Mostrando postagens com marcador Abdel Fattah Al Sisi. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Abdel Fattah Al Sisi. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Egito: Propagandistas pró-Sisi e o massacre de Gaza

29/8/2014, [*] Joseph MassadElectronic Intifada
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na Birosca do Fumacê na Vila Vudu: Estranho, mas... o “Egito”, que faz propaganda contra Gaza, como se lê aí, é IGUALZINHO, sem tirar nem por, ao Canal GloboNews, que TAMBÉM vive de propaganda contra Gaza! :-O



Enquanto a máquina assassina de Israel inflige terror e morte ao povo palestino com a colaboração do governo dos EUA e de seus principais aliados árabes, dentre os quais se destaca o clã saudita de 20 mil príncipes e princesas, vasta campanha de ódio em nível oficial e não oficial está sendo conduzida também no Egito.

O regime egípcio é dos maiores carcereiros dos palestinos de Gaza – o maior campo de concentração do mundo.

Yasser Arafat
O herdeiro de Hosni Mubarak no trono egípcio, general Abdel Fattah al-Sisi, expressou bem as mentiras que a classe de ladrões que governa o Egito está propagandeando no Egito desde as campanhas antiárabes e antipalestinos de meados dos anos 1970 no governo do presidente Anwar Sadat.

O nada carismático Sisi, cujas habilidades oratórias comparam-se às de Yasser Arafat, anunciou com muita pompa em seu discurso do dia 23 de julho de 2014 marcando o aniversário da derrubada da monarquia em 1952, que o Egito já sacrificara “100 mil mártires egípcios à causa palestina”.

Embora poucos duvidem dos sacrifícios que os soldados egípcios têm feito para defender o Egito nos últimos 67 anos, pretender que aqueles sacrifícios teriam sido feitos em nome da causa palestina e dos palestinos é o cúmulo da hipocrisia.

Gamal Abdel Nasser
Essa é uma linha de argumento que a classe governante dos ladrões egípcios vêm propagando, para “argumentar” que a situação terrível da economia egípcia e a miséria que assola o país não seriam efeito da pilhagem descomunal, por aquela mesma classe governante, com a ajuda de seus patrocinadores norte-americanos e sauditas desde os anos 1970s, mas uma espécie de “saldo”, depois de uma alegada defesa da Palestina e dos palestinos e de um alegado compromisso que o presidente Gamal Abdel Nasser teria assumido de libertar os palestinos da ocupação colonial israelense.


Falso governo e escandalosa pilhagem

Desde os anos 1970s, os palestinos têm sido submetidos a essas mentiras e à vacuidade e ao espalhafato e à pilhagem, por essa classe governante egípcia, que não passam de ignorantões semianalfabetos. A falta de educação e de modos civilizados daquela gente esteve sempre à vista do mundo nos três últimos anos de propaganda e agitação contrarrevolucionárias nas suas próprias redes de televisão e em todos os veículos de imprensa-empresa que pertencem, todos, a eles mesmos.

A forma e o conteúdo dessa “comunicação” causaria vergonha e embaraço a qualquer grupo que se desse ao respeito, de intelectuais, jornalistas e artistas – se a maioria dos intelectuais e artistas egípcios já não estivessem ou presos ou subornados para defenderem exclusivamente aqueles interesses de classe (e vários dos que foram presos por apoiar o regime deposto, especialmente acadêmicos, já começaram a fazer meia volta e estão reescrevendo seus escritos para negar o que antes afirmavam).

Abdel Fattah al-Sisi (1º à esquerda) “et catærva”

A degradação da cultura e da produção intelectual e estética no Egito nos últimos 40 anos é resultado direto do mando daquela classe governante de ladrões tirânicos. Basta sentar-se com esses empresários e suas mulheres nas casas deles, ou assistir a filmes e seriados egípcios dos quais eles são os personagens, e aproximar-se da cultura que eles querem impor através daqueles filmes e seriados, ou ouvir o que conversam em qualquer bar ou restaurante dos hotéis cinco-estrelas no Cairo, ou assistir às entrevistas que dão aos canais da horrenda televisão egípcia, para perceber a espantosa e insuperável mediocridade e baixo nível crítico do pensamento econômico e político daquela gente, e do gosto, e, isso, para nem falar da vastíssima ignorância que exibem de toda a literatura & arte egípcia, árabe, universal – além do invencível, indisfarçável desprezo que manifestam pelos pobres egípcios – que são mais de 80% da população.

Que essa gangue invejosa e ciumenta, essa classe de super ricos, inveje e pense em tomar por assalto até os mais pobres dos pobres, para privá-los do quase nada que têm, sobretudo os palestinos de Gaza, mostra bem o tipo de (a)moralidade que orienta as ações deles.

Nassef Sawiris
Lembro ainda do horror que senti quando, num jantar no Cairo em outubro de 2010 com o bilionário Nassef Sawiris, o homem mais rico do Egito, o homem anunciou com muito orgulho às sete pessoas que jantávamos ali, que mantém três televisões ligadas ao mesmo tempo, no escritório, em casa e em viagem, sintonizadas cada uma em um canal de notícias dos EUA (se lembro bem, CNN, CNBC e Fox News). Evidentemente, eram as suas fontes de “informação” e de “educação”.

Sawiris, que é menos exibicionista que seus irmãos mais velhos, fez ar de quem absolutamente não acreditava, quando eu lhe disse que faço oposição às políticas dos EUA, interna e externa: para ele, nada existe, no mundo, em matéria de posição política, à esquerda de Barack Obama.

Em entrevista recém-publicada que concedeu ao jornal pro-Sisi Al-Masry Al-Youm, Sawiris elogiou Sisi por retirar os subsídios ao combustível para os mais pobres (mas manteve o mesmo preço baixo para gasolina para carros de luxo dos ricos), e repetiu várias recomendações neoliberais – desvalorizar ainda mais a libra egípcia; privatizar o transporte público; acabar com impostos para os ricos (os quais, diz ele, o governo do deposto presidente Muhammad Mursi teria imposto ilegalmente à sua empresa); proteger ministros e funcionários públicos, para que não sejam investigados em nenhum caso; e permitir que se use carvão para alimentar fábricas de cimento – contra o quê há oposição massiva de ativistas pró preservação ambiental e de profissionais de saúde pública.

Hosni Mubarak (em cana)
São medidas que enriquecerão ainda mais o 1% e empobrecerão ainda mais os mais miseráveis (o irmão mais velho de Nassef, mais bon-vivant, mas mais pobre, Naguib, ganhou uma coluna semanal no jornal egípcio Al-Akhbar na qual reitera as recomendações neoliberais do irmão. Em entrevista a um canal de televisão, pediu a Sisi que anistie Mubarak e o liberte da prisão.

É tudo mentira. Ficção, pura invenção

O que Sisi e a classe à qual está aliado estão querendo implantar na opinião pública é que todas as guerras do Egito com Israel teriam sido feitas para defender a Palestina e os palestinos e que foram imensamente custosas para o Egito, em dinheiro e em vidas de soldados. É tudo mentira.

Em 1956, Israel invadiu o Egito e ocupou o Sinai, e os soldados egípcios que foram mortos morreram quando defendiam o próprio país contra Israel; em 1967, Israel novamente invadiu o Egito e ocupou o Sinai, e os soldados egípcios que morreram defendendo o próprio país contra invasão estrangeira, outra vez, portanto, contra Israel; entre 1968 e 1970, Israel e Egito combateram a “Guerra de Atrito” na qual soldados egípcios foram mortos defendendo o próprio pais mais uma vez contra Israel e a continuada agressão dos israelenses que tentavam preservar a ocupação que ainda lá estava, dos israelenses, no Sinai – essa guerra foi combatida em solo egípcio; e em 1973, o Egito fez guerra para libertar o Sinai, não a Palestina, e mais uma vez muitos soldados egípcios foram mortos defendendo o próprio país contra a ocupação israelense.

Faruc, rei do Egito
Assim, ficamos com a guerra de 1948, na qual, dependendo das fontes, alguma coisa entre mil e dois mil soldados e voluntários egípcios foram mortos. Essa intervenção militar egípcia para impedir que os sionistas continuassem a expulsar palestinos e para fazer parar o roubo de terras palestinas pelos sionistas foi lançada não por Nasser, que é culpado pelo apoio só retórico aos palestinos, mas pelo rei Faruc.

Como atestam muitos estudos sobre os motivos que levaram Faruc e seu governo a intervir na Palestina, a ação foi resultado da preocupação de Faruc com a posição do Egito como líder regional; do medo da rivalidade iraquiana, muito mais que como alguma modalidade de nacionalismo ou solidariedade árabes.

À parte esses motivos, muitos palestinos sabem que os soldados e voluntários egípcios que morreram naquela luta morreram, sim, defendendo a Palestina e os palestinos, ainda que os soldados que ali havia o fizessem para cumprir ordens que visavam a defender, antes, a hegemonia regional do Egito. Mas essa é a única guerra na qual morreram soldados e voluntários egípcios que defendiam a Palestina, e aos quais o povo palestino e seu movimento nacional já expressou muita gratidão.

Anuar el-Sadat
Transformar esses mil ou dois mil soldados e voluntários em “100 mil mártires”, como mentiu Sisi, é ficção, pura invenção, que os ladrões da classe governante egípcia e seus intelectuais alugados e propagandistas pagos na imprensa puseram-se a repetir na imprensa depois dos acordos de Camp David que Sadat urdiu em 1978, e pelos quais sacrificou os direitos do povo palestino, inclusive dos palestinos de Gaza, em troca de o Egito receber um controle não soberano, parcial e só policial do Sinai.

Nada disso implica sugerir que milhões de egípcios, civis e soldados, não apoiem ou não venham a apoiar a Palestina e os palestinos, ou que não lutariam pela Palestina e pelos palestinos, como tantas vezes dizem que lutam e lutariam. Isso é para dizer que, exceto pelas batalhas de 1948, nenhum egípcio teve sequer a chance de defender os palestinos no campo de batalha. E é para continuar a negar-lhes essa chance que os ladrões que hoje governam o Egito construíram e mantêm a atual campanha de propaganda anti-Palestina e o discurso de ódio que todas as televisões que pertencem a eles não param de vomitar dia e noite.

Se se ouve essa propaganda incansável pelas televisões, é-se levado a pensar que foram os palestinos que ocuparam o Sinai, não o Egito que assumiu e governou Gaza de 1948 a 1967, e impôs sítio intermitente no início e, na sequência, nos últimos oito anos, impôs  sítio completo e continuado.

Apesar das massivas campanhas pela mídia, os egípcios não deixam de apoiar os palestinos, seja em manifestações contra a cumplicidade do regime de Sisi nos massacres – o que se tem visto sem parar nas duas últimas semanas – seja pelas caravanas que levam remédios a Gaza – que os soldados de Sisi não deixam passar e mandam voltar.

Egípcios protestam contra Israel e são reprimidos pelo governo Sisi
Suicídio intelectual em massa

Nesse contexto, é crucial compreender que a classe de ladrões que hoje governa o Egito é o principal e primeiro inimigo, não do povo palestino, mas da maioria dos egípcios que os mesmos ladrões oprimem, exploram, assaltam, roubam e humilham diariamente. O fato de que os inimigos dos palestinos no Egito são também os inimigos da maioria dos egípcios é verdade que tem sido ocultada pelo papel que cumpre a malta que opera como claque de apoio do regime Sisi.

O suicídio intelectual em massa que a maioria dos intelectuais e artistas egípcios (nasseristas, marxistas, liberais e salafistas) cometeram, quando abdicaram de suas faculdades críticas e passaram a apoiar – ou não protestaram contra – os massacres e a repressão desencadeada pelo governo Sisi, para nem falar do silêncio canalha nas campanhas contra os pobres egípcios e os palestinos, faz recordar o suicídio cometido pelos comunistas egípcios quando, em 1964, abandonaram o próprio partido para unir-se à União Socialista de Nasser.

Nesse grupo incluem-se, desde o economista marxista e infatigável defensor de Sisi, Samir Amin, até figuras menos ilustres como Alaa al-Aswany, romancista e adversário de Mubarak, e o economista Galal Amin e escritores e poetas, Sonallah Ibrahim, Abd al-Rahman al-Abnudi, Bahaa Taher e muitos e muitos outros.

Samir Amin
O suicídio dos comunistas egípcios em 1964, contudo, explicou-se, porque os comunistas entendiam que a repressão nasserista, embora lamentável, visava, no limite, a servir ao projeto comum de nacionalização e socialização da propriedade para erradicar a pobreza egípcia. Permanece absolutamente indecifrável, inexplicável, a razão pela qual intelectuais egípcios contemporâneos estão novamente cometendo suicídio coletivo, para apoiar a classe de ladrões que governa hoje o Egito.

O massacre de Gaza é “plano B”

Que Sisi já tenha superado Mubarak nas políticas de aliar-se com Israel e agir coordenadamente no sítio aos palestinos não é surpresa para ninguém, porque Sisi sempre serviu à mesma classe e aos mesmos interesses aos quais Mubarak servia. Diferente é, porém, a concordância do Hamás e a submissão ao que Mubarak ordena.

É hoje claro que o massacre que Israel inflige aos palestinos hoje sempre foi o Plano B; o Plano A era uma possível invasão de Gaza, pelo Egito, por terra, que o governo Sisi ameaçou levar avante há alguns meses, depois de ter destruído os túneis de sobrevivência de Gaza (aconteceu antes das eleições fraudadas que levaram Sisi ao poder), presumivelmente com ajuda dos israelenses, com o objetivo ostensivo de reinstalar Muhammad Dahlan como senhor-da-guerra em Gaza e livrar-se do Hamás e da resistência palestina.

O chefe da inteligência do Egito esteve em visita a Israel poucos dias antes do início dos massacres de palestinos; e, poucos dias antes, três oficiais de inteligência do Egito também lá estiveram: são as únicas pistas que há, a serem investigadas, de que, sim, Israel e o Egito trabalharam coordenadamente.

Autoria de Alfredo Karras

O sadismo e o narcisismo são traços da cultura colonial dominante dos israelenses e que se manifestaram em comícios, com israelenses gritando “morte aos árabes”, e nos grupos de habitantes das colônias israelenses instalados em cadeiras e poltronas para assistir e festejar, do alto das colinas, o massacre de palestinos. São traços só comparáveis à propaganda sádica, de ódio, que a imprensa do regime de Sisi distribui; e ao que diz e faz a classe de ladrões que governa o Egito.

De fato, mesmo enquanto prossegue o massacre de palestinos de Gaza por Israel, o exército egípcio anunciou dia 27/7/2014 que destruíra mais 13 túneis entre Gaza e o Egito; provavelmente, é parte de sua heroica contribuição à opressão dos palestinos.

Quanto ao “cessar-fogo” que Sisi ofereceu depois de o massacre de palestinos já durar uma semana, e ideia que lhe foi repassada por seus aliados israelenses, foi muito corretamente rejeitado pelo povo palestino, a favor de uma resistência militar potente contra a criminalidade de seus agressores israelenses colonialistas e a favor de valente resistência política e diplomática ante a crueldade de seus carcereiros egípcios.
________________

[*] Joseph Massad Andoni (em árabe: جوزيف مسعد) (nasceu na Cisjordânia em 1963) leciona Política Árabe Moderna e História Intelectual na Universidade de Columbia em New York. Seu trabalho acadêmico tem se concentrado em Palestina, Jordânia e no nacionalismo israelita. Tornou-se muito conhecido por seu livro Desiring Arabs (2007), sobre representações do desejo sexual no mundo árabe. Recebeu seu PhD em Ciência Política pela Columbia em 1998. É autor, entre outras obras, de: Colonial effects: the making of national identity in Jordan (2001); The Persistence of the Palestinian Question: Essays on Zionism and the Palestinians (2006); Islam in Liberalism(2007) e numerosos artigos distribuídos em importantes publicações nos EUA e no exterior

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Iraque: EUA nada têm a fazer lá!

22/6/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Militante do ISIS/ISIL monta guarda num "check point" próximo a refinaria de Beiji
(fumaça do lado esquerdo ao fundo)
A aliança ISIS/ex-Baathistas/sunitas do Iraque está consolidando sua posição no noroeste do Iraque. Capturou postos na fronteira com a Síria e, agora, com a Jordânia. Esse último item acenderá luzes vermelhas em Washington e noutros pontos.

A ridícula posição dos EUA, apoiando, armando e treinando jihadistas insurgentes na Síria, ao mesmo tempo em que os tratam como terrível ameaça no Iraque e noutros locais, já está à vista de todos, difícil de esconder. O que dizer de uma manchete lunática-desatinada como Kerry chega ao Cairo em viagem para ajudar a formar o novo governo iraquiano?! (Deu no New York Times!).

Ninguém quer “ajuda” de Kerry! A ameaça, agora, une até os mais fortes antagonistas. Nem o Irã, nem os sauditas querem saber de intervenção ou de “ajuda” dos EUA no Iraque. O primeiro-ministro Maliki do Iraque provavelmente aprovaria algum apoio dos EUA para seu desgraçado exército em estado de desintegração, mas prefere ir à luta sozinho, se o tal apoio vier conectado a “exigências” de que ele, depois de eleito, deixe o governo...

Contente, Sisi recebe Kerry em dia de propina...
E Kerry? Estará mesmo pedindo apoio a Sisi, o brutal neoditador do Egito? E o que poderia fazer aquele carcereiro de nação falida? Nem apoiaria Maliki, nem apoiaria os jihadistas: não há alternativa à vista, nem para um nem para os outros. Sisi passará a mão nas propinas que Kerry lhe leva para que apoie Israel. E deixará o resto por isso mesmo.

Não há o que Kerry possa fazer pelos iraquianos. As políticas dos EUA para o Oriente Médio acabaram. A impotência delas vê-se claramente em duas guerras perdidas, no Iraque e no Afeganistão. A incompetência dessas políticas está claramente comprovada na contradição entre “promover a democracia” por um lado, enquanto, pelo outro lado, promove ditaduras religiosas radicais no Golfo. Passo para fora disso seria uma aliança de EUA e Irã, mas essa mudança radical de política seria imediatamente detonada no circo político de Washington.

Não é só no Oriente Médio que as políticas dos EUA desiludem aliados e decepcionam até os inimigos. Vejam, por exemplo, o que até o muito neoconservador ministro de Relações Exteriores da Polônia pensa da “amizade” de seu país com os EUA:

Radek Sikorski
O ministro polonês de Relações Exteriores, Radek Sikorski, visto em geral como um dos principais aliados dos EUA na Europa disse, em gravação que vazou misteriosamente nesse domingo, que a aliança entre seu país e os EUA “não vale nada”.

“A aliança Polônia-EUA não vale nada. Até nos causa dano, porque cria uma falsa sensação de segurança na Polônia” – diz Sikorski, num excerto de conversação mais longa a ser publicada na 2ª-feira (23/6/2014) pela revista Wprost, e que teria acontecido entre Sikorski e o ex-ministro das Finanças, Jacek Rostowski.
...

“Vamos entrar em conflito com ambos, russos e alemães; estamos pensando que está tudo bem, só porque demos uma ‘chupada’ nos americanos. Não passamos de “chupa-pau” dos americanos” – disse Sikorski, em tradução de BuzzFeed.

Os EUA que fiquem fora do Iraque. Forças locais que se acertem por lá e os patrocinadores de cada lado que cheguem a acordo que satisfaça os dois lados.

Xiitas e sunitas já começaram por se entenderem, num ponto essencialmente importante: os EUA que fiquem bem longe de lá!




[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como  “Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ouvir versão em performance de Tim van Broekhuizen.



segunda-feira, 7 de abril de 2014

Conflicts Fórum: Comentário semanal de 21 a 28/3/2014

5/4/2014, [*] Conflicts Forum
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Mensagem que recebemos cá na Vila Vudu: Muito obrigado, vudus. Muito obrigado, mesmo. Mas... leio artigo como esse, essa maravilha, e fico tremendo de medo. Deus nos acuda! Será que o Brasil conseguirá salvar-se, apesar de, em pleno século 21, ainda continuarmos perdidos e sem bóia em pleno mar da mais escura e total ignorância sobre tuddddddddo que se passa na mundo, por culpa dos jornalistas do Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão) e dos professô-dotô da tucanaria uspeana e dessa tal de Marina Silva, a insuportável, e seus marketeiros salafrários?
Resposta que já despachamos: Obrigado a você, compás. Calma. Só a luta ensina. Vamkemamo. Ah! E não é “tuddddddddo”, prestenção. É (quase) “tuuuuuuuudo”. É só ler em voz alta, na praça ou no bar, que você não erra. Grande abraço. VV

Barack Obama e seu "staff" de segurança nacional em 6/3/2014 na Casa Branca
Essa foi semana na qual as iniciativas da política externa do presidente Obama azedaram; e, para piorar, todas parecem ter azedado ao mesmo tempo.

Moshe Ya'alon
Não é fácil dizer por que essa constelação de eventos aconteceu numa espécie de sincronia, mas há poucas dúvidas de que o presidente Obama está diante de um muro de truculência que emana de toda a região. Dos sauditas, sobre virtualmente tudo; de Abu Mazen [Mahmoud Abbas] e da Liga Árabe, sobre reconhecer Israel como estado judeu e a libertação de prisioneiros; ou o desprezo de Moshe Ya'alon, pelo plano de segurança (“engenhoca”) dos EUA; ou a ira dos egípcios, pela acanhada reação dos norte-americanos ante a matança e a condenação à morte em massa de Irmãos da Fraternidade Muçulmana; ou como resultado dos sucessos do presidente Assad, que criou fatos militares suficientes para virar o jogo em campo; ou resultado do humor pendular do Irã que, agora, vê as possibilidades das conversações do grupo P5+1 sob luzes mais escuras; ou as ações de um touro ferido, com sangue nos olhos, que chifra para todos os lados em Ancara.

Feitas todas essas contas, o presidente Obama tem pela frente tempos políticos nada fáceis e, isso, no momento crucial da campanha para as eleições parlamentares de meio de mandato.

Rei Abdullah da
Arábia Saudita
Para que não pairassem dúvidas, os sauditas disseram com todas as letras que Obama não espere vida fácil em Riad – a menos que esteja preparado para mudar de rota sobre o Irã, ser militarmente proativo na Síria e dar apoio a Sisi, no serviço de esmagar a Fraternidade Muçulmana. Para o caso de o recado não ter sido ouvido, foi repetido, com o anúncio, na véspera da visita de Obama, de que o príncipe Muqrin será o próximo, na linha de sucessão, depois do atual Príncipe Coroado. Em outras palavras, o Reino Saudita está declarando: “EUA, nem pensem em interferir na sucessão, com o favorito de vocês, príncipe Mohammad bin Naif”.

E para deixar bem claro ao presidente Obama que as coisas não serão fáceis tampouco nas conversações Israel-palestinos, a Liga Árabe alinhou-se – com Abbas – em declarações que parecem estar comprometendo todos os membros da Liga Árabe com a posição de “rejeição absoluta” a qualquer reconhecimento de Israel como estado judeu. Foi tranco suficiente para que o secretário de Estado deixasse Roma e voasse diretamente a Amã, para tentar salvar pelo menos em parte as conversações de depois do fim de abril, e conseguir, que seja, alguma espécie de “mapa do caminho” desbotado.

Abdel Fattah al-Sisi
E no Egito, um dia antes da visita do presidente Obama, Sisi anunciou que é candidato à presidência, notícia há muito tempo adiada. Em resumo, está dizendo aos EUA “Estou aqui para ficar. Vocês não têm escolha: têm de trabalhar comigo, gostem ou não gostem”.

E acima e em torno de todos esses itens, paira o relacionamento dos EUA com a Rússia. Já argumentamos em vários Comentários anteriores que a política de Obama para o Oriente Médio tornou-se pesadamente dependente de uma relação necessariamente privada, nunca comentada, com o presidente Putin. Já seria necessário que assim fosse – sem cenas públicas, próxima, pode-se dizer íntima, próxima do coração de Obama – por causa das animosidades residuais da Guerra Fria que persistem, se não também em muitos outros pontos, pelo menos dentro da própria “equipe de rivais” do governo Obama, que está furiosa por causa da Síria, furiosa por causa das negociações com o Irã e profundamente ressentida, obrigada a assistir ao ressurgimento da Rússia.

Parece que, empurrado para as cordas do confronto contra Putin, por membros neoconservadores de seu governo, na disputa pelo mais improvável dos butins (só não é improvável, é claro, para o contingente neoconservador de seu próprio governo), o presidente Obama ficou sem escolhas, obrigado a reconhecer que a Ucrânia sobretudo, para muitos norte-americanos, é um símbolo psicológico. O que, se não isso, explicaria que um estado remoto, pequeno, falido, assuma tal significação e desperte emoções tão apaixonadas entre as elites políticas?

É profundamente perturbador, e desperta ódios só parcialmente sublimados, que o mundo não esteja caminhando pela história linear, como “deveria”.

Vladimir Putin
O presidente Putin está, efetivamente, negando a narrativa de um “fim da história” pela qual todos nós convergiríamos para a órbita da globalização liberal norte-americana e seu séquito, sempre presente, sempre de autoperpetuação, de “conjunto de regras”. E ao fazê-lo, os russos estão pondo em questão algo muito fundamental sobre como alguns norte-americanos e europeus se autodefinem.

Parece que Obama vê isso, e está entendendo que, a menos que ele responda à psicologia do momento, a ira sublimada dirigida contra a Rússia, virar-se-á contra ele.

Em Bruxelas essa semana ele, portanto repetiu a questão da Ucrânia nos termos da mesma narrativa simples: desafiando o presidente Putin, Obama diz que os eventos na Ucrânia nada têm a ver com a aliança ocidental explorar o sul vulnerável da segurança da Rússia, mas devem ser corretamente compreendidos como nada além de um ocidente civilizado que apoia o progresso linear, regular, em direção à liberdade, ao individualismo e à democracia. E, com todos progredindo e ascendendo por essa trajetória, todos naturalmente nos dirigimos para aceitar o ‘'conjunto de regras'’ que governa e difunde-se por esse mundo conectado, globalizado. Não há lugar para os que recusem a ordem internacional ou desrespeitem o “conjunto de regras” que subjaz e dissemina a conectividade liberal global.

Barack Obama
Provavelmente, o presidente Obama não tinha outra escolha que não fosse essa posição simplória de apoio à história linear – pelo menos, para se autovacinar contra acusações de ter contribuído para que a liderança excepcional dos EUA fosse diluída e deixada perecer. Afinal, o excepcionalismo norte-americano depende existencialmente da história linear.

Mas essa abordagem – embora talvez obrigatória, em termos do eleitorado doméstico de Obama – põe abaixo a política de Obama para o Oriente Médio.

Ao negarem à Federação Russa, ao Irã ou à Síria o direito a uma visão alternativa coerente de seu próprio futuro, os EUA tentam outra vez prender-se pelas próprias garras à narrativa de uma sua liderança global – e retomar o papel de “moralizador-em-chefe” e único árbitro do que sejam pensamento e comportamento normais e anormais. Essa ideia mancha e complica qualquer negociação de política externa, e dificulta muito todas elas.

Já está dividindo a Europa (adiante, mais sobre isso); chineses e russos sentir-se-ão repelidos; e fará o Irã resistir mais firmemente a todas as demandas dos EUA.

Em termos práticos, Obama – ante um Oriente Médio truculento – deve desejar que as tensões com a Rússia sejam discretamente desescaladas (apesar do discurso que fez em Bruxelas) e que ele consiga reencontrar algum tipo de relacionamento de trabalho com o presidente Putin. Assim, terá ainda alguma probabilidade de salvar alguma coisa de sua política exterior, ante o assalto que lhe movem seus adversários ideológicos. Resta uma pequena possibilidade de que consiga [e depende de Putin]: embora a Rússia deva, com certeza, orientar de outro modo sua política externa à luz dos eventos na Ucrânia, o presidente Putin sempre se mostrou muito hábil no trabalho de separar ‘os casos’. Putin pode manter-se em posição de oposição em alguns casos chaves, e mesmo assim cooperar em outros.

Angela Merkel
O “melhor amigo” de Obama na tentativa de salvar alguma coisa do imbróglio na Ucrânia será provavelmente Angela Merkel. A chanceler alemã disse que “não está interessada” na escalada de tensões com a Rússia. “Ao contrário”, disse ela, “estou trabalhando para desescalar a situação”. Disse que o ocidente “não alcançou posição que implique impor sanções econômicas” à Rússia. “E espero que consigamos evitar isso”, acrescentou.

Helmut Schmidt
Outro político alemão, e ex-chanceler, Helmut Schmidt, que mantém coluna regular em Die Zeit, escreveu que a abordagem de Putin na questão da Crimeia é “completamente compreensível”. As primeiras sanções ocidentais (contra indivíduos) foram “completamente estúpidas”, continuou ele, e “sanções econômicas mais sérias ferirão o Leste, tanto quanto o Oeste”. A decisão de reduzir o G8 para G7 pensando em punir a Rússia é erro grave, Schmidt alertou: “Muito bom seria reunir os oito agora, exatamente agora. Com certeza seria melhor serviço, com vistas à paz, que a ameaça das sanções”.

Mas também essa esperança, o presidente Obama está obrigado a manter guardada no peito: há muitos velhos (e uma nova geração) de Guerreiros da Guerra Fria, tanto nos EUA como na Europa, que temem, mais que qualquer outra coisa, a emergência na Europa, de um eixo russo-alemão. O caso Ucrânia já abriu fissuras entre os EUA e a União Europeia, quando, vale lembrar, o objetivo original (declarado por John Kerry na Conferência de Segurança de Munique) do “movimento” na Ucrânia era unir a Europa sob uma liderança revigorada de EUA-OTAN.

A OTAN, hoje, está sem “missão” crível (assim, portanto, está sem justificativa para os gastos com defesa). A Ucrânia só deu à OTAN causa clara para, no máximo, reforçar uma “linha Maginot” da Estônia ao Azerbaijão. Com isso, a OTAN pode, pelo menos, reformular sua missão. Na direção exatamente contrária aos interesses da Alemanha de Merkel, o que interessa à “indústria da defesa” é manter sempre crescentes as tensões com a Rússia.




[*] Conflicts Fórum visa mudar a opinião ocidental em direção a uma compreensão mais profunda, menos rígida, linear e compartimentada do Islã e do Oriente Médio. Faz isso por olhar para as causas por trás narrativas contrastantes: observando como as estruturas de linguagem e interpretações que são projetadas para eventos de um modelo de expectativas anteriores discretamente determinam a forma como pensamos - atravessando as pré-suposições, premissas ocultas e até mesmo metafísicas enterradas que se escondem por trás de certas narrativas, desafiando interpretações ocidentais de “extremismo” e as políticas resultantes; e por trabalhar com grupos políticos, movimentos e estados para abrir um novo pensamento sobre os potenciais políticos no mundo.