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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Exército britânico cria força especial de combatentes de Facebook

2/2/2015, [*] As’ad AbuKhalil − The Angry Arab News Service
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


“O exército britânico está criando uma força especial de combatentes de Facebook, com treinamento para operações psicológicas e uso das mídias sociais para combater em fronts não convencionais da era da informação”.

“Além dos britânicos, também os exércitos de Israel e dos EUA investem pesadamente em treinamento para operações psicológicas. Em contexto de combates ininterruptos, 24 horas de noticiário, smartphones e mídias sociais como Facebook e Twitter, a força armada já se prepara para controlar também completamente a narrativa”.

[*] As'ad AbuKhalil (em árabe: أسعد أبو خليل) (nascido em 16/3/1960) libanês−americano é professor de Ciência Política formado pela California State University, Stanislaus. É o autor doHistorical Dictionary of Lebanon (1998), Bin Laden, Islam & America's New "War on Terrorism" (2002) e The Battle for Saudi Arabia (2004). Atualmente anima o blog, The Angry Arab News Service. Abukhalil nasceu em Tiro,no Líbano, e cresceu em Beirute. Recebeu seu bacharelado e mestrado em Ciência Política na American University de Beirute, e Ph.D. em Governo Comparativo na Georgetown University. Abukhalil é atualmente professor na California State Stanislaus. Foi, por curto período, professor visitante na UC Berkeley. Além disso, ele ensinou na Tufts University, Georgetown University, George Washington University, Colorado College, California State University Stanislaus, e Randolph-Macon Woman’s College.Descreve-se como “um ex-marxista-leninista” e “ateu secularista”. É pró−Palestina, descreve-se como anti-sionista que apoia um Estado Palestino secular. É defensor do movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS). Critica o sionismo, a política externa dos EUA, do Irã, da Arábia Saudita e de ambos, Fatah e Hamas, nos TPO’s; e de todas as facções rivais no Líbano, incluindo o xiita Hezbollah. É altamente crítico da influência do lobby de Israel nos EUA. Em um debate televisionado que foi ao ar na TV Al-Jazeera em 23 de fevereiro de 2010 Abukhalil afirmou que o presidente dos EUA, Barack Obama, é cúmplice do lobby sionista, tanto em termos de Política Externa como de Política Interna. Abukhalil também afirmou que “Os sionistas querem nos amordaçar, de modo que não possamos fazer oposição às guerras, violência ou ódio a Israel”.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

IIIª Guerra Mundial será pré-guerreada por Twitter

19/2/2014, [*] Peter Lee, China Matters
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Twitter

Recomendo que os leitores que ainda não o tenham feito criem imediatamente uma conta de Twitter e sigam-me sem demora (@chinahand). Para meu grande embaraço e surpresa, descubro que já rabisquei mais de 800 tuítos desde que a coisa começou para mim, em novembro passado.

Muitos são bobagens efêmeras, é claro. Mas às vezes a tripa de mensagens inclui tuítos interessantes e bem sacados, que ilustram a dinâmica do debate sobre a política externa dos EUA enquanto evolui ao longo do mês, da semana, ou, às vezes, num só dia; e merecem ser repassados.

Eu, é claro, acrescento ali meus dois centavos de ideias, sempre na esperança de soar claro e interessante, sobre eventos que, muitas vezes, transformam-se depressa demais para ser assunto de um postado, mas, mesmo assim, são significativos.

Por exemplo, comecei a prestar mais atenção ao ir e vir entre os falcões norte-americanos pró-confronto China-Japão, de um lado; e os falcões (relativamente) moderados no governo Obama, de outro; e ao papel do governo Abe como observador, participante, vítima ou beneficiário, dependendo de como se encaminham os debates.

Um conjunto dos tuítos que li tratava da República Popular da China que se metera numa questão entre os EUA e o Japão que se recusa a devolver algumas poucas centenas de quilos de plutônio suficientemente enriquecido para ser usado em armas atômicas.

No nível mais simples, claro, a China quer semear dúvidas sobre o caráter genuinamente pacifista do Japão, que vai andando cautelosamente na direção de pleno status soberano como potência militar, mas, ao mesmo tempo, tenta não perder as vantagens de propaganda & marketing que lhe advêm dos 70 anos de vida sob Constituição dita “pacifista”, e quer continuar a marketar suas iniciativas de segurança regional como “pacifismo ativo”.

Em outro nível, a República Popular da China parece estar cutucando discretamente os EUA para que vivam de acordo com o que pregam em matéria de não proliferação, pregação que já rendeu um (muito prematuro e precipitado) Prêmio Nobel da Paz para o presidente Obama. Assim, quando a China firmemente levantou a questão, é possível que os EUA tenham decidido ceder uma jogada à República Popular da China, e falaram publicamente do assunto do plutônio.

Twitter na China

A fala, compreensivelmente, enfureceu o governo Abe, que sentia que esse seria assunto a ser tratado com máxima discrição entre aliados, não como oportunidade que os EUA desavergonhadamente colheram, para fazer gentilezas à China. Talvez coincidentemente, indivíduos e veículos pró-confronto China-Japão nos EUA vaiaram a questão plutônio e desviaram a atenção para a ameaça chinesa, mais velada.

Acho que há aí, também, mais uma questão.

O Japão, e, de fato, qualquer potência tecnicamente capaz, não precisa de plutônio enriquecido ao grau de produzir armas, para fazer uma bomba atômica. Enriquecimento ao nível só de combustível também funcionará muito bem, obrigado, se você estiver disposto a aceitar resultados de alcance/tamanho/radiação menos ótimos. Assim sendo, as poucas centenas de quilos de plutônio enriquecido não são, realmente, o problema.

Os problemas são:  

(a) as cerca de cinco toneladas de plutônio-metal que o Japão tem no país e as vinte e tantas toneladas que tem armazenadas em usinas de reprocessamento no Reino Unido e na França (uns sujeitos do Pentágono tomaram, bem ad hoc, a decisão de consolar o Japão pela normalização das relações com a República Popular da China, deixando que o Japão seja o único parceiro atômico dos EUA, além de Reino Unido e França, autorizado a “fechar o ciclo do combustível” – quer dizer: a recuperar o plutônio do combustível usado, para prevenir a eventualidade de uma seca de urânio que, como se pode perceber, não se materializou); e
(b) o programa de foguetes que o Japão, apesar da localização desfavorável no hemisfério norte (que torna lançamentos comerciais relativamente antieconômicos), gastou bilhões para desenvolver.

Para encurtar a história, apesar das manifestações vociferantes e, em alguns círculos, sinceras, do Japão, de que não tem interesse em armas nucleares, o Japão é, por nomeação, uma potência nuclear in ovo, e continuará a sê-lo, até que se evapore, seja lá como for, a ameaça militar, nuclear e convencional, chinesa.

Shinzo Abe
À guisa de lembrete, cito o primeiro-ministro do Japão:

É com certeza verdade que o Japão tem capacidade para ter armas atômicas, mas não as produziu.  

O primeiro-ministro Hata fez essa declaração ante o Parlamento japonês (a “Dieta”), em 1994. Conservem, por favor, no fundo da cabeça, a informação acima, para usá-la quando começarem as conversas sobre o quanto o Japão é estrategicamente desamparado. E é algo que a República Popular da China muito apreciará ver injetado nas discussões sobre o posicionamento do Japão nas questões da segurança.

Uma das mais interessantes especulações sobre o programa nuclear do Irã, é que o país, para o seu sapateado na direção de ultrapassar o limiar nuclear, teria copiado o exemplo do Japão.

E, com esses antecedentes, sempre penso que o motivo dos EUA para elevar Yukio Amano à presidência da Agência Internacional de Energia Atômica (depois que finalmente viram-se livres do irritantemente independente ElBaradei) bem pode ter sido que Amano, veterano do establishment nuclear japonês, sabe exatamente como foi jogado o jogo do armamento nuclear japonês, e jamais se inclinaria a facilitar a vida do Irã.

É quando sempre penso se sub rosa o toma-lá-dá-cá não terá sido algo como: a firmeza de Amano contra o dossiê iraniano foi recompensada com EUA fazerem-se de cegos – e azar dos demais premiados com o prêmio Nobel – à cuidadosa construção de capacidades nucleares no Japão – e às 30 toneladas de plutônio das quais o Japão tem a posse.

John Kerry
E, para meter o pé, de vez, em território de xadrez em 12 dimensões, desconfio que o governo Abe está em surto silencioso de pânico por causa do foco de John Kerry no Oriente Médio – onde a China, porque apoia o Irã e a Síria, tem papel muito mais significativo e importante a representar, que o Japão.

O medo seria de que a República Popular da China prometa – ou dê! – ajuda significativa no Oriente Médio e exija de Kerry, como retribuição, uma atitude mais conciliatória em relação à China.

Assim sendo, é possível que o incidente do plutônio seja, mesmo, um osso que Kerry jogou aos seus camaradinhas de Pequim – e uma fissura no acerto inicial segundo o qual os EUA não fariam barulho algum em torno da “nuclearização” do arsenal japonês.

Seja como for, apareceu uma onda de tuítos no Twitter, todos reclamando que Kerry estava focado demais no Oriente Médio e não andava devotando os devidos tempo e atenção à ameaça chinesa.

De fato, surpreenderam-me muito

(a) a quantidade de comentários devotados à ameaça chinesa (tática “de fatiar salame”, que é a fórmula usada para inspirar terror paralisante, sempre que se fala sobre os passos cautelosos e graduais, mediante os quais a China vai cuidando de melhorar sua posição no âmbito marinho); e
(b) a insistência em que a até aqui bem-sucedida tentativa dos chineses para impedir a militarização de todas essas questões (é estratégia chave da República Popular da China, dada a imensa superioridade militar dos EUA) deveria ser detonada, mediante política abertamente confrontacional.

Sinto-me firmemente confiante de que

(a) essa abordagem é piração; e
(b) Kerry & Biden sentem o mesmo que eu e, enquanto fazem a encenação de urrar e bater no peito contra a China, eles estão, sim, realmente mais interessados em reduzir as tensões, que em inflá-las.

Twitter no Japão

O problema é que não há eleitorado, em Washington, interessado em redução de tensões. As forças dos falcões pró-confronto China-Japão, por sua vez, têm vastíssimo poder político, financeiro e “de segurança” para atrair para suas recomendações e política um governo de “contenção”, o que lhes ampliará as forças. O crescente entusiasmo por algo chamado “dinâmica de contenção” – impulso que se aproxima perigosamente da confrontação – cria um ambiente de escalada (a China, claro, também subirá o tom da sua contenção, em reação) que vai ganhando ares de farsa da profecia que se autocumpre, mascarada como se fosse doutrina de segurança.

E isso empurra as fricções EUA-China para mais perto da área militar, na qual os estrategistas dos EUA mais se sentem confortáveis.

Para garantir, entra no circuito também a demonização de uma palavra, mais demonizada a cada vez que aparece: “apaziguamento”. A facção dos que se autodeclaram “apaziguadores” é, como se poderia prever, bem pequena.

O jogo na Ásia continua a ser econômico, e sinto/espero que o governo Obama entende/pensa que pode deixar que o complexo militar/industrial/de-segurança/vigilância embarque e nesse trem da alegria da “ameaça chinesa”, enquanto o negócio dos negócios vai prosseguindo.

Mas se você quer aprender a derrotar a China, não deixe de estudar os seus tuítos.



[*] Peter Lee é jornalista norte americano de origem chinesa que escreve sobre assuntos dos países do sul e leste da Ásia e a intersecção de negócios entre essa região e os EUA. Além de articulista de várias publicações anima o blog China Matters.

domingo, 16 de junho de 2013

Indústria da publicidade “online”: Sócia e cúmplice do PRISM, da Segurança Nacional dos EUA

14/6/2013, Violet Blue, Zero Day
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na Vila Vudu: A Nêga Bu, nossa companheira de faxina, comprou uma calça colante roxo-fulgurante com lantejoulas, pela Internet. Agora, quando ela procura notícias sobre “Polícia do PSDB espanca manifestantes na Av. Paulista”, a primeira coisa que aparece no Google dela é... publicidade de lojas online que vendem calças com e sem lantejoulas! Todos os dias, toda hora, até em página de jornal do Hezbollah! “Malditos capitalistas! Eles espionam até as minhas lantejoulas! Tá provado: o capital nunca dorme” – concluiu nossa neguinha Bu, comunista.



Violet Blue
Um executivo da indústria da publicidade online, com 20 anos de experiência, diz que as estratégias de marketing da publicidade digital ensinam a recolher informações de usuários da internet para usá-los em publicidade dirigida. Isso, diz ele, explica por que o público norte-americano já aceita sem protestar o aparato de vigilância e os programas que recolhem dados de usuários da internet – especificamente o programa PRISM, da Agência de Segurança Nacional dos EUA.

O diretor de estratégias da Digital Net Agency, Skip Graham, acredita que a indústria da publicidade é cúmplice no processo de abrir caminho para que os norte-americanos aceitem programas como PRISM, uma vez que, há anos, a publicidade encarregou-se de “suavizar” o ponto de vista dos consumidores sobre questões de privacidade – “ensinando” o público a ser menos reservado na distribuição de informação pessoal online.

Essa semana, Graham escreveu à nossa rede ZDNet, por e-mail:

Skip Graham
O modo como a indústria da publicidade online opera parece não ter qualquer correlação com os esforços do governo dos EUA para espionar os cidadãos – mas... será que não há aí uma correlação forte? Quantos, dos dados que hoje estão sendo recolhidos pela Agência de Segurança Nacional dos EUA, não foram encontrados principalmente porque nós ensinamos aos consumidores que não haveria problema algum em recolhermos e armazenar aqueles dados, para nosso uso? Temo que, se alguém começar a pensar, descobrirá exatamente isso.

Domingo passado, depois que se divulgou o vídeo com a entrevista ao vivo de Edward Snowden, Graham escreveu, numa grande lista fechada da indústria de publicidade online, denunciando sua própria indústria como cúmplice do escândalo na espionagem da Agência de Segurança Nacional dos EUA, porque essa indústria “adestrou” os consumidores, ensinando-os a considerar segura, possível, inevitável, até benéfica e interessante, a coleta de dados pessoais sigilosos, por empresas privadas.

Não é segredo que a indústria da publicidade & marketing é mestre em técnicas de propaganda (e sabem que são). Graham responsabilizou diretamente seus pares da indústria da publicidade, declarando-os culpados do pior que poderia acontecer aos cidadãos norte-americanos e a todos os consumidores em todo o mundo:

Não acredito que a Agência de Segurança Nacional e o governo dos EUA se tenham posto tão descaradamente a fazer o que fazem, sem temer violar direitos constitucionais, literalmente por anos a fio, se, antes deles, as melhores cabeças do marketing não se tivessem encarregado de convencer os consumidores de que seria “natural” empresas privadas recolherem dados privados das pessoas, e que poderiam fazê-lo sem qualquer restrição.

Fomos os primeiros a dizer ao público consumidor que não havia por que se preocupar, que todos tivessem fé e confiassem cegamente. Nós esculpimos os argumentos, modelamos as opiniões, calamos os céticos.

Endereço grátis de e-mail – em troca de publicidade dirigida

A indústria da publicidade, Graham insiste, ao mesmo tempo ampliou os limites da aceitação pelo público consumidor; e engordou os arquivos de dados de consumidores fornecidos pelas empresas à Agência de Segurança Nacional.

Perguntado especificamente sobre como a admissibilidade da coleta de dados e informações privadas foi sendo “vendida” aos consumidores, tornando-os cada dia mais tolerantes, Graham explicou a evolução de uma bem-sucedida relação com os clientes, dependente de uma série de palavras-chaves, mediante as quais foi possível descobrir gostos, interesses e rejeições individuais dos clientes.

Daí, as coisas passaram ao nível seguinte, disse ele,

(...) com o advento do serviço de e-mails gratuitos da empresa Gmail. Quem solicitasse recebia um endereço gratuito, em troca de a empresa Google poder monitorar o conteúdo de sua correspondência, o que permitiu à empresa dirigir publicidade relevante para a interface de correio.

De início, a reação do público foi extremamente negativa, rejeitando a intrusão. Fui dos que apoiamos pessoalmente as atividades da empresa Google, e, isso, baseados numa simples premissa: é serviço gratuito, ninguém é obrigado a servir-se dele.

Além disso, entendi que o modelo de negócio da empresa Google visava a conseguir que os consumidores se sentissem confortáveis com o modo como a empresa usa os dados pessoais de cada um. Esse seria um forte incentivo para que a empresa se autorregulasse adequadamente. Mas a ideia de que “há alguém lendo seus e-mails” continuava a ser ideia absolutamente não americana.

Graham explicou que o desafio, então, passou a ser guiar os consumidores para que superassem quaisquer hesitações que restassem em relação à ideia de que empresas privadas, como a Google, estariam lendo as mensagens pessoais privadas de cada um. O consumidor tinha de sentir-se seguro, mesmo sob essas circunstâncias.

Para que as pessoas se sentissem confortáveis com essa ideia – disse ele – seria indispensável informar sobre como os dados, de fato, eram recolhidos e analisados.

Um novo exemplo da busca por meios pelos quais “selecionar” os dados de perfil dos usuários, usando palavras chaves – reforçando a ideia de que o usuário “consente” – é a nova implementação da #hashtag, pela empresa Facebook.

Publicidade como vigilância menos invasiva

Na 5ª-feira, Facebook anunciou que acrescentará a ferramenta #hashtag, a ser usada de modo semelhante ao que faz a empresa Twitter, como mecanismo para busca por palavras.

Matthew Linley
Mas o raciocínio que subjaz à nova ferramenta é bem mais complexo do que facilitar a conversação entre pessoas polidas. No artigo “Facebook Hashtags Have More To Do With Ad Targeting Than Twitter” [As hashtags de Facebook têm mais a ver com publicidade dirigida que as do Twitter], Matthew Linley, de Buzzfeed, explicou:

Na superfície, as hashtags ajudarão os usuários de Facebook a participar de”‘discussões públicas” (...). Mais importante que isso, as hashtags são instrumentos menos invasivos, para que os anunciantes sirvam-se da plataforma Facebook.

De fato: são meio menos invasivo; e ajudam muito a recolher dados dos usuários! No que isso tem a ver com o programa de coleta de dados PRISM, da Agência de Segurança Nacional – “interceptação legal” – de empresas como Google e Facebook, Graham disse à nossa rede ZDNet:

Acho também muito importante entender que tudo isso É violação dos direitos constitucionais de todos.

A única defesa que se sustenta, de que essas atividades da Agência de Segurança Nacional não sejam invasão ilegal de privacidade de todos os cidadãos dos EUA é que os “dados” assim coletados estão sendo armazenados, mas não estão sendo analisados e, portanto, nenhuma “privacidade” está sendo violada. Também é verdade que os dados estão sendo recolhidos mediante processo legal, aprovado por tribunais.

Mas o problema é que esses tribunais e todo o processo são secretos. Isso significa que tudo está sendo feito, de fato, à margem do processo democrático. Questão dessa importância deve ser discutida pelos cidadãos e regulada por lei, em processo judicial aberto, público. Como são feitas as coisas hoje, só burocratas decidem, usando ordens secretas do Executivo como única orientação. Isso tem de parar.

Steve Hall
No que Steve Hall (Adrants) descreveu como “momento crise de consciência”, Graham disse a colegas de todo o espectro da indústria da publicidade, que eles têm de repensar tudo:

Durante anos, como marketeiros da publicidade digital, criamos sistemas que reúnem quantidades astronômicas de dados pessoais, ao mesmo tempo em que dizíamos aos consumidores que eles nada tinham a temer do que nós fazíamos. Dissemos a eles que, apesar de, na essência, estarmos espionando tudo que eles faziam e tomando decisões calculadas para manipular as decisões dos consumidores baseados, nós, nas informações que reuníamos, sempre seria bom para eles e que eles continuavam a ter preservado seu anonimato e, portanto, a privacidade deles não estaria ameaçada.

E continuamos a repetir isso, embora qualquer mínimo esforço para analisar as coisas com perspectiva de futuro já bastasse para nos mostrar que a privacidade dos consumidores estava sendo, isso sim, mortalmente ameaçada.

Graham ainda acredita que sua indústria da publicidade fez da internet um lugar melhor para todos, mas fato é que o negócio de oferecer serviços de internet em troca de recolher informações pessoais dos usuários põe a indústria perigosamente muito próxima das práticas e atividades da Agência de Segurança Nacional dos EUA.

Graham disse à nossa rede ZDNet que:

Eu e muitos na nossa indústria acreditávamos que nosso processo de monitorar, preservando o anonimato, arquivar e revisar as atividades das pessoas exclusivamente por computadores havia produzido uma experiência em geral melhor para o consumidor e para a indústria. Ainda acredito nisso.

Mas, ao longo daquele processo, tivemos de repetidas vezes defender o que fazíamos, contra acusações de invasão de privacidade, por organizações e grupos de defesa dos direitos dos cidadãos.

Hoje, minha avaliação é que os nossos repetidos esforços para explicar como o processo de coleta e armazenamento de dados poderia ser feito sem violar a privacidade do consumidor levou a um efeito não desejado: criamos um ambiente no qual o consumidor foi várias vezes tranquilizado, por empresas privadas, fora do governo, de que a coleta de dados sobre ações e atividades pessoais poderia ser feita sem invasão indevida da privacidade.

Convencemos a opinião pública de que as pessoas estariam seguras, que bastaria a autorregulação, que nenhuma lei faria melhor. Hoje, a Agência de Segurança Nacional e o governo Obama estão usando precisamente o mesmo argumento.

Quando perguntei se a indústria da publicidade & marketing poderia corrigir o próprio curso, Graham mostrou-se otimista, mas não mudou o discurso:

Acho, primeiro, que a indústria terá de aceitar o fato de que teremos de fazer alguma forte distinção entre o que nós fazemos e o que o governo está tentando fazer.

É uma distinção que a maioria, no nosso espaço, não quererá fazer, porque não querem nem pensar em qualquer correlação entre esses dois campos. Passamos anos tentando fazer o consumidor aceitar que nos preocupávamos com ele, que não queríamos causar-lhe nenhum dano e que nossas atividades criariam um benefício.

A última coisa que alguém deseja é nos ver diretamente associados ao que, como muitos já vêm, pode ser a maior agressão, em toda a nossa geração, às nossas liberdades individuais.

Acho que é responsabilidade da indústria privada e das organizações que coletam dados sobre os indivíduos demarcar claramente uma diferença entre o que nós fazemos e o que o governo está fazendo. É o que estou fazendo aqui.

O lado obscuro da moderna tecnologia é uma “corrida armamentista” para ver quem coleta mais e melhores dados: os chamados registros de dados de “people finder”, a indústria de publicidade & marketing, os spammers, empresas privadas (como Google e Facebook) e o governo dos EUA, todos empenhados num mesmo frenesi para coletar a maior quantidade possível de dados pessoais e privados, da maior quantidade possível de pessoas – no limite da lei e, às vezes, bem além do que a lei permite fazer.

Até parece boa ideia dizer às pessoas que ninguém teria nada a reclamar de algo que lhe seja dado gratuitamente, e que qualquer consumidor pode simplesmente escolher não usar e-mail, Facebook, ou o buscador internet, se decidir não usá-los, se não quiser ter seus dados monitorados, armazenados, analisados e, potencialmente, usados contra ele mesmo ou contra outros, sem seu consentimento...

Mas a verdade é que esse argumento fica reduzido a zero, ante a realidade do dia a dia, por um lado; e, por outro, ante os tribunais secretos da Agência de Segurança Nacional.


Não há exemplo mais claro, para demonstrar que nem o mais esperto, o mais ilustrado, o mais bem informado dos consumidores tem sequer uma pálida ideia do que realmente está entregando, quando decide usar o que lhe seja oferecido por Apple, Skype, Facebook ou Google. E não faltam interessados em tirar a máxima vantagem de tudo que consigam arrancar de cada um de nós.  

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Santa ingenuidade! \o/ \o/ \o/


(I) Departamento de Estado dos EUA: declaração surpreendente?!

 17/8/2012, Departamento de Estado dos EUA
Sobre a condenação de Nabeel Rajab [1] 

“Sentencing of Nabeel Rajab”

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
O governo do Bahrain assumiu o compromisso de respeitar a liberdade de expressão e de reunião e esperamos que cumpra o compromisso. Estamos profundamente preocupados com a condenação, por uma corte bahraini, de Nabeel Rajab, a três anos de prisão, acusado de conduzir “reuniões ilegais”. Esperamos que o veredito e a sentença sejam reconsiderados em julgamento da apelação, sem demora. Contamos com que o governo do Bahrain considerará todas as opções existentes, para bem encaminhar a solução desse caso. Acreditamos que todos têm um direito fundamental de participar de atos pacíficos de protesto. Temos repetidamente solicitado ao governo do Bahrain que tome medidas para construir confiança dentro da sociedade bahraini e inicie diálogo significativo com a oposição política e a sociedade civil. Punições excessivas por expressão pacífica – nesse e noutros casos – não contribuirão para esses esforços e só servirão para dividir ainda mais a sociedade bahraini.. 



(II) Tudo isso, só porque a liberdade de expressão da empresa Twitter & Co. é sagrada!

22/8/2012, MK Bhadrakumar*, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


O press-release distribuído na 6ª-feira pelo Departamento de Estado em Washington [leia acima], sobre a “Condenação de Nabeel Rajab” foi uma surpresa. Dava a impressão de que os EUA estariam afinal rompendo seu silêncio monolítico, para condenar a horrenda folha corrida de crimes cometidos por seu mais íntimo aliado no Golfo Persa – o Bahrain.

Mas em todos os casos, sempre seria totalmente impossível que os EUA estivessem começando a pressionar a favor de “mudança de regime” no Bahrain, onde os EUA mantêm abrigada a sua 5ª Frota Naval.

Assim sendo, por que o tal press-release? Por que precisamente Rajab, quando há vastas quantidades de xiitas brutalmente assassinados por lutar a favor de reformas no Bahrain, sem que os EUA jamais tenham movido uma palha em sua defesa?

O xis da questão é a empresa Twitter.

Nabeel Rajab
O “crime” pelo qual Rajab foi acusado e condenado é ter distribuído mensagem pela Twitter, empresa norte-americana de microblogs, em que denunciava crimes do todo poderoso e autocrático primeiro-ministro do Bahrain apoiado pelos sauditas. Por ter escrito um twit, foi condenado a três anos de prisão, antes mesmo de seus advogados terem acesso a ele. E Rajab tem mais de 100 mil seguidores, que o acompanham pela página mantida pela empresa Twitter.

A questão é que várias empresas norte-americanas que mantêm redes e páginas de ativo contato social estão tendo papel cada dia mais ativo e crucial, como ferramentas de divulgação e propaganda das políticas dos EUA para o Oriente Médio. Portanto, a mensagem do Departamento de Estado ao Bahrain significa exclusivamente: “Não toquem na Internet”.

Na mesma linha, aliás, o Wall Street Journal já se encarregou de mandar bem claro recado também à Índia, [2] só porque os rapazes do Ministério de Assuntos Internos da Índia, ao que se sabe, pediram ajuda aos norte-americanos para rastrear gente que anda distribuindo informações falsas pelas redes sociais, que perturbam a harmonia e a paz da sociedade indiana.

Santa ingenuidade!


Notas dos tradutores
[1] Para saber quem é e vê-lo falando, ver na redecastorphoto transcrito e traduzido para o português: 8/5/2012, “Assange: 4º. Programa - entrevista com Nabeel Rajab e Alaa Abd El-Fattah”; “The World Tomorrow”, Russia Today, vídeo e entrevista em inglês.  
Ver também: 19/8/2012, redecastorphoto, “Julian Assange, agosto/2012 - Discurso da Embaixada do Equador, Londres” (Transcrito e traduzido para o português). 
[2] 22/8/2012, The Wall Street Journal, Margherita Stancati e Tom Wright em: “U.S. Calls on India to Respect Internet Freedom” [EUA conclamam a Índia a respeitar a liberdade da Internet].

MK Bhadrakumar* foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.