seu relato cinematográfico não passa de tentativa, nua e crua, de fugir do tema, porque a campanha política contra a escravidão nunca passou de pretexto para uma guerra sangrenta, orientada por interesses econômicos bem claros.


Como se deveria esperar, Spielberg tempera sua ficção com pitadas de passagens históricas genuínas. Com isso, paga o necessário tributo para conseguir manter a vergonha bem escondida por baixo do tapete. Seu Lincoln é apresentado como herói movido por ímpeto moral da fraternidade humana. Todo o roteiro manifesta sintomas bem visíveis do assalto que o AIPAC contemporâneo mantém em andamento dentro do Senado dos EUA. Sendo um dos arquiguardiões do discurso, Spielberg saiu-se bastante bem, da empreitada. Aplicou uma substancial camada de cinema por cima de tudo, para assegurar que a verdadeira vergonha norte-americana continue profundamente reprimida ou, pode-se dizer, intocada.

Desnecessário dizer que a visão à Spielberg, de Lincoln, foi muito elogiada pela imprensa judaica. Batizaram o presidente de Avraham Lincoln Avinu (‘'nosso pai'’, em hebraico), na The Tablet Magazine. “Avraham” – segundo a Tablet, é o bom judeu definitivo. “Como imaginado por Spielberg e Kushner, o Lincoln de Lincoln é o mensch consumado. É psicólogo naturalmente dotado, interpretador de sonhos, homem abençoado pela mais extraordinariamente lúcida e sutil alma legal”. Em resumo, o Lincoln de Spielberg combina as competências, o dom e os traços de Moisés e também de Freud; praticamente um Alan Dershowitz.

Mas alguns judeus reclamaram do filme. “Como historiador judeu-norte-americano, escreve Lance J. Sussman, “temo ter de dizer que estou desapontado, em certo sentido, com o novo filme de Spielberg. Há coisas muito boas, no filme. Mas melhorariam muito, se o diretor tivesse posto pelo menos um judeu, no filme, em algum lugar”.

Acho que Spielberg talvez encontre dificuldades para agradar a tribo toda. Já Quentin Tarantino, esse, nem tenta. Tarantino, de fato, está fazendo exatamente o contrário. Mediante um épico fantasmático que declara interesse zero por qualquer forma de historicidade ou de factualidade, sejam quais forem, ele consegue – em Django, sua mais recente obra prima – desencavar e trazer à luz os mais obscuros segredos da escravidão. Esgravata o reprimido e, a julgar-se pela reação de outro gênio do cinema, Spike Lee, não há dúvida de que consegue ir bem fundo.


Ao criar espetáculo estilístico clássico do gênero Western, consegue enfrentar todos os aspectos em relação aos quais somos adestrados para jamais tocar. Enfrenta o determinismo biológico, o suprematismo e a crueldade dos brancos. Mas não deixa passar sem registro a passividade dos escravos, a subserviência, o colaboracionismo ativo.

Diretor ateniense, constrói aqui um conjunto de deuses mitológicos gregos, à guisa de personagens. Django (Jamie Fox) é o indomável rei da vingança; e Schultz (Christoph Waltz), o dentista alemão convertido em caçador de recompensas, é o mestre da convenção, da gentileza, da humanidade, com um gigantesco dente da sabedoria divina (e cofre) balançando sobre a lona de sua carroça. Calvin Candie (Leonardo DiCaprio) é o patrão hegeliano (racista); e Stephen (Samuel L. Jackson) é o escravo hegeliano, emergindo como a personificação da transformação social. Em vários sentidos, o relacionamento entre Candie e Stephen pode ser visto como uma das representações cinematográficas mais profundas (e mais subversivas) da dialética senhor-escravo.

Na dialética hegeliana, duas autoconsciências constituem-se por espelhamento. Em Django Liberto, Stephen, o escravo, parece manifestar a mais consumada forma de subserviência, ainda que só na aparência. De fato, Stephen é muitíssimo mais sofisticado e bom observador que seu patrão Candie. Está em plena ascensão, na cadeia de comando. Difícil decidir se Stephen é colaborador, ou se é, de fato, quem dirige todo o show. Mas na obra mais recente de Tarantino, a dialética hegeliana é, em certo sentido, compartimentalizada. Django, uma vez liberto, é absolutamente imune ao feitiço da dialética hegeliana. A libertação induz nele um autêntico espírito de resistência. No que dependa dele, mata o Senhor, o Escravo e quem mais apareça pelo caminho. Rompe todas as regras, inclusive as “regras da natureza” (o determinismo biológico). Ao final do épico, Django deixa atrás de si a plantation de Candie em ruínas, símbolo em cinema do velho sul moribundo e, com ele, a “dialética do senhor/escravo”. Quando Django cavalga rumo ao sol que nasce, levando na garupa sua esposa liberta Broomhilda von Shaft (Kerry Washington), nós acordamos da fantasia cinematográfica. No “mundo real”, digo, no mundo externo ao cinema, a plantation de Candie permaneceria, com alta probabilidade, praticamente intacta, e Django, muito provavelmente, voltaria às cadeias. Na prática, Tarantino justapõe, com cinismo máximo, o sonho (a realidade do filme) e a realidade (como a conhecemos). Ao fazê-lo, consegue iluminar o mais profundo da miséria que há, entretecida firmemente, na condição humana e, em especial na América Negra.

Tarantino absolutamente não é “guardião do discurso”. Bem ao contrário, é o mais amargo inimigo da estagnação. Como em trabalhos anteriores, o mais recente espetáculo que nos oferece é assalto essencialista à correção e ao “autoamor”. Tarantino revira muitas pedras e solta muitas víboras na sala de jantar. E, ateniense devoto, não se interessa por produzir, nem resposta alguma, nem qualquer lição moral. Deixa-nos perplexos e exultantes. Para Tarantino, acho, a essência existencial é o dilema. Spielberg, por outro lado, oferece abundantes respostas necessárias. Afinal, no discurso do politicamente correto progressista, as respostas é que determinam, em retrospectiva, que perguntas somos autorizados a fazer.

Se Leo Strauss está certo, e a civilização ocidental deve ser vista como uma oscilação entre Atenas e Jerusalém, verdade seja dita: quantos mais atenienses e suas reflexões essencialistas, melhor! Dito de outro modo: vivemos desesperadora carência de mais Tarantinos, para fazermos frente a Jerusalém e seus embaixadores. 

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Uma política de pensamento para a Era da Internet? O perigoso culto pró “Guardian”

Jonathan Cook

28/9/2011, Jonathan Cook, Counterpunch
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Não há melhor prova da revolução que a internet está fazendo, oferecendo acesso à melhor informação e a comentários-interpretações bem informados, que a reação da imprensa-empresa da “mídia” dominante.

Pela primeira vez, públicos ocidentais – ou, pelo menos, os que podem comprar computadores – encontram meios para escapar à vigilância dos cães de guarda de nossas infelizes democracias “midiáticas”. Dados que em outros tempos foram mantidos cuidadosamente secretos podem hoje ser lidos e pesquisados por gente que não é paga para não deixar ver a hipocrisia ocidental. Wikileaks, sobretudo, rapidamente demoliu os sistemas hierárquicos tradicionais de distribuir informação.

A imprensa – pelo menos o componente de esquerda que se supõe que haja na imprensa – deveria estar comemorando essa revolução; deveria, também, é claro, estar trabalhando para viabilizar essas novas conquistas. Mas, não. Praticamente todas as empresas de comunicação e jornalismo trabalham só para cooptar as conquistas, para domá-las ou subvertê-las. Como se pode ver, jornalistas e colunistas considerados progressistas cada vez mais usam suas plataformas na imprensa dominante para desacreditar e ridicularizar os arautos dos novos tempos.

Bom objeto de estudo, quanto a isso, é o jornal britânico Guardian, considerado o jornal mais decididamente à esquerda da Grã-Bretanha, que rapidamente vai ganhando status e culto de “jornal cult” nos EUA, onde muitos leitores tendem a assumir que, naquelas páginas, encontrarão a mais límpida verdade, em amostra de todo o campo do pensamento crítico de esquerda.

É verdade que o Guardian oferece bom material de reportagem e, vez ou outra, algum comentário mais aprofundado. Talvez por estar mais longe do coração do império, o jornal ofereça antídoto parcial à cobertura acovardada da imprensa-empresa nos EUA.

Mesmo assim, nada aconselha crer que o Guardian seria algum tipo de livre mercado para ideias progressistas ou para os dissidentes de esquerda. Aliás, longe disso: o jornal policia rigorosamente o que se pode e não se pode dizer em suas páginas, por razões bem pouco nobres, como examinamos adiante.

Até há pouco tempo, os leitores ainda podiam viver na confortável ignorância de que vários autores e pensadores, interessantes ou provocadores, são, sim, terminantemente proibidos para citação ou menção nas páginas do Guardian. Antes das versões online, o Guardian ainda podia alegar as dificuldades de espaço, para não incluir mais amplo espectro de vozes. Esse motivo, é claro, desapareceu, com o crescimento da Internet.

Desde o primeiro momento, o Guardian viu tanto o potencial de crescimento quanto a potencial ameaça que lhe vieram com a revolução da Internet. Respondeu com a criação de um blog aparentemente aberto a todos (Comment is Free), no qual contava domesticar parte da energia bruta liberada pela internet. Arregimentou um exército de escritores, ativistas e propagandistas, a maioria sem qualquer remuneração, dos dois lados do Atlântico, para ajudar a reposicionar a marca Guardian como o suprassumo da imprensa-empresa democrática e pluralista.

Mas nunca, desde o início, o blog Comment is Free (CiF) foi tão livre quanto se dizia – senão no sentido de que a empresa Guardian sempre se sentiu livre para não pagar salário aos “colaboradores” que trabalham no blog. Inúmeros autores da esquerda, sobretudo os considerados “fora do esquema” [orig. “beyond the pale”] no contexto da velha imprensa-empresa, continuaram, como antes, sem acesso à tal nova plataforma “democrática”. Outros, dentre os quais eu mesmo, logo descobrimos que havia limites aparentemente inexplicáveis, mas sempre intransponíveis, para o que se podia escrever no blog CiF (e limites que nada tinham a ver com moral ou bons costumes).

Nada disso deveria ser questão importante. Afinal, há muitos outros lugares onde publicar, além do Blog CiF do Guardian, para fazer-se ouvir. Por toda a rede há dissidentes distribuindo análises alternativas dos eventos atuais e chamando a atenção para a informação que a imprensa-empresa não publica ou publica como notícia sem importância.

Mas, em vez de acolher esse tipo de concorrência, ou de resignar-se ao surgimento de imprensa realmente pluralista, o Guardian reverteu à imagem-tipo de antes. Voltou a autoapresentar-se como “a política de pensamento” da esquerda.

De novidade que, dessa vez, nada garante que algum jornal-empresa consiga silenciar completamente a “esquerda que contesta”. A internet acabou com a fácil solução de antes, quando os jornais-empresas silenciavam, por exclusão absoluta, as vozes de contestação. Pelo que se vê hoje, o Guardian adotou a tática de desqualificar os autores que, por serem realmente provocadores ou por suas ideias realmente avançadas, possam fazer-ver a covarde política conformista, enquadrada, do Guardian.

E o Guardian passou a desacreditar “a esquerda” – que nenhum dos jornalistas e colunistas do jornal jamais define – em campanha que nada tem a ver com algum tipo democrático de luta de ideias. E, sempre, o Guardian encontra amparo nos imensos recursos das empresas e corporações proprietárias do jornal. Quando ataca autores e pensadores dissidentes, os atacados só muito raramente, e na maioria das vezes nunca, encontram plataforma “com igual espaço e destaque” para defenderem-se. E já se viu que o Guardian é sempre muito relutante, e resiste o mais que consiga, a garantir justo direito de resposta a quem o jornal-empresa calunia.

Além do quê, e quase imperceptivelmente, o Guardian praticamente nunca encampa as ideias desses autores ou jornalistas “não alinhados”. Em termos populares, o Guardian marca a canela do jogador, não marca a bola. Cria e distribui calúnias, que vão das apenas absurdas às claramente difamatórias, que empurram aqueles autores ou jornalistas ou pensadores para o território do absurdo, do não razoável, ou do sórdido inadmissível.

Exemplo típico da nova estratégia do Guardian viu-se essa semana, em artigo impresso nas páginas de editoriais e colunistas do próprio jornal – disponíveis também online, e espaço muitíssimo mais prestigioso que o Blog Comment is Free  que o jornal encomendou a autor socialista, Andy Newman [1], com instruções expressas para que dissesse que o músico judeu israelense Gilad Atzmon [2] seria antissemita, de uma tendência de antissemitismo discernível na esquerda.

Jonathan Freedland, colunista empregado “star” do Guardian e obcecado na perseguição a antissemitas, tuitou para seus seguidores que o artigo de Newman seria “importante”, porque “conclama a esquerda a começar a atacar o antissemitismo também em suas fileiras.” [3]

Não tenho notícia de Atzmon ter algum dia manifestado ideias antissemitas – nem antes nem depois de ler o artigo de Newman.

Como já se tornou rotina nessa nova modalidade de assassinato de reputação pelo Guardian, o artigo não faz qualquer esforço para provar que Atzmon seria antissemita ou para mostrar que haveria qualquer motivo para pôr em evidência essa sua pressuposta falha de caráter. (Diga-se, de passagem, que no artigo de Newman há idêntica acusação de antissemitismo contra Alison Weir, do blog “If Americans Knew” e também contra nossa página [Counterpunch] na internet, por termos publicado artigo assinado por Weir, sobre o papel de Israel no tráfico de órgãos [4]).

Atzmon acaba de publicar um livro sobre a identidade judaica, The Wandering Who? [“Errante”, quem?], já elogiado por figuras respeitadas como Richard Falk, professor emérito da escola de Direito em Princeton, e por John Mearsheimer, conhecido professor de política da Chicago University.

Mas Newman não critica o livro nem extrai dele qualquer citação. De fato, tudo sugere que sequer tenha lido o livro de Atzmon ou tenha qualquer ideia do que contém.

Newman abre o artigo com elogios ao talento e à mestria musicais de Atzmon, com uma referência muito vaga a escritos seus, pressupostos “antissemitas”. Em seguida, algumas longas frases extraídas de escritos de Atzmon, suficientemente longas para sugerir alguma suspeita (não se sabe exatamente do quê); e curtas demais e por demais afastadas de qualquer contexto para provar qualquer coisa, inclusive um pressuposto antissemitismo – mas prova suficiente, talvez, para atender à política de pensamento do Guardian e de seus leitores menos críticos e mais subservientes. Nada, na coluna publicada, comprova que Atzmon algum dia tenha sido antissemita: o jornal assume que ele é antissemita, o colunista escreve que ele é antissemita, ninguém comprova ou demonstra coisa alguma. E assassina-se mais uma reputação. (...)

Apesar disso, o Guardian garante seu imprimatur à difamação assinada por Newman, contra Atzmon (apresentado ali como “teórico da conspiração, pingando de desprezo por judeus”), não oferece qualquer prova de coisa alguma e tudo fica por isso mesmo. Jornalismo digno do Pravda, nos dias de glória de Stálin! (...)

O Guardian, como várias outras grandes corporações de imprensa-empresa, recebe fortes investimentos – em termos financeiros e também em termos ideológicos – para dar irrestrito apoio à atual ordem mundial. Em tempos de jornais impressos, o Guardian tinha meios para excluir e silenciar – e hoje, em tempos de internet –, dedica-se a demonizar as vozes da esquerda que se arriscam a questionar um sistema de poder e controle por grandes empresas, poder e controle dos quais o Guardian é uma das peças chave.

Quem leia o Guardian é rapidamente levado a crer que uma meia dúzia de dissidentes dispersos e os intelectuais de esquerda seriam dos principais problemas que nossa sociedade enfrenta – problema comparável, em magnitude, à ação de nossas elites moralmente comprometidas, autoridades policiais corrompidas e sistema financeiro depravado.

Atzmon e algum seu pressuposto antissemitismo seria talvez problema mais grave que a ação do AIPAC (America-Israel Public Affairs Comittee)? (...) Assange e WikiLeaks seriam mais grave ameaça ao futuro do planeta que o presidente Barack Obama dos EUA? Leitores do Guardian são diariamente induzidos a crer que sim.



Notas dos tradutores
[1] 25/9/2011, Andy Newman, “Gilad Atzmon, antisemitism and the left” [Gilad Atzmon, antissemitismo e a esquerda],  (em inglês).
[2] Ver 19/9/2011, Gilad Atzmon, 19/9/2011, “Obama, o estado palestino e a esquizofrenia sionista”, em português; e  Gilad Atzmon, 23/9/2011 “Tragédia Americana”, em português.
[4] Allison Weir, “Israeli Organ Harvesting”, Counterpunch, ed. fim de semana, 29-30/8/2009, (em inglês).