Mostrando postagens com marcador Golpe Militar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Golpe Militar. Mostrar todas as postagens

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Nova Análise: Eleições antecipadas no Egito “podem aliviar pressão estrangeira”

27/1/2014, [*] Mahmoud Fouly, Xinhuanet, China
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Karl Marx explica, no seu celebrado 18 brumário de Luis Bonaparte [1], que as experiências de 1848-51 comprovaram-se muito valiosas para a bem-sucedida revolução de trabalhadores de 1871. E o Egito? Terá interlúdio de 20 anos, antes que volte a revolução real? Ou pode acontecer muito antes? Perguntem à Esfinge (...). Quando se trata de anatomia de revoluções, ninguém provavelmente sabe mais que Moscou e Pequim. E ambas estão apoiando robustamente a antecipação de eleições presidenciais no Egito (o que implica que estão, hoje, com o general Sisi e o que ele representa). (MK Bhadrakumar, Arab Spring speaks through graffiti -9/1/2014, Indian Punchline)

Adly Mansour
CAIRO, 26/1/2014 (Xinhua) – A decisão do presidente interino do Egito, Adly Mansour, anunciada domingo, de realizar eleições presidenciais antes das eleições parlamentares, “pode aliviar pressões estrangeiras” contra o Egito relacionadas ao mapa do caminho do atual governo apoiado pelos militares, dizem alguns especialistas em segurança.

Dr. Gamal Salama
Nações estrangeiras estão encarando o Egito como estado “acéfalo”, porque tem presidente provisório e governo de transição; nesse contexto, a decisão sobre antecipar eleições dará ao Egito mais peso e mais credibilidade nas relações com a comunidade internacional - disse Gamal Salama, diretor do Departamento de Ciência Política na Universidade de Suez.

Salama observou que a decisão aliviará pressões de estrangeiros sobre o Egito, na implementação de seu mapa do caminho para o futuro, depois da derrubada do presidente islamista, Mohamed Mursi, por golpe militar, em julho de 2013.

O presidente interino assinou também no domingo um decreto presidencial, baseado na Constituição recentemente aprovada, no qual ordena que a comissão eleitoral comece, no prazo de 90 dias, os procedimentos para a eleição.

Eleições presidenciais antes das eleições parlamentares podem acelerar o processo de cristalizar uma personalidade egípcia, no relacionamento com outros países – disse Salama em entrevista à rede Xinhua.

Imagem aérea mostra vista geral da manifestação pelo terceiro aniversário da revolta que derrubou o autocrata Hosni Mubarak na praça Tahrir, no Cairo comício pró-militar. 49 pessoas foram mortas, 247 feridos, 1.079 presos em 25 de janeiro 2014 (Foto: AP)
A decisão também teve efeito interno positivo, segundo o especialista; para ele

(...) a mentalidade egípcia tende a acreditar no poder do presidente, mais que em qualquer outra autoridade.

A decisão de antecipar as eleições presidenciais e o decreto foram noticiados um dia depois que egípcios pró-militares organizaram manifestações de massa para comemorar o 3º aniversário do levante popular que derrubou o governo do ex-presidente Hosni Mubarak.

Durante as celebrações do sábado (25/1/2014), houve confrontos em todo o país, entre manifestantes antigoverno, tanto islamistas como secularistas, e forças de segurança, que dispersaram várias passeatas e tentativas de organizar bloqueios à passagem de pessoas e veículos [orig. sit-ins], deixando 49 mortos e cerca de 250 feridos. No sábado, a polícia também prendeu mais de 1.000 suspeitos de apoiar Mursi e manifestantes de grupos de esquerda acusados de incitar tumultos e violência.

Um enorme buraco em frente à sede da polícia egípcia depois que uma bomba explodiu - Cairo, 24 de janeiro de 2014. Uma série de quatro explosões atingiu Grande Cairo, no mesmo dia, matando pelo menos seis pessoas e ferindo dezenas de outras pessoas (Foto: Mai Shaheen)
Na 6ª-feira (24/1/2014) e no domingo (26/1/2014), houve atentados terroristas contra prédios e pessoal da polícia, inclusive várias explosões, na capital, Cairo, em Suez e no Sinai, que mataram pelo menos 20 pessoas e feriram cerca de 120.

Yousri al-Azabawi, pesquisador do Al-Ahram Center for Political and Strategic Studies, concorda com Salama, e também entende que modificações no mapa do caminho no que se refere à ordem das eleições podem, sim, “aliviar as pressões estrangeiras sobre o Egito”.

A decisão também pode reduzir o tamanho do financiamento para a Fraternidade Muçulmana de Mursi, já declarada organização terrorista - disse Azabawi em entrevista à rede Xinhua.

Enfrentamento entre partidários do Governo e da Fraternidade Muçulmana em 22/1/2014
Para Azabawi, a realização de eleições livres e justas para eleger um presidente dará ao eleito e às forças de segurança “chance real no enfrentamento contra o terrorismo e para adotar procedimentos mais efetivos apoiados pela população egípcia”.

Mas Azabawi entende que fazer eleições presidenciais antes das eleições parlamentares “dificilmente afetará a Fraternidade Muçulmana ou fará diminuir os protestos antigoverno que organizam regularmente”. Para ele, “muitos ainda acreditam na possibilidade de reconduzir Mursi à presidência”.

Abdel-Fattah al-Sisi
Eleger um novo presidente enviará mensagem forte à comunidade internacional, de que o Egito está, sim, implementando seu mapa do caminho pós-Mursi, com vistas a construir um estado forte, civil e democrático – disse à rede Xinhua o general Mohamed Okasha, especialista em segurança.

Sobre a popularidade entre os egípcios do chefe militar e Ministro da Defesa, general Abdel-Fattah al-Sisi, e rumores de que se candidará à eleição presidencial, Okasha disse que “as urnas terão a palavra final”.

Sobre isso, ver também:
O Egito realizará eleições presidenciais antes das eleições parlamentares – disse o presidente interino do Egito, Adly Mansour, em discurso transmitido pela televisão, no domingo [26/1/2014, Xinhua.net, China, em inglês]



Nota dos tradutores
[1] MARX, Karl [1851-1852]. O 18 de brumário de Luís Bonaparte. Prefácio: Friedrich Engels. São Paulo: Boitempo, 2011, 176 pp. Trad. Nélio Schneider, ISBN: 978-85-7559-171-0. Ou online na Edições Avante (2ª Edição – Abril de 1984) Trad. de José Barata-Moura e Eduardo Chitas.
_________________________


[*] Mahmoud Fouly é correspondente do Xinhuanet no Egito 

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Conflicts Fórum, Comentário Semanal (3-10/1/2014)

17/1/2014, [*] Conflicts Forum
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Milhões se enfrentam nas ruas das cidades egípcias. Imensa fratura social-religiosa
Egito: Mesmo antes do golpe militar que derrubou o presidente Mursi, já era claro que a sociedade egípcia estava em processo de fratura – e fratura profunda, de modo talvez irrecuperável. Uma reunião (da qual este Conflicts Fórum participou) dos principais grupos políticos do Egito (islamistas e liberais/seculares) naquele momento foi simplesmente incapaz sequer de comunicarem-se uns com os outros: muralhas de pesada artilharia verbal lançada de um lado para outro na mesma sala, de um setor da sociedade egípcia para outro, cada um desejando acertar golpe mais arrasador contra o outro. Ânimos exaltadíssimos, emoções à solda; estado psicológico cristalizado, pétreo, pouco do que uns diziam aos outros faziam qualquer sentido, e nem um grão de sabedoria.

O ânimo para qualquer tipo de concessão, completamente ausente, nenhuma possibilidade de negociação democrática naquele torvelinho de paixões. Naquele momento, eram os liberais/seculares e os cristãos que manifestavam o terrível medo existencial, temendo pela própria sobrevivência: estavam a ponto de serem politicamente e culturalmente detonados pelos islamistas, seu modo de vida posto na ilegalidade, a relevância política deles varrida para o nada, como sentiam, acreditavam e temiam.

É preocupante o número de assassinatos de cristãos no Egito
Os cristãos mostravam-se particularmente amargos. Reclamavam que o ocidente cristão cometera um erro histórico: obcecadamente focado na segurança de Israel, o ocidente aliara-se a grupos sunitas radicais, para enfraquecer o que via como ameaças a Israel (o Hezbollah e o Irã); mas os cristãos do Oriente Médio é que teriam de pagar a parte pior do preço desse estímulo tresloucado ao Islã sunita. Exibiram números da migração de cristãos para fora do Egito. E o que ardia como sal esfregado nas feridas era que cristãos e liberais/seculares não viam qualquer possibilidade de que surgisse qualquer tipo de forças que os resgatassem e os salvassem do sítio a eles imposto pelos islamistas.

Pela primeira vez em séculos, nem França, nem Grã-Bretanha, nem EUA apareceriam para salvá-los. Seriam deixados morrer lá – ou que emigrassem! – ante a avançada dos islâmicos.

Imagine-se, pois, como se sentiram, quando, no último segundo, depois de tudo parecer completamente perdido, surgiu um deus ex machina: os estados do Golfo armaram um golpe de estado para “limpar e destruir” (no jargão militar) a Fraternidade Muçulmana e varrê-la do Egito. Viraram a mesa! Militantes seculares/liberais flanavam metro e meio acima do chão, em êxtase. O general Sisi foi saudado (acriticamente) como novo Saladino/ Nasser/ Sadat.

Abdul Fattah al-Sisi
Imediatamente depois do golpe, o general Sisi fez todos os ruídos politicamente corretos: falou de “transição”, “democracia civil” e “inclusão social”. Falar é uma coisa, fazer é que são elas! E Sisi fez diferente do que falava.

Em vez de transição para a democracia, parece que agora “o povo” vai exigir que Sisi se torne presidente por aclamação popular, não por alguma “democracia civil”. Está a poucos passos de conseguir aprovar duas novas leis, a saber: uma lei que torna ilegais os protestos de rua; e outra que amplia o alcance da lei antiterrorismo.

Sisi conseguirá matar dois coelhos com uma cajadada: seu objetivo principal é eliminar a Fraternidade Muçulmana e criminalizar seus muitos apoiadores; mas, além disso, ele efetivamente dá novo corpo e nova carne às regras do (odiado) “estado de emergência”, para permitir que o establishment de segurança elimine qualquer resistência ao governo da Junta militar.

Outra vez, tudo isso está sendo feito “por mandato popular”: como o jornal nacionalista Al-Watan escreveu semana passada: “Do povo a El-Sisi [chefe das forças armadas]: Garantimos seu mandato. Agora, é degolar os terroristas!”. Outro jornal, Al-Youm Al-Sabaa, exibiu manchete semelhante: “Povo exige que a Fraternidade seja executada”.

Mas, embora essas leis visem primariamente à Fraternidade Muçulmana, o efeito combinado das duas é suficientemente amplo para enquadrar também os primeiros movimentos de mal-estar entre os seculares/liberais. Alguns seculares/liberais (poucos, se comparados aos Irmãos) foram detidos por criticar (por falta de objetivo revolucionário) o governo da junta militar. Deve-se prever que, aumentando a desilusão e o fim das esperanças que depositaram em Sisi, aumente também o número de seculares/liberais nas prisões egípcias.

Khalil Al-Anani
Em resumo, a contrarrevolução que o Golfo orquestrou no Egito contra os levantes árabes de 2011, agora sob o comando do General Sisi, está sendo empurrada na direção da mais ampla, total e irrestrita repressão.

Como Khalil Al-Anani comenta, a proscrição da Fraternidade Muçulmana fortalece “a ideia de um inimigo comum, de uma ameaça existencial ao estado e à sociedade”. “Outra razão para a proscrição”, continua ele, “é mobilizar o público para que vote “sim” no referendo da Constituição, que o governo provisório vê como meio para resolver a própria falta de legitimidade. Fechar o espaço público para qualquer tipo de ação de protesto, sob a alegação que o fechamento é ação de contraterrorismo (...) e declarar a Fraternidade “grupo terrorista”, fecha a porta para qualquer reaproximação futura entre a Fraternidade e os grupos revolucionários”.

Não se trata apenas de criminalizar parte muito substancial da população egípcia (pelo crime de enunciar apoio direto ou indireto à Fraternidade Muçulmana – crime que passa a receber pena de cinco anos de cadeia), mas os “vigilantes” já estão sendo encorajados por jornalistas e outras figuras “midiáticas”, pelos jornais e pelas televisões, a incendiar residências de Irmãos e depredar suas empresas e escritórios. Criaram-se linhas de disque-denúncia, para que todos possam facilmente denunciar nomes e endereços de pessoas suspeitas de simpatia com a Fraternidade Muçulmana. Empresas-imprensa, em toda a “mídia”, ecoam e repercutem o incitamento contra os “terroristas”. Pessoas suspeitas de contatos com os Irmãos estão sendo sequestradas, torturadas e mortas. A fratura na sociedade egípcia de que falamos no início, já se expande: agora se vê um cisma.

Líderes da Fraternidade Muçulmana discurso quando do golpe militar que derrubou o presidente democraticamente eleito, Mohamed Mursi
Qual será a resposta? No Egito tudo anda devagar, mas já se veem alguns indicadores claros. A Fraternidade Muçulmana já mergulhou na clandestinidade. As lideranças (membros da Shura e o Gabinete de Orientação) já foram presas ou sumiram na clandestinidade. O movimento sobrevive reativando seu antigo sistema de “células”, de sete, oito pessoas, que se reúnem na cada do líder da célula. Mas também esse sistema, que manteve vivo o movimento em outros momentos de perseguição cerrada, está sob forte estresse, e os líderes de célula encontram grandes dificuldades para manter ativas as comunicações entre as células e para cima, na hierarquia, para quem quer que ainda esteja ativo na liderança.

A geração mais velha da Fraternidade Muçulmana não quer guerra aberta contra Sisi: sabem que não têm qualquer chance de vitória. Em vez disso, a estratégia é manter a liderança com manifestações “relâmpago” (“Não temos escolha: Sisi nos encurralou”) e esperar que a própria Junta se autodesmoralize, enquanto a economia despenca. A FM sabe que há tempos muitos difíceis adiante, para a economia egípcia; e acredita que nada tenham a fazer, além de esperar e capitalizar o inevitável (segundo os Irmãos) tombo da Junta, aos olhos da opinião pública. Simultaneamente, a FM está trabalhando com seus apoiadores dentro do Exército, para inflar o descontentamento, entre os militares, contra o alto comando. (Um quadro político russo de alto escalão diz que a Rússia estima que cerca de 70% dos quadros inferiores da hierarquia militar egípcia opõem-se ao rumo que o comando está dando ao exército).

Mas essa “opção segura” nem está funcionando, nem satisfaz os membros mais jovens da FM. A política de não violência da FM não está se implantando em todo o movimento como os líderes esperavam que se implantasse. O recente ataque à bomba em Mansour, no qual morreram 16 policiais, quase com certeza não foi obra da FM (um grupo salafista do Sinai já se apresentou como responsável, e é perfeitamente possível que sejam os autores), mas a FM já foi imediatamente acusada – e jornalistas e “especialistas” da imprensa-empresa governista já conseguiram persuadir significativa maioria dos egípcios de que a FM, sim, é o “grupo terrorista” responsável pelo atentado.

Os jovens  da Fraternidade Muçulmana lutam diuturnamente contra o golpe militar
Os Irmãos mais jovens, que perderam amigos e parentes nos confrontos à bala contra a polícia, não admitirão essa posição “contemplativa” da ala mais velha. Para esses jovens, a lição a aprender do Golpe é que os Irmãos foram ingênuos. Entendem que a FM deveria ter “destruído o sistema” no instante em que chegou ao poder. Teriam de ter promovido um expurgo no exército; e que todo o “estado profundo” teria de ter sido destruído. Essa, dizem eles, é a lição da Argélia, do Hamas em 2006, e, agora, também do presidente Mursi. Muitos desses – impossível avaliar quantos – tomarão o rumo dos movimentos islamistas revolucionários violentos que partilham e defendem a “ideia” da al-Qaeda. Essa não é tendência que exploda repentinamente, mas crescerá com o tempo – e contará com armas e combatentes vindos da Líbia, que já se disseminam por todo o norte da África.

O caso dos salafistas é mais complicado. Financiados por Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Kuwait, a liderança quase toda apoiou a Junta, exibindo notável “flexibilidade” nas questões constitucionais em respeito ao Islã. Mas eles também já perderam os membros jovens. Muitos desses salafistas veem o ataque das forças de segurança contra os Irmãos, e a deposição do presidente Mursi, não como ataque à Fraternidade Muçulmana per se; mas como ataque contra o próprio Islã. Esse grupo dos salafistas portanto virou-se contra a Arábia Saudita – tanto quanto também contra Sisi.

Por fim, partes do Egito (Sinai, partes de Alexandria e Suez) estão-se convertendo numa Idlib egípcia – sob o “controle” (não há palavra adequada para descrever a ambígua ‘'rede'’ de intimidação posta em ação) de grupos jihadistas de várias tendências – todos eles ferozmente hostis à Fraternidade Muçulmana, vendo os Irmãos como apóstatas.

Mapa ferroviário do norte do Egito e as distâncias entre as cidades envolvidas
A que tudo isso leva o Egito? O problema é que, por mais que Sisi tenha conseguido criar um culto que toma grandes fatias da população, para esmagar os chamados “terroristas” (a FM), ainda não se vê solução suficiente para os profundos problemas econômicos que o país enfrenta. Os estados do Golfo deram (embora nem tudo sejam doações) cerca de US$ 12 bilhões, mas a maioria dos especialistas estimam que o Egito precisa de mais de US$ 50 bilhões para manter-se à tona. Cerca de 43% da população vive em condições desesperadoras de miséria (com renda familiar de menos de US$ 2/dia, e muitos desses pobres são ex-beneficiários dos serviços caritativos da Fraternidade, apoio que agora foi cortado).

E que visão Sisi oferecerá: reformas econômicas “liberais” à moda do FMI – com metade da população sobrevivendo com menos de US$ 2/dia? O nacionalismo árabe (estilo neonasserista) é hoje viável? Difícil supor que sim. Não há dinheiro para isso. E o nacionalismo árabe entrou em fase de longo declínio depois da Guerra de 1973, da qual não se recuperou.

E que visão a Fraternidade Muçulmana pode oferecer? Um retorno à Da’wa e aos serviços sociais caritativos? Nisso, tampouco, já quase ninguém acredita. Nem a FM poderá esperar passivamente que o colapso econômico do Egito mate a fome dos que esperam qualquer “solução” para suas muitas misérias e alguma visão de futuro promissor.

A única visão que parece ressoar na rua é a récita salafista de simples “certezas” às quais as pessoas possam pendurar-se, em desespero, num momento de tumulto e ordem em liquefação. Paradoxalmente, nesse nível, vê-se convergirem os salafistas e Irmãos mais jovens, que se vão aproximando entre eles em torno de uma visão de mundo salafista, e emergindo, talvez, como únicos reais beneficiários do atual estado de coisas.

O ocidente adotou visão de curto prazo:

Todos temos pequena influência; tratamos a questão como assunto interno do país (como os eventos na Síria) e apoiamos Sisi, porque tem o único instrumento (o exército e as forças de segurança) capazes de prover (a palavra é péssima) “segurança”.

Mas a brutal repressão garantirá a tal “segurança” de que fala o ocidente, no longo prazo. A lição do colapso de Sykes-Picot a que assistimos em toda a região não é prova, precisamente, de que não?

O sinal de aviso e alarme é cuidado para não criarem novas al-Qaedas.

O Egito parece a caminho de mais e mais fraturas, e de tornar-se mais violento no confronto com a ressurreição do “sistema árabe”, sob a forma do general (e provável presidente) Sisi.


[*] Conflicts Fórum visa mudar a opinião ocidental em direção a uma compreensão mais profunda, menos rígida, linear e compartimentada do Islã e do Oriente Médio. Faz isso por olhar para as causas por trás narrativas contrastantes: observando como as estruturas de linguagem e interpretações que são projetadas para eventos de um modelo de expectativas anteriores discretamente determinam a forma como pensamos - atravessando as pré-suposições, premissas ocultas e até mesmo metafísicas enterradas que se escondem por trás de certas narrativas, desafiando interpretações ocidentais de “extremismo” e as políticas resultantes; e por trabalhar com grupos políticos, movimentos e estados para abrir um novo pensamento sobre os potenciais políticos no mundo.



sábado, 7 de dezembro de 2013

1963: Ngo Dinh Diem assassinado

Todos os golpes da CIA são o mesmo golpe

2/10/2013, [*] John Prados, Blog Unredacted (Arquivos da Segurança Nacional dos EUA)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Nós da família [de João Goulart] estamos fazendo tudo que está ao nosso alcance para elucidar esse caso. Eu sempre digo o seguinte: a exumação é apenas um dos meios para se chegar à verdade depois de tanto tempo. A Justiça brasileira tem que cumprir o seu papel legal, constitucional e, principalmente, soberano. Pedimos ao Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul que abrisse uma ação cautelar para nós solicitarmos a oitiva dos agentes americanos que tinham conhecimento da operação que estão sob proteção do Estado americano e moram dentro dos Estados Unidos [João Vicente Goulart, em entrevista à Deutche Welle Brasil, 5/12/2013].

Ngo Dinh Diem assassinado. Essa foto foi tirada por um funcionário dos EUA em serviço
no Vietnã, nunca identificado; está arquivada nos US National Archives (USNA)
[Arquivos Nacionais dos EUA].
Ngo Dinh Diem
Com outubro já chegando a novembro, nos aproximamos do 50º aniversário do golpe militar apoiado pelos EUA no Vietnã do Sul, que derrubou o governo e resultou no assassinato do governador de Saigon, Ngo Dinh Diem e de eu irmão e alter ego Ngo Dinh Nhu. Embora generais do Vietnã do Sul sejam os responsáveis diretos pelo golpe de Estado, o governo Kennedy apoiou-os com entusiasmo e lhes ofereceu o apoio da CIA.

Essa história foi objeto da Conferência “Vietnam, 1963”, semana passada. O golpe e muitas outras questões pertinentes foram discutidas na Conferência organizada pelo Centro Vietnã e Arquivos da Universidade Texas Tech, co-organizada pelo Projeto História Internacional da Guerra Fria do Wilson Center e pela Administração dos Arquivos e Gravações Nacionais dos EUA, nos dia 26-28/9/2013.

O papel da CIA no golpe em Saigon já está há muito tempo estabelecido, mas ainda restam controvérsias sobre quando e como o presidente John F. Kennedy passou a investir todo seu peso no apoio a generais golpistas do Vietnã do Sul.

Daniel Ellsberg
Versão muito amplamente aceita [mas que Ellsberg, nos Pentagon Papers”, põe em dúvida (NTs)] afirma que “uma claque [orig. a cabal] de altos funcionários conspiradores” de Washington, entre os quais o vice-secretário de Estado, W. Averell Harriman; o vice-secretário de Estado para o Extremo Oriente, Roger A. Hilsman; e o secretário do Conselho de Segurança Nacional, Michael Forrestal teriam conspirado para que as coisas acontecessem como aconteceram. Segundo essa versão, aquela “claque de conspiradores” esperaram que o governo estivesse fora de Washington, num fim-de-semana em agosto de 1963, e aproveitaram o momento para fazer chegar uma instrução ao embaixador dos EUA, Henry Cabot Lodge, no sentido de que desse apoio ao golpe dos generais. Segundo essa narrativa, outros altos funcionários, principalmente o diretor da CIA, John McCone, ficaram enfurecidos quando souberam da manobra e denunciaram o que ficou conhecido como “Hilsman cable” [ou Telegrama 243, datado de 24/8/1963] em reunião do Conselho de Segurança Nacional dos EUA do dia 26/8/1963, o que teria levado o presidente Kennedy a rescindir as instruções enviadas a Cabot Lodge.

John Kennedy
No final de 2009, os Arquivos Nacionais reuniram e apresentaram novas provas desse caso,[atualizadas em 1/11/2013 (NTs)] entre as quais as gravações reais de áudio das reuniões do Conselho de Segurança Nacional dos EUA sobre o Vietnã realizadas durante aquela semana crucial em 1963, provavelmente porque o presidente Kennedy tinha um sistema de gravação instalado em seu escritório na Casa Branca e no “Cabinet Room”, onde eram realizadas as reuniões do Conselho de Segurança Nacional. Essa prova, combinada com documentos relevantes da mesma época, mostram que essa versão padrão da história do telegrama de Hilsman não é acurada. Apresentei as provas e o caso, na Conferência Texas Tech.

A tal “claque” de funcionários de Washington não estava simplesmente conspirando para enviar um telegrama de instruções: estava respondendo a específica demanda de generais vietnamitas, que pediam resposta no mesmo dia. Foi coincidência que, naquele dia, os principais decisores estivessem ausentes de Washington. Embora os funcionários do governo estivessem divididos em facções baseadas nas respectivas preferências políticas, o “telegrama Hilsman” foi redigido pelas vias normais e liberado pelos procedimentos habituais.

Michael Forrestal, secretário do Conselho de Segurança Nacional, deu a Kennedy duas oportunidades [itálicos no orig. (NTs)] para deter a ação: uma ao comunicar que havia uma instrução em preparação; a segunda, quando entregou o rascunho da resposta ao presidente.

As gravações de áudio das reuniões do Conselho de Segurança Nacional do dia 26/8/1962 mostram claramente que os participantes só discutiram detalhes instrumentais com vistas a facilitar o apoio dos EUA a um golpe já preparado pelos generais sul-vietnamitas. Nenhum dos presentes fez qualquer objeção à política básica.

Ainda mais evidente: o tom das falas, nas fitas gravadas, não sugere qualquer ‘fúria’ contra membros de alguma “claque” de outros altos funcionários.

Robert Kennedy
Muitos dos historiadores que relatam a versão antiga da história do “telegrama Hilsman” basearam-se numa entrevista (história oral) que Robert F. Kennedy gravou em meados dos anos 60s. Pelas gravações, sabe-se que Robert Kennedy não esteve presente na reunião do dia 26/8/1962 do Conselho de Segurança Nacional [itálicos no orig. (NTs)].

Os funcionários de Washington mantiveram a mesma atitude antes e depois da reunião. A CIA, por exemplo, teria sido o centro da “oposição”. Mas as fitas gravadas mostram que o chefe de operações da CIA no Extremo Oriente, William E. Colby, reuniu-se com Roger Hilsman imediatamente depois [itálicos no orig. (NTs)] daquela reunião do Conselho de Segurança Nacional; e que Colby esteve em contato com Hilsman duas vezes mais frequentemente nos dias depois de o apoio ao golpe ter sido decidido do que na semana anterior.

Mais que isso: antes de outra reunião com o presidente, dia 28/8, Colby falou várias vezes com Hilsman e parece ter ensaiado o briefing do Conselho de Segurança Nacional para o funcionário do Departamento de Estado. Depois [itálicos no orig. (NTs)] daquela reunião presidencial, Colby enviou instruções para a base da CIA em Saigon, para que listassem figuras do Vietnã do Sul adequadas para substituir Diem, ao mesmo tempo em que Hilsman instruía o embaixador Lodge a andar devagar nos planos para o golpe.

Mas a instrução para andar mais devagar foi efeito de novo relatório da CIA, que informava que os generais estavam adiando seus planos. Mas enquanto os sul-vietnamitas adiavam, os EUA continuaram nos preparativos decididos na discussão original do Conselho de Segurança Nacional. Essa prova está exposta em detalhes no Electronic Briefing Book n. 302.

Em resumo, os EUA decidiram, sim, em agosto de 1963, apoiar um golpe em Saigon, se Diem não se livrasse de seu irmão Ngo Dinh Nhu. Tomada a decisão, como política básica, jamais se afastaram dela nem reduziram o apoio.





[*] John Prados é um analista de segurança nacional sediado em Washington, DC. Prados é Ph.D. pela Universidade de Columbia em Ciência Política (Relações Internacionais) e concentra-se em poder presidencial, relações internacionais, inteligência e assuntos militares. É um Diretor Geral do projeto com o Arquivo de Segurança Nacional da Universidade George Washington. Prados lidera projetos de documentação do Arquivo para o Vietnã e para a CIA, é co-diretor do projeto Iraque, e ajuda com projeto de Afeganistão. Seu livro mais recente é Islands of Destiny: The Solomons Campaign and the Eclipse of the Rising Sun (NAL/Caliber). Seu próximo livro é uma obra sobre as operações da CIA. Outros trabalhos recentes incluem Normandy Crucible: The Decisive Battle That Shaped World War II in Europe (NAL/Caliber), Vietnam: The History of an Unwinnable War, 1945-1975 (University Presses of Kansas), vencedor do Henry Adams Prize em  História Americana; e How the Cold War Ended: Debating and Doing History (Potomac). Prados também é autor de dezesseis outros livros, com títulos sobre a segurança nacional, a presidência norte-americana, a inteligência, a história diplomática e militar, incluindo o Iraque, o Vietnã, a União Soviética e a Segunda Guerra Mundial. Foi pioneiro em contar a história do Conselho de Segurança Nacional em Keepers of the Keys, e The Soviet Estimate: U.S. Intelligence and Soviet Strategic Forces (um recurso fundamental na compreensão de poder militar soviético).

Afeganistão: “EUA e o cerco a Karzai”

5/12/2013, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Reunião da OTAN em Bruxelas de 3-5 de dezembro de 2013
A reunião dos ministros de Relações Exteriores dos países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) em Bruxelas fez aumentar a pressão sobre o presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, para que assine logo o Acordo sobre o Status das Forças [ing. State of the Forces Agreement, SOFA] com os EUA. Até aí, tudo perfeitamente previsível. A pressão psicológica deve ter sido imensa sobre o Ministro de Relações Exteriores em exercício, Zarar Ahmad, e o Ministro do Interior, Mohammad Daudzai, do Afeganistão, com os ministros de 28 países aliados da OTAN e 41 países à volta da mesa, na 4ª-feira à tarde no quartel-general da Aliança em Bruxelas, todos a dizer a mesma coisa: “Rápido, rápido! É p’rá já!”.

Simultaneamente, apareceram duas variantes intrigantes. Uma, o secretário de Estado, John Kerry, introduziu ideia das mais enigmáticas: para ele, não seria necessário que Karzai assinasse o acordo SOFA. Disse claramente que o acordo poderia também ser assinado entre altos funcionários da Defesa dos governos afegão e norte-americano. A impressão inicial foi que Kerry, como parece estar-se tornando sua marca registrada, falara mais do que devia.

John Kerry (E) e Chuck Hagel (D)
Mas o secretário de Defesa, Chuck Hagel, aproveitou a ideia e, dia seguinte, ampliou-a. Hagel disse que:

A questão sobre quem é a autoridade para falar pela nação soberana do Afeganistão, entendo eu, é assunto para os advogados. Seja o ministro da Defesa ou o presidente, alguém com autoridade para assinar pelo Afeganistão… Acho que assim teremos o compromisso de que precisamos.

B. K. Mohammadi
A tentativa temerária, pelo governo Obama, de contornar Karzai – ou, até, pior, de estimular um golpe palaciano em Kabul contra Karzai – é movimento perigoso. Circulam notícias de que os EUA já teriam abordado o Ministro da Defesa, Bismillah Khan Mohammadi (que é tadjique étnico, como também o primeiro vice-presidente, Mohammed Fahim).

É atitude que só faz chamar a atenção para o quão desesperado está o governo Obama para ver fixadas as bases norte-americanas no Afeganistão. Vem à cabeça imediatamente o momento em que Ngo Dinh Diem do Vietnã do Sul entrou diretamente na linha de tiro dos EUA há exatos 50 anos, em agosto de 1963.

Hamid Karzai
Mas... conseguirão intimidar Karzai? O representante especial dos EUA para o AfPak, James Dobbins, já pousou em Cabul. Não sabe sequer se Karzai aceitará recebê-lo. O porta-voz de Karzai, Aimal Faizi, falou em tom desafiador. Disse que Karzai quer “um fim absoluto” de todos os ataques militares norte-americanos contra lares afegãos; e “início significativo” do processo de paz com os Talibã.

Mas... suponhamos que não haja golpe algum em Kabul, que nenhuma usurpação de poder seja possível em Kabul. O que acontecerá na sequência? O governo Obama não parece ter na manga qualquer tipo de Plano B. O general Martin Dempsey, comandante do Estado-Maior das Forças Conjuntas dos EUA revelou na 4ª-feira que a Casa Branca ainda não lhe falou de qualquer “opção zero”.

Disse muito significativamente que “Nada é irreversível”, e que o Pentágono ainda pode inventar um meio de deixar alguma força residual no Afeganistão, se algum acordo estiver assinado até o começo do verão de 2014.

Martin Dempsey
O que se ouve agora é que os EUA só teriam insistido tanto no prazo de dezembro de 2013 para a assinatura do acordo SOFA, porque, como Kerry disse em Bruxelas ontem,

Há mais de 50 países engajados, através da OTAN, em tentar ajudar o Afeganistão. E esses países têm orçamentos cíclicos. Têm exigências de planejamento. Têm exigências de equipamentos. Têm exigências de deslocamento. E essas coisas, para serem bem feitas, têm de ser planejadas.

Fica assim bem claro que o governo Obama não se vê obrigado a entrar em modo de “opção zero” nas próximas semanas; pode também derrubar Karzai.

No verão de 2014, espera-se, a eleição presidencial (marcada para 5/4/2014) já terá acontecido; e Karzai já terá sido encaminhado à lata de lixo da história: esse parece ser o Plano B de Washington.

Buscachi ou Buzkashi, o jogo
Com isso, as próximas eleições de abril viram algo como um Buscachi, o jogo nacional do Afeganistão, no qual jogadores montados a cavalo disputam e lançam um objeto – quase sempre uma carcaça de bode sem cabeça – contra uma meta demarcada. O Buscachi tradicional é jogo sem limite de tempo. Tudo depende agora de o quanto a equipe de Obama saberá jogar duro para instalar suas nove bases militares no Hindu Kush – e salvar a nação afegã dela mesma.




[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Irã, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu,Asia Times Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.