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sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Egito: Propagandistas pró-Sisi e o massacre de Gaza

29/8/2014, [*] Joseph MassadElectronic Intifada
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na Birosca do Fumacê na Vila Vudu: Estranho, mas... o “Egito”, que faz propaganda contra Gaza, como se lê aí, é IGUALZINHO, sem tirar nem por, ao Canal GloboNews, que TAMBÉM vive de propaganda contra Gaza! :-O



Enquanto a máquina assassina de Israel inflige terror e morte ao povo palestino com a colaboração do governo dos EUA e de seus principais aliados árabes, dentre os quais se destaca o clã saudita de 20 mil príncipes e princesas, vasta campanha de ódio em nível oficial e não oficial está sendo conduzida também no Egito.

O regime egípcio é dos maiores carcereiros dos palestinos de Gaza – o maior campo de concentração do mundo.

Yasser Arafat
O herdeiro de Hosni Mubarak no trono egípcio, general Abdel Fattah al-Sisi, expressou bem as mentiras que a classe de ladrões que governa o Egito está propagandeando no Egito desde as campanhas antiárabes e antipalestinos de meados dos anos 1970 no governo do presidente Anwar Sadat.

O nada carismático Sisi, cujas habilidades oratórias comparam-se às de Yasser Arafat, anunciou com muita pompa em seu discurso do dia 23 de julho de 2014 marcando o aniversário da derrubada da monarquia em 1952, que o Egito já sacrificara “100 mil mártires egípcios à causa palestina”.

Embora poucos duvidem dos sacrifícios que os soldados egípcios têm feito para defender o Egito nos últimos 67 anos, pretender que aqueles sacrifícios teriam sido feitos em nome da causa palestina e dos palestinos é o cúmulo da hipocrisia.

Gamal Abdel Nasser
Essa é uma linha de argumento que a classe governante dos ladrões egípcios vêm propagando, para “argumentar” que a situação terrível da economia egípcia e a miséria que assola o país não seriam efeito da pilhagem descomunal, por aquela mesma classe governante, com a ajuda de seus patrocinadores norte-americanos e sauditas desde os anos 1970s, mas uma espécie de “saldo”, depois de uma alegada defesa da Palestina e dos palestinos e de um alegado compromisso que o presidente Gamal Abdel Nasser teria assumido de libertar os palestinos da ocupação colonial israelense.


Falso governo e escandalosa pilhagem

Desde os anos 1970s, os palestinos têm sido submetidos a essas mentiras e à vacuidade e ao espalhafato e à pilhagem, por essa classe governante egípcia, que não passam de ignorantões semianalfabetos. A falta de educação e de modos civilizados daquela gente esteve sempre à vista do mundo nos três últimos anos de propaganda e agitação contrarrevolucionárias nas suas próprias redes de televisão e em todos os veículos de imprensa-empresa que pertencem, todos, a eles mesmos.

A forma e o conteúdo dessa “comunicação” causaria vergonha e embaraço a qualquer grupo que se desse ao respeito, de intelectuais, jornalistas e artistas – se a maioria dos intelectuais e artistas egípcios já não estivessem ou presos ou subornados para defenderem exclusivamente aqueles interesses de classe (e vários dos que foram presos por apoiar o regime deposto, especialmente acadêmicos, já começaram a fazer meia volta e estão reescrevendo seus escritos para negar o que antes afirmavam).

Abdel Fattah al-Sisi (1º à esquerda) “et catærva”

A degradação da cultura e da produção intelectual e estética no Egito nos últimos 40 anos é resultado direto do mando daquela classe governante de ladrões tirânicos. Basta sentar-se com esses empresários e suas mulheres nas casas deles, ou assistir a filmes e seriados egípcios dos quais eles são os personagens, e aproximar-se da cultura que eles querem impor através daqueles filmes e seriados, ou ouvir o que conversam em qualquer bar ou restaurante dos hotéis cinco-estrelas no Cairo, ou assistir às entrevistas que dão aos canais da horrenda televisão egípcia, para perceber a espantosa e insuperável mediocridade e baixo nível crítico do pensamento econômico e político daquela gente, e do gosto, e, isso, para nem falar da vastíssima ignorância que exibem de toda a literatura & arte egípcia, árabe, universal – além do invencível, indisfarçável desprezo que manifestam pelos pobres egípcios – que são mais de 80% da população.

Que essa gangue invejosa e ciumenta, essa classe de super ricos, inveje e pense em tomar por assalto até os mais pobres dos pobres, para privá-los do quase nada que têm, sobretudo os palestinos de Gaza, mostra bem o tipo de (a)moralidade que orienta as ações deles.

Nassef Sawiris
Lembro ainda do horror que senti quando, num jantar no Cairo em outubro de 2010 com o bilionário Nassef Sawiris, o homem mais rico do Egito, o homem anunciou com muito orgulho às sete pessoas que jantávamos ali, que mantém três televisões ligadas ao mesmo tempo, no escritório, em casa e em viagem, sintonizadas cada uma em um canal de notícias dos EUA (se lembro bem, CNN, CNBC e Fox News). Evidentemente, eram as suas fontes de “informação” e de “educação”.

Sawiris, que é menos exibicionista que seus irmãos mais velhos, fez ar de quem absolutamente não acreditava, quando eu lhe disse que faço oposição às políticas dos EUA, interna e externa: para ele, nada existe, no mundo, em matéria de posição política, à esquerda de Barack Obama.

Em entrevista recém-publicada que concedeu ao jornal pro-Sisi Al-Masry Al-Youm, Sawiris elogiou Sisi por retirar os subsídios ao combustível para os mais pobres (mas manteve o mesmo preço baixo para gasolina para carros de luxo dos ricos), e repetiu várias recomendações neoliberais – desvalorizar ainda mais a libra egípcia; privatizar o transporte público; acabar com impostos para os ricos (os quais, diz ele, o governo do deposto presidente Muhammad Mursi teria imposto ilegalmente à sua empresa); proteger ministros e funcionários públicos, para que não sejam investigados em nenhum caso; e permitir que se use carvão para alimentar fábricas de cimento – contra o quê há oposição massiva de ativistas pró preservação ambiental e de profissionais de saúde pública.

Hosni Mubarak (em cana)
São medidas que enriquecerão ainda mais o 1% e empobrecerão ainda mais os mais miseráveis (o irmão mais velho de Nassef, mais bon-vivant, mas mais pobre, Naguib, ganhou uma coluna semanal no jornal egípcio Al-Akhbar na qual reitera as recomendações neoliberais do irmão. Em entrevista a um canal de televisão, pediu a Sisi que anistie Mubarak e o liberte da prisão.

É tudo mentira. Ficção, pura invenção

O que Sisi e a classe à qual está aliado estão querendo implantar na opinião pública é que todas as guerras do Egito com Israel teriam sido feitas para defender a Palestina e os palestinos e que foram imensamente custosas para o Egito, em dinheiro e em vidas de soldados. É tudo mentira.

Em 1956, Israel invadiu o Egito e ocupou o Sinai, e os soldados egípcios que foram mortos morreram quando defendiam o próprio país contra Israel; em 1967, Israel novamente invadiu o Egito e ocupou o Sinai, e os soldados egípcios que morreram defendendo o próprio país contra invasão estrangeira, outra vez, portanto, contra Israel; entre 1968 e 1970, Israel e Egito combateram a “Guerra de Atrito” na qual soldados egípcios foram mortos defendendo o próprio pais mais uma vez contra Israel e a continuada agressão dos israelenses que tentavam preservar a ocupação que ainda lá estava, dos israelenses, no Sinai – essa guerra foi combatida em solo egípcio; e em 1973, o Egito fez guerra para libertar o Sinai, não a Palestina, e mais uma vez muitos soldados egípcios foram mortos defendendo o próprio país contra a ocupação israelense.

Faruc, rei do Egito
Assim, ficamos com a guerra de 1948, na qual, dependendo das fontes, alguma coisa entre mil e dois mil soldados e voluntários egípcios foram mortos. Essa intervenção militar egípcia para impedir que os sionistas continuassem a expulsar palestinos e para fazer parar o roubo de terras palestinas pelos sionistas foi lançada não por Nasser, que é culpado pelo apoio só retórico aos palestinos, mas pelo rei Faruc.

Como atestam muitos estudos sobre os motivos que levaram Faruc e seu governo a intervir na Palestina, a ação foi resultado da preocupação de Faruc com a posição do Egito como líder regional; do medo da rivalidade iraquiana, muito mais que como alguma modalidade de nacionalismo ou solidariedade árabes.

À parte esses motivos, muitos palestinos sabem que os soldados e voluntários egípcios que morreram naquela luta morreram, sim, defendendo a Palestina e os palestinos, ainda que os soldados que ali havia o fizessem para cumprir ordens que visavam a defender, antes, a hegemonia regional do Egito. Mas essa é a única guerra na qual morreram soldados e voluntários egípcios que defendiam a Palestina, e aos quais o povo palestino e seu movimento nacional já expressou muita gratidão.

Anuar el-Sadat
Transformar esses mil ou dois mil soldados e voluntários em “100 mil mártires”, como mentiu Sisi, é ficção, pura invenção, que os ladrões da classe governante egípcia e seus intelectuais alugados e propagandistas pagos na imprensa puseram-se a repetir na imprensa depois dos acordos de Camp David que Sadat urdiu em 1978, e pelos quais sacrificou os direitos do povo palestino, inclusive dos palestinos de Gaza, em troca de o Egito receber um controle não soberano, parcial e só policial do Sinai.

Nada disso implica sugerir que milhões de egípcios, civis e soldados, não apoiem ou não venham a apoiar a Palestina e os palestinos, ou que não lutariam pela Palestina e pelos palestinos, como tantas vezes dizem que lutam e lutariam. Isso é para dizer que, exceto pelas batalhas de 1948, nenhum egípcio teve sequer a chance de defender os palestinos no campo de batalha. E é para continuar a negar-lhes essa chance que os ladrões que hoje governam o Egito construíram e mantêm a atual campanha de propaganda anti-Palestina e o discurso de ódio que todas as televisões que pertencem a eles não param de vomitar dia e noite.

Se se ouve essa propaganda incansável pelas televisões, é-se levado a pensar que foram os palestinos que ocuparam o Sinai, não o Egito que assumiu e governou Gaza de 1948 a 1967, e impôs sítio intermitente no início e, na sequência, nos últimos oito anos, impôs  sítio completo e continuado.

Apesar das massivas campanhas pela mídia, os egípcios não deixam de apoiar os palestinos, seja em manifestações contra a cumplicidade do regime de Sisi nos massacres – o que se tem visto sem parar nas duas últimas semanas – seja pelas caravanas que levam remédios a Gaza – que os soldados de Sisi não deixam passar e mandam voltar.

Egípcios protestam contra Israel e são reprimidos pelo governo Sisi
Suicídio intelectual em massa

Nesse contexto, é crucial compreender que a classe de ladrões que hoje governa o Egito é o principal e primeiro inimigo, não do povo palestino, mas da maioria dos egípcios que os mesmos ladrões oprimem, exploram, assaltam, roubam e humilham diariamente. O fato de que os inimigos dos palestinos no Egito são também os inimigos da maioria dos egípcios é verdade que tem sido ocultada pelo papel que cumpre a malta que opera como claque de apoio do regime Sisi.

O suicídio intelectual em massa que a maioria dos intelectuais e artistas egípcios (nasseristas, marxistas, liberais e salafistas) cometeram, quando abdicaram de suas faculdades críticas e passaram a apoiar – ou não protestaram contra – os massacres e a repressão desencadeada pelo governo Sisi, para nem falar do silêncio canalha nas campanhas contra os pobres egípcios e os palestinos, faz recordar o suicídio cometido pelos comunistas egípcios quando, em 1964, abandonaram o próprio partido para unir-se à União Socialista de Nasser.

Nesse grupo incluem-se, desde o economista marxista e infatigável defensor de Sisi, Samir Amin, até figuras menos ilustres como Alaa al-Aswany, romancista e adversário de Mubarak, e o economista Galal Amin e escritores e poetas, Sonallah Ibrahim, Abd al-Rahman al-Abnudi, Bahaa Taher e muitos e muitos outros.

Samir Amin
O suicídio dos comunistas egípcios em 1964, contudo, explicou-se, porque os comunistas entendiam que a repressão nasserista, embora lamentável, visava, no limite, a servir ao projeto comum de nacionalização e socialização da propriedade para erradicar a pobreza egípcia. Permanece absolutamente indecifrável, inexplicável, a razão pela qual intelectuais egípcios contemporâneos estão novamente cometendo suicídio coletivo, para apoiar a classe de ladrões que governa hoje o Egito.

O massacre de Gaza é “plano B”

Que Sisi já tenha superado Mubarak nas políticas de aliar-se com Israel e agir coordenadamente no sítio aos palestinos não é surpresa para ninguém, porque Sisi sempre serviu à mesma classe e aos mesmos interesses aos quais Mubarak servia. Diferente é, porém, a concordância do Hamás e a submissão ao que Mubarak ordena.

É hoje claro que o massacre que Israel inflige aos palestinos hoje sempre foi o Plano B; o Plano A era uma possível invasão de Gaza, pelo Egito, por terra, que o governo Sisi ameaçou levar avante há alguns meses, depois de ter destruído os túneis de sobrevivência de Gaza (aconteceu antes das eleições fraudadas que levaram Sisi ao poder), presumivelmente com ajuda dos israelenses, com o objetivo ostensivo de reinstalar Muhammad Dahlan como senhor-da-guerra em Gaza e livrar-se do Hamás e da resistência palestina.

O chefe da inteligência do Egito esteve em visita a Israel poucos dias antes do início dos massacres de palestinos; e, poucos dias antes, três oficiais de inteligência do Egito também lá estiveram: são as únicas pistas que há, a serem investigadas, de que, sim, Israel e o Egito trabalharam coordenadamente.

Autoria de Alfredo Karras

O sadismo e o narcisismo são traços da cultura colonial dominante dos israelenses e que se manifestaram em comícios, com israelenses gritando “morte aos árabes”, e nos grupos de habitantes das colônias israelenses instalados em cadeiras e poltronas para assistir e festejar, do alto das colinas, o massacre de palestinos. São traços só comparáveis à propaganda sádica, de ódio, que a imprensa do regime de Sisi distribui; e ao que diz e faz a classe de ladrões que governa o Egito.

De fato, mesmo enquanto prossegue o massacre de palestinos de Gaza por Israel, o exército egípcio anunciou dia 27/7/2014 que destruíra mais 13 túneis entre Gaza e o Egito; provavelmente, é parte de sua heroica contribuição à opressão dos palestinos.

Quanto ao “cessar-fogo” que Sisi ofereceu depois de o massacre de palestinos já durar uma semana, e ideia que lhe foi repassada por seus aliados israelenses, foi muito corretamente rejeitado pelo povo palestino, a favor de uma resistência militar potente contra a criminalidade de seus agressores israelenses colonialistas e a favor de valente resistência política e diplomática ante a crueldade de seus carcereiros egípcios.
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[*] Joseph Massad Andoni (em árabe: جوزيف مسعد) (nasceu na Cisjordânia em 1963) leciona Política Árabe Moderna e História Intelectual na Universidade de Columbia em New York. Seu trabalho acadêmico tem se concentrado em Palestina, Jordânia e no nacionalismo israelita. Tornou-se muito conhecido por seu livro Desiring Arabs (2007), sobre representações do desejo sexual no mundo árabe. Recebeu seu PhD em Ciência Política pela Columbia em 1998. É autor, entre outras obras, de: Colonial effects: the making of national identity in Jordan (2001); The Persistence of the Palestinian Question: Essays on Zionism and the Palestinians (2006); Islam in Liberalism(2007) e numerosos artigos distribuídos em importantes publicações nos EUA e no exterior

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Internet, o novo “front” da resistência palestina


As páginas da bolsa de valores e do governo de Israel foram os alvos
18/01/2012

Baby Siqueira Abrão - Correspondente no Oriente Médio

Eram 10 horas da manhã de segunda-feira, 16 de janeiro, quando dois portais importantes de Israel saíram do ar: o da bolsa de valores de Tel Aviv (Tel Aviv Stock Exchange, TASE) funcionava apenas parcialmente, antes de fechar de vez, e o da companhia aérea El Al, israelense, estava inacessível. Não foi por falta de aviso. No domingo, um grupo de hackers autodenominado “Pesadelo” ameaçou atacar ambos os portais. Dito e feito.

Um porta-voz da bolsa de valores israelense declarou que as operações financeiras não foram afetadas, uma vez que não estão conectadas ao portal. Já a El Al disse que esse tipo de ataque “já era esperado” e anunciou a tomada de medidas de segurança nas operações do site, segundo informou o jornalista Oded Yaron, do diário israelense Haaretz.

O ataque ocorre um dia depois de o Hamas, partido palestino que governa Gaza, parabenizar os piratas que andam invadindo sites israelenses e incentivar a prática. Em comunicado oficial, o porta-voz Sami Abu Zuhri declarou, numa coletiva de imprensa na faixa costeira palestina, que as invasões são “a abertura de um novo campo de resistência, a eletrônica, e o início de uma guerra virtual contra a ocupação que Israel impõe à Palestina”.

Zuhri fez um apelo “aos povos palestino e árabe para que continuem com a guerra eletrônica, buscando maneiras de estimulá-la e desenvolvê-la”.

O comunicado foi feito três dias depois de um grupo de ativistas de Gaza ter conseguido entrar no sistema eletrônico do serviço de resgate e combate ao fogo de Israel. Eles substituíram a página oficial por uma foto de Danny Ayalon, vice-ministro israelense das Relações Exteriores, cobriram seu rosto com pegadas e acrescentaram a frase “Morte a Israel”.

Depois que o grupo Anonymous invadiu o site do exército israelense, no final de 2011 – notícia pouco divulgada e não confirmada por fontes oficiais, que alegaram “problemas técnicos” para justificar o fato de o portal ter saído do ar – outros hackers parecem ter se animado com a ideia. Desde o início de 2012, sites de bancos e instituições financeiras de Israel vêm sendo visitados por piratas eletrônicos que se identificam como moradores de países árabes.

No início do ano, hackers autodenominados Group XP invadiram um portal israelense de venda de produtos esportivos, capturando e divulgando os dados dos cartões de crédito de milhares de clientes. Nome, endereço, telefone e número da carteira de identidade dos titulares dos cartões foram publicados na internet, em dias intercalados, por dois hackers, que usam o codinome “Ox-Omar” e “X”, declaram-se sauditas e garantem ter informações pessoais de 1 milhão de usuários de cartões de crédito em Israel.

Enquanto bancos e operadoras procuravam minimizar o problema e suspender as operações com os cartões pirateados, o vice-ministro Danny Ayalon vinha a público dizer que os ataques constituíam “uma violação à soberania israelense”, que eram comparáveis a “atos terroristas” e que seriam tratados como tais.

A resposta veio de imediato: o Group XP tirou do ar a página eletrônica do vice-ministro e prometeu intensificar a ciberguerra contra Israel, “pelos crimes cometidos contra o povo palestino”. Os hackers X e Ox-Omar desafiaram Ayalon em público: “Vocês nunca vão nos encontrar”.

Danny Ayalon é o segundo homem do ministério comandado por Avigdor Lieberman, um dos líderes da extrema-direita israelense e fundador do partido ultranacionalista Yisrael Beitenu. Lieberman, cuja posição contra a constituição do Estado da Palestina é bem conhecida, mora numa colônia ilegal construída por Israel em terras confiscadas ao povo palestino.

E a força-tarefa?

Os ataques tornam patente uma verdade que o governo israelense não quer assumir: a força-tarefa contra ciberataques, anunciada em maio de 2011 pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, e que devia ter começado a operar na primeira semana de 2012, não existe. Oficialmente, o governo declara que cuidar de cartões de crédito e de interesses privados não é o objetivo do grupo, e que Eviatar Matanya, o diretor de operações, já iniciou o trabalho de “criar e estruturar” a força-tarefa. Mas recusa-se, “por razões de segurança”, a revelar a verba destinada a estruturá-la.

Na verdade, de acordo com uma fonte não oficial ligada às forças de segurança israelenses, essa verba também não existe. A força-tarefa não conta com “verba, pessoal, jurisdição nem com seu diretor de operações predileto [o general da reserva Yair Cohen, ex-chefe da central militar de inteligência], que se recusou a aceitar o posto ao saber que não teria recursos para o trabalho”, escreveu Anshel Pfeffer, jornalista do Haaretz, em 4 de janeiro, dia em que o grupo deveria ter iniciado suas atividades.

No lançamento do programa, há oito meses, Netanyhau declarou, numa entrevista coletiva à mídia, que aceitara as recomendações de uma equipe de oito especialistas, capitaneados pelo general da reserva Isaac Ben-Israel, para formar um grupo de defesa contra ciberataques “que podem paralisar os sistemas que mantêm o país em funcionamento. Eletricidade, cartões de crédito, água, transportes, semáforos, tudo é computadorizado e, portanto, suscetível a ataques”. Repare o leitor que o primeiro-ministro incluiu os cartões de crédito na relação de sistemas a receber atenção da força-tarefa.

A mesma fonte não oficial afirma que, embora a necessidade da criação do cibergrupo exista, “há órgãos que não desejam ajudá-lo, e ninguém realmente apoiou o projeto ou se esforçou para viabilizá-lo”.

O pessoal do exército treinado para lidar com o cibermundo dedica-se somente à inteligência militar. “A segurança das redes de infraestrutura vital, como eletricidade e água, está nas mãos da Autoridade Nacional de Informação em Segurança [NISA], uma unidade do Shin Bet”, informa Pfeffer. “O Conselho Nacional de Segurança decide quais sistemas de companhias civis devem ser protegidos pela NISA, mas como algumas delas, incluindo bancos, operadoras de telefone celular e de internet se opõem a isso, a legislação concernente à segurança dessas empresas foi posta de lado.”

Enviado por Baby Siqueira Abrão - direto de Ramallah (Palestina roubada)

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Juliano Mer-Khamis (1958-2011), ator-diretor de teatro e cinema:“Somos combatentes da liberdade”

5/4/2011, Entrevista a Maryam Monalisa Gharavi, The Electronic Intifada
Traduzido pelo passoal da Vila Vudu


Juliano Mer-Khamis
, jan. 2007. (Foto Tess Scheflan/ActiveStills)
O ator-diretor de teatro e cinema Juliano Mer-Khamis foi assassinado por um pistoleiro mascarado, dia 4/4/2011, na calçada do Teatro da Liberdade do qual foi co-fundador em 2006, na cidade de Jenin na Cisjordânia ocupada por Israel. Nascido em Nazareth em 1958, filho de Saliba Khamis, palestino, líder do Partido Comunista de Israel, e de Arna Mer, atriz israelense, Juliano descrevia-se, ele mesmo, como “100% palestino e 100% judeu.” 

Juliano tentou empenhadamente exibir seu filme “As crianças de Arna” [orig. Arna's Children. O filme pode ser comprado em: The Freedom Theatre], que documenta a extraordinária transformação de sua mãe, de jovem judia de uma colônia israelense em 1948, até converter-se em animadora de um grupo de teatro para crianças no campo de refugiados palestinos de Jenin. Como o próprio Juliano conta na entrevista abaixo, que permanecia inédita, o filme alcançou pouca repercussão quando foi mostrado pela primeira vez. Em 2006, Juliano voltou aos EUA, infatigável como sempre, e encontrei-o pela primeira vez numa exibição do filme no Massachusetts Institute of Technology, MIT.

Apesar do público pequeno que acorreu à exibição aquela noite, era impossível não ver o impacto que o filme, raro, inesquecível, provocou. Depois da exibição, Juliano falou sobre o filme, a voz candente, apaixonada, descrevendo a devastação da ocupação e comentando as dificuldades que enfrentou para filmar a história de sua mãe.

As Crianças de Arna é um documentário, mas com marcações temporais que o aproximam da narração de ficção. Como em outras obras de arte centradas na perda da Palestina histórica, como em Returning to Haifa [Voltando a Haifa], de Ghassan Kanafani, Juliano construiu uma narrativa quase impossível de recriar ou imaginar de qualquer outro ponto de vista.

Numa das sequências, a narrativa aproxima uma cena que mostra Juliano ao lado do corpo da mãe envolto num lençol num hospital, e o ataque do exército de Israel, com tanques, contra o Teatro de Pedra [orig. The Stone Theatre], de Arna, em abril de 2002. O Teatro de Pedra foi parte do projeto cultural mais amplo de Arna – “Care and Learning”, fundado para atender crianças do campo de refugiados de Jenin, que conviviam com a violência de uma ocupação militar que os cercava por todos os lados, e dar às crianças um meio criativo para sobreviver ao trauma crônico. O Teatro de Pedra foi destruído pelos tanques israelenses, em ataque que o filme mostra, documentado. As datas históricas da destruição do Teatro de Pedra e a morte de Arna alinham-se quase miraculosamente. O filme mostra o cadáver de Arna e as ruínas do teatro que ela tanto amara como dois mortos por uma mesma causa.

Entrevistei Juliano [1] na estação ferroviária, em Boston, dia 4/4/2006, pouco antes de ele tomar um trem para Nova Iorque, para a exibição do filme – exatamente cinco anos antes de ele ser assassinado na calçada do Teatro da Liberdade, em Jenin, onde viveu e onde trabalhou. 

O currículo de Juliano como ator é conhecido, e é hora de lembrar detalhes de sua biografia. Aí vai a história, contada por ele, de sua vida no campo de refugiados em Jenin e de sua relação complexa com Israel. 

Quem o conheceu reconhecerá nessa entrevista o tom de Juliano: brutalmente franco, irônico, com olhos pouco complacentes sobre os abismos que ligam Israel e os palestinos. Discute sem meias palavras a engenharia social de Israel, o trabalho visionário de sua mãe em Jenin e sua trajetória, de soldado israelense até se converter em cineasta e militante. Tenho esperança de que essa entrevista possa somar-se, como mais um fragmento de discurso, ao trabalho militante de Juliano, ao seu filme e à luta dele, para compor mais um degrau rumo ao que o artista Paul Chan chamou de “liberdade sem força”. Aí, um fragmento da entrevista. A íntegra da entrevista pode ser lida em: Art is freedom whithout force: interview with the late Juliano Mer-Khamis – 5/4/2011.

Maryam Monalist Gharavi: Por quanto tempo o filme As Crianças de Arna foi proibido em Israel?

Juliano Mer-Khamis: Não foi realmente proibido. Se alguém escrevesse sobre o filme, os jornais não publicavam. O filme foi apagado, silenciado. Houve dois programas de televisão sobre o filme, os dois cancelados no último momento. Não achamos distribuidor em Israel, nem cinemas que exibissem o filme. Em alguns momentos, críticos e jornalistas usaram o filme para dar vazão às próprias frustrações, impostas pela censura e por um certo discurso que o governo de Israel impõe à imprensa. São regras conhecidas, sobre o que se pode e o que não se pode publicar, palavras que não se pode usar, perguntas que não se pode nem perguntar nem responder e o modo permitido de perguntar certas coisas. Se você fala com um palestino e com um militar israelense, é preciso mudar as expressões, as palavras. Com esses cuidados, acho que alguns arranjaram coragem para escrever sobre o filme. Assim, aos poucos, o filme foi ‘autorizado’ e acabou por ser exibido em todo o país.

MMG: Arna fez discurso pungente ao receber o Right Livelihood Award, do Parlamento da Suécia. Disse que, assim como Rosh Pina [a colônia israelense onde ela vivia durante a Nakba (a Catástrofe) dos palestinos, em 1948] cresceu e desenvolveu-se, a vila árabe vizinha, al-Jauna, foi “varrida da face da terra” e os palestinos que ali viviam foram feitos refugiados, como 700 mil outros, “por assalto, roubo de terras e deslocamento forçado”. Na sua opinião, o que impede que outros israelenses vejam o que sua mãe viu?

JMK: Boa pergunta. Posso lhe dar um quadro, no qual analiso esse processo histórico, pelo qual Israel conseguiu confiscar terras, expulsar populações inteiras e colonizar grandes áreas da Palestina, e não ver o que minha mãe viu nem enveredar pelo caminho pelo qual ela enveredou. Há muitas razões, mas a principal é que você tem de entender que, desde que o movimento sionista foi criado, o próprio sionismo manipulou a história dos judeus, sobretudo o período do Holocausto, e mobilizou recursos e força, até criar algumas das mais bem sucedidas colônias na Palestina. Daí em diante, a teoria da vitimização, ou uma política de vitimização dos judeus, que os israelenses usaram e usam, e os muitos meios que mobilizaram, reescreveram a história, desde os pogroms – as políticas dos czares russos – até a divulgação de alertas antissuicídio que chegavam a Israel. De lá até hoje, o que se vê são sempre políticas do medo, a mentalidade de ghetto, políticas que afastam o israelense médio da realidade. Assustadas, vitimizadas, as pessoas conseguem justificar qualquer crime que cometam e vejam ser cometido, e vivem confortavelmente sem responsabilizar-se, sem se culpar pelos próprios crimes ou pela cumplicidade. A maioria dos israelenses vive assim. Se você convence-se de que é a vítima, é fácil desumanizar e demonizar todos que não sejam ‘você mesmo’. Acho que isso explica o sucesso inicial da propaganda sionista em Israel.

MMG: No filme, na cena ao lado do corpo de sua mãe, no necrotério, você comenta, meio sem conseguir falar, que só okibbutz aceitaria enterrar sua mãe. O que aconteceu depois que ela morreu?

JMK: Minha mãe não podia ser enterrada em Israel, porque ela exigiu que não se fizesse nenhum tipo de enterro religioso. Israel não é uma democracia: Israel é uma teocracia. A religião não é separada do Estado e todas as questões da vida privada – casamentos, enterros, a comida, tudo – são controladas por autoridades religiosas. Então, é impossível, em Israel, enterro não religioso. O único modo de enterrar quem não queira funeral religioso é comprar uma sepultura em alguns dos kibbutzim que se dizem laicos, mas esses não queriam nos vender a sepultura, por causa da militância política de minha mãe. Não fosse pela questão religiosa, era pela questão política, mas o resultado era o mesmo. Então, até que se resolvesse alguma coisa, tivemos de levar o caixão de volta para casa. E lá ficou, na minha casa, por três dias. E não havia onde enterrá-la. Então, convoquei a imprensa e anunciei que minha mãe seria enterrada no jardim da minha casa. Foi um escândalo, apareceu a polícia, televisões, jornalistas, ameaçaram-me, muitas ameaças. A casa foi cercada por uma multidão. Até que, afinal, recebi um telefonema de amigos, do kibbutz Ramot Menashe, gente do lado esquerdo do mapa, argentinos de origem. Bons sionistas, talvez já mais pós-sionistas. Eles me deram sete palmos de terra e autorizaram a enterrar minha mãe. 

O mais engraçado foi que, enquanto procurávamos lugar para enterrar minha mãe, discutia-se, em Jenin, se não seria o caso de enterrá-la ali, no cemitério dos mártires. Contaram-me que um líder do Fatah andava dizendo, como piada: “Ora, pessoal, é uma honra ter Arna aqui, uma grande honra. O único problema é que, daqui a 50 anos, se aparecer um arqueólogo judeu e desenterrar ossos judeus aqui, vão confiscar a terra de Jenin” [risos]. É assim que fazem. Vivem escavando. Se encontram ossos que dizem ser ossos de judeus, mesmo que sejam ossos de cachorro, eles confiscam a terra. Israel é onde acontecem essas coisas. Em todos os terrenos confiscados, algum osso de judeu foi desenterrado. Assim eles legitimam a posse da terra: desenterrando ossos.

MMG: O jornal Haaretz divulgou recentemente uma pesquisa, segundo a qual 68% dos israelenses entrevistados diziam que não morariam no mesmo prédio em que morassem árabes.

JMK: Tenho aqui, a pesquisa. 

MMG: Então? Se não querem morar na casa ao lado, por que quereriam ser enterrados ao lado de árabes?

JMK: É. Faz sentido. E quase 50% dos israelenses pensam que os árabes que vivem em Israel são a grande ameaça demográfica e de segurança. Se pensam isso dos vizinhos de porta, imagine que tipo de democracia existe em Israel.

MMG: Para mim, uma das cenas mais importantes do filme é a que mostra a destruição da casa de Alaa e, depois, a destruição também da casa de Ashraf [dois dos adolescentes que fazem teatro com o grupo de Arna, cuja história é mostrada no filme], em Jenin. E Arna, dizendo aos meninos que eles deixem sair a ira, a zanga, que batam nela, se quiserem. Somos envolvidos pela mesma tensão. No público, havia gente que ria e chorava ao mesmo tempo.

JMK: Arna tinha formação em psicodrama. Conseguia resultados surpreendentes, com essas técnicas.

MMG: Como você responderia aos pró-sionistas que assistem ao seu filme e dizem que, apesar de sua mãe ter “reabilitado a mente árabe”, alguns dos meninos atores que se veem no filme converteram-se em “terroristas” (o que o filme também mostra)? 

JMK: Essa questão é doentia. Não a sua pergunta, mas a atitude dos sionistas que supõem que o problema é a violência que as crianças praticam, não a violência da ocupação. É como inverter a pirâmide. O que me interessa é desinverter a pirâmide, com propaganda, é claro. 

Nós não trabalhamos para ‘curar’ a violência das crianças em Jenin. As crianças em Jenin não estão doentes. Tentamos encontrar meios mais produtivos, para ajudá-las, E meios mais produtivos não implicam não resistir à violência. 

O que o nosso teatro tenta fazer não é se por como substituto ou alternativa à resistência palestina que luta pela libertação. É exatamente o contrário. É importante que isso fique bem claro. 

Sei que essa posição não nos ajuda a conseguir financiamento, mas não somos ‘bons judeus’ querendo ajudar ‘árabes’. Tampouco somos palestinos caridosos, que trazem sopa para os pobres. Nós somos da resistência. Estamos alinhados, absoluta e completamente alinhados com a resistência, com o movimento de libertação dos palestinos. A luta pela libertação dos palestinos é a nossa luta de libertação. Todos os que têm qualquer ligação com o nosso projeto sentem-se pessoalmente sob ocupação, sentem que sua vida está sob ocupação pelo movimento sionista, pelo regime militar de Israel, pelas políticas de Israel. Não importa se moramos em Jenin, em Haifa ou Tel Aviv. Ninguém que trabalha conosco trabalha para ‘curar’ alguém. Não somos ‘curadores’. Não somos bons judeus, nem somos bons árabes, nem somos bons cristãos. Nós somos combatentes da liberdade da Palestina.

MMG: O filme foi proibido em muitas cidades?

JMK: Foi. A exibição foi proibida. O filme foi vendido para várias exibidoras, mas não foi exibido em muitas cidades em Israel. Não sei, é minha opinião, mas acho que quem puder criar dificuldades, boicotar a exibição, boicoitará. Por isso estamos trabalhando tanto na divulgação, tentando divulgar o filme nós mesmos. 

Mas, voltando à questão de nosso teatro estar alinhado à Intifada, para deixar bem claro: acreditamos que, hoje, a luta tem de ser cultural, moral. Isso é importante. Não ensinamos os meninos e meninas a usar armas, a atirar, a fabricar bombas. O que fazemos é expô-los ao discurso da libertação, ao discurso da liberdade. Para expô-los a esse discurso, nós os expomos à arte, à música, à dança, à cultura. Nós o expomos a eles mesmos, a uma parte deles que eles não encontram se não forem ensinados a procurar. Entendemos que, assim, lhes damos uma chance de serem mais felizes, de serem gente melhor. Espero que alguns, alguns dos nossos amigos em Jenin, continuarão a luta pela resistência contra a ocupação israelense e continuarão a fazê-lo também nesse projeto e nesse teatro. 

MMG: O diretor israelense Yehuda "Judd" Ne'eman diz que hoje filma “no matadouro da guerra moderna”. Diz que se desiludiu do poder da arte ante o horror da guerra, mas diz ele, literalmente: “Quando a situação em Israel deteriora-se em termos políticos, quando meu próprio corpo deteriora-se, só resta acreditar na arte”. Você concorda? Que semelhanças e diferenças você vê entre o seu trabalho, sua missão política e as convergências e divergências que haja entre missão política e missão artística?

JMK: Os mesmos pressupostos valem também para mim. No nosso caso, a arte se combinou, e gera e mobiliza outros aspectos da resistência. A mim, só a resistência interessa. Não faço arte pela arte. Não acredito em arte pela arte. Acho que a arte gera, mobiliza, mistura e combina e inventa um discurso universal de liberdade, de libertação. Só assim a arte me interessa. Por outro lado, a arte tem uma força terapêutica, e dizer “força terapêutica” não implica dizer “poder curativo”. Essa diferença é crucial – não vemos a violência que a ocupação ‘ensina’ aos mais jovens como uma doença. A arte não ensina ninguém a ser bom, bom cidadão, bom judeu, bom cristão. A arte aponta um caminho pelo qual esses jovens têm uma chance de aprender a usar as próprias potências a favor deles. Não contra eles mesmos.

MMG: Você serviu ao exército de Israel, mas abandonou o serviço militar quando recebeu ordens de impedir que parentes palestinos do seu pai passassem por um ponto de controle militar israelense. Que importância teve esse evento, na sua vida política ou, mesmo, na sua formação como artista?

JMK: Foi a palha que quebrou as costas do camelo. Mas a coisa já começou desde que vesti o uniforme. A fantasia não servia, entende? Eu não me via vestido em uniforme militar. Explodi um dia, naquele turno de serviço, naquele ponto de controle. Mas era coisa que já me acompanhava há muito tempo.

MMG: Por quanto tempo você esteve no exército?

JMK: Um ano e meio. Servi numa unidade especializada das forças especiais [uma brigada de infantaria, de paraquedistas]. Não lamento, verdade seja dita. Antes de tudo, do ponto de vista pragmático, o que aprendi lá salvou minha vida várias vezes, no teatro e nas filmagens. Conheço muito bem o exército de Israel, falo hebraico, conheço o idioma, sei como conviver com eles. Foi uma espécie de treinamento de combate para a vida. Por outro lado, vi o avesso, o lado de dentro da propaganda israelense, as menores células da sociedade de Israel, de onde sai o adubo que alimenta o exército. O exército de Israel é a essência da vida em Israel, onde se produz o discurso social israelense, é a base da sociedade israelense. Só lá se vê o fundamento da sociedade israelense. Quando se vê o exército de Israel por dentro, entende-se a dinâmica que mantém vivo o Estado de Israel. Conhecido esse núcleo duro de Israel, pode-se fazer oposição, pode-se reinventar o que não existe em Israel, a partir do que existe.


Nota de tradução