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sábado, 9 de agosto de 2014

O que Obama disse ao Califa

8/8/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

F-18 Super Hornet
Jatos F-18 dos EUA bombardearam duas peças de artilharia fabricadas nos EUA e que o Estado Islâmico usava na preparação dos ataques contra Arbil na parte curda do Iraque.

O ataque aconteceu depois que Obama dirigiu-se ao Califa Pol Pot 2o, ontem, para sugerir-lhe que o Estado Islâmico bem faria se deixasse de fora de sua lista de alvos as poucas áreas que são de interesse positivo para os EUA:

Obama, em declaração na Casa Branca, no final da 5ª-feira (7/8/2014), disse que seriam lançados ataques contra comboios extremistas “no caso de eles moverem-se rumo” à capital curda de Arbil, onde os EUA mantêm um consulado e um centro de operações conjuntas com militares iraquianos.

“Temos intenção de agir caso eles ameacem nossos prédios em qualquer parte do Iraque (...) inclusive em Arbil e Bagdá” – disse Obama.

Meu time!

O que Obama não disse é a mensagem real que o Califa Pol Pot 2º realmente recebeu:

  • “Podem atirar contra o que bem entenderem, exceto a embaixada dos EUA em Bagdá e a parte curda do Iraque. Há ali empresas dos EUA que investiram em petróleo, temos ali esse grande  novo posto de inteligência, e ali os israelenses têm aquela grande operação de inteligência, de longo alcance, para atacar o Irã”. 
  • “Exceto esses itens, sintam-se à vontade para atacar qualquer um na Síria e no resto do Iraque. Nada faremos, sequer bombardearemos o armamento pesado que os senhores têm, para não atrapalhar sua vitória final. Exatamente como os senhores, pouco ligamos para o que aconteça a uma ou outra ou outra dessas minorias ou maiorias por aí. Os yazidis que se fodam. (Mas os senhores precisam mesmo desses bombásticos esforços de relações públicas & vídeos de massacres? São itens que deixam muito ouriçados aqueles idiotas da “responsabilidade de proteger”, que não compreendem o real propósito da doutrina).
  • “Os senhores capturaram todo o excelente armamento de umas quatro divisões iraquianas, tudo armamento pesado & munição “Made in USA”. Papa fina. Usem à vontade. Claro, poderíamos bombardear tudo dos ares, sem pôr um coturno que seja, em solo.
  • Mas não é do meu interesse. Digamos “Tanques [thanks] pelas boas lembranças”, hehe. Depois vendemos outros desses para os patetas lá, em Bagdá. Tomara que já tenham reposto o estoque e esteja tudo pronto para o próximo ataque aí, dos senhores, quando o atual estoque tiver acabado”.
TOW - Lança-míssil (aqui  sobre um Jipe)

  • “Por falar disso – se acaso precisarem de mais armas antitanques. Acabamos de fornecer várias dúzias de TOW pruns grupos lá, no nordeste da Síria. Há boa chance de os senhores “negociarem” o acesso até alguns deles”.
  • “Me contaram que os senhores anunciaram que estão preparando algo grande,really big, tipo 11/9. Ótimo, mas, por favor, nos deixem fora dessa. Estamos ocupados com nossa guerra contra a Rússia. Que tal... Jeddah?”.
  • “Uau! Que tal atacar o Irã? Pudesse, atacava eu mesmo, mas meu pessoal não libera”.


[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille(1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ver/ouvir versão em performance de David Johansen com legendas em português.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Pepe Escobar: “Assistam ao Califa desmoronante”

8/7/2014, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online − The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

"O Califa": Dr. Ibrahim al-Badri de Samarra;  ou Abu Bakr al-Baghdadi; ou ainda Abu Dua, Ibrahim bin Awad bin Ibrahim Al-Badri Al-Radawi Al-Husseini Al-Samarra'i
Quer dizer então que “O Califa”, agora, é superstar global! Desde que o Dr. Ibrahim al-Badri de Samarra, clérigo sunita menor que está incorporando um califa neomedieval de nome Abu Bakr al-Baghdadi, apareceu no púlpito de pedra de uma mesquita em Mosul, no início do Ramadã, a vida do “astro” é perfeita roda-vida.

Lá estava, fazendo o comercial de negociata transnacional – dos subúrbios de Aleppo a Mosul (e anúncio de mais terras a serem tomadas). Ele dirigiu e montou seu próprio vídeo – dele, só dele, cantoria monótona, monocórdica, e vestindo uniforme de gala dos Homens de Preto. Acabou com a oposição, de fato, à bala. Elogiou os mujahid, convidando-os a seguir a Jihad em nome de Alá. Condenou os incréus e hipócritas, exaltando a “vitória dos muçulmanos” do “oriente e do ocidente”.

Modesto, carregando relógio de 7 mil dólares (ou cópia chinesa) e pedindo que o corrigissem em seus erros de comportamento, “O Califa” anunciou que seu negócio de Estado Islâmico, ex-ISIS, não é questão só do Levante. Quer passaporte do Estado Islâmico? É só pedir ao Califa (vídeo a seguir).


"O Califa" está de olhos postos em Roma: quer conquistá-la (sarracenos saquearam a Igreja de São Pedro em 846): “Saquearás Roma e serás senhor do mundo”. Mas só depois de domingo, para que o papa Francisco possa assistir ao futebol, Argentina x Alemanha, em paz, sem medo de ser decapitado.

Antes, contudo, “O Califa” parece pronto a montar seu camelo santificado, aos gritos de “Allahu Akbar!”, pela estrada até Bagdá e dali a Meca. Afinal, ele também proclamou que o golpe colonial Sykes−Picot, perdão, digo, o acordo de 1916 entre Grã-Bretanha e França, está desfeito, que é nulo, vale nada. Não surpreende que a Casa de Saud, aquela fonte pura e virginal de coragem, já tenha reunido 30 mil mercenários, digo, soldados, na fronteira com o Iraque (até há seis meses, os sauditas mantinham uma Jihad tipo ponte aérea, por terra e ar, direto para a Síria e o Iraque; agora, morrem de medo do efeito bumerangue).

O conhecido orientalista francês Olivier Roy não parece impressionado com o furor cenográfico do Califa. Chamou-o de “delirante”, mas sem desmerecer a esperteza do homem: “cauteloso e invisível como Mulá Omar; ambicioso e megalomaníaco como Osama bin Laden”. O que convoca imediatamente a tal questão: como é possível que “O Califa” não esteja incluído na lista−de−gente−a−ser−assassinada, de Zero−Zero−O−Bama? Por que “O Califa” não está sendo dronado lá mesmo, nas areias mesopotâmicas?


“O Califa” não disse palavra sobre a Operação Proteção só para os Sionistas, desculpe, “Operation Protective Edge” [ap. “Operação Cerca de Proteção”] , a mais recente super-produção em câmera lenta de limpeza étnica/castigo coletivo que os israelenses estão fazendo em Gaza, contra mais de 400 alvos, e vastíssimo “dano colateral”. É movimento de Relações-Bombas Públicas comandado por “O Califa”. Até aqui, o movimento lhe está valendo papel duplamente ridículo na Rua Árabe – que vê claramente as suas dúbias autoapresentadas credenciais religiosas e, simultaneamente, o seu imperial desprezo pelo sofrimento dos palestinos.

Crianças assassinadas por Israel em Gaza (julho/2014)
Fim dos jihadis-bonzinhos

Seja como for, “O Califa” está em todas as bocas. Sua Declaração salafista−jihadista de Independência – não só da al-Qaeda histórica, mas, principalmente, das imundas/corruptas monarquias árabes e do aparelho de inteligência ocidental que alimentou a Jihad por muitos, muitos anos – é, sim, um terremoto. O que explica a perplexidade do Império do Caos. Aquela boa “estratégia” de projetar o poder do império/OTAN usando jihadistas alugados naquelas guerras bem distantes, guerreadas “por procuração”... está hoje reduzida a cacos. “O Califa” é a mais nova “Criatura” da Jihad Frankenstein.

Não surpreende que o jantar−pato−manco, digo, o governo−pato−manco de Obama esteja ainda considerando, pelo menos para a Síria, aquele velho Plano A (armar os dois lados em luta, e deixar lá que “árabes matem árabes” o mais possível). No Iraque o plano ainda em discussão no Departamento de Defesa talvez seja dronar os comboios do Estado Islâmico. Não será passeio no parque, porque a liderança militar do Estado Islâmico é constituída de ex-guerrilheiros que combateram no Iraque, gente experiente. E não são nem doidos de pôr na estrada aquela longa fila de picapes Toyotas brancas fulgurantes em pleno deserto, tudo outra vez, agora que já viraram celebridades instantâneas e estão por aí, em todas as televisões.

Ahmed Chalabi
No front político, há insistentes rumores de golpe militar iminente em Bagdá, planejado pelo comandante militar da cidade, Abdulamir al-Shumanni. Os líderes do golpe dizem que contam com o apoio de Washington e Teerã (negócio fabuloso; serão convocados para ajudar nas negociações nucleares no Grupo P5+1). Como em A Volta da Brigada dos Mortos (Neoconservadores) Vivos nos EUA, todos apostam no primeiro cavalo de carne batizada com hormônios que apareceu: Ahmed Chalabi.

Não importa o quanto seja ambicioso, “O Califa” teria de agir em grupo. Mas muitos grupos jihadistas sírios já se posicionaram contra o Estado Islâmico. O mesmo está acontecendo no Iraque; milicias sunitas estão-se posicionando contra eles na província de Nineveh.

É onde entram os xeiques sunitas – os fantasmas nessa máquina infernal. “O Califa” tem de ter agentes infiltrados nos quais confie, que lhe digam que, tão logo os xeiques tenham acabado de usar o Estado Islâmico como ferramenta para “desestabilizar” o governo de al-Maliki em Bagdá, os mesmos xeiques imediatamente tratarão de esmagar o califado. É aliança extremamente temporária – uma espécie de remix do ex-Estado Islâmico no Iraque, cujo emirado foi esmagado por efeito do “Despertar de Anbar” [orig.  Anbar Awakening] [1], alimentado com dinheiro dos EUA.

Athel al-Nujaifi
“O Califa” também terá de encarar Athel al-Nujaifi, governador da província de Nineveh; ele quer um Sunistão diferente, com alto grau de autonomia (e muito petróleo ainda não explorado), mas mantido como parte do Iraque. Al-Nujaifi é o mais influente político sunita no Iraque, e presidente do maior partido político sunita do país. No momento, “O Califa” parece não querer correr risco algum. Agentes do Estado Islâmico já prenderam muitos e muitos ex-oficiais do exército iraquiano e ba’athistas em torno de Mosul.

Assim sendo, mais uma vez, o que fará o governo Obama? Provavelmente, um remix de Bush II; fazer chover dinheiro sobre os xeiques, para jogá-los contra “O Califa’, o mais depressa possível. Teerã, enquanto isso, está também ativa, via pequenos contingentes de Agentes Especiais – como o que salvou o belo santuário xiita em Samarra (não foi capturado pelo Estado Islâmico). Trabalham na direção de repetir sua estratégia para a Síria: criar um exército iraquiano paralelo, de guerrilheiros.

A ideia de que “O Califa” atacará em breve “o ocidente” ou os EUA é piada. Até agora, as incursões terroristas do Estado Islâmico só foram até Irbil (no Kurdistão iraquiano), Basra e Damasco. Todas essas são cidades relativamente próximas do comando operacional do Estado Islâmico. O Estado Islâmico não tem como alcançar o “ocidente”. Até atacar Bagdá já é desafio gigantesco para eles. Não têm competência nem para atacar a embaixada dos EUA, do tamanho do Vaticano. Para nem comentar que as milícias Sadristas, em Sadr City, por exemplo, reduziriam a poeira, o Estado Islâmico. Só podem aspirar, no máximo, a continuar destruindo santuários sunitas, sufistas e xiitas.

David Ignatius
Paralelamente, a história realmente sumarenta a ser acompanhada, é que o Estado Islâmico pode vir a converter-se em arma ideal para o Império do Caos – e a Casa de Saud – combater contra o que se poderia chamar de aliança Irã−Hezbollah−Síria−Iraque. Exatamente o contrário do que “noticia” David Ignatius.

Realisticamente, em termos geopolíticos, a jornada de “O Califa” até Roma também é piada. O Estado Islâmico está cercado por potências hostis, do Irã e Turquia ao Egito. Se os Homens de Preto decidirem atravessar 300 km de deserto, para atacar o reino do Reizinho de Playstation, também conhecido como Jordânia, serão sumariamente dronados.

Portanto, agora que se se autoanunciou como neo−Osama, “O Califa” que cubra a retaguarda. Muito provavelmente, é camelo de um só truque. Talvez se dê conta de que tem mais chances de garantir o estrelato se se autopromover como a Segunda Vinda de Michael Jackson e se puser a fazer a dancinha de Moonwalk. Em qualquer caso, ele com certeza logo verá que o Exército Árabe Sírio do presidente Bashar al-Assad pode provocar dor considerável no lombo do Estado Islâmico. E há até mais opções do lado iraquiano.

Apesar de todos os rumores de golpe, al-Maliki permanecerá, muito provavelmente, no poder em Bagdá. E será armado até os dentes, não só por Teerã, mas também por Moscou. O Corpo dos Guardas Revolucionários Iranianos já estão envolvidos tentando construir o que se pode descrever como Brigadas de Guardas Nacionais. Todos combaterão contra o Estado Islâmico. Em movimento de pinça, ataques a partir da Síria e a partir do Iraque podem destruir praticamente todo o Estado Islâmico em seis meses a partir de hoje.

O Califa, além do potentíssimo relógio, pode ter muitas armas e ganhar muito dinheiro vendendo petróleo, mas o Califado não passa de miragem. Só uma coisa é certa: antes de que se desfaça na areia do tempo, haverá sangue. Muito, muito sangue.


Nota dos tradutores
[1] No outono de 2006, um grupo de xeiques sunitas em Ramadi rejeitaram a al-Qaeda e começaram a cooperar com forças dos EUA às quais haviam feito oposição por muito tempo. Os movimentos que ficaram conhecidos como “Despertar de Anbar”, também chamados “Salvação de Anbar”, converteram Anbar, de uma fortaleza insurgente, em área na qual os EUA passaram a poder comandar operações efetivas. [mais sobre isso, na visão dos EUA em: ANBAR AWAKENING: DISPLACING AL-QAEDA FROM ITS STRONGHOLD IN WESTERN IRAQ].


[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire, Counterpunch e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
 Obama Does Globalistan,  Nimble Books, 2009.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Primeira aparição pública e sermão de Abu Bakr al-Baghdadi como Califa (ISIL/ISIS/DAASH)


Data escolhida a dedo: dia de Ramadã e de 4 de  Julho!

5/7/2014, TwitLonger de François Gatete (Traduzido para o inglês)
Traduzido da transcrição pelo pessoal da Vila Vudu


“Em nome de Alá, o Mais Misericordioso, o Especialmente Misericordioso. Misericordioso, al-Furqan [1] apresenta sermão e pregação coletiva na grande mesquita na cidade de Mosul, no 6º [dia do mês] de Ramadã, [ano de] 1.435 [da Hégira]”.

....

Baghdadi: “Que a paz e as bênçãos de Alá desçam sobre vocês” [O cantor recita a oração; Baghdadi usa um siwak (instrumento para limpar os dentes)].

Abertura do sermão [Khutbah, inna alhamdullilahi (...)], com os trechos do Corão associados. Fim da abertura, “Oh vocês que creram, foi-lhes ordenado que jejuassem e foi-lhes ordenado antes disso que todos se tornassem dignos”.

Alá, o Altíssimo, disse “O mês do Ramadã [é o mês no qual] foi revelado o Corão, guia para o povo e provas claras de orientação e critério. Por isso, todos que vejam surgir o [a lua nova do] mês, que jejuem”.

Oh, muçulmanos! Quem cresceu até ver o Ramadã recebeu grande bênção. E grande missão que lhe deu Alá, o Altíssimo.

É mês cujo começo é doação. Cujo meio é perdão. Cujo fim é proteger-se contra o fogo do inferno. Um mês no qual, se o crente jejua com convicção e espera perdão, ele será perdoado. Com a autoridade que é sua, Abu Hurayrah, que Alá esteja satisfeito com ele, o mensageiro de Alá, que Sua paz e Suas bênçãos desçam sobre ele, disse: “A quem jejua o Ramadã com convicção e esperança de ser perdoado, seus pecados lhe são perdoados. E a quem guarda o Ramadã com esperança e convicção do perdão, seus pecados lhe são perdoados”.

Um mês que traz a abertura das portas do paraíso eterno e fecha as portas do fogo do inferno. E encarcera os demônios. Um mês portanto que é uma noite que vale mais que mil noites. Quem não o tenha deixado descer sobre si, tornou impossível que todo o bem [khair] desça sobre si.

(Corão) “A Noite do Decreto é melhor que mil meses. Os anjos e o Espírito descem portanto por permissão de Seu Senhor para todos os casos. É a Paz que fará raiar o dia”.  

Um mês em que há divórcio: divórcio e separação do fogo do inferno. E é verdade para cada uma e todas as noites desse mês. Um mês que se põe como obstáculo na perseguição contra a jihad. [2] E o mensageiro de Alá – que a paz e todas as bênçãos desçam sobre ele –, disse [Segue a narrativa profética sobre a jihad].

Assim sendo, colham as vantagens desse mês santo, Oh, cultuadores de Alá! Lutem, portanto, Oh, muçulmanos! Alá, o Abençoado e Altíssimo criou-nos para amá-Lo e só Ele no monoteísmo, e para estabelecê-Lo em Seu modo completo de viver [o Islã]. Ele, o Altíssimo, disse:

(Corão) “Não criei o jinn [3] e a humanidade senão para que Me cultuem”. E Alá ama que matemos os inimigos de Alá e que façamos jihad em Seu nome.

Ele, o Altíssimo, disse:

(Corão 2:216) “A guerra foi imposta a vocês, embora vocês odeiem a guerra”.

E Ele, o Altíssimo, disse:

(Corão, Surat Al-‘Anfal [verso 39]) “E lhes deem combate até que não haja fitnah [ateísmo e politeísmo], e até que toda a religião, toda, seja de Alá. E, se pararem, mesmo ainda assim, Alá Vê o que fazem”.

Oh, povo na religião de Alá, sejam justos Nele, levantem-se por Ele e afirmem a verdade d’Ele, e não se dispersem e não se afastem do que Alá nos deu. E mantenham-se firmes com a Xaria de Alá, e a referência a ela, e apliquem e aceitem o hudud (castigos islâmicos).

(Corão) “Nós já mandamos Nossos mensageiros com provas claras e mandamos com eles a Escritura e o equilíbrio [para que] o povo possa manter [seus negócios] em justiça. E mandamos o ferro, pelo seu grande poder militar e benefícios para o povo [de tal modo que] Alá possa tornar visíveis os que O apoiam e os Seus mensageiros invisíveis. Em verdade a verdade vos digo, que Alá é Potente e Elevado em Força”.

E essa é a aplicação da religião de Alá. E esse é o Livro que dá orientação, e a espada que garante rápidas vitórias [refere-se ao Surat al-Fath (49 Sura do Corão, “A vitória”, “A Conquista”)].

E aos seus irmãos, os mujahidin (pl. de mujahid [4]) (“combatente(s) na jihad”), Alá, o Abençoado, o Altíssimo, deu-lhes vitórias e conquistas que vieram depois de muitos anos de privações e paciência. E mantiveram-se firmes contra os inimigos de Alá, e Ele os tornou poderosos na terra, até a declaração do Califado e a escolha de um Imã. E esse é assunto obrigatório para todos os muçulmanos. É Waajib! [5] E tem de ser aplicado inteiramente a toda a terra. Mas a maioria do povo é ignorante.

(Elogio aos que restabeleceram o Califado): E eles restabeleceram o Califado, e glória e graças a Alá! E vocês desperdiçarão essa bênção imensa, se recusarem a missão, a tarefa pesada, se derem as costas a ela, nesse caso estarão rejeitando a bênção que cairia sobre vocês. Eu fui submetido a uma prova por Alá, na minha eleição ao Califado. É carga imensa. Não sou melhor que vocês. Aconselhem-me quando erro e sigam-me se acertar. E me socorram contra os tawagheet [6].

E lhes trago a boa nova do que Alá prometeu aos crentes que O venerem:

(Corão) “Alá prometeu aos que, dentre vós, creem e praticam boas ações, que Ele lhes garantirá a sucessão no poder sobre a terra, assim como Ele garantiu o poder àqueles de antes dele, e Ele com certeza implantará para eles a religião que Ele preferiu para eles e que Ele substituirá: depois do medo, a segurança,  para que ME cultuem, nada associando a MIM. Mas quem não creia nisso – esses são os desafiantemente desobedientes”.

A Sua promessa:

(Corão) “Não enfraqueçam e não lamentem, e vocês prevalecerão, se creem verdadeiramente” (mais ayat corânicos sobre vitórias).

E Ele disse: (Corão) “Toda a Honra pertence a Alá e ao Seu Mensageiro, e aos crentes, mas os hipócritas não sabem”.

Essas são as promessas de Alá. E se as promessas de Alá alegram vocês, temam-No e vivam retamente em boa consciência [orig. taqwa [7]].

Temam Alá em todas as bênçãos e em todas as situações. E disseminem a verdade. E sejam firmes, pela verdade. E a disseminem para todos os que vocês amam e todos que vocês odeiam.

Se a promessa de Alá lhes agrada, então dediquem-se a ela com fervor de jihad! E conclamem os crentes para que façam o mesmo. E tenham paciência nesses tempos de dúvida. Se vocês soubessem o que há na jihad, desde a recompensa [ajr], as bênçãos generosas [karama], a ascensão na vida, a honraria, nessa vida e na outra, nenhum de vocês jamais se desviaria do caminho da jihad!

(Corão) “Creiam em Alá e Seu Mensageiro e lute pela causa de Alá com suas riquezas e a própria vida.” É o melhor para vocês, e vocês sabem ou deveriam saber que é. Alá perdoará vocês e os acolherá em jardins onde riachos correm, onde poderão viver para sempre. Nenhum feito ou realização da vida assemelha-se a chegar lá.

E isso que vocês amam, a vitória vinda de Alá e a conquista, estão próximas!

(Fim do sermão [Khutbah]. Daí até o final, o xeique recita o Corão).



Notas dos tradutores

[1] O critério.
[2] Sobre o conceito islâmico de Jihad (“empenho”, “dedicação” em busca da perfeição).
[3] jinn”.
[4] Mujahidin”.
[5] “Waajib”: obrigação máxima, absoluta, para o muçulmano: “Wajib (o mesmo que fiqh): obrigação que o muçulmano tem de cumprir, tão obrigatória como as cindo orações diárias”.
[6] Tawagheet. Entendemos que significa os que creem e seguem comandos que não lhes sejam dados por Alá. Todas as correções e comentários são bem-vindos. 
[7] Taqwa”. 

domingo, 6 de julho de 2014

ISIS: O “Management (ou Gestão) da Selvageria” no Iraque

5/7/2014, [*] Alastair Crooke, Conflicts Forum
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A expressão “management [ou gestão] da selvageria” – detalhadamente explicada no Tratado de Abu Bakr Naji [2] – refere-se àquele hiato que acontece entre o esvaziamento de um poder e a consolidação de outro. Assume-se aqui que haverá algum caos, e que o território disputado será varrido pela violência, enquanto o poder oscila de um lado para o outro, entre o velho poder e o poder que o sucede.

Áreas do Iraque e da Síria controladas pelo ISIS

BEIRUTE – Vivemos tempos extraordinários. No Iraque (e no mundo muçulmano, há eventos extraordinários). Há a tomada relâmpago de “território sunita” da Síria e do Iraque (mas imaginada como a concretização de um “cinturão” sunita que se estenderia pela região). O simbolismo é potente no contexto da história inicial do Islã. A crueldade fria da estratégia militar do ISIS capturou e estimulou a imaginação e o ardor de jovens muçulmanos sunitas em todo o mundo.

E foi recebida com admiração por muitos no Iraque e nos Estados do Golfo. Mas assusta: a marcha dos degoladores dá calafrios. Essa adrenalina pesada, mistura de medo e excitação, e mais o senso eufórico de que os eventos reproduzem a implantação de um Império Islâmico, está caindo em campo fértil.

Por todo o Oriente Médio e África, as questões agrárias e os salafistas a inflar uma atitude vitimária dos sunitas mediante usurpação e ofensas, tudo contribui para engrossar a onda geral de vulnerabilidade a esse novo fervor coletivo de entusiasmo pelo grupo ISIS (ISIL, DAISH).

Abdullah Azzam
ISIS não é al-Qaeda; não é franqueado da al-Qaeda, nem seu afiliado. Depois de breve flerte, ISIS e al-Qaeda estão separados, distantes, apartados e em oposição direta; o ISIS considera errada a posição da al-Qaeda (embora ainda siga os escritos de Abdallah Azzam, uma das influências intelectuais chaves que inspiraram a al-Qaeda).

A al-Qaeda emergiu do “mito” de que a URSS teria sido “implodida” pelo mujahidin do Afeganistão, que teriam sido bem-sucedidos na tática de forçar a super distensão política e econômica dos soviéticos. Na sequência, a análise feita por Abdullah Azzam da vulnerabilidade da URSS naquele processo, levou à ideia de que os EUA também poderiam ser similarmente “implodidos” – por choque, depois de serem forçados a se super distender por todo o planeta, em dimensões ditas “globais”. O resultado seria que as fragilidades e a hipocrisia da superpotência acabariam por ser expostas aos olhos dos muçulmanos comuns, o que os levaria a perder o medo que os EUA lhes inspirariam.

Para alcançar esse objetivo, porém, bin Laden entendeu que seria indispensável que os muçulmanos se unissem (vale dizer: o sectarismo foi desencorajado). Àquela altura, a guerra de “perturbar e exaurir” [3] estava dirigida contra o “inimigo distante” mediante atos globais de “choque e pavor”, mas a guerra da al-Qaeda era mais guerra virtual que guerra quente guerreada em campo.

O zarqawismo (expressão que uso aqui para designar, sem ambição de rigor, a ideologia do grupo ISIS) cresceu de diferentes raízes. Não foi algum esquema grandioso para implodir os EUA, mas teve sempre a ver com queixas e ressentimentos (com raízes nos sentimentos de uma classe rural empobrecida e deslocada). Teve a ver com o sentimento dos sunitas de perda de privilégios, de poder, de posse do estado e de direitos considerados seus. Foi movido por um profundo desejo de vingança contra “usurpadores”. Teve também seus sobretons de guerra de classes (camponeses e agricultores contra uma elite cosmopolita afluente). Mas, sobretudo, teve raízes profundas no preconceito: ódio ao “outro” e, em particular, ódio aos xiitas e ao Irã.

Abu Musab al-Zarqawi

O zarqawismo fixou-se no Iraque, em guerra quente (a “política do sangue” então ainda era local, antes dos paradigmas globais que bin Laden lhe deu). Fixou-se no contexto de violenta luta sectária (Bagdá estava passando por processo de limpeza étnica) e na humilhação dos Sunnah (derrubados do poder e sumariamente expulsos do exército). Subsequentemente, sunitas da Síria que combatiam a ocupação do Iraque (muitos dos combatentes sírios e palestinos gravitaram para os grupos de Zarqawi) levaram a “ideia” de Zarqawi de volta para as áreas já muito sofridas e densas de ressentimentos de Homs e Hama.

O que mais caracterizava a doutrina de Zarqawi era a absorção de um wahhabismo intolerante que exigia purgação – pelo fio da espada – de um Islã “desnorteado”. Ele teria de ser “purificado” até ser convertido em uma única voz, uma única autoridade, uma única liderança para todos. Mediante essa purificação e seguindo uma via de deliberada crueldade, a Lei Xaria e o Estado Islâmico seriam reconstruídos.

Dois elementos põem Zarqawi em espaço à parte e o separam da al-Qaeda: primeiro, uma recusa radical a aceitar a interpretação histórica tradicional sobre como o estado islâmico foi constituído. Nesse revisionismo histórico, foram os “clérigos combatentes” e seus seguidores armados, lutando em nome do Islã, que fundaram o Estado (essa não é a interpretação convencional).

Assim, ao mesmo tempo em que o zarqawismo adota o “puritanismo” wahhabista, ele também rompe com o wahhabismo de modo realmente revolucionário, porque nega ao Reino Saudita qualquer legitimidade como fundadores de algum Estado, como zeladores da Mesquita, ou como intérpretes do Corão. Todos esses atributos o ISIS toma para si. Nessa interpretação zarqawista, o ISIS é o Estado. Isso implica completa rejeição de todos os aspectos da autoridade temporal e religiosa dos sunitas.

Abu Bakr al-Baghdadi
Embora o zarqawismo siga o pensamento de Azzam ao ver a implosão dos EUA como alvo principal, na prática o ISIS filtra seu entendimento da política contemporânea pelo prisma da migração do Profeta, saído de Meca, sua luta contra os habitantes de Meca e, conforme a interpretação que faz o primeiro califa do ISIS, Abu Bakr, seu modo de guerra violenta.

Simbolicamente tudo isso é muito importante. Assim sendo, como quando o “projeto muçulmano” do profeta foi quase destroçado na batalha de Uhud pelos exércitos de Meca, os revezes de hoje contra a “missão divina” do ISIS na Síria são vistos como simbolicamente equivalentes – como uma “Uhud” de hoje – quer dizer, o revés do ISIS na Síria é interpretado por muitos como revés existencial contra o projeto sunita como um todo.

O Irã é o novo “inimigo distante”

Mas quem faz as vezes de Meca e seus moradores nessa alegoria? Não os EUA, mas o Irã. Continuam a falar muito do “inimigo distante”, mas o simbolismo aponta indiscutivelmente na direção de um inimigo bem próximo: o Irã.

Hoje, no Iraque, é bem claro que o ISIS entende que o caminho para consolidar o Estado Islâmico já ultrapassou o primeiro estágio (operações de “perturbação” e forçar o inimigo a dispersar forças e recursos sobre superfícies vastíssimas).

Nourial-Maliki e Bashar al-Assad  (fev/2014)
Aqui, outra vez, surge a questão: a que “inimigo” o ISIS refere-se? Bem, o ISIS não diz, mas líderes do Golfo dizem com todas as letras, quando insistem nas conversas com “parceiros” ocidentais; o que dizem é que, se se tratasse só de remover Bashar al-Assad e Nouri al-Maliki seria fácil, tudo se resolveria, e a paz voltaria ao Oriente Médio (os dois presidentes, é claro são vistos como obstáculos à hegemonia regional sunita).

Assim, hoje, o ISIS vê o Iraque (e o leste da Síria) como o segundo estágio (“Management da Selvageria”) no progresso rumo à consolidação do Califado (terceiro estágio). O que significa isso? E o que implica, para a condução até o estágio seguinte?

A expressão “management [ou gestão] da selvageria” – detalhadamente explicada no Tratado de Abu Bakr Naji – refere-se de fato àquele hiato que acontece entre o esvaziamento de um poder e a consolidação de outro. Assume-se aqui que haverá algum caos, e que o território disputado será varrido pela violência, enquanto o poder oscila de um lado para o outro, entre o “velho” poder e seu sucessor (o Estado Islâmico).

Estabelecer uma sociedade de combatentes

Nesse período, segundo suas fontes teóricas, o ISIS terá objetivos limitados: alcançar segurança interna e preservá-la; fixar as próprias fronteiras; alimentar a população; estabelecer a Xaria e a justiça islâmica e − mais importante − fixar o estabelecimento de uma sociedade de luta, uma “sociedade de combatentes” em todos os níveis da comunidade.

Segundo o Tratado O Management da Selvageria [...], nesse estágio a segurança impõe que se eliminem os espiões e “detenham-se os hipócritas com provas e outros meios para obrigá-los a reprimir e esconder a própria hipocrisia, a reprimir e esconder suas opiniões acovardadas, e a obedecer aos que estão no poder, até que o mal que há neles desapareça”. Em resumo: deve-se esperar que todos os objetivos do ISIS para o próximo estágio estejam incluídos nesse parágrafo.

 Humvees capturados pelo ISIS em Mosul
Em outras palavras, qualquer ataque a Bagdá, que o Estado Islâmico insiste que virá, provavelmente não acontecerá imediatamente; terá de esperar até que a área já tomada seja “tornada segura”, e suas fronteiras controladas.

Assalto e saque dos recursos financeiros

A atual fase marca também o momento de “assalto e saque dos recursos financeiros” para os objetivos do “projeto”. A implicação aqui é que o ISIS tem o objetivo de vir a ser financeiramente autossuficiente. De fato, está claramente perseguindo esse objetivo na Síria (tomando campos de petróleo, depósitos de armas do Conselho Nacional Sírio e vendendo aos turcos parte considerável da infraestrutura industrial de Aleppo e do norte da Síria).

Isso sugere também que, embora o ISIS não esteja atualmente contestando militarmente a tomada de Kirkuk (com seus importantes recursos de petróleo) pela guerrilha curda Peshmerga, é só questão de tempo antes que o Estado Islâmico passe a tentar apossar-se dessa evidente fonte de dinheiro – como já deu combate a outros grupos jihadistas na Síria, pelo controle da renda do petróleo de Raqa’a.

Mas essa segunda fase (administrar o violento hiato até que o estado esteja consolidado) assinala – mais terrivelmente – o início de “massacrar o inimigo e mantê-lo apavorado”. A literatura sublinha que qualquer pessoa que tenha experiência de guerra (bem diferentes de quem só teoriza sobre a guerra) compreende facilmente que massacrar e implantar bem fundo o medo no coração do inimigo está na natureza da guerra.

Para confirmar o argumento, há exemplos de Companheiros (do Profeta) que “queimavam pessoas vivas, embora considerassem a prática odiosa, porque conheciam bem o efeito da violência bruta em tempos de violência necessária”.

Sem mercê

O autor do tratado O Management da Selvageria declara sem meias palavras que não há lugar para “suavidade”. “Suavidade” é ingrediente do fracasso: “nossos inimigos não nos darão mercê. Compete a nós fazê-los pensar mil vezes antes de atreverem-se a nos atacar”. 

ISIS fuzila xiitas sumariamente
Aqui se vê a segunda noção chave do zarqawismo: a interpretação que o ISIS dá às campanhas militares comandadas pelo primeiro Califa. Essa “interpretação” destaca (e procura legitimar) a necessidade de usar “violência bruta” durante esse período de hiato, quando o poder islâmico não estiver plenamente consolidado. Houve um momento, depois da morte do Profeta, quando várias tribos árabes recusaram-se a pagar Zakat a Abu Bakr (como sempre haviam pagado antes ao Profeta, enquanto viveu), e alegaram (conforme a tradição árabe dominante) que a lealdade tribal que os ligava ao Profeta extinguira-se naturalmente com a morte do líder. Daí começaram as brutais Guerras de Ridda [Guerras da Apostasia]. O que interessa aqui é o destaque e a importância que recebe o conceito de Apostasia – definição que o ISIS acompanha estritamente.

Em resumo, temos que os degolamentos e outras violências praticadas pelo ISIS não são atos de fanatismo enlouquecido, nem estão imitando outros grupos: a violência, em todos os casos, é estratégia refletida e atentamente elaborada. A estratégia militar que o ISIS segue no Iraque tampouco é ingênua, ou alguma espécie de aventura populista: é estratégia bem preparada, de planejamento militar profissional.

A violência aparentemente randômica tem objetivo preciso: visa a gerar grande medo; quebrar o moral, destruir a estabilidade psicológica do povo – e, segundo relatos, é exatamente o que o ISIS já começou a fazer com moradores de Bagdá. Estão, muito compreensivelmente, muito assustados.

Uma política de polarização

Por hora, o ISIS está focado em aumentar a pressão sobre a população da cidade, procurando tomar suas fontes de combustível (a refinaria de Baiji) e de suprimento de água (a barragem de Haditha). O explícito objetivo do ISIS   nesse caso em Bagdá, como também na Síria – é polarizar a população, como explica o autor de O Management da Selvageria:

Por polarização, aqui, falo de arrastar as massas para a batalha, de tal modo que haja polarização entre todos, na população. Assim, um grupo deles ficará ao lado do povo da verdade, outro grupo ficará ao lado do povo da mentira e um terceiro grupo permanecerá neutro – esperando que a batalha se decida, para aliar-se ao vencedor. Temos de atrair a simpatia desse último grupo e fazê-lo desejar a vitória do povo da fé, especialmente porque esse grupo tem papel decisivo nos estágios posteriores da atual batalha. Arrastar as massas para a batalha exige mais ações que inflamem a oposição que façam o povo entrar na batalha, querendo ou não, de tal modo que cada indivíduo irá para o lado que apoia. Temos de fazer essa batalha muito violenta, de tal modo que a morte esteja sempre a um passo, para que os grupos deem-se conta de que entrar na batalha levará muito frequentemente à morte. Esse será poderoso motivo para que os indivíduos escolham combater nas fileiras do povo da verdade, para morrer bem, o que é melhor que morrer em falsidade e perder os dois mundos, esse e o próximo. [Abu Bakr Naji, The Management of Savagery].

Localização da barragem de Hadhita que abastece Bagdá 
Essa é a estratégia que com muita probabilidade o governo do Iraque enfrentará. Nouri al-Maliki está dedicado em reunir e preparar um grande exército xiita. O mais provável é que, de início, concentre-se em deter o ímpeto do ISIS e assim, aplicando-lhe pesada derrota militar, espera quebrar o encanto que o ISIS exerce sobre os muitos sunitas inebriados por seu impetuoso avanço pelo território do Iraque.

Já tentou retomar Takrit, deixando para mais adiante a tarefa muito mais difícil de desalojá-los de Mosul. (Os que se lembram do sítio do Campo Naher al-Barad no norte do Líbano lembram também que o exército libanês teve de atacar durante três meses e meio e perdeu 300 soldados – para conseguir livrar esse campo de refugiados palestinos de nada além de 100 jihadistas do tipo ISIS. No processo, Naher al-Barad foi praticamente destruído).

O sucesso (ou fracasso) da defesa de al-Maliki – contra o ISIS – incide diretamente na questão da polarização: força excessiva, com muitos civis mortos e armamento muito pesado polarizará a população sunita, para vantagem do ISIS; mas pouco, desses mesmos itens, cria o risco de inflar ainda mais a reputação do ISIS.

Há também um risco real de esse conflito metamorfosear-se num conflito sunita-xiita polarizado – resultado que o Irã pressiona al-Maliki para que evite. Uma primeira prioridade será proteger os locais sagrados dos xiitas. O Irã não quer se ver envolvido diretamente nos combates (nem vê esse envolvimento como necessário, hoje), e prefere continuar a garantir apoio e aconselhamento discretos ao Iraque.

Com o palavrório de sempre, a imprensa-empresa liberal intervencionista está promovendo uma narrativa simplória que sugere que a mobilização defensiva de milícias iraquianas xiitas não seria diferente do que o ISIS faz.

Adotar essa narrativa reflete ao mesmo tempo (i) o quão profundamente o discurso sunita da exploração e da vitimização foi absorvido sem críticas pelo ocidente; e (ii) como passou a ser aceito como argumento de legitimação do jihadismo takfiri também no ocidente e entre os liberais! (Ver, por exemplo, Graças a Deus, pelos sauditas!, 23/6/2014, em The Atlantic). Isso, por sua vez, mostra o quanto os perigos reais que o ISIS representa estão sendo mal compreendidos.

O ISIS acaba de declarar guerra no Líbano. Seus sucessos (a menos que sejam rapidamente detidos) inspirarão jovens em todo o mundo muçulmano. Ver vídeo abaixo (em inglês)O campo foi bem preparado por redes de televisão e rádio salafistas, no ar 24 horas por dia, e por vastas campanhas de propaganda & marketing (“Relações Públicas”) pelas redes sociais, que se alastram por todo o Oriente Médio e cada vez mais também pela África. Muito depende do que aconteça no Iraque.

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Notas dos tradutores

[1] Artigo publicado dia 30/6/2014 no Huffington Post, sob o título: The ISIS’ “Management of Savagery” in Iraq

[2] ABU BAKR NAJI, Management of Savagery. The most critical stage through which the Umma will pass [O Management da Selvageria. O estágio mais crítico pelo qual passará a Comunidade Muçulmana]. O tratado está traduzido ao inglês, 296 pp., datado de 2006.

[3] Orig. vexing and exhausting. Sobre a expressão, ver A grande estratégia da al-Qaeda [em inglês] postado do dia 31/3/2005.
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[*] Alastair Crooke, às vezes erroneamente referido como Alistair Crooke, (nascido em 1950) é um diplomata britânico, fundador e diretor do Conflicts Forum, uma organização que defende o engajamento entre o Islã político e o Ocidente. Anteriormente, foi figura proeminente, tanto da Inteligência Britânica (MI6) como da diplomacia da União Europeia como conselheiro para assuntos do Oriente Médio de Javier Solana (1997-2003), no cargo de High Representative for Common Foreign and Security Policy da União Europeia. Foi ácido crítico da violência e saques militares contra os territórios palestinos e movimentos islâmicos de 2000-2003. Esteve envolvido nos esforços diplomáticos no Cerco da Igreja da Natividade, em Belém. Foi membro do Comitê Mitchell sobre as causas da Segunda Intifada, em 2000. Manteve encontros clandestinos com a liderança do Hamas em junho de 2002. É defensor ativo do engajamento do Hamas no processo de paz na Palestina, a quem ele se referiu como “Combatentes da Resistência".
Crooke estudou na University of St Andrews (1968–1972) do qual ele obteve um mestrado em Política e Economia. Seu livro Resistance: The Essence of the Islamist Revolution fornece informações sobre o que ele chama de “revolução islâmica” no Oriente Médio, ajudando a oferecer insights estratégicos sobre as origens e a lógica de grupos islâmicos que adotaram resistência militar como uma tática, incluindo Hamas e Hezbollah. Seguindo a essência da Revolução islâmica desde as suas origens no Egito, através de Najaf, Líbano, Irã e da Revolução Iraniana até os dias de hoje, desbloqueando algumas das questões mais espinhosas que cercam estabilidade na atual paisagem do Oriente Médio.