Mostrando postagens com marcador BCE - Banco Central Europeu. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador BCE - Banco Central Europeu. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Contagem regressiva para a Grécia deixar a Eurozona (Grexit)

7/7/2015, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


O referendum grego parecia ter dado um impulso em direção a algum acordo. Mas as potências que governam o Euro não concordaram. O Banco Central Europeu continua a não enviar fundos para os bancos gregos. Em alguns dias, estarão definitivamente quebrados e a saída da Grécia, da Eurozona, será inevitável. Isso parece ser o que querem os linha-dura em Berlim, que se reúnem em torno do psicopata-Ministro Schaeuble das Finanças.
O Primeiro-Ministro grego, Alexis Tsipras, deu jeito de obter apoio popular e de outros partidos políticos, para fazer uma proposta com concessões. Mas as promessas que Tsipras fez antes do referendum já caíram aos pedaços. Os bancos não reabriram, não há acordo à vista com os credores e, dada a rápida deterioração da economia real, a situação em breve já será imensamente mais difícil.
Tsipras terá de responder algumas perguntas:


  • Por que não pode apresentar uma proposta escrita em Bruxelas, hoje, como prometeu fazer?
  • Por que não previu que o Banco Central Europeu e as potências ocidentais por trás dele assaltariam os bancos gregos?
  • Por que seu governo não tinha qualquer plano pronto para sair do Euro?
  • Por que não havia nenhum cenário planejado que previsse a atual situação?
A imprensa-empresa e os políticos alemães demonizaram de tal modo os gregos, com a mais crua propaganda para induzir a negação cabal da realidade, que agora parece que a maioria da opinião pública alemã já está a favor da Grexit. E o mesmo está acontecendo em grande medida com a opinião pública de outros países do norte e do leste da Europa.



Ninguém quer “dar mais dinheiro aos gregos” – embora até o momento ninguém tenha dado dinheiro algum aos cidadãos gregos. Tudo que foi dado, em garantias dos contribuintes, foi dado exclusivamente a bancos privados alemães e franceses.


As consequências de a Grécia deixar a Eurozona parecem estar fora do universo das questões discutíveis.
Apoiar agora algum alívio parcial da dívida, que nem seria sentido, distribuído ao longo de décadas, e daria à economia grega capacidade para sair da dívida, seria muito mais barato para os contribuintes europeus, que o não pagamento total de tudo que a Grécia deve, o que disparará o pagamento de centenas de bilhões de avais e garantias.
Se sair do Euro, o não pagamento de coisa alguma passa a ser, para a Grécia, o mais provável. Em situação de saída do Euro, a Grécia já não terá dívida alguma a pagar. E poderia voltar a tomar empréstimos, talvez da Rússia e de outras fontes, que ficariam felizes por poder ganhar algum dinheiro de empréstimos feitos a país praticamente livre de qualquer dívida.
Além dos resultados catastróficos de um programa de cinco anos de ARROCHO [não é austeridade; é ARROCHO], a carnificina será enorme, na Grécia, se agora vier a bancarrota e a saída do Euro sem qualquer planejamento. Mas o exemplo de outros casos de estados que foram à bancarrota mostra que a recuperação é quase sempre muito rápida; e que as possibilidades de longo prazo são muito mais favoráveis que a morte lenta que advém, fatalmente, de qualquer programa de ARROCHO [não é austeridade; é ARROCHO] continuado.

[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ver/ouvir versão em performance de David Johansen com legendas em português.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Grécia: O Nó Aperta


Só restam três opções para o governo do partido Syriza


24/4/2015, [*] Stathis Kouvelakis, Jacobin Magazine
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


O destino da Grécia?
Os eventos na Grécia tomaram rumo dramático, e a insolvência nos bate à porta. Dia 20/4/2015, o governo grego promulgou decreto que obriga as autoridades locais a depositar suas reservas em dinheiro no Banco da Grécia.

Dois dias depois, Dimitris Mardas, Vice-Ministro das Finanças encarregado das rendas do estado, declarou que faltavam €400 milhões, para pagar pensões e salários ao final do mês. Poucas horas depois, disse que encontrara o dinheiro e que passava a tentar constituir reservas em dinheiro. Mas segundo fontes, Mardas informou a membros do Syriza no Parlamento em reunião naquele mesmo dia, que as reservas não são suficientes para todos os pagamentos do mês de maio.

E isso, mesmo maio sendo, em termos de pagamentos da dívida, mês relativamente “fácil”, com só €750 milhões a pagar ao Fundo Monetário Internacional (FMI), mais outros €400 milhões de juros.

Junho será mais difícil, com €1,5 bilhão a pagar ao FMI, €700 milhões às instituições europeias e €500 milhões de juros. A carga é sem dúvida insuportável.

Intensifica-se a chantagem

O Banco Central Europeu (BCE) subiu ligeiramente a rubrica de Assistência de Emergência à Liquidez [orig. emergency liquidity assistance (ELA)], mas discutiu a possibilidade de manter o financiamento de bancos gregos além dela. Em entrevista em Washington dia 18/4/2015, Vitas Vasiliauskas, do conselho diretor do Banco Central Europeu, disse que:

A situação na Grécia significa que temos de ter um limite até o verão para a ELA. Não há quem não saiba o que é a ELA: uma medida temporária para dar liquidez aos bancos.

Mas amostra mais representativa da visão das duas principais instituições europeias que, juntas, são credoras de cerca de 2/3 da dívida grega, o Banco Central Europeu e o Mecanismo Europeu de Estabilidade [orig. European Stability Mechanism (ESM)], encontra-se nas entrevistas dadas dia 22/4/2015, por Klaus Regling, Diretor-Gerente do ESM, e por Benoît Coeuré, membro do Conselho Executivo do Banco Central Europeu.

Os dois manifestam linha especialmente dura sobre a Grécia, rejeitando duas demandas chaves do governo grego na atual fase das negociações: não desembolso do €1,9 bilhões a que a Grécia faz jus depois de “completada a revisão”, que significa que se alinham a favor do tipo das “reformas” contra as quais está o lado grego (essa soma corresponde aos juros gerados pelos papéis gregos e devem ser devolvidos à Grécia, nos termos do Securities Markets Programme (SMP) do Banco Central Europeu, desde fevereiro). E nada de “abordagem gradual” às reformas, como propôs o Ministro grego das Finanças, Yanis Varoufakis, para permitir que a Grécia alcançasse liquidez antes de junho e para facilitar um acordo.

Yanis Varoufakis
Em vez disso, requereram “lista compreensiva de reformas”, que deve incluir mais desregulação do mercado de trabalho e cortes nas pensões, duas “linhas vermelhas” que os gregos não cogitam ultrapassar.

Regling foi ainda mais longe que Coeuré: comentando sobre a possibilidade de a Grécia sair da Eurozona (“Grexit”), ele disse calmamente que:

(...) não é o cenário básico. Mas se tiver de acontecer e trabalhamos muito, muito duro para não chegarmos a isso, nesse caso acho que haverá muita incerteza, porque não temos nenhum tipo de experiência semelhante.

Acrescentou que:

(...) claro que seria mais administrável que há cinco ou seis anos, porque temos novas instituições, o European Financial Stability Facility (EFSF), o ESM, outros países na área do euro fizeram tremendos progressos nos ajustes, como Irlanda, Portugal, Espanha.

Regling também se opôs declaradamente aos atuais planos do governo grego para reduzir alguns impostos e aumentar o salário mínimo e as aposentadorias e pensões; disse que isso seria “andar para trás” e está pondo em risco as negociações. Sobretudo, deixou bem claro que o desacordo é muito profundo, uma vez que o governo grego pensa que a abordagem do governo anterior seria errada, quando, segundo ele;

(...) a estratégia está dando certo. Essa diferença ainda não foi resolvida.

E conclui ridicularizando a ideia de que os credores poderiam

(...) recuar porque não querem um evento ou um acidente de crédito.

Disse que:

(...) nossos procedimentos para conceder empréstimos são muito claros e muito bem estabelecidos. Estão associados à condicionalidade, estão claramente escritos no tratado do ESM. Precisamos de decisão unânime dos acionistas e da aprovação de seis parlamentos da União Europeia, e os parlamentos com certeza verificarão cuidadosamente se a condicionalidade — uma exigência chave – foi satisfeita.

Vale a pena recordar que a hipótese de que, apesar das declarações intimidativas, os europeus ao final do dia farão concessões e, citando Varoufakis, “admitirão seus erros” é a hipótese adotada até agora, pelo menos publicamente, pelo governo grego. Mas as ondas sonoras e televisivas que nos vêm dos credores apontam para algo radicalmente diferente: ou o partido Syriza aceita continuar a política dos memorandos, ou terá de encarar até o fim as consequências do enforcamento em curso.

Sem amigos

O isolamento do governo grego tornou-se ainda mais perceptível depois das recentes declarações do Secretário do Tesouro dos EUA, Jack Lew, e do Presidente Obama, exigindo que o governo grego abrace rapidamente a via das “reformas” e cumpra as exigências dos credores.

Barack Obama e Jacob "Jack" Lew
As relações com os EUA deterioraram-se ainda mais depois da decisão do governo grego de autorizar Savvas Xiros e outros membros do grupo de esquerda, 17 de Novembro, de luta armada, a cumprir fora da prisão o restante da pena a que foram condenados, nos termos da reforma da lei penal recentemente aprovada. Os EUA reagiram furiosamente ao que chamaram de “libertar terroristas”, apesar do estado de saúde extremamente grave de Xiros.

É absolutamente claro e visível que se aproxima, rapidamente, o “momento da verdade”.

Ao mesmo tempo, a possibilidade de alívio imediato que viria da Rússia, resultado da recente visita a Moscou do Primeiro-Ministro grego Alexis Tsipras, parece não se ter concretizado. O acordo para um gasoduto que se esperava que fosse assinado essa semana, com um adiantamento em dinheiro sobre renda futura prevista de €5 bilhões, foi adiado, depois do encontro entre Tsipras e o presidente da Gazprom, em Atenas, dia 21/4/2015.

Não será, provavelmente, coincidência que o recuo russo tenha acontecido no mesmo dia que a União Europeia abriu processo contra a Gazprom, sob acusações muito duvidosas de “abuso de mercado” e “quebra das regras de confiança da União Europeia”.

Opções à frente

Nesse estágio, as opções que restam para o governo do partido Syriza parecem já se limitar às seguintes, apenas três:

1.      O “cenário bom”, o que ainda é o preferido do governo grego, é que os europeus farão concessões, e será possível chegar a algum acordo bem rapidamente. Mas, como a Presidenta do FMI deixou claro, para obter os €7,2 bilhões que estão em disputa nesse acordo-ponte de quatro meses, a Grécia tem de conseguir “revisão” positiva e adaptar-se integralmente às “reformas” já aceitas pelo governo anterior. De qualquer modo, a possibilidade já foi declaradamente descartada pelo Presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, pelo Ministro alemão das Finanças Wolfgang Schäuble e outros, que repetidas vezes disseram, nesses últimos dias, que o único prazo a ser considerado agora é 30/6/2015, e que nenhum dinheiro será repassado à Grécia antes de um “grande acordo” – em outras palavras, de outro “pacote de resgate” sob as condições de sempre.
2.      O governo grego entrega os pontos. Esse, claro, é o objetivo buscado pelos europeus. Mas numa entrevista recente à Agência Reuters, Tsipras deixou claro que há “desacordos políticos, não técnicos” em quatro questões chaves: legislação do trabalho; reforma das aposentadorias; aumento de impostos sobre valores agregados [orig. a hike in value-added taxes] e privatizações – e Tsipras falou das privatizações como “desenvolvimento da propriedade do Estado”, não como liquidação de patrimônio do Estado. Qualquer concessão nessa última linha implica, para o Syriza, rendição e suicídio político.
3.      O governo grego não paga a dívida e se torna devedor inadimplente [ing. default e port. “calote” são termos dos credores (NTs)]. Numa recente entrevista ao Huffinton Post, Varoufakis disse que, se o governo tivesse de escolher entre pagar os credores e pagar salários e pensões, ele daria prioridade aos salários e pensões. Mas, evidentemente, essa escolha significa ruptura decisiva e saída da Eurozona (o cenário de haver dupla moeda dentro do euro só pode perdurar por umas poucas semanas no máximo).

A complicação aqui é que tornar-se inadimplente em maio significa não pagar o FMI, o que implica complicações enormes para o comércio (o FMI pode impor sanções que tornarão quase impossível o acesso do comércio ao crédito privado). Melhor seria a Grécia não pagar o que deve ao EFSF do Banco Central Europeu, mas são dívidas que só vencem no verão e parece quase impossível que a Grécia se aguente até lá.


Preparar-se para o confronto

É impossível, nesse estágio, saber qual dos dois últimos cenários – os únicos cenários realistas – prevalecerá. Os sinais que o governo tem dado ao longo das últimas semanas são cada vez mais contraditórios: por um lado, o tom dominante é de confiança e otimismo sobre a possibilidade de um acordo, que materializaria o “compromisso honesto” que é, agora, o objetivo de Alexis Tsipras.

Por outro lado, ministros do círculo mais próximo de Tsipras, como o Ministro do Interior, Nikos Voutsis e o Ministro do Trabalho, Panos Skourletis, fizeram declarações como:

(...) gostaríamos de permanecer no barco chamado Europa, mas se o capitão nos lançar ao mar, temos de tentar nadar.

Seguindo as mesmas linhas, o Vice-Ministro das Finanças, Euclid Tsakalotos declarou  dia 26/3/2015, que:

(...) se não se conserva no fundo da cabeça a possibilidade de rompimento, nesse caso é óbvio que os credores imporão as mesmas medidas, como já fizeram com o governo anterior.

Também houve declarações contraditórias sobre um referendo, no caso de o processo das negociações fracassar completamente. Esse movimento parece necessário, porque é verdade que o mandato do partido Syriza não recobre a possibilidade de Grexit (é explicitamente baseado na hipótese de romper com o arrocho [orig. “austerity”], permanecendo no euro).

Em declarações recentes, altos ministros, como Varoufakis e Alekos Flabouraris, que é Ministro de Estado e muito próximo de Tsipras, referiu-se a essa possibilidade, mas foi imediatamente contraditado por outros representantes do Syriza, como o membro do Parlamento Europeu, Dimitris Papadimoulis.

As escolhas da Grécia
A situação da opinião pública reflete essa incerteza. O entusiasmo e o espírito combativo das primeiras três semanas cedeu lugar a um quadro misto: permanece alto o apoio à estratégia do governo, mas já significativamente menor que nos meses anteriores. As ruas estão calmas.

As mobilizações recentes parecem limitadas a setores determinados (os anarquistas e comunidades locais contra a mineração de ouro em Skouries, no norte da Grécia) e os efeitos são contraditórios: a agitação anarquista acelerou a votação no parlamento de lei que torna menos duras as condições do regime fechado de prisão, e pôs fim ao regime de “segurança máxima”.

Mas em Skouries a situação parece mais confusa, com a polícia agindo contra os manifestantes e os mineiros que trabalham nas minas de ouro, que marchavam em Atenas em apoio à continuação da extração, posição fortemente estimulada pelos empregadores canadenses e pela oposição de direita.

Mas o elemento que serve mais claramente como combustível para essa atmosfera confusa é, porém, o fato de que continua a campanha de aterrorizamento da população contra o “Grexit”, sem qualquer ação do governo Tsipras.

A oposição de direita e a grande mídia-empresa, cada dia mais hostil contra o governo e usando discurso cada dia mais agressivo, e todos os argumentos possíveis a favor da rendição incondicional, continua a mostrar a ruptura com a Eurozona como um apocalipse – o que fizeram sem parar, todos os dias, desde o início da crise.

Mas a resposta do governo tende a ser que essa ruptura será evitada, graças ao “compromisso honesto” com o qual os europeus acabarão por concordar. Absolutamente não é, para dizer o mínimo, discurso capaz de mobilizar a base popular do Syriza e preparar a sociedade para uma eventual ruptura com a Europa.

Acredite-me. Carregar o mundo foi muito mais fácil!...
Com o Partido Comunista firmemente apegado a sua oposição sectária, e o Secretário-Geral declarando que não apoiará o governo nem no caso de rompimento com a Eurozona, e o Antarsya, da extrema-esquerda, a repetir que o governo já se rendeu...

É responsabilidade da esquerda do Syriza oferecer a única abordagem sensível que pode evitar o fracasso: manter firme a linha de confronto com a União Europeia e preparar as bases, o movimento popular e a sociedade grega, mais amplamente, para embarcar em trajetória radicalmente diferente, tanto no plano interno, quanto no plano internacional.

O que está em jogo não poderia ser mais importante.
_______________________________________________

[*] Stathis Kouvelakis ensina Teoria Política no King’s College London e é membro do Comitê Central da Syriza. Obteve Mestrado e Doutorado em Filosofia pela Universidade de Paris 10 e Doutorado em Filosofia Política pela Universidade de Paris 8. Foi professor na Universidade de Paris 8 e bolsista de investigação na Universidade de Wolverhampton, antes de começar a lecionar no King’s College em setembro de 2003 onde está até hoje.
Seus principais interesses de pesquisa estão nos estudos sobre Marx, Filosofia alemã e Teoria crítica recente. Sua pesquisa tem-se centrado na formação do pensamento político de Marx, a trajetória dos Jovens Hegelianos e na crítica ao liberalismo político. Também pesquisa a Política Francesa Contemporânea e sobre a história dos protestos sociais na França. Kouvelakis está atualmente trabalhando em dois livros, o primeiro sobre a política atual, discutindo as noções de temporalidade e decisão no pensamento político contemporâneo, o segundo sobre o estado atual da Teoria Marxista. Seu projeto de longo prazo inclui um estudo da formação da Teoria de Marx no contexto (político, intelectual e cultural) das Revoluções Europeias de 1848 e suas consequências.
É membro do conselho editorial das revistas francesas Contretemps e La Pensée, do Groupe d'Etudes Sartriennes e da série de livros sobre Materialismo Histórico em Brill Academic Publishers (Leiden, Holanda).

segunda-feira, 6 de abril de 2015

OTAN trabalha a favor de mais guerras


A crescente onda de propaganda anti-Rússia


3-5/4/2015, [*] Brian Cloughley, Counterpunch
The Rising Swell of Anti-Russian Propaganda
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Voutenay sur Cure, França


Nova sede do Banco Central Europeu em Frankfurt
(em construção)
A cidade de Frankfurt, na Alemanha, é o maior centro financeiro da Europa e abriga a Bolsa de Valores do país, incontáveis outras instituições financeiras e a sede do Banco Central Europeu (BCE), responsável pela administração da política monetária das 18 nações da Eurozona. O lugar ferve de tanto dinheiro, como se vê pelo riquíssimo novo prédio-sede do BCE, que está custando uma fortuna.

O preço original do enorme palácio do BCE esteve estimado em 500 milhões de euros, cerca de 550 milhões de dólares, mas a conta, já se sabe, chega a 1,3 bilhões de euros (£930 milhões; US$ 1,4 bilhões). Esse fiasco escandalosamente caro foi coordenado pelas mesmas pessoas às quais cabe comandar os rumos financeiros de 18 nações e seus 500 milhões de desgraçados cidadãos. Se os talentos do BCE para administrar as próprias contas são os mesmos com que administra o dinheiro da Europa, se controla gastos pelo mundo, como controla a construção das suas duas novas torres monstro, então a Europa entrou em trilha de desastre certo.

Muito estranhamente, o BCE não é o único que está pagando pelo boom de construções burocráticas na Europa. Há outra organização que tem sede na Europa e ambição só comparável à própria incompetência, que também está construindo prédio-sede majestosamente luxuoso e caro, com custos escandalosamente altos, sobre os quais reina o mais impenetrável silêncio “jornalístico”.

Quem comanda mais essa farsa vergonhosa é a OTAN, Organização de EUA-Canadá-Europa do Tratado do Atlântico Norte, que está caindo fora do Afeganistão ainda lambendo as próprias feridas, depois de ter tentado derrotar um bando de milicianos calçados com sandálias e vestidos em farrapos, que deram muito trabalho às super tecnológicas forças do “ocidente”, numa guerra cujo resultado se podia prever facilmente. Mas o fracasso no Afeganistão não serviu para dar melhor foco aos zelosos líderes da OTAN, que agora se puseram a provocar a Rússia, na tentativa de encontrar alguma justificativa para a existência daquele seu dinossauro em cacos, sangrando por mil feridas e derrotado.

O problema da OTAN não é só perder as guerras em que se intromete, mas que, depois de cada guerra em que é derrotada, a OTAN imediatamente se põe a procurar novas guerras nas quais se intrometer — a ser comandadas do alto do novo prédio-mamute coberto de lantejoulas e desavergonhadamente caro, com custos que já ultrapassaram todas as provisões.

Guerra como todas as guerras da OTAN

A operação “Protetor Unificado” da OTAN para derrubar o líder líbio Muammar Gaddafi envolveu massiva blitz aérea, de 9.658 ataques aéreos que culminaram com o assassinato de Gaddafi — e causaram o colapso da Líbia, entregue a bandos de fanáticos tresloucados do bárbaro Estado Islâmico que, hoje, já se constituíram e estabeleceram-se.

Líbia antes e depois da “intervenção humanitária”
dos EUA - União Europeia e OTAN
(clique na imagem para aumentar)
Apesar do horror da catástrofe que a OTAN gerou na Líbia, é impossível não rir do trabalho de Ivo H. Daalder e James G Stavridis, que, em 2012, publicaram análise “aprofundada” na revista Foreign Affairs sob o título de “A vitória da OTAN na Líbia”. Os dois “sábios” escreveram que:

(...) a operação da OTAN na Líbia foi saudada, com justiça, como uma intervenção modelo.

O envolvimento da OTAN na Líbia demonstrou que a aliança ainda é fonte essencial de estabilidade.

(...) A OTAN talvez ainda demore uma década, para replicar sucesso equivalente ao que obteve na Líbia. Os membros da OTAN devem portanto usar a reunião de cúpula de Chicago para fortalecer a aliança e assegurar que a partilha dos sacrifícios que tão bem funcionou na Líbia – e continua a funcionar bem no Afeganistão hoje – passe a ser a regra, não a exceção.

Fato é que absolutamente nada funciona bem, nem na Líbia, nem no Afeganistão hoje, dois anos depois da aplicada defesa feita por Daalder-Stavridis da tal “a partilha dos sacrifícios”, e é óbvio que a OTAN foi e ainda é o oposto de “fonte de estabilidade” nesses dois desgraçados países.

Em outubro de 2005 escrevi que:

(...) a OTAN vai aumentar o número de soldados no Afeganistão para 15 mil e seu secretário-geral diz que, em vez de atuar como força de manutenção da paz, os soldados da aliança assumirão as funções de combate que competiam aos soldados dos EUA, o que é perfeita loucura.

(...) a insurgência no Afeganistão continuará até que todas as tropas estrangeiras saiam do país, não importa a nacionalidade delas. Depois de algum tempo, o governo de Cabul entrará em colapso e haverá anarquia, até que algum senhor-da-guerra, brutal, sem lei, milionário do ópio e da heroína, chegue ao poder. Ele governará o país como sempre foi governado pelos afegãos: com ameaças, ferocidade religiosa, chantagem, corrupção e selvageria total, em todos os campos onde seja possível governar assim sem revide. E a mais recente ocupação estrangeira será também lembrança e nada mais.

O número de soldados de EUA-OTAN no Afeganistão foi reduzido, de um pico de 130 mil, para cerca de 13 mil, dos quais 10 mil são norte-americanos, mas o novo QG da OTAN em construção em Bruxelas só cresce em tamanho e custos. O orçamento aprovado para o complexo-gigante era de 460 milhões de euros (US$ 500 milhões) em 2010; hoje já ultrapassa € 1,25 bilhões, cerca de US$ 1,4 bilhões de dólares.

Quartel-General da OTAN em Bruxelas
(em construção)
A revista alemã Der Spiegel noticiou em janeiro que o escândalo dos custos gigantes estava sendo mantido em segredo por todos os governos que contribuem para manter a OTAN. Um telegrama vazado do embaixador alemão explicava que, numa reunião de representantes da OTAN em dezembro passado,

(...) falou-se do efeito desastroso para a imagem da aliança, se a construção tivesse de ser suspensa e a OTAN aparecesse como incapaz de levar a cabo, no prazo previsto, um projeto de construção decidido e aprovado em reunião dos presidentes dos países que constituem a OTAN desde abril de 1999, em Washington. O risco de novos aumentos nos custos já é palpável.

A solução para o problema de imagem que a própria OTAN criou para ela mesma era simples: todo o pessoal responsável por administrar os negócios de uma aliança militar que envolve 28 países, 3,5 milhões de combatentes armados e 5 mil armas nucleares resolveu que, atendendo a pedidos do Secretário-Geral, todos tratariam “confidencialmente” do escândalo. Em outras palavras, os gastos que ultrapassam qualquer previsão no cronograma de construção estão sendo deliberadamente ocultados da opinião pública, na esperança de que os executivos da OTAN não sejam expostos como incompetentes. 

Enquanto isso, ao mesmo tempo em que tentam esconder as próprias falhas, erros e fracassos no gerenciamento de negócios simples de gerência básica, os chefes da OTAN põem-se a pular na frente da Rússia, tentando persuadir o mundo que o presidente Putin estaria montando uma invasão vinda do leste. O ponto focal dos temores-pânicos que a OTAN manifesta é o mesmo do regime corrupto e caótico no poder na Ucrânia, que tem sérias discordâncias com a Rússia, motivo pelo qual é furiosamente apoiado pelos EUA, a ponto de os EUA deixarem-se envolver em todos os tipos de distorções, ameaças e mentiras.

Como se leu no britânico Daily Telegraph dia 4/3/2015, o comandante das tropas dos EUA na Europa, general Frederick “Ben” Hodges, acusou a Rússia de ter infiltrado 12 mil soldados em território do leste da Ucrânia – o que é mentira e nonsense irresponsável.



Hodges trabalhou como oficial de ligação entre o exército e o Congresso em Washington, quando, obviamente adquiriu o gosto da ostentação política. Foi o que se viu num discurso político, do tipo que generais não têm autorização para fazer, em que Hodges disse que:

Temos de aumentar o custo para Putin. No momento, ele tem 85% de apoio doméstico. Mas quando as mães começarem a receber os cadáveres dos filhos, quando o custo aumentar, o apoio doméstico desabará – fala que é tão ofensiva quanto é hostil.

Em fevereiro, o Wall Street Journal noticiou novas palavras de Hodges:

Acredito que os russos estão-se mobilizando nesse exato momento, para uma guerra que eles supõem que acontecerá dentro de cinco, seis anos, mas acho que já perceberam que as coisas acontecerão, e que haverá algum tipo de guerra, em alguma escala, contra alguém, dentro dos próximos cinco, seis anos.

Não se pode saber que interpretação o Presidente Putin dará a isso, mas não há dúvidas de que os modos belicosos de Hodges não ajudam a persuadir Moscou de que a coalizão EUA-OTAN dará um passo, que seja, para modificar sua política de incansável beligerância.

Outros líderes da OTAN falaram também em termos igualmente ameaçadores, para convencer o público da Europa Ocidental de que a Rússia teria atacado a Ucrânia.

Mas, afinal, ainda que a Rússia tivesse invadido a Ucrânia, nem EUA nem OTAN teriam qualquer coisa a ver com a questão.

A coalizão EUA-OTAN espertamente ignora (e ensina a ignorar) o fato de que a Ucrânia não é estado membro, nem da União Europeia, nem da OTAN e que, portanto, não há tratado de tipo algum com qualquer nação do planeta que exija que EUA ou OTAN garantam apoio político, econômico ou militar, no caso de disputa bilateral com qualquer outro país. Pois apesar disso, a OTAN “encampou” o conflito entre Ucrânia e Rússia para “justificar” sua política de incansáveis hostilidade e provocação contra Moscou.

A OTAN deveria ter sido extinta imediatamente depois do colapso da União Soviética, porque a ameaça soviética era a única razão para sua existência; mas decidiu ampliar o número de membros e a presença militar cada vez mais próxima das fronteira da Rússia. Não surpreende que a Rússia preocupe-se muito com as intenções da OTAN, sempre que a coalizão flexiona os músculos à procura de novos conflitos existentes ou inventados.

Philip Breedlove (Strangelove?)
O Comandante da OTAN, general norte-americano Breedlove, também tem contribuído ativamente para aumentar as tensões e os temores na Europa, sempre a disparar ‘alertas’ contra supostas manobras russas. Dia 5/3/2015 entregou-se, de vez, ao delírio, e, sem nem um fiapo de prova, anunciou que a Rússia deslocara

(...) bem mais de mil veículos de combate, além de forças de combate, alguns de seus batalhões de artilharia de mais sofisticada defesa aérea para dentro da Ucrânia.

Esse pronunciamento foi semelhante a outro, de deslavada mentira, quando, dia 18/11/2014, o mesmo general declarou ao jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung que havia “unidades regulares do exército russo no leste da Ucrânia”.

A onda de propaganda anti-Rússia gerada pela OTAN, de confrontação e tentativas de intimidar, só aumentou e se a OTAN persistir nesse curso, é muito provável que Moscou decida agir, o que só fará aumentar muito todos os riscos e perigos já existentes. É mais que hora de as nações que constituem a OTAN aceitem a realidade de que a Rússia é das principais potências internacionais, com interesses legítimos na sua própria região. É claro que Moscou não se ajoelhará, assustada com ameaças tolas, imaturas, do mais patético agitar-os-sabres de generais norte-americanos e seus aliados vacilantes.

É mais que hora de a OTAN começar a construir laços, em vez de destruir qualquer laço existente — e a construir pontes políticas, em vez de construir escritórios coruscantes e escandalosamente caros.
____________________________________

[*] Brian Cloughley estuda e escreve sobre os países do sul da Ásia há mais de 30 anos. Atualmente é o Analista de Defesa mais credenciado para a região escrevendo para o IHS/Jane’s Sentinel, Country Risk, Couterpunch, Reuters e muitas outras publicações e Agências de Notícias, cobrindo o Afeganistão, Bangladesh, Butão, Índia, Nepal, Paquistão e Sri Lanka com relatórios mensais. Outras das suas tarefas são a análise e atualização sobre armas nucleares, biológicas, químicas e radiológicas desenvolvidas na região para  Grupo Informativo IHS do Jane’s Sentinel. Ele e sua esposa, Margaret, residem na França, na pequena aldeia de Voutenay sur Cure, na Borgonha.