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segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Síria: Aleppo cercada − Ocidente procura “coringa” que salve seus terroristas

23/1/2015, [*] Tony CartalucciNew Eastern Outlook, NEO
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Exército da Síria atacado em Aleppo
Notícias seguras informam que o Exército Sírio Árabe está muito perto de cercar completamente os terroristas que ocuparam a cidade de Aleppo, no norte da Síria, depois que a cidade foi invadida a partir de território da OTAN, em 2012. Tão logo o cerco se complete, analistas entendem que a cidade será rapidamente libertada, em processo semelhante à retomada de Homs, mais ao sul.

O desespero dos terroristas nessa fase final na Batalha por Aleppo é bem visível na tentativa que fazem seus patrocinadores ocidentais para negociar um cessar-fogo e conseguir que alguma “ajuda” chegue até onde estão. Houve tentativas semelhantes, e semelhantemente vãs, nas fases finais da Batalha por Homs em meados de 2014 – com a cidade de Homs convertida em epicentro do terrorismo a partir de 2011, e hoje já sob controle do governo sírio. Pequenos bolsões de terroristas foram isolados dentro de Homs, possibilitando que a ordem fosse restaurada na maior parte da cidade e da região circundante.

Ao tempo em que o governo sírio vai sistematicamente recuperando o controle de nação que havia sido “condenada” pelo ocidente e seus terroristas, que entravam aos borbotões no país, seguidos sempre de torrente que parecia inexaurível de dinheiro, armas e equipamento, cresce visivelmente o desespero daqueles mesmos interesses “ocidentais”.

O jornal The Guardian, dos mais importantes agentes de propaganda dedicados a distorcer a verdade sobre o conflito desde que começou em 2011, tenta agora construir uma narrativa de exortação de uma dita “segurança global”, e insiste que a OTAN teria de estabelecer uma zona aérea de exclusão sobre Aleppo e repelir as forças do governo sírio, de modo que “rebeldes moderados” permaneçam no controle da cidade para repelir as forças do Estado Islâmico (ISIS).

Prédio bombardeado no centro de Aleppo

Desde então os pequenos ganhos do regime foram resultado de muita luta, com vários avanços convertidos em retrocessos por ação de combatentes rebeldes e locais, essas duas forças ainda se ressentindo das perdas que o ISIS lhes impôs. O ISIS escondeu-se a 20 milhas de distância dali e provoca a Frente Islâmica com uma estação de rádio que instalou ali e transmite regularmente cantos islâmicos para insultar os membros do grupo.

Foram perdas estratégicas para nós” disse o comandante de Aleppo, sobre os ganhos do ISIS. E os norte-americanos ainda duvidam do nosso empenho para combater contra eles? Quando os EUA voltaram à Síria, pensávamos que o mínimo que poderiam fazer seria impedir que a Força Aérea de Assad nos matasse. Mas eles bombardearam a cidade muito mais do que antes de os norte-americanos chegarem. Não temos dúvida alguma de que os EUA já estão “acertados” com Assad. É óbvio.

A única coisa “óbvia” é que os EUA simplesmente usaram o ISIS como pretexto para violar o espaço aéreo da Síria; e o segundo passo seria implantar as tais tão longamente planejadas zonas aéreas de exclusão, para, sendo possível, “conter” o Exército Árabe Sírio. Exatamente como na Líbia, a zona aérea de exclusão só faria entregar o restante da Síria ao ISIS e a outros grupos terroristas afiliados à Al-Qaeda – claramente a força de militantes terroristas dominante dentre as que combatem contra o governo do presidente Assad, e bem claramente também, os terroristas militantes que recebem a vastamente maior parte do apoio material que a OTAN e seus parceiros regionais, sobretudo a Arábia Saudita, o Qatar e Israel, entregam aos terroristas.

Rua de Aleppo bombardeada
Deve-se observar que, por mais que The Guardian “informe” que militantes terroristas cercados em Aleppo estariam lutando contra o ISIS, a mesma matéria reconhece que aqueles mesmos militantes [terroristas amigos dos EUA] estão aliados à Frente Al-Nusra, listada pelos EUA como organização terrorista. The Guardian admite:

A luta por Zahraa, um dos poucos enclaves xiitas no norte da Síria, está sendo comandada pela Frente al-Nusra alinhada da al-Qaeda, com a qual a Frente Islâmica mantém entendimento, mas não aliança formal. Depois de mal ter conseguido manter-se no local durante boa parte do ano passado, recentemente a al-Nusra tomou grandes porções de território próximo da fronteira turca, impondo-se como ator poderoso, à custa de grupos não jihadistas. A dinâmica que muda muito rapidamente está forçando um novo entendimento com a Frente Islâmica, que diz que se cansou de esperar pela ajuda que estados árabes prometeram, mas nunca entregaram.

Essas mesmas forças do ISIS que estariam “em luta” contra os “rebeldes moderados” já receberam em suas fileiras milhares dos tais ditos “moderados” que desertaram recentemente e levaram com eles grandes quantidades de dinheiro e armas “ocidentais”. O fato de a Al-Qaeda – nos dois “ramos”, Al-Nusra e ISIS – parecer prosperar tanto junto à fronteira turca indica que o apoio da OTAN não está indo, de modo algum, para os “rebeldes moderados”, mas, em vez disso, está sendo intencionalmente entregue à Al-Qaeda, ou a grupos “moderados” que a OTAN sabe que trabalham, ou logo estarão trabalhando, com a Al-Qaeda.

Com uma ameaça que ele mesmo inventou – perpetuada até hoje ao longo das fronteiras da OTAN, buscando paraíso-seguro em território da OTAN e recebendo linha ininterrupta de suprimentos que lhes chegam de território da OTAN – o “ocidente” procura arrancar do resto do mundo uma intervenção militar direta sempre maior, por causa de um medo sempre crescentemente inflado que o ISIS provocaria. Essa grande intervenção militar direta incluiria zonas aéreas de exclusão e talvez políticas mais agressivas, incluindo a implantação de mais “paraísos seguros”, de dentro dos quais o ISIS possa montar operações militares maiores, mais efetivas e mais profundas dentro da Síria.

Tropas do Exército da Síria em Aleppo
Como o veterano jornalista Seymour Hersh, duas vezes Prêmio Pulitzer, expôs em 2007 na revista New Yorker, em coluna intitulada The Redirection [1], o “ocidente” conspirou (intencionalmente) para construir e lançar grupos mercenários de terroristas afiliados à Al-Qaeda em todo o mundo árabe, para lutar guerra “por procuração” dos EUA contra o Irã e o crescente arco de influência dos xiitas. O apoio dos EUA seria “lavado” na Arábia Saudita, para manter um verniz de negabilidade plausível e compartimentação operacional. É claramente o que se vê em desdobramento hoje na Síria, manifestação item a item, etapa a etapa, do meticuloso trabalho jornalístico, de nove páginas, de Hersh.

Para derrotar essa conspiração criminosa, a Síria e seus aliados têm de conseguir que o conflito em curso seja exposto como o que é: invasão terrorista, não alguma “guerra civil”.

Por isso mesmo, qualquer estratégia formulada para combater a violência terrorista terá necessariamente de incluir o governo sírio – comprovadamente a única força legalmente constituída capaz de enfrentar e derrotar a Al Qaeda no Levante, desde 2011. Assim, quanto mais o “ocidente” e seus aliados regionais apoiarem essa frente terrorista, mais e mais apoio terá de ter a Síria, no cenário global, para combater contra todos os terroristas – deslocando a política externa do “ocidente” para um canto, e abrindo caminho para que os sírios, afinal, recuperem a ordem de sua nação agredida.


Nota dos tradutores

Seymour Herch
[1] “Nos últimos meses, com a situação no Iraque deteriorada, o governo Bush, tanto a diplomacia pública quanto as operações clandestinas, mudou significativamente sua estratégia no Oriente Médio. A “redireção” [versão de 2007, do tal “pivô” de Obama (NTs)], como alguns dentro da Casa Branca batizaram a nova estratégia, pôs os EUA muito mais perto de aberta confrontação com o Irã e, em partes da região, empurrou os EUA para um conflito sectário que não para de crescer entre muçulmanos xiitas e sunitas.
Para minar o Irã, que é predominantemente xiita, o governo Bush decidiu, de fato, reconfigurar suas prioridades no Oriente Médio. No Líbano, o governo havia cooperado com o governo saudita, sunita, em operações clandestinas que visavam a enfraquecer o Hezbollah, a organização xiita apoiada pelo Irã. Os EUA também participaram de operações clandestinas contra o Irã e sua aliada, a Síria. Efeito colateral dessas atividades foi o crescimento muito rápido de grupos extremistas sunitas que têm uma visão militante do Islã, são hostis aos EUA e simpáticos à Al-Qaeda” [5/3/2007, The Redirection. Is the Administration’s new policy benefitting our enemies in the war on terrorism?,  Seymour M. Hersh. New Yorkertrecho aqui traduzido, nós sublinhamos ].

[*] Tony Cartalucci é pesquisador de geopolítica e escritor sediado em Bangkok, Tailândia. Seu trabalho visa cobrir os eventos mundiais a partir de uma perspectiva do Sudeste Asiático, bem como promover a auto-suficiência como uma das chaves para a verdadeira liberdade.

domingo, 6 de julho de 2014

Como pensar sobre o Califado do Estado Islâmico do Iraque e Levante (ISIL)?

4-17/7/2014, [*] Owen Bennett-Jones, LRB, v. 36, n.14, p. 5-7, Londres- UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Cenas violentas - p/ maiores de 18 anos

Em seu recente vídeo de propaganda, Clanging of the Swords: Part 4 (acima), o Estado Islâmico do Iraque e Levante (ISIL) apresentou uma série de execuções em imagens pesadamente editadas. São 38 pessoas filmadas quando eram mortas: um homem assassinado quando corria pelo deserto, tentando escapar de pistoleiros numa pick-up 4x4; outro, baleado no próprio carro; um, morto em casa, quando o ISIL invadiu o quarto e o degolou. Difícil acreditar que o que se vê na tela realmente aconteceu, até que a desumanidade sem fim é interrompida por um momento ocasional. A certa altura, um pistoleiro anda por uma de uma fila de jovens ajoelhados, com as mãos atadas às costas. Faz mira com uma pistola na nuca de cada um, atira, vê o corpo tombar à frente numa poça de sangue, anda para o seguinte e repete o movimento. Então, um dos ajoelhados tem a ideia de tentar salvar-se se antecipando ao tiro e, um microssegundo antes do tiro, atira-se para a frente, fingindo-se de morto. O truque não funciona. Há também imagens de pistoleiros do ISIL dirigindo por uma cidade, quando, sem motivo aparente, põem as Kalashnikovs para fora das janelas do carro e atiram contra dois homens que andam pela calçada. Um deles é atingido e cai. O carro avança, e os atiradores do ISIL continuam atirando até que os dois estejam imóveis no chão. Presumivelmente, queriam ter certeza de que os dois estão mortos. Depois que se afastam, o segundo homem – miraculosamente sem ferimento algum – salta do chão e parte em corrida desabalada, na direção oposta.

Você poderia supor que um filme que mostra a própria organização matando gente ao acaso pelas ruas não atrairia novos recrutas. Mas os vários spots que o ISIL distribuiu alcançaram dois objetivos.

● − Primeiro, aterrorizaram o exército do Iraque, minando o desejo dos soldados de defenderem o estado iraquiano. Mensagens ameaçadoras enviadas diretamente para telefones celulares reforçam o efeito.

● − Segundo, o ISIL rapidamente abriu caminho até converter-se em imagem global. Até há poucas semanas, só leitores especializados os conheciam. Não tinham sequer nome fixado: uns diziam ISIS, outros diziam ISIL. A distinção já não importa, porque, agora, a organização se rebatizou como Estado Islâmico; e Abu Bakr al-Baghdadi é seu califa.

Em 5/7/2014, al-Baghdadi distribuiu o que parece ser sua primeira imagem
como califa, tomada depois de um sermão. 

Chame-se como for, o apelo deles está nas imagens de jovens com cabelos e barbas ao vento, em cenários desértico-rurais, livres da parafernália da vida moderna – exceto os rifles de assalto e a munição cruzada no peito. A conversa é toda sobre dever, sacrifício e martírio.

Mas em vários aspectos, o ISIL é organização muito moderna. A brochura em que detalham as atividades de 2012-13 é perfeito relatório, moderníssimo, das atividades de uma empresa comercial privada. A página mais impressionante, graficamente impactante, mostra 15 ícones em silhueta – bombas-relógio, algemas, um carro, um homem correndo – cada um representando um campo de atividades: bombas plantadas em acostamentos de estradas, prisioneiros resgatados, carros-bomba, casas saqueadas de apóstatas. Ao lado da imagem de uma pistola, a palavra “assassinatos” e o número 1.083: são os assassinatos predefinidos [“targeted killings”] que o ISIL diz ter consumado no ano ao qual corresponde o relatório técnico. Foram 4.465 bombas em acostamentos; 160 ataques-suicídas e mais de uma centena de apóstatas que se arrependeram. E essas estatísticas impressionantes relacionam-se ao período anterior ao maior feito jihadi desde o 11/9/2001: a conquista, pelo ISIL, da segunda maior cidade do Iraque, Mosul. 

O ISIL é também o primeiro grupo jihadi a ocupar terra contígua em dois países. Pode-se argumentar que a al-Qaeda fez o mesmo em áreas de fronteira no Afeganistão-Paquistão, mas só sobrevivia porque permanecia nas sombras. O ISIL, ao contrário, movimenta-se pelo nordeste da Síria e por vastas áreas do norte do Iraque em quase completa liberdade. Sempre houve algum braço do Islã com aspirações globais acima das fronteiras nacionais: agora o Estado Islâmico quer pôr aquelas ideias em prática. Um dos primeiros atos do califa foi mandar tanques destruir todos os postos de fronteira entre o Iraque e a Síria.

Área estimada do Novo Califado (em castanho)
Houve muitos comentários sobre os voluntários estrangeiros atraídos pela ideologia pan-islamista de Baghdadi. Pode-se pensar que recrutas da Europa Ocidental, principalmente, poderiam ser mais problema que ajuda: muitos não falam árabe e foram criados com tais confortos que terão dificuldade para adaptar-se a vida jihadi. Mas também têm vantagens. Podem ser bem-educados, trazem a dedicação junto com os passaportes ocidentais. Podem servir como suicidas-bombas. A abertura do ISIL a combatentes estrangeiros já rendeu dividendos, embora a imprensa-empresa ocidental esteja mais preocupada, mesmo, é com o problema que eles serão quando retornarem às sociedades que os criaram e alimentaram e educaram.

Autoridades britânicas dizem que 500 muçulmanos do Reino Unido estão hoje lutando na Síria e no Iraque; e que os que sobreviverem e retornarem serão numerosos demais para que os serviços de segurança consigam vigiá-los de perto. Mas de fato não há nada nem remotamente semelhante a ameaça existencial contra o Reino Unido. Muitos dos jovens que foram para o Oriente Médio fizeram-no precisamente porque não consideram que o inimigo seja o Reino Unido e não têm interesse em atacar alvos britânicos. E um dos aprendizados que se extraíram dos vários programas de desradicalização que existem agora por todo o mundo é que, por mais que os jihadis tenham ar feroz, quase sempre são indivíduos de vontade muito frouxa. É fácil persuadi-los a lutar, mas também é bem fácil persuadi-los a parar. Estima-se que no passado apenas um, de cada nove combatentes estrangeiros, continuou a fazer sua jihad depois que retornou à terra natal.

Abu Musab al-Zarqawi
Apesar de todas as inovações, o Estado Islâmico é descendente direto da al-Qaeda – especificamente, da al-Qaeda no Iraque. Quando os EUA invadiram o Iraque em 2003, bin Laden tinha toda uma nova frente contra a qual combater. A Al-Qaeda no Iraque foi organizada sob a liderança de Abu Musab al-Zarqawi, criminoso menor, muito furiosamente sedento de sangue, que permitia que praticamente qualquer um no seu grupo – tivesse ou não tivesse educação religiosa – decidisse sobre se alguém era ou não era muçulmano certo. A organização ficou famosa por postar filmes em YouTube nos quais se assistia à degola de qualquer um que não tivesse atendido aos critérios. A liderança central da Al-Qaeda tentou explicar a Zarqawi que o subtítulo que ele usava – Xeique Degolador – não ajudava a causa, mas Zarqawi manteve-se fiel a si mesmo até que, em 2006, os norte-americanos encontraram seu rastro e o mataram.

Nem por isso foi o fim. Os remanescentes muito endurecidos em batalha da al-Qaeda no Iraque, unidos a outros grupos de militantes que haviam combatido contra a ocupação norte-americana, decidiram recomeçar e se renomearam Estado Islâmico do Iraque. O novo grupo progrediu muito depois que os EUA retiraram-se em 2011, e no início desse ano, sob a liderança de Baghdadi, tomaram quase toda a área de duas cidades que os EUA muito se esforçaram para tornar seguras: Fallujah e Ramadi. Foram grandes vitórias simbólicas que ajudaram a fixar a reputação de Baghdadi como mais destacado líder jihadi do mundo. Diferente de Zawahiri da al-Qaeda, Baghdadi vencia batalhas em campo.

Abu Mohammed
al-Joulani
As coisas também estavam avançando na Síria. No verão de 2011, quando parecia que o regime de Assad em Damasco talvez não sobrevivesse, Baghdadi mandou homem do Estado Islâmico no Iraque, Abu Mohammed al-Joulani, para montar loja na porta ao lado. A oposição democrática a Assad estava exaurida; em questão de meses, al-Joulani já estava invadindo e ocupando áreas no norte da Síria. Em janeiro de 2012 anunciou publicamente a existência do que chamou de Jabhat al-Nusra, Frente al-Nusra. Por um ano a Frente al-Nusra acumulou ganhos, em parte porque o regime de Assad deu-se conta de que, se deixasse os jihadis ganhar territórios, o ocidente mudaria de ideia sobre o conflito sírio. Foi quando as forças do governo sírio passaram a concentrar seu fogo contra o Exército Sírio Livre, não contra os jihadis.

Depois de ver os ganhos de Joulani na Síria, Baghdadi decidiu aparecer, ele próprio. Em abril de 2013 mudou o nome do Estado Islâmico no Iraque, para Estado Islâmico no Iraque e Síria (“Levante”). Logo depois anunciou a fusão entre o ISIL e a Frente al-Nusra. Para Joulani, foi movimento de hostilidade, não de fusão. Há várias versões sobre por que os dois homens romperam, desde um choque de egos, até diferenças políticas irreconciliáveis. Segundo uma das histórias que circulam, Baghdadi ordenou que Joulani explodisse um hotel na Turquia onde se reuniam alguns líderes da oposição democrática síria. Temeroso de que suas linhas turcas de abastecimento fossem comprometidas, Joulani recusou-se a cumprir a ordem; e Baghdadi ficou ressentido. A política para o Irã foi outra área de dissenso.

Ayman al-Zawahiri
Alguns altos membros do ISIL reclamaram que a al-Qaeda sempre tivera política de não atacar o Irã; a Frente al-Nusra aceitava, mas o ISIL não. Fossem quais fossem as razões precisas, os desacordos levaram a disputas internas entre o ISIL e a Frente al-Nusra, e Joulani apelou a Ayman al-Zawahiri, líder da al-Qaeda, para que decidisse. Zawahiri declarou que a Frente al-Nusra era filial oficial da al-Qaeda na Síria, e que o ISIL havia rompido seus laços com a al-Qaeda. Ordenou que o grupo se limitasse a lutar no Iraque – sugestão que o ISIL rejeitou imediatamente. Hoje, talvez Zawahiri lamente o que fez, mas ele também sabe que Baghdadi pode, sim, fracassar; se por mais não for, porque só confia na violência mais extrema.

Essa foi lição que a al-Qaeda aprendeu pela via mais difícil. 11/9 pôs muito alta a barra a ultrapassar e ficou difícil imaginar, para os anos seguinte, algo tão espetacular quanto os ataques da al-Qaeda que derrotaram New York; a organização descobriu que teria de usar cada vez mais violência (dado que não havia mais talento à disposição), para conseguir manter-se nas manchetes da imprensa-empresa planetária. A estratégia de escalada afinal revelou-se em novembro de 2005, quando suicidas-bombas atacaram três hotéis em Amã. No tempo de poucos minutos, mais de 50 pessoas foram mortas, incluindo convidados que participavam de uma festa de casamento. Dia seguinte, houve protestos nas ruas: os manifestantes condenavam a matança e cantavam slogans a favor do rei Abdullah.

Zawahiri extraiu disso a conclusão óbvia, mas outros jihadis não conseguiram entender o valor da moderação. Cada vez que um movimento jihadista ganhou poder, ele perdeu popularidade porque não deu às pessoas comuns o que elas desejam: paz, segurança e empregos.

Mulá Omar (Talibã)
No Afeganistão, por exemplo, os Talibã tiveram considerável apoio popular quando chegaram ao poder em 1996, depois de anos de guerra civil: muitos afegãos gostaram da estabilidade que os Talibã trouxeram. Mas o governo do Mulá Omar foi tão violento e tão pouco preocupado com questões mundanas que, em 2001, já muitos festejaram a partida dele. Outros governos jihadistas enfrentaram problemas semelhantes. Em 2009, o atual líder dos Talibã no Paquistão, Mulá Fazlullah, obteve o controle do Vale do [rio] Swat, a poucas horas de distância, de carro, de Islamabad. Sua prática de matar os oponentes e deixar os cadáveres apodrecendo na praça principal da maior cidade do vale, Mingora, tanto horrorizou a população local, que passaram a apoiar uma ofensiva do exército contra os militantes. Eventos similares verificaram-se no Norte da África, onde nenhum movimento jihad conseguiu manter-se no poder.

A lição deveria ser de que, deixados entregues aos seus próprios meios, governos jihadistas sempre fracassam. Mas há sinais, porém, de que Baghdadi ou, pelo menos, alguns de seus comandantes, começaram a avaliar a importância dessa questão. Em algumas cidades sírias, o ISIL conseguiu restaurar algum grau de normalidade, não só por garantiram a segurança mediante sistema de justiça nua e crua, mas também graças à introdução de controle de preços sobre mercadorias básicas; e, inclusive, porque começaram a dar conta de serviços públicos simples, como organizar e controlar a distribuição de números de chapa para veículos automotores. Gasolina e comida gratuita – sempre em embalagens com a grife ISIL – são frequentemente distribuídas aos necessitados.

Nouri al-Maliki
Por hora, essas tentativas de conquistar as populações locais têm sido derrotadas não só pelos métodos violentos de Baghdadi, mas, também, pela insistência dele em regras impopulares, de inspiração religiosa, sobre uso de bebidas alcoólicas, de cigarros, de roupas femininas e da música. Mas tão logo o Estado Islâmico aprenda a governar tão bem como luta e vence batalhas, o apoio popular com que conta com certeza aumentará muito. No momento, as suas possibilidades têm sido comprometidas pelo muito que o Estado Islâmico ainda confia no medo.

Mas há outra razão pela qual se deve crer que, no longo prazo, o Estado Islâmico não é tão perigoso quanto muitos creem. Depois da queda de Mosul, o governo de Nouri al-Maliki declarou que o ISIL teria de 4 a 6 mil combatentes no Iraque. Outros entendem que esse número é muito maior. Seja como for, é claro que exército tão diminuto não poderia ter ocupado superfície tão extensa e tão depressa, sem ajuda.

O fato é que o ISIL não é o monólito de pensamento único que parece ser. É só a face pública de uma coalizão de ex-jihadistas, oficiais militares baathistas e vários líderes tribais desiludidos com o governo de Maliki. Várias diferentes milícias lutaram ao lado do ISIL, inclusive o Exército Islâmico do Iraque, liderado pelo Xeique Ahmad al-Dabash, homem que não partilha as ideias de Baghdadi sobre um califado. 

Ahmad al-Dabash
O Iraque pode permanecer sob sistema único,mas com três regiões – curdos, sunitas e xiitas – separadas. Não há melhor solução que essa – disse al-Dabash recentemente.

Os eventos estão andando nesse rumo.

O Iraque já está mais perto de ser três estados, que um. Dada a profundidade da desconfiança entre as comunidades, é provável que as divisões se tornem mais agudas: pode acontecer de a própria Bagdá ser esquartejada.

Os curdos, que reagiram contra a tomada de Mosul, tomando o controle de Kirkuk, não cederão facilmente. Alguns xiitas estão começando a achar que um estado xiita pode ser preferível a um estado iraquiano, e há sunitas, também, que começam a achar que preferem tomar conta, eles mesmos, da própria vida. A desintegração do Iraque encaixa-se em tendências maiores que desafiam a ordem estabelecida no Oriente Médio; não são só os jihadistas a comandar todas as mudanças.

Num desenvolvimento que seria inimaginável há alguns anos, empresas ocidentais estão comprando petróleo dos curdos, apesar da oposição do governo central em Bagdá. Na Síria, o ISIL controla alguns poços de petróleo, mas muito petróleo continua a chegar ao mercado. Quanto às fronteiras, já não é fora de propósito pensar na possibilidade de um reduto alawita no oeste da Síria e de autogoverno dos curdos: uma independência de fato, que mudaria, não só o Iraque, mas também Turquia, Síria e Irã. Israel e as potências ocidentais já estão mostrando preocupação sobre o que possa vir a acontecer na Jordânia. Não há dúvidas de que resistirão contra qualquer demanda de que reconheçam mudanças tentadas em limites nacionais. Mas isso pode levar a crescente divergência entre os sistemas que regulam as relações nacionais entre estados, e a realidade em campo.

*****

A promessa da Primavera Árabe está extinta, em grande medida. Esperanças de mudança democrática foram substituídas por medos de ditaduras e califatos. O principal desapontamento é a região do Egito, onde os ideais da Praça Tahrir terminaram em governo de ditador militar, ainda mais autoritário que Mubarak. A Fraternidade Muçulmana – que venceu todas as eleições às quais concorreu depois da Primavera Árabe – foi declarada organização terrorista, com centenas dos seus principais líderes já condenados à morte.

Contente, Sisi recebe Kerry em dia de propina...
E tudo isso aconteceu com apoio do ocidente: o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, entregou recentemente mais de meio bilhão de dólares ao regime golpista do general Sisi. E a situação na Síria tem levado alguns a pensar se, comparado aos jihadistas, o regime do presidente Assad não será, afinal, a melhor opção. O ocidente dá sinais de estar mais do que apenas tentado a apoiar qualquer ditador que apareça no Iraque, se der sinais de que conseguirá manter sob controle o Estado Islâmico. Em outras palavras, o Ocidente já está revertendo à sua tradicional política para o Oriente Médio, de apoiar regimes autoritários que mantenham sob rédea curta sejam os islamistas radicais sejam os democratas liberais.

Quando George Bush e Tony Blair invadiram o Iraque, promoveram a ideia de que o ocidente estaria enfrentando ameaça jihadista global comandada pela al-Qaeda. Toda a Guerra Global ao Terror foi feita contra um único inimigo: o Islã radical. De início, cada manifestação dessa ameaça foi atacada com força massiva, a começar no Afeganistão. Mais recentemente, as ofensivas do ocidente têm sido menos consistentes.

Tony Blair (E) e George W. Bush mentiram para invadir o Iraque
Os jihadistas no Mali foram atacados, mas al-Shabaab não foi incomodada na Somália. Para alguns, o não agir em alguns casos sinalizaria fraqueza ocidental. “O ponto de partida é identificar a natureza da batalha: é batalha contra o extremismo islamista. A batalha é essa” – escreveu Tony Blair em ensaio publicado em sua página internet, redigido como resposta aos avanços do ISIL no Iraque. Na sequência, recomendou outra – possivelmente ilegal – intervenção militar.

Outros, menos comprometidos com o passado, fazem análise diferente: ao mesmo tempo em que os jihadistas estão envolvidos em várias lutas contemporâneas, os vários conflitos envolvem teia complicada de muitos outros fatores. Já não há um único inimigo – se é que algum dia houve inimigo único – dedicado a atacar o ocidente. Há várias forças separadas, cada uma com agenda própria e seus próprios motivos, que têm a ver, principalmente, com inimigos locais. Cada conflito tem sua própria história e sua própria dinâmica.

No Iraque, a atual rebelião é movida, não por antiamericanismo ou hostilidade contra o ocidente em geral, mas, mais, pelo sectarismo, a corrupção e a incompetência do governo Maliki. Os xiitas iraquianos e seus apoiadores iranianos, ao lado dos sunitas moderados e até de curdos, todos têm agora um interesse comum em se opor a al-Baghdadi – o que eles mesmos podem fazer com muito maior eficácia que o exército dos EUA. De fato, tropas dos EUA deslocadas para lá serão como fantoches nas mãos de al-Baghdadi e Zawahiri.

David Cameron
Em fins de junho, David Cameron disse à Casa dos Comuns do Parlamento que o ISIL poderia tomar o controle do norte do Iraque e instalar lá um governo: “O pessoal que chefia aquele governo, além de aspirar a tomar território, também planeja nos atacar aqui em nossa casa, no Reino Unido”. É declaração temerária, altamente belicosa, que ultrapassa em muito o que o governo de Obama tem dito.

Nos últimos meses, os Republicanos desenvolveram com sucesso uma narrativa segundo a qual a relutância de Obama em usar a força na região teria dado lugar a uma percepção de fraqueza dos EUA. A pressão doméstica sobre Obama, para que seja mais agressivo no uso da força militar tem sido considerável. Apesar disso, o presidente dos EUA parece tem conseguido conter as demandas – que agora estão partindo de uma improvável aliança entre Maliki e a direita norte-americana – de que envie tropas dos EUA para o Iraque.

“Os sunitas que tomaram cidades iraquianas”, disse Obama, representam “ameaça de médio e longo prazo” para os EUA. Mas, acrescentou ele, “não podemos pensar que estamos brincando de pega-pega e mandar soldados dos EUA para ocupar vários países, cada vez que essas organizações aparecem no mundo”. “E seja como for”, disse ele, “as populações locais rejeitam o ISIL por causa da violência deles”. É evento muito raro: Downing Street, Londres, ainda mais falcão-linha-dura que Casa Branca, Washington; mas talvez seja evento sem consequências. 

Em frase na qual articula de modo excepcionalmente claro a subserviência de Londres a Washington, William Hague disse, em resposta aos avanços do ISIL:

William Hague
Apoiaremos os EUA em qualquer coisa que resolvam fazer.

A relutância de Obama, que não interveio na Síria pode parecer fracassada. Mas estaria por acaso garantido que mais dinheiro do ocidente entregue ao Exército Sírio Livre teria resultado na emergência de alguma espécie de estado liberal democrático? O fracasso da Primavera Árabe em outros pontos não sugere que essa possibilidade se concretizaria. Políticos ocidentais estão tendo de reajustar-se à novidade de sua própria crescente incapacidade para dominar o mundo. Se se consideram as alternativas, a inação de Obama parece boa ideia, que é criticado pela direita e pela esquerda, pelos seus muitos erros e fracassos. Mas o mais provável é que dentro de alguns anos, quando ele já não estiver na Casa Branca, tenhamos muitas saudades de Obama.


[*] Owen Bennett-Jones é um jornalista britânico freelance e um dos anfitriões do programa Newshour da BBC. Como ex-correspondente da BBC esteve baseado em vários países fazendo cobertura internacional. Ganhou o Sony Radio Gold Award na categoria News Journalist of the Year em 2008. Foi, também, jornalista do ano da Commonwealth em 2009. É articulista habitual de vários jornais britânicos, incluindo The Guardian, Financial Times e The Independent e o London Review of Books. Recentemente comentou no LRB sobre o MEK − um grupo militante iraniano dissidente − e sobre o assassinato de Benazir Bhutto. Foi apresentador de vários programas na BBC World Service. Foi correspondente estrangeiro residente em Bucareste, Genebra, Islamabad, Hanói e Beirute. Seu livro sobre a história de Paquistão: Pakistan: Eye of the Storm,, entrou na terceira edição em 2010 Tem contribuído para o arquivo Lonely Planet, guia histórico para o Paquistão. Em 2012 co-escreveu uma drama de rádio sobre o assassinato de Salman Taseer, político paquistanês, intitulado “Blasphemy and the Governor of Punjab” e transmitido pela BBC Radio 4 e o Serviço Mundial. Em 2012, tornou-se professor Ferris (título honorífico) visitante de Jornalismo na Princeton University. Em 2013, Bennett-Jones publicou o seu primeiro livro de ficção, Target Britain, um thriller inspirado na guerra contra o terror de Bush-Blair.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Síria hoje, e EUA há 150 anos: Eleições em tempo de guerra civil

25/4/2014, [*] Caleb Maupin, Russia Today,
Traduzido peloo pessoal da Vila Vudu

O mais provável é que, em 2014, Bashar al-Assad seja reeleito presidente da República Árabe Síria. A história síria o recordará para sempre, como governante civilizado e herói do seu povo.
(14/9/2013, redecastorphoto: Uma breve história da guerra dos EUA contra a Síria: 2006-2014, Moon of Alabama, traduzido)

Membro da Defesa Civil e residente afastam-se de local bombardeado por terroristas - Aleppo, Distrito de al-Shaar  em 24/4/2014 (foto: Hosam Katan)
A Síria terá eleições presidenciais dia 3 de junho. A imprensa-empresa ocidental “midiática” zomba da ideia de haver eleições em tempo de guerra civil que já fez mais de 100 mil vítimas, entre mortos e refugiados.

Toda a imprensa-empresa já se prepara para pôr-se a tentar desqualificar o resultado – que, como tantos sírios desejam e esperam, mostrará Bashar al-Assad reeleito.

Curioso, nisso, é que tantos jornalistas e “especialistas” midiáticos norte-americanos esqueçam parte tão importante da própria história dos EUA.

Há 150 anos, em 1864, os EUA fizeram uma eleição presidencial, apesar de estarem mergulhados, há três anos, numa muito sangrenta guerra civil.

Abraham Lincoln
Abraham Lincoln governava os EUA e enfrentava batalha cruel contra uma insurgência armada interna. Lincoln, membro do recém constituído Partido Republicano, fora eleito com plataforma em que se comprometia a conter e pôr fim à expansão da escravidão. Em 1861, os ricos proprietários de escravos do sul dos EUA armaram-se em guerra contra o governo federal, na esperança de preservarem para eles o direito de propriedade sobre milhões de escravos que consideravam “propriedade privada” deles.

No processo da guerra, Lincoln foi forçado a relutantemente abolir a escravatura, primeiro com a Proclamação de Emancipação, depois com Emendas à Constituição dos EUA. A Guerra Civil foi, realmente, a Segunda Revolução Americana, que mudou completamente o contexto econômico dos EUA. Os capitalistas industriais dos EUA do Norte, com apoio de sindicatos, bem amados guerrilheiros antiescravidão como Frederick Douglas, e escravos rebeldes armados como Harriet Tubman, esmagaram a escravocracia dos EUA do Sul. No processo, foram mortos 750 mil soldados, e o número de civis norte-americanos mortos não é conhecido até hoje.

Os dois lados acusaram-se mutuamente de brutais crimes de guerra – os EUA do Norte usaram até a fome, como arma, contra os EUA do Sul – tortura e assassinato de civis.

Enquanto a maioria dos EUA do Norte apoiava o governo eleito de Lincoln na luta contra a Confederação dos Proprietários de Escravos dos EUA do Sul, a cidade de New York abrigava um poderoso núcleo de militantes pró-escravatura, porque Wall Street, até hoje centro do sistema capitalista mundial, estava fazendo milhões de dólares com as empresas financeiras do comércio escravista. E muitos ricos capitalistas britânicos e conhecidos políticos, como William Gladstone, também apoiavam os insurgentes pró-escravatura dos EUA do Norte. As indústrias britânicas viam as fazendas do sul, movidas à mão de obra escrava, como importantes fornecedoras de algodão barato e de outras matérias primas.

Karl Marx
Na cidade de New York, o jornal mais popular, do Partido Republicano, era o The New York Tribune. O correspondente em Londres, da Tribune, era Karl Marx, autor do Manifesto Comunista e líder da Associação Internacional de Trabalhadores. Karl Marx escreveu carta a Lincoln, em nome da Associação Internacional de Trabalhadores, entregue ao embaixador dos EUA em Londres, Charles Francis Adams, dia 28/1/1865:

Os trabalhadores europeus têm certeza de que, assim como a Guerra da Independência Americana iniciou uma nova era de ascensão para a classe média, o mesmo fará a Guerra Americana contra a Escravidão, pelas classes trabalhadoras. Consideram um trunfo da Guerra Americana contra a Escravidão, que tenha cabido a Abraham Lincoln, filho dedicado da classe trabalhadora, conduzir seu país ao longo dessa guerra terrível, até o resgate da raça acorrentada e a reconstrução de um mundo social. (trecho traduzido)

Os jovens que se alistavam no exército dos EUA do Sul cantavam “John Brown's Body” [O cadáver de John Brown] (vídeo a seguir) canto dedicado àquele carismático militante antiescravidão, que foi enforcado depois de uma tentativa de levante dos negros em Harper's Ferry.


Entre os comandantes do exército que Lincoln usou para derrotar a escravocracia havia muitos comunistas declarados. O General de Brigada Joseph Wedemeyer, o Secretário-Assistente de Guerra Charles A. Dana, o General de Brigada August Willich e o Coronel Richard Hinton sequer eram nascidos nos EUA, mas sentiram que, em nome de suas convicções comunistas, tinham de alistar-se na batalha contra a escravidão. Foram comandantes militares dos EUA do Norte, durante a batalha contra os EUA do Sul dos proprietários de escravos. E foram também assumidos apoiadores de Karl Marx e das ideias do comunismo.

“Não troque de cavalo no meio da corredeira!”

Lincoln foi atacado por fazer eleições durante a Guerra Civil. Os Estados Unidos do Sul, que estavam sob total controle dos insurgentes da “Confederação”, não tiveram eleições, porque seria impossível o governo central responsabilizar-se por eleições em território inimigo.

Terroristas carregam arma anti-tanque para posições na cidade cristã-americana de Kasab em 23/4/2014
Nas urnas, Lincoln enfrentou dois principais oponentes. Os Democratas concorreram com uma “plataforma pela paz”, entendendo que o governo dos EUA deveria render-se aos insurgentes e deixar que a escravidão prosseguisse nos sul. O Partido Radical Democrático concorreu com uma plataforma segundo a qual Lincoln seria ‘mole demais’, não suficientemente agressivo, e que deveria abolir imediata e completamente a escravidão. Lincoln temia não ser reeleito. Durante a campanha, cunhou seu famoso slogan “Não troque de cavalo no meio da corredeira!”, clamando pela unidade nacional para pôr fim à guerra.

Contados os votos, Lincoln foi reeleito. Continuou a comandar o país na luta contra os insurgentes e, afinal, venceu-os. A escravidão foi oficialmente abolida, e milhões de negros afro-norte-americanos livraram-se dos grilhões.

Bashar al-Assad
O presidente Bashar Assad enfrenta situação semelhante à que Lincoln enfrentou há 150 anos. A República Árabe Síria enfrenta insurgência armada brutal, financiada por interesses bilionários em Wall Street e Londres, além dos autocratas em Omã, Qatar, Arábia Saudita e Jordânia. Com armas e dinheiro estrangeiro jorrando sobre eles, o chamado “Exército Sírio Livre”, a Frente Al-Nusra e outros grupos terroristas armados estão degolando gente, recrutando crianças, sequestrando para receber resgate e cometendo outros horrendos crimes de guerra. Os insurgentes ainda controlam partes do país, e continuam empenhados em abolir a diversidade e a liberdade de religião que definem a Síria ao longo das últimas várias décadas.

Diferente da Guerra Civil nos EUA, a maioria dos insurgentes na Síria não são cidadãos do próprio país, mas mercenários importados. A República Árabe Síria sempre defendeu o povo palestino em sua luta contra os crimes dos colonos sionistas israelenses. A economia Síria é em larga medida controlada pelo Estado, sem que empresas ocidentais tenham conseguido implantar ali a “rédea solta” neoliberal com que tanto sonham, para maximizar seus lucros. O governo sírio garante assistência à saúde e educação universais e gratuitas, para todos os sírios. Na Síria, cristãos, sunitas, xiitas e alawitas sempre viveram lado a lado e em paz. Tudo isso fez da República Árabe Síria alvo escolhido dos imperialistas de Wall Street, que tentam converter a Síria em outra Arábia Saudita, outro Qatar ou Bahrain, onde as ordens do Ocidente podem ser impostas por governo fantoche autocrático.

Na Síria, a “oposição” move campanha de terror e violência para desestabilizar o país e estraçalhar a República Árabe Síria, para que Wall Street e Londres assumam o controle do país.

Os sírios estão unidos em torno de seu presidente e resistem contra a campanha de terror apoiada de fora da Síria. Além do Exército Sírio, o país também constituiu milícias comunitárias de autodefesa. A Síria se une para derrotar a campanha de violência movida contra ela.

Manifestação na Casa Branca -  Guerra contra a Síria: construindo uma MENTIRA.
Quando o Comitê Nacional Unido Contra a Guerra e o Centro de Ação Internacional [orig. United National Anti-War Committee e International Action Center] convocou um protesto diante da Casa Branca, quase mil sírios reuniram-se ali para desfraldar sua bandeira. Muitos cartazes mostravam imagens do presidente al-Assad. Sírios-americanos da PennsylvaniaNew JerseyCalifórnia e outras partes dos EUA cantaram “Estamos com nosso presidente Bashar Al-Assad”.

Assim como Lincoln acertava ao insistir em que se realizassem eleições em 1864, assim também Assad acerta em não abrir mão da próxima eleição presidencial de 3 de junho próximo. É indispensável que o povo sírio tenha garantido o direito de manifestar-se, apesar da terrível guerra civil em que os sírios foram colhidos.

Nas próximas eleições, Assad enfrentará pelo menos um oponente forte, e é preciso esperar que os votos sejam contados.

Mas, assim como milhões de pessoas nos EUA votaram em Lincoln em 1864, é muito provável que milhões de sírios reelejam o homem que os conduziu durante uma batalha feroz contra terroristas e contra uma campanha de terror sustentada por agentes de fora da Síria. Pode-se prever que a lógica dos sírios em 2014 será a mesma dos norte-americanos em 1864: a maioria não trocará de cavalo “no meio da corredeira”.



[*] Caleb Maupin é jornalista, analista e comentarista político e embora originário de Ohio, tendo estudado e se formado e Ciência Política no Baldwin-Wallace College, vive atualmente em New York. É ativista e membro do Workers World Party e do Fight Imperialism – Stand Together (FIST). É um dos organizadores da juventude do International Action Center e do movimento Occupy Wall Street desde 2011. Milita contra a brutalidade policial, encarceramento em massa, e a guerra imperialista dos EUA.