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domingo, 27 de outubro de 2013

Como a Agência de Segurança Nacional dos EUA invadiu as redes de telecomunicações na América Latina

26/10/2013, [*] Wayne Madsen, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Quiosque do Barufa na Vila Vudu
Entreouvido no quiosque do Barufa na Vila Vudu: Por algum estranhíssimo fenômeno, sempre inexplicado e, pior, pressuposto não existente, os “jornalistas” brasileiros [só rindo!] em todas as redes de televisão e rádio, dizem “Ene Ece A” [NSA], sempre que falam da National Security Agency – Agência de Segurança Nacional – dos EUA. A tal “Ene Ece A”, assim, é convertida, num passe de mágica, em algo que ninguém nem sabe o que seja. E fica tudo por isso mesmo.

Para piorar, os autoproclamados “grandes” “jornais” brasileiros [só rindo!], escrevem “Agência Nacional de Segurança”, o que a tal agência NÃO É, posto que ela é Agência [federal] de Segurança Nacional dos EUA.

Quem duvide, pode conferir todinho o Grupo GAFE:
   
- n’O Estado de S.Paulo, em: Obama e Hollande discutem espionagem da NSA na França.

Diga-se, a favor da revista-aquela que ela, pelo menos, não distorce também o nome da Agência de Segurança Nacional dos EUA (os demais “jornais” brasileiros distorcem também isso).

A verdadeira utilidade da "grande imprensa"
Mas cá na Vila Vudu, só dizemos e escrevemos tudo: “Agência de Segurança Nacional dos EUA”.

Com isso, cuidamos de informar que sempre que se ler ou ouvir falar de “Ene Ece A”, em português do Brasil, trata-se do interesse da segurança nacional dos EUA, contra os interesses da segurança nacional de todas as demais nações do mundo, no resto do planeta.


Mas vamos ao artigo do Madsen:
__________________________

Sede da NSA - National Security Agency (Agência de Segurança Nacional)
Graças aos documentos expostos por Edward Snowden, ex-analista [terceirizado] da Agência de Segurança Nacional dos EUA, as atividades de um ramo pouco conhecido da comunidade de inteligência dos EUA, o Serviço de Coleta Especial [Special Collection Service (SCS)], vão afinal se tornando mais conhecidas.

Uma organização híbrida, composta, na maioria, por pessoal da Agência de Segurança Nacional dos EUA, mas, também, por pessoal da Agência de Inteligência Central [Central Intelligence Agency (CIA)], o Serviço de Coleta Especial, conhecido como F6 dentro da Agência de Segurança Nacional dos EUA, está aquartelada em Beltsville, Maryland.

A sede do Serviço de Coleta Especial, num prédio em cuja fachada se leem as iniciais “CSSG”, fica próxima do Serviço de Comunicações Diplomáticas do Departamento de Estado dos EUA [orig. State Department’s Diplomatic Telecommunications Service (DTS)]. Um cabo subterrâneo de comunicações seguras que une os dois prédios permite que o Serviço de Coleta Especial comunique-se em perfeita segurança com os postos de escuta clandestina da Agência de Segurança Nacional dos EUA estabelecidos dentro das embaixadas dos EUA em todo o mundo. Essas “estações externas” da Agência de Segurança Nacional dos EUA, também conhecidas como “Elementos de Coleta Especial” e “Unidades de Coleta Especial” podem ser encontradas em embaixadas dos EUA de Brasília e Cidade do México, a Nova Delhi e Tóquio...

Como hoje se sabe graças a documentos de Snowden, o Serviço de Coleta Especial também grampeou a infraestrutura de comunicações por internet, por telefones celulares e por telefonia convencional em grande número de países, especialmente na América Latina.

Trabalhando com o Serviço de Coleta Especial da Agência de Segurança Nacional dos EUA está o Communications Security Establishment Canada (CSEC), agência parceira, uma dos “Cinco Olhos”, da Agência de Segurança Nacional dos EUA, para a escuta clandestina de alguns alvos especiais, como o Ministério de Minas e Energia do Brasil.

Por muitos anos, numa operação batizada PILGRIM [peregrino/a], a agência CSEC do Canadá manteve grampeadas as redes de comunicações na América Latina e no Caribe, a partir de estações de escuta instaladas dentro de embaixadas do Canadá e altas comissões no hemisfério ocidental. Essas instalações recebem nomes codificados, como CORNFLOWER [centáurea, a flor] para a Cidade do México; ARTICHOKE [alcachofra] para Caracas, e EGRET [garça] para Kingston, Jamaica.

A ampla coleta de dados digitais da Agência de Segurança Nacional dos EUA por linhas de fibras óticas, dos provedores de serviços de Internet, de conexões com empresas de telecomunicações, e de sistemas de telefonia celular na América Latina jamais seria possível sem a presença de quadros especialistas em inteligência dentro das empresas de comunicações e de outros provedores de serviços de rede. Entre as nações que partilham sinais de inteligência [ing. SIGINT], EUA, Grã-Bretanha, Austrália, Canadá e Nova Zelândia [todos esses países falantes da língua inglesa, também conhecidos como “os anglos” (NTs)], essa cooperação com as empresas comerciais é relativamente fácil. Elas cooperam com as respectivas agências SIGINT, ou em troca de favores, ou para evitar perseguição pelos respectivos governos.

Nos EUA, a Agência de Segurança Nacional conta com a cooperação das empresas Microsoft, AT&T, Yahoo, Google, Facebook, Twitter, Apple, Verizon e algumas outras, para levar avante a vigilância massiva do programa PRISM, de coleta de metadados.

Britain’s Government Communications Headquarters (GCHQ)
O Quartel-General das Comunicações do Governo da Grã-Bretanha [orig. Britain’s Government Communications Headquarters (GCHQ)] garantiu para si a cooperação das empresas British Telecom, Vodafone e Verizon. A CSEC canadense mantém relações de trabalho com empresas como Rogers Wireless e Bell Aliant; e o Diretorado de Sinais da Defesa da Austrália [orig. Australia’s Defense Signals Directorate (DSD)] recebe fluxo constante de dados de empresas como Macquarie Telecom e Optus.

É inconcebível que a coleta, pela Agência de Segurança Nacional dos EUA, de 70 milhões de comunicações interceptadas de chamadas telefônicas e mensagens de texto, de cidadãos franceses, num único mês, tenha sido feita sem que houvesse agentes de inteligência implantados dentro dos quadros técnicos da empresa francesa de telecomunicação que foi alvo da coleta, o Serviço de Provedor de Internet Wanadoo, e da empresa de telecomunicações Alcatel-Lucent.

Também é altamente improvável que a inteligência francesa não soubesse das atividades da Agência de Segurança Nacional dos EUA e de seu Serviço de Coleta Especial ativo na França.

Assim também, é altamente improvável que a infiltração pela Agência de Segurança Nacional dos EUA nas telecomunicações da Alemanha fosse ignorada pelas autoridades alemãs – sobretudo se se sabe que o serviço federal de inteligência da Alemanha, o Bundesnachrichtendiesnt (BND), forneceu dois programas de interceptação seus, Veras e Mira-4, e os dados interceptados, em troca do acesso assegurado ao BND a todos os sinais de inteligência das comunicações alemãs interceptados e armazenados numa base de dados da Agência de Segurança Nacional dos EUA conhecida como XKEYSCORE.

Praticamente não há dúvida alguma de que a Agência de Segurança Nacional dos EUA e sua equivalente alemã, o BND, têm agentes que trabalham dentro de empresas alemãs de telecomunicações, como a Deutsche Telekom.

Slides  secretos preparados pelo serviço britânico GCHQ confirmam o uso de pessoal de engenharia e apoio para invadir a rede BELGACOM na Bélgica. Um slide sobre o projeto secreto MERION ZETA para “furar” redes descreve a operação do GCHQ britânico:

“O acesso do Engenheiro Certificado de Rede Interno [Internal CNE (Certified Network Engineer) acess] continua a expandir-se – aproximando-se de ter acesso aos roteadores-núcleo [GRX (General Radio Packet Services, GPRS), Roaming Exchange] – atualmente em hosts com acesso”.

Outro slide revela o alvo da penetração no roteador núcleo da empresa BELGACOM: “roaming [procurando] alvos que usam smart phones”.

Em países nos quais a Agência de Segurança Nacional dos EUA e seus parceiros não tenham aliança formal com as autoridades nacionais de inteligência, o elemento Operações de Fonte Especial [Special Source Operations (SSO)] da Agência de Segurança Nacional dos EUA e a unidade Operações de Acesso “Sob-medida” [Tailored Access Operations (TAO)] procuram o Serviço de Coleta Especial e seus parceiros da CIA para infiltrar agentes no corpo técnico dos provedores de telecomunicações, especialmente como administradores de sistema, e os contrata como consultores; ou suborna empregados já ativos na empresa e setor que interesse, com dinheiro ou favores, ou por chantagem, servindo-se de informação pessoal embaraçosa ou comprometedora. Informações pessoais que possam ser usadas para chantagem estão constantemente sendo recolhidas pela Agência de Segurança Nacional dos EUA, de mensagens de texto, buscas na Internet, visitas a websites, listas de endereços e outras comunicações grampeadas.

Nas operações do Serviço de Coleta Especial, os sinais de inteligência (SIGINT) reúnem-se à “inteligência humana” (HUMINT). Em alguns países, como, por exemplo, no Afeganistão, a invasão da rede de celulares Roshan GSM é facilitada pela ampla presença de pessoal militar e de inteligência dos EUA e aliados. Em outros países, como, por exemplo, nos Emirados Árabes Unidos, a invasão da rede de celulares Thuraya foi facilitada pelo fato de que uma empresa grande fornecedora do Departamento de Defesa dos EUA, a Boeing, instalou a rede. A empresa Boeing também é grande fornecedora da Agência de Segurança Nacional dos EUA.

Essa interface SIGINT/HUMINT tem sido encontrada em aparelhos de escuta clandestina colocadas em máquinas de fax e computadores, em várias missões diplomáticas em New York e Washington, DC. Em vez de arriscar-se para “grampear” instalações diplomáticas na calada da noite, como faziam antes as equipes “da mala preta” do Serviço de Coleta Especial, muito mais fácil é infiltrar-se entre o pessoal de serviço de telecomunicações ou em empresas contratadas de suporte técnico.

O Serviço de Coleta Especial da Agência de Segurança Nacional dos EUA implantou equipamento de escuta e interceptação (e respectivos nomes-código dos respectivos projetos de interceptação) nos seguintes locais-alvo: na Missão Europeia na ONU (PERDIDO/APALACHEE), na embaixada da Itália em Washington (BRUNEAU/HEMLOCK); na Missão Francesa na ONU (BLACKFOOT), na Missão Grega na ONU (POWELL); na embaixada da França em Washington (WABASH/MAGOTHY); na embaixada grega em Washington (KLONDYKE); na Missão Brasileira na ONU (POCOMOKE); e na embaixada do Brasil em Washington (KATEEL).

O Designador de Atividade de Sinais de Inteligência da Agência de Segurança Nacional dos EUA “US3273”, codinome SILVERZEPHYR, é a unidade de coleta de dados do Serviço de Coleta Especial localizada dentro da embaixada dos EUA em Brasília, capital do Brasil. Além de vigiar as redes de telecomunicações do Brasil, a unidade de coleta SILVERZEPHYR também pode monitorar as transmissões por satélite estrangeiro (FORNSAT), a partir da embaixada, e possivelmente há outras unidades clandestinas que operam sem a cobertura diplomática, dentro do território brasileiro. Um desses pontos de acesso clandestino a redes encontrados nos documentos distribuídos por Snowden tem o nome, em código, de STEELKNIGHT.

Há cerca de 60 unidades similares do Serviço de Coleta Especial da Agência de Segurança Nacional dos EUA em operação a partir de outras embaixadas e missões dos EUA em todo o mundo, dentre outras, em Nova Delhi, Pequim, Moscou, Nairóbi, Cairo, Bagdá, Cabul, Caracas, Bogotá, São Jose, Cidade do México e Bangkok.  

Foi por obra da infiltração clandestina em redes brasileiras, usando uma combinação de meios técnicos de inteligência de sinais (SIGINT) e de inteligência humana (HUMINT), que a Agência de Segurança Nacional dos EUA conseguiu ouvir e ler comunicações da presidenta Dilma Rousseff, de seus principais conselheiros e de ministros do Brasil, inclusive do ministro de Minas e Energia. As operações de grampeamento e escuta clandestina e interceptação de comunicações do ministro de Minas e Energia foram delegadas à canadense CSEC, que batizou de “Projeto OLYMPIA”, o projeto de invasão das comunicações do Ministério de Minas e Energia e da empresa estatal brasileira de Petróleo, PETROBRAS.

As operações RAMPART, DISHFIRE e SCIMITAR da Agência de Segurança Nacional dos EUA atacaram especificamente as comunicações pessoais de chefes de governo e chefes de estado como Rousseff do Brasil; do presidente da Rússia, Vladimir Putin; do presidente da China Xi Jinping; do presidente do Equador, Rafael Correa; do presidente do Irã, Hasan Rouhani; do presidente da Bolívia, Evo Morales; do primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan; do primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh; do presidente do Quênia, Uhuru Kenyatta; e do presidente da Venezuela, Nicolas Maduro, dentre outros.

Uma unidade especial de inteligência de sinais da Agência de Segurança Nacional dos EUA, de nome “Equipe Liderança México” [Mexico Leadership Team] usou infiltração semelhante nas empresas Telmex e Satmex do México, para vigiar as comunicações privadas do atual presidente, Enrique Pena Nieto, e de seu antecessor, Felipe Calderón; a operação contra esse último recebeu o nome-código de FLATLIQUID. A operação de escuta clandestina da Agência de Segurança Nacional dos EUA contra o Secretariado Mexicano de Segurança Pública levou o nome-código de WHITETAMALE e tem de ter usado colaboradores internos, porque oficiais de segurança mexicanos, em alguns níveis, usam métodos de comunicação encriptados.

O Serviço de Coleta Especial da Agência de Segurança Nacional dos EUA com certeza contou com agentes infiltrados em posições chaves para capturar as comunicações por redes de telefone celular no México, numa operação clandestina que teve o nome-código de EVENINGEASEL.

Embora haja vários meios técnicos e contramedidas que podem conter a espionagem pela Agência de Segurança Nacional dos EUA e seus “Cinco Olhos” contra comunicações de governo e comunicações empresariais em qualquer lugar do mundo, uma simples medida de controle de vulnerabilidades, que se concentre no pessoal oficial e contratado [“terceirizados”, no Brasil] e na segurança física das comunicações é a primeira linha de defesa contra os milhões de olhos e ouvidos do “Big Brother”.  
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[*] Wayne Madsen é jornalista investigativo, autor e colunista. Tem cerca de vinte anos de experiência em questões de segurança. Como oficial da Marinha dos EUA projetou um dos primeiros programas de segurança de computadores para a Marinha os EUA. Tem sido comentarista freqüente da política de segurança nacional na Fox News e também nas redes ABC, NBC, CBS, PBS, CNN, BBC, Al Jazeera, e MS-NBC. Foi convidado a depor como testemunha perante a Câmara dos Deputados dos EUA, o Tribunal Penal da ONU para Ruanda, e num painel de investigação de terrorismo do governo francês. É membro da Sociedade de Jornalistas Profissionais (SPJ) e no National Press Club. Mora em Washington, DC.

sábado, 24 de agosto de 2013

Snowden: “Governo britânico está vazando segredos dele mesmo!”

24/8/2013, [*] Glenn Greenwald, The Guardian, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Sede da GCHQ (a "poodle" inglesa da NSA), nos arredores de Cheltenham.
O jornal The Independent publicou matéria hoje – cujo conteúdo, como o jornal diz repetidas vezes, viria de “documentos obtidos da Agência Nacional de Segurança dos EUA por Edward Snowden” – na qual revela que:

(...) britânicos dirigem uma estação secreta de monitoramento no Oriente Médio para interceptar e processar vastas quantidades de e-mails, chamadas telefônicas e tráfego na web a serviço de agências de inteligência ocidentais.

É a primeira vez que o The Independent publica qualquer revelação supostamente extraída de documentos da ASN-EUA, e esse é o tipo de “revelação” que os jornalistas que trabalham diretamente com Edward Snowden têm cuidadosamente evitado até o momento.

A pergunta óbvia é: quem é a fonte dessa “revelação”? Hoje cedo, Snowden disse que quer deixar bem claro que a fonte do The Independent não é ele:

Edward Snowden
Jamais falei com, trabalhei com, ou forneci qualquer tipo de material jornalístico ao jornal The Independent. A meu pedido, todos os jornalistas com os quais trabalhei têm sido criteriosos e têm cuidado atentamente para que só se revelem informações que devam ser de conhecimento público e que não ponham em perigo nenhuma pessoa e nenhum local. Pessoas em todos os níveis da sociedade até e inclusive o presidente dos EUA reconheceram a contribuição desse critério e desse cuidado com as revelações, para um necessário debate público, e muito nos orgulhamos de que sempre tenha sido assim.

Tudo faz crer que o governo britânico tenta agora criar a impressão de que as revelações publicadas no The Guardian e no Washington Post seriam danosas. Para “demonstrá-lo”, vaza para o The Independent informação intencionalmente danosa, atribuindo-a a outros.

O governo britânico tem de explicar o raciocínio que o levou à decisão de vazar informação que, se fosse vazada por cidadão privado, o governo britânico processaria o vazador por prática de ato criminoso.

Em outras palavras: exatamente quando há grande escândalo contra a exploração abusiva e ilegal, pela Grã-Bretanha, de sua “Lei para o terrorismo” [orig. Terrorism Act] – com a opinião pública contra o uso dessa lei para deter David Miranda – e exatamente quando o governo britânico tenta convencer um tribunal de que haveria graves perigos à segurança pública naqueles documentos, aí, repentinamente, aparece num jornal o tipo de vazamento “perfeito” que serve ao argumento do governo britânico, mas jamais aconteceu.

Isso é o que Snowden faz questão de deixar bem claro: apesar da tentativa, pelo The Independent, de fazer crer que assim seja, ele, Snowden, não é a fonte em que se baseia a matéria hoje publicada. Assim sendo, quem é a fonte?

O governo dos EUA já várias vezes usou essa tática: atacar agressivamente os que revelem informação incriminante ou embaraçosa sobre o governo, em nome de proteger a santidade da informação sigilosa, enquanto, ao mesmo tempo, o próprio governo vaza fartamente informação secreta, sempre que o vazamento serve aos seus interesses políticos.

Outra questão a discutir, sobre o artigo do The Independent: ali se sugere fortemente que haveria algum acordo para restringir a publicação em curso, pelo The Guardian, de documentos da Agência Nacional de Segurança. Falando em meu próprio nome, quero deixar bem claro o seguinte: Não firmei, não tenho conhecimento e não estou submetido a nenhum tipo de acordo que imponha qualquer limitação ao tipo de divulgação que estou dando àqueles documentos. Jamais, em nenhum caso, aceitaria quaisquer limitações. Como já disse várias vezes, táticas de abuso e de intimidação, do tipo a que todos assistimos essa semana, não me deterão no trabalho que estou fazendo e não deterão os que estão trabalhando comigo. Estou trabalhando pesado em várias novas matérias sobre a Agência de Segurança Nacional e pretendo publicá-las no momento em que estiverem concluídas.

Questão relacionada a essa

Daniel Ellsberg
A todos, na mídia e fora dela, que argumentam que a posse e transporte de informação secreta seja crime: Estão dizendo que acreditam que não só Daniel Ellsberg cometeu crime, mas também todos os repórteres e editores do New York Times também cometeram crime sempre que receberam, possuíram, transportaram e publicaram as milhares de páginas de documentos top-secret conhecidos como “Papéis do Pentágono”?

Creem também que o Washington Post cometeu crime quando recebeu e publicou informação top-secret de que o governo Bush mantinha uma rede de “buracos negros” da CIA pelo mundo, ou quando o New York Times revelou, em 2005, o programa top-secret pelo qual a Agência de Segurança Nacional dos EUA criara um programa de escuta clandestina sem autorização judicial para espionar cidadãos norte-americanos?

Ou estamos ante alguma espécie recém inventada de padrão de criminalidade que só se aplica às nossas matérias sobre a Agência Nacional de Segurança? Será que os profissionais da mídia que pregam que possuir ou transmitir informação sigilosa seria crime realmente não compreendem o precedente que estão construindo contra o jornalismo investigativo?

ATUALIZAÇÃO

Oliver Wright, do The Independent, acaba de tuitar o seguinte:

Para conhecimento de todos: o The Independent não foi “vazado” nem “conversado” pelo governo, para publicar a matéria de capa de hoje.

Oliver Wright
Deixando de lado o fato de que a matéria do The Independent cita como fonte “um alto funcionário de Whitehall”, ninguém disse que teriam sido “conversados” para publicar coisa alguma. A questão é: a informação não partiu de Snowden nem de qualquer dos jornalistas com os quais ele trabalha e trabalhou.

O The Independent revelou informação secreta – bastante significativa – sem informação sobre a fonte. Viram os documentos? Nesse caso, dado que não lhes foram entregues por Snowden nem pelos jornalistas com quem Snowden trabalha, que lhes deu acesso a eles?

Não me interessa, evidentemente, que identifiquem suas fontes, mas é indispensável alguma indicação sobre o que daria fundamento àquelas revelações, porque, pelo próprio conteúdo, são informações que só valem pelo valor da fonte. Deve-se supor que não publicariam informação daquela gravidade sem ver os documentos ou sem alguma confirmação de alguém que os tivesse visto. O número de pessoas que poderiam ter visto documentos com aquele conteúdo é muito restrito e inclui, evidentemente, o próprio governo britânico.
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[*] Glenn Greenwald (6 de março de 1967) é um advogado constitucionalista, colunista, blogueiro, comentarista político e escritor americano; colunista do site Salon.com e mantém um blog ligado jornal inglês The Guardian como depositário do acervo do “alertador” Edward Snowden. Influente na política dos Estados Unidos. Suas análises sobre a vigilância governamental e a separação de poderes foram citados nos jornais The New York Times, The Washington Post, em debates no Senado e na Câmara de Representantes dos Estados Unidos. Escreveu dois best-sellers, How Would a Patriot Act? (2006) e A Tragic Legacy (2007), e também a obra Great American Hypocrites (2008).

segunda-feira, 1 de julho de 2013

“Segurança nacional” nos EUA: Sempre MÁXIMA, para preservar o poder da aristocracia do dinheiro

28/6/2013, Wayne MADSEN, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Wayne Madsen
A Agência de Segurança Nacional dos EUA [orig. National Security Agency (NSA)] tenta agora outra campanha de propaganda superturbinada, pela imprensa e pela internet comercial. A maior agência de comunicações e de inteligência para tempos de ciberguerra do planeta insiste agora que sua infraestrutura de vigilância, gigantesca, descomunal, sem precedentes, existiria apenas para proteger os EUA contra ataques de terroristas e agentes ‘'estrangeiros'’ de inteligência.


De fato, a NSA existe exclusivamente para coletar informações, com vistas a proteger os interesses do dinheiro da aristocracia que governa os EUA.


Headquarter NSA - National Security Agency, Fort Meade, Maryland - USA
Sede da Agência de Segurança Nacional, Fort Meade, Maryland - EUA
Depois que o mundo tomou conhecimento da existência dessa rede de vigilância global massiva organizada na e a partir da Agência de Segurança Nacional dos EUA, graças às revelações feitas por Edward Snowden – ex-funcionário da CIA e depois empregado de empresa privada contratada para ‘terceirizar’ os serviços da Agência de Segurança Nacional dos EUA –, a elite no poder em Washington rapidamente se mobilizou. E passou a proclamar em uníssono, em todos os grandes jornais comerciais e redes comerciais de televisão, que Snowden seria “traidor”, e a NSA seria virtuosa guardiã da segurança nacional dos EUA.

O presidente Barack Obama pôs-se logo ombro-a-ombro, aliado ao presidente da Câmara de Deputados, o Republicano John Boehner; à líder da minoria, a Democrata Nancy Pelosi; à presidente da Comissão de Inteligência do Senado, a Democrata Dianne Feinstein; ao presidente da Comissão de Inteligência da Câmara de Deputados, o Republicano e ex-agente do FBI Mike Rogers; e a John Kerry, secretário de Estado, e, em uníssono, puseram-se todos a exigir que Snowden seja entregue aos EUA... para enfrentar sistema judiciário que está longe de merecer qualquer confiança de seja lá quem for.

Edward Snowden
Democratas e Republicanos puseram-se a gritar os mais desatinados desaforos contra todos os países que apareceram no percurso de Snowden como refugiado político: contra a Região Administrativa Especial de Hong Kong, a República Popular da China e o Equador.

Hong Kong respondeu que o pedido dos EUA, que “exigia” a extradição de Snowden, não era claro. E, na mesma resposta, exigiu que os EUA explicassem a espionagem e a invasão ilegal, pela Agência de Segurança Nacional dos EUA... contra redes de telecomunicações e de computadores em Hong Kong!

O governo Obama retaliou contra a China, que se recusou a violar as regras de “um país, dois sistemas” e não forçou Hong Kong a entregar Snowden aos EUA. Obama também condenou a Rússia por não deportar Snowden, de Moscou para os EUA.

A arrogância, a hipocrisia de Obama, apareceram expostas aos olhos do mundo, quando seu governo aplicou a “Lei Magnitsky” à Rússia. Chega a ser patético: a lei proíbe a entrada nos EUA e ex-funcionários do governo russo, porque a Rússia praticaria “violações dos direitos humanos”.

Em seguida, os EUA ameaçaram com “repercussões severas” o Equador, que forneceu documento oficial de refugiado, com o qual Snowden pode viajar internacionalmente, depois que Kerry revogou seu passaporte norte-americano. Quanto mais Washington arrancava as vestes, sapateava e berrava de fúria, mais o resto do mundo via o ridículo.

É o que acontece, se uma autoproclamada superpotência, proprietária do maior sistema de vigilância, controle e espionagem do mundo, põe-se a berrar palavrões e a rogar pragas, porque seu suposto inviolável programa de espionagem e coleta ilegal de informações, de posse das quais a tal superpotência pode chantagear e intimidar líderes políticos, foi exposto aos olhos do mundo, e por um único homem.

Mao Tse Tung da China referiu-se aos EUA, certa vez, como “tigre de papel”. Obama acaba de mostrar ao mundo que os EUA já não passam de resto de papel sem sentido, que vendem ao mundo como se fosse Constituição democrática. Já não são tigre.

Quando Obama defendia o poder de espionar e vigiar da Agência de Segurança Nacional, ninguém jamais o questionou sobre a participação do diretor-geral daquela Agência, general Keith Alexander, em cinco reuniões do grupo que comanda o dinheiro do mundo, o chamado “Clube de Bilderberg”.

Chega a ser cômico. Alexander vive a repetir que está(ria) protegendo o povo dos EUA contra número sempre variável de ameaças terroristas. Na verdade, Alexander é o que o general Smedley Butler da marinha dos EUA chamou uma vez de “apontador [orig. “finger-man”] a serviço do capitalismo”: alguém que identifica e aponta os inimigos da elite no poder. Butler – que comandava a Marinha dos EUA quando invadiu o México, o Haiti, Cuba, Nicarágua, República Dominicana e China – lamentou ter agido como “corneteiro pró-capitalismo”.[1] Hoje, o mesmo Alexander e seus apoiadores no governo Obama já são “corneteiros pró-fascismo”.

GCHQ - Government Communications Headquarters - Cheltenham, UK

Que a Agência de Segurança Nacional dos EUA e sua parceira britânica, Quartel-general das Comunicações de Governo [orig. Government Communications Headquarters (GCHQ)] inglês operam à margem de qualquer lei ou regulamentação internacional está fartamente comprovado pelo material já vazado. Por exemplo, pela evidência de que a agência britânica, a serviço da agência norte-americana, mantém escutas clandestinas no cabo transatlântico TAT-14 que liga Blaabjerg, Dinamarca, a Norden, East Friesland; a Alemanha a Katwijk; Países Baixos a St. Valery-en-Caux, França, a Bude, Cornualha, Inglaterra, a Tuckerton, New Jersey.

Em Bude, a GCHQ e a NSA, clandestinamente e em dupla, escutam o mesmo cabo, para recolher dados de internet e de tráfego de telefones que são então armazenados no sistema de metadados PRISM, da Agência de Segurança Nacional dos EUA, grande parte dos quais guardados no gigantesco centro de armazenamento de dados da NSA em Bluffdale, Utah. Essa operação clandestina de escuta e captura de dados em Bude leva o nome de “Operação TEMPORA”. Snowden divulgou e distribuiu todas as informações que comprovam que essa operação existe e opera.

A Inglaterra (UK) na Europa...
A Grã-Bretanha sempre foi vista como um “cavalo de Troia” da inteligência dos EUA enfiado na União Europeia. A operação de escuta clandestina em Bude chama a atenção para o fato de que a aliança de inteligência EUA-Grã-Bretanha desconsidera todas as demais alianças e tratados vigentes, inclusive o Tratado de Maastricht e o Tratado da Aliança do Atlântico Norte, OTAN. EUA e Grã-Bretanha espionam, em dupla, os seus próprios “aliados” alemães, franceses, holandeses e dinamarqueses.

Apesar do que agora se sabe, continuaram vigentes os acordos bilaterais de inteligência pelos quais a Agência de Segurança Nacional dos EUA recebia sinais interceptados pelas agências de inteligência de Alemanha, Dinamarca, Países Baixos e, em menos escala, da França, os chamados “Terceiros”. O que se constata é que a espionagem goza de prioridade absoluta, acima de qualquer acordo multinacional ou bilateral, sejam acordos militares, econômicos ou de qualquer natureza.

William Hague
William Hague, secretário de Relações Exteriores da Grã-Bretanha, menino-de-recados das elites globais, defendeu a aliança NSA-GCHQ quando discursou na Califórnia, na Biblioteca Presidencial Ronald Reagan. No mesmo momento, o ministro da Justiça do estado de Hesse, na Alemanha, dizia a Handelsblatt que “a Grã-Bretanha é uma sanguessuga de dados, operando dentro da União Europeia”. Para a ministra de Justiça da Alemanha, Sabine Leutheusser-Schnarrenberger, a operação TEMPORA “é um pesadelo hollywoodiano”.

Há muito tempo Hollywood produz filmes sobre mundos distópicos, onde forças obscuras assumem o controle sobre a vida privada dos habitantes do planeta. Hoje, a ficção científica já é fato, depois de eventos repetidos de divulgação de informações sobre o alcance descomunal da Agência Nacional de Segurança dos EUA, agência planetária de vigilância.

Michael Hastings
Assassinado pela NSA
Richard Clarke, o antigo “czar” do contraterrorismo de Bill Clinton e de George W. Bush, comentou que o terrível acidente de carro no qual morreu o jornalista Michael Hastings em Los Angeles pode ter sido resultado de o computador de seu [carro] Mercedes ter sido invadido; o carro teria sido descontroladamente acelerado, o que teria levado à colisão e à morte do motorista. Hastings, dentre outras investigações, já se aproximara do sistema de vigilância da Agência de Segurança Nacional que Snowden desmascarou, e distribuiu um e-mail, pouco antes de morrer, em que dizia que estava sendo seguido pelo FBI. Embora Hastings tenha morrido em rua próxima de Hollywood, nada há, aqui, de ficcional. Foi ação assustadoramente real. A Agência de Segurança Nacional dos EUA já é a agência sinistra, obscura, ultra secreta mostrada em incontáveis filmes, de 1984 e V de Vingança, a O mundo em 2022 [orig. Soylent Green] e Fahrenheit 451.

Russ Tice, ex-operador e analista de sinais de satélite da Agência de Segurança Nacional dos EUA está na imprensa e na internet, declarando que a NSA-EUA e seus parceiros de aliança jamais pouparan ninguém, na sua rede de vigilância e controle.

Barack Obama
Em 2004, a vigilância focou-se num senador recentemente eleito por Illinois, negro, de nome Barack Obama. Não há limites, nem reais, nem imaginários, para o tipo de informação pessoal privada que a Agência Nacional de Segurança dos EUA possui hoje, para chantagear o presidente Obama – e Obama jamais desobedeceu nem a mais ínfima das regras e ordens emitidas pela infraestrutura de inteligência dos EUA.

Obama, hoje, crê firmemente que controla a alucinada rede de espionagem da Agência de Segurança Nacional dos EUA.

De fato, não controla coisa alguma.

Em janeiro de 2017, quando deixar a presidência, ele, como antes dele os presidentes George W. Bush, Bill Clinton, George H. W. Bush, Ronald Reagan, Jimmy Carter, Gerald Ford, Richard Nixon e Lyndon Johnson serão alvos da vigilância ativa da Agência de Segurança Nacional, embora sejam membros da fraternidade ultra seleta dos ex-presidentes dos EUA.

A elite que controla o Panopticon de vigilância e controle da Agência de Segurança Nacional dos EUA é a elite do dinheiro: controla também o fechadíssimo clube dos ex-presidentes.

A NSA espiona e monitora todos os membros eleitos do Congresso dos EUA, todos os governadores dos 50 estados e territórios, cada celebridade, cada um que use aparelho de telefone celular ou computador ou qualquer rede em qualquer parte do mundo, das populosas ruas de Hong Kong e Cairo, à remota cidade de Kyzyl na República Tuva da Sibéria e em Grytviken na ilha antártica de South Georgia…

Ainda que os cidadãos do mundo decidissem levantar-se para destruir esse amaldiçoado sistema de supervigilância, não saberiam onde começar. A vigilância está em toda parte. Só os donos do sistema estão bem escondidos, longe dos sensores que tudo ouvem e tudo veem, oniscientes.


Nota dos tradutores

[1] I was a racketeer for capitalism, Maj. General Smedley Butler, 1935.