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quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Santa ingenuidade! \o/ \o/ \o/


(I) Departamento de Estado dos EUA: declaração surpreendente?!

 17/8/2012, Departamento de Estado dos EUA
Sobre a condenação de Nabeel Rajab [1] 

Sentencing of Nabeel Rajab

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
O governo do Bahrain assumiu o compromisso de respeitar a liberdade de expressão e de reunião e esperamos que cumpra o compromisso. Estamos profundamente preocupados com a condenação, por uma corte bahraini, de Nabeel Rajab, a três anos de prisão, acusado de conduzir “reuniões ilegais”. Esperamos que o veredito e a sentença sejam reconsiderados em julgamento da apelação, sem demora. Contamos com que o governo do Bahrain considerará todas as opções existentes, para bem encaminhar a solução desse caso. Acreditamos que todos têm um direito fundamental de participar de atos pacíficos de protesto. Temos repetidamente solicitado ao governo do Bahrain que tome medidas para construir confiança dentro da sociedade bahraini e inicie diálogo significativo com a oposição política e a sociedade civil. Punições excessivas por expressão pacífica – nesse e noutros casos – não contribuirão para esses esforços e só servirão para dividir ainda mais a sociedade bahraini.. 



(II) Tudo isso, só porque a liberdade de expressão da empresa Twitter & Co. é sagrada!

22/8/2012, MK Bhadrakumar*, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


O press-release distribuído na 6ª-feira pelo Departamento de Estado em Washington [leia acima], sobre a “Condenação de Nabeel Rajab” foi uma surpresa. Dava a impressão de que os EUA estariam afinal rompendo seu silêncio monolítico, para condenar a horrenda folha corrida de crimes cometidos por seu mais íntimo aliado no Golfo Persa – o Bahrain.

Mas em todos os casos, sempre seria totalmente impossível que os EUA estivessem começando a pressionar a favor de “mudança de regime” no Bahrain, onde os EUA mantêm abrigada a sua 5ª Frota Naval.

Assim sendo, por que o tal press-release? Por que precisamente Rajab, quando há vastas quantidades de xiitas brutalmente assassinados por lutar a favor de reformas no Bahrain, sem que os EUA jamais tenham movido uma palha em sua defesa?

O xis da questão é a empresa Twitter.

Nabeel Rajab
O “crime” pelo qual Rajab foi acusado e condenado é ter distribuído mensagem pela Twitter, empresa norte-americana de microblogs, em que denunciava crimes do todo poderoso e autocrático primeiro-ministro do Bahrain apoiado pelos sauditas. Por ter escrito um twit, foi condenado a três anos de prisão, antes mesmo de seus advogados terem acesso a ele. E Rajab tem mais de 100 mil seguidores, que o acompanham pela página mantida pela empresa Twitter.

A questão é que várias empresas norte-americanas que mantêm redes e páginas de ativo contato social estão tendo papel cada dia mais ativo e crucial, como ferramentas de divulgação e propaganda das políticas dos EUA para o Oriente Médio. Portanto, a mensagem do Departamento de Estado ao Bahrain significa exclusivamente: “Não toquem na Internet”.

Na mesma linha, aliás, o Wall Street Journal já se encarregou de mandar bem claro recado também à Índia, [2] só porque os rapazes do Ministério de Assuntos Internos da Índia, ao que se sabe, pediram ajuda aos norte-americanos para rastrear gente que anda distribuindo informações falsas pelas redes sociais, que perturbam a harmonia e a paz da sociedade indiana.

Santa ingenuidade!


Notas dos tradutores
[1] Para saber quem é e vê-lo falando, ver na redecastorphoto transcrito e traduzido para o português: 8/5/2012, Assange: 4º. Programa - entrevista com Nabeel Rajab e Alaa Abd El-Fattah; “The World Tomorrow”, Russia Today, vídeo e entrevista em inglês.  
Ver também: 19/8/2012, redecastorphoto, Julian Assange, agosto/2012 - Discurso da Embaixada do Equador, Londres (Transcrito e traduzido para o português). 
[2] 22/8/2012, The Wall Street Journal, Margherita Stancati e Tom Wright em: U.S. Calls on India to Respect Internet Freedom [EUA conclamam a Índia a respeitar a liberdade da Internet].

MK Bhadrakumar* foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The HinduAsia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

ACTA DERROTADA NA EUROPA. \o/ \o/ \o/ A imagem do ano!



Membros do Parlamento Europeu rejeitaram nesta quarta-feira (04/07) o ACTA, um acordo multilateral que promete endurecer radicalmente as regras antipirataria em todo o mundo. Segundo post publicado no site do próprio Parlamento, 478 deputados votaram contra, 39 a favor e 165 abstiveram-se.

O ACTA foi negociado pela União Europeia e os seus Estados-Membros - Estados Unidos, Austrália, Canadá, Japão, México, Marrocos, Nova Zelândia, Singapura, Coreia do Sul e Suíça - com o objetivo de melhorar a aplicação das leis internacionais contra a falsificação. A votação desta quarta-feira significa que nem a União Europeia nem os Estados-Membros podem aderir ao acordo. 

Grupos civis de liberdade digital comemoraram o resultado, depois de uma extensa campanha para rejeitar o acordo anti-pirataria. Em 26 de janeiro deste ano, 22 dos 27 países da UE afirmaram que aceitavam os pontos do ACTA, mas o processo começou a ser revisto depois de uma série de protestos populares contra a legislação multinacional. 

Pressionada, a Comissão Europeia, responsável pelas negociações em nome da UE, requisitou a opinião da Corte de Justiça Europeia (CJE)e pediu para que o Parlamento esperasse a decisão. O Partido Popular Europeu pediu uma votação para atrasar a decisão a respeito do ACTA até que a CJE se pronunciasse, mas acabou derrotado por 420 a 255 votos. 

O acordo internacional só pode forçar sua aprovação se for ratificado por seis dos 11 signatários: UE, Austrália, Canadá, Japão, Coreia do Sul, México, Marrocos, Nova Zelândia, Singapura, Suíça e os Estados Unidos. No entanto, o México já rejeitou o acordo e Austrália e Suíça devem fazer o mesmo. Até o Japão, país onde foi assinado o documento, está pensando em recuar. A votação desta quarta-feira deve reforçar ainda mais a desistência da UE a respeito do ACTA. 


Enviado pelo pessoal da Vila Vudu

Imagem extraída de http://twitpic.com/a3vbrt
Texto copiado de Olhar Digital

sábado, 11 de fevereiro de 2012

A internet é o melhor lugar para começar uma dissidência


3/1/2012, Cory Doctorow, Guardian, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Facebook graffiti near Tahrir Square
Grafiti próximo à Praça Tahrir, no Cairo, Egito. Ethan Zuckerman crê que as revoluções 
são iniciadas por pessoas comuns que usam a tecnologia diariamente. 
Foto de Steve Crisp/Reuters

Entreouvido na Vila Vudu - O que aí se lê, talvez explique por que o Twitter no Brasil é tão INFINITAMENTE chato (e o Facebook, esse, então, é totalmente INSUPORTÁVEL), se se segue, como nós seguimos, só gente de esquerda (ou pressuposta de esquerda). Porque o problema da esquerda no Brasil-2012 não é construir alguma “dissidência”. 

O problema da esquerda no Brasil-2012 é exatamente o contrário disso: aqui se trata de construir convergências e abrir espaços para que o nosso governo Lula-Dilma possa começar a mexer-se, sob o cerco incansável da velha direitona udenista golpista que, aqui, está organizada na mídia-empresa e na universidade há mais de 50 anos, e jamais esteve fora do Executivo há mais de 500 anos. 

Essas empresas “de internet” – que não nasceram do nada e são fruto de um determinado momento dos desenvolvimentos do capital no planeta – talvez só sejam eficientes para construir dissidências, movimento que, evidentemente, sempre interessa muito mais ao capital que ao trabalho e à resistência, onde absolutamente ninguém precisa de dissidências e a sobrevivência de todos sempre dependeu e depende de união, solidariedades, confluências, convergências, alianças e pactos. 

Afinal, como se comprova todos os dias, basta uma futriquinha de 141 caracteres da Eliane Cantanhêde, para semear confusão suficiente para MUITAS dissidências, sobretudo entre os petistas, que, historicamente, têm cabeça (política) muito fraca. 

Mas para construir e preservar uniões, solidariedades, confluências, convergências, alianças e pactos, é preciso MUITO mais que 141 caracteres e talvez seja crucialmente indispensável poder (e saber) construir mais argumentação a favor e menos frasezinhas “do contra” – metidas a “críticas”, ou metidas a “éticas”, ou metidas a “boazinhas” em geral, todas, sempre, intragavelmente liberais. 

Seja como for, a coisa não é tão simples como fazer oposição a “regimes repressivos” classificados por parâmetros dos jornais do Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão) ou do New York Times/Pentágono/complexo industrial-militar/Israel e outros agentes do acanalhamento da luta dos pobres, no mundo. 

No Brasil-2012, trata-se de fazer oposição aos aparelhos ideológicos que operam em estado democrático de direito, numa democracia representativa e legal, na qual, contudo, a mídia é partidarizada e elege; e onde, quando a mídia partidarizada não elege, ela é capaz de passar (só até agora) quase dez anos trabalhando, todos os dias, para derrubar governos eleitos que não sejam os governos que a mídia – e uma camada intelectual espantosa e persistentemente conservadora e reacionária – prefeririam ver eleitos.
Marxistas que tenham lido alguns parágrafos de Marx, que seja, em versão para a 5ª. série do fundamental, que seja, logo perceberão que o articulista abaixo JAMAIS ouviu falar de Marx. Não sabe das artimanhas da ideologia. Vive da firme ilusão de que seria possível democratizar os mervais-pereiras. Assim como imagina que as revoluções árabes tenham surgidas do nada, sem passado, e que teriam sido construídas, do zero, pelo Twitter. 

O artigo abaixo é de uma indigência, no plano da interpretação política do mundo, que dá dó. Mas, com esse nada, em matéria de compreensão política do mundo, o tal de Zuckerman já arranjou um baita empregão no MIT, púlpito para conferências e a admiração incondicional de Doctorow e da editoria de tecnologias do Guardian!

O que não seríamos capazes de fazer, da e com a Internet, então, nós, que lemos Marx e (pelo menos alguns petistas, esperemos) sabemos das arapucas da ideologia, da democracia representativa sob reinado de Wall Street, da mídia partidarizada e ativa, empenhada em atuar como agente de propaganda política?! (Sim, mas, se sabemos... por que só fazemos repetir, pelo Twitter, a pauta dos jornalões do Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão?!))   

Seja como for, a ideia marxiana de fundo coincide com o que aí se lê: “É 2012 e a luta continua. Vamos trabalhar.” Só a luta ensina.


Cory Doctorow
Há um ano, resenhei o livro The Net Delusion [A Net como ilusão], de Evgeny Morozov, análise cética do papel da internet nas lutas globais por justiça.

A ideia central da crítica de Morozov é o fato inegável de que Facebook, Twitter, YouTube e outras ferramentas de mídia social são monumentalmente inadequadas para usar em cenários revolucionários hostis, porque a repressão sempre será informada sobre locais de reunião, manifestações programadas e as causas dos protestos e manifestações; essas ferramentas expõem os usuários à violência de governos repressivos.

Mais ainda, revelam os laços sociais entre os dissidentes, facilitando a tarefa das polícias secretas, que podem cercar os movimentos sem precisar recorrer a recursos tediosos de gravações clandestinas e vigilância física, para saber quem prender.

Naquela resenha, argumentei que os riscos detectados nessas ferramentas não eram inerentes a elas. Nada impedia que se criasse uma ferramenta do tipo Facebook, que ajudou a galvanizar e organizar a resistência na Tunísia, sem expor os usuários ao risco de serem presos e torturados (para os principiantes: bastaria abolir a exigência de “nome verdadeiro” do Facebook, e permitir que os usuários usassem pseudônimos).

Mas no contexto no qual nasceu Facebook – uma brincadeira que começou em Harvard e que se tornou poderosa máquina global de publicidade – não havia razão alguma para que alguém envolvido no design do sistema pensasse em torná-lo invulnerável a ataques de ditadores e seus apparatchiks.

Agora, que essa necessidade afinal apareceu, as pessoas que se preocupam com a dor dos que sofrem sob regimes opressivos podem trabalhar com os desenvolvedores de ferramentas que ajudem os usuários, sem os expor à repressão.

E, de fato, no ano passado, viu-se enorme quantidade de energia mobilizada nessa tarefa, que resultou no desenvolvimento de plataformas de “vazamentos” como Wikileaks; de ferramentas que possibilitam o anonimato como Tor; e aumentou muito o número de usuários desses recursos.

Ethan Zuckerman
Até aí, tudo bem. Mas ontem assisti à conferência de Ethan Zuckerman, 2011 Vancouver Human Rights, intitulada “Cute Cats and The Arab Spring” [Gatinhos Lindinhos e a Primavera Árabe], e percebi que Morozov e eu erramos, ambos. Zuckerman é diretor do Centro para Mídias Sociais do MIT [orig. MIT's Centre for Civic Media] e fundador do Geekcorps, uma ONG que manda técnicos para o mundo em desenvolvimento para trabalhar em iniciativas tecnológicas sustentáveis surgidas localmente [1].

Zuckerman sabe muito sobre a dura realidade do dia a dia do lugar da internet na luta pela liberdade de expressão e justiça, em alguns dos contextos mais brutais e nos regimes mais repressivos do mundo.

Vale a pena ouvir toda a conferência, mas interessei-me especialmente pela “Teoria dos Gatinhos Lindinhos” de Zuckerman, sobre a revolução internética.

O argumento de Zuckerman é o seguinte: embora YouTube, Twitter, Facebook (e outros serviços sociais populares) não sejam eficazes para proteger dissidentes, ainda assim são o melhor lugar do mundo para iniciar dissidências, por várias razões.

Primeiro, porque se o YouTube cai, numa internet nacional, todos percebem, não só os dissidentes. Mas se um governo repressivo censura uma página que expõe a brutalidade oficial, só os que conheçam a página saberão do ato de censura.

E quando o YouTube é censurado, todos os que adoram ver gatinhos lindinhos descobrem que sua página preferida está fora do ar; começam a perguntam por quê, e assim acabam descobrindo que há vídeos que comprovam a brutalidade oficial, e que o governo censurou o YouTube para impedir que as pessoas vissem a brutalidade oficial.

Segundo, a ferramenta mais amplamente utilizada por governos opressivos contra páginas de dissidentes é o DDoS,distributed denial of service [negação distribuída de serviço], quando se mandam enormes ondas de tráfego das redes de milhares de PCs alinhados, que provocam sobrecarga no servidor alvo e derrubam a internet.

Serviços como Twitter, Facebook e YouTube sobrevivem muito melhor a esses ataques, que uma página doméstica de dissidentes.

Finalmente, Zuckerman argumenta que a lição da Primavera Árabe é que revoluções são iniciadas por pessoas comuns, oprimidas por sofrimentos da vida diária – prisões arbitrárias, corrupção e brutalidade policial – e essas pessoas usarão a ferramentas que conheçam, para se manifestar.

A primeira ideia que lhe passa pela cabeça, depois de você capturar um vídeo para telefone celular que mostre a polícia assassinando alguém não é “Vamos ver se há alguma ferramenta construída para ativistas, que eu possa usar para passar adiante esse clip”. A ideia que ocorre é “Melhor subir isso no Facebook/YouTube/Twitter, para que todos vejam”. 

Esse último argumento é, para mim, o mais convincente. Embora ferramentas para ativistas sejam vitais para manter uma luta, elas jamais serão o primeiro recurso do sistema, quando acontecem os desastres.

O que implica que o único modo para garantir a segurança de ativistas, dissidentes e de todos que lutam contra a opressão, é, seja lá como for, convencer as pessoas que criam as ferramentas sociais mais populares a fortalecê-las para que suportem os confrontos das lutas reais.

Para começar, essa tarefa é dificílima. Mas é tornada ainda mais difícil ante as exigências dos governos “liberais” na Europa, Canadá, EUA e outras “nações livres”, que querem garantir que seus governos possam espionar os próprios cidadãos que apareçam nas mídias sociais.

Acrescente-se a isso a insanidade de leis como, nos EUA, a Lei Antipirataria [orig. Stop Online Piracy Act (SOPA)], que exige dos serviços que espionem os usuários e deletem links com conteúdo não permitido, e o problema torna-se ainda mais difícil.

Não é quadro estimulante. Mas, pelo menos, nos oferece um mapa do caminho.

Primeiro, temos de convencer nossos próprios governos de que, quando mandam espionar atrás das portas e apagar links das mídias sociais, garantem as mesmas capacidades também aos ditadores.

Segundo, é preciso fazer a conexão entre a aplicação das leis de copyright e a correspondente fiscalização e as lutas globais contra a injustiça, explicando sempre, tantas vezes quantas sejam necessárias, que é impossível ter um sistema que impeça a espionagem por polícias secretas, e permita a espionagem pelas majors das comunicações e mídia.

Finalmente, temos de convencer os empresários de que é do interesse deles promover as mudanças de arquitetura de sistemas que protejam seus usuários de prisões arbitrárias, tortura e assassinato, quando fizerem a transição não planejada, das páginas de gatinhos lindinhos para as páginas de denúncias de atrocidades.

Mas é 2012, e há anos pela frente. Vamos trabalhar.




Nota dos tradutores
[1] Para avaliar o que Zuckerman sabe do mundo, ouçam sua conferência (em inglês) onde fala até de “Cala boca, Galvão”. A ignorância dos norte-americanos sobre o mundo e a ilusão em que vivem, de que sempre conseguirão aprender rápida e facilmente o que não sabem, é REALMENTE IMPRESSIONANTE.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Manifestações digitais: DDoS é legítima desobediência civil



29/1/2012, Anonymous
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


A Interrupção Distribuída de Serviço [orig. Distributed Denial of Service (DDoS) é uma das táticas preferidas dos Anonymous. A mídia tem dito que a ação DDoS seria uma forma de hacking, mas não é. Na melhor das hipóteses, a mídia comete aí um erro técnico. A ação DDoS não provoca qualquer dano permanente e não implica invadir servidores nem capturar dados. O que se faz é, simplesmente, dirigir vários computadores para que enviem muitos pedidos de acesso a uma determinada página, cujo servidor fica sobrecarregado – é o equivalente a torcedores, numa partida de futebol, gritarem tão alto que o atacante do time adversário não consegue ouvir as instruções do técnico. Os quadrinhos abaixo explicam melhor:

Q1: [Locutora] “Hackers derrubaram ontem por pouco tempo o website da CIA...” 
Q2: [acima] O que os telespectadores ouvem: [no quadrinho] “Alguém invadiu os computadores da CIA!!” 
Q3: [acima] O que os especialistas em computadores ouvem: [no quadrinho] “Alguém rasgou um cartaz pendurado pela CIA!!

Nos EUA, as ações de DDoS são tratadas como crime, nos termos da Lei de Fraude e Abuso em Computadores [orig. Computer Fraud and Abuse Act], que prevê pena de 10 anos de prisão. Dada a semelhança entre as ações DDoS e outras táticas de desobediência civil aceitas há muito tempo, como os cidadãos sentarem-se no chão ou na calçada, para bloquear a passagem ou a entrada de prédios, a pena de 10 anos de prisão é desproporcional e injusta. 

Os Anonymous não são unânimes, e as opiniões divergem, talvez mais nesse caso que em relação a qualquer outra tática, sobre as ações de DDoS. De fato, muitos Anonymous, que consultaram a opinião de ONGs anti-ACTA, têm insistido, nos últimos dias, no sentido de que as ações DDoS sejam evitadas.


Mas depois que essa foto de deputados poloneses que protestavam contra o ACTA tornou-se viral ontem[1], é hora de todos reavaliarmos o papel e a legitimidade das ações de DDoS. Esses deputados usavam a máscara Guy Fawkes dos Anonymous, no mesmo momento em que a página do Parlamento polonês estava fora do ar, derrubada por uma ação DDoS dos mesmos Anonymous. Tudo quanto se diga é pouco! Não há dúvidas de que o jogo agora é outro! 

A ação DDoS foi tática muitíssimo efetiva para chamar a atenção mundial para a injustiça, tanto no caso da repressão na Tunísia e Egito, como no caso da censura que se implantará com leis como SOPA ou acordos comerciais como ACTA. Resposta simbolicamente rica, a ação DDoS declara: “Se vocês nos silenciam, nós silenciamos vocês.” Nesse sentido, funciona.

Mas a ação DDoS é apenas uma ferramenta, no nosso arsenal de protesto, não é a única. Temos também de nos envolver no processo político mais amplo – e para muitos de nós, profundamente frustrados depois das décadas em que só vimos corrupção e ausência de comprometimento nesse processo político – será preciso tampar o nariz. Como os eventos na Polônia mostraram, temos aliados nos locais mais inesperados.

Chegou um tempo em que temos de usar palavras para articular nossas demandas e desejos, em vez de só usarmos os pacotes User Datagram Protocol (UDP). 

Ainda há muito lulz a curtir – sob a forma de e-mails em massa, ações por fax e sobrecarregamento de serviços de telefone.

Assim sendo, convocamos os Anonymous e todos os internautas amantes da liberdade a fazer contato direto com os políticos eleitos.

O que dizemos é: “NÃO à lei SOPA! NÃO ao tratado ACTA!”. “Não toquem na Internet!” / “No SOPA! No ACTA! Hands off the Internet!”

Nos próximos dias, publicaremos informes sobre outras ações nas quais todos podem participar. 

Europa

Estados Unidos

Global

domingo, 18 de dezembro de 2011

A luta está só começando


Patrick Cockburn

18/12/2011, Patrick Cockburn, The Independent, UK 
[excerto com adaptações]
Traduzido e adaptado pelo Coletivo da Vila Vudu

“O que mudou em 2011 não foi a violência, os espancamentos ou a corrupção. A novidade é que, hoje, no mundo conectado pela internet, os governos e todos os políticos têm de pagar preço político muito mais alto por recorrerem a esses métodos.”

Não há dúvidas de que a internet está deslocando o centro de gravidade do poder: dos palácios e redações de jornais e redes de televisão, para o povo nas ruas, no Oriente Médio, e nos teclados, no Brasil.

Há um ano, o mundo viu os primeiros levantes populares do Despertar Árabe, que cresceram de uma faísca, quando um tunisiano empobrecido, forçado a vender frutas e legumes numa banca de rua, Mohamed Bouazizi, ateou fogo ao próprio corpo, depois de sua banca, último recurso que tentava para conseguir alimentar a família, foi confiscada pela polícia. Em poucos dias, fotos dos protestos por aquela morte, em sua cidade natal, estavam diante de milhões de tunisianos, pela internet e pelas televisões por satélite, e o estado policial que por tantos anos governara o país de Bouazizi começou a ser destruído e ruir em frangalhos.

Primavera árabe queima oligarquias
12 meses adiante, o futuro dos movimentos da Primavera Árabe continua imprevisível. Dois regimes autocráticos ruíram no norte da África – na Tunísia e no Egito – mas ainda não se vê com clareza o que será criado para substituí-los. Persistem os confrontos em três estados a leste do Egito – Síria, Iêmen e Bahrain – e tudo sugere que ainda persistirão por muito tempo. [E o novo governo na Líbia nada promete, além de um arremedo de “democracia” à moda da democracia ocidental contemporânea, em que o governo serve aos interesses das grandes empresas transnacionais, para exploração das riquezas locais].

Fica cada vez mais claro que o mundo árabe e o Oriente Médio enfrentam o início de prolongadas lutas pelo poder, como já não se viam desde os anos 1960s. Alguns fatores são comuns a todos os levantes populares – como a decrepitude e a corrupção dos estados policiais –, mas cada país tem suas especificidades. Na Líbia, Gaddafi foi deposto não por algum levante popular, mas pela intervenção massiva da OTAN, o que implica que as milícias anti-Gadaffi podem não ter força para substituir o antigo regime, no poder. O conflito no Iêmen converteu-se numa luta de três grupos, entre um governo autoritário, manifestantes pró-democracia e barões da política local dissidentes, da elite local que jamais mostrou qualquer tendência democrática.

O futuro indefinido e imprevisível reflete o fato de que os movimentos de protesto, em todos os países, nasceram de coalizões diferentes de elementos disparatados. Islamistas uniram-se a secularistas. Defensores de direitos humanos uniram-se às jihadis que combateram no Afeganistão. São coalizões que teriam sido impossíveis nos anos 1990s, quando os islamistas acreditavam que poderiam chegar sozinhos ao poder, e os liberais, a esquerda e os secularistas em geral temiam mais o Islã fanático que seus ditadores.

E abrem-se fissuras também dentro dos movimentos de protesto. “A Primavera Árabe está virando uma Primavera Islâmica” – disse-me um deputado em Bagdá. Poderia ter acrescentado que, para muitos xiitas, parece estar virando uma “Primavera Sunita”, com os sunitas no poder em Damasco e os xiitas esmagados no Bahrain.

Esse mar de incertezas, contudo, mostra algumas tendências que começam a delinear-se. O mundo árabe é hoje, pelo menos por hora, mais fraco do que há muito tempo. Mas os EUA não estão em condições que lhes permitam reimpor-se como poder hegemônico na região, dados os fracassos no Iraque e no Afeganistão, a crise econômica, e o obcecado apoio que dão a Israel. Israel espera ansiosíssima o fim do governo de Bashar al-Assad na Síria, mas sabe que, se acontecer, terá trocado inimigo conhecido por inimigo desconhecido e, possivelmente, mais perigoso. Pior ainda, do ponto de vista israelense, nos três últimos anos Turquia e Egito, os dois mais poderosos estados da região, converteram-se, de aliados a vizinhos cada dia mais hostis. Essa mudança é hoje a maior ameaça que pesa contra Israel, ameaça muito maior que qualquer Irã. 

A Turquia preencherá o vácuo de poder? Outras potências, do ocidente e do Oriente Médio, mal disfarçam a ansiedade, à espera que os turcos assumam a liderança e consigam deslocar Assad ou equilibrar a influência iraniana sobre o Iraque, porque, como diz a sabedoria popular, “grande serviço prestará aí qualquer um, menos eu”.

Revendo o ano que passou, o fim de tantos estados policiais tem uma espécie de inevitabilidade espúria. Muitos daqueles ditadores chegaram ao poder nos anos 1960s ou início da década seguinte, em golpes militares e com credenciais nacionalistas. No Egito, a revolução nacionalista aconteceu muito antes, em 1952, em reação ao controle residual pelo império britânico e à derrota contra Israel. Muito facilmente se esquece hoje que aqueles governos rapidamente criaram poderosas máquinas de Estado e constituíram unidades nacionais para manterem-se no poder, ou, como no caso da Líbia e do Iraque, nacionalizaram a indústria do petróleo e forçaram o aumento dos preços. 

À altura de 1975, aqueles regimes já eram estados policiais, com os poderes político e econômico já monopolizados por famílias “reinantes”. À altura dos anos 1990s, os Mubaraks, os Gaddafis e os Ben Alis já parasitavam o “sistema mundo”, com economias neoliberais de livre mercado, abrindo as portas de seus países à predação pelos monopólios capitalistas, consumindo riquezas públicas para importar bugigangas, fossem carros de luxo na Tunísia, ou cigarros no Iraque.

Muito se tem escrito sobre o papel das redes sociais e da internet, cujo advento teria decidido a queda daqueles regimes. Há algum exagero nisso, mas há também um grão de verdade. Há vinte anos, o gesto de desafio de Bouazizi e os protestos que desencadeou bem poderiam ter passado despercebidos dos próprios tunisianos, porque o governo controlava completamente a mídia. Hoje, esse estado de monopólio da informação já não existe.

Governos autoritários no Oriente Médio dependeram do medo, para manter-se no poder. E foram colhidos de surpresa quando espancamentos e matança aos quais sempre recorreram para criar o medo, apareceram à vista de todos, na internet e em YouTube e passaram a provocar protestos. Quando o exército sírio esmagou o levante dos sunitas em Hama em 1982, matando cerca de 20 mil pessoas, não se viu um cadáver, nenhuma execução. Hoje, quando Israel bombardeia aldeias palestinas, as imagens percorrem o mundo em instantes.

O que mudou em 2011 não foram a violência, os espancamentos ou a corrupção. A novidade é que, hoje, os governos e todos os políticos têm de pagar preço político muito mais alto por recorrerem a esses métodos.

*****************

O Brasil, poderosa nação emergente, dos BRICS, vive hoje momento sem precedentes em sua história recente, quando uma elite tradicional, que governou o país desde a redemocratização, em 1980, até ser alijada do poder na primeira eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, vê-se vê-se afinal desmascarada como corrupta – agente de descomunal processo de malversação de fundos públicos havidos durante a privatização neoliberal dos anos 1990s, em livro recém publicado e que já é sucesso absoluto de vendas... e do qual a imprensa brasileira nada disse, ainda, até hoje, já passados vários dias do lançamento (e venda) do livro-denúncia.

Nada disso seria possível há alguns anos, antes do advento da internet. Não há dúvidas de que a internet está deslocando o centro de gravidade do poder: dos palácios e redações de jornais e redes de televisão, para o povo nas ruas, no Oriente Médio, e nos teclados, no Brasil.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Oposição social na era da Internet: Militantes “de teclado” e intelectuais públicos


James Petras

por James Petras [*]

A relação entre as tecnologias da informação, e mais precisamente a internet, com a política é uma questão central para os movimentos sociais contemporâneos. Tal como outros avanços tecnológicos no passado, as tecnologias da informação (TI) servem um duplo propósito: por um lado contribuem para acelerar os movimentos de capitais (sobretudo de capitais financeiros), facilitando uma globalização imperialista. Por outro, a internet fornece importantes fontes alternativas de análise, assim como uma forma fácil de comunicação, que pode servir para a mobilização dos movimentos populares.

A indústria das tecnologias da informação criou uma nova classe de multimilionários, que se estende de Silicon Valey na California até Bangalore na India. Estes desempenham um papel central na expansão do colonialismo econômico através do controle monopolista que exercem sobre as mais diversas esferas de difusão da informação e do entretenimento.

Parafraseando Marx: “a internet tornou-se o ópio do povo”. Novos e velhos, empregados e desempregados, todos eles passam horas passivamente contemplando espetáculos, pornografia, videojogos, consumindo online e até acedendo a “notícias”, isolados dos restantes cidadãos e trabalhadores.

Em muitas ocasiões, a superabundância de “notícias” na internet, absorve tempo e energia, desviando os “observadores” da reflexão e da ação propriamente dita. Assim como a escassa e tendenciosa informação dos meios de comunicação de massas distorce a consciência popular, o excesso de mensagens na internet pode imobilizar a ação dos cidadãos.

A internet, propositadamente ou não, “privatizou\particularizou” a vida política. Muitos ativistas potenciais foram levados a acreditar que o envio de manifestos a outros cidadãos é um ato político, esquecendo-se que apenas a ação pública, incluindo a confrontação com os seus adversários no espaço público, nos centros das cidades assim como no campo, é a base da transformação política.

As tecnologias da informação e o capital financeiro

Recordemos que o ímpeto original que presidiu ao crescimento das tecnologias da informação partiu das necessidades das grandes instituições financeiras, bancos de investimento e dos especuladores, que pretendiam mover bilhões de dólares, de um país para o outro, de uma empresa para outra, de uma mercadoria para outra, com um simples toque de dedos.

A Internet foi a tecnologia motora do crescimento da globalização ao serviço do capital.

As tecnologias da Informação desempenharam um papel central na precipitação das duas crises financeiras da última década (2001-2002; 2008-2009). A bolha das ações de empresas ligadas às tecnologias da informação em 2001 foi o resultado da promoção e da sobrevalorização das empresas de software, desligadas da economia real. O crash financeiro global de 2008-2009, que se extende até hoje, foi consequência de pacotes computadorizados de ativos fraudulentos e de empréstimos imobiliários sub-financiados. As “virtudes” da internet, a velocidade com que transmite informação, revelaram-se, no contexto da especulação capitalista, um fator determinante da pior crise do capitalismo desde a Grande Depressão dos anos 30.

A democratização da Internet

A internet tornou-se acessível às massas enquanto mercado aberto à exploração comercial, alargando-se posteriormente a usos sociais e políticos, e, mais importante ainda: tornou-se um meio fundamental para informar o grande público da exploração e pilhagem que os bancos multinacionais impunham aos mais variados países e aos seus habitantes. A internet ajudou também a expor as mentiras que subjazem às guerras imperialistas dos Estados Unidos e da União Europeia no Médio-Oriente e no Sul da Ásia.

A internet tranformou-se assim num terreno contestado, numa nova forma de luta de classes, que engloba movimentos pró-democracia e de libertação nacional. Os maiores movimentos e os seus líderes, desde os guerrilheiros no Afeganistão aos ativistas pró-democracia no Egito, passando pelo movimento estudantil chileno e pelo movimento pela habitação popular na Turquia, todos eles contam com a internet para informar o mundo das suas lutas, dos seus programas, da repressão estatal de que são alvos, bem como das suas vitórias. A internet liga as diferentes lutas muito para lá das fronteiras nacionais – é uma ferramenta central para a construção de um novo internacionalismo que faça face à globalização capitalista e às suas guerras imperialistas.

Parafraseando Lenine poderiamos dizer que o socialismo do século XXI pode resumir-se na formula: “os sovietes mais a internet = socialismo participativo”.

A internet e a política de classe

É bom recordar que as tecnologias computadorizadas de informação não são “neutras” – o seu impacto político depende dos utilizadores e ativistas que determinam quem, e que interesses de classe, é que servem.

A internet serviu para mobilizar milhares de trabalhadores na China contra os exploradores corporativistas, na Índia mobilizou milhares de camponeses contra os especuladores latifundiários. Por outro lado, a OTAN utilizou sistemas de guerra fortemente computorizados para bombardear e destruir a Líbia independente. Os Estados-Unidos também utilizaram “drones” para enviar mísseis para matar civis no Paquistão e no Iêmen; ora esta técnica é controlada por uma inteligência computadorizada. A localização da guerrilha colombiana e os bombardeios aéreos utilizam a mesma tecnologia computadorizada. Em suma, as tecnologias da informação podem ter um duplo uso: podem ser utilizadas para a libertação dos povos, mas também podem servir os ataques imperialistas contra-revolucionários.

O neoliberalismo e o espaço público

A discussão acerca do “espaço público” assume frequentemente que “público” é sinônimo de uma maior intervenção estatal em prol do bem-estar da maioria: de uma maior regulação do capitalismo e de uma crescente proteção ao meio-ambiente. Por outras palavras aos atores “públicos” benignos opor-se-iam às forças privadas exploradoras dos mercados.

Num contexto de proliferação da ideologia e das políticas neoliberais, muitos autores progressistas escrevem sobre “o declínio da esfera pública”. Esta perspectiva negligencia o fato de a “esfera pública” ter vindo a ganhar uma importância crescente na sociedade, na política e na economia, beneficiando sempre o grande capital; mais concretamente o capital financeiro e os investidores estrangeiros. A “esfera pública”, neste caso o estado, é muito mais intrusiva na sociedade civil como força repressiva num momento em que as políticas neoliberais aumentam as desigualdades. Graças à intensificação e ao aprofundamento das crises financeiras, a esfera pública (o estado) assumiu um papel fundamental no resgate dos bancos falidos.

Devido aos enormes déficits fiscais provocados pela fuga aos impostos do capital, às despesas com as guerras coloniais e aos subsídios públicos às grandes empresas, a esfera pública (o estado) impõe uma austeridade de classe, cortanto despesas sociais e prejudicando os funcionários públicos, os reformados e os trabalhadores assalariados das empresas privadas.

A esfera pública reduziu o seu papel no setor produtivo da economia. No entanto, o setor militar cresceu com a expansão das guerras coloniais e imperialistas.

A questão fundamental que subjaz a qualquer discussão acerca da esfera pública e da oposição social não é a do seu crescimento ou declínio, mas antes a dos interesses de classe que definem o papel dessa esfera pública.

No contexto do neoliberalismo, a esfera pública está orientada para a utilização do tesouro público no resgate dos bancos, para o militarismo e para uma larga intervenção policial estatal. Uma esfera pública dirigida pela “oposição social” (trabalhadores, agricultores, profissionais, empregados) alargaria o campo de ação da esfera publica no que toca à saúde, à educação, às pensões, ao ambiente e ao emprego.

O conceito de “esfera pública” tem duas faces (como Jano): uma olha para o capital e para o setor militar; a outra para a oposição laboral/social. A internet está também subordinada a esta dualidade: por um lado, facilita grandes movimentos do capital e rápidas intervenções militares imperialistas; por outro, fornece à oposição social um fluxo de informação rápido que permite a sua mobilização. A questão fundamental é a de saber que tipo de informação é transmitida, a que atores políticos ela é transmitida e que interesse social serve?

A Internet e a oposição social: a ameaça da repressão estatal

Para a oposição social, a internet é antes de mais uma fonte vital de informação alternativa crítica, capaz de educar e mobilizar os dirigentes progressistas, os profissionais, os sindicalistas e os líderes camponeses, os militantes e os ativistas. A internet é uma alternativa aos meios de comunicação capitalistas e à sua propaganda, uma fonte de notícias e informações que transmite manifestos e informa os activistas acerca dos locais das intervenções públicas. Graças a este papel progressista como instrumento da oposição social, a internet está sujeita a uma forte vigilância por parte do aparelho repressivo policial e estatal.

Nos Estados Unidos, por exemplo, mais de 800 mil funcionários são utilizados pela policia de “Segurança Interna” para espiar milhares de milhões de emails, faxes e chamadas telefônicas de milhões de cidadãos americanos.

Saber quão efetivo é o policiamento diário de toneladas de informação é outra questão. Mas o fato é que a internet não é uma “fonte livre e segura de informação, debate e discussão”. Com efeito, quanto mais eficaz se torna a internet na mobilização de movimentos sociais que se opõem ao estado imperialista e colonial, mais provável se torna uma intervenção por parte da polícia e do estado com o pretexto de “combater o terrorismo”.

A internet e a luta contemporânea: uma relação revolucionária?

É tão importante reconhecer a importância da internet enquanto detonador de determinados movimentos sociais como relativizar a sua importância global.

A internet teve um papel fundamental na divulgação e mobilização de “movimentos espontâneos”, como o dos “indignados” espanhóis, na sua maioria jovens desempregados e sem filiação partidária, ou na americana “Ocupação de Wall Street”. Noutros casos, como o das massivas greves gerais em Itália, Portugal, na Grécia e em tantos outros sítios, as confederação sindicais organizadas tiveram um papel central e a internet um impacto apenas secundário.

Em países altamente repressivos, como o Egito, a Tunísia e a China, a internet tem um papel fundamental na divulgação de intervenções públicas e na organização de protestos de massas.

No entanto, a internet não levou a qualquer revolução bem sucedida – ela pode informar, ser um local de debate, e mesmo mobilizar, mas não pode oferecer a liderança e a organização necessárias a uma ação política consistente e muito menos fornecer uma estratégia de tomada do poder estatal. Comprova-se assim que a ilusão, alimentada por alguns gurus da internet, de que a ação "computadorizada" pode substituir um partido político disciplinado, é falsa: a internet pode facilitar o movimento, mas apenas uma oposição social organizada lhe pode dar uma direção tática e estratégica capaz de o manter vivo face à repressão do estado e de levá-lo a lutas bem sucedidas.

Ou seja, a internet não é um “fim em si mesmo” – a postura autocongratulatória dos ideólogos da internet, anunciando uma nova época de informação “revolucionária”, ignora o fato de que OTAN, Israel e os seus aliados e clientes utilizam a internet para lançar vírus e destruir economias, para programas de defesa anti-sabotagem e para promover levantamentos étnico-religiosos. Israel enviou vírus danosos para travar o programa nuclear pacífico do Irã; os Estados Unidos, a França e a Turquia instigam, na Líbia e na Síria, uma oposição social capaz de servir os seus interesses.

Em resumo, a internet tornou-se um novo terreno de luta de classes e de luta antiimperialista. A internet é um meio e não um fim. A internet é parte dessa esfera pública, cujos objetivos e resultados são determinados pela estrutura de classe em que se integra.

Comentários finais: “militantes de teclado” e intelectuais públicos

A oposição social é definida pela intervenção pública: pela presença das coletividades nos comícios políticos, pelos indivíduos que discursam em encontros públicos, por ativistas que se manifestam em praças públicas, sindicalistas militantes que defrontam os patrões, pessoas pobres que exigem aos governantes locais para morar e serviços públicos...

Discursar ativamente num comício público, formular ideias e programas, propor estratégias através da ação política, constitui o papel de um intelectual público. Sentar-se a uma secretária num escritório para, num esplêndido isolamento, enviar cinco manifestos por minuto define um “militante de teclado”. Esta é uma forma de pseudo-militância que separa as palavras dos atos. A “militância” de teclado é um ato de inação verbal, de "ativismo" inconsequente, uma revolução mental de faz-de-conta.

A comunicação via internet torna-se um ato político quando se enquadra em movimentos sociais que desafiam o poder. Necessariamente, isto envolve riscos para um intelectual público: desde ataques policiais no espaço público até represálias econômicas na esfera privada. Os “ativistas de teclado" não arriscam nada e pouco realizam. O intelectual público faz a ligação entre o descontentamento dos indivíduos e o ativismo social da coletividade. O professor universitário vem ao local de ação, fala e regressa ao seu gabinete. O intelectual público fala e faz um compromisso pedagógico de longo termo com a oposição social na esfera pública, tanto através da internet como de frequentes encontros diários cara a cara.
20/Novembro/2011

[*] Intervenção como convidado no “Symposium on Re-Publicness”, Patrocinado pela Chamber of Electrical Engineers. Ancara, Turquia, 9-10/Dezembro/2011

Tradução de MQ.

Esta tradução foi extraída de Resistir.