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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

A política de poder da expansão do capitalismo


29/9/2014, [*] Norman PollackCounterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O rótulo da KGB tem alto valor propagandístico na campanha de demonização de Putin, mas não há registro de que Putin algum dia tenha pessoalmente “ticado nome-sim nome-não”, numa lista de gente a ser assassinada por drones e ataques aéreos, como faz Obama em seu mundo cercado por bases militares.

E a KGB seria, por acaso, talvez, mais repressiva e mais assassina que a CIA ou Forças Especiais dos EUA, quando promovem “mudança de regime”? Ou mais invasiva, contra a privacidade dos cidadãos, que os programas de vigilância em massa da Agência de Segurança Nacional de Obama?

Vladimir Putin, segundo a imprensa-empresa "ocidental"
Vale tudo, para demonizar Putin, mesmo se, como hoje, a acusação é que ele viveria cercado de oligarcas – o que é muito mais a própria cara dos EUA, se se olhasse no espelho. Não preciso nem quero discutir ou explicar os negócios da plutocracia local que modelaram a economia russa pós-soviética. Sinceramente, a visão distópica de Jeffrey Sachs, que manda rasgar o socialismo em farrapos, é pior que só ideia infeliz; a aceitação operacional que essa visão recebe na Rússia é trair um Mundo Socialista que, depois da morte de Stálin, poderia ter feito avançar a democratização de largas porções da economia política internacional e mordido porção considerável do poder e do desempenho econômico dos EUA. Em vez disso, parece estar acontecendo o exato inverso.

Agora a Rússia, depois, sem demora a China, entram na alça de mira para serem politicamente enfraquecidas e na sequência politicamente desmembradas e/ou empurradas para o retrocesso econômico, porque a militarização pelos EUA do capital monopolista não tolerará oposição em sua estrutura recém definida de rivalidades intracapitalistas.

Putin e Li romperam a conexão histórica com Marx. Por isso eu, valha o que valer, quero se que veja em Rússia e China versão abastardada do capitalismo de Estado, não alguma espécie de clara opção pelo socialismo democrático. Os bilionários, os palácios de veraneio na Côte d’Azur, os condomínios que são cidades completamente privatizadas na Belgravia, arrastam aqueles países para o nível mais norte-americano de consumismo e desigualdade estrutural.

Mesmo assim, enfatizo aqui a Rússia, porque há uma diferença: Putin não saiu por aí armado para conquistar o mundo; uma Rússia estável numa ordem internacional igualmente estável parece bastar, e mantém dentro de limites estreitos quaisquer aspirações à hegemonia, se houver.

Com Putin, nada há da retórica grandiloquente de Obama sobre salvar o mundo para a liberdade e a democracia; nada de orçamento militar que estrangula a sobrevivência do país e que, parece que por projeto, já destruiu a rede de proteção social; e nada, tampouco, com Putin, da expansão drástica da modernização nuclear, para tornar letal todo o estoque de armas e aperfeiçoar os meios para transporte e detonação das armas. Putin é líder mundial muito mais circunspecto que Obama e seus predecessores.

O rótulo da KGB tem alto valor propagandístico na campanha de demonização de Putin, mas não há registro de que Putin algum dia tenha pessoalmente “ticado nome-sim nome-não”, numa lista de gente a ser assassinada por drones e ataques aéreos, como no mundo cercado por bases militares em que reina Obama.

E a KGB seria, por acaso, talvez, mais repressiva e mais assassina que a CIA ou Forças Especiais dos EUA, promovendo mudança de regime? Ou mais invasiva, contra a privacidade dos cidadãos, que os programas de vigilância em massa da Agência de Segurança Nacional de Obama?

Vladimir Putin - agente da KGB
Mas, sim, oligarcas são detestáveis, não importa a nacionalidade. E o The New York Times publicou artigo assinado por Steven Lee Myers, Jo Becker e Jim Yardley, intitulado Bancos Privados Alimentam Fortunas no Círculo Íntimo de Putin  (ing., 28/9/2014), que lança luz sobre a ascensão de Putin ao poder e – embora os EUA insistam em ignorar o assunto e não se veja nenhuma referência ao tema na imprensa-empresa de “informação” − mesmo que seja item que muito contribuiria para demonizar Putin – lança luz também sobre os custos sociais destrutivos da PRIVATIZAÇÃO de recursos do Estado.

Quando a Rússia põe-se sistematicamente a seguir os EUA, causa dano grave ao próprio potencial e realidade humanista. Paradoxalmente, a Velha Guerra Fria refletia diferenças ideológicas; mas a Nova Guerra Fria está parcialmente apagando aquelas diferenças, embora, sim, esteja subindo as apostas, porque dentro do capitalismo esconde-se hoje besta muito mais feroz do que a que se conhecia antes de 1917 e da Revolução Bolchevique: a da competição sem trégua pela supremacia planetária.

De diferente hoje, também, que a Rússia não dá sinais de estar disposta, no governo de Putin, a entrar no jogo; como se invertesse, para parafrasear, o mote de Stálin: “capitalismo num só país”. Quanto a Obama, por que parar às portas da Rússia?

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A matéria do NYT  “denuncia” a ação do Bank Rossiya que teria apoiado Putin e agora recebeu sanções dos EUA. A matéria não é importante [mais do mesmo incansável “denuncismo” de um tipo de jornalismo que visaria a construir mercados & consumidores “éticos” (NTs)], nem confiável. [Interessantes, só, os comentários de Pollack (NTs)].

Obama é mais capitalista, que nacionalista: quando favorece JPMorgan, Chase, Boeing, etc., não mistura, embora possa deliberadamente jogar um/uma contra o/a outro/a, o banco, o banqueiro ou a empresa, e a nação. Porque a nação, para Obama, é secundária ante os interesses dos grupos que o apoiam (razão pela qual as comunidades militar e de inteligência são consideradas ferramentas indispensáveis).  

[E, adiante:] Mas os jornalistas do NYT não informam que várias das tais atividades pouco recomendáveis no Banco Rossiya aconteceram em abril, depois de as sanções já terem sido declaradas; o banco reagiu contra o regime de sanções, muito mais do que “recompensou empresários amigos”. Seja como for, o Bank Rossiya – se se desconta a retórica incendiária dos jornalistas – contribuiu para converter em bilionários “vários apoiadores de Putin, cuja influência sobre setores estratégicos da economia auxiliaram Putin a manter-se firmemente agarrado ao poder”. Parece ser verdade que, sim, a amizade com Putin alterou a distribuição da riqueza, mesmo que Putin, pessoalmente, não se tenha beneficiado.

Bank Rossiya
Como paradigma do desenvolvimento capitalista, porém, lá está a transformação, de socialismo burocrático para capitalismo de Estado, com ou sem o papel de vanguarda entregue ao círculo presumido íntimo de Putin. (Bem provavelmente, o mesmo conjunto geral de dinâmicas históricas também se aplica à China, de Mao a Li; mas o capitalismo clientelista parece estar mais claramente identificado na China que na Rússia).

Se a Rússia tivesse conseguido fazer uma transformação pacífica depois do fim da União Soviética, em mundo no qual o capitalismo não tivesse sido veículo para dominação internacional, talvez – só talvez! – o resultado poderia ter sido uma economia mais genuinamente mista, depilada de bilionários e de favoritos do governo.

Não aconteceu. Na matéria do NYT [se se varrem os não-ditos e subentendidos de propaganda], os jornalistas acertam, no essencial geral, quando escrevem que:

Putin chegou ao poder prometendo eliminar, “como classe”, os oligarcas que haviam acumulado fortunas descomunais – e, para o modo de pensar do novo presidente, excessiva parcela de poder político – durante o governo do predecessor de Putin, Boris N. Yeltsin, no caos pós-comunista dos anos 1990s. Em vez disso, o que se viu foi o surgimento de uma nova classe de magnatas, homens de sombrias origens soviéticas que devem a Putin a vasta riqueza que acumularam e que, em troca, lhe garantem total fidelidade política.

Lamentavelmente, bancos sempre serão bancos. O Bank Rossiya (como disse Willie Sutton: “roubo bancos porque é lá que está o dinheiro”), é resultado do talento para o empreendedorismo, de gente como Yuri Kovalchuk, presidente e maior acionista, “físico por formação acadêmica, às vezes chamado “o Rupert Murdoch da Rússia”, pelo papel que teve na coordenação e arquitetura dos interesses do seu banco, na “mídia'’. Recorre também a “sombrias estruturas corporativas”, como empresas em paraísos fiscais, como as Ilhas Virgem britânicas. Quanto aos acionistas, foi gratificante ver na lista o nome de Sergei Roldugin, violoncelista que usou seu investimento no banco para converter um palácio do século XIX em São Petersburgo, em “casa da música e academia para formação de músicos clássicos” (o exemplo-propaganda vai aqui, grátis).

Não se discute o clientelismo – o NYT cita vários exemplos, além de enorme quantidade de oligarcas conhecidos associados ao banco. “Conexões de negócios”, escrevem os jornalistas do NYT, “tornaram-se conexões profundamente pessoais” [também com] “Putin, que, com sete empresários, muitos dos quais acionistas do Bank Rossiya, formaram [em 1996, o que os jornalistas não esclarecem], uma cooperativa de casas de verão, dachas, chamada Ozero [“lago”], no nordeste de São Petersburgo”.  

Dashas Ozero, S. Petersburgo (Google Earth)
(clique na imagem para aumentar)
Mas... e tudo isso será, como esbravejam os críticos, “cleptocracia legalizada”? A discussão seria longa e desinteressante e inconclusiva. Para reduzir ao que importa, basta dizer que o fator pessoal aparece bem separado das considerações de Estado, na cabeça de Putin.

Um daqueles oligarcas, Gennady Timchenko, que negocia petróleo e investe no Bank Rossiya (e que está hoje sob sanções impostas pelos EUA), explicou que:

(...) nunca lhe ocorreria questionar o presidente da Rússia sobre suas políticas na Ucrânia, fosse qual fosse o custo delas para empresas como as suas. “Seria impossível”, disse ele ao NYT, referindo-se ao presidente da Rússia formalmente pelo primeiro nome e nome do pai. Vladimir Vladimirovich age com vistas a defender os interesses da Rússia, sempre, em qualquer situação. Ponto. Parágrafo. Não faz concessões. Nem jamais passaria por nossa “cabeça discutir essas coisas”.

Essa fala é extremamente importante.

O capitalismo de estado não é necessariamente a interpenetração de empreendimentos, empresas, empresários e governo, que tantas vezes apresentei em artigos para CounterPunch em que examinava as dinâmicas estruturais que estão levando os EUA para a fase fascista do capitalismo avançado.

Ainda que Vladimir Vladimirovich não seja exatamente Tolstoy reencarnado, mesmo assim vê-se, em Putin, que o capitalismo na Rússia é mais russo, que nua-e-cruamente capitalista.

Os EUA sempre foram e permanecem puristamente capitalistas, impondo as mais repressivas políticas domésticas (vigilância massiva, clima de hostilidade contra os trabalhadores, o trabalhismo e o trabalho, vasta disparidade na distribuição da riqueza) e também as mais violentas políticas externas (guerra, intervenção, luta pela hegemonia) para tentar dar sustentabilidade ao capitalismo purista dos EUA. Essa é diferença muito grande entre Rússia e EUA, com os EUA declarando intolerável que a Rússia, talvez hoje ainda mais que sob a forma soviética, coloque outros fatores acima e por cima do capitalismo como os EUA o praticam: como sistema integralmente agressivo-expansivo, sem parar ante nenhum obstáculo em seu avanço global.

Foi fácil opor-se e condenar o socialismo. É menos fácil opor-se e condenar essa formação política nacionalista-capitalista que se vê hoje na Rússia de Putin, porque a simples existência dessa formação dentro do capitalismo já obriga a ver outras potencialidades, dentre as quais, que, mesmo no capitalismo, há meios para garantir melhor atenção e melhores condições de vida para os próprios cidadãos, do que o que se vê hoje nos EUA.


Oligarcas do círculo íntimo de Putin
(print screen recortado do NYTimes)

Na sequência, reproduzo meu “Comentário” ao artigo do NYT, mesma data:

Excelente documentação. Mas análise efetivamente e realmente comparativa mostra o quê? Que o capitalismo de empresários-cupinchas (oficialmente chamado “capitalismo clientelista”) está vivo e em ótimas condições tanto na Rússia como no Ocidente. Criticar o ocidente pelos mesmos mal-feitos soa estranho, porque os mesmos pressupostos valem igualmente para EUA e Rússia. Os EUA vivem hoje a fingir as mesmas puras convicções de algum anticomunismo, como na Primeira Guerra Fria (não há como negar que já estamos na Segunda), quando, na verdade os EUA invejam muito o sucesso capitalista da Rússia.

Os EUA atacam Putin como a raposa ataca uvas que não pode alcançar. O que foi o ‘resgate’ dos bancos norte-americanos “grandes demais para quebrar”, se não o capitalismo mais clientelista? O que é o íntimo relacionamento entre o Pentágono e as grandes empresas do complexo industrial da Defesa, se não o capitalismo mais clientelista? Não é preciso que algum líder, no caso Putin, ou exiba ou não exiba ele, pessoalmente, a doença. O capitalismo clientelista pode ser e é SISTÊMICO, nos EUA. E Obama mantém-se passivo e deixa aumentar a enorme clivagem, que só cresce, nos EUA, na distribuição da riqueza.

Putin pode dizer e comprovar que não enriqueceu no capitalismo clientelista de empresários-banqueiros-cupinchas e, na verdade, aceito sem dificuldade seu argumento de que suas políticas são motivadas por considerações geopolíticas e geoestratégicas, não por o que deseje um ou outro banqueiro ou oligarca.

Os EUA e Obama podem dizer o mesmo? Como poderiam, se não fazem outra coisa além de obrar servilmente a favor dos interesses de empresários e empresas norte-americanas por todo o planeta, armados até os dentes e matando sem parar, especialmente, hoje, no Oriente Médio?

O negócio das sanções chega a ser engraçado: folha de parreira que nem esconde o plano ambicioso dos EUA para conter, isolar e enfraquecer a Rússia – na sequência, como já disse, atacarão a China – com os EUA cada vez mais desesperados para recuperarem o trono na estrutura global.   

Com a ascensão de Rússia e China, os EUA que tratem de aprender a partilhar o poder. Será isso, ou o colapso.
__________________

[*] Norman Pollack é o autor de The Populist Response to Industrial America  (Harvard) e The Just Polity (Illinois), Guggenheim Fellow e professor emérito de História na Michigan State University. Seu último livro, Eichmann on the Potomac, foi publicado por CounterPunch/AK Press, no outono de 2013.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

As sanções de Obama contra a Rússia fracassarão

30/7/2014, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline − Rediff Blogs
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Mitt Romney (E) e Barack Obama na Lynn University - Debate de 23/10 2012
A nova Guerra Fria era a última coisa que o presidente Barack Obama tinha em mente no momento em que caía a noite, há bem pouco tempo, dia 22/10/2012, no campus da Lynn University na Florida. Foi a noite das facas longas, [1] do famoso debate sobre política exterior na campanha presidencial, quando Obama arrasou seu opositor, o Republicano Mitt Romney, ao ridicularizar uma de suas frases – Romney disse que a Rússia seria a maior ameaça geopolítica para os EUA no século XXI!

Eis o que disse-fez Obama, esnobando Romney:

Governador, muito me alegra que o senhor reconheça que a al-Qaeda é uma ameaça, porque há poucos meses, quando lhe perguntaram qual a maior ameaça geopolítica que os EUA enfrentam, o senhor respondeu “a Rússia” – não a al-Qaeda – o senhor disse “a Rússia”. E não interessa a ninguém trazer de volta a política exterior dos anos 1980s, porque, o senhor sabe, a Guerra Fria já acabou há 20 anos. Mas, governador... No que tenha a ver com política exterior, o senhor parece querer importar as políticas externas dos anos 1980s.

Depois, no programa para a reeleição, Obama ostentava o “reset” entre EUA e Rússia como o mais fulgurante feito de política externa de seu primeiro mandato no Salão Oval. Deitou e rolou vaidosamente sobre o acordo START sobre desarmamento com a Rússia; a ajuda valiosíssima da Rússia, que colaborava para criar a rede de rotas transitáveis conhecida como Rede Norte de Distribuição, e em outras áreas relacionadas à guerra no Afeganistão; e a Rússia que suspenderia vendas militares ao Irã, e a Rússia aliada dos EUA nas sanções contra o Irã, e tal e tal, como os ganhos mais substantivos de suas relações exteriores.

Não se sabe exatamente quando Obama mudou de lado e tornou-se soldado e seguidor de Romney. Obama atribui a metamorfose exclusivamente aos desenvolvimentos na Ucrânia, há mais ou menos quatro meses, desde a reincorporação da Crimeia pela Rússia. Mas nesse curto período, Obama passou-se para o extremo oposto, como se viu nas suas Observações sobre as mais recentes sanções da 3ª-feira (29/7/2014). Agora, Obama está gozando um gozo vicário, que consiste em “implantar medidas que tornem ainda mais fraca a já fraca economia russa”.

Sanções
Obama exulta que “projeções para o crescimento da economia russa já se aproximam do zero”. Deixa transparecer rancor, espírito mesquinho, que sujam a própria imagem dos EUA na comunidade mundial. Que ninguém se engane: há um mundo no mundo, além de EUA e Europa Ocidental. E todo esse “resto do mundo” está assistindo, hoje, com um misto de descrença e de irritação, ao desastre completo da marca “Obama”.

Essa vastíssima fatia da comunidade internacional, a maioria silenciosa, também tem algumas perguntinhas a fazer a Obama.

Para começar, por que ele se arroga o direito de interpretar a lei internacional como melhor se encaixe no que precisa ou deseja, num ou noutro ponto? Como ele explica as agressões dos EUA contra Iraque e Líbia, que resultaram na destruição dos dois países – ou a escandalosa ilegal interferência dos EUA na Síria? Quem é realmente responsável por disparar os tumultos na Ucrânia no ano passado?

Desgraçadamente, Obama não percebe que marcou gol contra e que está ferindo muito fundo a credibilidade das políticas dos EUA; e que tudo isso está tendo efeito muito estranho.

Considere-se, por exemplo, a retórica de sedução do secretário de Estado John Kerry na 2ª-feira (28/7/2014), tentando dar o tom perfeito à sua visita a Delhi, dois dias adiante. De nada adiantou. O discurso soou desafinado aos ouvidos indianos.

Na verdade, o porta-voz do Ministério de Relações Exteriores em Delhi acertou o alvo, na 4ª-feira (30/7/2014), quando confirmou que o ministro indiano deve discutir com Kerry as espantosas revelações do ex-empregado da CIA Edward Snowden sobre as atividades de espionagem do DSA na Índia. Disse que:

Todos sabem que há considerável preocupação na Índia quanto a autorizações dadas a agências norte-americanas para invadirem a privacidade de indivíduos, entidades e do governo da Índia. Portanto, obviamente, se há considerável preocupação, essas questões provavelmente serão discutidas, sem que eu entre agora em detalhes do que será discutido.

Barack Obama-NSA (John Cole)
Os jornais indianos em geral pintaram a missão de Kerry como movida por instintos vulgares e estreitos os mais crassos – interessado em vender mais armas à Índia e em tentar remover impedimentos à exportação de reatores nucleares norte-americanos para o mercado indiano. Kerry foi pintado como caixeiro viajante suarento em peça de Arthur Miller.

Por que essas coisas acontecem? A Índia sempre foi país que caía de joelhos em transe de paixão pelo predecessor de Obama, George W. Bush. Mas de algum modo, em algum momento, formou-se uma impressão na consciência dos indianos que agora é difícil de apagar – que Obama não passaria de oportunista cínico e autocentrado, singularmente devotado a qualquer causa que apareça e, assim, altamente suscetível a virar-casaca.

E é onde a mais recente virada nas políticas de Obama para a Rússia pode ferir os interesses dos EUA. Para dar um exemplo: a Índia não quer nem ouvir falar de aproximar-se, e não se aproximará, de qualquer estratégia dos EUA para reequilibrar-se na Ásia.

Obama não está entendendo que o mundo não tem interesse algum em isolar a Rússia ou em destruir a economia russa, num momento em que a economia mundial precisa tão desesperadamente de centros de crescimento, sobretudo fora do mundo ocidental.

Assim sendo, se a Europa só quer da Rússia o gás, e impôs sanções ao petróleo russo, é ótimo para economias em rápido crescimento como Índia ou China ou Vietnam. Se a Europa não quer mais comprar armas russas, ótimo também para Índia, Iraque, Egito, Venezuela, Brasil, etc., que têm negócios de armas com a Rússia. E não há dúvidas de que os BRICS e a Organização de Cooperação de Xangai não desmoronarão.

Os BRICS
O que Obama não vê é que os instrumentos da era da Guerra Fria estão ultrapassados e já não funcionam. É pura arrogância de Obama iludir-se de que ele seria alguma espécie de Flautista de Hamelin, que tocaria sua flautinha mágica e o mundo inteiro o seguiria sem fazer perguntas.

Por que o mundo guerrearia a guerra dos EUA, só para salvar a pseudo virgindade do dólar norte-americano de modo a preservar a hegemonia global dos EUA – por mais que se veja que os EUA já são país inexoravelmente em decadência?

O Banco dos BRICS, que está destinado a competir com o Banco Mundial e com o FMI – e que significa “o fim da dominação ocidental sobre a ordem financeira e econômica global”, para citar importante especialista estrategista indiano, que preside o Conselho Consultivo do Conselho de Segurança Nacional — já é inarredável fato da vida. Índia, Brasil e China não se assustarão ante as restrições que o ocidente está impondo contra bancos russos.

Nota dos tradutores

[1] Referência a outra data, 30/6/1934, conhecida como A noite das Facas Longas, quando foram assassinados dezenas de adversários (antigos e atuais) dos principais nazistas, pessoas informadas que, conhecendo Hitler, poderiam “falar demais” a seu respeito; trata-se, por isso, de um dos mais célebres e dramáticos expurgos do Partido Nacional−Socialista.
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu,Asia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House e muitas outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Nos últimos anos de mandato, Obama se prepara para esmagar o grupo BRICS

5/5/2014, [*] Wayne Madsen, Strategic Culture Foundation
Traduzido por mberublue


Bases da OTAN cercando a Rússia e a China
(Clique na imagem para aumentar)
A acumulação de forças aéreas e terrestres pela OTAN ao longo da fronteira russa no leste europeu e a viagem de poder e influência do presidente Barack Obama à Ásia tem um único objetivo. As forças visíveis e invisíveis que comandam de fato e ditam a política aos fantoches em Washington, Londres, Paris, Bruxelas, Berlim e outras capitais vassalas decidiram esmagar o grupo BRICS – o emergente e poderoso bloco financeiro que engloba Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

As discussões bilaterais e multilaterais entre os cinco poderes econômicos emergentes, destinadas a dissociar as economias BRICS do dólar americano como moeda de reserva e comércio vão de encontro ao único poder que Washington pode reunir a favor tanto de si mesmo quanto de seus naufragantes aliados – a força militar. Os problemas entre Ucrânia e Rússia sobre Criméia e federalismo são apenas uma máscara da qual Obama se serve para disfarçar suas verdadeiras intenções, que são a pulverização do grupo BRICS como uma alternativa viável para o sistema neocolonialista do ocidente e a total submissão das economias BRICS aos caprichos de Washington e de seus cambaleantes vassalos da União Européia.

O G8, que suspendeu a Rússia de seu quadro de membros e a Organização Mundial do Comércio, da qual a Rússia atualmente é membro, nunca tiveram interesse em livre comércio e políticas econômicas comuns. Pelo contrário, sempre engendraram trapaças nas salas dos fundos, com banqueiros e membros da Comissão Trilateral (Troika) e Bilderberg Group [1] que sempre quiseram e pensaram a dominação do mundo por uma única superpotência. Desde o colapso do Império Britânico depois do fim da Segunda Grande Guerra Mundial, essa superpotência tem sido os Estados Unidos.


O grupo BRICS está se livrando de sua dependência em relação ao dólar como moeda de comércio e reserva, mas não se trata apenas disso: essa atitude torna o dólar americano, já inútil devido às práticas de manipulação financeira do Federal Reserve Bank dos Estados Unidos ainda mais fraco, dado que a Rússia e China estão negociando e fazendo reservas em suas próprias moedas, respectivamente o rublo e o Yuan. Fazem planos para futuramente tornar realidade a embrionária União Econômica da Eurásia, um contraponto à superdimensionada e corrupta União Européia, para adotar, por volta de 2025, uma unidade monetária, que se chamará “altyn” independente do dólar e do euro. Tais planos deixaram banqueiros e globalistas do ocidente extremamente nervosos e o resultado foi vermos o aumento das forças militares dos Estados Unidos e do Ocidente nas fronteiras russas na Europa e nas águas territoriais da China no extremo oriente.

Os neoconservadores que dominam o aparato político em Washington, Bruxelas, Londres, Paris e Berlim, elaboraram um método arriscado para provocar a queda do grupo BRICS. O que o serviço de inteligência dos Estados Unidos e seus pares ocidentais planejam contra o grupo BRICS é exatamente a mesma coisa da qual acusam a Rússia de fazer na Ucrânia: o financiamento de grupos separatistas com a intenção de desintegrar a unidade nacional das nações BRICS. No que concerne às agências de inteligência, o grupo BRICS tem duas escolhas: continuar empenhado na incrementação do coletivo como alternativa à dominação ocidental e ver a possibilidade de dissolução de suas nações ou jogar a toalha e render-se às imposições da CIA, aos centuriões de Wall Street e aos juniores das “parceiras” em Londres, Paris e Berlim.

Ao mesmo tempo em que o G7 e a União Européia apertam cada vez mais as sanções impostas à Rússia, volta-se a falar sobre o status do enclave báltico da Rússia em Kaliningrado, uma zona de economia especial da Rússia, encravada entre duas nações da OTAN, Polônia e Lituânia. Kaliningrado, que já fez parte da província germânica da Prússia Oriental, é a sede da frota russa do Báltico. Na Alemanha e na OTAN, há elementos que gostariam de ver a Rússia não apenas perder seu Quartel General da frota do Mar Negro na Criméia como da sua frota do Mar Báltico em Kaliningrado.

The Baltic Times, que segue a linha de pensamento da Rádio Europa Livre/Rádio Liberdade /George Soros/CIA, já publicou um artigo onde sugere o bloqueio de Kaliningrado pela OTAN, ou Konigsberg (antigo nome de Kaliningrado quando do domínio da Prússia Oriental) como é cada vez mais chamado pela propaganda ocidental midiática, a menos que a Rússia se retire da Criméia. Em 28 de abril foi publicado o seguinte texto no web site do jornal The Baltic Times:

Por que não bloquear Kaliningrado pelo Mar Báltico e assentar tropas em toda a sua fronteira? Isso retiraria Kaliningrado da esfera russa, dando à OTAN uma forte carta a ser jogada na demanda do retorno da Criméia à Ucrânia e deteria todos os esforços da Rússia para a invasão do leste do país.

Enclave da Russia de Kaliningrado entre a Polônia e a Lituânia
(clique na imagemm para aumentar)
A Al Jazeera, rede de “notícias” dominada pelo principado da aristocracia do Qatar, insinuou a noção de que o ocidente poderia tentar a reintegração de Kaliningrado à Alemanha, pela simples invalidação dos termos do Tratado de Potsdam, que em 1945 foi assinado pelos líderes da URSS, dos Estados Unidos e da Grã Bretanha.

Kaliningrado não é a única porção da Rússia para a qual o imperialismo da OTAN e seus companheiros de aventuras, países como a Finlândia e a Turquia lançam olhares cobiçosos. Os finlandeses estão de olho na Karelia (região fronteiriça entre Rússia e Finlândia), perdida para a URSS depois que a Finlândia se aliou aos nazistas alemães na Segunda Grande Guerra. Os nacionalistas da Pan-Turquia estão atentos ao que acontece nas repúblicas muçulmanas autônomas no Cáucaso, assim como ao interior de repúblicas como o Tartaristão e Bascortostão. Não há nenhuma dúvida de que há longo tempo a Turquia provê armas e outros tipos de apoio aos chechenos, daguestãos, inguches e outros grupos terroristas em ação na região do Cáucaso russo.

Entretanto, na Ásia, não se trata de coincidência que a dança da guerra de Obama através do Japão, Coréia do Sul, Filipinas e Malásia tenha se associado a mais um ataque terrorista dos fundamentalistas uigures na Região Autônoma de Xinjiang-Uigur, território chinês de maioria muçulmana. Os terroristas uigures, que recebem financiamento da CIA e apoio propagandístico através do Serviço Uigur da Rádio Ásia Livre, esfaquearam passageiros de trens numa estação da Capital da região de Urumqi. Os terroristas explodiram uma bomba entre a estação de trens e um ponto de ônibus, matando três e ferindo pelo menos 80 pessoas. Em março, um atentado similar numa estação ferroviária na província de Yunam, no sul da China, matou 29. O ataque de Urumqi seguiu-se a poucas horas da visita do presidente Xi Jinping à região de Xinjiang.

Presidente Xi Jinping em sua visita a província de Xinjiang em 3/5/2014
Não há dúvida que a CIA, e Obama, que para a agência de inteligência é um mero fantoche, assim como sua mãe, seu padrasto e seus avós maternos, está executando um esquema prévio para brecar os membros do grupo BRICS através do apoio a separatistas e irredentistas em cada estado membro dos países BRICS.

A índia, com a multiplicidade de seus grupos étnicos, línguas e religiões, talvez seja hoje o alvo favorito para as operações da CIA de apoio a secessionistas. As operações da CIA se concentram nos Sikhs do Punjab, muçulmanos na Cashemira e Tâmeis no Sul.

O Partido do Cabo, um sombrio novo partido ao qual não se sabe quem financia, exige que a província sul africana de Western Cape (Cabo Ocidental, província situada no extremo sul da áfrica do Sul) se torne a República do Cabo. O partido já peticionou às Nações Unidas para que declare a província como um território sem governo autônomo da África do Sul, passível de eleições para a independência. Caso o Serviço de Inteligência da África do Sul rastreie o financiamento do partido, identificará de maneira clara as impressões digitais da CIA.

Depois que as relações entre o Brasil e Estados Unidos azedaram em conseqüência das revelações da espionagem efetuada pela NSA sobre a Presidenta Dilma Rousseff e altos funcionários brasileiros, houve novos incentivos para a independência de três estados do sul do Brasil: Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná tornar-se-iam a “República dos Pampas”. O movimento separatista ganhou popularidade entre europeus brancos nos três estados nos idos de 1990, particularmente entre descendentes de alemães e judeus com idéias anti-racistas, mas feneceu depois que lideranças realmente oposicionistas assumiram o poder no Brasil.

Espionagem dos EUA sobre o Brasil e até  contra a presidenta Dilma Rousseff
No entanto, com as relações entre Brasil e Estados Unidos no seu ponto historicamente mais baixo e com a hostilidade manifesta dos EUA contra o grupo BRICS, os secessionistas reapareceram com novo ímpeto.

Ao tentar esmagar o grupo BRICS, Washington e seus lacaios estão brincando com fogo. Tendo em mente que China, Rússia e Índia são potências nucleares, e com o Brasil emergindo de forma poderosa, o ocidente está brincando de roleta russa com uma arma cujo gatilho é nuclear.
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Nota do tradutor
[1] Grupo não oficial que se reúne anualmente, composto de 130 convidados, geralmente grandes personalidades empresariais, acadêmicas, políticas ou midiáticas. Criticado por ser aético, elitista e por práticas antidemocráticas.
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[*] Wayne Madsen é jornalista investigativo, autor e colunista. Tem cerca de vinte anos de experiência em questões de segurança. Como oficial da ativa projetou um dos primeiros programas de segurança de computadores para a Marinha dos EUA. Tem sido comentarista frequente da política de segurança nacional na Fox News e também nas redes ABC, NBC, CBS, PBS, CNN, BBC, Al Jazeera, Strategic Culture e MS-NBC. Foi convidado a depor como testemunha perante a Câmara dos Deputados dos EUA, o Tribunal Penal da ONU para Ruanda, e num painel de investigação de terrorismo do governo francês. É membro da Sociedade de Jornalistas Profissionais (SPJ) e do National Press Club. Reside em Washington, DC.