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segunda-feira, 1 de junho de 2015

Pepe Escobar: “Nem sempre a OTAN pode ter tudo que quer”


29/5/2015, [*] Pepe Escobar, SputnikNews
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A reunião EUA-Rússia em Sochi (12/5/2015)
O cerne da questão na já mítica reunião do dia 12 de maio de 2015 em Sochi (Rússia) entre o Presidente Putin e o Secretário de Estado dos EUA, John Kerry, é que, depois de uma torrente de demonização da Rússia, pelos EUA, um acordo, alguma espécie de acordo, no mínimo, pode ter sido alcançado. Desnecessário dizer que nenhuma fonte oficial, nem em Washington nem em Moscou, confirmará.
Imperativos geopolíticos fazem supor que Kerry – nada além de leva-e-traz dos verdadeiros Masters of the Universe no Departamento de Estado – pediu que Putin “ajudasse” no ex-“Oriente Médio Expandido” inventado pelos EUA, e que facilitasse o processo que pode levar a um acordo que parece iminente no P5+1, sobre o programa nuclear do Irã.
Putin disse a Kerry que negócio fechado, desde que aquela histeria sobre a Ucrânia sumisse completamente e imediatamente.
Não há prova material – por enquanto – de que Washington esteja disposta a admitir, afinal, mesmo que só tangencialmente, que cometeu monumental tolice geopolítica na Ucrânia; o aprofundamento da parceria Rússia-China, que se constituiu e já dá frutos à velocidade da luz, é apenas um dos efeitos chaves daquela tolice. O fim das sanções seria evento sem precedentes em solo (da Eurásia).
Em vez disso, por enquanto, o que se tem é a usual promoção de guerra a qualquer custo, pela OTAN – remix.
“Perigoso jogador!”
O general Hans-Lothar Domröse, Comandante da Força Conjunta Aliada Brunssum, da OTAN, está convencido de que a Rússia é “uma ameaça”; que Putin não passa de “perigoso jogador”; e que os russos “consideram possível usar armas nucleares táticas para assim iniciar uma guerra. Nós [a OTAN], não”.  
Hans-Lothar Domröse
Herr General mente, é claro – nos dois lados (que Moscou quer usar armas nucleares; e que a OTAN não quer). Pelo menos foi forçado a admitir que a OTAN não vê a Rússia como inimiga; no máximo, como “ameaça” potencial.
A narrativa prossegue – monotonamente – sempre a mesma. No início desse mês, o manda-chuva da OTAN, general Philip Breedamor – melhor dizendo, Breedraiva — acusou a Rússia de fazer ameaças nucleares “irresponsáveis”. Além disso, o general Breedraiva nunca perde a ocasião de repetir mentira das gordas, sempre acusando a Rússia de ter cometido a proverbial “ofensa” no Donbass e de “violar” Minsk-2. A verdade é que todas as ofensas e/ou violações vêm de Kiev.
O Secretário-Geral da OTAN, o patético norueguês desdentado Jens Stoltenberg, não deixa passar nenhuma ocasião de “declarar” que “a Rússia usará armas nucleares”. Insiste que o sistema de mísseis de defesa da OTAN não está orientado contra a Rússia (é mentira), e que a OTAN não quer confronto (é mentira).
Todo esse pandemônio sobre armas nucleares baseia-se no que o Diretor do Departamento de Não Proliferação e Controle de Armas do Ministério de Relações Exteriores da Rússia, Mikhail Ulyanov, disse, numa conferência revisora do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, que o que Washington está urdindo poderia – palavra chave aí é “poderia” – levar Moscou a decidir ampliar seu arsenal nuclear.
Ulyanov logo na palavra seguinte já disse que Moscou não fará nada disso. Mas não adiantou. A parte que não interessa à OTAN sempre, inevitavelmente, se perde na tradução.
Permanece também o fato de que, enquanto EUA/Pentágono/OTAN falam – ou correm de um lado para outro em perfeita alucinação – Moscou vai silenciosamente se preparando para proteger o território russo contra qualquer coisa que os militares dos EUA possam disparar para lá, inclusive um Prompt Global Strike (PGS).
Rússia pode aumentar seu arsenal nuclear
E manobre a OTAN quanto quiser, a Rússia sempre reage à altura, muitas vezes com exercícios militares de surpresa. Se a OTAN lança seu maior jogo de guerra da história bem ali junto às fronteiras russas – pura provocação – Moscou reage com jogos de guerra no Mediterrâneo, em ação coordenada com o Exército Popular de Libertação, o chinês. Mais uma instância da parceria estratégica, faça chuva, faça sol, entre Rússia e China.
Verão nuclear, alguém se interessa?
Inevitavelmente, a incansável incitação à guerra, ação do Pentágono, tinha de se estender também à China. E o jornal Global Times – ecoando certamente a visão predominante dentro do Exército de Libertação Popular – respondeu na hora, alertando que “a guerra é inevitável”, se Washington insistir em “exigir” que Pequim pare de construir ilhas artificiais no Mar do Sul da China.
Na sequência, mais um moinho lança ao vento incontáveis provocações de guerra, empurrado adiante pelos suspeitos de sempre do turbocapitalismo da tribo de George Soros, que sopram as chamas histéricas de “a-guerra-está-chegando” e chegam a perguntar quantas nações do fragmentado “Ocidente” Washington conseguirá arregimentar para a guerra não só contra a Rússia, mas também contra a China.
Marinha chinesa em exercício no Mar do Sul da China
E isso, quando os generais norte-americanos da OTAN não conseguem convencer as nações membros a gastar, com a Defesa, nem 2% dos respectivos PIBs.
Seguindo a mesma deixa, há também um tuíto de John Schindler, ex-Agência de Segurança Nacional e ex-professor da Academia de Guerra Naval dos EUA, devidamente ampliado pela máquina de gerar boatos. Schindler insiste que um alto agente da OTAN (não norte-americano), disse a ele que:
No próximo verão estaremos provavelmente em guerra. Se tivermos sorte, não será nuclear.
Quer dizer que os Drs. Fantásticos lá em Bruxelas, em vez de sol & festa na Costa Brava, estão-se “preparando” para um Bravo Verão Nuclear.
Longe vão os dias quando qualquer infração direta ao dictum excepcionalista – “se não gostamos de você, bombardeamos você” – era assunto resolvido. Hoje, só lhes resta um pequeno Mare Nostrum onde promoverem o medo, para os generais da OTAN cevadores de ódios, como os Breed-raiva.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: SputinikTom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009. 
− Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

OTAN trabalha a favor de mais guerras


A crescente onda de propaganda anti-Rússia


3-5/4/2015, [*] Brian CloughleyCounterpunch
The Rising Swell of Anti-Russian Propaganda
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Voutenay sur Cure, França


Nova sede do Banco Central Europeu em Frankfurt
(em construção)
A cidade de Frankfurt, na Alemanha, é o maior centro financeiro da Europa e abriga a Bolsa de Valores do país, incontáveis outras instituições financeiras e a sede do Banco Central Europeu (BCE), responsável pela administração da política monetária das 18 nações da Eurozona. O lugar ferve de tanto dinheiro, como se vê pelo riquíssimo novo prédio-sede do BCE, que está custando uma fortuna.

O preço original do enorme palácio do BCE esteve estimado em 500 milhões de euros, cerca de 550 milhões de dólares, mas a conta, já se sabe, chega a 1,3 bilhões de euros (£930 milhões; US$ 1,4 bilhões). Esse fiasco escandalosamente caro foi coordenado pelas mesmas pessoas às quais cabe comandar os rumos financeiros de 18 nações e seus 500 milhões de desgraçados cidadãos. Se os talentos do BCE para administrar as próprias contas são os mesmos com que administra o dinheiro da Europa, se controla gastos pelo mundo, como controla a construção das suas duas novas torres monstro, então a Europa entrou em trilha de desastre certo.

Muito estranhamente, o BCE não é o único que está pagando pelo boom de construções burocráticas na Europa. Há outra organização que tem sede na Europa e ambição só comparável à própria incompetência, que também está construindo prédio-sede majestosamente luxuoso e caro, com custos escandalosamente altos, sobre os quais reina o mais impenetrável silêncio “jornalístico”.

Quem comanda mais essa farsa vergonhosa é a OTAN, Organização de EUA-Canadá-Europa do Tratado do Atlântico Norte, que está caindo fora do Afeganistão ainda lambendo as próprias feridas, depois de ter tentado derrotar um bando de milicianos calçados com sandálias e vestidos em farrapos, que deram muito trabalho às super tecnológicas forças do “ocidente”, numa guerra cujo resultado se podia prever facilmente. Mas o fracasso no Afeganistão não serviu para dar melhor foco aos zelosos líderes da OTAN, que agora se puseram a provocar a Rússia, na tentativa de encontrar alguma justificativa para a existência daquele seu dinossauro em cacos, sangrando por mil feridas e derrotado.

O problema da OTAN não é só perder as guerras em que se intromete, mas que, depois de cada guerra em que é derrotada, a OTAN imediatamente se põe a procurar novas guerras nas quais se intrometer — a ser comandadas do alto do novo prédio-mamute coberto de lantejoulas e desavergonhadamente caro, com custos que já ultrapassaram todas as provisões.

Guerra como todas as guerras da OTAN

A operação “Protetor Unificado” da OTAN para derrubar o líder líbio Muammar Gaddafi envolveu massiva blitz aérea, de 9.658 ataques aéreos que culminaram com o assassinato de Gaddafi — e causaram o colapso da Líbia, entregue a bandos de fanáticos tresloucados do bárbaro Estado Islâmico que, hoje, já se constituíram e estabeleceram-se.

Líbia antes e depois da “intervenção humanitária”
dos EUA - União Europeia e OTAN
(clique na imagem para aumentar)
Apesar do horror da catástrofe que a OTAN gerou na Líbia, é impossível não rir do trabalho de Ivo H. Daalder e James G Stavridis, que, em 2012, publicaram análise “aprofundada” na revista Foreign Affairs sob o título de A vitória da OTAN na Líbia. Os dois “sábios” escreveram que:

(...) a operação da OTAN na Líbia foi saudada, com justiça, como uma intervenção modelo.

O envolvimento da OTAN na Líbia demonstrou que a aliança ainda é fonte essencial de estabilidade.

(...) A OTAN talvez ainda demore uma década, para replicar sucesso equivalente ao que obteve na Líbia. Os membros da OTAN devem portanto usar a reunião de cúpula de Chicago para fortalecer a aliança e assegurar que a partilha dos sacrifícios que tão bem funcionou na Líbia – e continua a funcionar bem no Afeganistão hoje – passe a ser a regra, não a exceção.

Fato é que absolutamente nada funciona bem, nem na Líbia, nem no Afeganistão hoje, dois anos depois da aplicada defesa feita por Daalder-Stavridis da tal “a partilha dos sacrifícios”, e é óbvio que a OTAN foi e ainda é o oposto de “fonte de estabilidade” nesses dois desgraçados países.

Em outubro de 2005 escrevi que:

(...) a OTAN vai aumentar o número de soldados no Afeganistão para 15 mil e seu secretário-geral diz que, em vez de atuar como força de manutenção da paz, os soldados da aliança assumirão as funções de combate que competiam aos soldados dos EUA, o que é perfeita loucura.

(...) a insurgência no Afeganistão continuará até que todas as tropas estrangeiras saiam do país, não importa a nacionalidade delas. Depois de algum tempo, o governo de Cabul entrará em colapso e haverá anarquia, até que algum senhor-da-guerra, brutal, sem lei, milionário do ópio e da heroína, chegue ao poder. Ele governará o país como sempre foi governado pelos afegãos: com ameaças, ferocidade religiosa, chantagem, corrupção e selvageria total, em todos os campos onde seja possível governar assim sem revide. E a mais recente ocupação estrangeira será também lembrança e nada mais.

O número de soldados de EUA-OTAN no Afeganistão foi reduzido, de um pico de 130 mil, para cerca de 13 mil, dos quais 10 mil são norte-americanos, mas o novo QG da OTAN em construção em Bruxelas só cresce em tamanho e custos. O orçamento aprovado para o complexo-gigante era de 460 milhões de euros (US$ 500 milhões) em 2010; hoje já ultrapassa € 1,25 bilhões, cerca de US$ 1,4 bilhões de dólares.

Quartel-General da OTAN em Bruxelas
(em construção)
A revista alemã Der Spiegel noticiou em janeiro que o escândalo dos custos gigantes estava sendo mantido em segredo por todos os governos que contribuem para manter a OTAN. Um telegrama vazado do embaixador alemão explicava que, numa reunião de representantes da OTAN em dezembro passado,

(...) falou-se do efeito desastroso para a imagem da aliança, se a construção tivesse de ser suspensa e a OTAN aparecesse como incapaz de levar a cabo, no prazo previsto, um projeto de construção decidido e aprovado em reunião dos presidentes dos países que constituem a OTAN desde abril de 1999, em Washington. O risco de novos aumentos nos custos já é palpável.

A solução para o problema de imagem que a própria OTAN criou para ela mesma era simples: todo o pessoal responsável por administrar os negócios de uma aliança militar que envolve 28 países, 3,5 milhões de combatentes armados e 5 mil armas nucleares resolveu que, atendendo a pedidos do Secretário-Geral, todos tratariam “confidencialmente” do escândalo. Em outras palavras, os gastos que ultrapassam qualquer previsão no cronograma de construção estão sendo deliberadamente ocultados da opinião pública, na esperança de que os executivos da OTAN não sejam expostos como incompetentes. 

Enquanto isso, ao mesmo tempo em que tentam esconder as próprias falhas, erros e fracassos no gerenciamento de negócios simples de gerência básica, os chefes da OTAN põem-se a pular na frente da Rússia, tentando persuadir o mundo que o presidente Putin estaria montando uma invasão vinda do leste. O ponto focal dos temores-pânicos que a OTAN manifesta é o mesmo do regime corrupto e caótico no poder na Ucrânia, que tem sérias discordâncias com a Rússia, motivo pelo qual é furiosamente apoiado pelos EUA, a ponto de os EUA deixarem-se envolver em todos os tipos de distorções, ameaças e mentiras.

Como se leu no britânico Daily Telegraph dia 4/3/2015, o comandante das tropas dos EUA na Europa, general Frederick “Ben” Hodges, acusou a Rússia de ter infiltrado 12 mil soldados em território do leste da Ucrânia – o que é mentira e nonsense irresponsável.



Hodges trabalhou como oficial de ligação entre o exército e o Congresso em Washington, quando, obviamente adquiriu o gosto da ostentação política. Foi o que se viu num discurso político, do tipo que generais não têm autorização para fazer, em que Hodges disse que:

Temos de aumentar o custo para Putin. No momento, ele tem 85% de apoio doméstico. Mas quando as mães começarem a receber os cadáveres dos filhos, quando o custo aumentar, o apoio doméstico desabará – fala que é tão ofensiva quanto é hostil.

Em fevereiro, o Wall Street Journal noticiou novas palavras de Hodges:

Acredito que os russos estão-se mobilizando nesse exato momento, para uma guerra que eles supõem que acontecerá dentro de cinco, seis anos, mas acho que já perceberam que as coisas acontecerão, e que haverá algum tipo de guerra, em alguma escala, contra alguém, dentro dos próximos cinco, seis anos.

Não se pode saber que interpretação o Presidente Putin dará a isso, mas não há dúvidas de que os modos belicosos de Hodges não ajudam a persuadir Moscou de que a coalizão EUA-OTAN dará um passo, que seja, para modificar sua política de incansável beligerância.

Outros líderes da OTAN falaram também em termos igualmente ameaçadores, para convencer o público da Europa Ocidental de que a Rússia teria atacado a Ucrânia.

Mas, afinal, ainda que a Rússia tivesse invadido a Ucrânia, nem EUA nem OTAN teriam qualquer coisa a ver com a questão.

A coalizão EUA-OTAN espertamente ignora (e ensina a ignorar) o fato de que a Ucrânia não é estado membro, nem da União Europeia, nem da OTAN e que, portanto, não há tratado de tipo algum com qualquer nação do planeta que exija que EUA ou OTAN garantam apoio político, econômico ou militar, no caso de disputa bilateral com qualquer outro país. Pois apesar disso, a OTAN “encampou” o conflito entre Ucrânia e Rússia para “justificar” sua política de incansáveis hostilidade e provocação contra Moscou.

A OTAN deveria ter sido extinta imediatamente depois do colapso da União Soviética, porque a ameaça soviética era a única razão para sua existência; mas decidiu ampliar o número de membros e a presença militar cada vez mais próxima das fronteira da Rússia. Não surpreende que a Rússia preocupe-se muito com as intenções da OTAN, sempre que a coalizão flexiona os músculos à procura de novos conflitos existentes ou inventados.

Philip Breedlove (Strangelove?)
O Comandante da OTAN, general norte-americano Breedlove, também tem contribuído ativamente para aumentar as tensões e os temores na Europa, sempre a disparar ‘alertas’ contra supostas manobras russas. Dia 5/3/2015 entregou-se, de vez, ao delírio, e, sem nem um fiapo de prova, anunciou que a Rússia deslocara

(...) bem mais de mil veículos de combatealém de forças de combate, alguns de seus batalhões de artilharia de mais sofisticada defesa aérea para dentro da Ucrânia.

Esse pronunciamento foi semelhante a outro, de deslavada mentira, quando, dia 18/11/2014, o mesmo general declarou ao jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung que havia “unidades regulares do exército russo no leste da Ucrânia”.

A onda de propaganda anti-Rússia gerada pela OTAN, de confrontação e tentativas de intimidar, só aumentou e se a OTAN persistir nesse curso, é muito provável que Moscou decida agir, o que só fará aumentar muito todos os riscos e perigos já existentes. É mais que hora de as nações que constituem a OTAN aceitem a realidade de que a Rússia é das principais potências internacionais, com interesses legítimos na sua própria região. É claro que Moscou não se ajoelhará, assustada com ameaças tolas, imaturas, do mais patético agitar-os-sabres de generais norte-americanos e seus aliados vacilantes.

É mais que hora de a OTAN começar a construir laços, em vez de destruir qualquer laço existente — e a construir pontes políticas, em vez de construir escritórios coruscantes e escandalosamente caros.
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[*] Brian Cloughley estuda e escreve sobre os países do sul da Ásia há mais de 30 anos. Atualmente é o Analista de Defesa mais credenciado para a região escrevendo para o IHS/Jane’s Sentinel, Country Risk, Couterpunch, Reuters e muitas outras publicações e Agências de Notícias, cobrindo o Afeganistão, Bangladesh, Butão, Índia, Nepal, Paquistão e Sri Lanka com relatórios mensais. Outras das suas tarefas são a análise e atualização sobre armas nucleares, biológicas, químicas e radiológicas desenvolvidas na região para  Grupo Informativo IHS do Jane’s Sentinel. Ele e sua esposa, Margaret, residem na França, na pequena aldeia de Voutenay sur Cure, na Borgonha.

quinta-feira, 19 de março de 2015

O Exército Comum Europeu reduzirá a influência dos EUA na Europa? É o fim da OTAN?

18/3/2015, [*] Mahdi Darius Nazemroaya – Global Research
Tradução mberublue.


Proteção frente à Rússia seria a justificativa para a criação da Força Militar da União Europeia, mas também estaria no cenário a redução da influência dos Estados Unidos, agora que houve desencontros entre a União Europeia e Alemanha frente a OTAN e EUA, em relação à Ucrânia.

O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, em declarações ao jornal alemão Welt am Sonntagafirmou ter chegado o tempo da criação de uma força militar unificada da União Europeia. A retórica de Juncker versou sobre “a defesa dos valores da União Europeia”, insinuando que a criação de uma força armada europeia teria sido pensada como consequência de polêmicas com a Rússia, como maneira de enviar uma mensagem à Moscou.

Apesar da vontade, argumentação e polêmica da criação de uma tal força estar baseada na Rússia, a ideia real está dirigida diretamente contra os Estados Unidos. Nas entrelinhas estão as tensões que se desenvolveram entre os Estados Unidos, de um lado, e a União Europeia e a Alemanha, de outro. É por isso que a Alemanha reagiu de maneira entusiástica à proposta, dando total apoio para a confecção de um acordo que permita a criação de uma força armada  da União Europeia.

Anteriormente a Força Militar da União Europeia já havia sido pensada de forma mais séria durante os desenvolvimentos da invasão ilegal contra o Iraque em 2003, quando a Alemanha, França, Bélgica e Luxemburgo reuniram-se para discutir a possibilidade da criação de tal força como alternativa à OTAN, dominada pelos Estados Unidos. A ideia é recorrente quando situações similares acontecem. Em 2003, o atrito foi causado pela invasão liderada pelos EUA contra o Iraque. Em 2015, a vontade da criação da força armada da UE ocorre porque aumenta a polêmica entre Alemanha e Estados Unidos, relacionada à crise ucraniana.

Berlim e Paris estão repensando?

Para se compreender as recentes e intensas demandas pela constituição de um exército europeu temos que observar os acontecimentos ocorridos entre novembro de 2014 e março de 2015. Começaram quando Alemanha e França começaram a dar sinais de que estavam pensando melhor sobre as intenções belicistas que OTAN e EUA estavam evidentemente desenvolvendo e levando a efeito na Ucrânia e Europa Oriental.

As divergências entre Estados Unidos e França/Alemanha surgiram depois que Tony Blinken, antigo Vice Conselheiro para a Segurança Nacional de Barack Obama e atualmente Vice Secretário de Estado, o número dois da diplomacia do Departamento de Estado dos EUA anunciou que o Pentágono ia enviar armas para a Ucrânia durante uma inquirição do Congresso dos Estados Unidos sobre sua nomeação, que se realizou em 19 de novembro de 2014. Como colocou o Fiscal Times,

(...) ao revelar que está pensando em armar a Ucrânia, Washington golpeia ao mesmo tempo a Rússia e os europeus.

A resposta russa a Blinken veio através do Ministro de Relações Exteriores da Rússia, por meio de declaração de que se o Pentágono derramasse armas na Ucrânia, seria não apenas uma escalada perigosa do conflito, mas um sério sinal enviado pelos Estados Unidos de que a dinâmica do conflito ucraniano estaria mudando.

Tanque Abrams dos EUA destinado a junta de Kiev desembarca em Riga, na Letônia, em 9/3/2015
Percebendo que as coisas poderiam e na realidade já estavam saindo do controle, França e Alemanha reagiram através de uma iniciativa para a paz por meio de conversações diplomáticas levadas a efeito em Minsk, Belarus, que eventualmente conduziram a um novo acordo de cessar fogo, sob a coordenação do “Formato da Normandia”, que consistiu dos representantes da França, Alemanha, Rússia e Ucrânia.

Os pessimistas podem argumentar que França e Alemanha só optaram pelas vias diplomáticas em fevereiro de 2015 porque os rebeldes do leste ucraniano, ou Novorussia como eles se denominam, derrotaram as forças de Kiev. Em outras palavras, a motivação primária pela diplomacia teria ocorrido apenas para salvar o governo de Kiev de ruir completamente mesmo antes de encontrar uma solução justa para o conflito no leste da Ucrânia. Em certa medida isso é bem verdade, mas a dupla Franco/Germânica também teve a motivação de não ver a Europa transformada em um inferno que transformaria a tudo e todos em cinzas escaldantes.

Tornaram-se visíveis as diferenças transatlânticas durante a Conferência de Segurança de Munique, em fevereiro. Roberto Corker, Senador dos Estados Unidos e Presidente do Comitê do Senados dos Estados Unidos para Relações Exteriores comentou durante uma sessão de pergunta e resposta com a Chanceler alemã Angela Merkel que hoje se acredita no Congresso dos EUA que Berlin se empenhava em impedir que Washington publicamente aumentasse a ajuda militar dos Estados Unidos e da OTAN para as autoridades em Kiev.

Na resposta ao Senador Corker, a chanceler Merkel foi muito explícita ao afirmar que a crise aguda pela qual passa atualmente a Ucrânia não poderia ser resolvida por meios militares e que a abordagem dos Estados Unidos não seria proficiente e ainda teria o condão de tornar as coisas muito piores do que já estão. Quando Merkel foi pressionada pelo membro do Parlamento Britânico, Malcom Rifkind, Presidente do Comitê de Inteligência e Segurança do Parlamento Britânico, ela afirmou que mandar mais armas a Kiev era irreal, além de inútil. Merkel exortou o britânico a “encarar a realidade”. Salientou ainda a chanceler que não há perspectiva de segurança para a Europa sem a Rússia.

Exército dos EUA em manobra nos países bálticos
Os esforços dos Estados Unidos, que queriam levar seus aliados europeus para a crescente militarização do conflito na Ucrânia foram contrariados pela posição assumida publicamente pela Alemanha. Enquanto o Secretário de Estado americano, John Kerry, teve que se abalar na tentativa de convencer a mídia e o público de que não havia qualquer ruptura ou estremecimento entre Washington e as posições da França e Alemanha, o rompimento foi largamente anunciado quando o Senador norte americano John McCain, notório fomentador de guerras perdeu mais uma vez as estribeiras enquanto visitava a Bavária. Conforme relatado ele chamou a iniciativa de paz da França e Alemanha, de palhaçadas de Moscou. Passou então à crítica aberta contra Angela Merkel em uma entrevista para o canal alemão Zweites Deutsches Fernsehen – ZDF, o que levou o membro do parlamento alemão, Peter Tauber, Secretário Geral da União Democrática Cristã (CDU) a exigir um pedido de desculpas do Senador McCain.


O ressentimento alemão com o controle da OTAN pelos EUA

Bloomberg escreveu em fevereiro:

Mesmo levando em conta a retórica alarmista sobre os bárbaros russos no portão, os países da OTAN estão relutantes em gastar dinheiro com base apenas em falatório. Aumento real de gastos militares neste ano, apenas nos países que fazem fronteira com a Rússia. Quanto aos demais, na maioria houve cortes. Independentemente do que dizem seus líderes sobre Vladimir Putin, eles não parecem acreditar que ele seja uma ameaça real para o ocidente.

No entanto, Washington não desiste. Quando da ofensiva da França e da Alemanha pela paz teve início em fevereiro, o general Philip Breedlove – que é o Supremo Comandante Militar da OTAN – disse em Munique que:

(...) penso que não devemos deixar de lado a possibilidade da opção militar na Ucrânia.

Ora, o general Breedlove é um oficial da Força Aérea dos Estados Unidos, de cujo governo recebe ordens, o que faz com que a estrutura militar da OTAN esteja sob o comando dos Estados Unidos. Enquanto Paris e Berlim tentam desescalar o conflito, Washington sobe a aposta na guerra, usando Breedlove e o Secretário Geral da OTAN, Jens Stoltenberg.

Depois de falar com o Comitê das Forças Armadas do Congresso, o general Breedlove voltou a alegar que cresce a agressão russa na Ucrânia. A Alemanha, no entanto, refutou Breedlove classificando suas afirmações como uma propaganda perigosa.

Philip Breedlove
O jornal Der Spiegel noticiou em 6/3/2015:

Os líderes alemães ficaram estupefatos. Não conseguiam entender sobre o que diabos falava Breedlove. E não era a primeira vez. Mais uma vez, o governo da Alemanha, apoiado pelas informações reunidas pelo Bundesnachrichtendienst (BND), a agência de inteligência externa da Alemanha não compartilhou a visão do Supremo Comando Aliado na Europa (SACEUR), da OTAN.

Enquanto Berlim tentava abafar os relatos sobre as rachaduras nas relações com a OTAN sobre os comentários desastrados de Breedlove, o Ministro de Relações Exteriores da Alemanha, Steinmeier, candidamente admitiu que era real o desacordo entre a Alemanha, Estados Unidos e OTAN, durante visita à Letônia em 7/3/2015. Na verdade, o que Steinmeier fez foi rebater e desmentir tanto as declarações dos Estados Unidos, quanto as da OTAN sobre a agressão russa na Ucrânia.

Na Letônia, a Alta Representante da União Europeia para Política Externa e Segurança, Federica Mogherini, deu anuência às declarações de Steinmeier. Em Riga, declarou aos repórteres que a União Europeia buscará uma abordagem realística com Moscou e que não forçará nem será forçada por ninguém na direção de uma relação de confrontação com a Rússia. Trata-se de uma mensagem tácita para Washington: A União Europeia já entendeu que não há paz possível na Europa sem a Rússia e não será posicionada como mero peão dos Estados Unidos contra Moscou.

A própria Alemanha é a cereja do bolo, o prêmio principal para os Estados Unidos no que tange ao conflito na Ucrânia, pela sua grande influência nos rumos da União Europeia. Assim, os Estados unidos continuarão a jogar lenha na fogueira na Ucrânia para desestabilizar a Europa e a Eurásia. Faz isso porque pode perfeitamente prever que Rússia de Europa caminhando juntos e formando um Mercado Comum de Lisboa a Vladivostok é o pesadelo presente nos sonhos das aspirações geopolíticas de Washington.

O Fiscal Times apresenta realisticamente a série de comunicados de altos oficiais americanos sobre o envio de armas dos Estados Unidos para a Ucrânia:

Dada a coreografia ensaiada repetidamente os analistas em Washington dizem que a probabilidade mais alta é a de que tudo não passa de um exercício de relações públicos para assegurar apoio para um programa de entrega de armas que já estaria além dos estágios iniciais de planejamento, conforme notícia veiculada em 9/2/2015.


Viktor Orban e Vladimir Putin
Na realidade, depois da Conferência de Segurança de Munique, revelou-se que carregamentos clandestinos de armas já estavam sendo feitos para Kiev. O Presidente russo, Vladimir Putin, tornou o fato de conhecimento público durante uma conferência de imprensa conjunta com o Primeiro Ministro Húngaro, Viktor Orban, em Budapeste quando disse que:

(...) armas já estão sendo entregues secretamente para as autoridades em Kiev.

No mesmo mês, um artigo intitulado O que devem fazer os Estados Unidos e a OTAN para preservar a Independência da Ucrânia e resistir à agressão russa, foi publicado discutindo a necessidade de enviar armas para a Ucrânia – suprimentos estes que variariam desde peças sobressalentes até mísseis de grosso calibre – como uma forma de finalmente lutar contra a Rússia. O artigo foi elaborado por um triunvirato dos principaisthink-thanks dos Estados Unidos, O Brookings Institute, o Atlantic Council e o Chicago Council on Global Affairs – os dois últimos fazem parte da torre de marfim do “think-tankistan” que faz parte dos círculos de Washington. Trata-se da mesma gangue que advogou pela invasão do Iraque, da Líbia, da Síria e do Irã.

OTAN, presta atenção! Um exército europeu unificado no horizonte?

O apelo pela formação de uma força militar da União Europeia tanto pela Alemanha quanto pela Comissão Europeia vem no contexto das divisões entre Europa e Washington. 

A união Europeia e a Alemanha já entenderam plenamente que não há muito o que fazer para impedir as ações de Washington enquanto os EUA tiverem algo a dizer em relação à segurança europeia. Tanto Berlim quanto uma larga porção da Europa estão furiosos pela maneira pela qual os Estados Unidos estão usando a OTAN para cuidar de seus interesses e influenciar os acontecimentos dentro da Europa. Se não uma maneira de pressionar nas negociações entre a UE com Washington, os apelos pela formação de uma força militar europeia destinam-se a reduzir a influência de Washington na Europa e talvez, extinguir a OTAN.




Um exército que tornasse possível dispensar a OTAN teria um enorme peso estratégico negativo para os Estados Unidos. Neste contexto, Washington perderia seu apoio ocidental na Eurásia. O que automaticamente representaria o fim do jogo na participação americana no tabuleiro do xadrez geopolítico da Eurásia, nas palavras do antigo Conselheiro para a Segurança Nacional dos Estados Unidos, Zbigniev Brzezinski.

Os serviços de inteligência nos Estados Unidos já estão em alerta em relação aos riscos que um exército europeu representaria para a influência norte americana. A influente revista mensal Comissão de Judeus Americanos – que é filiada aos noecons do circulo de Washington pergunta no título de artigo elaborado por Seth Mandel: Por que a Alemanha está enfraquecendo a OTAN?. Enquanto isso, o Washington Examiner repica com outra pergunta impertinente, no título do artigo de Hoskingson: O que está acontecendo com a influência dos Estados Unidos?.

É por isso que os fantoches mais abjetos dos Estados Unidos na Europa – especificamente Inglaterra, Polônia e os três Estados Bálticos – fazem um alarido oposicionista à ideia de uma força militar comum. Enquanto Paris está ainda relutante de juntar-se aos apelos pelo exército da Europa, a sempre oportunista líder política de direita Marine Le Pen já afirmou ter chegado o tempo em que a França deve sair da sombra dos Estados Unidos.

O Primeiro Ministro inglês, David Cameron, retrucou a Jean-Claude Juncker afirmando que a ideia não passa de uma fantasia escandalosa, declarando que a segurança é atribuição nacional de cada país e não responsabilidade da União Europeia. Polônia e Letônia também reagiram ceticamente à proposta. Essas declarações só servem aos interesses dos Estados Unidos na preservação da OTAN como um instrumento de sua influência na Europa e na Eurásia.

10 Downing Street
10 Downing Street (endereço da residência oficial e gabinete do Primeiro Ministro da Inglaterra – NT) se contradiz quanto a ser o exército um assunto nacional e não assunto coletivo. Recentemente, em 2010, Londres assinou um tratado que na essência criou uma força militar naval conjunta com a França, compartilhando porta-aviões, o que se tornou, na prática, uma força militar conjunta. Além disso o exército Britânico e os setores industriais militares da Inglaterra se encontram integrados com os dos Estados Unidos em vários graus.

Aqui há várias questões a serem examinadas. Serão os apelos para a formação de um exército europeu apenas uma forma de pressionar os Estados Unidos ou uma tentativa real para conter a influência de Washington na Europa? Mais: terão os movimentos efetuados por Berlim e seus parceiros nessa direção o objetivo de extinguir a influência de Washington na Europa através da desativação da OTAN pela criação de um exército comum europeu?

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[*] Mahdi Darius Nazemroaya é cientista social, escritor premiado, colunista e pesquisador. Suas obras são reconhecidas internacionalmente em uma ampla série de publicações e foram traduzidas para mais de vinte idiomas, incluindo alemão, árabe, italiano, russo, turco, espanhol, português, chinês, coreano, polonês, armênio, persa, holandês e romeno. Seu trabalho em ciências geopolíticas e estudos estratégicos tem sido usado por várias instituições acadêmicas e de defesa de teses em universidades e escolas preparatórias de oficiais militares. É convidado freqüente em redes internacionais de notícias como analista de geopolítica e especialista em Oriente Médio.   
Recentemente, em viagem pela América Central, contactou a Frente Sandinista de Libertação Nacional, em sua base em León, na Nicarágua. Como Observador Internacional esteve em El Salvador no primeiro turno das eleições.