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segunda-feira, 7 de julho de 2014

Primeira aparição pública e sermão de Abu Bakr al-Baghdadi como Califa (ISIL/ISIS/DAASH)


Data escolhida a dedo: dia de Ramadã e de 4 de  Julho!

5/7/2014, TwitLonger de François Gatete (Traduzido para o inglês)
Traduzido da transcrição pelo pessoal da Vila Vudu


“Em nome de Alá, o Mais Misericordioso, o Especialmente Misericordioso. Misericordioso, al-Furqan [1] apresenta sermão e pregação coletiva na grande mesquita na cidade de Mosul, no 6º [dia do mês] de Ramadã, [ano de] 1.435 [da Hégira]”.

....

Baghdadi: “Que a paz e as bênçãos de Alá desçam sobre vocês” [O cantor recita a oração; Baghdadi usa um siwak (instrumento para limpar os dentes)].

Abertura do sermão [Khutbah, inna alhamdullilahi (...)], com os trechos do Corão associados. Fim da abertura, “Oh vocês que creram, foi-lhes ordenado que jejuassem e foi-lhes ordenado antes disso que todos se tornassem dignos”.

Alá, o Altíssimo, disse “O mês do Ramadã [é o mês no qual] foi revelado o Corão, guia para o povo e provas claras de orientação e critério. Por isso, todos que vejam surgir o [a lua nova do] mês, que jejuem”.

Oh, muçulmanos! Quem cresceu até ver o Ramadã recebeu grande bênção. E grande missão que lhe deu Alá, o Altíssimo.

É mês cujo começo é doação. Cujo meio é perdão. Cujo fim é proteger-se contra o fogo do inferno. Um mês no qual, se o crente jejua com convicção e espera perdão, ele será perdoado. Com a autoridade que é sua, Abu Hurayrah, que Alá esteja satisfeito com ele, o mensageiro de Alá, que Sua paz e Suas bênçãos desçam sobre ele, disse: “A quem jejua o Ramadã com convicção e esperança de ser perdoado, seus pecados lhe são perdoados. E a quem guarda o Ramadã com esperança e convicção do perdão, seus pecados lhe são perdoados”.

Um mês que traz a abertura das portas do paraíso eterno e fecha as portas do fogo do inferno. E encarcera os demônios. Um mês portanto que é uma noite que vale mais que mil noites. Quem não o tenha deixado descer sobre si, tornou impossível que todo o bem [khair] desça sobre si.

(Corão) “A Noite do Decreto é melhor que mil meses. Os anjos e o Espírito descem portanto por permissão de Seu Senhor para todos os casos. É a Paz que fará raiar o dia”.  

Um mês em que há divórcio: divórcio e separação do fogo do inferno. E é verdade para cada uma e todas as noites desse mês. Um mês que se põe como obstáculo na perseguição contra a jihad. [2] E o mensageiro de Alá – que a paz e todas as bênçãos desçam sobre ele –, disse [Segue a narrativa profética sobre a jihad].

Assim sendo, colham as vantagens desse mês santo, Oh, cultuadores de Alá! Lutem, portanto, Oh, muçulmanos! Alá, o Abençoado e Altíssimo criou-nos para amá-Lo e só Ele no monoteísmo, e para estabelecê-Lo em Seu modo completo de viver [o Islã]. Ele, o Altíssimo, disse:

(Corão) “Não criei o jinn [3] e a humanidade senão para que Me cultuem”. E Alá ama que matemos os inimigos de Alá e que façamos jihad em Seu nome.

Ele, o Altíssimo, disse:

(Corão 2:216) “A guerra foi imposta a vocês, embora vocês odeiem a guerra”.

E Ele, o Altíssimo, disse:

(Corão, Surat Al-‘Anfal [verso 39]) “E lhes deem combate até que não haja fitnah [ateísmo e politeísmo], e até que toda a religião, toda, seja de Alá. E, se pararem, mesmo ainda assim, Alá Vê o que fazem”.

Oh, povo na religião de Alá, sejam justos Nele, levantem-se por Ele e afirmem a verdade d’Ele, e não se dispersem e não se afastem do que Alá nos deu. E mantenham-se firmes com a Xaria de Alá, e a referência a ela, e apliquem e aceitem o hudud (castigos islâmicos).

(Corão) “Nós já mandamos Nossos mensageiros com provas claras e mandamos com eles a Escritura e o equilíbrio [para que] o povo possa manter [seus negócios] em justiça. E mandamos o ferro, pelo seu grande poder militar e benefícios para o povo [de tal modo que] Alá possa tornar visíveis os que O apoiam e os Seus mensageiros invisíveis. Em verdade a verdade vos digo, que Alá é Potente e Elevado em Força”.

E essa é a aplicação da religião de Alá. E esse é o Livro que dá orientação, e a espada que garante rápidas vitórias [refere-se ao Surat al-Fath (49 Sura do Corão, “A vitória”, “A Conquista”)].

E aos seus irmãos, os mujahidin (pl. de mujahid [4]) (“combatente(s) na jihad”), Alá, o Abençoado, o Altíssimo, deu-lhes vitórias e conquistas que vieram depois de muitos anos de privações e paciência. E mantiveram-se firmes contra os inimigos de Alá, e Ele os tornou poderosos na terra, até a declaração do Califado e a escolha de um Imã. E esse é assunto obrigatório para todos os muçulmanos. É Waajib! [5] E tem de ser aplicado inteiramente a toda a terra. Mas a maioria do povo é ignorante.

(Elogio aos que restabeleceram o Califado): E eles restabeleceram o Califado, e glória e graças a Alá! E vocês desperdiçarão essa bênção imensa, se recusarem a missão, a tarefa pesada, se derem as costas a ela, nesse caso estarão rejeitando a bênção que cairia sobre vocês. Eu fui submetido a uma prova por Alá, na minha eleição ao Califado. É carga imensa. Não sou melhor que vocês. Aconselhem-me quando erro e sigam-me se acertar. E me socorram contra os tawagheet [6].

E lhes trago a boa nova do que Alá prometeu aos crentes que O venerem:

(Corão) “Alá prometeu aos que, dentre vós, creem e praticam boas ações, que Ele lhes garantirá a sucessão no poder sobre a terra, assim como Ele garantiu o poder àqueles de antes dele, e Ele com certeza implantará para eles a religião que Ele preferiu para eles e que Ele substituirá: depois do medo, a segurança,  para que ME cultuem, nada associando a MIM. Mas quem não creia nisso – esses são os desafiantemente desobedientes”.

A Sua promessa:

(Corão) “Não enfraqueçam e não lamentem, e vocês prevalecerão, se creem verdadeiramente” (mais ayat corânicos sobre vitórias).

E Ele disse: (Corão) “Toda a Honra pertence a Alá e ao Seu Mensageiro, e aos crentes, mas os hipócritas não sabem”.

Essas são as promessas de Alá. E se as promessas de Alá alegram vocês, temam-No e vivam retamente em boa consciência [orig. taqwa [7]].

Temam Alá em todas as bênçãos e em todas as situações. E disseminem a verdade. E sejam firmes, pela verdade. E a disseminem para todos os que vocês amam e todos que vocês odeiam.

Se a promessa de Alá lhes agrada, então dediquem-se a ela com fervor de jihad! E conclamem os crentes para que façam o mesmo. E tenham paciência nesses tempos de dúvida. Se vocês soubessem o que há na jihad, desde a recompensa [ajr], as bênçãos generosas [karama], a ascensão na vida, a honraria, nessa vida e na outra, nenhum de vocês jamais se desviaria do caminho da jihad!

(Corão) “Creiam em Alá e Seu Mensageiro e lute pela causa de Alá com suas riquezas e a própria vida.” É o melhor para vocês, e vocês sabem ou deveriam saber que é. Alá perdoará vocês e os acolherá em jardins onde riachos correm, onde poderão viver para sempre. Nenhum feito ou realização da vida assemelha-se a chegar lá.

E isso que vocês amam, a vitória vinda de Alá e a conquista, estão próximas!

(Fim do sermão [Khutbah]. Daí até o final, o xeique recita o Corão).



Notas dos tradutores

[1] O critério.
[2] Sobre o conceito islâmico de Jihad (“empenho”, “dedicação” em busca da perfeição).
[3] jinn”.
[4] Mujahidin”.
[5] “Waajib”: obrigação máxima, absoluta, para o muçulmano: “Wajib (o mesmo que fiqh): obrigação que o muçulmano tem de cumprir, tão obrigatória como as cindo orações diárias”.
[6] Tawagheet. Entendemos que significa os que creem e seguem comandos que não lhes sejam dados por Alá. Todas as correções e comentários são bem-vindos. 
[7] Taqwa”. 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

O filme da hora é “Maranhão 66”, de Glauber Rocha

Maranhão 66Wikipédia (introdução)

Enviado pelo pessoal da Vila Vudu

Glauber Rocha
A pedido do então governador eleito e seu amigo José Sarney (então com 35 anos), Glauber Rocha produziu um documentário sobre a cerimônia da posse do político em ascensão da UDN/ARENA em 1966, dois anos depois do golpe militar de 1964.

José Sarney
por Alex Leal
A posse de Sarney, em 1966, marcava o início da domínio político de sua família no Maranhão, interrompido somente em 1º de janeiro de 2007, com a posse de Jackson Lago no Palácio dos Leões.

Durante o discurso de posse de Sarney e a celebração da multidão com o novo governo, o documentário expõe a miséria da população maranhense. Enquanto Sarney, em um exercício retórico, se comprometia solenemente a acabar com as mazelas do estado, o filme mostrava as mazelas: casas miseráveis, hospitais infectos, vítimas da fome ou da tuberculose.

O filme – feito há 48 anos – pode ser visto a seguir:


Comentário do Zeca-Beiçudo da Vila Vudu: Mas nenhum apressadinho tosco e burro conclua, disso, que “nada mudou”. Muita coisa mudou! O Brasil já não tem Glauber Rocha, nem Glauber deixou “escola” ou “herdeiros” – porque depois de acabar com o próprio Glauber, os MILICANALHAS golpistas de 64 acabaram com a universidade brasileira, com a imprensa brasileira e com o cinema brasileiro: tudo se Globolizou e virou neoliberal conservador (quando não virou fascista mesmo).

E Sarney virou o nome da “redemocratização dos anos 80”! E os PETISTAS acreditaram!

Ah! Sarney NUNCA FOI governador biônico (nomeado pela ditadura, como Paulo Maluf, dentre outros): SEMPRE FOI ELEITO.

Viva a democracia Globolizada!


sábado, 11 de fevereiro de 2012

A internet é o melhor lugar para começar uma dissidência


3/1/2012, Cory Doctorow, Guardian, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Facebook graffiti near Tahrir Square
Grafiti próximo à Praça Tahrir, no Cairo, Egito. Ethan Zuckerman crê que as revoluções 
são iniciadas por pessoas comuns que usam a tecnologia diariamente. 
Foto de Steve Crisp/Reuters

Entreouvido na Vila Vudu - O que aí se lê, talvez explique por que o Twitter no Brasil é tão INFINITAMENTE chato (e o Facebook, esse, então, é totalmente INSUPORTÁVEL), se se segue, como nós seguimos, só gente de esquerda (ou pressuposta de esquerda). Porque o problema da esquerda no Brasil-2012 não é construir alguma “dissidência”. 

O problema da esquerda no Brasil-2012 é exatamente o contrário disso: aqui se trata de construir convergências e abrir espaços para que o nosso governo Lula-Dilma possa começar a mexer-se, sob o cerco incansável da velha direitona udenista golpista que, aqui, está organizada na mídia-empresa e na universidade há mais de 50 anos, e jamais esteve fora do Executivo há mais de 500 anos. 

Essas empresas “de internet” – que não nasceram do nada e são fruto de um determinado momento dos desenvolvimentos do capital no planeta – talvez só sejam eficientes para construir dissidências, movimento que, evidentemente, sempre interessa muito mais ao capital que ao trabalho e à resistência, onde absolutamente ninguém precisa de dissidências e a sobrevivência de todos sempre dependeu e depende de união, solidariedades, confluências, convergências, alianças e pactos. 

Afinal, como se comprova todos os dias, basta uma futriquinha de 141 caracteres da Eliane Cantanhêde, para semear confusão suficiente para MUITAS dissidências, sobretudo entre os petistas, que, historicamente, têm cabeça (política) muito fraca. 

Mas para construir e preservar uniões, solidariedades, confluências, convergências, alianças e pactos, é preciso MUITO mais que 141 caracteres e talvez seja crucialmente indispensável poder (e saber) construir mais argumentação a favor e menos frasezinhas “do contra” – metidas a “críticas”, ou metidas a “éticas”, ou metidas a “boazinhas” em geral, todas, sempre, intragavelmente liberais. 

Seja como for, a coisa não é tão simples como fazer oposição a “regimes repressivos” classificados por parâmetros dos jornais do Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão) ou do New York Times/Pentágono/complexo industrial-militar/Israel e outros agentes do acanalhamento da luta dos pobres, no mundo. 

No Brasil-2012, trata-se de fazer oposição aos aparelhos ideológicos que operam em estado democrático de direito, numa democracia representativa e legal, na qual, contudo, a mídia é partidarizada e elege; e onde, quando a mídia partidarizada não elege, ela é capaz de passar (só até agora) quase dez anos trabalhando, todos os dias, para derrubar governos eleitos que não sejam os governos que a mídia – e uma camada intelectual espantosa e persistentemente conservadora e reacionária – prefeririam ver eleitos.
Marxistas que tenham lido alguns parágrafos de Marx, que seja, em versão para a 5ª. série do fundamental, que seja, logo perceberão que o articulista abaixo JAMAIS ouviu falar de Marx. Não sabe das artimanhas da ideologia. Vive da firme ilusão de que seria possível democratizar os mervais-pereiras. Assim como imagina que as revoluções árabes tenham surgidas do nada, sem passado, e que teriam sido construídas, do zero, pelo Twitter. 

O artigo abaixo é de uma indigência, no plano da interpretação política do mundo, que dá dó. Mas, com esse nada, em matéria de compreensão política do mundo, o tal de Zuckerman já arranjou um baita empregão no MIT, púlpito para conferências e a admiração incondicional de Doctorow e da editoria de tecnologias do Guardian!

O que não seríamos capazes de fazer, da e com a Internet, então, nós, que lemos Marx e (pelo menos alguns petistas, esperemos) sabemos das arapucas da ideologia, da democracia representativa sob reinado de Wall Street, da mídia partidarizada e ativa, empenhada em atuar como agente de propaganda política?! (Sim, mas, se sabemos... por que só fazemos repetir, pelo Twitter, a pauta dos jornalões do Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão?!))   

Seja como for, a ideia marxiana de fundo coincide com o que aí se lê: “É 2012 e a luta continua. Vamos trabalhar.” Só a luta ensina.


Cory Doctorow
Há um ano, resenhei o livro The Net Delusion [A Net como ilusão], de Evgeny Morozov, análise cética do papel da internet nas lutas globais por justiça.

A ideia central da crítica de Morozov é o fato inegável de que Facebook, Twitter, YouTube e outras ferramentas de mídia social são monumentalmente inadequadas para usar em cenários revolucionários hostis, porque a repressão sempre será informada sobre locais de reunião, manifestações programadas e as causas dos protestos e manifestações; essas ferramentas expõem os usuários à violência de governos repressivos.

Mais ainda, revelam os laços sociais entre os dissidentes, facilitando a tarefa das polícias secretas, que podem cercar os movimentos sem precisar recorrer a recursos tediosos de gravações clandestinas e vigilância física, para saber quem prender.

Naquela resenha, argumentei que os riscos detectados nessas ferramentas não eram inerentes a elas. Nada impedia que se criasse uma ferramenta do tipo Facebook, que ajudou a galvanizar e organizar a resistência na Tunísia, sem expor os usuários ao risco de serem presos e torturados (para os principiantes: bastaria abolir a exigência de “nome verdadeiro” do Facebook, e permitir que os usuários usassem pseudônimos).

Mas no contexto no qual nasceu Facebook – uma brincadeira que começou em Harvard e que se tornou poderosa máquina global de publicidade – não havia razão alguma para que alguém envolvido no design do sistema pensasse em torná-lo invulnerável a ataques de ditadores e seus apparatchiks.

Agora, que essa necessidade afinal apareceu, as pessoas que se preocupam com a dor dos que sofrem sob regimes opressivos podem trabalhar com os desenvolvedores de ferramentas que ajudem os usuários, sem os expor à repressão.

E, de fato, no ano passado, viu-se enorme quantidade de energia mobilizada nessa tarefa, que resultou no desenvolvimento de plataformas de “vazamentos” como Wikileaks; de ferramentas que possibilitam o anonimato como Tor; e aumentou muito o número de usuários desses recursos.

Ethan Zuckerman
Até aí, tudo bem. Mas ontem assisti à conferência de Ethan Zuckerman, 2011 Vancouver Human Rights, intitulada “Cute Cats and The Arab Spring” [Gatinhos Lindinhos e a Primavera Árabe], e percebi que Morozov e eu erramos, ambos. Zuckerman é diretor do Centro para Mídias Sociais do MIT [orig. MIT's Centre for Civic Media] e fundador do Geekcorps, uma ONG que manda técnicos para o mundo em desenvolvimento para trabalhar em iniciativas tecnológicas sustentáveis surgidas localmente [1].

Zuckerman sabe muito sobre a dura realidade do dia a dia do lugar da internet na luta pela liberdade de expressão e justiça, em alguns dos contextos mais brutais e nos regimes mais repressivos do mundo.

Vale a pena ouvir toda a conferência, mas interessei-me especialmente pela “Teoria dos Gatinhos Lindinhos” de Zuckerman, sobre a revolução internética.

O argumento de Zuckerman é o seguinte: embora YouTube, Twitter, Facebook (e outros serviços sociais populares) não sejam eficazes para proteger dissidentes, ainda assim são o melhor lugar do mundo para iniciar dissidências, por várias razões.

Primeiro, porque se o YouTube cai, numa internet nacional, todos percebem, não só os dissidentes. Mas se um governo repressivo censura uma página que expõe a brutalidade oficial, só os que conheçam a página saberão do ato de censura.

E quando o YouTube é censurado, todos os que adoram ver gatinhos lindinhos descobrem que sua página preferida está fora do ar; começam a perguntam por quê, e assim acabam descobrindo que há vídeos que comprovam a brutalidade oficial, e que o governo censurou o YouTube para impedir que as pessoas vissem a brutalidade oficial.

Segundo, a ferramenta mais amplamente utilizada por governos opressivos contra páginas de dissidentes é o DDoS,distributed denial of service [negação distribuída de serviço], quando se mandam enormes ondas de tráfego das redes de milhares de PCs alinhados, que provocam sobrecarga no servidor alvo e derrubam a internet.

Serviços como Twitter, Facebook e YouTube sobrevivem muito melhor a esses ataques, que uma página doméstica de dissidentes.

Finalmente, Zuckerman argumenta que a lição da Primavera Árabe é que revoluções são iniciadas por pessoas comuns, oprimidas por sofrimentos da vida diária – prisões arbitrárias, corrupção e brutalidade policial – e essas pessoas usarão a ferramentas que conheçam, para se manifestar.

A primeira ideia que lhe passa pela cabeça, depois de você capturar um vídeo para telefone celular que mostre a polícia assassinando alguém não é “Vamos ver se há alguma ferramenta construída para ativistas, que eu possa usar para passar adiante esse clip”. A ideia que ocorre é “Melhor subir isso no Facebook/YouTube/Twitter, para que todos vejam”. 

Esse último argumento é, para mim, o mais convincente. Embora ferramentas para ativistas sejam vitais para manter uma luta, elas jamais serão o primeiro recurso do sistema, quando acontecem os desastres.

O que implica que o único modo para garantir a segurança de ativistas, dissidentes e de todos que lutam contra a opressão, é, seja lá como for, convencer as pessoas que criam as ferramentas sociais mais populares a fortalecê-las para que suportem os confrontos das lutas reais.

Para começar, essa tarefa é dificílima. Mas é tornada ainda mais difícil ante as exigências dos governos “liberais” na Europa, Canadá, EUA e outras “nações livres”, que querem garantir que seus governos possam espionar os próprios cidadãos que apareçam nas mídias sociais.

Acrescente-se a isso a insanidade de leis como, nos EUA, a Lei Antipirataria [orig. Stop Online Piracy Act (SOPA)], que exige dos serviços que espionem os usuários e deletem links com conteúdo não permitido, e o problema torna-se ainda mais difícil.

Não é quadro estimulante. Mas, pelo menos, nos oferece um mapa do caminho.

Primeiro, temos de convencer nossos próprios governos de que, quando mandam espionar atrás das portas e apagar links das mídias sociais, garantem as mesmas capacidades também aos ditadores.

Segundo, é preciso fazer a conexão entre a aplicação das leis de copyright e a correspondente fiscalização e as lutas globais contra a injustiça, explicando sempre, tantas vezes quantas sejam necessárias, que é impossível ter um sistema que impeça a espionagem por polícias secretas, e permita a espionagem pelas majors das comunicações e mídia.

Finalmente, temos de convencer os empresários de que é do interesse deles promover as mudanças de arquitetura de sistemas que protejam seus usuários de prisões arbitrárias, tortura e assassinato, quando fizerem a transição não planejada, das páginas de gatinhos lindinhos para as páginas de denúncias de atrocidades.

Mas é 2012, e há anos pela frente. Vamos trabalhar.




Nota dos tradutores
[1] Para avaliar o que Zuckerman sabe do mundo, ouçam sua conferência (em inglês) onde fala até de “Cala boca, Galvão”. A ignorância dos norte-americanos sobre o mundo e a ilusão em que vivem, de que sempre conseguirão aprender rápida e facilmente o que não sabem, é REALMENTE IMPRESSIONANTE.