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quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Golpe final na soberania do País

[*] Adriano Benayon - 20.01.2015
Texto enviado pelo autor
Ilustrações: redecastorphoto

1. Não é hipérbole dizer que o Brasil – consciente disto, ou não – vive momento decisivo de sua História. Se não quiser sucumbir, em definitivo, à condição de subdesenvolvido e (mal) colonizado, o povo brasileiro terá de desarmar a trama, o golpe em que está sendo envolvido.

2. Essa trama - que visa a aplicar o golpe de misericórdia em qualquer veleidade de autonomia nacional, no campo industrial, no tecnológico e no militar – é perpetrada, como foram as anteriores intervenções, armadas ou não, pelas oligarquias financeiras transnacionais e instrumentalizada por seus representantes locais e pelo oligopólio mediático, como sempre utilizando hipocritamente o pretexto de combater a corrupção.

3. Que isso significa? Pôr o País à mercê das imposições imperiais sem que os brasileiros tenham qualquer capacidade de sequer atenuá-las.

4. Implica subordinação e impotência ainda maiores que as que levaram o País, de 1955 ao final dos anos 70, a endividar-se, importando projetos de infra-estrutura, em pacotes fechados, e permitindo o crescimento da dívida externa, através dos déficits de comércio exterior decorrentes da desnacionalização da economia, e em função das taxas de juros arbitrariamente elevadas e das não menos extorsivas taxas e comissões bancárias para reestruturar essa dívida.

5. Ora, a cada patamar inferior a que o Brasil é arrastado, o império o constrange a afundar para degraus ainda mais baixos, tal como aconteceu nas décadas perdidas do final do Século XX.

6. Na dos anos 1980s ocorreu a crise da dívida externa, após a qual o sistema financeiro mundial fez o Brasil ajoelhar-se diante de condições ainda mais draconianas dos bancos “credores”.

7. Na dos anos 1990s, mediante eleições diretas fraudadas em favor de ganhadores a serviço da oligarquia estrangeira, perpetraram-se as privatizações, nas quais se entregaram e desnacionalizaram, em troca de títulos podres de desprezível valor, estatais dotadas de patrimônios materiais de trilhões dólares e de patrimônios tecnológicos de valor incalculável.

8. A Operação Lava-Jato está sendo manipulada com o objetivo de destruir simultaneamente a Petrobrás - último reduto de estatal produtiva com formidável acervo tecnológico − bem como as grandes empreiteiras, último reduto do setor privado, de capital nacional, capaz de competir mundialmente.

O desamor ao Brasil e aos brasileiros
9. Quando do tsunami desnacionalizante dos anos 1990s, a Petrobrás foi das raras estatais não formalmente privatizadas. Mas não escapou ilesa: foi atingida pela famigerada Lei 9.478, de 1997, que a submeteu à ANP, infiltrada por “executivos” e “técnicos” ligados à oligarquia financeira e às petroleiras angloamericanas.

10. Essa Lei abriu a porta para a entrada de empresas estrangeiras na exploração de petróleo no Brasil, com direito a apropriar-se do óleo e exportá-lo, e propiciou a alienação da maior parte das ações preferenciais da Petrobrás, a preço ínfimo, na Bolsa de Nova York, para especuladores daquela oligarquia, como o notório George Soros.

11. Outros exemplos do trabalho dos tucanos de FHC agindo como cupins devoradores – no caso, a Petrobrás servindo de madeira – foram: extinguir unidades estratégicas, como o Departamento de Exploração (DEPEX); desestruturar a administração; e liquidar subsidiárias, como a INTERBRÁS e numerosas empresas da área petroquímica.

12. Como assinalam os engenheiros Araújo Bento e Paulo Moreno, com longa experiência na Petrobrás, a extinção do DEPEX fez que a empresa deixasse de investir na construção de sondas e passasse a alugá-las de empresas norte-americanas, como a Halliburton, a preços de 300 mil a 500 mil dólares diários por unidade.

13. Os próprios dados “secretos” da Petrobrás, inclusive os referentes às fabulosas descobertas de seus técnicos na plataforma continental e no pré-sal são administrados pela Halliburton. Em suma, a Petrobrás é uma empresa ocupada por interesses imperiais estrangeiros, do mesmo modo que o Brasil como um todo.

14. Além disso, a Petrobrás teve de endividar-se pesadamente para poder participar do excessivo número de leilões para explorar petróleo, determinados pela ANP, abertos a empresas estrangeiras.

Incompetentes e corruptos levam à PRIVATIZAÇÃO
15. Para obter apoio no Congresso, os governos têm usado, entre outras, as nomeações para diretorias da Petrobrás. Essa política corrupta e privilegiadora de incompetentes, já antiga, é bem-vinda para o império, e é adotada para “justificar” as privatizações: vai-se minando deliberadamente a empresa, e depois se atribui suas falhas à administração estatal.

16. Tal como agora, assim foi nos anos 80 e 90, com a grande mídia, incessantemente batendo nessa tecla, e fazendo grande parte da opinião pública acreditar nessa mentira.

17. Mas as notáveis realizações da Petrobrás são obras de técnicos de carreira, admitidos por concurso - funcionários públicos, como foram os da Alemanha, das épocas em que esse e outros países se desenvolveram. Entretanto, a mídia venal e servil ao império demoniza tudo que é estatal e oculta a corrupção oriunda de empresas estrangeira, as quais, de resto, podem pagar as propinas diretamente no exterior.

18. Para tirar do mercado as empreiteiras brasileiras, as forças ocultas - presentes nos poderes públicos do Brasil - resolveram aplicar, contra essas empresas, a recente Lei nº 12.846, de 01.08.2013, que estabelece “a responsabilização objetiva administrativa e civil de pessoas jurídicas pela prática de atos contra a administração pública, nacional ou estrangeira (sic)”.

19. Seu art. 2o  reza: “As pessoas jurídicas serão responsabilizadas objetivamente, nos âmbitos administrativo e civil, pelos atos lesivos previstos nesta Lei praticados em seu interesse ou benefício, exclusivo ou não”.

20. Como as coisas fluem rapidamente, quando se trata de favorecer as empresas transnacionais, a Petrobrás já cuidou de convidar empresas estrangeiras para as novas licitações, em vez das empreiteiras nacionais.

A imprensa-empresa é ANTIBRASILEIRA
21. A grande mídia (venal), tradicionalmente antibrasileira, noticia, animada, a possibilidade de se facilitar, em futuro próximo, a abertura a grupos estrangeiros do mercado de engenharia e construção civil, mais uma consequência da decisão, contrária aos interesses do País, de considerar inidôneas as empreiteiras envolvidas na operação Lava Jato.

22. Recentemente, nos EUA, foi infligida multa recorde, por corrupção, a um grupo francês, a qual supera de longe os US$ 400 milhões impostos à alemã Siemens. Já das norte-americanas, por maiores que sejam seus delitos, são cobradas multas lenientes, e não está em questão alijá-las das compras de Estado.

23. Já no Brasil − país ocupado e dominado, mesmo sem tropas nem bases estrangeiras − somente são punidas empresas de capital nacional. Fica patente o contraste entre um dos centros do império e um país relegado à condição de colônia.

24. Abalar a Petrobrás e inviabilizar as empreiteiras nacionais implica acelerar o desemprego de engenheiros e técnicos brasileiros em atividades tecnológicas. As empreiteiras são importantes não só na engenharia civil, onde se têm mostrado competitivas em obras importantes no exterior, mas também por formar quadros e gerar de empregos de qualidade nos serviços e na indústria, inclusive a eletrônica e suas aplicações na defesa nacional.

25. Elas estão presentes em: agroindústria; serviços de telefonia e comunicações; geração e distribuição de energia; petróleo; indústria química e petroquímica; construção naval. E - muito importante - estão formando a nascente Base Industrial da Defesa.

26. A desnacionalização da indústria já era muito grande no início dos anos 70 e, além disso, foi acelerada desde os anos 90, acarretando a desindustrialização. Paralelamente, avança, de forma avassaladora, a desnacionalização das empresas de serviços.

27. Este é o processo que culmina com o ataque mortal à Petrobrás e às empreiteiras nacionais, e está recebendo mais um impulso através da política fiscal - que vai cortar em 30% os investimentos públicos – e da política monetária que está elevando ainda mais os juros.

28. Isso implica favorecer ainda mais as transnacionais e eliminar maior número de empresas nacionais, sobre tudo pequenas e médias, provedoras mais de 80% dos empregos no País. De fato, só as transnacionais têm acesso aos recursos financeiros baratos do exterior e só elas têm dimensão para suportar os cortes nas compras governamentais.  


29. Como lembra o Prof. David Kupfer, a Petrobrás e seus fornecedores respondem por 20% do total dos investimentos produtivos realizados no Brasil. Só a Odebrecht e Camargo Corrêa foram responsáveis por mais de 230 mil empregos, em 2013.

30. A área econômica do Executivo parece não ver problema em reduzir o assustador déficit de transações correntes (mais de US$ 90 bilhões de dólares em 2013), causando uma depressão econômica, cujo efeito, além de inviabilizar definitivamente o desenvolvimento do País, implica deteriorar a qualidade de vida da “classe média” e tornar ainda mais insuportáveis as condições de vida de mais da metade da população, criando condições para a convulsão social.

31. Por tudo isso, há necessidade de grande campanha para virar o jogo,  com a participação de indivíduos, capazes de mobilizar expressivo número de compatriotas, e de entidades dispostas a agir coletivamente.

Leia também do mesmo autor: 


Outros artigos do professor Benayon podem ser encontrados no blog redecastorphoto via buscador localizado à esquerda das postagens.

[*] Adriano Benayon: Consultor em finanças e em biomassa. Doutor em Economia, pela Universidade de Hamburgo, Bacharel em Direito, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ. Diplomado no Curso de Altos Estudos do Instituto Rio Branco, Itamaraty. Diplomata de carreira, postos na Holanda, Paraguai, Bulgária, Alemanha, Estados Unidos e México. Delegado do Brasil em reuniões multilaterais nas áreas econômica e tecnológica. Consultor Legislativo da Câmara dos Deputados e do Senado Federal na área de economia. Professor da Universidade de Brasília (Empresas Multinacionais; Sistema Financeiro Internacional; Estado e Desenvolvimento no Brasil). Autor de Globalização versus Desenvolvimento, 2ª ed. Editora Escrituras, São Paulo.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Brasil: Modelos Político e Econômico e a Dívida Pública

Palestra do professor [*] Adriano Benayon realizada no auditório da Reitoria da Universidade Nacional de Brasília (UNB) em 19/11/2014.


Assista a palestra acima e leia do mesmo autor:

 

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[*] Adriano Benayon: Consultor em finanças e em biomassa. Doutor em Economia, pela Universidade de Hamburgo, Bacharel em Direito, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ. Diplomado no Curso de Altos Estudos do Instituto Rio Branco, Itamaraty. Diplomata de carreira, postos na Holanda, Paraguai, Bulgária, Alemanha, Estados Unidos e México. Delegado do Brasil em reuniões multilaterais nas áreas econômica e tecnológica. Consultor Legislativo da Câmara dos Deputados e do Senado Federal na área de economia. Professor da Universidade de Brasília (Empresas Multinacionais; Sistema Financeiro Internacional; Estado e Desenvolvimento no Brasil). Autor de Globalização versus Desenvolvimento, 2ª ed. Editora Escrituras, São Paulo.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

A política de poder da expansão do capitalismo


29/9/2014, [*] Norman PollackCounterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O rótulo da KGB tem alto valor propagandístico na campanha de demonização de Putin, mas não há registro de que Putin algum dia tenha pessoalmente “ticado nome-sim nome-não”, numa lista de gente a ser assassinada por drones e ataques aéreos, como faz Obama em seu mundo cercado por bases militares.

E a KGB seria, por acaso, talvez, mais repressiva e mais assassina que a CIA ou Forças Especiais dos EUA, quando promovem “mudança de regime”? Ou mais invasiva, contra a privacidade dos cidadãos, que os programas de vigilância em massa da Agência de Segurança Nacional de Obama?

Vladimir Putin, segundo a imprensa-empresa "ocidental"
Vale tudo, para demonizar Putin, mesmo se, como hoje, a acusação é que ele viveria cercado de oligarcas – o que é muito mais a própria cara dos EUA, se se olhasse no espelho. Não preciso nem quero discutir ou explicar os negócios da plutocracia local que modelaram a economia russa pós-soviética. Sinceramente, a visão distópica de Jeffrey Sachs, que manda rasgar o socialismo em farrapos, é pior que só ideia infeliz; a aceitação operacional que essa visão recebe na Rússia é trair um Mundo Socialista que, depois da morte de Stálin, poderia ter feito avançar a democratização de largas porções da economia política internacional e mordido porção considerável do poder e do desempenho econômico dos EUA. Em vez disso, parece estar acontecendo o exato inverso.

Agora a Rússia, depois, sem demora a China, entram na alça de mira para serem politicamente enfraquecidas e na sequência politicamente desmembradas e/ou empurradas para o retrocesso econômico, porque a militarização pelos EUA do capital monopolista não tolerará oposição em sua estrutura recém definida de rivalidades intracapitalistas.

Putin e Li romperam a conexão histórica com Marx. Por isso eu, valha o que valer, quero se que veja em Rússia e China versão abastardada do capitalismo de Estado, não alguma espécie de clara opção pelo socialismo democrático. Os bilionários, os palácios de veraneio na Côte d’Azur, os condomínios que são cidades completamente privatizadas na Belgravia, arrastam aqueles países para o nível mais norte-americano de consumismo e desigualdade estrutural.

Mesmo assim, enfatizo aqui a Rússia, porque há uma diferença: Putin não saiu por aí armado para conquistar o mundo; uma Rússia estável numa ordem internacional igualmente estável parece bastar, e mantém dentro de limites estreitos quaisquer aspirações à hegemonia, se houver.

Com Putin, nada há da retórica grandiloquente de Obama sobre salvar o mundo para a liberdade e a democracia; nada de orçamento militar que estrangula a sobrevivência do país e que, parece que por projeto, já destruiu a rede de proteção social; e nada, tampouco, com Putin, da expansão drástica da modernização nuclear, para tornar letal todo o estoque de armas e aperfeiçoar os meios para transporte e detonação das armas. Putin é líder mundial muito mais circunspecto que Obama e seus predecessores.

O rótulo da KGB tem alto valor propagandístico na campanha de demonização de Putin, mas não há registro de que Putin algum dia tenha pessoalmente “ticado nome-sim nome-não”, numa lista de gente a ser assassinada por drones e ataques aéreos, como no mundo cercado por bases militares em que reina Obama.

E a KGB seria, por acaso, talvez, mais repressiva e mais assassina que a CIA ou Forças Especiais dos EUA, promovendo mudança de regime? Ou mais invasiva, contra a privacidade dos cidadãos, que os programas de vigilância em massa da Agência de Segurança Nacional de Obama?

Vladimir Putin - agente da KGB
Mas, sim, oligarcas são detestáveis, não importa a nacionalidade. E o The New York Times publicou artigo assinado por Steven Lee Myers, Jo Becker e Jim Yardley, intitulado Bancos Privados Alimentam Fortunas no Círculo Íntimo de Putin  (ing., 28/9/2014), que lança luz sobre a ascensão de Putin ao poder e – embora os EUA insistam em ignorar o assunto e não se veja nenhuma referência ao tema na imprensa-empresa de “informação” − mesmo que seja item que muito contribuiria para demonizar Putin – lança luz também sobre os custos sociais destrutivos da PRIVATIZAÇÃO de recursos do Estado.

Quando a Rússia põe-se sistematicamente a seguir os EUA, causa dano grave ao próprio potencial e realidade humanista. Paradoxalmente, a Velha Guerra Fria refletia diferenças ideológicas; mas a Nova Guerra Fria está parcialmente apagando aquelas diferenças, embora, sim, esteja subindo as apostas, porque dentro do capitalismo esconde-se hoje besta muito mais feroz do que a que se conhecia antes de 1917 e da Revolução Bolchevique: a da competição sem trégua pela supremacia planetária.

De diferente hoje, também, que a Rússia não dá sinais de estar disposta, no governo de Putin, a entrar no jogo; como se invertesse, para parafrasear, o mote de Stálin: “capitalismo num só país”. Quanto a Obama, por que parar às portas da Rússia?

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A matéria do NYT  “denuncia” a ação do Bank Rossiya que teria apoiado Putin e agora recebeu sanções dos EUA. A matéria não é importante [mais do mesmo incansável “denuncismo” de um tipo de jornalismo que visaria a construir mercados & consumidores “éticos” (NTs)], nem confiável. [Interessantes, só, os comentários de Pollack (NTs)].

Obama é mais capitalista, que nacionalista: quando favorece JPMorgan, Chase, Boeing, etc., não mistura, embora possa deliberadamente jogar um/uma contra o/a outro/a, o banco, o banqueiro ou a empresa, e a nação. Porque a nação, para Obama, é secundária ante os interesses dos grupos que o apoiam (razão pela qual as comunidades militar e de inteligência são consideradas ferramentas indispensáveis).  

[E, adiante:] Mas os jornalistas do NYT não informam que várias das tais atividades pouco recomendáveis no Banco Rossiya aconteceram em abril, depois de as sanções já terem sido declaradas; o banco reagiu contra o regime de sanções, muito mais do que “recompensou empresários amigos”. Seja como for, o Bank Rossiya – se se desconta a retórica incendiária dos jornalistas – contribuiu para converter em bilionários “vários apoiadores de Putin, cuja influência sobre setores estratégicos da economia auxiliaram Putin a manter-se firmemente agarrado ao poder”. Parece ser verdade que, sim, a amizade com Putin alterou a distribuição da riqueza, mesmo que Putin, pessoalmente, não se tenha beneficiado.

Bank Rossiya
Como paradigma do desenvolvimento capitalista, porém, lá está a transformação, de socialismo burocrático para capitalismo de Estado, com ou sem o papel de vanguarda entregue ao círculo presumido íntimo de Putin. (Bem provavelmente, o mesmo conjunto geral de dinâmicas históricas também se aplica à China, de Mao a Li; mas o capitalismo clientelista parece estar mais claramente identificado na China que na Rússia).

Se a Rússia tivesse conseguido fazer uma transformação pacífica depois do fim da União Soviética, em mundo no qual o capitalismo não tivesse sido veículo para dominação internacional, talvez – só talvez! – o resultado poderia ter sido uma economia mais genuinamente mista, depilada de bilionários e de favoritos do governo.

Não aconteceu. Na matéria do NYT [se se varrem os não-ditos e subentendidos de propaganda], os jornalistas acertam, no essencial geral, quando escrevem que:

Putin chegou ao poder prometendo eliminar, “como classe”, os oligarcas que haviam acumulado fortunas descomunais – e, para o modo de pensar do novo presidente, excessiva parcela de poder político – durante o governo do predecessor de Putin, Boris N. Yeltsin, no caos pós-comunista dos anos 1990s. Em vez disso, o que se viu foi o surgimento de uma nova classe de magnatas, homens de sombrias origens soviéticas que devem a Putin a vasta riqueza que acumularam e que, em troca, lhe garantem total fidelidade política.

Lamentavelmente, bancos sempre serão bancos. O Bank Rossiya (como disse Willie Sutton: “roubo bancos porque é lá que está o dinheiro”), é resultado do talento para o empreendedorismo, de gente como Yuri Kovalchuk, presidente e maior acionista, “físico por formação acadêmica, às vezes chamado “o Rupert Murdoch da Rússia”, pelo papel que teve na coordenação e arquitetura dos interesses do seu banco, na “mídia'’. Recorre também a “sombrias estruturas corporativas”, como empresas em paraísos fiscais, como as Ilhas Virgem britânicas. Quanto aos acionistas, foi gratificante ver na lista o nome de Sergei Roldugin, violoncelista que usou seu investimento no banco para converter um palácio do século XIX em São Petersburgo, em “casa da música e academia para formação de músicos clássicos” (o exemplo-propaganda vai aqui, grátis).

Não se discute o clientelismo – o NYT cita vários exemplos, além de enorme quantidade de oligarcas conhecidos associados ao banco. “Conexões de negócios”, escrevem os jornalistas do NYT, “tornaram-se conexões profundamente pessoais” [também com] “Putin, que, com sete empresários, muitos dos quais acionistas do Bank Rossiya, formaram [em 1996, o que os jornalistas não esclarecem], uma cooperativa de casas de verão, dachas, chamada Ozero [“lago”], no nordeste de São Petersburgo”.  

Dashas Ozero, S. Petersburgo (Google Earth)
(clique na imagem para aumentar)
Mas... e tudo isso será, como esbravejam os críticos, “cleptocracia legalizada”? A discussão seria longa e desinteressante e inconclusiva. Para reduzir ao que importa, basta dizer que o fator pessoal aparece bem separado das considerações de Estado, na cabeça de Putin.

Um daqueles oligarcas, Gennady Timchenko, que negocia petróleo e investe no Bank Rossiya (e que está hoje sob sanções impostas pelos EUA), explicou que:

(...) nunca lhe ocorreria questionar o presidente da Rússia sobre suas políticas na Ucrânia, fosse qual fosse o custo delas para empresas como as suas. “Seria impossível”, disse ele ao NYT, referindo-se ao presidente da Rússia formalmente pelo primeiro nome e nome do pai. Vladimir Vladimirovich age com vistas a defender os interesses da Rússia, sempre, em qualquer situação. Ponto. Parágrafo. Não faz concessões. Nem jamais passaria por nossa “cabeça discutir essas coisas”.

Essa fala é extremamente importante.

O capitalismo de estado não é necessariamente a interpenetração de empreendimentos, empresas, empresários e governo, que tantas vezes apresentei em artigos para CounterPunch em que examinava as dinâmicas estruturais que estão levando os EUA para a fase fascista do capitalismo avançado.

Ainda que Vladimir Vladimirovich não seja exatamente Tolstoy reencarnado, mesmo assim vê-se, em Putin, que o capitalismo na Rússia é mais russo, que nua-e-cruamente capitalista.

Os EUA sempre foram e permanecem puristamente capitalistas, impondo as mais repressivas políticas domésticas (vigilância massiva, clima de hostilidade contra os trabalhadores, o trabalhismo e o trabalho, vasta disparidade na distribuição da riqueza) e também as mais violentas políticas externas (guerra, intervenção, luta pela hegemonia) para tentar dar sustentabilidade ao capitalismo purista dos EUA. Essa é diferença muito grande entre Rússia e EUA, com os EUA declarando intolerável que a Rússia, talvez hoje ainda mais que sob a forma soviética, coloque outros fatores acima e por cima do capitalismo como os EUA o praticam: como sistema integralmente agressivo-expansivo, sem parar ante nenhum obstáculo em seu avanço global.

Foi fácil opor-se e condenar o socialismo. É menos fácil opor-se e condenar essa formação política nacionalista-capitalista que se vê hoje na Rússia de Putin, porque a simples existência dessa formação dentro do capitalismo já obriga a ver outras potencialidades, dentre as quais, que, mesmo no capitalismo, há meios para garantir melhor atenção e melhores condições de vida para os próprios cidadãos, do que o que se vê hoje nos EUA.


Oligarcas do círculo íntimo de Putin
(print screen recortado do NYTimes)

Na sequência, reproduzo meu “Comentário” ao artigo do NYT, mesma data:

Excelente documentação. Mas análise efetivamente e realmente comparativa mostra o quê? Que o capitalismo de empresários-cupinchas (oficialmente chamado “capitalismo clientelista”) está vivo e em ótimas condições tanto na Rússia como no Ocidente. Criticar o ocidente pelos mesmos mal-feitos soa estranho, porque os mesmos pressupostos valem igualmente para EUA e Rússia. Os EUA vivem hoje a fingir as mesmas puras convicções de algum anticomunismo, como na Primeira Guerra Fria (não há como negar que já estamos na Segunda), quando, na verdade os EUA invejam muito o sucesso capitalista da Rússia.

Os EUA atacam Putin como a raposa ataca uvas que não pode alcançar. O que foi o ‘resgate’ dos bancos norte-americanos “grandes demais para quebrar”, se não o capitalismo mais clientelista? O que é o íntimo relacionamento entre o Pentágono e as grandes empresas do complexo industrial da Defesa, se não o capitalismo mais clientelista? Não é preciso que algum líder, no caso Putin, ou exiba ou não exiba ele, pessoalmente, a doença. O capitalismo clientelista pode ser e é SISTÊMICO, nos EUA. E Obama mantém-se passivo e deixa aumentar a enorme clivagem, que só cresce, nos EUA, na distribuição da riqueza.

Putin pode dizer e comprovar que não enriqueceu no capitalismo clientelista de empresários-banqueiros-cupinchas e, na verdade, aceito sem dificuldade seu argumento de que suas políticas são motivadas por considerações geopolíticas e geoestratégicas, não por o que deseje um ou outro banqueiro ou oligarca.

Os EUA e Obama podem dizer o mesmo? Como poderiam, se não fazem outra coisa além de obrar servilmente a favor dos interesses de empresários e empresas norte-americanas por todo o planeta, armados até os dentes e matando sem parar, especialmente, hoje, no Oriente Médio?

O negócio das sanções chega a ser engraçado: folha de parreira que nem esconde o plano ambicioso dos EUA para conter, isolar e enfraquecer a Rússia – na sequência, como já disse, atacarão a China – com os EUA cada vez mais desesperados para recuperarem o trono na estrutura global.   

Com a ascensão de Rússia e China, os EUA que tratem de aprender a partilhar o poder. Será isso, ou o colapso.
__________________

[*] Norman Pollack é o autor de The Populist Response to Industrial America  (Harvard) e The Just Polity (Illinois), Guggenheim Fellow e professor emérito de História na Michigan State University. Seu último livro, Eichmann on the Potomac, foi publicado por CounterPunch/AK Press, no outono de 2013.