3/1/2012,
Cory Doctorow, Guardian,
UK
Traduzido
pelo pessoal da Vila Vudu
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Grafiti próximo à
Praça Tahrir, no Cairo, Egito. Ethan Zuckerman crê que as revoluções
são iniciadas
por pessoas comuns que usam a tecnologia diariamente.
Foto de Steve
Crisp/Reuters
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Entreouvido
na Vila Vudu
- O que aí se lê, talvez explique por que o Twitter no Brasil é tão INFINITAMENTE
chato (e o Facebook, esse, então, é
totalmente INSUPORTÁVEL), se se segue, como nós seguimos, só gente de esquerda
(ou pressuposta de esquerda). Porque o problema da esquerda no Brasil-2012 não é
construir alguma “dissidência”.
O
problema da esquerda no Brasil-2012 é exatamente o contrário disso: aqui se
trata de construir convergências e abrir espaços para que o nosso governo
Lula-Dilma possa começar a mexer-se, sob o cerco incansável da velha direitona
udenista golpista que, aqui, está organizada na mídia-empresa e na universidade
há mais de 50 anos, e jamais esteve fora do Executivo há mais de 500
anos.
Essas
empresas “de internet” – que não nasceram do nada e são fruto de um determinado
momento dos desenvolvimentos do capital no planeta – talvez só sejam eficientes
para construir dissidências, movimento que, evidentemente, sempre interessa
muito mais ao capital que ao trabalho e à resistência, onde absolutamente
ninguém precisa de dissidências e a sobrevivência de todos sempre dependeu e
depende de união, solidariedades, confluências, convergências, alianças e
pactos.
Afinal,
como se comprova todos os dias, basta uma futriquinha de 141 caracteres da
Eliane Cantanhêde, para semear confusão suficiente para MUITAS dissidências,
sobretudo entre os petistas, que, historicamente, têm cabeça (política) muito
fraca.
Mas
para construir e preservar uniões, solidariedades, confluências, convergências,
alianças e pactos, é preciso MUITO mais que 141 caracteres e talvez seja
crucialmente indispensável poder (e saber) construir mais argumentação a favor e
menos frasezinhas “do contra” – metidas a “críticas”, ou metidas a “éticas”, ou
metidas a “boazinhas” em geral, todas, sempre, intragavelmente liberais.
Seja
como for, a coisa não é tão simples como fazer oposição a “regimes repressivos”
classificados por parâmetros dos jornais do Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão)
ou do New
York Times/Pentágono/complexo industrial-militar/Israel e outros agentes do
acanalhamento da luta dos pobres, no mundo.
No
Brasil-2012, trata-se de fazer oposição aos aparelhos ideológicos que operam em
estado democrático de direito, numa democracia representativa e legal, na qual,
contudo, a mídia é partidarizada e elege; e onde, quando a mídia partidarizada
não elege, ela é capaz de passar (só até agora) quase dez anos trabalhando,
todos os dias, para derrubar governos eleitos que não sejam os governos que a
mídia – e uma camada intelectual espantosa e persistentemente conservadora e
reacionária – prefeririam ver eleitos.
Marxistas
que tenham lido alguns parágrafos de Marx, que seja, em versão para a 5ª. série
do fundamental, que seja, logo perceberão que o articulista abaixo JAMAIS ouviu
falar de Marx. Não sabe das artimanhas da ideologia. Vive da firme ilusão de que
seria possível democratizar os mervais-pereiras. Assim como imagina que as
revoluções árabes tenham surgidas do nada, sem passado, e que teriam sido
construídas, do zero, pelo Twitter.
O
artigo abaixo é de uma indigência, no plano da interpretação política do mundo,
que dá dó. Mas, com esse nada, em matéria de compreensão política do mundo, o
tal de Zuckerman já arranjou um baita empregão no MIT, púlpito para conferências
e a admiração incondicional de Doctorow e da editoria de tecnologias do
Guardian!
O
que não seríamos capazes de fazer, da e com a Internet, então, nós, que lemos
Marx e (pelo menos alguns petistas, esperemos) sabemos das arapucas da
ideologia, da democracia representativa sob reinado de Wall Street, da mídia partidarizada e
ativa, empenhada em atuar como agente de propaganda política?! (Sim, mas, se
sabemos... por que só fazemos repetir, pelo Twitter, a pauta dos jornalões do Grupo
GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão?!))
Seja
como for, a ideia marxiana de fundo coincide com o que aí se lê: “É 2012 e a
luta continua. Vamos trabalhar.” Só a luta ensina.
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| Cory Doctorow |
Há um ano,
resenhei o livro The Net Delusion
[A Net como ilusão], de Evgeny Morozov, análise cética do papel da
internet nas lutas globais por justiça.
A ideia central da
crítica de Morozov é o fato inegável de que Facebook, Twitter, YouTube e outras ferramentas de mídia
social são monumentalmente inadequadas para usar em cenários revolucionários
hostis, porque a repressão sempre será informada sobre locais de reunião,
manifestações programadas e as causas dos protestos e manifestações; essas
ferramentas expõem os usuários à violência de governos
repressivos.
Mais ainda,
revelam os laços sociais entre os dissidentes, facilitando a tarefa das polícias
secretas, que podem cercar os movimentos sem precisar recorrer a recursos
tediosos de gravações clandestinas e vigilância física, para saber quem
prender.
Naquela resenha,
argumentei que os riscos detectados nessas ferramentas não eram inerentes a
elas. Nada impedia que se criasse uma ferramenta do tipo Facebook, que ajudou a galvanizar e
organizar a resistência na Tunísia, sem expor os usuários ao risco de serem
presos e torturados (para os principiantes: bastaria abolir a exigência de “nome
verdadeiro” do Facebook, e permitir
que os usuários usassem pseudônimos).
Mas no contexto no
qual nasceu Facebook – uma
brincadeira que começou em Harvard e que se tornou poderosa máquina global de
publicidade – não havia razão alguma para que alguém envolvido no
design do sistema pensasse em torná-lo invulnerável
a ataques de ditadores e seus apparatchiks.
Agora, que essa
necessidade afinal apareceu, as pessoas que se preocupam com a dor dos que
sofrem sob regimes opressivos podem trabalhar com os desenvolvedores de
ferramentas que ajudem os usuários, sem os expor à
repressão.
E, de fato, no ano
passado, viu-se enorme quantidade de energia mobilizada nessa tarefa, que
resultou no desenvolvimento de plataformas de “vazamentos” como Wikileaks; de
ferramentas que possibilitam o anonimato como Tor; e aumentou muito o número de
usuários desses recursos.
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| Ethan Zuckerman |
Até aí, tudo bem. Mas ontem
assisti à conferência de Ethan Zuckerman, 2011 Vancouver Human Rights, intitulada “Cute Cats and The Arab Spring”
[Gatinhos Lindinhos e a Primavera Árabe], e percebi que Morozov e eu
erramos, ambos. Zuckerman é diretor do Centro para Mídias Sociais do MIT [orig.
MIT's Centre for Civic Media] e
fundador do Geekcorps, uma ONG que manda técnicos para o mundo em
desenvolvimento para trabalhar em iniciativas tecnológicas sustentáveis surgidas
localmente [1].
Zuckerman sabe
muito sobre a dura realidade do dia a dia do lugar da internet na luta pela
liberdade de expressão e justiça, em alguns dos contextos mais brutais e nos
regimes mais repressivos do mundo.
Vale a pena ouvir
toda a conferência, mas interessei-me especialmente pela “Teoria dos Gatinhos
Lindinhos” de Zuckerman, sobre a revolução internética.
O argumento de
Zuckerman é o seguinte: embora YouTube, Twitter, Facebook (e outros serviços sociais
populares) não sejam eficazes para proteger dissidentes,
ainda assim são o melhor lugar do mundo para iniciar dissidências,
por várias razões.
Primeiro, porque
se o YouTube cai, numa internet
nacional, todos percebem, não só os dissidentes. Mas se um governo repressivo
censura uma página que expõe a brutalidade oficial, só os que conheçam a página
saberão do ato de censura.
E quando o YouTube é censurado, todos os que adoram
ver gatinhos lindinhos descobrem que sua página preferida está fora do ar;
começam a perguntam por quê, e assim acabam descobrindo que há vídeos que
comprovam a brutalidade oficial, e que o governo censurou o YouTube para impedir que as pessoas
vissem a brutalidade oficial.
Segundo, a
ferramenta mais amplamente utilizada por governos opressivos contra páginas de
dissidentes é o DDoS,distributed denial of service
[negação distribuída de serviço], quando se mandam enormes ondas de
tráfego das redes de milhares de PCs alinhados, que provocam sobrecarga no
servidor alvo e derrubam a internet.
Serviços como Twitter, Facebook e YouTube sobrevivem muito melhor a esses
ataques, que uma página doméstica de dissidentes.
Finalmente,
Zuckerman argumenta que a lição da Primavera Árabe é que revoluções são
iniciadas por pessoas comuns, oprimidas por sofrimentos da vida diária – prisões
arbitrárias, corrupção e brutalidade policial – e essas pessoas usarão a
ferramentas que conheçam, para se manifestar.
A primeira ideia
que lhe passa pela cabeça, depois de você capturar um vídeo para telefone
celular que mostre a polícia assassinando alguém não é “Vamos ver se há alguma
ferramenta construída para ativistas, que eu possa usar para passar adiante
esse clip”. A ideia que ocorre é “Melhor
subir isso no Facebook/YouTube/Twitter, para que todos
vejam”.
Esse último
argumento é, para mim, o mais convincente. Embora ferramentas para ativistas
sejam vitais para manter uma luta, elas jamais serão o primeiro recurso do
sistema, quando acontecem os desastres.
O que implica que
o único modo para garantir a segurança de ativistas, dissidentes e de todos que
lutam contra a opressão, é, seja lá como for, convencer as pessoas que criam as
ferramentas sociais mais populares a fortalecê-las para que suportem os
confrontos das lutas reais.
Para começar, essa
tarefa é dificílima. Mas é tornada ainda mais difícil ante as exigências dos
governos “liberais” na Europa, Canadá, EUA e outras “nações livres”, que querem
garantir que seus governos possam espionar os próprios cidadãos que apareçam nas
mídias sociais.
Acrescente-se a
isso a insanidade de leis como, nos EUA, a Lei Antipirataria [orig. Stop Online Piracy Act (SOPA)], que
exige dos serviços que espionem os usuários e deletem links com conteúdo não permitido, e o
problema torna-se ainda mais difícil.
Não é quadro
estimulante. Mas, pelo menos, nos oferece um mapa do
caminho.
Primeiro, temos de
convencer nossos próprios governos de que, quando mandam espionar atrás das
portas e apagar links das mídias
sociais, garantem as mesmas capacidades também aos
ditadores.
Segundo, é preciso fazer
a conexão entre a aplicação das leis de
copyright e a correspondente fiscalização e as lutas
globais contra a injustiça, explicando sempre, tantas vezes quantas sejam
necessárias, que é impossível ter um sistema que impeça a espionagem por
polícias secretas, e permita a espionagem pelas
majors das comunicações e
mídia.
Finalmente, temos de
convencer os empresários de que é do interesse deles promover as mudanças de
arquitetura de sistemas que protejam seus usuários de prisões arbitrárias,
tortura e assassinato, quando fizerem a transição não planejada, das páginas de
gatinhos lindinhos para as páginas de denúncias de
atrocidades.
Mas é 2012, e há
anos pela frente. Vamos trabalhar.
Nota
dos tradutores
[1]
Para avaliar o que Zuckerman sabe do mundo, ouçam sua
conferência (em inglês) onde
fala até de “Cala boca, Galvão”. A ignorância dos norte-americanos sobre o mundo
e a ilusão em que vivem, de que sempre conseguirão aprender rápida e facilmente
o que não sabem, é REALMENTE IMPRESSIONANTE.