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domingo, 10 de novembro de 2013

A Invasão do Google e Yahoo pela NSA

Seu (nosso) e-mail provavelmente está sendo monitorado

5/11/2013, [*] Alfredo Lopez, Counterpunch
Traduzido por João Aroldo

Edward Snowden
Que semana! Pouco depois que o secretário de Estado John Kerry admitiu que talvez o governo tivesse ido “longe demais” em seus programas de vigilância, o Washington Post soltou outra bomba de Edward Snowden demonstrando que o governo está indo muito mais longe do que todos sabiam.

John Kerry
por Jason Seller 
Se a admissão Ersatz [1] de Kerry – redigida em uma defesa da vigilância da Agência de Segurança Nacional (NSA) – provocou um bocejo coletivo em muitos que seguem estes desenvolvimentos, essa última de Snowden nos chamou a atenção. O Washington Post publicou um artigo detalhando a interceptação pelo NSA de informação entrando e saindo de servidores do Google e Yahoo em linhas privadas e internas de fibra ótica. Apenas em dezembro de 2012, o programa (reveladoramente chamado “MUSCULAR”) processou 181.280.466 registros do Google e Yahoo que incluíam e-mail, buscas, vídeos e fotos.

Até agora, a NSA defendeu suas ações dizendo que está combatendo o terrorismo através da captura de dados em um espaço público, a Internet, após obter ordens judiciais. Isso mostra que eles estavam mentindo. MUSCULAR é roubo de quase 25% de todos os dados da Internet de duas das maiores empresas de processamento de dados sem ordens judiciais ou supervisão em completo desafio à lei e a nossos direitos. Isto é, simplesmente, gangsterismo de governo.

E isso traz à tona a questão mais importante: por quê? Porque não se trata de contraterrorismo, não com todos aqueles registros e sua captura sub-reptícia. Trata-se de vigilância e análise das comunicações diárias de um país inteiro e boa parte do mundo.

A tecnologia do MUSCULAR, um programa criado conjuntamente pela NSA e sua congênere britânica, não é difícil de explicar. Essencialmente, os tecnólogos nas agências de espionagem descobriram uma maneira de interceptar os dados sendo trocados entre servidores que armazenam tudo o que você faz no Google e Yahoo.     

Eis a diferença entre isso e os demais programas espiões revelados anteriormente. Seus dados viajam pela Internet para chegar até esses servidores e ser armazenados lá. Para os outros verem quais dados você salvou, eles devem sair, novamente, pela Internet. Isso são dados protegidos legalmente e o NSA (pelo menos, teoricamente) precisaria de uma ordem judicial para tirá-los dos servidores. A corte FISA (a fonte de bênção da NSA) quase sempre autoriza os pedidos da NSA, então é bem fácil conduzir esse tipo de extração de dados, mas pelo menos ainda existe um registro do quê a NSA está procurando e por que e alguma base para tomar ações legais contra isso.


Muscular não chega perto dos dados enquanto estão viajando pela Internet ou enquanto estão nesses servidores. Ao invés disso, ele intercepta dados (ilustração do WPost acima)que já estão armazenados e estão viajando por conexões não públicas entre os muito servidores das empresas enquanto as empresas sincronizam os dados armazenados ou os transferem internamente. Gigantes da Internet como Google transferem dados entre seus servidores constantemente em redes de servidores conhecidas como (você já ouviu isso) “nuvens”. Essa transferência constante ajuda a distribuir atividade dos servidores para que um pico de solicitações por dados em um servidor particular não o trave (chamado “gerenciamento de carga”) ou para manutenção, segurança e outros motivos. Para isso eles usam cabos de fibra ótica especiais que conectam vários servidores e não são disponíveis publicamente.

Os dados transferidos entre esses servidores é tipicamente codificado, então ninguém pode ter acesso sem as chaves decodificadoras. Isso é uma medida de segurança. De acordo com esses relatos, a NSA descobriu uma maneira de decodificar esses formatos, então ela captura os dados sendo transferidos quando entram nessas conexões e, então, sem que ninguém fora da NSA saiba, decodifica e analisa essas coisas para decidir o que, se for o caso, fazer com isso. Se eles decidirem armazená-los, eles têm vários centros de backup da NSA para salvá-los. Então eles deixam os dados seguirem seu caminho. Tudo isso acontece em microssegundos.

Isso é chamado tipicamente de “interceptação de intermediário” e é como ligar um cabo entre seu computador e um hard drive externo que você usa para backup — exceto que é multiplicado por centenas de milhões de vezes.

Eu sabia que o desenho da NSA era real pela carinha smiley, escreveu David Auerbach da Slate, referindo-se ao ícone smile da Internet usado no diagrama vazado e reproduzido acima . Só mesmo um engenheiro de software ansioso e míope — vendo a interceptação de dados do Google e Yahoo como um desafio e um jogo ao invés de uma questão de segurança e política — faria uma coisa tão alegre e satisfeita com a possibilidade de invadir os servidores internos do Google.  

Claro, isso não é um jogo. Isso é um método altamente sofisticado e intencionalmente intrusivo de coleta de dados: espionagem pernicionsa realizada constantemente em e-mails, fotos, vídeos e outros dados postados por pessoas nos EUA (e em muitos outros países).

Keith Alexander
O diretor da NSA, Keith Alexander, foi imediatamente enviado para dar suas desculpas previsíveis:

Isso seria ilegal para fazermos. Portanto, eu não sei qual é o relato, ele disse em uma conferência de de cibersegurança na semana passada. Mas eu posso dizer factualmente que nós não temos acesso aos servidores do Google e Yahoo. Nós precisamos de uma ordem judicial.

Alexander mostrou-se um mestre de evasão no passado, mas isso foi bizarro. Isso se trata de conectar cabos, e não acessar servidores.

Funcionários do Google e Yahoo tentaram pôr maquiagem em seus olhos roxos com declarações de ultraje, pedidos de “contenção”, e garantias de que eles não foram “avisados” da ação de vigilância em massa que eles nunca aprovariam. Mas o fato é que isso está acontecendo e suas garantias guiadas por RP aos usuários de que seus dados estão seguros não significam nada.

Que confusão! No período de duas semanas, o presidente Obama afirmou publicamente que ele não sabia da extensão da espionagem mas vai “examiná-la” agressivamente. O secretário Kerry admite que ela pode ter ido muito longe, mas é feita por uma boa causa. Alexander evitou comentários sobre a revelação real e o chefe do conselho de segurança nacional, James Clapper, parecia decidido a evitar completamente a questão ao divulgar uma de suas famosas declarações que não desmentem. De fato, os não desmentidos estavam pulando como bolas de pingue pongue num terremoto — se chocando umas nas outras loucamente. E isso ligado com o fluxo de ultraje retórico vindo de vários países já que as informações de Snowden deixaram claro que a vigilância é conduzida em tudo, desde as contas de e-mail de cidadãos espanhóis aos e-mails pessoais (e talvez telefones) da chanceler alemã Angela Merkel.

Obviamente, a coleta de dados dessa magnitude não é para capturar terroristas. Isso poderia ser certamente parte do resultado, mas não há como analisar mais de 183 milhões de partes de dados para identificar alguns malucos. Outra coisa está acontecendo.

Barton Gellman

(…) aparentemente eu não vejo nenhuma evidência de que eles estão desrespeitando a lei aqui. Eles fazendo de maneiras que as empresas e o público não esperavam.

Mas isso desafia a razão. Entrar nos sistemas internos de uma empresa para remover dados sem o conhecimento da empresa certamente parece ilegal. No mínimo, isso revela um cinismo perturbador da parte do governo sobre o espírito da lei e sobre o que as leis de privacidade dizem ao governo sobre como ele deve se relacionar com os cidadãos.

A questão, contudo, não é se isso é legal, mas o que a administração Obama está tentando fazer com a definição de legalidade. O histórico desta administração demonstra que ela está se preparando para tempos muito conturbados e essas preparações são obscenamente repressivas. Com uma economia que simplesmente não pode levar 25 milhões de desempregados de volta ao trabalho, a redução maciça dos direitos das pessoas, o corte dos benefícios sociais, uma sociedade marcada pela histeria frenética semanal de terrorismo interno, uma extrema direita insana e crescente e o Congresso que não tem apoio popular e não está governando ninguém, o surgimento de protestos e resistência em massa em cada canto da sociedade não é surpresa. Nem precisamos de muita visão para predizer que as coisas vão ficar ainda mais quentes.

Os poderosos políticos estão envolvidos num debate intenso sobre como governar essa sociedade enquanto o contrato social usado no passado não pode mais ser cumprido. O debate continua, mas está claro que todos estão falando sobre uma sociedade mais restritiva. A chave para tal restrição está na captura de dados. Não importa quão intensa e generalizada essa repressão seja, eles têm os dados que eles precisam para ter todas as opções possíveis, incluindo o esmagamento de movimentos de protesto. Nós confiamos que eles não vão usar os dados dessa maneira?

Em contribuições passadas para estas páginas, eu escrevi que, enquanto não estamos em um estado policial, o governo construiu uma capacidade de transformar o país com um botão de liga-desliga do sistema legal.

Esse é o significado das revelações do MUSCULAR. Quanto aos dados, tudo está no lugar.
__________________________

[*] Alfredo Lopez escreve atualmente sobre avanços tecnológicos no blog This Can’t Be Happening! . Alfredo Jose Miguel Lopez (nasceu em 1949) é um ativista, escritor, produtor de mídia, professor e organizador no Brooklyn, New York. Atualmente, ele é um ativista de Internet bem conhecido e Co-Diretor de May First/People Link, organização dos usuários da Internet. Lopez é autor de seis livros e milhares de artigos. Foi um dos líderes do Puerto Rican Socialist Party durante os anos 1970. É o principal organizador do Dia da Solidariedade com o Puerto Rico no Madison Square Garden, a maior demonstração de seu tipo na história, e do 1976 Counter-Bicentennial. Ele coordenou a delegação dos EUA na Conferência Internacional de Solidariedade em Porto Rico em 1975, a primeira conferência internacional sobre o assunto. Durante esse mesmo período, editou a edição em inglês do jornal PSP Claridad. Em anos mais recentes foi o arquiteto da campanha para impedir que os hospitais públicos NYC fossem privatizados, notadamente nos anos 1990. Tem participado da organização de dezenas de campanhas semelhantes ao longo de seus 40 anos de ativismo. É um dos fundadores da The Brooklyn New School como escola alternativa em Brooklyn. Recentemente, em 2007, foi um dos organizadores do grupo de tecnologia para o United States Social Forum.

 Nota do tradutor 
[1] Substituta, em alemão.

terça-feira, 2 de julho de 2013

De Bilderberg a Google-Berg: Reestruturação tecnocrática da elite global

2/7/2013, Olga CHETVERIKOVA, Strategic Culture [excertos]
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ver também:
16/3/2010, redecastorphoto, Matteo Pasquinelli: O algoritmo do PageRank do Google. Um diagrama do capitalismo cognitivo e da exploração da inteligência social geral  

 Olga Chetverikova
Os eventos em curso em todo o mundo mostram cada vez mais claramente que os mais importantes objetivos da elite mundial concentram-se em torno do projeto de uma total re-estruturação da consciência humana (...). De fato, esses objetivos são simultaneamente os fins e os meios de uma “nova ordem mundial”. A mais recente reunião do Grupo Bilderberg, realizada nos dias 6-9/6/2013 no Grove Hotel, num subúrbio de Londres, é especialmente eloquente quanto a isso...

Pela primeira vez, houve informação abundante sobre o local da reunião, agenda e lista de participantes, desde muito antes da data marcada, tanto nos grandes veículos comerciais de informação e noticiário quanto nas mídias alternativas. 

Por exemplo, o jornal The Telegraph escreveu sobre a reunião, em artigo intitulado Bilderberg Group? No conspiracy, just the most influential group in the world[port.:“Grupo Bilderberg? Não são conspiradores. São só o grupo mais influente do mundo”]. 

Min. da Fazenda George Osborne, UK (E) e a Chefe do FMI, Christine Lagarde (D)
Participantes do Grupo de Bilderberg
No jornal do dia seguinte, o mesmo Telegraph apresentava: Bilderberg Group 2013: guest list and agenda, [port.:“Grupo Bilderberg 2013: lista de convidados e agenda”], com as questões a serem discutidas na reunião. A lista dos temas a ser discutidos em 2013 é a seguinte:

  • Os EUA e a Europa podem crescer mais depressa e criar empregos?
  • Empregos, entitlement e dívida.
  • Como big data estão mudando praticamente tudo.
  • Nacionalismo e populismo.
  • Política externa dos EUA.
  • Desafios da África.
  • Ciberguerra e a proliferação de ameaças assimétricas.
  • Principais tendências na pesquisa médica.
  • Educação Online: promessa e impactos.
  • Política da União Europeia.
  • Desenvolvimentos no Oriente Médio.
  • Temas da atualidade.
Fonte interna deu informação ainda mais detalhada sobre a agenda ao site Infowars.com demarcando dois grandes blocos de questões que seriam discutidas.

No primeiro, os assuntos econômicos:

  • aumentar os poderes dos bancos centrais (o que ali se chama “reformas bancárias”); resgatar bancos para manter o suporte ao euro e preservar a eurozona;
  • criar sistemas mais efetivos de arrecadação de impostos; impedir que a Grã-Bretanha separe-se da União Europeia; disseminar protestos sociais induzidos por medidas de austeridade;
  • manter mínimo o crescimento econômico em 2013; e concentrar a riqueza das populações em mãos de empresas gigantes e dos super ricos.
No segundo bloco, reúnem-se questões militares, políticas e de controle psicossocial:

  • atacar instalações nucleares no Irã, se não suspender todos os programas nucleares no prazo de três anos;
  • armar a oposição, para manter e prolongar a guerra na Síria;
  • considerar o risco de pandemias planetárias;
  • controlar a produção de impressoras 3D;
  • controle estatal sobre a Internet, para gerar “ciber-resiliência;
  • controle sobre a disseminação de informação, mediante um “Ministério da Verdade” (antiga ideia sempre acalentada por Bill Clinton);
  • criar “cidades inteligentes” capazes de observar todos os aspectos da vida e do comportamento humano, para desenvolver tecnologias, métodos, técnicas e táticas de total supervisão das populações.
Para dar conta dessas tarefas, a esfera tecnocrática tem de ser rapidamente estruturada. Isso já está sendo feito, bem diante de nossos olhos. Como Paul Joseph Watson e Alex Jones, editores do site Infowars.com, observaram bem, o Grupo Bilderberg, como outras organizações-sombra, estão em período de importante transformação. No caso do Grupo Bilderberg, forjaram uma associação com a empresa Google; Eric Emerson Schmidt, presidente executivo da Google e presença regular nas reuniões do grupo, é o elemento de ligação.

Grove Hotel em Wattford, Londres
O local onde o Grupo Bilderberg reuniu-se esse ano, o Grove Hotel, em Londres, foi escolhido por uma razão: ali, desde o início de 2007, realizam-se as conferências Google conhecidas como Google Zeitgeist [O espírito Google do tempo]; nessas reuniões, analisam-se resultados de pesquisas feitas no universo de bilhões de usuários do sistema e estruturam-se resumos e resultados. Em 2013, a conferência Google aconteceu literalmente na véspera da reunião do Grupo Bilderberg, no mesmo local.

É o mesmo que dizer que o Grove Hotel britânico está convertido em uma espécie de “base doméstica” para o desenvolvimento da agenda da empresa Google, no campo da política tecnológica mundial. A empresa Google trabalha hoje como uma versão “mais íntimo-amigável” [orig.“cuddlier”] do Grupo de Bilderberg, como disse o jornal Independent, o qual, por sua vez, passa por total reestruturação tecnocrática.

O espírito Google do tempo

Cerca de 400 delegados reúnem-se anualmente nessas conferências Google, para discutir tópicos chaves na política e na cultura mundiais, e para desenvolver planos de ação que visam a prevenir e impedir os efeitos mais graves da reação contra a globalização. Dentre os presentes, há jornalistas, comentaristas e “especialistas” de jornais e televisão, além de celebridades consagradas e em ascensão. Esse ano, lá estiveram Jim O’Neill, de Goldman Sachs; Bill Clinton; e a cantora Annie Lennox. Os lucros da empresa cresceram, em 2012, 60% - 2,89 bilhões de dólares.


As conferências Google Zeitgeist são uma forma de governo mais efetiva que a tradicional. O Grupo Bilderberg tem péssima reputação, são vistos como conspiradores; mas a empresa Google pode controlar tudo abertamente, uma vez que é pressuposto, na sua simples definição como empresa prestadora de serviços de informação, que ela, ao mesmo tempo em que distribui informação, também recolha informação, sem as quais não pode(ria) prestar serviços... de informação! Em outras palavras: sob o disfarce de empresa democrática, até filantrópica, é organização totalitária, que jornalistas independentes já chamam de “Google-Berg” (“Bilderberg reformatado: um Google-Berg”).

Wael Ghonim
Google, como já se vê bem claramente, é modo altamente conveniente de mascarar a operação das agências de inteligência. Como os mesmos investigadores independentes já sabem, os primeiros arregimentadores do que se conhece como “Primavera Árabe”, que assumiu o formato de agitações de civis, foram recrutados pela empresa Google e participaram de Conferências Zeitgeist no hotel Grove. Há farta documentação, por exemplo, que comprova que o egípcio Wael Ghonim, que iniciou a “revolução” no Egito que levou à ditadura da Fraternidade Muçulmana [hoje ameaçada de golpe pelo exército egípcio (NTs)], era empregado da Google, gerente-geral de marketing para o Oriente Médio e Norte da África. Eric Schmidt declarou-se orgulhoso do que Ghonim fez; e repetiu que o uso de Facebook, Twitter e ferramentas de Internet para disparar protestos populares no Egito é bom exemplo de transparência. 
Google exerce influência cada vez maior sobre os governos dos EUA e da Grã-Bretanha. Não que seja trabalho muito difícil de fazer, dado que Eric Schmidt é membro do Conselho de Assessores do presidente Obama para questões de Ciência e Tecnologia; e preside a [Fundação] New America Foundation, sem finalidades de lucro e patrocinadora da campanha eleitoral de Barack Obama. Foi-lhe oferecido, até, o cargo de Secretário do Tesouro dos EUA.

Na Grã-Bretanha, representantes da empresa Google reuniram-se, desde as eleições gerais de 2010, só até agora, nada menos que 23 vezes com membros do Partido Conservador. David Cameron foi convidado-palestrante na Conferência Espírito Google do Tempo de 2006, quatro anos antes de tornar-se primeiro-ministro. (...)

As Conferências Google reúnem as cabeças que a empresa considera capazes de “modelar o futuro global”. E a própria empresa posiciona-se para acumular mais força que os governos, no monitoramento e controle do comportamento das pessoas – como parecem ter conseguido fazer no Egito e na Tunísia. A interferência da empresa Google em assuntos internos de países europeus já é tão ativa, que, recentemente, a Comissão Europeia iniciou uma investigação do que considera abuso, por aquela empresa, da posição de líder do mercado de serviços de informação.

O presidente da empresa Google jamais escondeu sua ambição de controlar a sociedade; falou disso inúmeras vezes, sempre enfatizando que a privacidade é relíquia do passado; e de seus planos para converter a empresa Google num “Grande Irmão” [orig. Big Brother] que faça o 1984 de George Orwell parecer conto de fadas.

Numa de suas palestras, Eric Schmidt disse  

Eric Schmidt
Já nem precisamos que você digite. Sabemos onde você está. Sabemos onde esteve antes. Sabemos mais ou menos o que você está pensando. Acho que, de fato, as pessoas não usam a Google para responder perguntas (...) Querem, isso sim, que a Google lhes diga o que estarão fazendo dentro de meia hora, quinze minutos (...) Sabemos tudo que vocês fazem e o governo não perde o rastro de ninguém. Com o tempo, saberemos marcar sua posição, com precisão de milímetros, ao longo do tempo. Seu carro se dirigirá sozinho. Não é verdade que os carros tenham sido inventados antes dos computadores… Você nunca fica sozinhos... Você nunca se entedia. (...)

O que se vê é que os métodos pelos quais a elite do dinheiro governa os governos está passando por mudanças: antes, as elites governavam clandestinamente; agora, governam à vista de todos. Nesse quadro, tudo muda: mudam as conferências, as reuniões de cúpula e até as negociações secretas. Foi o que se viu na mais recente reunião do Grupo de Bilderberg, a primeira que pode ser descrita como “anticonspirológica”: agenda divulgada, lista de autoridades presentes divulgada, tudo “público”, tudo, tudo muito “transparente”. (...)



domingo, 16 de junho de 2013

Indústria da publicidade “online”: Sócia e cúmplice do PRISM, da Segurança Nacional dos EUA

14/6/2013, Violet Blue, Zero Day
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na Vila Vudu: A Nêga Bu, nossa companheira de faxina, comprou uma calça colante roxo-fulgurante com lantejoulas, pela Internet. Agora, quando ela procura notícias sobre “Polícia do PSDB espanca manifestantes na Av. Paulista”, a primeira coisa que aparece no Google dela é... publicidade de lojas online que vendem calças com e sem lantejoulas! Todos os dias, toda hora, até em página de jornal do Hezbollah! “Malditos capitalistas! Eles espionam até as minhas lantejoulas! Tá provado: o capital nunca dorme” – concluiu nossa neguinha Bu, comunista.



Violet Blue
Um executivo da indústria da publicidade online, com 20 anos de experiência, diz que as estratégias de marketing da publicidade digital ensinam a recolher informações de usuários da internet para usá-los em publicidade dirigida. Isso, diz ele, explica por que o público norte-americano já aceita sem protestar o aparato de vigilância e os programas que recolhem dados de usuários da internet – especificamente o programa PRISM, da Agência de Segurança Nacional dos EUA.

O diretor de estratégias da Digital Net Agency, Skip Graham, acredita que a indústria da publicidade é cúmplice no processo de abrir caminho para que os norte-americanos aceitem programas como PRISM, uma vez que, há anos, a publicidade encarregou-se de “suavizar” o ponto de vista dos consumidores sobre questões de privacidade – “ensinando” o público a ser menos reservado na distribuição de informação pessoal online.

Essa semana, Graham escreveu à nossa rede ZDNet, por e-mail:

Skip Graham
O modo como a indústria da publicidade online opera parece não ter qualquer correlação com os esforços do governo dos EUA para espionar os cidadãos – mas... será que não há aí uma correlação forte? Quantos, dos dados que hoje estão sendo recolhidos pela Agência de Segurança Nacional dos EUA, não foram encontrados principalmente porque nós ensinamos aos consumidores que não haveria problema algum em recolhermos e armazenar aqueles dados, para nosso uso? Temo que, se alguém começar a pensar, descobrirá exatamente isso.

Domingo passado, depois que se divulgou o vídeo com a entrevista ao vivo de Edward Snowden, Graham escreveu, numa grande lista fechada da indústria de publicidade online, denunciando sua própria indústria como cúmplice do escândalo na espionagem da Agência de Segurança Nacional dos EUA, porque essa indústria “adestrou” os consumidores, ensinando-os a considerar segura, possível, inevitável, até benéfica e interessante, a coleta de dados pessoais sigilosos, por empresas privadas.

Não é segredo que a indústria da publicidade & marketing é mestre em técnicas de propaganda (e sabem que são). Graham responsabilizou diretamente seus pares da indústria da publicidade, declarando-os culpados do pior que poderia acontecer aos cidadãos norte-americanos e a todos os consumidores em todo o mundo:

Não acredito que a Agência de Segurança Nacional e o governo dos EUA se tenham posto tão descaradamente a fazer o que fazem, sem temer violar direitos constitucionais, literalmente por anos a fio, se, antes deles, as melhores cabeças do marketing não se tivessem encarregado de convencer os consumidores de que seria “natural” empresas privadas recolherem dados privados das pessoas, e que poderiam fazê-lo sem qualquer restrição.

Fomos os primeiros a dizer ao público consumidor que não havia por que se preocupar, que todos tivessem fé e confiassem cegamente. Nós esculpimos os argumentos, modelamos as opiniões, calamos os céticos.

Endereço grátis de e-mail – em troca de publicidade dirigida

A indústria da publicidade, Graham insiste, ao mesmo tempo ampliou os limites da aceitação pelo público consumidor; e engordou os arquivos de dados de consumidores fornecidos pelas empresas à Agência de Segurança Nacional.

Perguntado especificamente sobre como a admissibilidade da coleta de dados e informações privadas foi sendo “vendida” aos consumidores, tornando-os cada dia mais tolerantes, Graham explicou a evolução de uma bem-sucedida relação com os clientes, dependente de uma série de palavras-chaves, mediante as quais foi possível descobrir gostos, interesses e rejeições individuais dos clientes.

Daí, as coisas passaram ao nível seguinte, disse ele,

(...) com o advento do serviço de e-mails gratuitos da empresa Gmail. Quem solicitasse recebia um endereço gratuito, em troca de a empresa Google poder monitorar o conteúdo de sua correspondência, o que permitiu à empresa dirigir publicidade relevante para a interface de correio.

De início, a reação do público foi extremamente negativa, rejeitando a intrusão. Fui dos que apoiamos pessoalmente as atividades da empresa Google, e, isso, baseados numa simples premissa: é serviço gratuito, ninguém é obrigado a servir-se dele.

Além disso, entendi que o modelo de negócio da empresa Google visava a conseguir que os consumidores se sentissem confortáveis com o modo como a empresa usa os dados pessoais de cada um. Esse seria um forte incentivo para que a empresa se autorregulasse adequadamente. Mas a ideia de que “há alguém lendo seus e-mails” continuava a ser ideia absolutamente não americana.

Graham explicou que o desafio, então, passou a ser guiar os consumidores para que superassem quaisquer hesitações que restassem em relação à ideia de que empresas privadas, como a Google, estariam lendo as mensagens pessoais privadas de cada um. O consumidor tinha de sentir-se seguro, mesmo sob essas circunstâncias.

Para que as pessoas se sentissem confortáveis com essa ideia – disse ele – seria indispensável informar sobre como os dados, de fato, eram recolhidos e analisados.

Um novo exemplo da busca por meios pelos quais “selecionar” os dados de perfil dos usuários, usando palavras chaves – reforçando a ideia de que o usuário “consente” – é a nova implementação da #hashtag, pela empresa Facebook.

Publicidade como vigilância menos invasiva

Na 5ª-feira, Facebook anunciou que acrescentará a ferramenta #hashtag, a ser usada de modo semelhante ao que faz a empresa Twitter, como mecanismo para busca por palavras.

Matthew Linley
Mas o raciocínio que subjaz à nova ferramenta é bem mais complexo do que facilitar a conversação entre pessoas polidas. No artigo Facebook Hashtags Have More To Do With Ad Targeting Than Twitter[As hashtags de Facebook têm mais a ver com publicidade dirigida que as do Twitter], Matthew Linley, de Buzzfeed, explicou:

Na superfície, as hashtags ajudarão os usuários de Facebook a participar de”‘discussões públicas” (...). Mais importante que isso, as hashtags são instrumentos menos invasivos, para que os anunciantes sirvam-se da plataforma Facebook.

De fato: são meio menos invasivo; e ajudam muito a recolher dados dos usuários! No que isso tem a ver com o programa de coleta de dados PRISM, da Agência de Segurança Nacional – “interceptação legal” – de empresas como Google e Facebook, Graham disse à nossa rede ZDNet:

Acho também muito importante entender que tudo isso É violação dos direitos constitucionais de todos.

A única defesa que se sustenta, de que essas atividades da Agência de Segurança Nacional não sejam invasão ilegal de privacidade de todos os cidadãos dos EUA é que os “dados” assim coletados estão sendo armazenados, mas não estão sendo analisados e, portanto, nenhuma “privacidade” está sendo violada. Também é verdade que os dados estão sendo recolhidos mediante processo legal, aprovado por tribunais.

Mas o problema é que esses tribunais e todo o processo são secretos. Isso significa que tudo está sendo feito, de fato, à margem do processo democrático. Questão dessa importância deve ser discutida pelos cidadãos e regulada por lei, em processo judicial aberto, público. Como são feitas as coisas hoje, só burocratas decidem, usando ordens secretas do Executivo como única orientação. Isso tem de parar.

Steve Hall
No que Steve Hall (Adrants) descreveu como “momento crise de consciência”, Graham disse a colegas de todo o espectro da indústria da publicidade, que eles têm de repensar tudo:

Durante anos, como marketeiros da publicidade digital, criamos sistemas que reúnem quantidades astronômicas de dados pessoais, ao mesmo tempo em que dizíamos aos consumidores que eles nada tinham a temer do que nós fazíamos. Dissemos a eles que, apesar de, na essência, estarmos espionando tudo que eles faziam e tomando decisões calculadas para manipular as decisões dos consumidores baseados, nós, nas informações que reuníamos, sempre seria bom para eles e que eles continuavam a ter preservado seu anonimato e, portanto, a privacidade deles não estaria ameaçada.

E continuamos a repetir isso, embora qualquer mínimo esforço para analisar as coisas com perspectiva de futuro já bastasse para nos mostrar que a privacidade dos consumidores estava sendo, isso sim, mortalmente ameaçada.

Graham ainda acredita que sua indústria da publicidade fez da internet um lugar melhor para todos, mas fato é que o negócio de oferecer serviços de internet em troca de recolher informações pessoais dos usuários põe a indústria perigosamente muito próxima das práticas e atividades da Agência de Segurança Nacional dos EUA.

Graham disse à nossa rede ZDNet que:

Eu e muitos na nossa indústria acreditávamos que nosso processo de monitorar, preservando o anonimato, arquivar e revisar as atividades das pessoas exclusivamente por computadores havia produzido uma experiência em geral melhor para o consumidor e para a indústria. Ainda acredito nisso.

Mas, ao longo daquele processo, tivemos de repetidas vezes defender o que fazíamos, contra acusações de invasão de privacidade, por organizações e grupos de defesa dos direitos dos cidadãos.

Hoje, minha avaliação é que os nossos repetidos esforços para explicar como o processo de coleta e armazenamento de dados poderia ser feito sem violar a privacidade do consumidor levou a um efeito não desejado: criamos um ambiente no qual o consumidor foi várias vezes tranquilizado, por empresas privadas, fora do governo, de que a coleta de dados sobre ações e atividades pessoais poderia ser feita sem invasão indevida da privacidade.

Convencemos a opinião pública de que as pessoas estariam seguras, que bastaria a autorregulação, que nenhuma lei faria melhor. Hoje, a Agência de Segurança Nacional e o governo Obama estão usando precisamente o mesmo argumento.

Quando perguntei se a indústria da publicidade & marketing poderia corrigir o próprio curso, Graham mostrou-se otimista, mas não mudou o discurso:

Acho, primeiro, que a indústria terá de aceitar o fato de que teremos de fazer alguma forte distinção entre o que nós fazemos e o que o governo está tentando fazer.

É uma distinção que a maioria, no nosso espaço, não quererá fazer, porque não querem nem pensar em qualquer correlação entre esses dois campos. Passamos anos tentando fazer o consumidor aceitar que nos preocupávamos com ele, que não queríamos causar-lhe nenhum dano e que nossas atividades criariam um benefício.

A última coisa que alguém deseja é nos ver diretamente associados ao que, como muitos já vêm, pode ser a maior agressão, em toda a nossa geração, às nossas liberdades individuais.

Acho que é responsabilidade da indústria privada e das organizações que coletam dados sobre os indivíduos demarcar claramente uma diferença entre o que nós fazemos e o que o governo está fazendo. É o que estou fazendo aqui.

O lado obscuro da moderna tecnologia é uma “corrida armamentista” para ver quem coleta mais e melhores dados: os chamados registros de dados de “people finder”, a indústria de publicidade & marketing, os spammers, empresas privadas (como Google e Facebook) e o governo dos EUA, todos empenhados num mesmo frenesi para coletar a maior quantidade possível de dados pessoais e privados, da maior quantidade possível de pessoas – no limite da lei e, às vezes, bem além do que a lei permite fazer.

Até parece boa ideia dizer às pessoas que ninguém teria nada a reclamar de algo que lhe seja dado gratuitamente, e que qualquer consumidor pode simplesmente escolher não usar e-mail, Facebook, ou o buscador internet, se decidir não usá-los, se não quiser ter seus dados monitorados, armazenados, analisados e, potencialmente, usados contra ele mesmo ou contra outros, sem seu consentimento...

Mas a verdade é que esse argumento fica reduzido a zero, ante a realidade do dia a dia, por um lado; e, por outro, ante os tribunais secretos da Agência de Segurança Nacional.


Não há exemplo mais claro, para demonstrar que nem o mais esperto, o mais ilustrado, o mais bem informado dos consumidores tem sequer uma pálida ideia do que realmente está entregando, quando decide usar o que lhe seja oferecido por Apple, Skype, Facebook ou Google. E não faltam interessados em tirar a máxima vantagem de tudo que consigam arrancar de cada um de nós.