Vez ou outra, líderes políticos e militares israelenses são derrotados pelas próprias guerras israelenses. A Primeira-Ministra Golda Meir e seu comandante do exército (David “Dado” Elazar)foram mandados de volta para casa depois dos erros estúpidos de 1973 (Guerra do Yom Kippur). O Primeiro-Ministro Menachem Begin perdeu a sanidade depois da primeira guerra no Líbano (1982). O Ministro da Defesa, Amir Peretz e seu comandante do exército Dan Halutz’ foram tratados com dureza pela mídia israelense depois da derrota de Israel no Líbano, em 2006. O Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu paga agora o preço do mais recente desastre israelense em Gaza e do levante de palestinos que veio imediatamente depois.
Nações fortes tendem a unir-se em torno dos comandantes em tempos de crise. Os israelenses não, são como crianças mimadas. Preferem virar-se contra os comandantes em tempos de conflito, mas não porque anseiem por paz. É exatamente o contrário: querem vitória conclusiva; rios de sangue árabe pelas ruas. Bibi não lhes deu o que queriam. Aos olhos de muitos patriotas israelenses, Bibi é mole.
Israel não se saiu bem na mais recente rodada de violência. O exército de Israel não conquistou um, que fosse, objetivo militar importante. Depois de poucos dias, o exército israelense teve de retirar-se, humilhado e exaurido. Os militares israelenses já admitiram que não souberam dar resposta militar à balística palestina, aos tuneis e a coragem sem fim dos palestinos. Além do mais, o conflito em Gaza respingou sobre a Cisjordânia e cidades israelenses. Na verdade, o gabinete de Netanyahu demorou a reagir. Parecia colhido de surpresa pelos eventos. Agora, muitos israelenses já admitem abertamente que o futuro do Estado Judeu é mais sombrio a cada dia.
Por Latuff
O establishment político israelense seguiu rapidamente a maré de opinião pública – com total radicalização. Os falcões querem que o estado admita que é um “lar judeu”, em vez de uma “democracia judaica” (expressão que, só ela, já é uma contradição entre os termos). Os centristas e a esquerda israelense insiste que Israel tem de manter a mentira “democrática”. Soa bem e os Goyim acreditam, como argumentaram.
Hoje (3/12/2014) cedo, o Primeiro-Ministro Netanyahu anunciou novas eleições, depois de demitir dois ministros chaves de seu governo – Yair Lapid, líder do partido Yesh Atid e Ministro das Finanças; e Tzipi Livni, líder do Hatnua e Ministra da Justiça.
Livni e Lapid opuseram-se à Lei Nacional de Israel e deram a Netanyahu oportunidade de ouro para se reafirmar como devotado judeu nacionalista patriótico. Acho que Netanyahu sobreviverá a esse round político.
Mas há um ponto, nessa história, pequeno, mas significativo. Há sete meses, era Netanyahu que pressionava cada vez mais a Autoridade Palestina, o Hamás e a população palestina, num esforço para quebrar o governo de unidade dos palestinos. Seis meses de violência depois, uma guerra em Gaza e uma 3ª Intifada em produção, os palestinos mostram-se mais unidos que nunca. E o governo de Netanyahu está caindo aos pedaços.
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[*]Gilad Atzmon(músico e escritor) nasceu em Israel em 1963 e estudou na Academia Rubin de Música, Jerusalém (Composição e Jazz). Multi-instrumentista, toca saxofones, clarinete e instrumentos de sopro étnicos. Seu álbum Exile foi o álbum de jazz BBC do ano em 2003. Ele foi descrito por John Lewis noThe Guardiancomo “o maishardest-gigginghomem do jazz britânico”. Atzmon viaja extensivamente pelo mundo tocando em festivais, salas de concertos e clubes. Até 1994, foi produtor-arranjador de vários projetos de dança e rock israelenses, realizando na Europa e nos EUA a reprodução de música étnica, bem como rock ejazz. Anima seu blog com vários artigos políticos.
No discurso
que fez à nação o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu reconheceu
ontem que a guerra contra Gaza é uma batalha pela existência do Estado Judeu.
Netanyahu está certo. E Israel não pode vencer essa batalha; não pode sequer
definir que vitória poderia advir dessa batalha. Claro que a batalha não se
trava pela posse dos túneis ou pela operação subterrânea da resistência: os túneis
são armas da resistência, não são a resistência. Os militantes do Hamás e de
Gaza atraíram Israel para uma zona de batalha na qual Israel jamais vencerá; e
o Hamas impôs as condições, escolheu o campo e escreveu os termos que exige
para concluir esse ciclo de violência.
Por dez
dias, Netanyahu fez tudo que pôde para evitar a operação por terra, pelo
exército de Israel. Ele sabia que Israel não conhece resposta militar à
resistência palestina. Netanyahu sabia que uma derrota em solo erradicaria o
pouco que resta do poder de contenção que o exército israelense ainda tem.
Há cinco
dias, Israel – pelo menos aos olhos dos próprios apoiadores – estaria no
comando da situação. Via seus cidadãos convertidos em alvos de fogo infinito de
foguetes, mas ainda mostrava alguma moderação, só matando palestinos civis bem
de longe, o que ajudava a preservar uma fantasia de força, de poder. Tudo isso
mudou rapidamente, a partir do início da operação em terra lançada por Israel.
Agora, mais
uma vez, Israel está envolvida em colossais crimes de guerra, crimes contra a
humanidade, crimes contra população civil. E, pelo menos estrategicamente, seus
comandos de elite da infantaria estão sendo dizimados nas batalha cara-a-cara
em Gaza.
Apesar da
clara superioridade tecnológica de Israel e do maior poder de fogo, os
militantes palestinos estão derrotando Israel na guerra de solo. E já conseguiram
levar a guerra para território israelense. E a chuva de foguetes sobre Telavive
não dá sinais de arrefecer.
A derrota do
exército de Israel em Gaza deixa sem qualquer esperança o Estado Judeu. A moral
é simples. Se você insiste em viver em terra dos outros, a força militar é
ingrediente essencial para impedir que os roubados lutem pelos próprios
direitos.
O nível de
baixas no exército israelense e as filas de soldados da elite israelense
voltando para casa em caixões é mensagem muito clara para israelenses e
palestinos: a superioridade militar de Israel é coisa do passado. Não há futuro
para o Estado-Só-de-Judeus na Palestina. Se quiserem, que tentem noutro lugar.
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[*] Gilad Atzmon(músico e escritor) nasceu em Israel em 1963 e
estudou na Academia Rubin de Música, Jerusalém (Composição e Jazz). Multi-instrumentista,
toca saxofones, clarinete e instrumentos de sopro étnicos .Seu álbum Exile foi
o álbum de jazz BBC do ano em 2003. Ele foi descrito por John Lewis no The Guardian como “o mais hardest-gigging homem do jazz britânico”.
Atzmon viaja extensivamente pelo mundo tocando em festivais, salas de concertos
e clubes. Até 1994, foi produtor-arranjador de vários projetos de dança e rock
israelenses, realizando na Europa e nos EUA a reprodução de música étnica, bem
como rock e jazz. Anima seu blog com
vários artigos políticos.
Para
envolver-se em ações de solidariedade aos palestinos, você, antes, tem de
aceitar que os judeus seriam especiais; e que o sofrimento dos judeus seria mais
sofrimento que o de qualquer outro povo; e que os judeus seriam povo escolhido;
e que o Holocausto dos judeus teria sido o pior de todos os genocídios que a
humanidade conheceu; e que o antissemitismo seria racismo mais vil que todos os
racismos vis que a humanidade conheceu. E por aí vai.
Mas,
quando se trata de palestinos... É exatamente o contrário! Por alguma razão
incompreensível, deve-se crer que os palestinos, o povo palestino e a luta dos
palestinos, absolutamente nada teriam de especial.
De
fato, os palestinos foram vítimas de um movimento racista, nacionalista e
expansionista judeu como jamais o mundo conheceu outro. Mas temos de aceitar
que, como se os palestinos fossem indianos ou africanos como outros, o seu
padecimento não passaria de sofrimento resultante do colonialismo do século 19 –
e ali estaria implantado mais um caso de algum já nosso velho conhecido sistema
de Apartheid.
Por
essa contabilidade, os judeus, os sionistas e os israelenses seriam
excepcionais, superiores, nada se compararia a eles; e os palestinos seriam
comuns, vulgares, apenas mais um capítulo de uma narrativa política maior,
sempre um caso a mais, dentre outros semelhantes. O sofrimento dos palestinos
nada teria a ver com os traços específicos que têm o nacionalismo judeu e o
racismo judeu; nem, sequer, com a política externa dos EUA dominada pelo AIPAC.
Nada disso. Os palestinos são sempre vítimas de uma mesma dinâmica tediosa,
banal, geral, abstrata, sem nada, sem nenhuma, sem uma única especificidade,
coisa “histórica”, que acontece sempre.
Se
é assim... há perguntas muito sérias a serem respondidas.
Alguém
algum dia ouviu falar de movimento de solidariedade ou de libertação que se
orgulhasse de ser movimento tedioso, banal, sem graça, chatíssimo? Alguém algum
dia ouviu falar de movimento de solidariedade que se degrada ele mesmo e o povo
ao qual afeta solidariedade, para convertê-lo em peça mumificada a ser exibida
num museu de eventos do materialismo histórico? De minha parte, nunca ouvi falar
de coisa semelhante. Os negros sul-africanos apresentavam o próprio sofrimento
como repetição incansável de sofrimentos “históricos”, contra os quais nada se
poderia jamais fazer? Viam-se, eles mesmos, como iguais a qualquer outro negro?
Martin Luther King creria, talvez, que suas irmãs e irmãos seriam inerentemente
“iguais” a quaisquer outros povos cujo destino seria sofrer, sofrer, sofrer? É
claro que não!
Assim
sendo... Como é possível que o movimento de solidariedade aos palestinos tenha
naufragado tão completamente, que seus porta-vozes e apoiadores disputam entre
si para ver quem consegue apagar mais completamente a especificidade da luta dos
palestinos, fazendo-a parecer como mero capítulo de alguma tendência histórica
já petrificada, chamada “colonialismo” ou chamada “apartheid”?
Roubo de território da Palestina por Israel
A
resposta é simples. A Solidariedade aos Palestinos também é zona ocupada.
Como qualquer zona ocupada, os movimentos de solidariedade aos palestinos também
já estão cooptados e alinhados na luta contra... O “antissemitismo”!
Devida e elegantemente militante
contra o racismo, plena e adequadamente engajado nas questões de LGBT na
Palestina, mas, por alguma razão insondável, o movimento de solidariedade aos
palestinos é quase completamente indiferente ao destino de milhões de palestinos
que vivem em campos de concentração e ao seu DIREITO DE RETORNO à terra
natal.[Ler também: “Is the Anti-Occupation Movement Driven by Defenders of Genocide?”].
Tudo
isso pode mudar. Os palestinos e seus apoiadores podem começar a ver a própria
causa como ela de fato é e pelo que de fato é: única e especial. Afinal, nem é
tão difícil. Se o nacionalismo judeu é inerentemente excepcional (como proclamam
os sionistas), nada mais obviamente claro do que as vítimas dessa especialíssima
missão racista que os judeus se autoatribuem serem, elas também, no mínimo,
vítimas especialíssimas de crime especialíssimo.
Hummus Tzabar
Até agora, os movimentos de
solidariedade aos palestinos ainda não conseguiram libertar a Palestina, mas com
certeza já conseguiram criar uma Indústria de Solidariedade à Palestina – em
vasta medida financiada por sionistas liberais. Não há canto do planeta onde não
se ouça falar de algum “boicote” ou de alguma sanção... ao mesmo tempo em que o
comércio entre Israel e Grã-Bretanha cresce sem parar [Ler: “Boycott,
what boycott? UK-Israel trade booming”]e compra-se a griffe Hummus Tzabar em praticamente
qualquer loja de comida na Grã-Bretanha.
Todos esses esforços para reduzir
o sacrifício dos palestinos a uma narrativa materialista generalista, datada,
tediosa, devem ser expostos como o que são: tentativa de não contrariar o
projeto dos sionistas liberais.
A verdade é que o sofrimento dos
palestinos é, sim, único, jamais se viu coisa semelhante na história do mundo;
é, no mínimo, tão raro, tão sem igual e sem comparação, quanto o próprio projeto
sionista.
Ronnie Kasrils
Ontem, encontrei esse comentário,
de um ministro sul-africano, Ronnie Kasrils, falando do que via nos territórios
ocupados da Palestina:
O
que se vê aqui é muito pior que o apartheid. A brutalidade dos israelenses faz o
apartheid da África do Sul parecer piquenique. Na África do Sul, jamais tivemos
jatos de guerra atacando cidades. Nunca houve áreas sitiadas durante meses e
meses. Nenhum tanque de guerra jamais destruiu casas, na África do Sul do
apartheid.
Kasrils
está certíssimo, infelizmente. O que Israel faz aos palestinos é muito pior que
o apartheid e muitíssimo mais sofisticado que qualquer colonialismo. E por quê?
Porque o que os sionistas fizeram e continuam a fazer tampouco é apartheid ou
algum dia foi colonialismo. O apartheid visava a explorar a mão de obra
africana. Israel quer que todos os palestinos morram.
É
mais que hora, afinal, de ver o extraordinário, único, específico sofrimento que
Israel impõe aos palestinos. Simultaneamente, é mais que hora de denunciar o
crime dos sionistas, à luz da cultura, da política e da identidade dos judeus.
O
movimento de solidariedade aos palestinos conseguirá fazer tudo isso? É possível
que consiga. Mas, antes, ele terá de livrar-se, o próprio movimento, de todo o
sionismo.
Vê-se
a história, quase sempre, como tentativa de produzir narrativa estruturada do
passado. Dizem que nos contam o que realmente aconteceu, mas em muitos casos,
não é bem assim. A história parece existir para esconder nossas vergonhas, como
que para apagar do mundo os vários elementos, eventos, incidentes e ocorrências
com as quais absolutamente não sabemos lidar. A história, portanto, pode ser
vista como sistema de ocultamento.
Assim
sendo, o papel do verdadeiro historiador é semelhante ao do psicanalista: os
dois têm de desvelar o reprimido. Para o psicanalista, é o inconsciente. Para o
historiador, a nossa vergonha coletiva.
Mas,
cabe perguntar, quantos historiadores abraçam de fato essa tarefa? Quantos
historiadores têm a coragem necessária para abrir a caixa de Pandora? Quantos
historiadores têm a coragem para desafiar a verdade da História dos Judeus?
Quantos historiadores têm a coragem de perguntar “por que só os judeus”? Por que
os judeus padecem sempre? Será culpa dos Goyim que seriam inerentemente
assassinos, ou há algo que atormenta, por dentro, o coletivismo ou a cultura dos
judeus? Evidentemente, os judeus absolutamente não são os únicos: todos os
passados de todos os povos são também problemáticos.
Como,
afinal, os palestinos explicam a eles mesmos por que, depois de mais de um
século de lutas, ainda acordam, todos os dias, para ver que sua verdadeira
capital está convertida num paraíso de ONGs mantidas pela Open Society de George Soros?
Os
britânicos são capazes de, de uma vez por todas, olhar a própria cara no espelho
e explicar a eles mesmos por que, no seu Museu das Guerras Imperiais, meteram
uma exposição sobre o Holocausto dedicada à destruição dos judeus? Não seriam
mais valentes, os britânicos, se olhassem para as muitas Shoas que eles
mesmos infligiram a outros? Afinal, os britânicos podem escolher qualquer uma,
na monumental lista de desgraças que eles mesmos provocaram e provocam pelo
mundo.
O
Guardião versus
Atenas
O
passado é território perigoso; pode nos levar a histórias inconvenientes. Basta
isso, para explicar por que o verdadeiro historiador é, não raro, apresentado
como inimigo público. Mas a Esquerda inventou solução acadêmica para lidar com
essa questão. O historiador “progressista” opera para produzir o conto
“politicamente correto”, “inofensivo”, do passado. Com muitos ziguezagues,
navega a própria rota, pagando o que lhe cobrem os eventos ocultados e criando
infindáveis desvios ad-hoc que mantêm o “reprimido” sempre intactamente
reprimido. O sujeito progressista aí está para produzir narrativas “não
essencialistas” e “não ofensivas” do passado; e o chamado “reacionário” lá está,
e paga o pato.
O jornal The Guardian é
emblemático dessa abordagem. Baniu toda e qualquer crítica contra a cultura
judaica ou contra a juidaicidade, e oferece plataforma televisiva para que dois
sionistas obsessivos, doidos furiosos,discutam cultura árabe e
islamismo. O Guardian não se incomoda com ofender “islamistas” ou
“nacionalistas” britânicos, mas cuida muito atentamente de não ferir
sensibilidades judaicas. Tais versões da política ou do passado são imunes à
qualquer verdade, coerência, consistência ou integridade. De fato, o discurso
progressista fracassa sempre que se trate de operar como “o guardião da verdade”
– e aqui me refiro, em particular, ao discurso da esquerda.
Evidentemente,
há alternativa à atitude “progressista” em relação ao passado. O verdadeiro
historiador é um filósofo – e um essencialista – pensador que propõe a questão
“o que significa estar no mundo e o que se exige para viver entre outros?”. O
verdadeiro historiador vai além do singular, do particular e do pessoal. Ele ou
ela vive em busca da condição de possibilidade do que comanda nosso passado,
presente e futuro. O verdadeiro historiador opera entre o Ser e o Tempo; ele ou
ela, em busca de uma lição humanista e de um insight ético, procurando no
poema, na arte, na beleza, a razão, mas procurando também o medo. O verdadeiro
historiador é um essencialista que escava em busca do ocultado, porque sabe que
o reprimido é o núcleo duro da verdade.
Leo
Strauss oferece insight muito útil nesse campo. A civilização ocidental,
argumenta ele, oscila entre dois polos intelectuais e espirituais – Atenas e
Jerusalém. Atenas – berço da democracia, lar da razão, da filosofia, da arte e
da ciência. Jerusalém – cidade de Deus, na qual a lei de Deus vige. O filósofo,
o verdadeiro historiador, ou, no que tenha a ver, o essencialista, é,
obviamente, o ateniense. O jerusalemita, no que tenha a ver, é “o guardião do
discurso”, o que vigia a entrada, só para manter a lei, à custa do êxtase, da
poesia, da beleza, da razão e da verdade.
Spielberg
versus Tarantino
Steven Spielberg
Hollywood
nos oferece via para assistir a essa oscilação entre Atenas e Jerusalém: entre o
jerusalemita “guardião do discurso” e o opositor ateniense – o inimigo público
“essencialista”. No campo esquerdo do mapa, temos Steven Spielberg, o gênio
“progressista”. À direita dele encontramos a poiesis encarnada, Quentin
Tarantino, o “essencialista”.
Spielberg
nos supre com o mais consumado épico histórico desinfetado. Os fatos são
selecionados a dedo para produzir um conto premeditadamente pseudo ético que
mantém o discurso, a lei e a ordem “corretos”, mas, muito mais importante,
mantém o primado do sofrimento exclusivo dos judeus (Lista de Schindler e
Munique). Spielberg dá vida a uma grande visada épica, retrospectiva, do
passado. A tática de Spielberg é, quase sempre, bem simples. Ele simplesmente
expõe, justapostos, os termos de uma oposição binária transparente: nazistas X
judeus; israelenses X palestinos; norte X sul; decência X escravidão. Sempre se
sabe, de saída, quem são os bonzinhos e quem são os malvados. Sabe-se de saída,
claramente, a quem se aliar.
A
oposição binária, sim, é rota segura. Oferece clara distinção entre “Kosher” e
“proibido”. Mas Spielberg está longe de ser mente simplória. Também permite
oscilação milimetricamente calculada, premeditada. Em gesto universalista,
admitirá um nazista na família dos bons. Deixará que um palestino esquisito
apareça como vítima. Qualquer coisa pode acontecer, desde que a moldura básica
do discurso permaneça intacta. Spielberg é claramente um arquiguardião do
discurso – mestre na própria arte, sem dúvida prenderá a atenção do público,
ininterruptamente, por pelo menos 90 minutos de um coquetel histórico feito de
semifatos. Ao espectador, só compete seguir a trama até o final, quando então a
mensagem ética pré-mastigada e pré-digerida já estará replantada, em segurança,
no coração do universo de autoadoração narcísica de cada espectador.
Quentin Tarantino
Diferente de Spielberg, Tarantino
não se preocupa com a factualidade; pode até rejeitar qualquer historicidade.
Tarantino pode bem acreditar que a noção de “mensagem” ou de moralidade ande
superestimada. Tarantino é essencialista, interessado na natureza humana, no
Ser; e parece fascinado, em especial, pela vingança e a universalidade da
vingança. Por razões óbvias, seu integralmente ficcional Bastardos
Inglórios lança luz sobre a sede
coletiva de sangue dos israelenses,claramente detectada no momento da
Operação Chumbo Derretido. A criação cinemática ficcional de um comando
assassino e vingativo de judeus na 2ª Guerra Mundial ali está para lançar luz e
fazer ver a devastadora realidade contemporânea dos lobbies judeus
sedentos de vingança, em sua sanha incansável em busca de uma guerra mundial
contra o Irã e o resto todo. Mas Bastardos Inglórios pode bem ter também
um apelo universal, porque o “olho por olho” do Velho Testamento já está
convertido em impulso político que move os anglo-norte-americanos depois do
11/9.
Abe
Lincoln versus Django
Nos
trabalhos recentes, vê-se, bem claro, o choque espiritual entre o jerusalemita
Spielberg e o ateniense Tarantino.
A
história da escravidão nos EUA é, sim, tópico problemático, e, por razões
óbvias, muitos aspectos desse capítulo ainda permanecem secretos, sob domínio do
ocultado. Mais uma vez, Spielberg e Tarantino produziram relatos marcadamente
diferentes do mesmo tema.
No
seu épico histórico recente, Lincoln, Spielberg converteu Abraham Lincoln
num neoconservador “moral-intervencionista” o qual, contra todas as
possibilidades (políticas), aboliu a escravidão. Acho que Spielberg conhece o
suficiente da história dos EUA para dar-se conta de que seu relato
cinematográfico não passa de tentativa, nua e crua, de fugir do tema, porque a
campanha política contra a escravidão nunca passou de pretexto para uma guerra
sangrenta, orientada por interesses econômicos bem claros.
Como
se deveria esperar, Spielberg tempera sua ficção com pitadas de passagens
históricas genuínas. Com isso, paga o necessário tributo para conseguir manter a
vergonha bem escondida por baixo do tapete. Seu Lincoln é apresentado como herói
movido por ímpeto moral da fraternidade humana. Todo o roteiro manifesta
sintomas bem visíveis do assalto que o AIPAC contemporâneo mantém em andamento
dentro do Senado dos EUA. Sendo um dos arquiguardiões do discurso, Spielberg
saiu-se bastante bem, da empreitada. Aplicou uma substancial camada de cinema
por cima de tudo, para assegurar que a verdadeira vergonha norte-americana
continue profundamente reprimida ou, pode-se dizer, intocada.
Desnecessário
dizer que a visão à Spielberg, de Lincoln, foi muito elogiada pela imprensa
judaica. Batizaram o presidente de Avraham Lincoln Avinu (‘'nosso pai'’, em
hebraico), na The Tablet Magazine. “Avraham” – segundo a Tablet, é
o bom judeu definitivo. “Como imaginado por Spielberg e Kushner, o Lincoln de
Lincoln é o mensch consumado. É psicólogo naturalmente dotado,
interpretador de sonhos, homem abençoado pela mais extraordinariamente lúcida e
sutil alma legal”. Em resumo, o Lincoln de Spielberg combina as
competências, o dom e os traços de Moisés e também de Freud; praticamente um
Alan Dershowitz.
Mas alguns judeus reclamaram do
filme. “Como historiador judeu-norte-americano, escreve Lance
J. Sussman, “temo ter de dizer que estou
desapontado, em certo sentido, com o novo filme de Spielberg. Há coisas muito
boas, no filme. Mas melhorariam muito, se o diretor tivesse posto pelo menos um
judeu, no filme, em algum lugar”.
Acho
que Spielberg talvez encontre dificuldades para agradar a tribo toda. Já Quentin
Tarantino, esse, nem tenta. Tarantino, de fato, está fazendo exatamente o
contrário. Mediante um épico fantasmático que declara interesse zero por
qualquer forma de historicidade ou de factualidade, sejam quais forem, ele
consegue – em Django, sua mais recente obra prima – desencavar e trazer à
luz os mais obscuros segredos da escravidão. Esgravata o reprimido e, a
julgar-se pela reação de outro gênio do cinema, Spike Lee, não há dúvida de que
consegue ir bem fundo.
Ao
criar espetáculo estilístico clássico do gênero Western, consegue enfrentar
todos os aspectos em relação aos quais somos adestrados para jamais tocar.
Enfrenta o determinismo biológico, o suprematismo e a crueldade dos brancos. Mas
não deixa passar sem registro a passividade dos escravos, a subserviência, o
colaboracionismo ativo.
Diretor
ateniense, constrói aqui um conjunto de deuses mitológicos gregos, à guisa de
personagens. Django (Jamie Fox) é o indomável rei da vingança; e Schultz
(Christoph Waltz), o dentista alemão convertido em caçador de recompensas, é o
mestre da convenção, da gentileza, da humanidade, com um gigantesco dente da
sabedoria divina (e cofre) balançando sobre a lona de sua carroça. Calvin Candie
(Leonardo DiCaprio) é o patrão hegeliano (racista); e Stephen (Samuel L.
Jackson) é o escravo hegeliano, emergindo como a personificação da transformação
social. Em vários sentidos, o relacionamento entre Candie e Stephen pode ser
visto como uma das representações cinematográficas mais profundas (e mais
subversivas) da dialética senhor-escravo.
Na
dialética hegeliana, duas autoconsciências constituem-se por espelhamento. Em
Django Liberto, Stephen, o escravo, parece manifestar a mais consumada
forma de subserviência, ainda que só na aparência. De fato, Stephen é muitíssimo
mais sofisticado e bom observador que seu patrão Candie. Está em plena ascensão,
na cadeia de comando. Difícil decidir se Stephen é colaborador, ou se é, de
fato, quem dirige todo o show. Mas na obra mais recente de Tarantino, a
dialética hegeliana é, em certo sentido, compartimentalizada. Django, uma vez
liberto, é absolutamente imune ao feitiço da dialética hegeliana. A libertação
induz nele um autêntico espírito de resistência. No que dependa dele, mata o
Senhor, o Escravo e quem mais apareça pelo caminho. Rompe todas as regras,
inclusive as “regras da natureza” (o determinismo biológico). Ao final do épico,
Django deixa atrás de si a plantation de Candie em ruínas, símbolo em
cinema do velho sul moribundo e, com ele, a “dialética do senhor/escravo”.
Quando Django cavalga rumo ao sol que nasce, levando na garupa sua esposa
liberta Broomhilda von Shaft (Kerry Washington), nós acordamos da fantasia
cinematográfica. No “mundo real”, digo, no mundo externo ao cinema, a
plantation de Candie permaneceria, com alta probabilidade, praticamente
intacta, e Django, muito provavelmente, voltaria às cadeias. Na prática,
Tarantino justapõe, com cinismo máximo, o sonho (a realidade do filme) e a
realidade (como a conhecemos). Ao fazê-lo, consegue iluminar o mais profundo da
miséria que há, entretecida firmemente, na condição humana e, em especial na América
Negra.
Tarantino
absolutamente não é “guardião do discurso”. Bem ao contrário, é o mais amargo
inimigo da estagnação. Como em trabalhos anteriores, o mais recente espetáculo
que nos oferece é assalto essencialista à correção e ao “autoamor”. Tarantino
revira muitas pedras e solta muitas víboras na sala de jantar. E, ateniense
devoto, não se interessa por produzir, nem resposta alguma, nem qualquer lição
moral. Deixa-nos perplexos e exultantes. Para Tarantino, acho, a essência
existencial é o dilema. Spielberg, por outro lado, oferece abundantes respostas
necessárias. Afinal, no discurso do politicamente correto progressista, as
respostas é que determinam, em retrospectiva, que perguntas somos autorizados a
fazer.
Se
Leo Strauss está certo, e a civilização ocidental deve ser vista como uma
oscilação entre Atenas e Jerusalém, verdade seja dita: quantos mais atenienses e
suas reflexões essencialistas, melhor! Dito de outro modo: vivemos desesperadora
carência de mais Tarantinos, para fazermos frente a Jerusalém e seus
embaixadores.
Não há melhor prova da revolução que a internet está fazendo, oferecendo acesso à melhor informação e a comentários-interpretações bem informados, que a reação da imprensa-empresa da “mídia” dominante.
Pela primeira vez, públicos ocidentais – ou, pelo menos, os que podem comprar computadores – encontram meios para escapar à vigilância dos cães de guarda de nossas infelizes democracias “midiáticas”. Dados que em outros tempos foram mantidos cuidadosamente secretos podem hoje ser lidos e pesquisados por gente que não é paga para não deixar ver a hipocrisia ocidental. Wikileaks, sobretudo, rapidamente demoliu os sistemas hierárquicos tradicionais de distribuir informação.
A imprensa – pelo menos o componente de esquerda que se supõe que haja na imprensa – deveria estar comemorando essa revolução; deveria, também, é claro, estar trabalhando para viabilizar essas novas conquistas. Mas, não. Praticamente todas as empresas de comunicação e jornalismo trabalham só para cooptar as conquistas, para domá-las ou subvertê-las. Como se pode ver, jornalistas e colunistas considerados progressistas cada vez mais usam suas plataformas na imprensa dominante para desacreditar e ridicularizar os arautos dos novos tempos.
Bom objeto de estudo, quanto a isso, é o jornal britânicoGuardian, considerado o jornal mais decididamente à esquerda da Grã-Bretanha, que rapidamente vai ganhando status e culto de “jornalcult” nos EUA, onde muitos leitores tendem a assumir que, naquelas páginas, encontrarão a mais límpida verdade, em amostra de todo o campo do pensamento crítico de esquerda.
É verdade que oGuardianoferece bom material de reportagem e, vez ou outra, algum comentário mais aprofundado. Talvez por estar mais longe do coração do império, o jornal ofereça antídoto parcial à cobertura acovardada da imprensa-empresa nos EUA.
Mesmo assim, nada aconselha crer que oGuardianseria algum tipo de livre mercado para ideias progressistas ou para os dissidentes de esquerda. Aliás, longe disso: o jornal policia rigorosamente o que se pode e não se pode dizer em suas páginas, por razões bem pouco nobres, como examinamos adiante.
Até há pouco tempo, os leitores ainda podiam viver na confortável ignorância de que vários autores e pensadores, interessantes ou provocadores, são, sim, terminantemente proibidos para citação ou menção nas páginas doGuardian. Antes das versõesonline, o Guardianainda podia alegar as dificuldades de espaço, para não incluir mais amplo espectro de vozes. Esse motivo, é claro, desapareceu, com o crescimento da Internet.
Desde o primeiro momento, oGuardianviu tanto o potencial de crescimento quanto a potencial ameaça que lhe vieram com a revolução da Internet. Respondeu com a criação de um blog aparentemente aberto a todos (Comment is Free), no qual contava domesticar parte da energia bruta liberada pela internet. Arregimentou um exército de escritores, ativistas e propagandistas, a maioria sem qualquer remuneração, dos dois lados do Atlântico, para ajudar a reposicionar a marcaGuardiancomo o suprassumo da imprensa-empresa democrática e pluralista.
Mas nunca, desde o início, o blogComment is Free(CiF) foi tão livre quanto se dizia – senão no sentido de que a empresa Guardiansempre se sentiu livre para não pagar salário aos “colaboradores” que trabalham no blog. Inúmeros autores da esquerda, sobretudo os considerados “fora do esquema” [orig.“beyond the pale”] no contexto da velha imprensa-empresa, continuaram, como antes, sem acesso à tal nova plataforma “democrática”. Outros, dentre os quais eu mesmo, logo descobrimos que havia limites aparentemente inexplicáveis, mas sempre intransponíveis, para o que se podia escrever no blogCiF(e limites que nada tinham a ver com moral ou bons costumes).
Nada disso deveria ser questão importante. Afinal, há muitos outros lugares onde publicar, além do BlogCiFdoGuardian, para fazer-se ouvir. Por toda a rede há dissidentes distribuindo análises alternativas dos eventos atuais e chamando a atenção para a informação que a imprensa-empresa não publica ou publica como notícia sem importância.
Mas, em vez de acolher esse tipo de concorrência, ou de resignar-se ao surgimento de imprensa realmente pluralista, oGuardian reverteu à imagem-tipo de antes. Voltou a autoapresentar-se como “a política de pensamento” da esquerda.
De novidade que, dessa vez, nada garante que algum jornal-empresa consiga silenciar completamente a “esquerda que contesta”. A internet acabou com a fácil solução de antes, quando os jornais-empresas silenciavam, por exclusão absoluta, as vozes de contestação. Pelo que se vê hoje, oGuardianadotou a tática de desqualificar os autores que, por serem realmente provocadores ou por suas ideias realmente avançadas, possam fazer-ver a covarde política conformista, enquadrada, doGuardian.
E oGuardianpassou a desacreditar “a esquerda” – que nenhum dos jornalistas e colunistas do jornal jamais define – em campanha que nada tem a ver com algum tipo democrático de luta de ideias. E, sempre, oGuardianencontra amparo nos imensos recursos das empresas e corporações proprietárias do jornal. Quando ataca autores e pensadores dissidentes, os atacados só muito raramente, e na maioria das vezes nunca, encontram plataforma “com igual espaço e destaque” para defenderem-se. E já se viu que oGuardiané sempre muito relutante, e resiste o mais que consiga, a garantir justo direito de resposta a quem o jornal-empresa calunia.
Além do quê, e quase imperceptivelmente, oGuardianpraticamente nunca encampa as ideias desses autores ou jornalistas “não alinhados”. Em termos populares, oGuardianmarca a canela do jogador, não marca a bola. Cria e distribui calúnias, que vão das apenas absurdas às claramente difamatórias, que empurram aqueles autores ou jornalistas ou pensadores para o território do absurdo, do não razoável, ou do sórdido inadmissível.
Exemplo típico da nova estratégia doGuardianviu-se essa semana, em artigo impresso nas páginas de editoriais e colunistas do próprio jornal – disponíveis tambémonline, e espaço muitíssimo mais prestigioso que o BlogComment is Free– que o jornal encomendou a autor socialista, Andy Newman [1], com instruções expressas para que dissesse que o músico judeu israelense Gilad Atzmon [2]seria antissemita, de uma tendência de antissemitismo discernível na esquerda.
Jonathan Freedland, colunista empregado “star” doGuardiane obcecado na perseguição a antissemitas, tuitou para seus seguidores que o artigo de Newman seria “importante”, porque “conclama a esquerda a começar a atacar o antissemitismo também em suas fileiras.” [3]
Não tenho notícia de Atzmon ter algum dia manifestado ideias antissemitas – nem antes nem depois de ler o artigo de Newman.
Como já se tornou rotina nessa nova modalidade de assassinato de reputação peloGuardian, o artigo não faz qualquer esforço para provar que Atzmon seria antissemita ou para mostrar que haveria qualquer motivo para pôr em evidência essa sua pressuposta falha de caráter. (Diga-se, de passagem, que no artigo de Newman há idêntica acusação de antissemitismo contra Alison Weir, do blog “If Americans Knew” e também contra nossa página [Counterpunch] na internet, por termos publicado artigo assinado por Weir, sobre o papel de Israel no tráfico de órgãos [4]).
Atzmon acaba de publicar um livro sobre a identidade judaica,The Wandering Who?[“Errante”, quem?], já elogiado por figuras respeitadas como Richard Falk, professor emérito da escola de Direito em Princeton, e por John Mearsheimer, conhecido professor de política da Chicago University.
Mas Newman não critica o livro nem extrai dele qualquer citação. De fato, tudo sugere que sequer tenha lido o livro de Atzmon ou tenha qualquer ideia do que contém.
Newman abre o artigo com elogios ao talento e à mestria musicais de Atzmon, com uma referência muito vaga a escritos seus, pressupostos “antissemitas”. Em seguida, algumas longas frases extraídas de escritos de Atzmon, suficientemente longas para sugerir alguma suspeita (não se sabe exatamente do quê); e curtas demais e por demais afastadas de qualquer contexto para provar qualquer coisa, inclusive um pressuposto antissemitismo – mas prova suficiente, talvez, para atender à política de pensamento doGuardiane de seus leitores menos críticos e mais subservientes. Nada, na coluna publicada, comprova que Atzmon algum dia tenha sido antissemita: o jornal assume que eleéantissemita, o colunista escreve que eleéantissemita, ninguém comprova ou demonstra coisa alguma. E assassina-se mais uma reputação. (...)
Apesar disso, oGuardiangarante seuimprimaturà difamação assinada por Newman, contra Atzmon (apresentado ali como “teórico da conspiração, pingando de desprezo por judeus”), não oferece qualquer prova de coisa alguma e tudo fica por isso mesmo. Jornalismo digno doPravda, nos dias de glória de Stálin! (...)
OGuardian, como várias outras grandes corporações de imprensa-empresa, recebe fortes investimentos – em termos financeiros e também em termos ideológicos – para dar irrestrito apoio à atual ordem mundial. Em tempos de jornais impressos, oGuardiantinha meios para excluir e silenciar – e hoje, em tempos de internet –, dedica-se a demonizar as vozes da esquerda que se arriscam a questionar um sistema de poder e controle por grandes empresas, poder e controle dos quais oGuardiané uma das peças chave.
Quem leia oGuardiané rapidamente levado a crer que uma meia dúzia de dissidentes dispersos e os intelectuais de esquerda seriam dos principais problemas que nossa sociedade enfrenta – problema comparável, em magnitude, à ação de nossas elites moralmente comprometidas, autoridades policiais corrompidas e sistema financeiro depravado.
Atzmon e algum seu pressuposto antissemitismo seria talvez problema mais grave que a ação do AIPAC (America-Israel Public Affairs Comittee)? (...) Assange e WikiLeaks seriam mais grave ameaça ao futuro do planeta que o presidente Barack Obama dos EUA? Leitores doGuardiansão diariamente induzidos a crer que sim.