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terça-feira, 14 de abril de 2015

O que tem de ser dito

[*] Günter Grass (1927-2015), Süddeutschen, 4/4/2012
Tradução de trabalho realizada por Baby Siqueira Abrão
Retirado da postagem O poema que desmascarou Israel
Lembrado pelo pessoal da Vila Vudu

Günter Grass-documento

Por que me calo, já por tempo demais
Sobre o que é evidente e foi ensaiado
em jogos de guerra, ao final dos quais, como sobreviventes,
somos, se muito, notas de rodapé?

É o alegado direito do primeiro ataque,
que poderia apagar o povo iraniano
subjugado por um boquirroto
e dirigido ao júbilo coletivo,
porque se cogita construir uma bomba atômica
na esfera de poder do Irã.

Mas por que me nego,
a tratar pelo nome aquele outro país
no qual há anos — embora em segredo —
existe potencial nuclear crescente
mas fora de controle, por que nenhum auditor é deixado entrar?

O ocultamento geral desse fato,
ao qual se subordina o meu silêncio,
cai sobre mim como pesada mentira
e coerção, que ameaça castigos;
a condenação de “antissemitismo" é a mais comum.

Agora porém, porque meu país,
cujos velhos crimes antigos,
que são inigualáveis,
é chamado e chamado e assume a tarefa
embora repetidamente e protocolarmente,
com lábios escorregadios, chame de reparação,
será enviado a Israel
mais um submarino, cuja especialidade
consiste em levar ogivas mortais devastadoras de tudo
a um local onde nem se sabe com certeza se há bomba,
como se o medo fizesse prova de algo,
digo o que tem de ser dito.

Mas por que me calei até hoje?
Porque achava que minha origem,
maculada por mácula irremissível
proibia atribuir esse fato, como verdade declarada
ao país Israel, ao qual eu sou e
quero continuar ligado.

Por que só digo agora,
envelhecido e com tintas finais:
Israel potência nuclear põe em risco
a já frágil paz mundial?
Por que é preciso dizer
o que amanhã já pode vir tarde demais;
também porque nós -alemães já suficientemente sobrecarregados-
poderíamos nos tornar cúmplices de um crime
previsível, razão pela qual nossa cumplicidade
não pode ser disfarçada-escondida
nas desculpas costumeiras.

Assumo e admito: não me calo mais
porque estou enojado com a hipocrisia do Ocidente;
além disso, há a esperança
de que muitos se livrem do próprio silêncio,
e exijam que o causador do perigo evidente
abstenha-se de violência
e ao mesmo tempo insistam
que haja controle sem restrições.

___________________________________________

[*] Günter Wilhelm Grass (Danzig, 16 de outubro de 1927 - Lübeck, 13 de abril de 2015) foi um autor, romancista, dramaturgo, poeta, intelectual e artista plástico alemão. Sua obra alternou a atividade literária com a escultura, enquanto participava de forma ativa da vida pública de seu país. Recebeu o Nobel de Literatura de 1999. Também é reconhecido como um dos principais representantes do teatro do absurdo da Alemanha. Seu nome é por vezes grafado Günter Graß.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Plano Prawer: o rosto moderno da limpeza étnica na Palestina

[*] María Landi, animadora do blog Palestina en el corazón
Ver/ler mais sobre o Plano Prawer em: Prawer Plan to displace Bedouin
Traduzido e enviado por Baby Siqueira Abrão (6/12/2013)


O governo mais ultradireitista da história de Israel conseguiu o que os líderes palestinos não foram capazes de fazer nas últimas décadas: unir todo o povo palestino, hoje dividido entre o Estado israelense, a Faixa de Gaza, os territórios ocupados da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental (anexada ilegalmente em 1967), e a diáspora.

Crianças e jovens beduínos ativistas gritam slogans durante um protesto contra o Plano Prawer do governo israelense, na estrada 31 perto de Hura, Israel, no Day of Rage, em 30/11/2013. (clique na imagem para aumentar)
No sábado, dia 30/11/2013, os palestinos organizaram o Terceiro Dia de Fúria, jornada de protesto contra o Plano Prawer que se estendeu do mar Mediterrâneo ao rio Jordão. Levando o sobrenome do parlamentar israelense que o elaborou, o plano pretende destruir 36 aldeias beduínas “não reconhecidas” por Israel no deserto do Negev (Naqab, em árabe) para construir, em suas terras, colônias para a população judia. Para isso, cerca de 70 mil beduínos serão retirados à força de sua terra ancestral, e 800 mil dunams [1] dela serão confiscados por Israel.

Calcula-se que em Israel haja mais de 150 aldeias árabes “não reconhecidas” pelo Estado sionista nas regiões do Naqab e da Galileia. Essas aldeias são consideradas ilegais pelo governo, não figuram nos mapas e não contam com água corrente, eletricidade, telefone, arruamento, escolas e centros de saúde. As comunidades beduínas (cujos habitantes têm cidadania israelense) constituem cerca de 30% da população do Naqab, mas suas aldeias ocupam apenas 2,5% do território.

Antes da criação do Estado de Israel, os beduínos deslocavam-se livremente pelo deserto; agora, dois terços da região foram designados pelas autoridades israelenses como “campos de treinamento militar”, inacessíveis à população beduína. Mas a verdade, conhecida por todos, é que grupos de colonos judeus aguardam ansiosamente que os habitantes nativos sejam retirados daquelas terras, para instalar-se nos povoados modernos e cômodos que Israel construirá para eles em território beduíno.  

O governo israelense pretende apresentar o Plano Prawer [2] como uma ação “humanitária”, que oferecerá moradia adequada, serviços públicos e “um futuro melhor para as crianças” beduínas do Naqab/Negev, permitindo-lhes “integrar-se à estrutura de um Estado moderno ao mesmo tempo que conservam suas tradições”. A realidade, porém, é que nenhuma das comunidades afetadas foi consultada, nem está de acordo com o plano. E têm bons motivos para isso: além de perder suas terras, serão realocadas em sete assentamentos superpovoados e pobres, nos quais outros grupos beduínos foram concentrados há anos (por isso há quem trace um paralelo entre o plano e as reservas indígenas dos Estados Unidos).

Vivemos aqui desde muito antes da criação do Estado de Israel. Sentimos que a democracia e a justiça de Israel não se aplicam a nós - declarou Maqbul Saraya, 70 anos, à rede Al-Jazira

Rechaço local e internacional

Nos países árabes vizinhos e em várias nações da Europa, além de Turquia, Túnis, Coreia do Sul, Kuwait, Canadá e Estados Unidos também houve manifestações de solidariedade aos palestinos no dia 30, para denunciar o que se considera a operação sionista de limpeza étnica de maior envergadura desde a Nakba (catástrofe) de 1948. O Parlamento europeu, o Comitê contra a Discriminação Racial da ONU (CERD) e outros organismos intergovernamentais pediram a Israel que cancele o projeto, que se transformará em lei no final do ano. Organizações e redes internacionais como Anistia Internacional, Vozes Judias pela Paz, Avaaz, entidades palestinas e algumas israelenses também criticaram o plano e lançaram campanhas pedindo sua anulação. Mais de 50 intelectuais e artistas britânicos (entre eles Ken Loach, Mike Leigh e Peter Gabriel) publicaram uma carta no jornal The Guardian, qualificando o objetivo de Israel de desarraigar a população beduína como “deslocamento forçado de palestinos/as de seu lugar e de sua terra, discriminação e apartheid”.

Três jovens beduínos presos e algemados durante uma batida policial na estrada principal na cidade de Hura, durante o protesto contra o Plano Prawer no Day of Rage de 30/11/2013. (clique na imagem para aumentar)
Nos territórios ocupados, houve protestos em Gaza, Ramala, Jerusalém, Hebron, Nablus. Mas talvez as imagens mais eloquentes, e que tiveram maior difusão [3], tenham sido as das localidades que se encontram dentro das fronteiras de Israel – onde a repressão teve o mesmo excesso de violência imposto à Cisjordânia: gás lacrimogêneo, granadas de som, canhões de água química tóxica, surras com porretes e pontapés dos policiais, e dezenas de prisões.

Ao ver a profusão de bandeiras palestinas nas ruas, praças e postes públicos, e de rostos envoltos em kuffies, aqueles que não estão familiarizados com a geografia do país acham difícil entender que as fotos de Yaffa ou Haifa (cidades costeiras que eram joias da Palestina antes de 1948 e que ainda contam com uma grande população palestina) foram tiradas dentro de Israel.

Isso também vale para a manifestação na aldeia beduína de Hura, uma das afetadas pelo Plano Prawer: as imagens podiam ser do vale do rio Jordão ou das colinas do sul de Hebron, territórios palestinos ocupados e submetidos às mesmas políticas de deslocamento forçado da população nativa, obrigada a entregar suas terras a colonos judeus. A paisagem e o povo que a habita são os mesmos; o poder que os oprime, também.

Em resposta à jornada de protesto, o ministro israelense de Relações Exteriores, Avigdor Lieberman (um colono fanático e ultranacionalista – ironicamente emigrado da Moldávia – que defende abertamente a anexação da Cisjordânia e de Gaza, com a expulsão da população palestina e a aniquilação da que vive em Gaza) fez uma de suas habituais declarações de racismo explícito:

Estamos lutando pelo território nacional do povo judeu, e há aqueles que querem deliberadamente roubar essa terra e controlá-la à força. [4]

O sionismo como ele é

Talvez o maior “mérito” do Plano Prawer, além de unir a população palestina de todos os setores políticos e geográficos, tenha sido colocar em evidência, mais que todas as políticas israelenses, a natureza e o programa do projeto sionista: a expansão demográfica e territorial judaica, a contenção demográfica e o despejo da população palestina nativa. O objetivo último dessas políticas, perfeitamente articuladas em ambos os lados da Linha Verde, a fronteira internacional – não reconhecida por Israel – é consolidar um regime que muitos cientistas sociais (como o geógrafo israelense Oren Yiftachel [5]) qualificam de etnocracia. [6].

Manifestantes contra o Plano Prawer no Day of Rage fora da cidade de Hura, Negev em 30/11/2013 (clique na imagem para aumentar).
Ao mesmo tempo, essas políticas revelam a falácia de analisar o conflito sob o paradigma de “dois Estados” ou das “fronteiras de 1967”. A realidade é de um único Estado, que, ao se definir como judeu, exige, para preservar sua “pureza” étnico-religiosa, eliminar de todas as maneiras possíveis a ameaça demográfica que a população não judia constitui. Essas maneiras incluem não apenas o roubo de terras, a colonização, a limpeza étnica e o apartheid dos palestinos, mas também a expulsão em massa dos imigrantes africanos. [7].

Esse Estado não reconhece outras fronteiras senão a totalidade da “terra de Israel” bíblica [8] e não está disposto a cedê-la a seus habitantes não judeus. Não estiveram dispostos os primeiros líderes sionistas, nem estão os atuais. Tudo o mais – incluída a indústria do processo de paz – é discurso para consumo da mídia ocidental.

Não menos importante, ou mais, é a questão da integridade do povo palestino. Realidades como o Plano Prawer mostram a omissão implicada na redução da questão palestina aos mais de 4 milhões que hoje vivem em Cisjordânia e Gaza – em menos de 20% de seu território original. Tão injusto como excluir de qualquer solução os 6 milhões de refugiados/as dispersos pelo mundo é esquecer o 1,5 milhão de palestinas/os que vivem dentro de Israel (20% da população), expostos a mais de 55 leis de apartheid e a políticas de exclusão e deslocamento em consequência do afã ilimitado da judaização. Enquanto não mudar a natureza do regime colonial e racista de Israel, não haverá paz justa nem duradoura – nem democracia – naquela terra desgarrada.


Notas de rodapé
[1] Um dunam equivale a 1 mil metros quadrados.
[2] Um vídeo de propaganda foi colocado nos sítios web das embaixadas israelenses no mundo: .
[3] Ver, por exemplo, o sítio do coletivo fotográfico Activestills.org:
[5] Etnocracia. Políticas de tierra e identidad en Israel/Palestina (Bósforo, Madrid. 2011).
[6] Há cientistas que discordam dessa abordagem, por considerar que os judeus não constituem uma etnia, nem um povo, e sim uma comunidade religiosa. A esse respeito, ver A invenção do povo judeu, de Schlomo Sand (São Paulo, Benvirá, 2011). (N. da T.)
[7] Os imigrantes africanos, em sua maioria, são judeus. Mas são negros, e os sionistas querem um país de população branca, como provaram as declarações de autoridades israelenses quando da expulsão de milhares de negros africanos em 2012, e como prova a lei aprovada no final de novembro de 2013, destinada a retirar de Israel uma população estimada em 60 mil africanos. (N. da T.)
[8] A Israel bíblica é contestada pela arqueologia, pela antropologia e pela história. Ver, a respeito, A Bíblia não tinha razão, dos arqueólogos israelenses Israel Finkelstein e Neil Ascher Silberman (São Paulo, Girafa, 2003); de Schlomo Sand, A invenção do povo judeu (cit.) e The Invention of the Land of Israel [A invenção da terra de Israel] (Londres, Verso, 2012); de Keith W. Whitelam, The Invention of Ancient Israel; the silencing of Palestinian history [A invenção da antiga Israel; o silenciar da história Palestina]. [N. da T.]
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[*] María Landi é pseudônimo de uma ativista latino-americana de direitos humanos, solidária com a causa palestina.


quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Sabra e Chatila: Diário de um massacre - 1ª Parte

Genocídio cometido pelos falangistas (direita) libaneses e sionistas de Israel

Trinta e um anos atrás, mais de 3 mil palestinos foram mortos nos campos de Sabra e Chatila, em Beirute, onde viviam como refugiados desde a fundação de Israel em terras palestinas, em 1948. Até hoje não houve punição aos responsáveis pela chacina: o Partido Falangista libanês e os sionistas israelenses

Por [*] Baby Siqueira Abrão

Em setembro de 1982 o Líbano vivia uma situação política tumultuada, de guerra civil. Facções religiosas e partidos políticos libaneses e da Síria - país ao qual o Líbano esteve anexado até 1943, sob domínio colonial francês - promoviam atentados; a Organização pela Libertação da Palestina (OLP), à época fazendo resistência armada à tomada de seus país pelos sionistas europeus, estava sediada em território libanês; o exército israelense invadira o Líbano em junho de 1982, com sua habitual violência, e instalara bases operacionais em vários locais, incluindo a capital, Beirute.

Bachir Jemayel
Israel dava apoio político e logístico à Falange, partido nacionalista da direita libanesa que mantinha um braço armado também apoiado pelas autoridades israelenses. Com os sionistas na retaguarda, a Falange conseguiu levar seu principal líder, Bachir Jemayel, à presidência do Líbano. Nove dias antes de assumir, porém, Jemayel foi morto num atentado promovido, de acordo com a Falange, por forças sírias de inspiração nazista.

Ariel Sharon, então ministro da Defesa de Israel, reuniu-se com a família de Jemayel dois dias antes do massacre de Sabra e Chatila para conversar sobre a necessidade de o partido vingar-se do assassinato. A revelação foi publicada pela revista Time de 21 de fevereiro de 1983, sob a alegação de que integrava o Apêndice B do relatório final da Comissão Kahane, que investigou a matança de Sabra e Chatila e considerou o ministro "indiretamente" culpado pela ação. Sharon processou a Time, mas a revista manteve a veracidade da informação, dizendo que se enganara apenas quanto à fonte da notícia.

A reunião entre Sharon e a família Jemayel, porém, foi mero protocolo. O ataque aos campos de refugiados de Sabra e Chatila, vizinhos um do outro, já estava acertado. As autoridades sionistas tinham conseguido expulsar dali os membros da OLP, o que deixou a população sem proteção alguma. Por isso seria muito fácil atacá-la. Aquelas pessoas desarmadas não ofereceriam nenhuma resistência, como de fato não ofereceram.

Ariel Sharon
A participação do exército israelense no massacre foi comprovada. E, como ele é subordinado ao Ministério da Defesa de Israel, o ministro à época, Ariel Sharon, não teve como escapar da responsabilidade pelo crime. Mas escapou da punição. Depois de intermináveis idas e vindas na Justiça da Bélgica - país que permitia o julgamento de estrangeiros acusados de crimes de guerra, e a cujos tribunais 23 sobreviventes do massacre apelaram - o caso foi encerrado.

Por quê? Em entrevista a esta jornalista em 2012, o professor Franklin Lamb, diretor das organizações Americans Concerned for Middle East Peace [Estadunidenses interessados na paz para o Oriente Médio] e The Sabra Shatila Foundation and Palestine Civil Rights Campaign afirmou que o encerramento se deveu “à pressão de Israel, por meio de Donald Rumsfeld, então secretário de Defesa dos EUA. Ele ameaçou tirar de Bruxelas o quartel-general da OTAN se o caso fosse adiante”. Rumsfeld foi secretário de Defesa dos governos Gerald Ford e George W. Bush, teve papel destacado na “guerra ao terror” - que eliminou grande parte dos direitos civis dos cidadãos dos EUA, promoveu guerras contra o Afeganistão e o Iraque e ameaça o mundo até hoje - e foi um dos fundadores do PNAC, o Project for the New American Center, think tank neoconservador de inspiração sionista que no final dos anos 1990 elaborou um plano, ainda em execução, para manter o domínio do mundo nas mãos dos Estados Unidos.

Ellen Siegel
O massacre de Sabra e Chatila indignou também os israelenses. Mais de 400 mil deles foram às ruas protestar, obrigando Sharon a renunciar a seu posto de ministro da Defesa. Ele, porém, logo depois voltaria à política, como primeiro-ministro. Em 2006, segundo a versão oficial, sofreu um AVC e desde então encontra-se internado, em coma.

O drama vivido pelos moradores de Sabra e Chatila - a maioria palestinos, mas também libaneses e imigrantes pobres de outras nacionalidades - e a ativa participação dos soldados israelenses ficaram registrados nos relatos dos sobreviventes e de outras pessoas que, de um modo ou de outro, testemunharam a chacina, como a enfermeira estadunidense, Ellen Siegel, o jornalista inglês Robert Fisk, então sediado em Beirute como correspondente no Oriente Médio do jornal The Independent, a modelo Debbie Jackson e os próprios soldados israelenses que participaram da ação e que relatam suas experiências no filme Valsa com Bashir.

Fui atrás de alguns desses testemunhos para dar ao leitor uma ideia do que foram aqueles trágicos dias de 1982 - do ponto de vista de quem sobreviveu para contá-los. É estarrecedor, e vem a seguir.

[*] Baby Siqueira Abrão é jornalista, tradutora, escritora e pós-graduada em filosofia, é correspondente dos veículos Brasil de Fato e Carta Maior no Oriente Médio, além de ativista por direitos humanos e justiça social. É autora de dois livros sobre história da filosofia, para as editoras Moderna e Ática. Eventualmente colabora com a redecastorphoto.

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O Pravda publicará a matéria, que é grande, em três partes. Esta é a introdução, que indica, de maneira resumidíssima, o contexto em que se deu o massacre de Sabra e Chatila. A segunda parte é uma tentativa de reconstruir alguns momentos decisivos da tragédia, dia a dia, com base nos depoimentos de alguns sobreviventes, inclusive os que testemunharam no tribunal belga que julgou o caso. Se qualquer leitor  tiver mais informações, por favor, envie, para que possamos, no ano que vem, apresentar um relato ainda mais completo desse que foi mais um atentado contra o povo palestino.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

A carta de Putin ao povo dos Estados Unidos

Vladimir Putin cumprimenta Barack Obama durante o G20 de São Petersburgo
O presidente russo estende a mão – de novo – a Barack Obama, dessa vez para tirá-lo da areia movediça constituída pela máfia que o cerca, lhe dá ordens e age contra os interesses dos cidadãos estadunidenses

Baby Siqueira Abrão - 11/9/2013

Vladimir Putin, presidente da Rússia, está usando (quase) todas as suas cartas para evitar um ataque militar dos Estados Unidos à Síria – ataque que, os serviços diplomáticos e de inteligência bem sabem, vai se transformar num conflito muito maior, dominando o Oriente Médio e grande parte do mundo. E vai respingar feio na América Latina, que além de óleo e gás tem um recurso valioso que a Ásia ocidental não tem: a rica biodiversidade.

O mais recente movimento de Putin foi publicar um artigo assinado no New York Times de 11 de setembro (que traduzo a seguir). Pelo conteúdo, percebe-se que ele se dirige não apenas à opinião pública dos Estados Unidos, mas principalmente ao Congresso e ao presidente Barack Obama. O tom conciliador muito provavelmente fará aumentar o número de cidadãos estadunidenses que se opõem à guerra à Síria e, consequentemente, fará crescer a pressão que eles vêm exercendo nos congressistas para que votem contra o ataque militar ao país árabe. O principal objetivo de Putin, claro nas entrelinhas da carta, foi estender mais uma vez a mão a Obama, agora para ajudá-lo a sair de um lamaçal onde se misturam interesses sorrateiros e grupos idem, dispostos a provocar uma conflagração mundial para impor suas agendas sinistras a todos nós.

Esses grupos vêm agindo em países poderosos – e naqueles com algum poder regional, como o Brasil – há muito tempo, mas só recentemente passaram a exercer pressões mais intensas e mais urgentes. Tem-se a impressão de que eles se cansaram de estratégias graduais de convencimento da opinião pública e decidiram agir sem se importar mais com isso.

Basta, como se diz, “ter olhos para ver” a fim de descobrir, por meio das ações desses grupos, o que eles têm em mente. O direito internacional foi substituído pela força bruta, os direitos humanos foram atirados no lixo e as organizações terroristas vêm sendo apoiadas e armadas abertamente por aqueles que as criam. A manipulação de crenças e de emoções mantidas à flor da pele em treinamentos militares extenuantes e pela administração de drogas as mais diversas está formando exércitos compostos de monstros que hoje possuem e sabem manejar armas pesadas, além de substâncias químicas e biológicas capazes de exterminar populações inteiras em segundos.

Esse risco à humanidade ficou claríssimo quando o príncipe saudita Bandar bin Sultan visitou a Rússia, em agosto, para oferecer a Putin um acordo vantajoso no controle do óleo e do gás do Oriente Médio em troca de abandonar a Síria à própria sorte. Essa oferta não surpreende no cenário da política internacional. O que realmente surpreendeu foi a segunda oferta de Bin Sultan: impedir que terroristas chechenos realizem operações criminosas nas próximas Olimpíadas de Inverno da Rússia.

“Os grupos chechenos que ameaçam a segurança dos jogos são controlados por nós”, afirmou Bin Sultan, segundo The Telegraph.

Madre Agnes Maria da Cruz, em entrevista ao jornal israelense Haaretz, denunciou os chechenos como os “mais cruéis” dos mercenários em ação na Síria. Mas sabemos todos que qualquer ser humano, adequadamente “azeitado” – incentivado em suas emoções e crenças mais profundas, com a consciência alterada por drogas e levado pelo chamado “espírito de grupo” (que nos leva a seguir as ações da maioria) – é capaz de torturar e matar sem nem mesmo se dar conta do que está fazendo.

São monstros assim que as grandes potências estão criando para desestabilizar países, em nome dos interesses de uma minoria que saliva diante da possibilidade de conquistar, a qualquer preço, as reservas de óleo, gás, pedras preciosas e matérias-primas para o fabrico de entorpecentes vendidos a preços altíssimos. Não importa quem mate ou quem morra, e em que número. Não importa se mulheres ou crianças – é até melhor que sejam mulheres, porque assim não darão à luz outros seres humanos, e crianças, que amanhã engrossarão as fileiras de desempregados e desesperançados, podendo virar-se contra os responsáveis por sua miséria pessoal, cultural, econômica, social. Não é outro o motivo, por exemplo, pelo qual os ataques do Exército de Israel a Gaza, e os mísseis lançados por drones estadunidenses no Afeganistão e no Paquistão, vitimam tantas mulheres e tantas crianças.

Obama é presa desses grupos. Eles sabiam que para executar seus planos de domínio mundial era preciso sobretudo controlar o país militarmente mais poderoso do planeta. Conseguiram, depois de muitas ameaças, corrupção e assassinatos. Financeiramente poderosos, mandam no Congresso dos Estados Unidos. Agrados econômicos e ameaças políticas e pessoais levam esses grupos a aprovar as leis que seus assessores elaboram e entregam, prontas, para uma votação de cartas marcadas. Os mesmos métodos são empregados para convencer presidentes a agir segundo os interesses desses grupos. Eles sequestraram o mundo, com algumas raras exceções. Cuba, Venezuela, Irã, Rússia, China estão entre essas exceções, e por isso são países muito visados.

O que Vladimir Putin fez, com sua carta ao povo estadunidense, foi garantir a Obama que ele não está só e que pode virar o jogo, porque terá o apoio da Rússia e de seus aliados. Não foi ao acaso a crítica ao suposto “excepcionalismo” dos Estados Unidos, presente no discurso que Obama fez à nação na terça-feira, dia 10. Essa retórica é parte da retórica sionista sobre a própria “excepcionalidade”, que supostamente lhe daria o direito de se colocar acima de todos os povos e do direito internacional.

Esse recado de Putin também foi dirigido ao Congresso dos EUA, sempre subserviente à “excepcionalidade” alheia e própria. Agora é ver se os parlamentares vão se interessar mais pelo destino da humanidade, nas mãos de uma quadrilha perigosa, ou pelos milhares de dólares que tilintarão em suas contas bancárias caso aprovem o ataque à Síria.

Se Obama aceitar a mão estendida de Putin e se aliar a ele, grupos que dão retaguarda a pessoas como Bin Sultan e os voluntários do AIPAC, lobby sionista pró-guerra atuante no Congresso dos Estados Unidos, que vem visitando os políticos para garantir que a ação militar contra a Síria seja aprovada, começarão a perder espaço. Para alívio de todos nós.

Um apelo vindo da Rússia: o que Putin tem a dizer aos EUA sobre a Síria

Por Vladimir V. Putin
11 de setembro de 2013

Fatos recentes envolvendo a Síria me levam a falar diretamente com o povo dos Estados Unidos e com seus líderes políticos. É importante fazer isso numa época de comunicação insuficiente entre nossas sociedades.

As relações entre nós têm passado por diferentes estágios. Estivemos uns contra os outros durante a guerra fria. Mas já fomos aliados, e juntos vencemos os nazistas. Naquela época foi criada uma organização internacional universal – as Nações Unidas – para impedir que outra devastação como aquela voltasse a ocorrer.

Os fundadores das Nações Unidas entenderam que as decisões concernentes à guerra e à paz devem ser tomadas apenas por consenso, e foi com o consentimento dos Estados Unidos que o veto dos membros permanentes do Conselho de Segurança foi incluído na Carta das Nações Unidas. A profunda sabedoria dessa decisão deu sustentação à estabilidade das relações internacionais durante décadas.

Ninguém deseja que a ONU tenha o mesmo destino da Liga das Nações, que desmoronou porque lhe faltou poder real. Isso é possível se países influentes, desviando-se das [regras das] Nações Unidas, realizarem ações militares sem autorização do Conselho de Segurança.

O ataque potencial dos Estados Unidos contra a Síria, a despeito da oposição de muitos países e dos maiores líderes políticos e religiosos, incluindo o papa, resultará em mais vítimas inocentes e numa escalada que espalhará potencialmente o conflito muito além das fronteiras da Síria. Um ataque intensificará a violência e desencadeará uma nova onda de terrorismo. Isso pode minar os esforços multilaterais para resolver a questão nuclear iraniana e o conflito israelo-palestino, além de desestabilizar o Oriente Médio e o Norte da África. Pode desequilibrar todo o sistema da lei e da ordem internacional.

A Síria não está testemunhando uma batalha por democracia, mas um conflito armado entre o governo e a oposição dentro de uma nação multirreligiosa. Há poucos campeões da democracia na Síria. Mas há combatentes da Al-Qaeda e extremistas de todas as cores mais do que suficientes lutando contra o governo. O Departamento de Estado dos Estados Unidos designou a Frente Al-Nusra, o Estado Islâmico do Iraque e o Levante, que lutam ao lado da oposição [da Síria], como organizações terroristas. Esse conflito interno, sustentado por armas estrangeiras fornecidas à oposição, é um dos mais sangrentos do mundo.

Os mercenários dos países árabes, as centenas de militantes de países ocidentais e até mesmo da Rússia que lá combatem são objeto de preocupação profunda. Eles não devem retornar a nossos países com a experiência adquirida na Síria? Afinal, depois de lutar na Líbia, os extremistas foram para o Mali. Isso nos ameaça a todos.

Desde o princípio a Rússia tem advogado um diálogo pacífico que permita aos sírios desenvolver um plano de compromisso com seu próprio futuro. Não estamos protegendo o governo sírio, mas o direito internacional. Precisamos utilizar o Conselho de Segurança da ONU e acreditar que a preservação da lei e da ordem no mundo complexo e turbulento de hoje é um dos poucos meios de impedir que as relações internacionais escorreguem para o caos. A lei ainda é a lei, e devemos segui-la, quer gostemos, quer não. De acordo com o direito internacional, a força somente é permitida em caso de defesa própria ou por decisão do Conselho de Segurança. Tudo o mais é inaceitável, segundo a Carta das Nações Unidas, e constitui ato de agressão.

Ninguém duvida de que o gás venenoso foi usado na Síria. Mas existem todas as razões para acreditar que não foram utilizados pelo Exército sírio e sim pelas forças de oposição, para provocar uma intervenção de seus poderosos patrões estrangeiros, que se mantêm ao lado dos fundamentalistas. Relatos de que os militantes preparam outro ataque – dessa vez contra Israel – não podem ser ignorados. 


É alarmante que intervenções militares em conflitos internos de países estrangeiros tenham se tornado um lugar-comum nos Estados Unidos. Elas interessam, a longo prazo, aos Estados Unidos? Duvido. Milhões de pessoas no mundo inteiro cada vez mais veem os Estados Unidos não como modelo de democracia, mas como um país que confia apenas na força bruta, pavimentando  coalizões sob o slogan “ou vocês estão conosco ou estão contra nós”.

Mas a força tem se provado ineficaz e inútil. O Afeganistão está descarrilhando, e ninguém é capaz de dizer o que acontecerá depois que as forças internacionais se retirarem do país. A Líbia está dividida em tribos e clãs. A guerra civil continua no Iraque, com montes de mortos a cada dia. Nos Estados Unidos, muitos fazem a analogia entre Iraque e Síria, e perguntam por que seu governo quer repetir erros recentes.

Não importa quão dirigidos sejam os ataques ou quão sofisticadas sejam as armas as baixas de civis são inevitáveis, incluindo idosos e crianças, aos quais os ataques supostamente deveriam proteger.

O mundo reage perguntando: se você não pode contar com o direito internacional, então deve encontrar outros meios de garantir sua segurança. Por isso um número crescente de nações vem procurando adquirir armas de destruição em massa. É uma questão de lógica: ninguém vai mexer com quem tem a bomba em seu arsenal. Somos iludidos com a conversa da necessidade de fortalecer a não proliferação quando, na verdade, a não proliferação vem sendo corroída.

Precisamos parar de usar a linguagem da força e voltar à via dos acordos civilizados, diplomáticos e políticos.

Uma nova oportunidade de evitar a ação surgiu há poucos dias. Os Estados Unidos, a Rússia e todos os membros da comunidade internacional devem aproveitar a boa vontade do governo da Síria de colocar seu arsenal químico sob controle internacional, para subsequente destruição. A julgar pelas declarações do presidente Obama, os Estados Unidos veem essa possibilidade como uma alternativa à ação militar.

Saúdo o interesse do presidente no sentido de dialogar com a Rússia e a Síria. Devemos trabalhar juntos para manter essa esperança acesa, como concordamos na reunião do G8 em Lough Erne, na Irlanda do Norte, em junho, e levar a discussão de volta à mesa de negociações.

Evitar o uso da força contra a Síria vai melhorar a atmosfera para os negócios internacionais e reforçar a confiança mútua. Será nosso sucesso compartilhado e abrirá as portas para a cooperação e outros assuntos decisivos.

Meu trabalho e meu relacionamento pessoal com o presidente Obama são marcados por uma confiança crescente. Analisei atentamente seu pronunciamento à nação na terça-feira. E gostaria de discordar do que ele disse sobre o excepcionalismo dos Estados Unidos, ao declarar que a política do país é “o que torna os EUA diferentes. É o que nos torna excepcionais”. É extremamente perigoso encorajar as pessoas a considerar a si mesmas excepcionais, seja qual for a intenção.

Existem países grandes e pequenos, ricos e pobres, com tradições democráticas antigas e aqueles que ainda procuram seu caminho rumo à democracia. Suas políticas também diferem. Somos todos diferentes, mas, quando pedimos as bênçãos de Deus, devemos nos lembrar de que Ele criou a todos nós como iguais.

(Tradução sem valor oficial de Baby Siqueira Abrão)

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[*] Baby Siqueira Abrão é jornalista, tradutora, escritora e pós-graduada em filosofia, é correspondente dos veículos Brasil de Fato e Carta Maior no Oriente Médio, além de ativista por direitos humanos e justiça social. É autora de dois livros sobre história da filosofia, para as editoras Moderna e Ática. Eventualmente colabora com a redecastorphoto.