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segunda-feira, 6 de abril de 2015

Relatório Anti-Império #138

2/4/2015, [*] William BlumThe Anti-Empire Report
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Sistema de mísseis, radares e navios 
dos EUA circundando a Rússia
(clique na imagem para aumentar)
Guerra Fria 2.0, parte I

No Anti-Empire Report do mês passado, falei a vocês sobre a mais recente aventura da porta-voz do Departamento de Estado, Jen Psaki, em que ela tentou defender o indefensável. Naquela ocasião ela disse que:

Por questões de política adotada há muito tempo, os EUA não apoiam transições políticas por vias e meios não constitucionais, o que me levou a informar imediatamente aos meus leitores: Se vocês sabem como entrar em contato com a Srta. Psaki, mandem que ela examine a lista que publiquei, dos mais de 50 governos que os EUA tentaram derrubar desde o final da IIª Guerra Mundial, e por meios nada constitucionais.

Jen Psaki e Mathew Lee
Dia 13/3/2015, o ataque regular que Psaki move contra tudo que tenha a ver com a Rússia incluía o seguinte diálogo com Matthew Lee, da Associated Press:

Lee: Sobre isso, a senhora tem mais alguma coisa sobre vocês estarem pedindo aos vietnamitas na Baía Cam Ranh, e não permitirem que os russos – e também conseguir que eles não permitam – que aviões russos reabasteçam lá?

Psaki: Bem, só para sermos claros – e talvez ontem eu não tenha sido bem clara, então tento fazer novamente – é que... Nossa preocupação são atividades que eles possam conduzir na região, e a questão é: Por que estão na região? Não se trata especificamente de não reabastecer ou dizer aos vietnamitas que não os autorizem a abastecer [negritos nossos].

Lee: Então não houve pedido para pararem de reabastecer, ou houve?

Psaki: É mais sobre preocupações. Não é tanto sobre o Vietnã, é mais sobre preocupações sobre que atividades estarão ali para cumprir.

Lee: OK, mas... É que há aviões dos EUA sobrevoando aquela região todo o tempo.

Psaki: Claro que sim.

Lee: Então vocês não querem aviões russos sobrevoando por ali, mas tudo bem se os aviões forem norte-americanos? Parece que... O que se vê é que tudo que os russos façam, a qualquer momento, é sempre, de algum modo, ação nefanda, que visa a provocar. Mas a senhora não pode, ou não parece ser capaz de compreender ou aceitar que aviões norte-americanos voando por toda parte, inclusive naquela área, não agradem aos chineses, é claro, mas tampouco agradem aos russos. A sugestão parece ser que voos norte-americanos são bons e benéficos e jamais causarão tensão, e voos de outros povos, eles sim, são ruins e causam tensão. A senhora pode, por favor, explicar que bases há para suas preocupações com os voos russos lá no Sudeste Asiático? Por que eles criam tensões?

Psaki: Não posso entrar em mais detalhes.

Guerra Fria 2.0, parte II

No sábado (14/2/2015), o governo Obama distribuiu séries de imagens de satélites que, dizem eles, mostrariam que o exército russo uniu-se aos rebeldes em assalto de grande escala para cercar soldados na área em torno da cidade. A Rússia negou que esteja envolvida no conflito, e declarou que absolutamente ninguém pode identificar coisa alguma nas três fotos branco & preto e sem definição, colhidas por satélites e postadas no Twitter pelo embaixador dos EUA na Ucrânia, Geoffrey Pyatt.

Geoffrey Pyatt
Segundo os EUA, as imagens solicitadas à empresa privada de satélites de comunicação Digital Globe, mostrariam sistemas de artilharia e lançadores de foguetes múltiplos, na 5ª-feira (12/2/2015), na área próxima a Debaltseve. “Temos certeza de que aí se veem sistemas militares dos russos, não de separatistas” – Pyatt tuitou (Washington Post, 15/2/2015).

Quando vier o dia de listar os modos como os EUA gradualmente afundaram na areia movediça, convertendo-se lentamente em republiqueta do IIIº Mundo, a campanha de Washington de 2014-15 para convencer o mundo de que a Rússia invadiu repetidas vezes a Ucrânia merece aparecer no topo da lista. E há numerosos exemplos como esse. Se eu ainda fosse o nacionalista norte-americano fanatizado que fui criado para ser, acho que me sentiria muito embaraçado ante a obviedade dessas violências “propagandísticas”.

Para conhecer uma história visual curta do declínio e queda do Império Norte-americano, assistam ao vídeo “Imperial Decay” by Class War Films (8:50 minutos), a seguir:


Durante a Guerra Fria 1.0, a mídia-empresa norte-americana adorava zombar da imprensa soviética, porque não seguia os lídimos, gloriosos padrões da “imprensa” ocidental. Um dos motes mais repetidos tinha a ver com dois dos principais jornais russos, Pravda (que significa “verdade” em russo) e Izvestia (que significa “notícia”). Os norte-americanos fomos adestrados, à custa de infindável repetição, para acreditar que “não há verdade no Pravda, nem notícia no Izvestia”.

Por menos ilusões que eu tenha hoje, depois de tantos anos, quanto ao modo como as grandes mídia-empresas norte-americanas tratam os IOD (Inimigos Oficialmente Designados), a atual cobertura que jornais e jornalistas têm dado à Rússia excede as minhas piores expectativas. É espantoso, é inacreditável, o desinteresse, em jornais, redes de notícias e jornalistas em geral, por manter algum tipo de objetividade ou de equilíbrio em tudo que tenha a ver com a Rússia. Talvez o exemplo mais importante desse viés seja a absoluta ausência de qualquer notícia ou comentário que ajude o público a recordar que os EUA e a OTAN cercaram a Rússia – o golpe de Washington na Ucrânia é o mais recente movimento desse cerco – e que Moscou, como é óbvio e normal, sentiu-se ameaçada por esse movimento. (Procure na Internet o mapa online das bases da OTAN em torno da Rússia, com a seguinte legenda: “Por que vocês meteram o país de vocês bem no meio das nossas bases?”). Mapa a seguir:

Por que vocês meteram o país de vocês bem no meio das nossas bases?
Guerra Fria 2.0, parte III

Depois do assassinato de um membro da oposição russa e ex-vice-primeiro-ministro Boris Nemtsov em Moscou, dia 27/2/2015, o ocidente viveu tempos de excitação máxima. Com acusações que iam de cumplicidade no assassinato, até autoria pessoal do crime, a mídia-empresa e políticos norte-americanos não perderam nenhuma ocasião de tratar Vladimir Putin como se fosse saco de pancadas.

O Parlamento Europeu aprovou resolução exigindo investigação por comissão internacional, da morte de Nemtsov, e sugeriu que a Organização para Segurança e Cooperação da Europa (OSCE), o Conselho Europeu e a ONU participassem da investigação.

Senadores dos EUA, John McCain e Lindsey Graham, apresentaram projeto de resolução do Senado para condenar o assassinato de Nemtsov. A Resolução exigia também que o presidente Obama e a “comunidade internacional” conduzissem investigação independente do assassinato e redobrassem os esforços para promover a liberdade de expressão, os direitos humanos e o estado de direito na Rússia. Além disso, conclamava Obama a manter as sanções contra violadores de direitos humanos na Federação Russa e aumentar o apoio dos EUA a ativistas de direitos humanos na Rússia.

E por aí foi, por todo o ocidente.

John McCain (R-Ariz.) e Lindsey Graham (R-S.C.)
O problema é que, no mesmo período, na Ucrânia governada pelo oligarca Poroshenko, vassalo dos EUA e fora da região de influência dos combatentes anti-Kiev no sudeste do país, morreram as seguintes pessoas, todas em condições muito suspeitas: [1]

●—29/1/2015: Ex-governador da região da Carcóvia, Alexey Kolesnik, por suicídio (enforcou-se).
●—24/2/2015: Stanislav Melnik, membro do partido da oposição, à bala (suicidou-se).
●—25/2/2015: O prefeito de Melitopol, Sergey Valter, suicidou-se horas antes do início de seu julgamento (enforcou-se).
●—26/2/2015: Alexander Bordiuga, vice-diretor da Polícia de Melitopol, encontrado morto na garagem de sua casa.
●—26/2/2015: Alexander Peklushenko, ex-deputado do Parlamento ucraniano e ex-prefeito de Zaporizhi, encontrado morto (a tiros). 
●—28/2/2015: Mikhail Chechetov, ex-deputado do Parlamento ucraniano, membro do partido de oposição (Partia Regionov), “caiu” da janela de seu apartamento, no 17º andar, em Kiev.
●—14/3/2015: Promotor de Odessa, 32 anos, Sergey Melnichuk, “caiu” de uma janela no 9º andar.

Partia Regionov acusou diretamente o governo ucraniano das mortes de seus membros, e apelou ao ocidente para que reagisse contra aquelas mortes.

Apelamos à União Europeia, à Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa [orig. PACE (Parliamentary Assembly of the Council of Europe)], e a organizações europeias e internacionais de direitos humanos para que reajam contra a situação na Ucrânia e cuidem de fazer uma avaliação das ações criminosas que estão sendo cometidas pelo governo de Kiev, que está assassinando seus opositores políticos.

Não se pode, evidentemente, a partir desses dados, concluir que o governo da Ucrânia seja responsável por todas, nem por algumas, nem, sequer, por uma única dessas mortes. Mas tampouco se pode concluir que o governo russo teria sido responsável pela morte de Boris Nemtsov, por mais que senadores e jornalistas e veículos da mídia-empresa norte-americana repitam que o assassino teria sido Putin em pessoa. Busca no gigantesco banco de dados Nexus, não encontrou qualquer menção àqueles ucranianos mortos, exceto a um Sergey Melnichuk, mas bem evidentemente se trata de outra pessoa. Parece assim que nenhuma das mortes acima listadas foi atribuída ao governo ucraniano aliado de Washington.

O assassinato de Boris Nemtsov
Onde estão as “exigências” de que se façam investigações internacionais sobre qualquer das mortes da lista acima? Os EUA não se preocupam com direitos humanos? Nem os europeus? Onde está o senador McCain?!

Sanções como instrumento de tortura

As discussões sobre limitar o programa nuclear do Irã já se arrastaram por mais de um ano entre o Irã e o P5+1 (as cinco potências nucleares do Conselho de Segurança da ONU, plus Alemanha), lideradas pelos EUA. Ao longo desse período, obstáculo considerável na trilha de construir-se um acordo sempre foram os pronunciamentos de Yukiya Amano, Diretor Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). A AIEA é o braço de inspeção nuclear da ONU, e suas inspeções são consideradas a principal salvaguarda para impedir que países que usem tecnologia nuclear para finalidades civis passem a usá-la para produzir armas. Amano nunca se cansa de repetir que o Irã não tem respondido plena e substancialmente às perguntas sobre “possíveis dimensões militares” das atividades nucleares atuais e passadas, nem tem permitido acesso considerado suficiente a instalações nucleares.

Dado que a AIEA jamais se declara satisfeita com o que o Irã diz ou faz, os esforços iranianos para levantar as terríveis sanções que pesam contra o país, que impedem empresas estrangeiras de negociar com os iranianos e negam acesso ao Irã ao sistema financeiro global. A cobertura que a mídia-empresa dá às negociações nunca se cansa de repetir o que Amano diz; e Amano sempre diz que as respostas do Irã a demandas da AIEA são insuficientes. É hora, pois, de saber um pouco mais sobre quem é esse Amano.


Yukiya Amano, Diretor da AIEA
O diplomata japonês Yukiya Amano tornou diretor da AIEA em 2009. O que jamais se lê na mídia empresa ocidental é informação que WikiLeaks tornou pública em 2010, num telegrama da Embaixada dos EUA de outubro de 2009: ali se lia que:

Amano não mediu sacrifícios para enfatizar, na presença da Agência, seu apoio aos objetivos estratégicos dos EUA. Amano recordou várias vezes aos embaixador [norte-americano] que (...)  sempre se postara ao lado dos EUA em todas as decisões estratégicas, desde a indicação de pessoal de alto nível até o tratamento dado ao suposto programa de armas atômicas do Irã.

Ainda que o Irã faça algum supremo esforço para satisfazer as demandas da AIEA e de Washington em todas os pontos, nada jamais garantirá o momento em que as sanções serão levantadas e em que proporção serão levantadas, sobretudo em momento em que o Congresso está controlado pelos Republicanos. O jornalista e autor especialista em Irã, Gareth Porter, escreveu recentemente que:

(...) os EUA e seus aliados não fazem qualquer esforço para esconder o fato de que manterão sem alteração a “arquitetura das sanções” ainda por muitos anos depois de o acordo começar a ser implantado. Em novembro passado, funcionário do governo Obama explicaram que as sanções dos EUA só serão removidas depois de a Agência Internacional de Energia Atômica ter comprovado que “Teerã está efetivamente cumprindo o acordo, considerado um período prolongado de tempo”, para assim preservar para os EUA a “capacidade de alavancagem sobre o Irã, para obrigar o país a honrar o acordo.

Para avaliar o grau extraordinário de pressão e extorsão que os EUA podem impor a outros países, deve-se relembrar o caso da Líbia durante a década que se seguiu à destruição do voo 103 da PanAm, em 1988, sobre a Escócia. Para obrigar a Líbia a “assumir a responsabilidade” pelo crime, Washington impôs sanções pesadas ao regime de Gaddafi, inclusive a proibição de voos internacionais para a Líbia e pagamento de bilhões de dólares às famílias das vítimas. A Líbia acabou por “assumir a responsabilidade” pelo crime, apesar de ser inocente. Por mais difícil que seja acreditar, é a única e pura verdade escrevi detalhadamente sobre esse caso.

Mesmo depois de a Líbia ter aceito a responsabilidade, ainda se passaram anos até que os EUA levantassem as sanções, e não se sabe até hoje se, quando Gaddafi foi assassinado em 2011, todas as sanções haviam sido realmente levantadas. Quando acontece de um país ser “nomeado” Inimigo Oficialmente Designado (IOD) do império, os métodos de tortura podem ser terríveis e sem fim. Atualmente, Cuba está negociando o fim de sanções que os EUA impuseram a Havana. E os cubanos têm de ser extremamente cuidadosos.

Cuba - bloqueio
Como outros da laia dele – como David Horowitz e Christopher Hitchens – esse também aprendeu demais na Universidade, e muito pouco desde então” (Sam Smith).

Jamais me deixei impressionar muito pela universidade onde um ou outro esteve, ou se frequentaram o ginásio, ou não. Gore Vidal nunca estudou em universidade alguma, nem H. L. Mencken; nem Edward Snowden, que demonstrou ter mente altamente articulada e educada. Dentre muitos outros notáveis que passaram longe da educação acadêmica estão George Bernard Shaw, Ernest Hemingway e Johann Wolfgang von Goethe.

Por sua vez, há graduados das universidade da super elite nos EUA (“universidades da Ivy League”) que atendem pelos nomes de George W. Bush, Barack Obama e Tom Cotton. Nem preciso falar do problema da mente absolutamente infraeducada de Bush; todos, nesse país conhecemos de sobra essa belezura. Quanto a Obama, já por inúmeras vezes empatou em estupidez e imbecilismo com Bush, quando não o superou. O evento de estupidez e imbecilismo de Obama que, para mim, é insuperável – e que já se repetiu pelo menos em cinco ocasiões – é a resposta que Obama dá sempre que alguém lhe pergunta por que seu governo não processou Bush, Cheney et alii por tortura e outros crimes de guerra: “Prefiro olhar para frente, não para trás”. Imaginem algum réu, diante do juiz, pedindo para não ser julgado e ser declarado inocente, porque não gosta de olhar para trás, só para a frente. Para Obama, “especialista” em Direito Constitucional, estariam extintos todos os crimes passados e só se julgariam... crimes futuros?! Imaginem Chelsea Manning e outros cidadãos-sentinelas, que nos alertaram para tantos crimes, declarando que são inocentes porque não gostam de olhar para trás, só para a frente? Imaginem a reação que viria de Barack Obama – precisamente o homem que se converteu em maior perseguidor de cidadãos-sentinelas que divulgam fatos verdadeiros, em toda a história dos EUA!

Ainda resta alguém que creia que Barack Obama seria alguma espécie de “melhoria” em relação a George W. Bush? Provavelmente há dois tipos de gente que, sim, veem Obama como “melhor” que Bush:

(1) todos aqueles para quem a cor da pele faz enorme diferença para tudo: e
(2) os tolos esnobes que se deixam embasbacar pela habilidade para dizer duas frases gramaticalmente corretas em sequência.

Tom Cotton, Senador (Arkansas)
E agora apareceu o tal Mr. Cotton, senador pelo Arkansas e aluno de Harvard na pré-graduação e na Faculdade de Direito. O homem permanecerá aí, a nos entreter com pérolas como o que disse em “Face the Nation” (15/3/2015):

Principalmente, temos de nos opor às tentativas do Irã para alcançar dominação regional. Já controlam Teerã! Logo controlarão Damasco, Beirute e Bagdá. E agora, querem também Sana.

Santo Deus! O Irã controla Teerã! Quem diria?! Semana que vem, o homem informará que a Rússia controla Moscou. Sarah Palin, caia fora! Nosso Cotton boy está prontinho para Saturday Night Live.
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Nota
[1] A pesquisa para essa seção foi feita por uma pessoa criada na União Soviética e que hoje vive nos EUA.
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[*] William Blum (6/3/1933) é um autor norte-americano, historiador e crítico da política externa dos Estados Unidos. Trabalhou no Departamento de Estado dos Estados Unidos até meados da década de 1960. Inicialmente anti-comunista com sonhos de se tornar diplomata, desiludiu-se com a Guerra do Vietnã. Reside em Washington, DC. Blum deixou o Departamento de Estado em 1967 e tornou-se fundador e editor do Washington Free Press, o primeiro jornal “alternativo” na capital dos EUA. Em 1969 escreveu e publicou uma exposição da em que foram revelados os nomes e endereços de mais de 200 agentes da CIA. Trabalhou como jornalista freelance nos Estados Unidos, Europa e América do Sul. Entre 1972-1973 trabalhou como jornalista no Chile, onde relatou o “experimento socialista” do governo Allende.Em meados dos anos 1970 trabalhou em Londres com o ex-oficial da CIA, Philip Agee e seus associados “em seu projeto de expor o pessoal da CIA e os seus malefícios”. Ele se sustenta com seus escritos e palestras em universidades.
Em seus livros e colunas on-line, Blum dedica grande atenção às intervenções e planos de assassinato da CIA. Noam Chomsky comentou que o livro de Blum sobre a CIA é “de longe, o melhor livro sobre o tema”. Apoiou entusiasticamente as campanhas presidenciais de Ralph Nader. Faz circular um boletim mensal por e-mail chamado Relatório Anti Império. Blum descreve sua missão de vida como:

(...) Se não terminar, pelo menos retardar o Império Americano ferindo a besta que está causando tanto sofrimento ao redor do mundo.

Livros:
●—1986: The CIA: A Forgotten History (Zed Books) ISBN 0-86232-480-7
●—2000: Rogue State: A Guide to the World's Only Superpower (Common Courage Press) ISBN 1-56751-194-5
●—2002: West-Bloc Dissident: A Cold War Memoir (Soft Skull Press) ISBN 1-56751-306-9
●—2003: Killing Hope: US Military and CIA Interventions Since World War II , revised edition (Common Courage Press) ISBN 1-56751-252-6
●—2004: Freeing the World to Death: Essays on the American Empire (Common Courage Press)
●—2013: America's Deadliest Export: Democracy - The Truth About US Foreign Policy and Everything Else (Zed Books) ISBN 1-78032-445-6

domingo, 3 de agosto de 2014

Quando Israel já não existir, o mundo ainda falará, com honra, dos túneis do Hamás

Os túneis de Cu Chi: o poderoso passado do Vietnã

Sistema típico de túneis do Vietcong
(clique na imagem para aumentar)

2/5/2004, [*] Tibor Krausz, The Washington Post  
Excerto traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

“Os túneis são monumento universal poderoso da força do desejo humano contra as mais inenarráveis calamidades”

Cu Chi - esquema de túneis 
(clique na imagem para aumentar)
Há luz no fim do túnel – literalmente, uns três metros à frente. Minhas pernas doem de tanto engatinhar, coberto de lama, o suor pingando do rosto.

“Preparado para o terceiro nível?” – Tien me provoca, falando por cima do ombro abaixado. – “Claro”, menti, até que emergimos – e afinal havia espaço para ficar em pé – num dormitório subterrâneo onde se viam colchões feitos de restos de paraquedas norte-americanos remendados, como espécie de bandeiras esticadas entre quatro bambus espetados no chão lamacento. Tien – meu guia, magro como espeto, ágil como lagarto, 22 anos – conduzira-me por 40 metros de túneis, um caminho complexo como rede subterrânea de canos, de teto claustrofobicamente baixo e estreitíssimos, com espaço só para engatinhar.  

Túnel atual (1,2m) com o dobro da altura original
“Temos muita sorte” – disse Tien quando afinal consegui esticar as pernas. – “Durante a Guerra Americana, esses túneis tinham metade dessa altura, e as pessoas tinham de se arrastar sobre a barriga.” Nem havia, pensei eu, as lanternas tão úteis dispostas ao longo do percurso. Mas mesmo com esses luxos de hoje e sem o perigo de armadilhas mortais a cada passo e de haver um inimigo em cada canto do túnel, ainda é muito assustador andar por esses túneis.

Cozinha subterrânea
(clique na imagem para aumentar)
Estamos cerca de 5 metros abaixo da superfície, engatinhando por um conjunto de túneis conservados como monumento à Resistência dos Vietcongs em Ben Duoc, distrito de Cu Chi, cerca de 65 km a noroeste da cidade de Ho Chi Minh, ex-Saigon. Esses túneis são parte de uma rede de parques temáticos que o governo do Vietnã mantém por todo o país, em homenagem aos heróis da guerra de Resistência vietnamita contra os EUA, que inclui dentre outros, trechos conservados da Zona Desmilitarizada ao longo do paralelo 17, e áreas de My Lai onde aconteceu um dos maiores massacres de toda a guerra, de moradores da região, por soldados dos EUA.

Uma das entradas/saídas dos túneis
Os túneis são monumento universal poderoso da força do desejo humano contra as mais inenarráveis calamidades.

Cerca de 100 metros andando para baixo e já descemos outros 4 metros (a curta distância da área permanentemente saturada de água) e chegamos ao 3º nível de um labirinto subterrâneo de quatro pisos que, na origem, estendia-se por talvez mais de 240 quilômetros. Não importa o que você pense sobre a Guerra Americana (que é como os vietnamitas chamam o que o ocidente conhece como Guerra do Vietnã) e as causas que a geraram, é obrigatório baixar a cabeça em homenagem à coragem e à decisão dos soldados vietnamitas: pelo menos 45 mil homens e mulheres do Vietnã morreram defendendo esses túneis de Cu Chi.

Armadilha com estrepes nas entradas/saídas dos túneis
Os túneis são uma rede que poderia ser sempre ampliada, engenhosamente disfarçada, de abrigos para guerrilheiros, que se estendiam dos arredores de Saigon até a fronteira do Camboja, e que interconectava arsenais, vilas e bases de apoio para os vietnamitas. Ali havia pontos de descanso, bancadas de produzir armas, munição, apetrechos de autoproteção, cozinhas com chaminés para dispersão de fumaça e odores e, até, auditórios e salas de projeção de filmes.

Respiradouro 
Entrada/saída aumentada para visitação
Escada subterrânea usualmente construída sob alçapão em alguma das casas de vila
Como era/é a movimentação nos túneis
(clique na imagem para aumentar)
Localização das "facilidades"
(clique na imagem para aumentar) 
Construídos ao longo de duas décadas, a partir do início dos anos 1940s, os túneis dariam abrigo a soldados-camponeses que nem sapatos tinham, contra exército militar incomparavelmente mais equipado e armado. “Meu avô e meu pai, os dois, ajudaram a construir esses túneis” – diz Tien, cheio de orgulho. Os moradores da região cavavam o solo de argila vermelha (mole demais durante as chuvas de monções e duro como pedra durante a estação seca) com enxadas e com as próprias mãos. (...)



[*] Tibor Krausz é jornalista e escritor atualmente baseado no Sudeste Asiático. Escreveu sobre ampla variedade de assuntos da América do Norte, Europa, Oriente Médio e em todo o Sudeste Asiático. É correspondente da revista The Jerusalem Report e do jornal The Christian Science Monitor. Seus artigos também são publicados pelos The Washington Post, The Jerusalem Post, The Sydney Morning Herald, The South China Morning Post, The Guardian Weekly, The National Post e muitas outras publicações. Destacamos, entre muito outros artigos, um sobre a estada de uma semana com a auto-proclamada Tribo Perdida de Israel (orig.: Lost Tribe of Israel) em local remoto do nordeste da Índia; outro contando sobre a degustação de foie gras em almoço privado com o rei Sihanouk do Camboja no Phnom Penh's Grand Palace; outros sobre os apertos que passou desviando-se de balas no centro de Bangkok, enquanto escrevia sobre a sangrenta repressão do exército tailandês contra os manifestantes anti-governamentais; e sobre seu renascimento espiritual obtido, como se acredita, colocando-se em um caixão durante uma cerimônia de purificação na Tailândia no Coffin Temple.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Ásia-Pacífico e Ucrânia? Até agora, nada a ver

10/5/2014, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A IVa. Guerra Mundial
Há doidos já dizendo que começou a IIIª Guerra Mundial. “Doidos” no sentido de que essa ideia é impensável, indizível, não mencionável, em tempos termonucleares. Mas as tensões, sim, estão-se sobrepondo, nas relações entre as grandes potências.

É modo de dizer, mas Rússia e China, essa semana, parecem estar na trilha de testarem os limites do poder dos EUA. Por vias diferentes, Rússia e China estão “cutucando” a única superpotência na região da Ásia-Pacífico. Pode não passar de simples coincidência, mas pode nada ter a ver com coincidência e pode, sim, haver aí pensamento coordenado.

Relatos norte-americanos falam de “aumento significativo” na atividade aérea russa e “muito mais” atividade em águas na região do Pacífico Asiático num “show de força e para recolher inteligência”. Especialistas norte-americanos dizem dessas atividades que elas evocam a Guerra Fria.

Simultaneamente, as tensões espiralaram aos céus no Mar do Sul da China, envolvendo a China, de um lado; e Vietnã e Filipinas, do outro lado. Os especialistas abraçaram os diagnósticos pró um dos lados e já se puseram a “declarar” que “Pequim está dando grande salto na defesa de suas demandas territoriais, testando a decisão dos vizinhos armados – e também dos EUA” – como se lia no Wall Street Journal.

Mas, se se examina mais de perto, os dois desenvolvimentos parecem nada ter a ver um com o outro, e podem ser eventos de caráter completamente diverso. Seja como for, a China parece ter afastado para longe do Vietnã a sua plataforma de petróleo, e o bate-boca com as Filipinas faz Manila aparecer como tola, por ter detido um barco chinês e metido na cadeia 11 marinheiros por manter cativas algumas tartarugas – de fato, 30, as quais, infelizmente, vieram a falecer.

Mar do Sul da China e o contorno da porção oceânica disputada 
Em resumo, Pequim parecia ter conseguido “deter” Hanoi e está requerendo que Manila não seja desnecessariamente provocatória. As declarações dos chineses revelaram que há registro de 171 incidentes com barcos vietnamitas, que atropelam navios chineses.

O governo Obama, corretamente, pôs as tensões do Sul da China sob a perspectiva devida, e conclamou os dois lados e exercer a contensão e a moderação. Entrementes, os olhos de Washington estão treinados para acompanhar a próxima visita do Secretário do Tesouro dos EUA, Jacob Lew, a Pequim, amanhã, 3ª-feira (13/5/2014), como enviado especial do presidente Barack Obama.

Lew é interlocutor chave para Pequim e arquiteto do relacionamento EUA-China. Já tem audiência marcada com o presidente Xi Jinping. Obviamente, há item gordo nessa agenda.

As tensões que envolvem a Rússia, por sua vez, são diretamente rastreáveis até a crise na Ucrânia. A Rússia tem dado passos calibrados milimetricamente, e distribuído ruídos que deixem claro que suas capacidades militares existem e serão usadas, para evitar, assim, que EUA e OTAN metam os pés pelas mãos. Isso, por um lado.

Ao mesmo tempo, bufar alto e forte, ar quente e ar frio alternadamente, é tática útil para confundir o adversário sobre as reais intenções do bufador. Fato é que na 6ª-feira (9/5/2014) o presidente Vladimir Putin viajou para a Crimeia (ato que Washington imediatamente criticou como “provocatório e desnecessário”).

Vladimir Putin e veteranos da IIa Guerra Mundial depositam flores no Memorial dos Heróis em Sebastopol, Crimeia (9/5/2014 - Dia da Vitória)
Mas a visita de Putin coincide com os 70 anos da libertação da Crimeia, pelo Exército Vermelho, derrotando a ocupação nazista. Não há dúvida alguma de que a visita é riquíssima em simbologia política, em vários sentidos, todos importantes.

E numa direção, em especial, essa visita é muito, muito significativa, a saber: a visita de Putin à Crimeia cai praticamente na véspera do referendo à moda da Crimeia, que está sendo planejado pelos militantes pró-Rússia no leste da Ucrânia, a realizar-se domingo (11/5/2014), para decidir sobre o futuro da região. (já se realizou e os resultados são conhecidos, ver postagens anteriores, [Nrc]).

É altamente provável que o referendo resulte em secessão, com a região optando por separar-se da Ucrânia. O mais provável é que uma vasta fatia de terra, que cobre o leste e o sul da Ucrânia separe-se do país e declare-se nova república da Confederação Russa, sob o nome de “Novorossiya”.

Em termos táticos, o referendo põe abaixo a eleição presidencial marcada para 25 de maio de 2014 na Ucrânia, e que é [seria] crucialmente importante para re-estabelecer em Kiev algum governo eleito, representativo, que substitua o deposto presidente Viktor Yanukovich e o presidente “interino” lá instalado ninguém sabe por quem, mas com o apoio dos EUA.

Mas, diferente do que está fazendo em relação à China, em relação à Rússia o governo Obama fez o mais absoluto silêncio. Nem a volta de circunavegação do “Urso” em Guam, apitando na costa da Califórnia faria Obama pegar o telefone e ligar para o Kremlin [Moscou já anunciou que não atende telefonemas da Casa Branca, enquanto Kerry andar por lá (NTs)].

Mas, aconteça o que acontecer, no próximo dia 6 de junho de 2014, Obama não terá como esconder-se, no Desfile da Vitória, em Paris. Será a primeira excursão de Putin para fora das fronteiras russas, depois da reintegração da Crimeia na Federação Russa. As areias da Normandia terão algum efeito curativo? Quantas e quantas almas circularão por ali, naquelas praias. Rindo, provavelmente, dos “grandes líderes”.




[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.