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domingo, 27 de abril de 2014

Pepe Escobar: “Obama sacode o bote no Mar do Sul da China”

26/4/2014, [*] Pepe Escobar, Russia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Os Presidentes Xi Jinping da China e Barack Obama dos EUA
Pivoteando-se e pivoteando-se feito um giroscópio, para parafrasear Yeats, que gira cada vez até mais longe, o atual tour do presidente Barack Obama dos EUA pelo nordeste e sul da Ásia esconde no motor um invisível dragão: a China.

Tudo, aí, tem a ver com a China, contra cujos “abusos comerciais” e “beligerância militarista”, o benigno e doce império norte-americano jura proteger seus aliados asiáticos.

Depois de comer sushis que, esperemos, não sejam radioativos pós-Fukushima, em Tóquio, com o militarista/nacionalista primeiro-ministro Shinzo Abe, Obama – bem pouco diplomaticamente – tratou logo de dar razão ao Japão na grave disputa pelas ilhas Senkaku/Diayou, referindo-se a um suspeitíssimo acordo de segurança que permitiria que os EUA ajudem o Japão, em caso de ataque externo.

A resposta do Ministério de Relações Exteriores da China veio rápida e precisa – chamaram o Tratado de “produto da era da Guerra Fria” e tratado “não vigente contra terceiros, que não se aplica a agressões à soberania territorial da China”.

A resposta da Agência Xinhua foi, como é característico, rombuda: é tudo parte de “um esquema cuidadosamente calculado para engaiolar o rápido desenvolvimento do gigante da Ásia” (a China, claro).

No Japão, o foco de Obama foi, essencialmente, a Parceria Trans-Pacífico (PTP) [orig. Trans-Pacific Partnership (TPP)], acordo corporativo (secreto) de negócios, que, se o examine por seja qual lado for, só tem a ver com o Big Business dos EUA entrar, afinal, no pesadamente protegido mercado japonês. Abe já disse que a PTP é “a terceira flecha” de seu ressuscitamento econômico do Japão. Está mais para flecha da morte. Mesmo assim, não há como a PTP acontecer sem, antes, um pacto bilateral EUA-Japão – e, nisso, os problemas continuam impenetráveis.

Agora, vamos à agenda secreta

Quando Obama chegar ao Mar do Sul da China, as águas ficarão ainda encapeladas. O Mar do Sul da China é o coração naval da Eurásia – pelo qual flui um terço da ação naval global e, claro, milhões de toneladas de petróleo transportadas do Oceano Índico pelo mega-estratégico Estreito de Malaca e pelo Mar do Sul da China em direção ao leste da Ásia (incluídos aí cruciais 80% do petróleo que a China importa).

A agenda secreta aqui visa a conseguir que a Marinha dos EUA continue perpetuamente como a hiperpotência no Mar do Sul da China – negando a Pequim até a mais ínfima possibilidade de alcançar a paridade. Daí a propaganda cuidadosamente orquestrada pelo Pentágono, para vender o mito de que o Mar do Sul da China, sem EUA hegemônicos, viraria um caos de todos os diabos.

Obama está visitando a Malásia e as Filipinas, dois pontos opostos no sudeste da Ásia. Para começar, a Malásia fica entre o Oriente Médio e a China, no coração de complexas redes comerciais globais. Sob muitos aspectos, a Malásia pode ser vista como o coração da Ásia.

Barack Obama, em Kuala Lumpur,  passa tropas em revista (26/4/2014)
Diferente do Vietnã – que é hiper nacionalista – a Malásia, sobretudo, não quer problemas com a China. Navios de guerra dos EUA já “visitam” a Malásia pelo menos 50 vezes por ano – o que inclui submarinos nucleares para lá e para cá pelos portos em Bornéu.

Dois submarinos franco-espanhóis comprados pela Malásia estão atracados numa base em Sabah, perto das ilhas Spratly – onde a Malásia reclama a soberania sobre 12 ilhas ou rochas.

A guerra global ao terror [orig. global war on terror (GWOT)] foi o pretexto perfeito para que o Pentágono presenteasse a Malásia com o estado da arte em matéria de equipamento de radar. Assim, em resumo, depois de Cingapura – que se pode descrever como um porta-aviões norte-americano amigo-das-corporações posicionado perto do Estreito de Malaca – a Malásia é, de fato, aliado muito confiável dos EUA no Mar do Sul da China.

Aquele belo e confuso arquipélago

As Filipinas são imensa confusão. Para começar, o arquipélago de mais de 7 mil ilhas é grosseiramente dividido em três grupos.

Em Luzon, no norte, o povo fala Tagalog. Em Mindanao e no arquipélago Sulu, no sul, há muitos moros muçulmanos – culturalmente, têm mais a ver com os malaios, que com os indonésios. E ali, no meio, estão as Visayas, entre as quais, Cebu. Ao todo, são nada menos que 35 mil quilômetros de costas a patrulhar, e, isso, em país extremamente pobre.

A China é o terceiro maior parceiro comercial das Filipinas. A diáspora chinesa é muito influente nos negócios e no comércio. As Filipinas importam por mar todo o petróleo que consomem – daí que a possibilidade de prospectar novas reservas de petróleo e gás nas Spratlys e na furiosamente disputada Scarborough Shoal é questão de segurança nacional.

As Spratlys – 150 rochedos ou ilhas, dos quais só 48 permanecem perenemente acima da linha d’água – receberam esse nome em 1843, homenagem a um baleeiro britânico, Richard Spratly. Mas os filipinos as conhecem como Kalayaan (“Terra da Liberdade”). Há até um prefeito de Kalayaan.

O que Obama está arrancando de Manila é um acordo para maior acesso de navios e aviões dos EUA a bases militares, depois que o Pentágono convenceu os locais a prestarem atenção à “consciência do domínio marítimo” com o objetivo – e o que mais seria?! – de conter a China.

Esperem pois presença “rotativa” dos EUA nos portos filipinos, e até a conversão da Baía Ulugan, área virgem, intocada, na ilha de Palawan, no oeste das Filipinas – muito próxima das Spratlys – numa futura base naval, para total desespero dos ambientalistas.

E assim lá se vão os dias (soberanos) quando Washington foi forçada a devolver a sempre crescente Baía Subic em 1992 (antes, Manila recebia $200 milhões por ano, em ajuda militar de Washington). Há um consenso em Manila de que o único modo possível de fazer frente às exigências chinesas no Mar do Sul da China é uma aliança com os EUA – que, em si, já é assimétrica. Mesmo assim, querem navios norte-americanos em suas águas – seguindo o modelo de Cingapura (e do Vietnã); construamos portos para os norte-americanos, e eles virão.

Os filipinos são gravemente paranoicos sobre os chineses predarem tudo o que eles conhecem como Mar das Filipinas Ocidentais – em locais como Ilha Woody e Douglas Bank – e que planejam ocupar cada partícula de rocha acima do nível do mar. Por quê? Segundo a versão filipina, porque Pequim precisa de, e muito quer, apropriar-se do petróleo e do gás filipinos.

Não surpreende que a Marinha dos EUA se tenha apressado para explorar o alto nível de insegurança filipino, para forjar o que, afinal, não passa de uma relação neocolonial.

Barack Obama e o rei Abdul Halim da Malasia (em primeiro plano) na cerimônia de boas vindas na Praça do Parlamento em Kuala Lumpur (26/4/2014)
E quanto à Lei do Mar?

O “pivoteamento para a Ásia” do governo Obama – leia-se “conter a China” – sempre atropela a questão chave: para Pequim, uma coalizão de pequenas potências do sudeste asiático aliada com os EUA é anátema absoluto. Se acontecer, esperem o fogaréu.

Washington – como sempre – vive a exaltar o respeito à lei internacional, mas os EUA sequer assinaram a Convenção da ONU sobre a Lei do Mar de 1982. Pequim quer uma ordem regional – afinal, é a potência regional dominante. E não cede: suas demandas históricas são fatos no mar acontecidos muito antes da Lei do Mar.

Mas é discussão em que todos falam muito e poucos têm razão. Por exemplo, a China reclama para elas as águas, e alguém encontra os campos de gás natural filipino de Malampaya e Camago.

As atuais zonas econômicas exclusivas, impostas por qualquer um, levaram a que todos os atores ganhem áreas rasas próximas do litoral, teoricamente ricas em energia, enquanto a China, ao sul de seu litoral, não está muito separada das ilhas Pratas, Macclesfield Bank e Scarborough Shoal.

Mesmo assim, não importa o que consigam extrair e vender, a Malásia e as Filipinas terão ainda de importar petróleo e gás. Assim, o Mar do Sul da China permanece sempre crucial, seja como possível repositório de petróleo e gás, seja por suas cada vez mais congestionadas rotas de trânsito de navios.

Quanto aos EUA invocarem um mecanismo legal para proteger a “liberdade de navegação”, é conversa fiada; o que interessa aos EUA é a moderníssima base chinesa de submarinos na ilha Hainan, que abriga submarinos movidos a diesel-eletricidade e submarinos nucleares armados com mísseis balísticos. Esse é o verdadeiro segredo da perna sudeste-asiática da “curva em pivô” de Obama para a Ásia. E contribuiu para lançar toda a pivoteação, em 2011.

Só há uma solução para o Mar do Sul da China: negociar, negociar, negociar, acordo a acordo, negócio a negócio. Tudo tem de ser negociado no quadro das dez nações reunidas na Associação de Nações do Sudeste Asiático [orig. Association of Southeast Nations (ASEAN)] – mesmo considerando que Pequim pode explorar divisões internas, e explora.


Num mundo não Hobbesiano, a solução ideal, realista, seria administrável para benefício de todos os atores, de modo que todos pudessem prospectar petróleo e gás. Mas o problema é que todos os atores – exceto a Malásia – fazem política hardcore com tons emocionais nacionalistas sobrecarregados. E nesse ambiente só um ator tem a ganhar: os EUA, a “nação pacífica (do Pacífico)”.
__________________

[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch,Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Assange entrevista No. 12: Anwar Ibrahim, líder da oposição na Malásia


26/6/2012, Russia Today – 12º Programa - Episódio 11, 26’32”
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Assista também:

JULIAN ASSANGE: Esta semana, entrevisto o líder da oposição na Malásia, Anwar Ibrahim. Como eterno rival, sempre sob a mira do ex-primeiro-ministro Mahathir, Anwar foi preso por cinco anos, acusado de abuso sexual. Como resultado de uma campanha popular em 2004, a condenação foi revogada e Anwar foi posto em liberdade.

Em 2008, novamente foi alvo de acusações por delitos sexuais. Foi afinal absolvido no início desse ano.

À medida que se aproximam as eleições, para as quais Anwar é tido como favorito, voltaram a acusá-lo de ter organizado uma manifestação não autorizada. Se se declara culpado, estará impedido de participar das eleições. Quero saber como sobreviveu e como vê o futuro da Ásia e do ocidente.

JULIAN ASSANGE: Anwar Ibrahim, desde a juventude, você militou como ativista estudantil. Depois, foi preso.

Você tem longa trajetória política, desde estudante, até chegar ao posto de vice-primeiro-ministro, quando novamente foi preso. Mas saiu e ressuscitou como líder da oposição em seu país.

ANWAR IBRAHIM: Da primeira vez, prenderam-me por ter apoiado os agricultores do norte, exigindo que o governo lhes desse tratamento digno. Passei dois anos preso, sem julgamento – o que é legal, nos termos de uma Lei de Segurança Nacional. Depois, quando Mohamad foi nomeado primeiro-ministro, chegando ao poder com a missão de verdadeiro reformador, sua postura agradou-me muito. Tivemos várias reuniões, discutimos, e me uni à sua plataforma de reformas. Cheguei muito rapidamente a vice-primeiro-ministro, só para que me mandassem outra vez para a cadeia, dessa vez por seis anos.

JULIAN ASSANGE: No governo de Mahathir, vários dos que chegaram a vice-primeiro-ministro foram expulsos, um depois do outro. Sua queda em desgraça foi a mais dramática. Pode contar o que aconteceu?

ANWAR IBRAHIM: Fui muito brutalmente torturado no dia em que fui preso. Puseram-me numa cela solitária. Não foi um mar de rosas, claro. Era duro. No começo, nem me deixavam ler, mas a mídia internacional e amigos em todo o mundo intervieram e conseguiram que me dessem livros. Fiquei mais inteligente, lendo quatro vezes e meia as obras completas de Shakespeare. [risos] Pouca gente leu. Foi um bom tempo para pensar em vez de agitar. E ler os grandes clássicos. Quero dizer: Boris Pasternak e Tolstoi, são autores que se leem conscientemente, na prisão. É interessante. Numa cela de prisão, entende-se e aprecia-se melhor. Ninguém interrompe, mergulha-se na leitura. Às vezes, é um pouco deprimente, sim. Os muros... mas você se converte em parte da coisa... Nunca antes havia tido interiorização suficiente para ler e apreciar o Rei Lear, seu diálogo com Cordélia, antes da prisão naquela cela solitária.

JULIAN ASSANGE: Na prisão, li “Pavilhão dos Cancerosos”, de Solzhenítsyn, que é... magnífico, um livro magnífico, mas muito, muito deprimente e muito brutal. Mas pensei “bom, há lugares piores, onde poderia estar. Podia estar num pavilhão de cancerosos na Sibéria, por exemplo. Isso aqui é suportável.” E você, sentiu o quê? Interessa-me, porque tenho vários amigos que foram presos. Sua opinião sobre como sobreviver a essa experiência. Você desenvolveu algum método para sobreviver à solitária, alguma coisa que lhe permitisse criar algum tipo de ordem? Como marcava a passagem do tempo e outras coisas assim?

ANWAR IBRAHIM: Sim, era difícil. Quero dizer... Com o tempo... Agora, até parece fácil, mas naquele período, particularmente, era muito difícil. Meus filhos eram muito pequenos, o menor ainda usava fraldas. Por isso, no dia que me prenderam, senti muita angústia e desespero. Mas o que me dava alguma força era que os oficiais e os guardas da prisão eram extremadamente amistosos. Tinham medo, havia câmeras por todos os lados, mas eu sentia a simpatia e o apoio deles. Assim se consegue seguir adiante. Depois, começa-se a ouvir notícias de fora, das manifestações nas ruas... Quero dizer, tentei sempre me manter o mais ocupado possível, mas nem sempre com coisas sérias. Verdade é que passava horas no banheiro, cantando Beatles, Ricky Nelson ou Elvis Presley [risos].

JULIAN ASSANGE: E enquanto você estava preso, sua mulher organizava uma grande campanha para libertá-lo.

ANWAR IBRAHIM: Sim.

JULIAN ASSANGE: Você tinha ideia de como era grande o movimento que sua mulher criou, enquanto você estava preso?

ANWAR IBRAHIM: Francamente não. Mas pelos comentários dos guardas e algumas cartas que recebia em segredo, fui-me dando conta. Um funcionário da prisão dizia “Fui à manifestação, a mais de dez quilômetros de Kuala Lumpur, e ouvimos sua esposa e outros discursos”.  Perguntei se havia muita gente. Ele disse “no mínimo, 20 mil pessoas.” E comecei a dar-me conta de que estava acontecendo algo importante em Kuala Lumpur. Mas, sim, eu sentia. No dia em que fui preso, houve a maior manifestação da história da Malásia: cem mil pessoas. Essas notícias me animaram muito. Muita gente dizia que estivera na manifestação. Muitos se filiaram secretamente ao partido.

JULIAN ASSANGE: Você teve a sensação de ser parte da história da Malásia, de ser parte de algo maior que você, quando soube dos protestos e das mobilizações para libertá-lo?

ANWAR IBRAHIM: Confia-se na sabedoria das massas. Sem isso, como é possível reunir 100 mil pessoas, sem sofisticação, sem mentir e sem manipular a imprensa? Mas continua-se a pensar pela própria consciência e pelo que nos diz o coração.

JULIAN ASSANGE: E como conseguiu sair? Por que, afinal, você foi libertado? Qual foi a decisão?

ANWAR IBRAHIM: Aconteceu, nesse caso, que conseguiram convencer o Tribunal Federal a declarar alguma coisa como “Bom, achamos que Anwar pode ser culpado de alguma coisa, mas não há nenhum tipo de prova clara. Consequentemente, aceitamos seu recurso”.

JULIAN ASSANGE: Você então voltou à Malásia, e pouco antes de 2008, ano extraordinário para a política malásia. E você foi candidato ao Parlamento. O que mais aconteceu em 2008?

ANWAR IBRAHIM: Trabalhamos muito. Não tínhamos acesso à mídia. Toda a mídia-empresa na Malásia preparava-se para apoiar o partido governante. Mesmo hoje, como líder da oposição, não tenho um minuto de tempo de televisão. Por isso, inclusive, aceitei seu convite. [risos] Você acredita? Nem um minuto de televisão. Mesmo assim, estamos em posição de vencer as eleições em cinco estados, inclusive em Kuala Lumpur. Ganhamos 10 de 11 assentos no Parlamento. Por isso acho que somos uma espécie de Primavera Malaia, mas através de um processo eleitoral.

Entre 2007 e 2008, como lhe disse, trabalhamos muito. E mais ainda trabalhamos com as minorias étnicas. Percebemos que, de 1999 a 2004, estavam muito sensíveis à política, mas entendiam que melhor seria se apoiassem os políticos malaios que tivessem ideias semelhantes. Eu, ao contrário, pensava que, se somos partido reformista, temos de nos comprometer com uma agenda de reformas. Algumas políticas obsoletas, a discriminação racial, terão de mudar com o tempo.

JULIAN ASSANGE: Quero examinar um pouco as mudanças no Sudeste Asiático. Houve movimento democrático na Indonésia, bem-sucedido, e a independência do Timor Oriental. Na sua opinião, o que provocou isso? Foi a internet, o movimento de massas na região? E vocês estavam passando pela crise econômica asiática. A crise foi uma das razões?

ANWAR IBRAHIM: Sentem-se as mudanças na região, porque temos melhor nível de educação, as pessoas pensam mais, nas zonas urbanas e periféricas há acesso aos novos meios alternativos. A internet tem papel muito importante: as pessoas querem liberdade. Vê-se a materialização disso nas últimas eleições. A tendência é crescente, especialmente entre os jovens, profissionais e intelectuais jovens. É parte das mudanças. E agora, com a Primavera Árabe, acho que se sente melhor que as mudanças são iminentes.

Se se considera a Tailândia, a transição democrática ali é um pouco frágil, mas com certeza há maior compromisso com a democracia. Já não se pode esperar que qualquer golpe de estado, ou qualquer ditadura militar, consiga manter-se por muito tempo. Nas Filipinas há mais esperanças, embora ainda tenha de superar os problemas da corrupção crônica. Mas em [Burma] Myanmar a situação é muito surpreendente, no que tenha a ver com mudanças. Quero dizer... Sou dos poucos que... até no governo malaio de antes, que não tinham nenhuma esperança de que a junta militar se autorreformasse, ela mesma. Mas tenho de reconhecer que estão acontecendo várias mudanças positivas em [Burma] Myanmar agora. Quanto à transição democrática, acesso à mídia e eleições mais livres, [Burma] Myanmar já está, hoje, muito à frente da Malásia.

JULIAN ASSANGE: [Burma] Myanmar? É mesmo? Incrível.

ANWAR IBRAHIM: Ah, sim. Em Myanmar, Aung San Suu Kyi é vista na televisão. Na Malásia, não.

JULIAN ASSANGE: E você não pode falar pela televisão.

ANWAR IBRAHIM: Não significa que eu esteja satisfeito com a democracia em Myanmar. Mas veem-se mais mudanças positivas ali, na direção de uma reforma democrática.

JULIAN ASSANGE: E a questão da segurança? Julia Gillard, primeira-ministra da Austrália concordou com a instalação de 3.000 Marines dos EUA ao norte da Austrália, como... claramente, é uma espécie de defesa, no longo prazo, contra a possível influência da China. Que acontecerá aos países que estão ali no meio, separando os dois países? Você acha que os países da Associação de Nações do Sudeste Asiático deveriam criar um pacto conjunto de segurança?

ANWAR IBRAHIM: Não sou grande defensor desses pactos de segurança, mas deve haver um entendimento regional claro, de tipo político, econômico, cultural entre aqueles países. E isso deveria bastar para mostrar que podem impedir qualquer forma de interferência possível de forças externas, seja dos países ocidentais, ou da China. Porque qualquer pacto de segurança, Julian, mobilizaria grandes somas de dinheiro dos nossos países. Seria alguma ‘segurança’, à custa da educação, da moradia, da saúde pública ou das reformas sociais. Seria um problema a mais...

JULIAN ASSANGE: Se não houver algum tipo de pacto de segurança, ou Aliança de Nações do Sudeste Asiático, não acontecerá que a China escolherá um aliado, os EUA escolherão outro... Assim não poderia acontecer de não haver coerência alguma no Sudeste Asiático, mas uma espécie de tabuleiro de xadrez, com casas brancas e casas pretas, com os países de um ou de outro lado?

ANWAR IBRAHIM: Bem, não se pode evitar isso. Mas não precisa ser necessariamente um pacto de segurança. Um organismo regional forte terá o mesmo efeito, se tiver compreensão clara: o que interessa é não permitir que nenhum de nossos países converta-se em base para as superpotências. Antes, o acordo era esse. Mas, sim... Filipinas é problema à parte, porque já houve lá uma base militar, de modo que...

JULIAN ASSANGE: É. Os EUA permaneceram muito tempo nas Filipinas.

ANWAR IBRAHIM: Sim, e o acordo é que não seria base para expansão.

JULIAN ASSANGE: Falemos um pouco sobre o primeiro-ministro Najib e a camarilha governante. Quando estive na Malásia, em 2009 (fiquei uns dias preso pela Rama Especial, uma divisão da Polícia Secreta malaia [risos]), logo depois de eleições, as pessoas me diziam: “faça o que quiser, mas não mencione o assassinato da Altantuyaa [18/10/2006 (NTs)]” – uma beldade da Mongólia, que foi assassinada na explosão, ou foi assassinada antes e o cadáver foi destruído com explosivos C4, e que, pelo que se dizia, era amante de Najib, atual primeiro-ministro. Respondi que “Ora, mas por que não?” E me disseram: “Se você falar desse assunto, coisa raríssima, mas que às vezes acontece numa manifestação, imediatamente aparece a Polícia e põe-se a prender todo mundo”. Achei estranho, porque pode ser um bom instrumento, se alguém quiser reunir muitos policiais num só lugar: basta pronunciar aquele nome [risos]; é como apertar um botão que se pode apertar quando interesse. Mas... você pode comentar esse caso? Por que ainda é tema tão delicado na Malásia?

ANWAR IBRAHIM: Não deveria ser tema delicado. Expus o caso no Parlamento e, claro, os membros do partido governante e o presidente ficaram imediatamente muito alterados. De modo algum sugeri ou insinuei que Najib seria sequer cúmplice do crime. O que dissemos é que havia ali várias perguntas sem resposta. Em primeiro lugar, porque mudaram a acusação? Em segundo lugar, por que nada foi apropriadamente investigado? Em terceiro lugar, por que as pessoas chaves não foram chamadas a depor como testemunhas e dizer o que sabem? Porque há algo muito importante, nesse crime. O assassinato da Altantuyaa está relacionado a um vasto escândalo de corrupção, que envolvia um grande negócio, a compra de dois submarinos da França. O caso está agora na Alta Corte de Justiça Paris. Como é possível que o caso esteja sendo julgado em Paris, e nós, na Malásia, o tenhamos silenciado totalmente?

JULIAN ASSANGE: O depoimento de várias testemunhas foi mantido em segredo na Malásia, por algum motivo.

ANWAR IBRAHIM: É pior que só depoimentos secretos.

JULIAN ASSANGE: Em 2008, pouco antes das eleições na Malásia, você foi novamente acusado por crime de sodomia. A presumida vítima teria sido um de seus auxiliares.

ANWAR IBRAHIM: Foi campanha de desmonte, baseada nessa acusação de sodomia. O vídeo com a alegada declaração do denunciante foi exibido em todo o país, em cada vila. Mais uma vez, como já disse, eu confiei na sabedoria do povo. Todo o Gabinete, todos os recursos do governo, todos os meios de comunicação do país inteiro acusavam-me, dia e noite, desse crime. E mesmo assim minha maioria continuou a aumentar. O pior é usar esse instrumento como artifício político, repetir acusações falsas, usar a polícia e, no fim, até o poder judiciário. No fim, Julian, fui absolvido. Mas nem pense que, por isso, haja algum poder judiciário independente. Usaram todo o sistema, a acusação, a defesa, o processo, exclusivamente para me difamar, como arma para ‘esvaziar’ um candidato adversário. O pior é que usam um simulacro de democracia, um simulacro de eleições que poderiam ser democráticas, um judiciário que poderia ser independente, mas abusam da democracia e da justiça e de todo o processo. Perdoe, por ser tão incisivo quanto a isso.

JULIAN ASSANGE: Não, não... Às vezes, tenho a sensação de que também sou incisivo demais. Alegra-me que você tenha dito, assim, bem claramente.

Bem Anwar, falemos do futuro. Até aqui, não temos boa imagem da Malásia. Mas falemos do projeto, de para onde a Malásia caminhará, para onde caminhará toda a região. Qual seu plano para a Malásia, se a coalizão de seu partido, da oposição, chegar ao governo nas próximas eleições?

ANWAR IBRAHIM: Nosso primeiro passo tem de ser amadurecer como uma democracia. Teremos melhor infraestrutura e mão de obra mais bem preparada. Ninguém deve ser ‘diminuir’ a Malásia, como se ali as pessoas não estivessem preparadas para exercer a própria liberdade. Ser livre é ter judiciário independente, meios de comunicação autônomos, e leis econômicas que promovam o crescimento, uma economia de mercado. Ao mesmo tempo, é preciso compreender o porquê dos abusos.

No nosso discurso, temos falado da Primavera Árabe, quando uma parte do mundo exigia liberdade. Também temos, na Malásia, um movimento Occupy Wall Street. As limitações, a ganância desenfreada, e o imenso fosso que separa os muito ricos e os muito pobres, a cumplicidade entre os grandes grupos comerciais e os políticos. Temos de evitar tudo isso, vendo, como se pode ver agora, as frustrações...

JULIAN ASSANGE: As frustrações no Ocidente?

ANWAR IBRAHIM: Sim, é isso. As frustrações no Ocidente. E é mérito também seu, que esses fatos tenham sido revelados por WikiLeaks. Agora se pode ver a hipocrisia, o paradoxo, as contradições entre o que dizem entre eles, e as ‘declarações’ e notas que a população lia ou ouvia pela televisão. Você teve, sim, uma contribuição muito importante. O que se leu, nos telegramas de WiliLeaks, surpreendeu todos. Alguns telegramas falavam de mim, mas mesmo assim apoio a divulgação. Sabe por quê? Porque entendo que ali está a realpolitik, que é hipocrisia mascarada de diplomacia, que pouco tem a ver com a verdade ou com padrões morais ou éticos e que é, sempre e só, ação de poder, brutal, na disputa entre interesses locais ou nacionais. Acho que isso é o que terá de mudar. Por que, ao longo dos últimos 50 anos de existência da Malásia, não foi possível implantar naquela região a ideia de que malaios, chineses, indianos e os dayak são uma só grande família e podemos todos avançar juntos? Por que não se pode construir esse tipo de ideia? Por que é tão difícil? A Malásia é país rico. A renda líquida nacional do petróleo chega a 90 bilhões de dólares malaios. Não somos, como a maioria de nossos vizinhos, que dependem de importar petróleo e sobre os quais pesa essa questão do petróleo...

JULIAN ASSANGE: Diga-me você: o que falta? É questão de educação?

ANWAR IBRAHIM: Não. Tudo depende do líder, Julian. A força das convicções, a perseverança para insistir na direção definida. Não é possível ser corrupto e supor que assim se fará alguma coisa para o bem de todos. E o governo tem de funcionar, desde o primeiro momento. Não estou dizendo que não se possam fazer concessões, que só dará certo se o líder foi filósofo político que consiga impor suas decisões. Mas há algumas regras básicas que você tem de aceitar. E sempre atacam: se você diz que defende a democracia, é porque você é fantoche do ocidente. Se você fala de economia de mercado, é porque é agente de Georges Soros...

JULIAN ASSANGE: Eu mesmo já disse coisa semelhante [risos].

ANWAR IBRAHIM: E agora, que já conversamos, você já sabe o que faremos [risos]. Mas acho que o problema, com líderes autoritários e às vezes também com líderes democráticos ocidentais, é que veem o mundo pela política da islamofobia: “nós contra eles”. É a política unilateral dos EUA. Nada mais resta nela dos ideais, do espírito inicial da Revolução Norte-americana ou dos ideais de Jefferson… Temos de enfrentar esse desafio, mas temos de fazê-lo na pequena escala de um país pequeno. A Malásia não tem de ser a maior nação do mundo, mas temos de fazer o possível pela Malásia. Por quê? Por que é tão difícil que um aldeão malásio, um pequeno agricultor ou pequeno comerciante chinês, ou um operário indiano sintam-se respeitados e reconhecidos como cidadãos, com a dignidade de cidadão malásio? Não acho que falte muita coisa, para podermos começar. Consciência, sinceridade, a força da convicção.

JULIAN ASSANGE: Muito bem. Anwar Ibrahim, muito obrigado.

ANWAR IBRAHIM: Obrigado a você.

JULIAN ASSANGE: …e boa sorte! Está ótimo. Temos excelente material. Ah, por curiosidade. Entrevistei o presidente da Tunísia. Você chegou a encontrar-se com ele, quando esteve lá? Com o novo presidente da Tunísia?.

ANWAR IBRAHIM: Não, infelizmente. Estavam ocupados. Estavam recebendo a oposição síria...

JULIAN ASSANGE: Ah, sim, os “Amigos da Síria”.

ANWAR IBRAHIM: Foi encontro do qual participou metade do Gabinete. 60 deputados, principalmente para estudar essa questão, a reforma democrática. Se têm papel importante, e se se mostram muito rigorosos com as questões islâmicas, acho que logo estarão muito preocupados com o status do Islã. Mas, sobre você? Como estão as coisas?

JULIAN ASSANGE: Pois agora o caso é um Grande Júri, nos EUA, que me investiga há um ano e meio e parece que apresentaram uma acusação secreta, que vão usar para extraditar-me para os EUA. Ao mesmo tempo, há o caso na Corte Suprema, aqui na Grã-Bretanha, que antes se chamava “Câmara dos Lords”, e que, se eu perder, me extraditam para a Suécia, para me prenderem no momento em que chegar lá. Não há acusação. Ninguém, até agora, me acusou de coisa alguma, ninguém, país nenhum. E talvez seja julgado por abuso sexual, talvez não. Mas recusam-se a me interrogar aqui em Londres. Ofereci-me para ser interrogado na embaixada sueca, por telefone. Mas não aceitaram. Em vez disso, exigem minha extradição, para interrogar-me sem haver acusação formalizada. Essa é a situação em que estou, em prisão domiciliar. Tenho esse sensor eletrônico na minha perna, para que sempre saibam onde estou. É... foi um pouco deprimente, mas, por outro lado, sabe, em certa medida... Sinto-me mais seguro, deram-me uma plataforma. E toda essa situação especial em que estou enredado é resultado da legislação europeia de resposta ao 11/9. O resultado foi que os departamentos de polícia e os governos europeus disseram “temos de poder transferir terroristas de um estado europeu para outros, rapidamente”.

ANWAR IBRAHIM: E, agora, se usam as mesmas leis draconianas, também em outros casos. Mas você conhece as regras do jogo: jogue como tem de jogar, não perca a calma e relaxe. Você será absolvido e nos veremos em Londres ou em Kuala Lumpur.