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quarta-feira, 1 de julho de 2015

Pepe Escobar: Acordo nuclear arrasta-se. EUA-Irã em guerra de informação


30/6/2015, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


VIENA – Assim sendo, hoje não é o Dia-D. Nada de pouso no território por trás do Muro da Desconfiança. Não haverá acordo nuclear entre Irã e P5+1 hoje – e por várias e complexas razões, muito diferentes do que se poderia supor pela viciosa guerra de informação “midiática”; não se chegou à formulação precisa, exata, de cada palavra em cada lugar das 85 páginas de texto.
Tudo se resume, todas as idas e vindas e dramáticas reviravoltas, a uma questão de confiança. Quer dizer, a conseguir abrir uma brecha no Muro de 36 anos de Desconfiança entre Washington e Teerã.
Há avanços, é claro. No status do centro de pesquisa de Fordo, por exemplo, pela primeira vez os dois lados chegaram a um acordo. Compare isso à fissura cósmica – exacerbada pelo palavreados dos norte-americanos – sobre o fim gradual das sanções.
É o que lá está, no coração da valsa vienense diplomática; o que acontece depois de adotado o acordo – o que alguns negociadores definem como “operacionalização”. Só depois que o Congresso dos EUA revisar o acordo, serão dadas “garantias firmes” de que as sanções serão levantadas. É a muito comentada mas ainda nebulosa “fase três” – quando toda a estrutura de sanções EUA, UE e ONU deverá ser desfeita.
Aí está o problema – como um alto oficial iraniano disse a Asia Times:
O principal problema para Teerã é como ter garantia completa de que esse processo complexo será integralmente implementado.
O que Teerã quer – segundo negociadores insiders – é “conduzir um processo paralelo”: enquanto o Irã vai cumprindo seus compromissos de restrição nuclear, os EUA, principalmente, trabalham para desmontar o “processo institucionalizado das sanções”. Não é segredo que Washington controla todo o quadro. E o segredo de um acordo bem-sucedido é que todos esses detalhes sejam explicitados por escrito.
Negociadores insiders dizem a Asia Times que, num plano técnico, num máximo de três meses todos os necessários compromissos estarão cumpridos. Mesmo coisa como mudar o reator em Arak, processo muito caro.
Então, qual é o problema? Mais uma vez, é questão de confiança (que falta).
Atenção às centrífugas “midiáticas”
As negociações nucleares operam em três diferentes níveis – dois dos quais técnicos, abaixo do nível do Ministério de Relações Exteriores. Se pelo menos tivéssemos um neo-Wittgenstein para desconstruí-los!
É tudo entre EUA e Irã. Os demais atores são, no máximo, coadjuvantes.
Imaginem o ministro Zarif, de Relações Exteriores do Irã, vez ou outra, aos gritos no nariz do Secretário de Estado, John Kerry, dos EUA, no calor dos debates. O Supremo Líder, Aiatolá Khamenei, entrou na discussão, faz pouco tempo, alertando Zarif para que esfriasse a cabeça.
John Kerry (E) e Mohammad Javad Zarif

Os russos não são tão proativos quanto poderiam ser; é como se estivessem apostando numa mão vencedora, de integração eurasiana, com acordo nuclear, ou sem acordo nuclear. Os chineses não dizem palavra; papel passivo, só olhando. Os alemães são racionais – pode-se dizer equidistantes. O Ministro de Relações Exteriores da França, Laurent Fabius, só faz pose; mas por mais que se esforce nas poses dramáticas, está ainda muito longe de qualificar-se como algum neo-Talleyrand. É incapaz de acrescentar coisa alguma, seja o que for, que tenha qualquer substância.
E há as famosas linhas vermelhas. As do Supremo Líder Aiatolá Khamenei sempre foram muito claras – até para os negociadores norte-americanos. E não são linhas pessoais, só dele: elas representam um consenso iraniano.
O que é certo é que, depois de total imersão nas tecnicalidades do drama vienense, o que acontece (segundo a imprensa-empresa norte-americana) nada tem a ver com a negociação real no Palais Coburg.
Envolver o Senado dos EUA é retroceder a Lausanne, como os diplomatas iranianos veem a questão.
Imagine se fosse o contrário, todos à espera do que o Parlamento Iraniano tivesse a dizer. Em vez de manter-se silenciosa, a imprensa ocidental estaria em fúria. A distribuição de rascunhos das conclusões de Lausanne criou muita confusão sobre a posição do Irã.
Os EUA tumultuarem completamente as discussões, nesse caso, significa que o Senado dos EUA está tornando obsoleta qualquer ideia de prazo final, como o marcado para hoje.
Sem nenhuma consideração à realidade, as centrífugas midiáticas giram sem parar. Considere a demanda dos EUA – há três meses – de entrevistarem 18 cientistas e professores. Para começar, é falsa demanda nunca discutida menos ainda concedida na mesa de negociações. E desapareceu. Mas apesar disso foi adiante ressuscitada para gerar guerra na mídia.
Outros detalhes problemáticos são simplesmente suprimidos. O protocolo adicional ao acordo tem sérios parâmetros. Assim, por exemplo, o famoso parágrafo 5c declara que cabe ao país que esteja sob inspeção conceder acesso ou não. A AIEA não pode andar por lá confiscando computadores como bem entenda, por exemplo. Só tem autorização para recolher amostras ambientais.
Sanções no divã de Freud
Diplomatas iranianos são absolutamente firmes sobre mudar “a cultura das sanções” – e o efeito psicológico massivo que a completa e que contamina qualquer empresa, mesmo na Ásia, que decida fazer negócios com o Irã. Os negociadores iranianos preveem que só aí o Irã tenha de investir no mínimo seis meses de trabalho duro. E admitem prontamente que a questão continua pelo menos sobre a mesa com norte-americanos.


Há muitas, muitas questões muito enlouquecedoramente complexas. Ninguém sabe, por exemplo, sobre a liquidez iraniana distribuída por vários diferentes bancos. O que se sabe é que o Irã tem cerca de US$ 110 bilhões congelados pelo mundo. Rumores de que Teerã possa repassar esses fundos a “procuradores” são motivo de zombaria até entre diplomatas europeus.
Com tudo isso, e se não houver acordo algum? Zarif já disse publicamente que não será o fim do mundo. Isso porque o Irã – e os iranianos – trabalharam forte para construir uma “economia de resistência” (e não surpreende que o Supremo Líder tenha teorizado sobre a “flexibilidade heroica” [1]). Como diz um funcionário iraniano,
(...) os EUA sabem muito bem que sanções não afetaram o Irã. Os arquitetos das sanções contra o Irã tinha certeza de que o Irã entraria em colapso no final de 2012, o mais tardar. E que o país seria consumido em agitações sociais.
Nada disso aconteceu, é claro. E assim voltamos às centrífugas “midiáticas” girando enlouquecidas. Aqui vai um clássico, da véspera do Dia-D.
AFP distribuiu matéria nessa 2a-feira (29/6/2015), em que se lê EUA dizem que foi encontrado um modo de garantir acesso dos EUA a sítios iranianos suspeitos . Funcionários do Irã descrevem a coisa como “desinformação planejada, para influenciar a mesa de negociações”. Admitem que pode ser, no melhor dos casos, “ideia dos norte-americanos”. Mas nada disso foi jamais negociado, porque nada tem a ver com a questão nuclear.
Não surpreende que a AFP tenha recebido “pancadinhas à porta”, do Ministério de Relações Exteriores da França, como Asia Times soube. Em menos de uma hora a linguagem já mudara completamente, para “potências globais que negociam com o Irã apresentaram proposta...” Àquela altura, a versão inicial – falsa – já estava viralizada e era repetida por todos os jornalões do planeta.
Dia 22/6/2015, também em matéria da AFP, o portentoso Fabius já delineara seu roteiro de três itens para o acordo,
(...) acordo robusto (...) que inclui limitar a capacidade iraniana para pesquisa e desenvolvimento; um regime de verificação que cobrirá, se necessário, instalações militares; e que permite a volta automática das sanções, no caso de violações pelo Irã.
O protocolo adicional não fala de inspeção de instalações militares. Os registros mostram que o Irã – por duas vezes e voluntariamente – ofereceu acesso aos inspetores a instalações militares de Parchin em 2005. E todas as questões sobre essas instalações foram resolvidas no âmbito da AIEA.
Não surpreende que os iranianos tenham
(...) sérias dúvidas sobre as intenções dos que tanto insistem em ganhar acesso a instalações da defesa.
Não há precedentes, exceto nos preparativos e provocações para a guerra contra o Iraque. Naquele caso, o governo dos EUA ignorou totalmente a AIEA, porque a decisão de iniciar a operação “Choque e Pavor” já havia sido tomada.
Vontade política, alguma por aí?
Até aí uma simples amostra do que os negociadores iranianos chamam de “muitas diferenças” a impedir qualquer acordo. Todos os insiders em Viena sabem que o governo dos EUA só faz distribuir “notícias” segundo as quais “o Irã precisa do acordo”; mas nós, os EUA, “queremos o acordo”. Funcionários iranianos chamam a atenção para o fato de que Lausanne já deu a necessária infraestrutura para o enriquecimento pacífico de urânio, mesmo que com severas restrições. Mas o governo dos EUA quer doentiamente que o Irã só tenha direito a enriquecimento “simbólico”.



Eis a coisa, na formulação de um diplomata iraniano:
(...) os norte-americanos estão com arrependimento de comprador, depois das conversações de Lausanne.
E começam as obstruções. E as centrífugas “midiáticas” girando feito loucas. E o reforço incansável do Muro da Desconfiança – mecanismo infernal que tem sua própria lógica não-Wittgenstein, posto a funcionar em alta rotação para pôr o Irã no papel de culpado de tudo, no caso de um possível monumental fracasso.
Será que o governo Obama realmente quer algum acordo justo – tipo o seu único sucesso na política externa? Ou tudo não passa de mais um caso elaborado de “você sabe quem manda aqui?” – uma hiperpotência ávida por comprovar sua tal “credibilidade” sem par?
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Nota dos tradutores
[1]Khamenei avalizou plenamente a ofensiva diplomática de Rouhani, enfatizando – muito clara e explicitamente – dois conceitos: a “flexibilidade do herói”, como o lutador que cede, num momento ou noutro, por interesse tático, mas que jamais desvia os olhos e mantém o rival sempre à vista; e a “leniência do campeão” – que é o subtítulo sutilíssimo de um livro que o próprio Khamenei traduziu do árabe, sobre como o segundo Imã xiita, Hasan ibn Ali, conseguiu evitar uma guerra no século 7º, mostrando flexibilidade na relação com o inimigo” (Pepe Escobar, 19/9/2013, redecastorphoto em: Obama-Rouhani: luz, câmera, ação, Asia Times Online).
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Relatório Anti-Império #138

2/4/2015, [*] William BlumThe Anti-Empire Report
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Sistema de mísseis, radares e navios 
dos EUA circundando a Rússia
(clique na imagem para aumentar)
Guerra Fria 2.0, parte I

No Anti-Empire Report do mês passado, falei a vocês sobre a mais recente aventura da porta-voz do Departamento de Estado, Jen Psaki, em que ela tentou defender o indefensável. Naquela ocasião ela disse que:

Por questões de política adotada há muito tempo, os EUA não apoiam transições políticas por vias e meios não constitucionais, o que me levou a informar imediatamente aos meus leitores: Se vocês sabem como entrar em contato com a Srta. Psaki, mandem que ela examine a lista que publiquei, dos mais de 50 governos que os EUA tentaram derrubar desde o final da IIª Guerra Mundial, e por meios nada constitucionais.

Jen Psaki e Mathew Lee
Dia 13/3/2015, o ataque regular que Psaki move contra tudo que tenha a ver com a Rússia incluía o seguinte diálogo com Matthew Lee, da Associated Press:

Lee: Sobre isso, a senhora tem mais alguma coisa sobre vocês estarem pedindo aos vietnamitas na Baía Cam Ranh, e não permitirem que os russos – e também conseguir que eles não permitam – que aviões russos reabasteçam lá?

Psaki: Bem, só para sermos claros – e talvez ontem eu não tenha sido bem clara, então tento fazer novamente – é que... Nossa preocupação são atividades que eles possam conduzir na região, e a questão é: Por que estão na região? Não se trata especificamente de não reabastecer ou dizer aos vietnamitas que não os autorizem a abastecer [negritos nossos].

Lee: Então não houve pedido para pararem de reabastecer, ou houve?

Psaki: É mais sobre preocupações. Não é tanto sobre o Vietnã, é mais sobre preocupações sobre que atividades estarão ali para cumprir.

Lee: OK, mas... É que há aviões dos EUA sobrevoando aquela região todo o tempo.

Psaki: Claro que sim.

Lee: Então vocês não querem aviões russos sobrevoando por ali, mas tudo bem se os aviões forem norte-americanos? Parece que... O que se vê é que tudo que os russos façam, a qualquer momento, é sempre, de algum modo, ação nefanda, que visa a provocar. Mas a senhora não pode, ou não parece ser capaz de compreender ou aceitar que aviões norte-americanos voando por toda parte, inclusive naquela área, não agradem aos chineses, é claro, mas tampouco agradem aos russos. A sugestão parece ser que voos norte-americanos são bons e benéficos e jamais causarão tensão, e voos de outros povos, eles sim, são ruins e causam tensão. A senhora pode, por favor, explicar que bases há para suas preocupações com os voos russos lá no Sudeste Asiático? Por que eles criam tensões?

Psaki: Não posso entrar em mais detalhes.

Guerra Fria 2.0, parte II

No sábado (14/2/2015), o governo Obama distribuiu séries de imagens de satélites que, dizem eles, mostrariam que o exército russo uniu-se aos rebeldes em assalto de grande escala para cercar soldados na área em torno da cidade. A Rússia negou que esteja envolvida no conflito, e declarou que absolutamente ninguém pode identificar coisa alguma nas três fotos branco & preto e sem definição, colhidas por satélites e postadas no Twitter pelo embaixador dos EUA na Ucrânia, Geoffrey Pyatt.

Geoffrey Pyatt
Segundo os EUA, as imagens solicitadas à empresa privada de satélites de comunicação Digital Globe, mostrariam sistemas de artilharia e lançadores de foguetes múltiplos, na 5ª-feira (12/2/2015), na área próxima a Debaltseve. “Temos certeza de que aí se veem sistemas militares dos russos, não de separatistas” – Pyatt tuitou (Washington Post, 15/2/2015).

Quando vier o dia de listar os modos como os EUA gradualmente afundaram na areia movediça, convertendo-se lentamente em republiqueta do IIIº Mundo, a campanha de Washington de 2014-15 para convencer o mundo de que a Rússia invadiu repetidas vezes a Ucrânia merece aparecer no topo da lista. E há numerosos exemplos como esse. Se eu ainda fosse o nacionalista norte-americano fanatizado que fui criado para ser, acho que me sentiria muito embaraçado ante a obviedade dessas violências “propagandísticas”.

Para conhecer uma história visual curta do declínio e queda do Império Norte-americano, assistam ao vídeo “Imperial Decay” by Class War Films (8:50 minutos), a seguir:


Durante a Guerra Fria 1.0, a mídia-empresa norte-americana adorava zombar da imprensa soviética, porque não seguia os lídimos, gloriosos padrões da “imprensa” ocidental. Um dos motes mais repetidos tinha a ver com dois dos principais jornais russos, Pravda (que significa “verdade” em russo) e Izvestia (que significa “notícia”). Os norte-americanos fomos adestrados, à custa de infindável repetição, para acreditar que “não há verdade no Pravda, nem notícia no Izvestia”.

Por menos ilusões que eu tenha hoje, depois de tantos anos, quanto ao modo como as grandes mídia-empresas norte-americanas tratam os IOD (Inimigos Oficialmente Designados), a atual cobertura que jornais e jornalistas têm dado à Rússia excede as minhas piores expectativas. É espantoso, é inacreditável, o desinteresse, em jornais, redes de notícias e jornalistas em geral, por manter algum tipo de objetividade ou de equilíbrio em tudo que tenha a ver com a Rússia. Talvez o exemplo mais importante desse viés seja a absoluta ausência de qualquer notícia ou comentário que ajude o público a recordar que os EUA e a OTAN cercaram a Rússia – o golpe de Washington na Ucrânia é o mais recente movimento desse cerco – e que Moscou, como é óbvio e normal, sentiu-se ameaçada por esse movimento. (Procure na Internet o mapa online das bases da OTAN em torno da Rússia, com a seguinte legenda: “Por que vocês meteram o país de vocês bem no meio das nossas bases?”). Mapa a seguir:

Por que vocês meteram o país de vocês bem no meio das nossas bases?
Guerra Fria 2.0, parte III

Depois do assassinato de um membro da oposição russa e ex-vice-primeiro-ministro Boris Nemtsov em Moscou, dia 27/2/2015, o ocidente viveu tempos de excitação máxima. Com acusações que iam de cumplicidade no assassinato, até autoria pessoal do crime, a mídia-empresa e políticos norte-americanos não perderam nenhuma ocasião de tratar Vladimir Putin como se fosse saco de pancadas.

O Parlamento Europeu aprovou resolução exigindo investigação por comissão internacional, da morte de Nemtsov, e sugeriu que a Organização para Segurança e Cooperação da Europa (OSCE), o Conselho Europeu e a ONU participassem da investigação.

Senadores dos EUA, John McCain e Lindsey Graham, apresentaram projeto de resolução do Senado para condenar o assassinato de Nemtsov. A Resolução exigia também que o presidente Obama e a “comunidade internacional” conduzissem investigação independente do assassinato e redobrassem os esforços para promover a liberdade de expressão, os direitos humanos e o estado de direito na Rússia. Além disso, conclamava Obama a manter as sanções contra violadores de direitos humanos na Federação Russa e aumentar o apoio dos EUA a ativistas de direitos humanos na Rússia.

E por aí foi, por todo o ocidente.

John McCain (R-Ariz.) e Lindsey Graham (R-S.C.)
O problema é que, no mesmo período, na Ucrânia governada pelo oligarca Poroshenko, vassalo dos EUA e fora da região de influência dos combatentes anti-Kiev no sudeste do país, morreram as seguintes pessoas, todas em condições muito suspeitas: [1]

●—29/1/2015: Ex-governador da região da Carcóvia, Alexey Kolesnik, por suicídio (enforcou-se).
●—24/2/2015: Stanislav Melnik, membro do partido da oposição, à bala (suicidou-se).
●—25/2/2015: O prefeito de Melitopol, Sergey Valter, suicidou-se horas antes do início de seu julgamento (enforcou-se).
●—26/2/2015: Alexander Bordiuga, vice-diretor da Polícia de Melitopol, encontrado morto na garagem de sua casa.
●—26/2/2015: Alexander Peklushenko, ex-deputado do Parlamento ucraniano e ex-prefeito de Zaporizhi, encontrado morto (a tiros). 
●—28/2/2015: Mikhail Chechetov, ex-deputado do Parlamento ucraniano, membro do partido de oposição (Partia Regionov), “caiu” da janela de seu apartamento, no 17º andar, em Kiev.
●—14/3/2015: Promotor de Odessa, 32 anos, Sergey Melnichuk, “caiu” de uma janela no 9º andar.

Partia Regionov acusou diretamente o governo ucraniano das mortes de seus membros, e apelou ao ocidente para que reagisse contra aquelas mortes.

Apelamos à União Europeia, à Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa [orig. PACE (Parliamentary Assembly of the Council of Europe)], e a organizações europeias e internacionais de direitos humanos para que reajam contra a situação na Ucrânia e cuidem de fazer uma avaliação das ações criminosas que estão sendo cometidas pelo governo de Kiev, que está assassinando seus opositores políticos.

Não se pode, evidentemente, a partir desses dados, concluir que o governo da Ucrânia seja responsável por todas, nem por algumas, nem, sequer, por uma única dessas mortes. Mas tampouco se pode concluir que o governo russo teria sido responsável pela morte de Boris Nemtsov, por mais que senadores e jornalistas e veículos da mídia-empresa norte-americana repitam que o assassino teria sido Putin em pessoa. Busca no gigantesco banco de dados Nexus, não encontrou qualquer menção àqueles ucranianos mortos, exceto a um Sergey Melnichuk, mas bem evidentemente se trata de outra pessoa. Parece assim que nenhuma das mortes acima listadas foi atribuída ao governo ucraniano aliado de Washington.

O assassinato de Boris Nemtsov
Onde estão as “exigências” de que se façam investigações internacionais sobre qualquer das mortes da lista acima? Os EUA não se preocupam com direitos humanos? Nem os europeus? Onde está o senador McCain?!

Sanções como instrumento de tortura

As discussões sobre limitar o programa nuclear do Irã já se arrastaram por mais de um ano entre o Irã e o P5+1 (as cinco potências nucleares do Conselho de Segurança da ONU, plus Alemanha), lideradas pelos EUA. Ao longo desse período, obstáculo considerável na trilha de construir-se um acordo sempre foram os pronunciamentos de Yukiya Amano, Diretor Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). A AIEA é o braço de inspeção nuclear da ONU, e suas inspeções são consideradas a principal salvaguarda para impedir que países que usem tecnologia nuclear para finalidades civis passem a usá-la para produzir armas. Amano nunca se cansa de repetir que o Irã não tem respondido plena e substancialmente às perguntas sobre “possíveis dimensões militares” das atividades nucleares atuais e passadas, nem tem permitido acesso considerado suficiente a instalações nucleares.

Dado que a AIEA jamais se declara satisfeita com o que o Irã diz ou faz, os esforços iranianos para levantar as terríveis sanções que pesam contra o país, que impedem empresas estrangeiras de negociar com os iranianos e negam acesso ao Irã ao sistema financeiro global. A cobertura que a mídia-empresa dá às negociações nunca se cansa de repetir o que Amano diz; e Amano sempre diz que as respostas do Irã a demandas da AIEA são insuficientes. É hora, pois, de saber um pouco mais sobre quem é esse Amano.


Yukiya Amano, Diretor da AIEA
O diplomata japonês Yukiya Amano tornou diretor da AIEA em 2009. O que jamais se lê na mídia empresa ocidental é informação que WikiLeaks tornou pública em 2010, num telegrama da Embaixada dos EUA de outubro de 2009: ali se lia que:

Amano não mediu sacrifícios para enfatizar, na presença da Agência, seu apoio aos objetivos estratégicos dos EUA. Amano recordou várias vezes aos embaixador [norte-americano] que (...)  sempre se postara ao lado dos EUA em todas as decisões estratégicas, desde a indicação de pessoal de alto nível até o tratamento dado ao suposto programa de armas atômicas do Irã.

Ainda que o Irã faça algum supremo esforço para satisfazer as demandas da AIEA e de Washington em todas os pontos, nada jamais garantirá o momento em que as sanções serão levantadas e em que proporção serão levantadas, sobretudo em momento em que o Congresso está controlado pelos Republicanos. O jornalista e autor especialista em Irã, Gareth Porter, escreveu recentemente que:

(...) os EUA e seus aliados não fazem qualquer esforço para esconder o fato de que manterão sem alteração a “arquitetura das sanções” ainda por muitos anos depois de o acordo começar a ser implantado. Em novembro passado, funcionário do governo Obama explicaram que as sanções dos EUA só serão removidas depois de a Agência Internacional de Energia Atômica ter comprovado que “Teerã está efetivamente cumprindo o acordo, considerado um período prolongado de tempo”, para assim preservar para os EUA a “capacidade de alavancagem sobre o Irã, para obrigar o país a honrar o acordo.

Para avaliar o grau extraordinário de pressão e extorsão que os EUA podem impor a outros países, deve-se relembrar o caso da Líbia durante a década que se seguiu à destruição do voo 103 da PanAm, em 1988, sobre a Escócia. Para obrigar a Líbia a “assumir a responsabilidade” pelo crime, Washington impôs sanções pesadas ao regime de Gaddafi, inclusive a proibição de voos internacionais para a Líbia e pagamento de bilhões de dólares às famílias das vítimas. A Líbia acabou por “assumir a responsabilidade” pelo crime, apesar de ser inocente. Por mais difícil que seja acreditar, é a única e pura verdade escrevi detalhadamente sobre esse caso.

Mesmo depois de a Líbia ter aceito a responsabilidade, ainda se passaram anos até que os EUA levantassem as sanções, e não se sabe até hoje se, quando Gaddafi foi assassinado em 2011, todas as sanções haviam sido realmente levantadas. Quando acontece de um país ser “nomeado” Inimigo Oficialmente Designado (IOD) do império, os métodos de tortura podem ser terríveis e sem fim. Atualmente, Cuba está negociando o fim de sanções que os EUA impuseram a Havana. E os cubanos têm de ser extremamente cuidadosos.

Cuba - bloqueio
Como outros da laia dele – como David Horowitz e Christopher Hitchens – esse também aprendeu demais na Universidade, e muito pouco desde então” (Sam Smith).

Jamais me deixei impressionar muito pela universidade onde um ou outro esteve, ou se frequentaram o ginásio, ou não. Gore Vidal nunca estudou em universidade alguma, nem H. L. Mencken; nem Edward Snowden, que demonstrou ter mente altamente articulada e educada. Dentre muitos outros notáveis que passaram longe da educação acadêmica estão George Bernard Shaw, Ernest Hemingway e Johann Wolfgang von Goethe.

Por sua vez, há graduados das universidade da super elite nos EUA (“universidades da Ivy League”) que atendem pelos nomes de George W. Bush, Barack Obama e Tom Cotton. Nem preciso falar do problema da mente absolutamente infraeducada de Bush; todos, nesse país conhecemos de sobra essa belezura. Quanto a Obama, já por inúmeras vezes empatou em estupidez e imbecilismo com Bush, quando não o superou. O evento de estupidez e imbecilismo de Obama que, para mim, é insuperável – e que já se repetiu pelo menos em cinco ocasiões – é a resposta que Obama dá sempre que alguém lhe pergunta por que seu governo não processou Bush, Cheney et alii por tortura e outros crimes de guerra: “Prefiro olhar para frente, não para trás”. Imaginem algum réu, diante do juiz, pedindo para não ser julgado e ser declarado inocente, porque não gosta de olhar para trás, só para a frente. Para Obama, “especialista” em Direito Constitucional, estariam extintos todos os crimes passados e só se julgariam... crimes futuros?! Imaginem Chelsea Manning e outros cidadãos-sentinelas, que nos alertaram para tantos crimes, declarando que são inocentes porque não gostam de olhar para trás, só para a frente? Imaginem a reação que viria de Barack Obama – precisamente o homem que se converteu em maior perseguidor de cidadãos-sentinelas que divulgam fatos verdadeiros, em toda a história dos EUA!

Ainda resta alguém que creia que Barack Obama seria alguma espécie de “melhoria” em relação a George W. Bush? Provavelmente há dois tipos de gente que, sim, veem Obama como “melhor” que Bush:

(1) todos aqueles para quem a cor da pele faz enorme diferença para tudo: e
(2) os tolos esnobes que se deixam embasbacar pela habilidade para dizer duas frases gramaticalmente corretas em sequência.

Tom Cotton, Senador (Arkansas)
E agora apareceu o tal Mr. Cotton, senador pelo Arkansas e aluno de Harvard na pré-graduação e na Faculdade de Direito. O homem permanecerá aí, a nos entreter com pérolas como o que disse em “Face the Nation” (15/3/2015):

Principalmente, temos de nos opor às tentativas do Irã para alcançar dominação regional. Já controlam Teerã! Logo controlarão Damasco, Beirute e Bagdá. E agora, querem também Sana.

Santo Deus! O Irã controla Teerã! Quem diria?! Semana que vem, o homem informará que a Rússia controla Moscou. Sarah Palin, caia fora! Nosso Cotton boy está prontinho para Saturday Night Live.
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Nota
[1] A pesquisa para essa seção foi feita por uma pessoa criada na União Soviética e que hoje vive nos EUA.
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[*] William Blum (6/3/1933) é um autor norte-americano, historiador e crítico da política externa dos Estados Unidos. Trabalhou no Departamento de Estado dos Estados Unidos até meados da década de 1960. Inicialmente anti-comunista com sonhos de se tornar diplomata, desiludiu-se com a Guerra do Vietnã. Reside em Washington, DC. Blum deixou o Departamento de Estado em 1967 e tornou-se fundador e editor do Washington Free Press, o primeiro jornal “alternativo” na capital dos EUA. Em 1969 escreveu e publicou uma exposição da em que foram revelados os nomes e endereços de mais de 200 agentes da CIA. Trabalhou como jornalista freelance nos Estados Unidos, Europa e América do Sul. Entre 1972-1973 trabalhou como jornalista no Chile, onde relatou o “experimento socialista” do governo Allende.Em meados dos anos 1970 trabalhou em Londres com o ex-oficial da CIA, Philip Agee e seus associados “em seu projeto de expor o pessoal da CIA e os seus malefícios”. Ele se sustenta com seus escritos e palestras em universidades.
Em seus livros e colunas on-line, Blum dedica grande atenção às intervenções e planos de assassinato da CIA. Noam Chomsky comentou que o livro de Blum sobre a CIA é “de longe, o melhor livro sobre o tema”. Apoiou entusiasticamente as campanhas presidenciais de Ralph Nader. Faz circular um boletim mensal por e-mail chamado Relatório Anti Império. Blum descreve sua missão de vida como:

(...) Se não terminar, pelo menos retardar o Império Americano ferindo a besta que está causando tanto sofrimento ao redor do mundo.

Livros:
●—1986: The CIA: A Forgotten History (Zed Books) ISBN 0-86232-480-7
●—2000: Rogue State: A Guide to the World's Only Superpower (Common Courage Press) ISBN 1-56751-194-5
●—2002: West-Bloc Dissident: A Cold War Memoir (Soft Skull Press) ISBN 1-56751-306-9
●—2003: Killing Hope: US Military and CIA Interventions Since World War II , revised edition (Common Courage Press) ISBN 1-56751-252-6
●—2004: Freeing the World to Death: Essays on the American Empire (Common Courage Press)
●—2013: America's Deadliest Export: Democracy - The Truth About US Foreign Policy and Everything Else (Zed Books) ISBN 1-78032-445-6