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terça-feira, 3 de março de 2015

Tariq Ali: É tempo de a Revolução avançar sobre o Palácio


1/3/2015, [*] Chris Hedges e Tariq AliThruthdig
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Chantez, compagnons, dans la nuit la liberté nous écoute.
Cantem, camaradas! Dentro da noite, a liberdade nos ouve.
(Da Chanson du Partisan, 1943, cantada por Johnny Halliday)


Ver também: 2/3/2015, Eurobancos vs. trabalho grego, redecastorphoto, Michael Hudson em entrevista à rede TRNN.


O novo livro de Tariq Ali é “The Extreme Centre: A Warning”.
[O extremo centro: um alerta]

PRINCETON, N.J. – Tariq Ali é da alta nobreza da esquerda. Seus mais de 20 livros sobre política e história, seus seis romances, suas peças e roteiros e seu jornalismo no jornal Black Dwarf, na New Left Review e outras publicações, fizeram dele um dos mais afiados críticos do capitalismo empresarial-empreendedorista. Lança raios retóricos e críticas afiadíssimas contra os especuladores do petróleo e empresários oligarcas que manipulam a finança global e os imbecis úteis na empresa-imprensa, no sistema político e na academia que os apoiam. A história da parte final do século XX e da primeira parte do século XXI provou que Tariq Ali, intelectual formado em Oxford e ativista há muito tempo incômodo, que certa vez apresentou-se como candidato trotskista ao Parlamento britânico, sempre foi muito surpreendentemente profético.

Ali, nascido no Paquistão, portador de cidadania dupla, britânica e paquistanesa, já era ícone da esquerda durante as convulsões dos anos 1960s. Reza a história que Mick Jagger escreveuStreet Fighting Man (vídeo no fim do parágrafo) depois de assistir a um comício antiguerra em Grosvenor Square dia 17/3/1968, liderado por Ali, Vanessa Redgrave e outros à frente da Embaixada dos EUA em Londres. 8.000 manifestantes atiraram lama, pedras e bombas de fumaça contra a polícia de choque. A polícia montada atacou a multidão. Mais de 200 pessoas foram presas.


Semana passada, quando nos encontramos pouco antes de ele proferir a aula-homenagem a Edward W. Said na Princeton University, Ali elogiou as lutas de rua, e manifestações de protesto e o confronto aberto e sustentado contra o estado que irromperam durante a Guerra do Vietnam. Lamentou o fim do radicalismo que foi nutrido pela contracultura dos anos 1960s, dizendo que foi evento “sem precedentes na história do império” e produziu o “período mais cheio de esperança” nos EUA, “intelectualmente, culturalmente e politicamente”.
 Edward W. Said

Não consigo pensar em exemplo de nenhuma outra guerra imperial na história, e não só na história do império norte-americano, mas também na história dos impérios britânico e francês, durante a qual dezenas de milhares de veteranos de guerra e muitos GIs que ainda estavam no serviço militar ativo, marcharam à frente do Pentágono, dizendo que desejavam que os vietnamitas vencessem a guerra. Aquele foi evento único nos anais do império. E foi o que assustou, atemorizou, fez tremer de pavor todos eles [os que estavam no poder]. Se o coração de nosso apparatus já foi contaminado[pensaram eles], o que, diabos, vamos fazer?! − disse ele.

Esse desafio encontrou expressão até dentro dos muros do Establishment. Sessões e audiências pública da Comissão de Relações Exteriores do Senado abertamente desafiavam os que insistiam em orquestrar o banho de sangue da Guerra do Vietnã.

O modo como aquelas audiências públicas foram conduzidas educaram segmento enorme da população” – disse Ali falando das audiências públicas conduzidas por liberais como J. William Fulbright.

Mas Ali logo constatou com tristeza: audiências públicas como aquelas nunca mais voltarão acontecer.

Aquele espírito foi, exatamente, o que a elite governante teve de atacar e fazer retroceder, e conseguiram que retrocedesse, com considerável sucesso, ele disse; e o retrocesso foi completado pela implosão da União Soviética.

Então a elite sentou e disse:

Ótimo. Agora podemos fazer o que bem entendermos. Nada mais existe do outro lado do mundo, e o que temos em casa – crianças protestando contra a Nicarágua e os Contras – é coisa pouca. E gradualmente a oposição democrática retrocedeu.

Os EUA bombardeiam Bagdá  - março/2003
Já no início da Guerra do Iraque, as manifestações de cidadãos, embora grandes, já não passavam de “assunto de 24 horas”.

Antes, havia sido uma tentativa para parar uma guerra. Quando não conseguiram pará-la, a manifestação acabou – disse ele sobre as marchas de oposição à Guerra do Iraque.

Foi um espasmo. As autoridades conseguiram convencer o povo na rua de que eles nada poderiam fazer; que fizesse a rua o que fizesse, os do poder sempre fariam o que bem entendessem. Foi a primeira vez em que muitos se deram conta de que a própria democracia já fora enfraquecida e estava sendo ameaçada.

A volta do sistema político, já trazendo com ele em profusão o dinheiro privado, a reformatação das leis e regulações para remover todos e quaisquer controles democráticos sobre o poder dos empresários e das empresas, a ocupação de toda a empresa-imprensa por um punhado de empresas e empresários para silenciar qualquer oposição, e a ascensão da vigilância total vendida no atacado, e o estado de vigilância “levaram à morte do sistema de partidos” e à emergência do que Ali chamou de “um extremo centro”.

Os trabalhadores estão sendo cruelmente sacrificados no altar do lucro das empresas privadas – cenário que se vê em tonalidades dramáticas, hoje, na Grécia. E não há mecanismo ou instituição restante dentro das estruturas do sistema capitalista que seja capaz de pôr fim ou de mitigar a reconfiguração da economia global que a vai convertendo em neofeudalismo impiedoso, em mundo de patrões e servos.

Esse extremo centro – não importa o partido que o constitua – efetivamente entra em colusão com as empresas privadas gigantes, incorpora os mesmos interesses e põe-se pelo mundo a fazer guerras – disse Ali. – Esse extremo centro estende-se por todo o mundo ocidental. Por isso é que cada vez mais e mais jovens afastam-se, lavando as mãos feito Pilatos, do sistema democrático como existe hoje. Tudo isso é resultado direto de se haver ensinado ao povo, depois do colapso da União Soviética, que “não há alternativa”.

Vai-se tornando cada dia mais volátil a batalha entre desejo popular e as demandas dos empresários oligarcas – que cada dia saqueiam maior número de pessoas pelo mundo, jogando-as na miséria e no desespero. Ali observou que mesmo os líderes que têm compreensão clara da força destrutiva do capitalismo sem controles – como o Primeiro-Ministro grego, Alexis Tsipras, que é homem de esquerda – deixam-se intimidar pelo poder econômico e militar que há à disposição das elites empresariais e grandes empreiteiras.

Yanis Varoufakis (E) e Alexis Tsipras
Por essa razão, principalmente, é que Tsipras e seu Ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, acederam às demandas dos bancos europeus, em troca de uma prorrogação de quatro meses no atual processo de resgate da Grécia, por US$ 272 bilhões emprestados. Os líderes gregos foram forçados a se comprometer com manter reformas econômicas punitivas e a retroceder de suas promessas de campanha eleitoral, quando o partido de Tsipras, a SYRIZA, falava de cancelar grande parte da dívida da Grécia. A dívida grega chega a 175% do PIB grego. Esse negócio agora acertado, por quatro meses, como disse Ali, é uma tática de adiamento – mas ameaça enfraquecer todo o amplo apoio que a SYRIZA angariou entre os gregos. A Grécia não conseguirá pagar o serviço dessa dívida. Mais dia menos dia, as autoridades gregas e europeias terão de entrar em choque; e o choque, afinal, disparará uma quebradeira terminal e o derretimento financeiro na Grécia. Assim a Grécia se libertará da Eurozona, e disparará levantes populares na Espanha, Portugal e Itália.

O desafio aberto, declarado, disse Ali, e o custo que com certeza custará, é nossa única linha de fuga para nos salvar da tirania das empreiteiras e empresas privadas monstro. Esse custo, de início, será doloroso. Nossos patrões empresários e empreiteiros monstros privados não têm intenção alguma de afrouxar a pegada de suas garras, e a luta será brutal.

Ali relembra o que lhe ensinava o seu valente, falecido e muito querido amigo, Hugo Chávez, presidente socialista da Venezuela, que tampouco conseguiu escapar sempre das forças de intimidação do Establishment:

(...) lembro-me das muitas conversas que tive com Chávez, e que eu dizia: “Mas meu Comandante, por que parar nesse ponto?” – e ele sempre me dizia que não era realista tentar ir adiante, naquele momento. Podemos regular o capital, podemos fazer a vida mais difícil para o capitalismo, podemos usar o dinheiro do petróleo a favor dos pobres, mas não podemos derrubar o sistema.

E, Ali acrescenta:

Os gregos e os espanhóis estão dizendo a mesma coisa.

Movimento dos Indignados (15M) - Espanha

Não sei o que a SYRIZA pensou – diz Ali. – Se pensou “podemos dividir a elite europeia, podemos fazer vasta campanha de propaganda na Europa e eles serão obrigados a fazer concessões”... Isso seria loucura. A elite europeia, chefiada pelos alemães é dura na queda, não rachará assim tão facilmente. A elite europeia já esmagou os gregos. Os líderes gregos deveriam ter dito ao próprio povo que “Vamos tentar arrancar as melhores condições possíveis – se não conseguirmos, o povo será informado sobre o que aconteceu e sobre o que os gregos teremos de fazer”. Não fizeram assim. Em vez disso, caíram na armadilha dos europeus. Os europeus praticamente não fizeram concessão alguma, que interessasse aos gregos.

O embate entre os gregos e as elites empresariais e bancárias que dominam a Europa, disse Ali, “não é econômico”. [epígrafe]

A União Europeia está pronta para “fazer chover bilhões contra os russos na Ucrânia” – Tariq Ali observa. – Não é absolutamente questão de dinheiro. Eles podem jogar fora quanta merda de dinheiro queiram, como estão preparados para fazer na Ucrânia. Com os gregos, a União Europeia finge que seria questão de dinheiro, mas não é: a questão é política. Temem que se os gregos conseguirem, a febre se dissemine. Em dezembro haverá eleições na Espanha. Se o partido Podemos [o partido da esquerda da Espanha]vencer, o segundo, depois de a SYRIZA ter sido eleita na Grécia e seguindo avante, mesmo que os avanços sejam tímidos, e por via diferente, os espanhóis dirão que os gregos conseguiram. E há também os irlandeses, esperando pacientemente com seus países progressistas e dizendo “Por que não poderíamos fazer o que a SYRIZA fez? Por que não podemos todos nos unir e agir diretamente contra nosso extremo centro?”.

Ali disse que sempre se sentiu:

(...) furioso e chocado por causa das muitas esperanças que a esquerda investiu em ObamaBarack Obama, disse ele, é presidente imperial e age como tal, não importa que tenha pele de mestiço.

Ali também já há muito desacreditou da política de gêneros que já está dando combustível para uma possível candidatura de Hilária Clinton à Casa Branca, para ser a primeira presidenta mulher nos EUA.  

Hilária Clinton
DonkeyHotey

Minha resposta é “e que merda de diferença faz que seja mulher ou homem?!”– disse ele. Se ela vai bombardear o mundo e distribuir drones por todos os continentes, que diferença faz o gênero, se a política é a mesma?

Aí está a chave: toda a política foi desvalorizada e rebaixada pelos “valores” do neoliberalismo. As pessoas degradaram as lutas, recolheram-se para lutas de identidade, lutas religiosas. Penso mesmo se será possível ainda criar alguma oposição a tudo isso coisa em escala nacional nos EUA.

Penso se o melhor não será concentrar-se nas grandes cidades e tratar de desenvolver alguns movimentos onde possam fazer diferença, em Los Angeles, New York ou em estados como Vermont. Pode ser mais inteligente concentrar-se em três ou quatro coisas e mostrar o que pode ser feito.

Não consigo ver a velha sistemática, de reproduzir partidos políticos de esquerda cujo modelo é o mesmo dos partidos Republicano e Democrata, nos dar algum resultado avançado. Gente de partido só trabalha com o dinheiro. Às vezes eles já nem veem gente do povo, há anos. É a democracia de cartão de crédito. A esquerda não pode copiar e nunca deveria ter copiado esse modelo.

Os EUA são o osso mais duro de roer, mas se não roermos esse osso, estamos destruídos.

Ali disse que teme que, se os norte-americanos algum dia se tornarem politicamente conscientes e decidirem resistir, o estado das empreiteiras e empresários imporá diretamente as formas mais declaradas de repressão militarizada. A reação do governo dos EUA no caso das bombas na Maratona de Boston em 2013, o impressionou:

(...) o estado norte-americano fechou completamente uma cidade inteira, com o apoio da população.

Bomba na Maratona de Boston - Investigação
Para Tariq Ali, a declaração virtual de lei marcial em Boston foi como “um ensaio geral”.

Se conseguem fazer em Boston, conseguem fazer em outras cidades – disse.Precisavam testar e testaram em Boston para ver se funcionaria. Essa ideia muito me assustou.

Para Tariq Ali,

(...) quem fabrica ameaça fabrica medo. Criam-se cidadãos sonâmbulos. As autoridades norte-americanas nunca tentaram o que se vê hoje, nessa escala, nem quando combatiam contra a União Soviética e o inimigo comunista, pressuposto o pior, o mais ameaçador, o mais perigoso de todos os tempos. Agora fazem exatamente o que se vê, em escala gigantesca, por causa de meia dúzia de terroristas doidos. 

Para ele, grupos como Black Lives Matter, [Vida de negro faz diferença], trazem alguma esperança. Vídeo a seguir:


Assim como os tradicionais partidos de esquerda foram esvaziados por todos os cantos do mundo, assim também os segmentos radicais da população afro-norte-americana – diz Ali. – Foram fisicamente eliminados. Martin Luther King e Malcolm X, alguns dos líderes mais bem dotados, foram assassinados. Os Black Panthers [Panteras Negras] foram destruídos. Áreas nas quais os negros viviam na Costa Oeste foram inundadas com drogas. Foi ataque bem planejado. Mas os jovens que saíram às ruas no movimento Black Lives Matter parecem ter aquele velho espírito. Quando Jesse Jackson foi a Ferguson e tentou lá a sua demagogia, foi rechaçado. Aconteceu o mesmo na Costa Leste, com [Al] Sharpton. Esses líderes negros que se venderam estão sendo vistos, afinal, pelo que são.

A principal preocupação de Ali é que essas organizações, como Black Lives Matter quase sempre só reagem aos eventos e

(...) não se dão conta perfeitamente de que reagir a eventos não é suficiente para agir contra a continuada violência do estado contra os cidadãos; que, para isso, é indispensável que os cidadãos contem com movimentos políticos.

Ele se preocupa com que os norte-americanos conheçam mal a própria história; pouquíssimos algum dia tiveram contato com a literatura da teoria revolucionária, de Karl Marx a Rosa Luxemburg.

Esse analfabetismo político, diz ele, significa que movimentos de oposição raramente são competentes para analisar efetivamente as estruturas e os mecanismo do poder capitalista; sem isso, não podem formular resposta política mais sofisticada.

Por que a classe trabalhadora nos EUA não produziu um Partido Trabalhista nem um Partido Comunista efetivo? – Ali pergunta. Repressão. Se se considera o que aconteceu nos EUA nas primeiras décadas do século XX e na última década do século XIX, vê-se que muitos mercenários privados foram contratados para pôr fim a qualquer organização política democrática. É uma parte da história que raramente é focada. Esse amaldiçoado neoliberalismo degradou também os estudos de história. A história do morticínio entre os trabalhadores norte-americanos que tentavam organizar-se é item que os historiadores norte-americanos realmente odeiam. Até se dedicam a alguns estudos de política, porque nesse campo podem usar seu anticomunismo: ensiná-lo e praticá-lo pelos jornais e televisões. Mas história é problema muito amplo.

Não se consegue entender a emergência da SYRIZA sem compreender a IIª Guerra Mundial, o papel dos partisans, o papel do Partido Comunista que organizou os partisans e como, em dado ponto, 75% da Grécia era controlada por esses partisans comunistas. Então veio o “ocidente” e fez nova guerra, foi obra de Churchill, com o apoio de Truman, para derrotar aquele povo.


Fui simpático ao movimento Occupy, mas àquela conversa de nada exigir, sem demandas, é inútil – diz ele. Deveriam ter pauta de exigências. Que exigissem serviço público de assistência à saúde; fim das empresas que fabricam remédios e do controle das seguradoras sobre os planos de saúde. Que exigissem educação gratuita universal para todos os norte-americanos. A ideia promovida por anarquistas como John Holloway, de que se pode mudar o mundo sem tomar o poder é ideia inútil. Tenho grande, enorme respeito pelos anarquistas que mobilizam e lutam pelos direitos dos imigrantes. Mas critico muito os que constroem teorias de uma política sem política. É indispensável ter um programa político. Os anarquistas espanhóis, verdadeiros anarquistas, tinham verdadeiro programa político. Esse novo anarquismo que temos visto não leva a coisa alguma. E o mais provável é que metade dos grupos hoje atuantes já estejam infiltrados. Hoje já sabemos quantos havia, de gente do FBI, no Partido Comunista e no grupo dissidente trotskista. Eram muitos, muitos. Nas votações, quem votava era gente do FBI.

Ali disse que:

(...) o fracasso dos cidadãos, que não conseguem construir movimentos de massa para desmontar o estado de total vigilância sobre os cidadãos logo depois de tudo que Edward Snowden revelou foi exemplo de o quanto estamos todos mergulhados num mesmo autoengano, numa mesma autoilusão; e de nossa cumplicidade na opressão que se aplica contra nós mesmos. O culto do indivíduo e da autoimagem – que já beira o autismo – produto da propaganda das empresas e do empreendedorismo neoliberal, infecta todos os aspectos da sociedade e da cultura, e leva à paralisia.

Edward Snowden
Hollywood deu um prêmio Óscar a Citizenfour, e aí é o mais longe que vai – diz Ali. Como se fosse importante. E aí está o mais assustador: não brotou nenhum movimento por direitos civis, que unisse os cidadãos contra a vigilância em massa. O neoliberalismo realmente destruiu completamente a solidariedade e a empatia, auxiliado por novas tecnologias. É a cultura do narcisismo mais autista.

Ali previu que a atual onda de especulação global resultará em mais um crash financeiro. Esse novo crash fará nascer movimentos, as pessoas dirão “Basta!” Se esses movimentos derem origem a programas políticos radicais, com visão diferente, socialista, da sociedade, nosso “capitalismo autoritário” poderá ser enfrentado. Mas se não houver essa visão socialista, se a revolta for simplesmente reativa, as coisas ainda piorarão. O epicentro dessa luta, disse ele, será nos EUA.

Se nada acontecer nos EUA, se nada de novo for criado para desafiar o império e seus excessos sistêmicos, será situação muito ruim para todos nós – diz ele. Será a danação para todos, se nada acontecer nos EUA.
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[*] Chris Hedges, repórter laureado com Prêmio Pulitzer, mantém coluna regular em Truthdig às 2as-feiras. Formou-se na Harvard Divinity School e foi durante quase duas décadas correspondente no exterior do The New York TimesHedges é autor de 12 livros, entre os quais War Is A Force That Gives Us Meaning, What Every Person Should Know About War, e American Fascists: The Christian Right and the War on America o best-seller (New York Times), Days of Destruction, Days of Revolt (2012), do qual é coautor, com o cartunista Joe Sacco. Seu livro mais recente é Empire of Illusion: The End of Literacy and the Triumph of Spectacle.


[*] Tariq Ali (nasceu em Lahore, hoje Paquistão, em 21/10/1943) é escritor e ativista. Escreve periodicamente para o jornal The Guardian e para a New Left Review e London Review of Books. Estudou na Universidade do Punjab. Devido aos seus contatos com movimentos estudantis e temendo por sua segurança, seus pais o enviaram à Inglaterra. Estudou Ciências Políticas e Filosofia em Oxford. Foi o primeiro paquistanês a ser eleito presidente do Diretório Central dos Estudantes daquela universidade inglesa.
Sua notoriedade teve início durante a Guerra do Vietnã, quando manteve debates com personagens centrais, tais como Henry Kissinger. Tornou-se um crítico ferrenho das políticas externas dos Estados Unidos e Israel. Ali é um crítico das políticas econômicas neoliberais e esteve presente nas edições de 2003 e 2005 do Fórum Social Mundial, tendo sido um dos dezenove signatários do Manifesto de Porto Alegre.
Publicou mais de uma dezena de livros sobre História e Política Internacional, além de várias novelas ficcionais. Seu livro mais recente é Bush na Babilônia: a Recolonização do Iraque, publicado no Brasil pela Editora Record, além de Confronto de fundamentalismo, Redenção e Mulher de Pedra.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Atalhos

9/1/2015, [*] Tariq AliL. R. B., vol. 37, n. 2, 22/1/2015, p. 21
Short Cuts
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A lei francesa admite que se suspendam as liberdades, sempre que haja ameaça de agitação ou violência. Em tempos recentes, essa lei foi invocada para impedir as aparições públicas do comediante Dieudonné (muito conhecido por fazer piadas antissemitas) e para impedir manifestações pró-palestinos. A França é o único país em que essa proibição é hoje vigente.


Stephane Charbonnier, Charb − Editor-Chefe do Charlie Hebdo, um dos mortos no atentado
Foi horrível. Foi condenado em quase todos os cantos do mundo e ainda mais indignadamente por muitos cartunistas. Os que planejaram a atrocidade escolheram cuidadosamente os alvos. Sabiam que o ato, como foi executado, criaria o máximo de horror. Estavam em busca de qualidade, não de quantidade. A resposta nem os surpreendeu nem os desagradou. Nunca deram importância alguma ao mundo dos que não creem. Diferentes dos inquisidores medievais da Sorbonne, eles não têm a autoridade legal e teológica para perseguir livrarias e gráficas, proibir livros, e torturar autores. Então, deram um passo adiante e passaram a ordenar execuções.

E quanto aos coturnos-em-solo para executar as ações? As circunstâncias que atraem homens e mulheres jovens para esses grupos são criações do mundo ocidental em que eles vivem – e que é, ele mesmo, resultado de longos anos de governo colonial nos países dos avós deles.

Sabemos que os irmãos parisienses Chérif e Saïd Kouachi cultivavam longas cabeleiras de ‘'hippies'’ à ocidental e viviam como fumadores de maconha e outras substâncias, até que (como os autores da bomba de 7 de julho nesse país) viram filmes sobre a guerra do Iraque e, em especial, sobre as torturas que estavam em andamento em Abu Ghraib e a matança de cidadãos iraquianos em Fallujah.

Então, procuraram algum conforto na mesquita. Ali foram radicalizados por radicais à espera para os quais a guerra ao terror feita pelo ocidente já se tornara oportunidade de ouro para recrutar e hegemonizar os jovens, tanto no mundo muçulmano como nos guetos na Europa e nos EUA. Enviados primeiro ao Iraque para matar norte-americanos e mais recentemente à Síria (com a conivência do governo francês) para derrubar o presidente Assad, aqueles jovens aprenderam a dar uso mortal a armas mortais. De volta ao país natal, logo estavam prontos para usar o que acabavam de aprender, contra os que eles acreditavam que os atormentassem nos tempos difíceis: para eles, eram os que os perseguiam. Charlie Hebdorepresentou, para eles, os perseguidores. Nenhum horror pode cegar-nos para esse fato.


Charlie Hebdo nunca fez segredo de que deliberadamente trabalhava para provocar a ira dos muçulmanos crentes, cada vez que ridicularizava o Profeta. Muitos muçulmanos irritavam-se, mas decidiram ignorar o insulto.

O jornal que reproduziu os desenhos do Profeta Maomé publicados no jornal holandêsJyllands-Posten em 2005 – que mostrava o profeta Maomé como imigrante paquistanês – reconheceu que jamais publicaria “caricatura” semelhante que mostrasse Moisés ou algum judeu em posição marcadamente ridícula (mas talvez, de fato, já o tenham feito: não há dúvidas de que publicaram várias colunas em que apoiavam o IIIº Reich), mas Charlie Hebdo vê-se como defensor eterno dos valores republicanos, sempre seculares, contra todas as religiões.

Charlie Hebdo já atacou vez ou outra o catolicismo, mas nunca atacou o judaísmo (apesar de os ataques de Israel contra os palestinos serem ataque aos tais valores republicanos, e apesar de o desejo de Israel, de ser declarado “estado judeu”, nada ter de republicano ou secular ou laico). Charlie Hebdo concentrou todo seu zelo republicano na tarefa de zombar do Islã.

O secularismo francês hoje parece defender qualquer religião, desde que nada tenha a ver com o Islã.

Houve e há incansáveis críticas contra o Islã na França, a mais recente das quais é o novo romance de Michel Houellebecq, Soumission (literalmente “submissão”, “rendição”; é o significado “literal” também da palavra Islam). No romance, prevê-se que, em 2020, aFrança será governada por presidente egresso de um grupo de nome “Fraternidade Muçulmana”.

Charlie Hebdo, não se deve esquecer, chegou às bancas, no dia em que foi atacado, com capa em que promovia o lançamento do livro de Houellebecq. Defender os direitos de Houellebecq de publicar, fosse qual fosse o romance, é uma coisa. Mas sacralizar uma revista satírica que toma por alvo regularmente os mais fracos dos mais fracos, justamente os mesmos que são vítimas da mais rampante islamofobia, é quase tão ensandecido quanto justificar os atos de terror contra a revista. Nessa loucura geral, um lado (louco) enlouquece cada vez mais o outro (louco) lado.

A lei francesa admite que se suspendam as liberdades, sempre que haja ameaça de agitação ou violência. Em tempos recentes, essa lei foi invocada para impedir as aparições públicas do comediante Dieudonné (muito conhecido por fazer piadas antissemitas) e para impedir manifestações pró-palestinos. A França é o único país em que essa proibição é hoje vigente.

Dieudonné e a "quenelle"
Já diz muito que essas proibições não sejam vistas como problema por uma grande maioria de franceses. E não só os franceses: ninguém viu qualquer vigília, velas ou manifestações de massa em local algum da Europa, quando se soube que prisioneiros muçulmanos entregues aos EUA por muitos países da União Europeia (à frente deles, a Polônia e a Grã-Bretanha dos ‘trabalhistas’) haviam sido torturados pela CIA. Há muito mais em jogo hoje, que “sátiras”.

A arrogância, o tom de vaidade autocomplacente dos liberais seculares que falam de defender até a morte a liberdade, só encontra equivalente na fala infindável dos muçulmanos liberais, que não se cansam de repetir e repetir que o que houve nada teve a ver com o Islã. Há muitas diferentes versões do Islã (a ocupação do Iraque foi usada deliberadamente como gatilho para disparar as guerras entre sunitas e xiitas, que ajudaram no parto que trouxe ao mundo o Estado Islâmico). É absolutamente sem sentido alguém pretender que falaria em nome de algum único Islã “real”. A história do Islã, desde os primórdios, está repleta de lutas entre facções.

Correntes fundamentalistas dentro do Islã, tanto quanto invasões, assaltos de fora para dentro, foram responsáveis por diluir e fazer descarrilhar muitos avanços culturais e científicos no fim do período medieval. As mesmas discórdias e diferenças ainda existem.

Entrementes, Hollande e Sarkozy já anunciaram que estarão lado a lado na linha de frente de uma marcha de unidade nacional (Cameron também estará na avenida, na mesma ala).

Como me escreveu um amigo francês,

A ideia de que Charlie Hebdo tenha criado condições para essa “santa aliança” só pode ser ironia da história, do tipo que deixaria embasbacado, sem acreditar nos próprios olhos, até o mais cínico dos “libertaristas” anti-establishment pós-68.


[*] Tariq Ali (nasceu em Lahore, hoje Paquistão, em 21/10/1943) é escritor e ativista. Escreve periodicamente para o jornal The Guardian e para a New Left Review e London Review of Books. Estudou na Universidade do Punjab. Devido aos seus contatos com movimentos estudantis e temendo por sua segurança, seus pais o enviaram à Inglaterra. Estudou Ciências Políticas e Filosofia em Oxford. Foi o primeiro paquistanês a ser eleito presidente do Diretório Central dos Estudantes daquela universidade inglesa.
Sua notoriedade teve início durante a Guerra do Vietnã, quando manteve debates com personagens centrais, tais como Henry Kissinger. Tornou-se um crítico ferrenho das políticas externas dos Estados Unidos e Israel. Ali é um crítico das políticas econômicas neoliberais e esteve presente nas edições de 2003 e 2005 do Fórum Social Mundial, tendo sido um dos dezenove signatários do Manifesto de Porto Alegre.
Publicou mais de uma dezena de livros sobre História e Política Internacional, além de várias novelas ficcionais. Seu livro mais recente é Bush na Babilônia: a Recolonização do Iraque, publicado no Brasil pela Editora Record, além de Confronto de fundamentalismo, Redenção e Mulher de Pedra.


terça-feira, 16 de setembro de 2014

Escócia: Reflexões sobre o referendo da independência (Parte 1/2)


11/9/2014, Vários Autores., LRB, vol. 36, n. 17, 11/9/2014, p. 13-15 (1/2)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Entreouvido no Quiosque do Curtura na Vila Vudu: O que pode ser mais INADMISSÍVEL que a opinião pública num país importante como o Brasil continuar CONDENADA a só saber, sobre o referendo para decidir sobre a independência da Escócia (no próximo dia 18/9/2014), o que “pensam” que sabem os wwaacks, ecantanhedes, crossis, contis, anunes & “sumidades jornalísticas” equivalentes?!


Há muito tempo a Escócia é nação. Agora, vamos descobrir se seus cidadãos querem que a nação torne-se Estado. Espero que queiram. A opção por ser estado independente não só abrirá novas oportunidades para eles mesmos, mas também rachará um estado britânico atrofiado e decadente, e reduzirá sua eficácia como vassalo dos EUA. Daí os apelos distribuídos por Obama e Hillary Clinton, para que os escoceses votem “Não”, sentimento integralmente partilhado por Tony Blair, mesmo que não se atreva a admitir, de medo que, se se manifestar a favor dos EUA, empurre todos os irlandeses, em bloco, para o voto na direção oposta.

No referendo que decidirá sobre a independência da Escócia, não há discussão de princípios, só interesses imperiais. Os EUA aceleraram sempre o fracionamento do velho estado soviético, primeiro das repúblicas do Báltico, depois da Ucrânia e Ásia Central. Depois, foi a destruição da Iugoslávia. Se Latvia e Eslovênia deviam separar-se... por que a Escócia teria de manter-se unida?! Afinal, o Partido Nacional Escocês decidiu (infelizmente) permanecer como membro da OTAN...

Foi intelectualmente entusiasmante, nas duas viagens que fiz à Escócia nesse verão, assistir e participar dos debates sérios, empenhados, que aconteciam pelos auditórios, salas de aula, bares, ruas, praças, casas. Que contraste com a velha Inglaterra, onde todos os partidos e todos os jornais, jornalistas, canais de televisão e ‘'especialistas'’ midiáticos são unanimemente contra a independência da Escócia. A campanha pelo ‘'Não'’ é completamente desprovida de sutileza e bom senso, total e completamente baseada no medo mais amplo, geral e irrestrito. Mas são as forças do conservadorismo pessimista escocês que parecem mais rasas e paroquiais.

O Partido Nacional Escocês, e ainda mais a Campanha Independência Radical (orig. Radical Independence Campaign), veem uma Escócia separada do Reino Unido sob lentes internacionais. Têm em vista sempre o modelo norueguês e desenvolvimentos posteriores daquele modelo. Há alguns meses, em carta aberta ao povo da Escócia, publicada em Herald, alguns dos mais conhecidos intelectuais e autores escandinavos estimularam a criação de um novo estado independente, lembrando aos escoceses que a Suécia separou-se da Noruega em 1905 – o que só foi conseguido depois de o país enfrentar e superar a mais obcecada campanha de medo e aterrorizamento; mas o desmembramento fez melhorar muito a política e a qualidade de vida nos dois países.

O notável crescimento do movimento pró-independência da Escócia é resultado do desmantelamento obrado por Thatcher, do estado de bem-estar; e a declarada paixão que Blair-Brown sempre manifestaram por tal desmantelamento. Até antes disso tudo, os escoceses ainda conseguiram aguentar a ligação com o Partido Trabalhista, apesar da corrupção e da chicaneira que sempre foi marca registrada desse partido na Escócia. Agora, isso acabou.

Quando grandes fatias da população deixam de crer que podem exercer a autodeterminação política no contexto da ordem social existente, aquelas pessoas começam a procurar coisa diferente dos partidos governantes tradicionais. No Continente (e na Inglaterra), esse movimento levou a um crescimento da direita.

Na Escócia, o que se exige é autodeterminação nacional, social e política: em termos concretos, significa uma democracia social humanista. Mesmo que o medo resulte em dominação pela maioria unionista, todos já sabem que as coisas nunca mais serão como antes. E se a Escócia independente vencer, talvez o país consiga superar o ranço da antiquada política inglesa.


No debate sobre o que escrever na célula, no referendo, irrito-me cada dia mais contra a Comissão Eleitoral, que resolveu modificar o texto original. Em vez do original “Você concorda que a Escócia deve ser país independente?”, a pergunta passou a ser “A Escócia deve ser país independente?”

Meu problema é que não tenho, mesmo, nenhuma resposta simples para a “nova” pergunta; e eu tinha, sim, resposta bem clara para a pergunta “anterior”: “Concordar com quem?”

Ninguém, nem de um lado nem do outro, expôs quadro claro de uma Escócia realmente independente, com o qual eu possa concordar ou do qual possa discordar. Por outro lado, o Partido “Unidos e Felizes” assume que quem não queira ser governado pelo Palácio de Holyrood quer ser governado por Westminster. O problema é que não quero ser governado por ninguém. Mas, por sua vez, é claro que votar pela independência implicará ser visto como apoiador do assustador rol de agressões à democracia e ao meio ambiente, do Partido Nacional Escocês.

Nos dois casos, minha resposta é sempre a mesma: não consigo concordar com lado algum. Para mim, a única resposta possível é “Não”.

Hoje, sou convocado a considerar a seguinte pergunta: “A Escócia deve ser país independente?”. Ora, dever, até deve, mas tenho de pensar melhor. Não posso só ticar um quadradinho na urna. Essa não é daquelas fórmulas à George Bush (quem não está conosco, é terrorista). Ou é?! Espero que não seja.

Desde que manifestei algumas reservas contra a capacidade do Partido Nacional Escocês para “liderar” a Escócia, passei a ser tratado como contra-Stilton e apaixonado-macaqueador-de-Cameron, a tal ponto que já começo a suspeitar que não estamos discutindo o que eu tanto gostaria de estar discutindo.

Creio, sim, firmemente, que a Escócia (como qualquer pressuposta democracia) deve ser independente dos seguintes agentes:

(a) da vontade de bilionários norte-americanos com planos sociais gloriosos para novos campos de golfe;
(b) dos “planejadores” locais, que só executam planos que recebem do governo central;
(c) da péssima lei da União Europeia e sua estratégia de energia de mão única e totalmente inviável;
(d) da corrupção que desvirtua comissões parlamentares eleitas para controlar e fiscalizar o partido governante; e deve ser independente também
(e) um sistema feudal de propriedade da terra, que agride o meio ambiente, reforçado pelos mais extravagantes sistemas de subsídios – tudo isso é, precisamente, o que sofremos no governo do Partido Nacionalista Escocês.

Quem vencerá? Não tenho nem ideia. De qualquer modo, o que me interessa é mudança real, não uma demão de tinta “nova” sobre o business de sempre. Mas, se tivesse de fazer uma previsão, diria que o Partido Nacionalista Escocês fará como sempre faz, em matéria de democracia: deixa o povo supor que decidiu e, na sequência, faz o que o Palácio de Holyrood manda fazer.


Novos estados são, usualmente, produto de catástrofe. Violência é o ar que respiramos. Não posso decidir se é sorte ou desgraça, para a Escócia, que essa votação para decidir sobre a criação do estado escocês acontece mais uma vez contra o pano de fundo de um nascimento completamente normal de outra nação, a do Califato Islâmico constituído das ruínas do Iraque de Bush & Blair.

Um cínico diria que o horrendo espetáculo de formação ‘real’ de estado no Oriente Médio – aquela Europa do século XXI – só faz destacar o traço Ruritânico da suposta versão britânica. Mas a Grã-Bretanha é a Ruritânia com bomba atômica, plus um exército de “conselheiros especiais” sempre prontos a pôr coturnos, mesmo que por pouco tempo, em solo. Talvez a visão de um Oriente Médio em agonia – espécie de lembrete diariamente ativado das realizações imperiais do Novo Trabalhismo – consiga persuadir umas poucas almas fracas nas Terras Baixas a trocar o inglês pelo que eles fazem melhor.

Para os Scots, o voto “Sim” parece-me questão da mais elementar higiene política.

O [programa nuclear inglês] Trident forçado a tomar rumo sul (com o que o Partido Nacionalista Escocês parece comprometido): só isso, para muitos de nós, já é o mais entusiasmante momento da história da Grã-Bretanha, desde Suez. Não há dúvidas de que será gesto simbólico, mas o simbolismo será feliz e glorioso: fará enlouquecer, pirar completamente, todo o complexo militar-político-midiático dos Home Counties.

A questão, no longo prazo, infelizmente, é se essa loucura – e a pequena perversão geral inglesa que se seguirá, acelerando a saída da Europa – confirmará ou aniquilará a política dos últimos 40 anos. O Império Britânico algum dia terminará? Não sem muita terapia de choque. Só a independência da Escócia, só ela, obviamente não bastará, mas pode – só pode, no máximo – introduzir algum benefício verdadeiramente purgativo de uma autêntica política do pior. Em Westminster, os partidos esperam ansiosos, mal conseguindo respirar.

Todos temos nossos contatos. Fui casado uma vez com Jean Brodie, da Rua Annandale, que estudou no Ginásio de James Gillespie, o mesmo do romance de Muriel Spark. Dia desses perguntei a ela se votará “sim” ou preferirá “não”, e ela sacudiu os ombros. Mas quase imediatamente acrescentou: “Bom... Parece, sim, que a noção de justiça social só continua bem viva, mesmo, na Escócia”. Entendi que ela me dizia que a única esperança de a justiça social sobreviver depende de a “nação” Eton-City-News International [Murdochs] ser tirada do comando e perder o poder de manda-chuva.


Mas por que todos nós tanto nos preocupamos? São coisa como 5,3 milhões de Scots, um pingo no total da população do globo e menos de 1/10 da população do Reino Unido (que é, em si, parte do problema). Mesmo assim, o referendo significa muito e não só para os apoiadores da independência da Escócia e para quem defende a União. Como o apaixonado desejo de alguns ativistas do Tea Party, de reafirmar uma visão de EUA sagrados, o utopismo que movo alguns nacionalistas escoceses é parte de uma tendência mais ampla. Ante uma já iniciada e aparentemente incansável globalização, há uma ânsia crescente evidente em muitos países, para recuperar – ou inventar – alguma identidade, típica, única, que dê segurança. O referendo fala também a outras tendências e ansiedades mais amplas.

A Europa contém muito maior número de grupamentos nacionais históricos, que de estados. Dada o emagrecimento que sofre atualmente a popularidade da União Europeia, a pressão a favor do separatismo na Escócia – tenha sucesso ou não – sem dúvida alimentará também movimentos pró autonomia na Espanha, França, Itália e outros lugares, o que terá implicações não só sobre a economia e a governança, mas também para a OTAN.

Mesmo no Reino Unido, o referendo tem a ver com muito mais que só a Escócia. Em longa visita que fiz a Edimburgo mês passado, chamou-me a atenção que grande número de potenciais votantes pró “Sim” não são nacionalistas empedernidos. Falam mal, é claro, das “elites de Londres”, desconfiam terrivelmente de Westminster (e de Washington, sim), e querem mais autonomia local, iniciativas locais e um recomeço. Mas as reações deles não são diferentes das que encontrei no Norte da Inglaterra, em Gales e em outros pontos do Reino Unido. Muito do que se diz que seria “nacionalismo’ na Escócia é descontentamento e desejo de uma nova política ao sul da fronteira. E isso nos leva, pelo menos, a duas grandes perguntas.

O que teria acontecido se David Cameron não se tivesse recusado, inteligentemente, a incluir na cédula do referendo uma pergunta sobre modificar o regime de impostos do Parlamento Escocês [essa cláusula passou a ser referida, no debate, como opção “devo-max]? E, seja qual for o resultado: será que o autointeresse político e a necessidade de sobreviverem finalmente empurrarão os dois supostos importantes partidos políticos do Reino Unido na direção de mais localismo e federalismo?


A votação histórica do dia 18 de setembro resultou de duas decisões tomadas pelo governo escocês. Primeira, a decisão de realizar um referendo sobre o futuro constitucional da Escócia. Segunda, optar por decisão tomada por voto, entre o status quo e a total independência. A preferência inicial tendeu para três perguntas, com uma cláusula “devo-max além das duas outras. O governo do Reino Unido postou-se enfaticamente contra esse sistema. Exigiu só duas perguntas. Muitos rumores sugeriram que Alex Salmond teria preferido a cláusuladevo-max – que sem dúvida entusiasmaria massiva maioria do eleitorado escocês –, e depois de contatos com novos poderes, voltar a consultar o povo, em alguns poucos anos, sobre passos conclusivos para dar total soberania à Escócia. Mas a possibilidade de obter o santo-graal da independência da Escócia num único plebiscito tornou-se tentadora demais. Com a campanha pelo “Não” sem conseguir alcançar velocidade de cruzeiro, e a data do referendo se aproximando, o campo pró-independência talvez algum dia venha a lamentar ter rejeitado o gradualismo.


O governo da Escócia não se cansa de afirmar que “compromete-se com assegurar a retirada imediata e segura do [sistema atômico inglês] Trident, do território de uma possível futura Escócia independente. Inclui-se aí a remoção de todos os elementos do atual sistema”.  

No caso de o “Sim” sair vencedor, terão de acontecer negociações entre o governo da Escócia e o governo do Reino Unido sobre a transferência de itens e responsabilidades, do Reino Unido para as novas entidades independentes: a Escócia e o Reino Unido residual (que, aqui, chamarei de “Inglaterra”).

O presidente da Comissão Europeia tem argumentado que uma Escócia independente não continuará automaticamente a ser membro da União Europeia; pode-se argumentar que, pelos mesmos motivos, a Inglaterra teria de se recandidatar como novo membro, porque será novo estado europeu, antes inexistente. Também se pode dizer que a Inglaterra não conservaria o mesmo direito que tinha antes, como membro permanente do Conselho de Segurança. E há outras questões relacionadas a essas.

O Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares define “estado proprietário de arma nuclear” como estado que explodiu bomba atômica antes de 1967. Dado que nem Inglaterra nem Escócia existiam como estados independentes antes de 1967, a Inglaterra não pode, em teoria, continuar a ser classificada no mesmo grupo que Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte , porque, separada da Escócia, a Inglaterra passa a ser estado que possui bombas atômicas mas não explodiu bomba atômica antes de 1967.

O argumento chave para permitir que Inglaterra ocupe o assento do Reino Unido nos fóruns internacionais é a divisão da URSS em 1991. A Rússia e as demais ex-repúblicas da URSS enviaram carta conjunto ao Secretário-Geral da ONU declarando que a Rússia assumiria o lugar da URSS em todos os corpos da ONU e que assumiria as obrigações internacionais da URSS. Essa carta circulou entre estados membros da ONU e não há registro de que alguém se tenha oposto ao “arranjo”. Assim a Rússia tomou os assentos internacionais da URSS em 1993.

Esse precedente implica que a Escócia joga com cartas muito fortes na negociação com a Inglaterra: pode oferecer apoiar o pedido da Inglaterra, de ser sucessora do Reino Unido no Conselho de Segurança e de ser definida como estado com arma nuclear, em troca de a Inglaterra apoiar a Escócia na demanda de ser aceita como membro da União Europeia e da OTAN; um cronograma para a retirada do Trident, de território escocês; e um acordo para constituir uma área de moeda comum.

A independência da Escócia pode permitir que a Escócia una-se a Noruega e Dinamarca como estados europeus independentes sem armas nucleares e membros da OTAN; pode também ajudar a salvar a Inglaterra de suas pretensões nucleares e do papel de poodle dos EUA. Os dois países que passarão, nesse caso, a habitar a ilha da Grã Bretanha saem ganhando.





Nota dos tradutores

[*] T.J. Clark foi convidado das empresas-imprensa brasileiras que fazem a “festa literária” de Paraty, que ajuda a dar “diploma” de intelectual a jornalistas e “especialistas” de TV, todos de competência a cada dia mais duvidosa (quando não, puramente incompetentes). Seja como for, T.J. Clark esteve em Paraty em 2013, onde “recomendou” que as massas brasileiras fossem às ruas, para impedir que acontecesse a Copa do Mundo. A Copa do Mundo virou “palco” para uma direita ultra reacionária (e burra), que tangenciou uma parte muito reacionária de suposta “esquerda midiática” e “acadêmica” ipanemense, no Brasil – o que explica que T.J. Clark tenha ganho espaço no cenário ao lado dos contis, safatles e coisa & tal, desde julho de 2013. Interessante ver se continuará a merecer toda essa “audiência”, agora que trabalha pela independência da Escócia.