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segunda-feira, 9 de junho de 2014

O inimigo interno − Se querem cutucar o dragão e o urso... CUIDADO!

6-8/6/2014, [*] Andre Vitcheck, Counterpunch,
Traduzido por mberublue


O dragão enfrenta o neonazismo dos EUA
Não é prudente nem seguro enfiar barra de ferro em brasa em boca de dragão. Digam o que disserem no ocidente sobre dragões, aqui na Ásia, o dragão é venerado, a mais poderosa entidade da terra e do céu. Paciente e sensato, o dragão quase nunca usa a força em primeiro lugar. Mas se desrespeitado ou agredido, pode acontecer de ele revidar de forma determinada, forte, perigosa, mortal.

Aterrorizar urso que dorme também é modo bem estúpido de agir. É evidente que se você desce até a caverna de um urso que hiberna e põe-se a lhe cutucar a cabeça, que, pelo menos, não espere coisa boa, quando o urso acordar.

Ocorre que aparentemente a prudência não é obsessão dos que comandam atualmente o império. Mesmo envolvidos sem parar em pequenos conflitos por todo o globo terrestre, agora parece que se cansaram. A Líbia não foi o bastante, nem bastou o Congo. Eles querem coisa grande, mas grande de verdade; ainda maior do que já conseguiram há algumas décadas, como a destruição da Indochina inteira ou a ruína da Indonésia.

Agora, o império quer luta mortal com adversário poderoso que valha a pena.

Quer cobrir o mundo inteiro com cadáveres insepultos, em vez de ajudar a construir um mundo pacífico decente. Se puder fazer isso desta vez, como fez há setenta anos, dezenas de milhões de pessoas, talvez muito mais, desaparecerão. Mais uma vez, aí estão um urso e um dragão, a bater de frente com o fascismo e lutar pela sobrevivência do mundo.

Os uivos insanos da divulgação manipulada de fatos e ideias anti-Rússia e anti-China vêm atingindo nível ensurdecedor, especialmente na Ásia. Os meios de comunicação ocidentais disseminam mentiras, de maneira ostensiva, tanto pelos seus próprios veículos como também por suas afiliadas nos estados que as hospedam e que são, na sua maioria, propriedade de grandes empresas.

Agora, Rússia e China estão sendo vilipendiadas, insultadas abertamente e responsabilizadas pelo aumento das tensões na região da Ásia e do Pacífico, e também pela escalada militarista. Toda a máquina de divulgação do ocidente está agora trabalhando para demonizar China, Rússia e qualquer outro país independente que a máquina considera oponente.

O urso russo acordou na Crimeia...
O ocidente está levando o mundo à guerra e a todas essas consequências. Só com muito esforço, para não ver isso. Na frente das câmeras de televisão, desfilam políticos, um após o outro, jurando fidelidade ao capitalismo, ao modo de vida ocidental, ao regime, ou simplesmente ao império. Todos esses discursos inflamados e depreciativos contra os que consideram “inimigos” são vergonhosos e transparentes, mas ninguém ri deles, nem na América do Norte nem na Europa, pois já estão virando norma.

A coisa pode levar a uma guerra mundial, alertam muitos, para os quais o ocidente perdeu completamente o controle e está pronto a promover um banho de sangue planetário, mais uma vez. Há um quarto de século, as aparências indicavam que, com a quebra do bloco do leste europeu, e com a China aparentemente seguindo curso cada vez mais capitalista, o ocidente teria conseguido finalmente aquilo pelo qual lutou durante séculos: total e absoluto controle do planeta inteiro.

Mas recentemente, alguma coisa deu errado nos planos ocidentais. A América Latina cresceu, e a maior parte dela se libertou, abandonando a Doutrina Monroe. A China começou a implantar reformas socialistas nos serviços médicos, culturais, educacionais e em muitas outras esferas. Já a Rússia, não se deixou intimidar ou humilhar, lembrando tanto à Europa quanto aos EUA que ainda é forte como sempre foi e não será pisada e humilhada como aconteceu antes, nos governos de Gorbachev e Yeltsin.

Irã e Coréia do Norte (que jamais atacaram país algum, na história moderna) perceberam que a única maneira de não serem reduzidos a pó e sobreviver é ter e desenvolver capacidade nuclear. Assim, todas essas nações, e são várias na América Latina, além de China, Rússia e Irã, decidiram juntar forças e dizer: “nunca mais”.

Nunca mais permitir que o mundo desça ao horror do colonialismo ocidental.

O sonho dourado do ocidente, de um mundo sem regras e sem oposição, começa a desvanecer-se no ar. Será que o ocidente se arriscará a destruir o planeta, só porque não será ele o único dono

Em 31 de maio de 2014, a agência de notícias Canadian CBC News noticiou que “Stephen Harper atacou Vladimir Putin e o mal do comunismo”, referindo-se ao “longo discurso inaugural” que o Primeiro Ministro canadense de direita proferiu em evento para angariar fundos em Toronto. A linguagem do discurso “lembra o auge da Guerra Fria”.

Stephen Harper,  MENTIROSO

O presidente dos Estados Unidos, de longe o país mais agressivo na Terra, grotescamente prometeu “parar a agressão” da Rússia e da China, dois países que não invadiram nenhum outro país nas últimas décadas.

Em discurso cuidadosamente pensado para provocar a China, o Secretário da Defesa dos Estados Unidos, Chuck Hagel, falou mais como delinquente, que como autoridade de estado: “os Estados Unidos não desviarão o olhar, quando princípios fundamentais da ordem internacional estão sendo desafiados”.

É o caso de perguntar: Mas, afinal, que ordem? Estaria falando da ordem imposta por todo o mundo por Washington e as capitais europeias, ao longo de séculos, à custa de centenas de milhões de vidas humanas? Bela ordem!

Christopher Black, advogado especialista em Direito Penal Internacional, com escritório em Toronto, analisou a fala de Hagel:

O discurso do presidente Barack Obama na academia militar de West Point, que teve como fulcro a política americana, que seria destinada a conter a “agressão” de Rússia e China, foi imediatamente seguido pelo Secretário da Defesa Hagel em Cingapura, no qual acusou a China de desestabilizar a região do Mar do Sul da China, e foi acertadamente caracterizado pelo tenente-general, Wang GuanZhong como cheio de “ameaças e intimidações”. Mas aquele discurso manifesta a clara intenção dos Estados Unidos de fazer guerra contra os dois países poderosos, os quais, atrevidamente, estão-se desenvolvendo independentemente do domínio norte americano.

Christopher Black
Desde a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos têm atacado a China em várias ocasiões; primeiro na Guerra da Coréia; depois, foram décadas de tentativas de sabotagem e isolamento, culminando com o bombardeio da embaixada chinesa pela OTAN em Belgrado, em 1999. Atualmente, a pressão continua mediante a tentativa de desestabilizar a China por dentro, por vários mecanismos de infiltração de grupos de “direitos humanos” na sociedade chinesa e mesmo no contexto dos mecanismos administrativos e no exército chineses e de uma propaganda política constante a fim de difamar a China e seu povo ao redor do mundo. O impulso desta estratégia foi recentemente incrementada como os recentes ataques de grupos fanáticos muçulmanos do oeste da China contra cidadãos chineses nas principais cidades e centros de transporte. Além disso, houve ataques de provocação contra interesses chineses no Vietnã, na Tailândia, nas Filipinas e na África, finalizando com a recente e absurda acusação contra oficiais militares chineses por supostos ciberataques.

Eventos recentes na Ucrânia mostram o ritmo acelerado e agressivo das tentativas de cercar completamente a Rússia e a China, com avanço da OTAN na direção das fronteiras russas, e ao reposicionarem-se cerca de 60% dos ativos militares dos Estados Unidos no Pacífico.

Até aí, nada de novo sob o Sol. Mais uma vez, os agressores culpam as vítimas, pela “agressão”. A Alemanha nazista e seus propagandistas usaram a mesma “lógica” e os mesmos “argumentos”, antes e durante a Segunda Guerra Mundial. Os franceses também usaram a mesma técnica na Argélia e em outras colônias, da mesma forma que os britânicos em todos os seus “protetorados”.

Na Ásia, a imprensa é servil e zelosa de sua vassalagem, a tal nível que muitas vezes supera as ordens recebidas dos amos ocidentais, manipulando as notícias ainda mais que aqueles.

Samuel Locklear III
O jornal The Star Filipinas, em 25/5/2014 pôs-se a agredir a China, desta vez citando palavras do Almirante Samuel Locklear III, comandante das forças norte-americanas no Pacífico, para o qual “a Rússia faz seu próprio pivô para a Ásia”. E o jornal publicou o que seriam suas próprias brilhantes peças de análise: “Fontes oficiais disseram que a incursão russa na Ucrânia tem preocupado Washington no sentido de que a China pode tentar algo semelhante, à guisa de proteção aos seus cidadãos no exterior”.

Como assim? Que “incursão russa na Ucrânia”? Soa parecido demais com a propaganda política manipulada publicada todo santo dia nas páginas da imprensa diária ocidental, nos EUA e a Europa. Depois de quinze anos trabalhando na região, sou obrigado a testemunhar, depois de interagir com centenas de pessoas da mídia do sudeste asiático, que o que acima se lê não foi escrito por jornalista local. O conhecimento sobre a Europa ocidental beira o zero absoluto por aqui. Alguém de fora escreveu aquela matéria. Quem? Nós todos sabemos. Vem da mesma fonte, que manda trolls para atacarem todas as matérias que envio para transmissão por rádio.

Além do mais, na mais espantosa unanimidade, toda a imprensa filipina, de repente, chegou à conclusão de que os Estados Unidos não têm outra coisa a fazer a não ser expandir-se militarmente... por causa dos “agressivos movimentos chineses”. Praticamente todos os jornais mencionam o alto custo que os EUA suportam, com suas bases militares na região; e argumentam a favor de que haja novas “bases-eixo”, mantidas pelos países locais, mas a serem usadas pelas forças dos EUA. Tais bases também se localizam nos territórios da Austrália e do Japão e possivelmente em Cingapura e na Tailândia, assim como na Malásia.

Com certeza agora a Tailândia já estaria “segura”, depois que o exército matou milhões de pessoas na região por conta do ocidente, derrubando o governo progressista e democraticamente eleito e assumindo o controle do país. Bem oportuno esse golpe, não é?

Mas isso ainda não é o bastante. Não basta ter várias bases na África, no Oriente Médio, no Japão, na Oceania e em alguns estados vassalos que sobraram na América Latina. O problema é que esses países estão longe dos alvos prioritários... Rússia e China.

A mídia tradicional das Filipinas não se preocupa sequer em questionar, um pouco que seja, a integridade de acordo militar assinado nestes termos, que violam diretamente a Constituição da nação. Acontece que os jornalistas do sudeste asiático são pagos para escrever o que a elite e os patrões do estrangeiro os mandam escrever.

Eduardo Tadem, professor de estudos asiáticos da Universidade das Filipinas, nos explicou numa recente conversa em Manila:

O acordo recentemente assinado entre as Filipinas e EUA é chamado EDCA (Economic Defense Cooperation Agreement – Acordo Econômico de Cooperação para a Defesa). Mediante este acordo, o governo das Filipinas oferece aos soldados dos EUA, por período de dez anos, acesso total a virtualmente todas as bases militares das Filipinas. Mas na realidade não se sabe por quanto tempo... A situação é muito perigosa, dado que todas as instalações militares das Filipinas já estão agora abertas para a “entrada” das forças dos EUA. Com certeza, isso vai contra as determinações da Constituição Filipina, que barra o estabelecimento de qualquer força estrangeira dentro de nosso território.

Eduardo Tadem
Na realidade, o que aconteceu? Por que mudança tão repentina?

Tem a ver com certos fatores. Um deles, é claro, é o chamado “pivô” dos EUA para a Ásia. Sob o regime Obama, existe uma estratégia de “pivoteamento para a Ásia”. Segundo, há também a proposta do acordo chamado parceria Trans-Pacífico dos Estados Unidos; o qual visa à construção e à integração de uma espécie de mercado na região da Ásia e do Pacífico. E a Tailândia ainda não é parte desta parceria... Por fim, o terceiro item tem a ver com as disputas territoriais que estão acontecendo no Mar do Sul da China e no Mar do Norte da China.

China

Trata-se também de uma questão de nacionalismo, somado ao fato de que aqui eles estavam sempre pedindo por mais assistência, inclusive militar. A maneira de conseguir essa ajuda é esta. Lembre-se também que o presidente das Filipinas é constantemente apoiado pelos EUA. Você deve ter visto uma pesquisa que mostra que a população da Filipina ama os EUA mais que os próprios norte-americanos. Assim, para os americanos foi fácil conseguir aqui o apoio para a sua política para a China.

Perguntei a Teresa Tadem, professora de Ciência Política da Universidade das Filipinas, como ao professor Eduardo Tadem, como é possível que um país, as Filipinas, que sofreram sob uma ocupação severa pelos EUA durante a era colonial, com violações dos direitos humanos, massacres... Como é possível que, nesse país, haja sentimentos tão positivos em relação ao antigo e brutal colonizador?

Teresa Tadem
Tem a ver com o uso de forma intensa da máquina de propaganda política americana, que mostra a era colonial como tempos de colonialismo tipicamente benevolente. As atrocidades cometidas durante a guerra dos EUA contra as Filipinas, em 1898-1901, quando um milhão de filipinos foram massacrados, o que compunha então cerca de dez por cento da população, desapareceram lentamente da consciência das pessoas... O genocídio, as torturas. As Filipinas eram conhecidas como “o primeiro Vietnã”. Tudo isso tem sido sistematicamente apagado, esquecido convenientemente dos livros de história. Além disso, somos bombardeados com as histórias de Hollywood e a imagem que mostram dos EUA.

Se é perigoso antagonizar a China, e mesmo a Rússia? Durante séculos, a China tem sido país realmente pacífico, e assim continua em nossos dias. Muitos filipinos vieram da China, que é aliado histórico natural. Enquanto o ocidente está bombardeando, liquidando e destruindo países, derrubando governos, se a China tira uma plataforma de extração de petróleo de águas disputadas e dispara canhões de água contra alguns navios, já é imediatamente chamada de agressora.

Tudo se resume, mais uma vez, à propaganda política manipulada.

A China é retratada como comunista, e por estas bandas sempre se atribuiu uma conotação negativa a essa palavra, disse a professora Teresa Tadem.

O país mais perigoso da Terra atualmente, é para mim, os EUA, Sempre foi o mais agressivo... Intervindo em muitos países ao redor do mundo, a milhares de quilômetros de sua costa, para tentar impor no planeta sua visão de um sistema global capitalista. Então, se você precisar o que a China está fazendo nos arredores de seu território e comparar com o que os Estados Unidos fazem no mundo inteiro em várias partes do mundo, em todos os continentes... Você verá claramente a disparidade na imagem que se está criando, impingindo à China o rótulo de ameaça à paz no mundo - continuou Eduardo Tadem..

Os dois professores expressam assim a sua profunda preocupação sobre o fato de que a propaganda política do ocidente está disparando a sinofobia entre os filipinos e em outros povos asiáticos. Para eles, os EUA estão implantando a ideia de ultranacionalismo, que facilmente se transforma em fascismo. Muito perigoso, segundo os professores – plantar sementes de sinofobia no continente asiático.

Podemos chegar a um ponto de não retorno.. Meu medo é de que seja exatamente isso o que está acontecendo neste mesmo instante nas Filipinas, bem como em outras partes da Ásia, onde disputas territoriais têm acontecido, explica Eduardo Tadem.

Lógico que a sinofobia sozinha não levará à destruição do mundo, mas também é certo que pode fazer parte desse acontecimento. Os mestres ocidentais de propaganda política manipulada estão plantando o ódio contra a Rússia como se pode ver claramente no seu programa como um todo. Os irracionais discursos anti-Rússia disparados por Stephen Harper, do Canadá, bem como de políticos da Polônia e do Báltico parecem levar a um resultado assustador: a fabricação artificial de uma espécie de “racismo” contra nações que se coloquem no caminho dos Estados Unidos e da Europa em seus planos de dominação mundial.

Desumanizar o “inimigo”, insuflando sentimentos racistas e pejorativos em relação a eles é o primeiro passo da “arte” ocidental da guerra, o primeiro passo que pode levar a um confronto total.

Por tudo isso, temos de exigir informação aproveitável sobre o que se passa.

E já há quem começa a questionar.

Geoffrey Gunn, proeminente historiador australiano e professor emérito da Universidade de Nagasaki no Japão, enviou-me o seguinte comentário:

Geoffrey Gunn
Em grandes manchetes, a mídia internacional chama a China de “grande ameaça!”. Mas afinal, quem provoca? Observamos o primeiro ministro japonês em Singapura (30 de maio/2014) se oferecendo para liderar uma coalizão internacional para verificar a extensão da “agressão” chinesa, prestativamente oferecendo navios de guerra “de qualidade” para países interessados como Filipinas e Vietnã. É uma loucura, vinda de uma nação sem exército oficial, que agora pensa desfazer-se de sua “Constituição da Paz”. Enquanto isso, o governo neocon da Austrália se excede na retórica de alinhamento subserviente, tecendo armadilhas junto com o Secretário da Defesa dos Estados Unidos, ao oferecer seu próprio pivô para o Mar do Sul da China. Quero é ver os nacionalismos asiáticos (China, Vietnã, Japão, Coreias) resolverem por si mesmos, diplomaticamente, os próprios problemas – afinal, o Império do Meio está no mesmo lugar há milênios – deixarem de lado os forasteiros, obrigarem os militares a olhar com cuidado onde pisam e deixarem a China crescer em paz.

Do Vietnã, triste com a nova onda de hostilidades entre dois vizinhos comunistas, Vietnã e China, um renomado artista ocidental que não quis se identificar, explicou a situação:

Tenho certeza de que o ocidente está encantado com o rumo que tomam os acontecimentos e fará o possível para aumentar ainda mais a fissura entre a China e o Vietnã. Claro que vem a calhar para o pivô para a Ásia e outras agendas ruins da OTAN e dos EUA. Os vietnamitas apenas estão irritados com a posição de força tomada pela China, e é normal que estejam. O primeiro ministro do Vietnã tem enviado mensagens de texto pela rede móvel alertando as pessoas para não darem ouvidos a “bandidos” e protestarem apenas dentro da lei nacional e internacional...

É surpreendente o quão audacioso vai-se tornando o Vietnã, considerando-se que faz atualmente o mesmo que a China: perfura poços em área disputada.

Muitas pessoas entendem que as tensões entre China e Vietnã remontam à época da expedição punitiva chinesa contra o Vietnã (que em seguida entrou no Camboja e depôs o Khmer Vermelho) conhecida como a Guerra Sino-Vietnamita de 1979. É quase nonsense o quanto o Vietnã é duro contra a China e como se reconciliou facilmente com os Estados Unidos.

Cerca de 10.000 civis vietnamitas perderam a vida durante a guerra sino-vietnamita – número nada insignificante. Mas não se pode sequer comparar com os milhões de cidadãos do Vietnã que foram massacrados na “Guerra Americana” (ou “Guerra do Vietnã”, como é conhecida no ocidente). No transcorrer da Guerra Americana, cidades inteiras foram reduzidas a ruínas, campos foram envenenados, mulheres foram estupradas e muitas pessoas foram queimadas por napalm e outros produtos químicos.

Assim como no caso das Filipinas, a crescente propaganda política do ocidente também apagou os horrores da mente das pessoas. Passei três anos em Hanói. Com cidadania americana, nunca foi hostilizado, sempre fui tratado com respeito e jamais ouvi um insulto. Bem diferente disso, hoje as empresas chinesas são atacadas e queimadas, e perseguem-se cidadãos chineses que são espancados e assassinados (como acontecidos no interior da China e também de Taiwan e noutros lugares).

Fang Fenghui
Enquanto isso, a rede Rússia Today relatou:

Ao visitar Washington, o general Fang Fenghui também culpou o “pivô” da administração Obama para a Ásia como a razão do aumento das tensões na região. Disse que algumas nações asiáticas usam essa mudança de estratégia para fomentar a discórdia nos mares do Sul e do Leste da China.

Estaríamos sendo arrastados para um confronto final, para uma possível Terceira Guerra Mundial? Infelizmente, se levarmos em consideração as observações a partir da Ásia e do Pacífico, parece que sim, e bem visivelmente.

Christopher Black não tem dúvida de que antagonizar, provocar e insultar países poderosos e independentes como a Rússia e a China pode ser o próximo passo para a destruição total da raça humana na Terra:

Todas essas ações são preparação para a guerra. De fato, o posicionamento de baterias de mísseis antibalísticos na Europa Oriental é preparação para um primeiro ataque nuclear da Rússia. A implantação dessas baterias tem o único propósito de tentar interceptar um ataque retaliatório pelas forças nucleares russas, depois de um primeiro ataque dos Estados Unidos. Não há outro propósito ou finalidade. Estas preliminares para uma guerra de agressão, na realidade uma guerra nuclear, são clara violação da Carta das Nações Unidas e das leis internacionais e podem ser caracterizadas como crime de guerra. Mas, dado que os Estados Unidos jamais respeitaram qualquer lei internacional ou norma civilizada de comportamento, deve-se esperar que prossigam estas preliminares para a guerra nuclear.

A humanidade espera impotente, à beira da aniquilação, e só porque os EUA insistem em buscar lucro ilimitado. São os fundamentalistas e extremistas do sistema do capital.

Enquanto isso, cabe-nos confiar na hábil diplomacia de russos e chineses, no incremento do ritmo de sua cooperação bilateral com outros países e nos seus esforços para alcançar a cooperação multilateral do mundo inteiro a partir da América Latina, para a África, Europa e Ásia, que deverá mudar a dinâmica do poder mundial, pelo menos o suficiente para impedir que os norte-americanos e aliados alcancem seus objetivos. Só a cooperação multilateral dará aos povos do mundo uma chance de viver em paz e empregar suas energias não em guerras, mas na solução dos tantos problemas urgentes que a humanidade enfrenta.


[*] Andre Vltchek é romancista, cineasta e repórter. Cobriu guerras e conflitos em dúzias de países. Seu livro sobre o imperialismo ocidental no Pacífico Sul, Oceania foi publicado pela editora Lulu (VLTCHEK, André. Oceania, 2010. Sobre o livro, que tem prefácio de Noam Chomsky, ver em: Oceania by Andre Vltchek - Book Review by Jim Miles). É autor também deIndonesia – The Archipelago of Fear (Pluto), sobre a Indonésia pós-Suharto e o modelo de livre mercado fundamentalista. Depois de viver e trabalhar por muitos anos na América Latina e Oceania, Vltchek vive e trabalha atualmente no Leste da Ásia e África. Pode ser encontrado por sua página na Internet

terça-feira, 13 de maio de 2014

Ásia-Pacífico e Ucrânia? Até agora, nada a ver

10/5/2014, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A IVa. Guerra Mundial
Há doidos já dizendo que começou a IIIª Guerra Mundial. “Doidos” no sentido de que essa ideia é impensável, indizível, não mencionável, em tempos termonucleares. Mas as tensões, sim, estão-se sobrepondo, nas relações entre as grandes potências.

É modo de dizer, mas Rússia e China, essa semana, parecem estar na trilha de testarem os limites do poder dos EUA. Por vias diferentes, Rússia e China estão “cutucando” a única superpotência na região da Ásia-Pacífico. Pode não passar de simples coincidência, mas pode nada ter a ver com coincidência e pode, sim, haver aí pensamento coordenado.

Relatos norte-americanos falam de “aumento significativo” na atividade aérea russa e “muito mais” atividade em águas na região do Pacífico Asiático num “show de força e para recolher inteligência”. Especialistas norte-americanos dizem dessas atividades que elas evocam a Guerra Fria.

Simultaneamente, as tensões espiralaram aos céus no Mar do Sul da China, envolvendo a China, de um lado; e Vietnã e Filipinas, do outro lado. Os especialistas abraçaram os diagnósticos pró um dos lados e já se puseram a “declarar” que “Pequim está dando grande salto na defesa de suas demandas territoriais, testando a decisão dos vizinhos armados – e também dos EUA” – como se lia no Wall Street Journal.

Mas, se se examina mais de perto, os dois desenvolvimentos parecem nada ter a ver um com o outro, e podem ser eventos de caráter completamente diverso. Seja como for, a China parece ter afastado para longe do Vietnã a sua plataforma de petróleo, e o bate-boca com as Filipinas faz Manila aparecer como tola, por ter detido um barco chinês e metido na cadeia 11 marinheiros por manter cativas algumas tartarugas – de fato, 30, as quais, infelizmente, vieram a falecer.

Mar do Sul da China e o contorno da porção oceânica disputada 
Em resumo, Pequim parecia ter conseguido “deter” Hanoi e está requerendo que Manila não seja desnecessariamente provocatória. As declarações dos chineses revelaram que há registro de 171 incidentes com barcos vietnamitas, que atropelam navios chineses.

O governo Obama, corretamente, pôs as tensões do Sul da China sob a perspectiva devida, e conclamou os dois lados e exercer a contensão e a moderação. Entrementes, os olhos de Washington estão treinados para acompanhar a próxima visita do Secretário do Tesouro dos EUA, Jacob Lew, a Pequim, amanhã, 3ª-feira (13/5/2014), como enviado especial do presidente Barack Obama.

Lew é interlocutor chave para Pequim e arquiteto do relacionamento EUA-China. Já tem audiência marcada com o presidente Xi Jinping. Obviamente, há item gordo nessa agenda.

As tensões que envolvem a Rússia, por sua vez, são diretamente rastreáveis até a crise na Ucrânia. A Rússia tem dado passos calibrados milimetricamente, e distribuído ruídos que deixem claro que suas capacidades militares existem e serão usadas, para evitar, assim, que EUA e OTAN metam os pés pelas mãos. Isso, por um lado.

Ao mesmo tempo, bufar alto e forte, ar quente e ar frio alternadamente, é tática útil para confundir o adversário sobre as reais intenções do bufador. Fato é que na 6ª-feira (9/5/2014) o presidente Vladimir Putin viajou para a Crimeia (ato que Washington imediatamente criticou como “provocatório e desnecessário”).

Vladimir Putin e veteranos da IIa Guerra Mundial depositam flores no Memorial dos Heróis em Sebastopol, Crimeia (9/5/2014 - Dia da Vitória)
Mas a visita de Putin coincide com os 70 anos da libertação da Crimeia, pelo Exército Vermelho, derrotando a ocupação nazista. Não há dúvida alguma de que a visita é riquíssima em simbologia política, em vários sentidos, todos importantes.

E numa direção, em especial, essa visita é muito, muito significativa, a saber: a visita de Putin à Crimeia cai praticamente na véspera do referendo à moda da Crimeia, que está sendo planejado pelos militantes pró-Rússia no leste da Ucrânia, a realizar-se domingo (11/5/2014), para decidir sobre o futuro da região. (já se realizou e os resultados são conhecidos, ver postagens anteriores, [Nrc]).

É altamente provável que o referendo resulte em secessão, com a região optando por separar-se da Ucrânia. O mais provável é que uma vasta fatia de terra, que cobre o leste e o sul da Ucrânia separe-se do país e declare-se nova república da Confederação Russa, sob o nome de “Novorossiya”.

Em termos táticos, o referendo põe abaixo a eleição presidencial marcada para 25 de maio de 2014 na Ucrânia, e que é [seria] crucialmente importante para re-estabelecer em Kiev algum governo eleito, representativo, que substitua o deposto presidente Viktor Yanukovich e o presidente “interino” lá instalado ninguém sabe por quem, mas com o apoio dos EUA.

Mas, diferente do que está fazendo em relação à China, em relação à Rússia o governo Obama fez o mais absoluto silêncio. Nem a volta de circunavegação do “Urso” em Guam, apitando na costa da Califórnia faria Obama pegar o telefone e ligar para o Kremlin [Moscou já anunciou que não atende telefonemas da Casa Branca, enquanto Kerry andar por lá (NTs)].

Mas, aconteça o que acontecer, no próximo dia 6 de junho de 2014, Obama não terá como esconder-se, no Desfile da Vitória, em Paris. Será a primeira excursão de Putin para fora das fronteiras russas, depois da reintegração da Crimeia na Federação Russa. As areias da Normandia terão algum efeito curativo? Quantas e quantas almas circularão por ali, naquelas praias. Rindo, provavelmente, dos “grandes líderes”.




[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.


domingo, 27 de abril de 2014

Pepe Escobar: “Obama sacode o bote no Mar do Sul da China”

26/4/2014, [*] Pepe Escobar, Russia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Os Presidentes Xi Jinping da China e Barack Obama dos EUA
Pivoteando-se e pivoteando-se feito um giroscópio, para parafrasear Yeats, que gira cada vez até mais longe, o atual tour do presidente Barack Obama dos EUA pelo nordeste e sul da Ásia esconde no motor um invisível dragão: a China.

Tudo, aí, tem a ver com a China, contra cujos “abusos comerciais” e “beligerância militarista”, o benigno e doce império norte-americano jura proteger seus aliados asiáticos.

Depois de comer sushis que, esperemos, não sejam radioativos pós-Fukushima, em Tóquio, com o militarista/nacionalista primeiro-ministro Shinzo Abe, Obama – bem pouco diplomaticamente – tratou logo de dar razão ao Japão na grave disputa pelas ilhas Senkaku/Diayou, referindo-se a um suspeitíssimo acordo de segurança que permitiria que os EUA ajudem o Japão, em caso de ataque externo.

A resposta do Ministério de Relações Exteriores da China veio rápida e precisa – chamaram o Tratado de “produto da era da Guerra Fria” e tratado “não vigente contra terceiros, que não se aplica a agressões à soberania territorial da China”.

A resposta da Agência Xinhua foi, como é característico, rombuda: é tudo parte de “um esquema cuidadosamente calculado para engaiolar o rápido desenvolvimento do gigante da Ásia” (a China, claro).

No Japão, o foco de Obama foi, essencialmente, a Parceria Trans-Pacífico (PTP) [orig. Trans-Pacific Partnership (TPP)], acordo corporativo (secreto) de negócios, que, se o examine por seja qual lado for, só tem a ver com o Big Business dos EUA entrar, afinal, no pesadamente protegido mercado japonês. Abe já disse que a PTP é “a terceira flecha” de seu ressuscitamento econômico do Japão. Está mais para flecha da morte. Mesmo assim, não há como a PTP acontecer sem, antes, um pacto bilateral EUA-Japão – e, nisso, os problemas continuam impenetráveis.

Agora, vamos à agenda secreta

Quando Obama chegar ao Mar do Sul da China, as águas ficarão ainda encapeladas. O Mar do Sul da China é o coração naval da Eurásia – pelo qual flui um terço da ação naval global e, claro, milhões de toneladas de petróleo transportadas do Oceano Índico pelo mega-estratégico Estreito de Malaca e pelo Mar do Sul da China em direção ao leste da Ásia (incluídos aí cruciais 80% do petróleo que a China importa).

A agenda secreta aqui visa a conseguir que a Marinha dos EUA continue perpetuamente como a hiperpotência no Mar do Sul da China – negando a Pequim até a mais ínfima possibilidade de alcançar a paridade. Daí a propaganda cuidadosamente orquestrada pelo Pentágono, para vender o mito de que o Mar do Sul da China, sem EUA hegemônicos, viraria um caos de todos os diabos.

Obama está visitando a Malásia e as Filipinas, dois pontos opostos no sudeste da Ásia. Para começar, a Malásia fica entre o Oriente Médio e a China, no coração de complexas redes comerciais globais. Sob muitos aspectos, a Malásia pode ser vista como o coração da Ásia.

Barack Obama, em Kuala Lumpur,  passa tropas em revista (26/4/2014)
Diferente do Vietnã – que é hiper nacionalista – a Malásia, sobretudo, não quer problemas com a China. Navios de guerra dos EUA já “visitam” a Malásia pelo menos 50 vezes por ano – o que inclui submarinos nucleares para lá e para cá pelos portos em Bornéu.

Dois submarinos franco-espanhóis comprados pela Malásia estão atracados numa base em Sabah, perto das ilhas Spratly – onde a Malásia reclama a soberania sobre 12 ilhas ou rochas.

A guerra global ao terror [orig. global war on terror (GWOT)] foi o pretexto perfeito para que o Pentágono presenteasse a Malásia com o estado da arte em matéria de equipamento de radar. Assim, em resumo, depois de Cingapura – que se pode descrever como um porta-aviões norte-americano amigo-das-corporações posicionado perto do Estreito de Malaca – a Malásia é, de fato, aliado muito confiável dos EUA no Mar do Sul da China.

Aquele belo e confuso arquipélago

As Filipinas são imensa confusão. Para começar, o arquipélago de mais de 7 mil ilhas é grosseiramente dividido em três grupos.

Em Luzon, no norte, o povo fala Tagalog. Em Mindanao e no arquipélago Sulu, no sul, há muitos moros muçulmanos – culturalmente, têm mais a ver com os malaios, que com os indonésios. E ali, no meio, estão as Visayas, entre as quais, Cebu. Ao todo, são nada menos que 35 mil quilômetros de costas a patrulhar, e, isso, em país extremamente pobre.

A China é o terceiro maior parceiro comercial das Filipinas. A diáspora chinesa é muito influente nos negócios e no comércio. As Filipinas importam por mar todo o petróleo que consomem – daí que a possibilidade de prospectar novas reservas de petróleo e gás nas Spratlys e na furiosamente disputada Scarborough Shoal é questão de segurança nacional.

As Spratlys – 150 rochedos ou ilhas, dos quais só 48 permanecem perenemente acima da linha d’água – receberam esse nome em 1843, homenagem a um baleeiro britânico, Richard Spratly. Mas os filipinos as conhecem como Kalayaan (“Terra da Liberdade”). Há até um prefeito de Kalayaan.

O que Obama está arrancando de Manila é um acordo para maior acesso de navios e aviões dos EUA a bases militares, depois que o Pentágono convenceu os locais a prestarem atenção à “consciência do domínio marítimo” com o objetivo – e o que mais seria?! – de conter a China.

Esperem pois presença “rotativa” dos EUA nos portos filipinos, e até a conversão da Baía Ulugan, área virgem, intocada, na ilha de Palawan, no oeste das Filipinas – muito próxima das Spratlys – numa futura base naval, para total desespero dos ambientalistas.

E assim lá se vão os dias (soberanos) quando Washington foi forçada a devolver a sempre crescente Baía Subic em 1992 (antes, Manila recebia $200 milhões por ano, em ajuda militar de Washington). Há um consenso em Manila de que o único modo possível de fazer frente às exigências chinesas no Mar do Sul da China é uma aliança com os EUA – que, em si, já é assimétrica. Mesmo assim, querem navios norte-americanos em suas águas – seguindo o modelo de Cingapura (e do Vietnã); construamos portos para os norte-americanos, e eles virão.

Os filipinos são gravemente paranoicos sobre os chineses predarem tudo o que eles conhecem como Mar das Filipinas Ocidentais – em locais como Ilha Woody e Douglas Bank – e que planejam ocupar cada partícula de rocha acima do nível do mar. Por quê? Segundo a versão filipina, porque Pequim precisa de, e muito quer, apropriar-se do petróleo e do gás filipinos.

Não surpreende que a Marinha dos EUA se tenha apressado para explorar o alto nível de insegurança filipino, para forjar o que, afinal, não passa de uma relação neocolonial.

Barack Obama e o rei Abdul Halim da Malasia (em primeiro plano) na cerimônia de boas vindas na Praça do Parlamento em Kuala Lumpur (26/4/2014)
E quanto à Lei do Mar?

O “pivoteamento para a Ásia” do governo Obama – leia-se “conter a China” – sempre atropela a questão chave: para Pequim, uma coalizão de pequenas potências do sudeste asiático aliada com os EUA é anátema absoluto. Se acontecer, esperem o fogaréu.

Washington – como sempre – vive a exaltar o respeito à lei internacional, mas os EUA sequer assinaram a Convenção da ONU sobre a Lei do Mar de 1982. Pequim quer uma ordem regional – afinal, é a potência regional dominante. E não cede: suas demandas históricas são fatos no mar acontecidos muito antes da Lei do Mar.

Mas é discussão em que todos falam muito e poucos têm razão. Por exemplo, a China reclama para elas as águas, e alguém encontra os campos de gás natural filipino de Malampaya e Camago.

As atuais zonas econômicas exclusivas, impostas por qualquer um, levaram a que todos os atores ganhem áreas rasas próximas do litoral, teoricamente ricas em energia, enquanto a China, ao sul de seu litoral, não está muito separada das ilhas Pratas, Macclesfield Bank e Scarborough Shoal.

Mesmo assim, não importa o que consigam extrair e vender, a Malásia e as Filipinas terão ainda de importar petróleo e gás. Assim, o Mar do Sul da China permanece sempre crucial, seja como possível repositório de petróleo e gás, seja por suas cada vez mais congestionadas rotas de trânsito de navios.

Quanto aos EUA invocarem um mecanismo legal para proteger a “liberdade de navegação”, é conversa fiada; o que interessa aos EUA é a moderníssima base chinesa de submarinos na ilha Hainan, que abriga submarinos movidos a diesel-eletricidade e submarinos nucleares armados com mísseis balísticos. Esse é o verdadeiro segredo da perna sudeste-asiática da “curva em pivô” de Obama para a Ásia. E contribuiu para lançar toda a pivoteação, em 2011.

Só há uma solução para o Mar do Sul da China: negociar, negociar, negociar, acordo a acordo, negócio a negócio. Tudo tem de ser negociado no quadro das dez nações reunidas na Associação de Nações do Sudeste Asiático [orig. Association of Southeast Nations (ASEAN)] – mesmo considerando que Pequim pode explorar divisões internas, e explora.


Num mundo não Hobbesiano, a solução ideal, realista, seria administrável para benefício de todos os atores, de modo que todos pudessem prospectar petróleo e gás. Mas o problema é que todos os atores – exceto a Malásia – fazem política hardcore com tons emocionais nacionalistas sobrecarregados. E nesse ambiente só um ator tem a ganhar: os EUA, a “nação pacífica (do Pacífico)”.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch,Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.