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segunda-feira, 22 de junho de 2015

Quando nos Estados Unidos – “Não consigo escrever!”


19/6/2015, [*] Andre VltchekCounterpunch
Tradução mberublue
Los Angeles, no Museu de Arte Contemporânea

Em Los Angeles, no Museu de Arte Contemporânea (Museum of Contemporary Art – MOCA), uma gigantesca bandeira de cores sangrentas ondulava em um vento artificial criado por enormes hélices.
Não havia espectadores para a mostra. Por um instante, pensei que estava sozinho naquele espaço todo. Mas em seguida percebi dois vultos vestidos com roupas negras, movendo-se bem devagar na penumbra, grudados aparentemente em desespero às paredes. Curvados, eles passaram pela livraria, perto de um lugar onde alguém tinha colocado um pequeno cartaz na parede, onde se lia: “Eu não consigo respirar!”
Provavelmente se tratava de uma performance, uma espécie de protesto desesperado de um homem e uma mulher contra aquela bandeira gigantesca que a tudo devora.
Antes de morrer assassinado pelo regime, um homem exclamou: “não posso respirar!”
“Eu não posso escrever!”, pensei. Para mim, isso significa quase o mesmo que não poder respirar.
***
Pela primeira vez em muitos anos, eu não consegui entregar minha coluna, ou continuar meus ensaios, por várias semanas.
Mesmo quando estive preso na República Democrática do Congo, no Quênia, no Senegal, consegui continuar a escrever.
Mesmo depois que um pastor fascista, um evangélico louco pagou aos funcionários do hotel para me envenenar na cidade indonésia de Surabaya, eu continuei escrevendo.
Escrevi em muitas zonas de Guerra e favelas em que grassava o desespero, do Iraque a Mindanao, do Haiti às Ilhas Marshall.
Mas eu não consegui escrever nos Estados Unidos da América. Nem uma linha, ou uma mera palavra. Não agora.
***

Andre Vltchek (E) - palestra em Fresno

Eu falei. Fui convidado a falar e falei em uma grande conferência no Sul da Califórnia, e proferi palestras em encontros sobre paz e oposição em Monterey, San Jose e Fresno.
Fui convidado a falar sobre o meu livro de 1.000 páginas, já um best-seller, “Expondo as mentiras do Império”, onde defino de uma vez por todas minha posição oposicionista em relação ao Império, mostrando os horrores que são cometidos diuturnamente pelo mundo.
Mostrei filmes e excertos de meus filmes na África: em Ruanda, Congo, campos de refugiados somalis e as terríveis favelas de Nairobi.
Fui convidado a mostrar tudo isso e mais, mas no final, um homem se levantou e perguntou: “Por que você está nos mostrando tudo isso?”
“Porque o seu país está matando milhões de pessoas, neste exato momento”, respondi.
Então, com voz suave, ele perguntou novamente: “e você quer que a gente faça o que?”.
No momento em que ele se expressou dessa forma, eu acabava de me recuperar de um monstruoso jetlag, depois de uma viagem de 48 horas vindo da África do Sul, aterrissando na Califórnia apenas um dia antes da apresentação. Na África do Sul, eu estava entre meus camaradas, meus amigos. Tudo era diferente: ali havia uma luta tremenda por um mundo melhor, as pessoas pobres e desvalidas se unindo e enfrentando o governo, a grande UNISA (Universidade da África do Sul) estava profundamente envolvida na luta. Lá, falei no 14º Simpósio Internacional de Contribuição para a Psicologia da Paz. Lá, falei e falei, lutei com vontade, estive envolvido em negociações, estava ajudando um pleno momento de criação de conceitos: de como não pode existir paz se não houver justiça, que sem igualdade social a justiça se torna impossível e que não se pode conseguir atingir o progresso em nenhum lugar do planeta sem confrontar e lutar contra o fascismo e o imperialismo ocidental.
Na Califórnia acontecia o contrário. Tudo era totalmente diferente. Na Califórnia, eu estava só, frente a frente com os rostos frios de multidões hipócritas; pior: multidões convencidas de sua própria superioridade, mesmo quando criticavam, de maneira moderada e “benevolente” as ações homicidas de seu país em incontáveis lugares pelo mundo afora.
“Nada do que nos dizem é verdade”, é a frase que ouvi de várias pessoas, em muitas ocasiões.
Os cidadãos do Império aspiram ser descritas como se fossem eles mesmos as “vítimas”. Será que não acontecia o mesmo na Alemanha Nazista em 1930? Muito provavelmente sim! “A Alemanha derrotada foi castigada com a hiper inflação, teve que pagar reparações, por consequência, era a vítima!” Sentia-se vítima dos Bolcheviques, dos Judeus, dos Franceses, de Roma... Os Estados Unidos, embora não derrotados externamente, foram derrotados internamente. São duas coisas completamente diferentes. Mesmo assim, há similaridades, especialmente na maneira com que o Império trata as “não pessoas”.
Lá do meio do público, alguém perguntou: “Você acredita em culpa ou responsabilidade coletiva?”
“Claro que acredito!”, disparei de volta. “Não se pode negar a responsabilidade e a culpa escancarada do ocidente, da raça branca, do Cristianismo, do Império! Culpa e responsabilidade coletiva pelas milhões de mortes cometidas contra as vítimas definidas como ‘não pessoas’. Vítimas sufocadas com gás, estraçalhadas por bombardeios, mortas à fome, mutiladas... Culpa e responsabilidade coletiva pelo estupro da livre vontade de bilhões de pessoas na África, América Latina, Oriente Médio, Ásia e Oceania. Culpa e responsabilidade coletiva pelo apartheid global em andamento!”
***
Não pude perceber qualquer senso de urgência no Sul da Califórnia; nem em Fresno, Monterey ou San Jose. A vida continua. A vida deles... Sobre outras vidas eles não queriam nem saber. Eles na realidade fazem mesmo é questão de não saber.
Eventualmente eles protestam, para que possam se sentir bem.
Fui empilhando discursos, apresentações e palestras sobre o que eu tinha presenciado no Oriente Médio: guerras perpétuas, destruição de nações inteiras, milhões de corpos empilhados uns sobre os outros. Dei exemplos, exibi filmes. Eu estava oferecendo análises em profundidade sobre a maneira pela qual o ocidente estava antagonizando a China e a Rússia.
Pablo Neruda (1904 - 1973)

Em dado momento, comecei a falar, apaixonadamente, sobre as revoluções na América Latina, sobre poesia e música, sobre as histórias, a beleza quixotesca das rebeliões. Falei sobre poetas como Neruda, Paz, Cardenal e Parra. Eu tentava inflamar, incendiar a multidão. Então, de repente, senti que algo estava profundamente errado... Havia um silêncio sepulcral. Olhei para a multidão em frente a mim: a maior parte da “multidão” consistia de mulheres com idade acima de 80 anos, algumas em cadeiras de rodas, várias delas dormindo.
“Os jovens daqui são introspectivos…” me disseram. “Não é fácil fazer com que se interessem...”
Dia após dia eu me questionava: o que estou fazendo aqui, dentro do país responsável por milhões de assassinatos em massa mundo afora. Eu mesmo estava ficando insano cada vez mais, a cada dia, como os vários editores de publicações da pseudo-esquerda tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, que pregam ao mundo que as pessoas na Espanha, Grécia e nos Estados Unidos na realidade sofrem muito, quase tanto como os bilhões de “não pessoas” em todo o mundo? Como se a maioria deles não fosse, apesar de tudo, recebedores de tremendos privilégios pagos pelo sangue e pela vida de africanos, asiáticos e árabes. Não, eu ainda sabia quem são as verdadeiras vítimas! Eu ainda sabia o que estava acontecendo na realidade! Eu precisava dar o fora do país, o mais rápido que pudesse!
Tudo era uma tremenda de uma bobagem aqui; “sentir-se bem” era uma coisa ôca! Movimentos pela paz... movimentos quase sem negros, muito poucos hispânicos ou asiáticos! Nenhum deles estava comprando nada disso. Eles sabem muito bem que aquilo não era para eles.
Era muito claro que as pessoas com as quais eu me encontrava não queriam saber de mudança alguma. Eles sequer querem obter “conhecimento”. Para quem quer, o conhecimento está à disposição, na RT, no CounterPunch, em todos os lugares, realmente, em toda a parte! Mas se obtiver conhecimento, ninguém mais poderá alegar que não sabia; saber significa a obrigação de agir!
***
Quase não há revolucionários de esquerda nos Estados Unidos ou na Europa, apenas as massas moralmente mortas, sem emoção, insinceras, egoístas que morrem de medo de perder seus privilégios. Os militantes da direita pelo menos são honestos!
O regime, claro, se aproveita da situação. Ele dá sustentação plena para esse estado de coisas. Acabaram por se tornar interdependentes, os governos e as massas, ambos egoístas e hipócritas; estão no mesmo barco. Não é por outra razão que os partidos fascistas nunca se apeiam do poder: quase todos os habitantes dos Estados Unidos e da Europa desejam que a exploração e o estupro do resto do mundo continue como está!
Pode alguém, qualquer um, acreditar que a massa em protesto na Espanha ou na Grécia está lutando alguma batalha internacionalista, lutas pela humanidade? Ou eles lutam apenas pela manutenção de seus privilégios sociais e econômicos? Esses mesmo privilégios nos quais eles estavam nadando a braçadas há apenas uma ou duas décadas, e que consistiam de doações ou subsídios, enquanto milhões daqueles que o ocidente considera como “não pessoas” no mundo pobre estão sendo espoliados e sacrificados, para que os norte-americanos e europeus vagabundos nos Estados Unidos e na Europa possa viver com qualidade de vida, só porque nasceram brancos e “no lugar certo”?
Movimento 15M-2015 (Espanha)

A esquerda se perdeu tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. Clara e vergonhosamente, se perdeu. Mas mesmo agora, ainda é tão arrogante que tenta arrostar países como a China ou Rússia com o seu ar cristão e ocidental de superioridade; tem o atrevimento de tentar permanecer no direito de decidir se a China ou a África do Sul são, de fato, socialistas ou comunistas ou, para usar um mote da propaganda enganosa que grassa no ocidente, “ainda mais capitalistas que o ocidente”.
Durante as duas semanas que fiquei na Califórnia, não detectei qualquer sinal de remorso. Quando mostrei e expliquei como milhões de pessoas foram mortas pelo imperialismo ocidental, as pessoas diziam, compungidas: “nossa, que coisa horrível!”. Só o faziam porque foram treinadas para reagir dessa forma. Mas não havia qualquer determinação para mudar essas coisas nem qualquer sentimento real.
Para onde quer que eu fosse, me sentia fora do lugar. Esperava-se que eu “me adequasse”. Foi-me dito que não mostrasse tantas imagens chocantes, porque as pessoas eram “muito sensíveis”! Eventualmente, decidi não mostrar mais nada, nem imagens nem filmes. Estabeleceu-se que eu deveria ser educado. Enquanto isso, tudo o que eu queria era gritar insultos na face daquelas pessoas cheias de direitos, homens e mulheres, que nada mais faziam que seguir uma odiosa tradição cristã: ignorar o mal real, fazer alguma coisinha de bom, tudo para que pudessem ter algum crédito para enfrentar uma suposta eternidade.
Enquanto isso continuei a ouvir os mesmos velhos clichês sobre a paz e a democracia. Alguns esperavam a justiça e o fim das guerras, mas agarrando-se desesperadamente aos símbolos do Império, ao legado de seus colaboradores, como Vaclav Havel, o Papa João Paulo II, o Dalai Lama e Madre Teresa...
Eu não só não podia respirar, mas tinha perdido também a capacidade de escrever. A raiva crescia como um edifício dentro de mim. A raiva era sufocante, me estrangulava. Era uma raiva insalubre, improdutiva, misturada com frustração! Não era como a raiva sagrada que sente aquela pessoa que parte para uma luta contra o mal. A raiva se estabelecia de uma forma também mesquinha, indescritível e patética. Ela me sufocava e humilhava ao extremo.
Terminei odiando a luta que enfrentava ali.
***
Tentei olhar para a realidade que me cercava com olhos diferentes, mas para onde quer que olhasse, via apenas uma cultura e um país em colapso, triste e disfuncional.

Estrada na California

Dirigi por estradas esburacadas, cheia de solavancos, embarquei em um sistema ferroviário primitivo. Encontrei as pessoas, as quais não estavam absolutamente interessadas em trabalhar ou em melhorar o país. Fui confrontado com o individualismo, com o egoísmo. Vi pessoas que claramente se odiavam profundamente, mas pretendiam ser cheias de cortesia e preocupação uns com os outros.
Mas bastava que se fizesse um movimento errado. A explosão viria a seguir.
Vi um país onde não mais existiam os valores positivos e sentimentos humanos mais básicos.
***
Estar inserido neste tipo de sociedade é extremamente humilhante. Tentei mandar uma caixa pelo correio. No posto dos Correios de Clermont, fui obrigado a refazer a embalagem por três vezes, porque nas duas vezes anteriores, a caixa não era a correta (só o chefe do posto dos Correios de Clermont sabia qual era a caixa correta, mas ele jamais se daria ao trabalho de me explicar). Na estação ferroviária, uma mulher que estava parada, apenas batucando em seu Smartfone me explicou que os bilhetes para a viagem de trem não são vendidos na estação. Tive que sair para o sol inclemente, tentando comprar de uma máquina automática de vendas de bilhetes. O sol não me deixou ver nada e voltei para dentro da estação e pedi novamente. “Se quiser, você pode ligar para a Companhia e reclamar”, me disseram. “Nesse caso, posso comprar o bilhete a bordo do trem?” “Não!” “E tem mais: se você embarcar no trem sem o bilhete, você pode ser preso”.
Tudo começou já na minha chegada. Depois de viajar durante 48 horas desde a África do Sul para o sul da Califórnia, carregado com filmes e livros para a conferência, não havia ninguém me esperando no aeroporto. Então, tive que tomar um táxi. Acontece que no lugar onde eu deveria supostamente ficar, também não havia ninguém esperando. Tive que ficar na rua esperando por mais de uma hora. Dias depois, tendo viajado para outro lugar, a pessoa que deveria estar me esperando para me pegar só chegou duas horas depois. Quando comentei o fato em voz normal, ele começou a gritar: “quem sabe você quer ir a pé?”.
Não que eu esperasse qualquer coisa de bom dos habitantes de um país que esta neste mesmo instante assassinando milhões de pessoas, mas a arrogância que encontrei foi uma coisa alucinante. Pior: não se trata apenas da arrogância já conhecida do pessoal da segurança nos aeroportos. Estou falando da arrogância que vem de cidadãos comuns dos Estados Unidos.
Sou Branca!

Foi fácil detectar também uma inacreditável perda de disciplina. Na China ou no Vietnã, assim como na Índia, as pessoas seriam demitidas apenas por usar o tom de voz e as posturas adotadas pelos empregados norte-americanos. Ouvi muitas vezes coisas como “não queremos acabar tratados como os trabalhadores asiáticos”. “Ótimo!” respondi eu. “Muito bem! Mas não espere que os trabalhadores pelo mundo afora que trabalham muitas horas extras se guiem pela sua moleza”. Tal atitude, que beleza, um luxo!
Ao partir dos Estados Unidos para o Equador, tentei fazer o check-in da bagagem para meu destino final. A funcionária da companhia Delta sequer fazia ideia de onde fica Quito, e era visível que às 5h 20’ ela não fazia questão nenhuma de aprender. Assim ela fez a checagem da bagagem apenas até o México, e quando eu protestei (afinal de contas, eu teria que fazer outra checagem da bagagem na alfândega mexicana, arrastando as malas para lá e para cá) ela começou a vomitar um monte de normas, inventadas na hora. Insisti. Ela chamou o supervisor. Este determinou que ela fizesse a checagem até meu destino final, Quito. Ocorre que ela não tinha a menor ideia de como fazer isso. Tornou-se apologética? Nem pensar. Quanto mais tempo demorou, mais implicante e teimosa ela se ficou.
Obviamente, a única coisa que o Império aprendeu foi como matar “não pessoas” a longa distância, e como ficar no controle remotamente.
Os cidadãos do Império dos Estados Unidos passam o tempo a reclamar que seus privilégios estão desaparecendo. Bem, na realidade eles estão evanescendo, mas grande parte deles ainda está lá. Fora dos Estados Unidos, nenhum país poderia sobreviver com trabalhadores tão sem ética e de tão baixa performance.
No ocidente, “ser de esquerda” significa sacrificar ainda mais os trabalhadores já brutalmente explorados lá fora, para manter os privilégios absurdos dos ocidentais.
Para nós, em vez disso, a esquerda significa “internacionalismo”.
Essas duas visões não só não se complementam, como são antagônicas. As metas da esquerda no Equador ou na Venezuela sofreriam grande prejuízo, se as esquerdas dos Estados Unidos e Europa tivessem sucesso.
O colonialismo nunca morre!
O apartheid nunca foi desmantelado. Apenas se tornou global. A escravidão continua, embora com outros nomes.
Se assim não fosse, como poderiam os Estados Unidos sobreviver na sua forma hoje em dia?
***
Nestas duas semanas em que estive nos EUA, conheci alguns dos maiores pensadores que aqui vivem: Michael Parenti e John Cobb. Tempos atrás, eu trabalhava juntamente com Michael em dois livros, um dele e outro meu, mas era a primeira vez em que o via face a face. Discuti o cristianismo com John Cobb, tentando definir onde se encontra escondida a codificação que permite as mais horríveis atrocidades que são cometidas em nome da cruz. Foi uma discussão filosófica profunda que deveremos converter brevemente em um novo livro.

Andre Vltchek e Michael Parenti (D)

Tive ainda o prazer de passar uma tarde prazerosa em Los Angeles, com o editor do CounterPunch. Joshua Frank e sua companheira Chelsea, pessoas de bom coração e que sabem ser divertidos para os convidados.
Viajei e trabalhei em conjunto com Dan Yaseen, um ativista dedicado do rádio, e sua parceira Camille.
Sim, é claro que existem pessoas brilhantes, boas e devotadas vivendo nos Estados Unidos. Mas mesmo eles sabem e admitem que seu grupo é muito pequeno frente o tamanho do país, e também pequeno para fazer parar os crimes que o Império continua a cometer.
***
Deixei o país muitos anos atrás. Saí de New York, que foi a minha casa por mais de uma década. Nunca retornei, a não ser para o lançamento de maus livros e filmes, e para ver alguns amigos. Nunca fiquei por longo tempo. Desta vez, por duas semanas, foi a mais longa estadia por anos.
Esta visita me quebrou. Fiquei fortemente deprimido e exausto.
Pude ver claramente como uma grotesca pseudo-moralidade, conceitos religiosos repugnantes e a hipocrisia que influenciou e arruinou estados clientes e nações inteiras, no mundo inteiro, especialmente na Ásia e na África.
Sim, acredito em culpa coletiva. Como tenho cidadania norte-americana, carrego esta culpa. Portanto, trabalho sem parar, não para deixar minha consciência limpa, mas para tentar estancar a loucura.
Estou convencido de que o ocidente, a raça branca e seus lacaios no estrangeiro, não tem o direito de governar este planeta. Vi o suficiente para cristalizar minha convicção.
Tristeza em Los Angeles

O ocidente acabou e sua cultura está morta. O que ainda resta, além de não atrair, é realmente horrível. Não há coração, não existe compaixão nem criatividade. Aqueles bilhões de pessoas fora do território ocidental não deveriam estar morrendo enquanto são forçados a apoiar o individualismo agressivo pós cristão, pós cruzadas colonialistas além do fascismo dos Estados Unidos e da Europa.
***
Durante aquelas duas semanas horríveis, a minha habilidade de escrever entrou em colapso, mas apenas até o momento em que o trem de pouso do avião em que eu me encontrava viajando para o sul, em direção à América Latina perdeu o contato com a pista de decolagem do aeroporto de Salt Lake City.
Em seguida, tudo voltou ao normal. Os motores rugiam e eu abri meu Mac e comecei a teclar. Até o momento de desembarcar na Cidade do México, fui capaz de escrever a metade deste ensaio. Em Quito, cercado pelo calor e pela bondade das pessoas locais, na maioria indígenas, me senti mais uma vez forte e feliz. Comecei então a escrever; mais uma vez, eu era capaz de escrever.
Sobrevivi.
O pesadelo tinha chegado ao fim.
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[*] Andre Vltchek é romancista, cineasta e repórter. Cobriu guerras e conflitos em dúzias de países. Seu livro sobre o imperialismo ocidental no Pacífico Sul, Oceania foi publicado pela editora Lulu (VLTCHEK, André. Oceania, 2010. Sobre o livro, que tem prefácio de Noam Chomsky, ver em: Oceania by Andre Vltchek - Book Review by Jim Miles). É autor também de Indonesia – The Archipelago of Fear (Pluto), sobre a Indonésia pós-Suharto e o modelo de livre mercado fundamentalista. Depois de viver e trabalhar por muitos anos na América Latina e Oceania, Vltchek vive e trabalha atualmente no Leste da Ásia e África. Pode ser encontrado por sua página na Internet.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Ser russo


Nasci vermelho

10/5/2015, [*] Andre VltchekCounterpunch  
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


O ocidente mentiu a Lênin, a Stálin, a Khrushchev e por fim, a Gorbachev. 

O ocidente agora mente a Putin e sobre Putin.

O nazismo só se compara ao imperialismo europeu e norte-americano, ao colonialismo. 

Nazismo e colonialismo são feitos do mesmo estofo. 

E a União Soviética esmagou ambos, derrotou ambos! A Rússia empunha hoje a histórica bandeira soviética.(...)

Os chauvinistas e xenófobos ocidentais lutam hoje pelo controle sobre todo o planeta, até pela própria sobrevivência deles. 

A menos que divida Rússia, China e América Latina, o ocidente está acabado.



Presidente Putin: "O fascismo não passará"
(Presidente Putin, no desfile com as famílias russas que portam fotos de familiares
mortos na IIa.GM, leva o retrato de seu pai)

Está quebrada a confiança entre o ocidente e a Rússia. Já estava abalada há bastante tempo, mas agora está irreversivelmente quebrada. Boa coisa, que confiança poderia haver entre o imperialismo fascista e as forças que hoje lutam para libertar a humanidade?

Não é difícil enganar o povo russo. É preciso pouco para ganhar-lhe a confiança; às vezes um sorriso, meia dúzia de palavras carinhosas, algumas promessas e juras feitas com sinceridade. Os russos podem ser facilmente “comprados” com gentileza. São povo confiante, vulnerável.

Se abordados com ternura e simpatia, eles logo abrem o coração, partilham até o último pedaço de pão com quem tenha fome, oferecem a camisa do corpo a quem tenha frio.

Chegue-se a um russo com promessa de amor eterno, devoção, simples amizade, que seja, e as chances são de que todas as portas se abram para você e as defesas caiam.

Talvez, algum dia, ele ou ela lhe peça: “Por favor, nunca, nunca me atraiçoe”. Mas ninguém lhe pedirá garantias, nenhum compromisso por escrito, nenhuma assinatura em contrato.

Por causa dessa confiança e abertura, morreram milhões, dezenas de milhões de russos!

***

A defesa de Stalingrado - jan. 1943
Os russos deram ao mundo tudo que tinham. Os russos lutaram pela humanidade inteira. Abriram o coração e as portas. Alimentaram os que estavam em miséria extrema, muitas vezes a morrer de fome.

E no fim os russos foram traídos, não uma, nem duas, mas várias, várias vezes!

Num mundo sem espinha dorsal, baseado no individualismo, no lucro, no servilismo, é fácil, muito fácil trair alguém generoso, alguém que doa. Tiranos só muito raramente são traídos, porque a lealdade que recebem é baseada no medo, na autopreservação, no autointeresses mercantil.

No mundo covarde, corrupto, que o ocidente construiu e suas religiões construíram, só se obtém lealdade mediante o terror.

Apesar de horríveis traições e da selvageria contra o povo russo ao longo da história, os russos realmente jamais “aprenderam a lição”, nunca aprenderam o cinismo ocidental e jamais dominaram a arte de sacrificar outros em nome dos próprios interesses.

Todos os acordos com a Rússia foram quebrados, sempre que assim interessou aos invasores. Os escandinavos ceifaram incontáveis vidas russas, e o mesmo fizeram os alemães, franceses, poloneses, britânicos, norte-americanos e tchecos, para ficar só nesses. Os russos jamais de fato “puniram” alguém, como fazem os protestantes e anglo-saxões. Castigo é lixo puritano, basicamente. O modo russo de pensar é quixotesco demais para castigar alguém.

O ocidente mentiu a Lênin, a Stálin, a Khrushchev e por fim, a Gorbachev. O ocidente agora mente a Putin e sobre Putin.

Traída, a Rússia mergulharia em inimaginável agonia, passaria por fogo e devastação, pelo desespero. A Rússia enterraria milhões de filhos e filhas. É provável que nenhuma outra nação no planeta tenha algum dia passado por devastação daquela magnitude.

Então, de repente, o país começaria a erguer-se dos joelhos, lentamente e assustadoramente, para mostrar todo o seu poder, seu tamanho, a determinação, a força. Ferida e enganada, mas orgulhosa e magnificamente bela em sua ira santa, a Rússia ergueria sua espada pesada, poria retas as costas, secaria as lágrimas e começaria a andar diretamente contra o inimigo.

As batalhas da Rússia sempre são às claras. A Rússia combate honestamente as suas batalhas. Foram derramados oceanos de sangue, a maior parte desse sangue é sangue do povo russo.

Diferente do ocidente, a Rússia não bombardeia à distância, não usa drones nem bombas atômicas para matar milhões de civis e assegurar para si a Vitória. As batalhas russas são homem a homem. São dezenas de milhares de tanques, como na batalha de Kursk, milhões de soldados, como em Stalingrado.

Ninguém jamais pôde ou pode derrotar a Rússia, porque a ira dos russos, como o amor deles, é grande e puro. A Rússia nunca foi derrotada. Seu coração ferido está cheio de amor e poesia, mesmo quando o peso de seu punho cai sobre os déspotas, usurpadores e assassinos de massa. A Rússia jamais foi derrotada, também porque quase todas as guerras que a Rússia jamais lutou foram guerras justas – guerras para salvar a vida do povo russo, mas guerras, também, pela sobrevivência de toda a humanidade.

***

Rendição do VIº Exército alemão em Stalingrado
70 anos da grande Vitória! 70 anos desde que o povo soviético salvou o mundo, quando esmagou o nazismo. 70 anos desde que o povo soviético, quase imediatamente, uniu-se a outra luta, dessa vez contra o imperialismo e o colonialismo ocidental.

20 ou talvez 27 milhões de soviéticos, principalmente russos, perderam a vida defendendo o planeta com as hordas de Hitler. Depois, centenas de milhões de outros continuaram a dedicar a vida a construir mundo melhor, mais igualitário.

Sem a União Soviética, sem o povo russo, não haveria liberdade, não haveria independência para países asiáticos, africanos e do Oriente Médio. Sem os soviéticos não teriam sido possíveis as revoluções na América Latina.

Por isso o ocidente tanto odiou a União Soviética e é por isso que tanto odeia hoje o povo russo. O ocidente perdeu colônias, perdeu a guerra da propaganda e perdeu o monopólio que tivera, para definir tudo sob o sol.

Só imbecis podem responder as mais tóxicas mentiras da propaganda ocidental, que comparam a Alemanha nazista à União Soviética stalinista. Sobre isso, escreverei em breve. O nazismo só se compara ao imperialismo europeu e norte-americano, ao colonialismo. Nazismo e colonialismo são feitos do mesmo estofo. E a União Soviética esmagou ambos, derrotou ambos! A Rússia empunha hoje a histórica bandeira soviética.

Os chauvinistas e xenófobos ocidentais lutam hoje pelo controle sobre todo o planeta, até pela sua própria sobrevivência. A menos que dividam Rússia, China e América Latina, o ocidente está acabado. Eles sabem disso! A menos que esmaguem tudo que é honesto, bom e otimista nas nações que resistem ao monstruoso regime ocidental, os dias do ocidente estão contados.

Ver: A bem-sucedida campanha de 70 anos de mentiras, para convencer o povo norte-americano de que os EUA, não a União Soviética, derrotaram Hitler [8/5/2015, The successful 70-year campaign to convince people the USA and not the USSR beat Hitler, Les Crises].


Batalha de Berlim - Bandeira da URSS hasteada no Reichstag
foto de Yevgeny Khaldei em 2/5/1945
Dia 9/5/1945, o mundo todo mudou. A humanidade voltou a andar adiante. Lentamente, em ritmo desigual, frequentemente com erros e voltas, mas mesmo assim, adiante! Os grilhões coloniais começaram a ser quebrados. Pessoas de todos os continentes voltaram a sonhar com real liberdade, igualdade e a irmandade de todos os homens. Aquela bela bandeira vermelha agitada no telhado do Reichstag em Berlin tornou possíveis esses sonhos (foto acima)

O povo soviético provou que dignidade humana e liberdade são valores pelos quais vale a pena sacrificar-se. A Ode a Vitória foi escrita com o sangue dos soviéticos oferecido com generosidade, e pode por isso inspirar e modelar gerações futuras.

Mas a ganância e o niilismo do ocidente recusam-se a morrer. Sua obsessão com controlar e saquear o mundo atingiu nível inimaginável. Todas as forças do Império foram mobilizadas. Luz e esperança foram confrontadas pela escuridão e a falsidade. Sonhos belos e puros foram antagonizados pela corrupção. Numa orgia de truques sujos e ardis, a União Soviética foi destruída.

Num único instante da história, todo o mundo oprimido perdeu seu mais poderoso aliado e defensor.

O que veio depois, foi o mais completo horror. O Império pôs-se a desestabilizar um país depois do outro: na África, Ásia, no Oriente Médio e até no ex-bloco oriental. Morreram milhões, expostos, desprotegidos, totalmente abandonados.

As hordas fascistas acreditaram que, daquela vez, haviam vencido. Em Moscou, Yeltsin, beberrão e lacaio do ocidente, começou a matar o próprio povo pelas ruas, e a bombardear o próprio Parlamento. Aquilo era “democracia”, como os jornais em Paris, Londres e New York escreveram quase imediatamente. Era tudo com que sonhava o ocidente: uma Rússia fraca e desestabilizada, de joelhos, à mercê do Império.

Viajei a Moscou e à Sibéria. Vi cientistas russos em Novosibirsk vendendo suas bibliotecas na rua, em estações de metrô, sob o frio mais intenso. Vi velhos veteranos de guerra pedindo esmolas, vendendo as medalhas. Vi trabalhadores russos passando fome, sem receber salários durante meses.

Então, alguma coisa aconteceu. A Rússia recusou-se a continuar de joelhos. Rapidamente os russos detectaram as mensagens que vinham do exterior; e viram a armadilha. O povo russo compreendeu que o que as mais horríveis invasões não haviam conseguido, as mentiras, os ardis, o jogo mais sujo do Império fascista obtivera em apenas uns curtos poucos terríveis anos.

Como tantas vezes em sua história, a Rússia teve de ou erguer-se, ou morreria. E ergueu-se. Indignada e decidida! E como sempre no passado, quando se ergueu para enfrentar o mal, enfrentou-o pelo próprio povo e também por toda a humanidade.

A Rússia reuniu-se, ao longo da última década, em torno da bandeira russa. Não é perfeita e não é tão ‘socialista’ como tantos de nós gostaríamos que fosse, mas há uma grande herança, uma inércia soviética que permanece na política externa da Rússia, assim como permanece o grande orgulho e a firme decisão de melhorar o mundo, de proteger os fracos.

70 da Grande Vitória! Esse ano, a Rússia não celebra só esse grande aniversário. A Rússia festeja também o próprio renascimento.

***

Eu sou russo!
Sou russo. Nasci na Rússia, e minha mãe é meio russa, meio chinesa. Mas mesmo minha parte chinesa vem do Cazaquistão, que foi república soviética. Meu avô, Hussein, foi alto Comissário, equivalente a ministro do gabinete, chinês étnico, linguista, morreu muitas décadas antes de eu nascer.

Fui criado na Tchecoslováquia. Meu pai, cientista, mudou-se para a Europa. Desde criança vivi em New York. Depois meti o pé na estrada e não parei nunca. Hoje sou internacionalista. Mas no fundo de mim, sou russo.

Não sei se me qualifico como russo. Menino, sempre tive passaporte soviético. Os momentos mais felizes da minha vida eram quando, ainda criança, minha mãe me levava, todos os verões, para o aeroporto de Praga, onde eu era despachado por avião, para Leningrado. Na outra ponta, minha avó me esperava.

Minha avó Elena não era só minha babushka. Minha avó Elena foi soldada, combateu contra os nazistas, defendeu aquela sua cidade bem-amada, sua Leningrado. Minha avó cavou trincheiras, enfrentou tanques alemães, e foi duas vezes condecorada. E era a mulher mais doce que conheci na vida. Ensinou-me a gostar de poesia e literatura. Contou-me centenas de histórias, algumas bonitas, outras de meter medo. Sou escritor por causa dela, escritor russo, apesar de escrever toda minha ficção exclusivamente em inglês e a maioria dos meus filmes recentes terem sido feitos em espanhol.

Quase toda a minha família russa morreu lá, em Leningrado, durante o cerco, décadas antes de eu nascer.

Todos os anos, durante os dois meses de verão, minha avó minha avó dedicava-se a mimar-me o mais que podia. Ou era o que eu pensava que ela estivesse fazendo. Hoje entendo que, para ela, era como um combate cultural, um esforço empenhado de injetar em mim tudo o que há de grande, sobre a Rússia.

Minha avó fazia economia durante dez meses, e então, quando eu chegava para visita-la, ela me levava às óperas, aos teatros, aos museus, aos parques em torno de Leningrado. Cozinhava para mim a comida mais deliciosa. E pelo menos uma vez por ano, levava-me ao Cemitério Piskarevskoe, onde a enorme estátua da Mãe Terra abre os braços“Ninguém foi esquecido, nada foi esquecido”, lê-se em letras douradas gravadas no granito. Durante o cerco de Leningrado morreram 1,5 milhão de pessoas, muitos estão sepultados ali, em incontáveis trilhas de grandes valas comuns.

Cresci. Tornei-me escritor e cineasta; viajei pelo mundo. Mas, estivesse onde estivesse, aquelas palavras sempre me seguiram, gravadas em mim. Minha avó sempre estava comigo, ela também, e também a cidade, o sacrifício e a Vitória!

Não se se isso faz de mim objetivamente russo. Mas sinto-me russo e ajo como russo.

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Orgulho de ser russo!
Ser russo... Hoje, “russo” não é só a nacionalidade: é verbo. Significa erguer-se contra a opressão, contra o imperialismo ocidental, construir pontes entre os países que estão resistindo ao terror imperialista ocidental.

E hoje há muitos “novos russos”. Não são os mesmos da era Yeltsin, não são personagens da bufonaria capitalista. Os “novos russos” de que falo são ao mesmo tempo russos e internacionalistas. E muitos desses frequentemente não têm uma gota de sangue russo. Mas lá estão, orgulhosamente defendendo o mundo, e estão unindo forças com a Rússia, a China e a América Latina em sua luta determinada por um mundo melhor.

Conheço vários grandes russos. Alguns são camaradas, como o renomado advogado internacional canadense, poeta, novelista e pensador, Christopher Black. Como Peter Koenig, economista suíço, que deixou o Banco Mundial por total desgosto, deu meia volta a abertamente atacou o establishment. Ou como meu ‘compá’ Patrice Greanville, nova-iorquino/chileno/argentino editor-chefe do lendário The Greanville Post.

Essas pessoas trabalham sem parar, desmontando as mentiras que o Império espalha pelo mundo: mentiras sobre a Rússia, mentiras sobre a União Soviética, mentiras sobre a 2ª. Guerra Mundial e mentiras sobre o imperialismo ocidental.

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OCIDENTE = TRAIÇÃO e MENTIRAS
Durante séculos, a Rússia foi apunhalada e enganada por gente de fora. Foi traída, engambelada, ofendida.

Muitos países que a Rússia libertou traíram-na da maneira mais vulgar. Tchecos e poloneses violaram monumentos aos soldados russos – aqueles jovens que deram a vida por Praga e Varsóvia no final da 2ª Guerra Mundial. A Europa Oriental abriu as portas à OTAN e à União Europeia. Por egoísmo pragmático, abandonaram as mais belas ideias, os mais belos projetos – entre os quais o internacionalismo – e, em vez disso, uniram-se aos opressores da humanidade – o Império.

Quanto mais esses países prostituem-se, mais agressivamente berram os slogans da propaganda ocidental, insultando diretamente e provocando, primeiro a União Soviética, mais recentemente, a Rússia. Lacaios lastimáveis e avarentos, e colaboradores do imperialismo ocidental têm buscado, desesperadamente e continuadamente, qualquer justificativa moral para a traição que cometeram. Distorceram a história e inventaram fatos. Desencadearam agressões contra os que defendiam as partes e os povos usurpados e saqueados do mundo.

Recentemente, o ocidente disparou o conflito na Ucrânia, onde ajudou a derrubar o governo eleito em Kiev. Na sequência, imediatamente, puseram-se a alimentar os mais histéricos sentimentos anti-Rússia. Quanto mais óbvia se tornava a situação, mais altas as vozes do pacto anti-Rússia, tanto na Europa Ocidental, como Oriental.

Ucrânia, Síria e Líbia – todos esses conflitos provaram que nenhuma lógica consegue prevalecer. O ocidente quer destruir todos os países que apareçam no seu caminho rumo ao controle global total, e tentará alcançar sua meta macabra por todos os meios. O aparelho de propaganda está sempre pronto para “justificar” qualquer ato de terrorismo cometido pelos EUA e Europa. Nenhum mecanismo internacional legal há, para proteger as vítimas.

Só uma grande força pode impedir a tragédia. A Rússia é essa força. A China também. E por isso o Império está em pânico ante o despertar desses dois grandes países.

BRICS versus EUA
Sim, dessa vez, depois de tantos séculos de dor e sofrimento, a Rússia afinal não está só. Está forte e alta, e pode afinal contar com seus amigos. Algumas das maiores cabeças do planeta estão únicas com Rússia e China. Esqueçam a Europa Oriental! O maior e mais poderoso país do planeta – a China –, repete e repete: “China e Rússia são os mais importantes parceiros estratégicos uma da outra”. É claro que não permitirão que o que está planejado seja comido pelas chamas da guerra.

Toda a América Latina revolucionária está hoje com a Rússia, e também estão com a Rússia dúzias de outras nações independentes e orgulhosas por todo o mundo.

No Oriente Médio e na África, na América do Sul e em muitas partes da Ásia, a Rússia é cada dia mais vista como uma poderosa força moral. Rússia é sinônimo de esperança. Não para os que creiam em EUA e Europa, mas para todos que, por séculos sofreram sob o peso do tacão deles.

Em todos os lugares onde falo publicamente, na Eritreia ou na África do Sul, na Índia, na China, até no Timor-Leste, as pessoas só querem saber da Rússia. O que a Rússia fará agora, para impedir mais ataques contra a Síria, ou o Irã, ou contra a Venezuela?

Respondo sempre que “a Rússia está viva e vai bem. E também estão vivos e bem os amigos da Rússia, da China à Venezuela e Cuba!”.

Nunca perco a esperança. Repito: eu sinceramente creio que logo derrotaremos o colonialismo e o fascismo, e construiremos uma bela sociedade sobre esse planeta coberto de feridas e cicatrizes, mas sempre maravilhoso. E ela será criada sobre os mesmos ideias que hoje comemoramos e celebramos.

“70 anos da grande Vitória! Obrigado, Rússia, por ter salvado o mundo! Parabéns, Rússia !”

E sempre, então, enrolo as mangas e me ponho a trabalhar, dia e noite – por Leningrado e por tudo que minha avó defendeu, e pela Rússia e pela humanidade.

Meu pai e minha mãe revolucionários

Andre Vltchek
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[*] Andre Vltchek é romancista, cineasta e repórter. Cobriu guerras e conflitos em dúzias de países. Seu livro sobre o imperialismo ocidental no Pacífico Sul, Oceania foi publicado pela editora Lulu (VLTCHEK, André. Oceania, 2010. Sobre o livro, que tem prefácio de Noam Chomsky, ver em: Oceania by Andre Vltchek - Book Review by Jim Miles). É autor também de Indonesia – The Archipelago of Fear (Pluto), sobre a Indonésia pós-Suharto e o modelo de livre mercado fundamentalista. Depois de viver e trabalhar por muitos anos na América Latina e Oceania, Vltchek vive e trabalha atualmente no Leste da Ásia e África. Pode ser encontrado por sua página na Internet.