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terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Qual o legado de Aaron Swartz?


15/1/2013, Maria Bustillos, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Lawrence Lessig
O sistema de leis, [construído] para o mundo analógico e redigido nos anos 1970s não faz, literalmente, sentido algum em mundo digital, não porque o copyright não faça sentido; o copyright é importante; mas o modo como o copyright é implementado numa infraestrutura digital não faz sentido algum. De fato,  já se sabe que as leis têm, mesmo, de ser atualizadas. Mas sempre houve gente, forças, que jamais tiveram interesse algum em modernizar as leis do copyright, porque lucram com o sistema arcaico. E o governo dos EUA tornou-se Procurador vigilante, em nome daquelas forças, na defesa daquelas forças.
O muito que Aaron sabia que estava em disputa no processo que o sistema legal dos EUA movia contra ele levou Aaron ao desespero. Lawrence Lessig, professor da Faculdade de Direito de Harvard

Maria Bustillos
É muito importante distinguir claramente entre o ativismo de Swartz e a luta contra o copyright. Aaron nunca trabalhou na direção de impedir que os detentores de direitos de autor sejam pagos. Aaron nunca foi dos que entendem que não deva existir nenhum direito de autor.
O que ele queria era liberar a todos o acesso a documentos – produzidos por acadêmicos – e por cuja propriedade todos os cidadãos já pagamos, quando pagamos impostos.
Aaron trabalhou para garantir acesso público a artigos cuja propriedade pertence a instituições de pesquisa e que, portanto, são documentos que têm de ser livremente acessíveis a todos os cidadãos que pagam impostos. Maria Bustillos, escritora e jornalista

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Aaron Swartz começou a fazer programação de computadores aos 12 anos. Aos 14, foi co-criador do padrão RSS (internet syndication standard) que permite que usuários da Internet reúnam conteúdo que lhes interesse e agreguem conteúdo.

Depois de um ano de curso, abandonou a Universidade Stanford e fundou uma empresa de inovação para a Internet, a Infogami; adiante, a Infomami fundiu-se com a página Reddit, uma rede social de noticiário e entretenimento online. A Reddit, logo depois, foi comprada pelo conglomerado-gigante de comunicações Conde Naste.

A venda tornou Swartz muito rico. Ele, então, passou a dedicar sua energia a campanhas a favor da liberdade na Internet, e co-fundou “Demand Progress”, um grupo de ativismo.

Participou ativamente da organização da bem-sucedida campanha “Stop Online Privacy Act (SOPA)”, que visava a monitorar a Internet à caça de violações da regra de liberdade total na rede e derrubava as páginas onde houvesse violações.

Na 6ª-feira, 11/1/2013, Swartz suicidou-se em New York.

Sua família e seu sócio divulgaram declaração em que se lê:

A morte de Aaron não é simples tragédia pessoal. É efeito de um sistema de justiça criminal contaminado pela intimidação e pela perseguição ilegal, descabida, inadmissível, sem limites.

Decisões tomadas pelos agentes do Gabinete do Procurador Geral dos EUA no Estado de Massachusetts e no MIT empurraram Aaron, de fato, ao suicídio.

O Gabinete do Procurador Geral dos EUA lançou contra Aaron uma carga excepcionalmente violenta de acusações, que implicariam, no caso de condenação, em 30 anos de cárcere, como castigo para um crime alegado, do qual não há vítimas.

No processo quase inimaginavelmente doloroso de esperar por esse julgamento descabido, ao contrário de JSTOR, que o apoiou e defendeu, a direção do Massachusetts Institute of Technology, MIT não defendeu Aaron, nem os mais solenes princípios de sua própria comunidade acadêmica e científica. [1]

Rafael Reif
Rafael Reif, presidente do MIT, anunciou abertura de inquérito para esclarecer o papel do MIT e distribuiu declaração de solidariedade:

Quero manifestar bem claramente que eu e todos no MIT estamos profundamente entristecidos pela morte desse jovem promissor, que tocou tão de perto a vida de tantos. Dói pensar que o MIT tenha tido qualquer papel na sequência de eventos que culminaram nessa tragédia. É hora de todos refletirmos sobre nossas ações – o que inclui também todos nós, no MIT.

Como motor que impulsionava o trabalho de Swartz, havia a crença apaixonada de que era absolutamente indispensável manter a vigilância para assegurar que a Internet continuasse aberta a todos e para dar a mais ampla divulgação a qualquer impedimento que se tentasse criar à plena liberdade de acesso à informação.

Tim Lee
Um dos problemas subjacentes é que só temos a Lei das Fraudes e Abusos Computacionais [orig. Computer Fraud and Abuse Act] que foi aprovada nos anos 1980s. Hoje já se sabe muito mais do que naquela época sobre como funciona o mundo online. Aquela lei absolutamente não ajuda a entender o que significa computer hacking (...) Por isso, Procuradores e juízes acabam decidindo e julgando, não segundo a lei, mas segundo o que haja na cabeça de cada um. Tim Lee, professor adjunto no Cato Institute

Na campanha SOPA, Swartz disse:

Há uma batalha em andamento nesse instante, uma batalha para definir tudo que acontece na internet em termos de coisas tradicionais que a lei absolutamente não entende. Partilhar um vídeo por Bit Torrent é a mesma coisa que roubar coisas de uma loja de antessala de cinema? Ou é a mesma coisa que emprestrar um cassete de filme a um amigo? Recarregar muitas e muitas vezes uma mesma página de internet é igual a uma manifestação pacífica, na calçada, ou é igual a quebrar todas as vitrines de uma loja de rua? A liberdade de conectar-se é como a liberdade para manifestar-se, ou é como a liberdade para matar? Essa lei será um dano, imenso e potencialmente permanente. Será uma perda. Se nós perdermos a capacidade para nos comunicar uns com os outros pela Internet, terá sido introduzida uma mudança na Bill of Rights [Constituição dos EUA]. As liberdades garantidas na nossa Constituição, as liberdades sobre as quais os EUA foram construídos, terão sido, repentinamente, deletadas.

A nova tecnologia, em vez de nos trazer maior liberdade, terá servido para detonar direitos fundamentais que todos nós sempre consideramos assegurados. (...)

E acontecerá outra vez. Não há dúvidas. Virá sob outro nome, e talvez sob novo pretexto e provocará dano e causará perdas de outros modos. Mas que ninguém se engane – os inimigos da liberdade para conectar-se não desapareceram. O fogo nos olhos daqueles políticos não se apagou. São muitos, são gente muito poderosa, os que querem cravar as garras na internet.

E, falando francamente, não há muita gente cujos interesses os empurrem para proteger as liberdades contra tantas ameaças. Há até grandes empresas, que, para dizer bem claro, lucrarão mais num mundo no qual consigam censurar os pequenos concorrentes. Maria Bustillos é escritora e jornalista

As acusações contra Aaron Swartz

Aaron foi indiciado em junho de 2011. O Procurador Federal no Estado de Massachusets acusou-se de invadir o centro de computação do Massachusetts Institute of Technology (MIT).

A acusação diz que, com um computador seu, teria conseguido acesso à rede de computadores do MIT; e conseguiu baixar, para aquele seu computador, quatro milhões de artigos de JSTOR – um arquivo de artigos e periódicos científicos de autoria de acadêmicos.

Foi acusado de fraude eletrônica, fraude computacional, crime de apropriação indevida de informação e grave dano a sistema protegido de computador.

Se condenado, poderia receber pena de 35 anos em prisão fechada e multas num total de 1 milhão de dólares.




Nota dos tradutores
[1]  Ver declaração completa de 15/1/2013, redecastorphoto em: Aaron Swartz (1986-2013), ativista, combatente da liberdade, “hacker”.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

ACTA: O dia do juízo (na Europa)


Não é o juízo final sobre o ACTA, mas a votação que vai fazer-se esta quinta-feira na Comissão de Comércio Internacional (INTA) do Parlamento Europeu poderá ser determinante para que a ofensiva censória e contra a privacidade dos cidadãos possa ficar sem efeito.

Artigo | 20 Junho, 2012 - 18:17

Manifestação contra o ACTA em Bruxelas.
Foto de MEP Josef Weidenholze
Nestas horas que antecedem a votação multiplicam-se as manobras, através da Comissão Europeia, dos lobbies representativos dos grandes interesses e objetivos por detrás do tratado com a estratégia de pelo menos arrastar o processo para o Tribunal Europeu de Justiça, congelando-o.

Os partidos da maioria conservadora-socialista do Parlamento Europeu estão profundamente divididos sobre o assunto, sendo as "tropas" favoráveis ao perigoso acordo comandadas pelo presidente da INTA, o socialista português Vital Moreira.

O ACTA, Acordo Mundial Contra a Contrafação, é o centro de uma polémica de âmbito mundial que, lançado e negociado em segredo por alguns grandes potências capitaneadas por Estados Unidos, Canadá, Japão e envolvimento total da União Europeia, pôs desde o início de lado os países em vias de desenvolvimento.

O alarme sobre as perigosas características do acordo, patrocinado pelas grandes corporações comerciais e industriais de base norte-americana, sobretudo a indústria de entretenimento, foi dado através da leitura de vários documentos oficiais tornados públicos através do site WikiLeaks.

O ACTA é um tratado que, através da alegada pretensão de combater a contrafação, defendendo os direitos autorais e de propriedade, cria condições para ataques contra a liberdade de expressão e a privacidade dos cidadãos, principalmente na Internet. Este objetivo é há muito perseguido pelas instituições mundiais dominantes, como é demonstrado pelos projetos contra a liberdade na Internet apresentados no Congresso dos Estados Unidos – o SOPA e o PIPA.

A aprovação do ACTA pelo Parlamento Europeu é fundamental para que entre em vigor no espaço da União. Numa primeira votação em plenário, realizada há um ano, a votação foi ligeiramente favorável ao tratado, numa altura em que o debate sobre as características do documento ainda não tinha sido aprofundado com todos os elementos e reflexões que se foram tornando disponíveis.

De então para cá as posições dentro dos socialistas e mesmo no PPE (direita) vêm-se alternando e as votações que se têm realizado sobre os relatórios em várias comissões do Parlamento Europeu têm sido no sentido da reprovação do ACTA.

A votação de quinta-feira na Comissão de Comércio Internacional não é decisiva, mas pode ser uma indicação determinante para os resultados finais em plenário durante a sessão de Julho.

Por isso, os lobbies e a Comissão Europeia têm multiplicado manobras e pressões sobre os eurodeputados pelo menos para que não reprovem já o tratado e permitam que possa ser apreciado pelo Tribunal Europeu de Justiça, um processo que poderá levar até dois anos e é uma estratégia "de congelamento e esquecimento", como dizem alguns parlamentares.

O comissário do Comércio, Karel de Guth, pediu para falar à comissão antes da votação na quinta-feira, o que foi concedido desde que a sua intervenção fosse seguida pelas dos coordenadores. De Guth mudou então de ideias e pediu para que a sua intervenção fosse na tarde de quarta-feira, não sendo conhecida ainda a decisão sobre esse assunto.

Outro sinal de que as movimentações e as pressões são muitas é o facto de, segundo o jornal Le Soir, de Bruxelas, um deputado do PPE ter pedido que a votação seja secreta, o que revela os tipos de comportamentos que estão em curso sobre o assunto e que confirmam o perigoso carácter das questões levantadas sobre os seus verdadeiros objetivos.

Se em Julho o plenário do Parlamento Europeu votar contra o tratado, a União Europeia tornar-se-á território livre do ACTA.

Publicado no site do Grupo Parlamentar Europeu do Bloco de Esquerda

Artigos relacionados:
Enviado por Esquerda.net

sábado, 17 de março de 2012

"Anonymous", a grande rede e a rua: para uma convergência


15/3/2012,Giorgio Griziotti, Dario Lovaglio e Tiziana Terranova, Savoirs Communs  [1]
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Há cerca de um ano, uma nova força de manifestação da multidão pela grande rede impôs-se à atenção do mundo inteiro, primeiro na batalha por Wikileaks, depois, a partir da Tunísia, nas revoltas árabes e nos movimentos 15M eOccupy.

Depois de um ano chave, grávido de ameaças e promessas, esses recém-nascidos da governança financeira, que nada sabem de um movimento global completamente novo e, conscientes da forte ameaça que é, contra eles, a comunicação horizontal entre as multidões, fazem pesar sua dominação e tentam retomar a iniciativa de ataque contra a liberdade na grande rede.

Primeiro, foi a tentativa de fazerem aprovar a lei SOPA, Stop Piracy Online Act, e o projeto PIPA, Protect Internet Protocol Act. Depois, veio o fechamento da página Megaupload nos EUA.

Hoje somos chamados para outro grande combate mundial, dessa vez contra o ACTA, Anti-Counterfeiting Trade Agreement [Tratado Comercial Antipirataria], tratado liberticida de defesa do copyright e de penalização da pirataria. 

Preparado em segredo pelos executivos de uma quarentena de países, sem qualquer debate público ou parlamentar, o ACTA, cujo relator francês, Kader Arif, abandonou o projeto (“Não participarei dessa palhaçada” – disse ele), já foi assinado por Obama, o qual, contudo, recusou-se a assinar a lei SOPA

O [Tratado] ACTA não será adotado na Europa, se não for aprovado no Parlamento Europeu. Manifestações na Polônia e em vários países, entre os quais a França, e as 2,5 milhões de assinaturas em desacordo levaram a Comissão Europeia a cercar-se de algumas cautelas. Pediu o parecer da Corte Europeia de Justiça, para determinar se o ACTA seria incompatível, de algum modo, com os princípios da União Europeia ou contrário ao espírito da proteção dos direitos humanos.

Reforçar os direitos de propriedade pelo copyright põe à vista um paradoxo: de um lado, o capital precisa desse reforço para preservar a ampliar sua posição em lucros, baseada na captura do “tempo cerebral disponível” [na captura da “mais-valia, do trabalho da multidão”, na formulação de Zizek, em “A revolta da burguesia assalariada”, 17/1/2012, (NTs)] e na propriedade dos dados informacionais; de outro lado, reforçar o copyright cria obstáculos à cooperação social, altamente produtiva porque não se faz a partir da divisão do trabalho, mas a partir do valor produzido pela circulação de fluxos de desejos, de percepções, de afetos. Essa circulação produz novas sedimentações de significados, produz o comum e produz comuns em quantidades vastíssimas, que excedem a capacidade do capital para capturá-los.

Disputa entre duas alas do capitalismo

Essa contradição está no cerne da batalha interna que se trava entre duas alas do capitalismo:

(a) a ala dos capitalistas históricos, os “que estão no poder” [orig. incumbent], como disse Yochai Benkler [3], constituída dos grandes conglomerados do entertainement, para os quais o copyright é vital; e
(b) a ala das grandes empresas de Web 2.0, chamada, por Mackenzie Wark  [4], de “a classe vetorial”, que se alimenta, realmente, da grande produção comum.

Segue-se disso, que as leis SOPA e PIPA são, por um lado, defendidas pelas majors e pelas cariátides das mídias verticais, como as grandes empresas que ainda mantêm impérios jornalísticos, como os Murdoch & Cia. [5]; e, de outro lado, são combatidas pelos Google, Facebook, Ebay, Amazon e até pela convertida de última hora, a Microsoft; esses, de fato, não passam de falsas virgens, cujo objetivo nada tem a ver com alguma liberdade de manifestação na rede, mas com a construção e demarcação de gigantescos e muito rendáveis feudos (áreas privadas de caça?), como diz, com  precisão, Infofreeflow [6]

Não podemos, portanto, concordar com o que diz Manuel Castells em entrevista recente, que “Google é mais aliada que inimiga” [7], porque é simplesmente “um negócio, não uma ideologia”. Há contradição em termos, se se fala de uma das primeiras capitalizações mundiais; e o que dizer, depois disso, da estratificação étnica praticada em seu célebre campus, Googleplex, no qual os trabalhadores têm faixas de cores diferentes, diferentes direitos de acesso e diferentes proibições para a socialização?

Em termos mais gerais, o debate sobre a internet depois do fechamento da página Megaupload pelo FBI, reforçado pela decisão, da empresa Twitter, de implantar regime de autocensura, que faz o jogo dos poderes constituídos, está marcado por duas tendências: de um lado, os entusiastas da rede, que veem em Megaupload um veículo importante, graças aos seus traços de horizontalidade e de liberdade para a troca de informações. De outro lado, os que criticam um capitalismo especificamente digital, baseado na captura e na exploração de dados.

O conceito “capitalismo digital” sugeriria a separação entre um capitalismo em rede e um outro capitalismo, “material”, separação na qual o primeiro seria marcado por um conflito dialético entre o parasitismo e a cooperação social; e o segundo, por outro conflito, entre o empresário e o operário.

Em todas essas, o capitalismo não faz distinção entre a produção imaterial e a produção material – o que é válido para empresas de computação, como Amazon ou Apple. O capitalismo digital não é uma esfera em si, para retomar a crítica tradicional ao capitalismo cognitivo, cuja definição exclui a dimensão material da produção e da exploração, tese defendida no artigo de Wu Ming sobre Fétichisme de la marchandise digitale et exploitation cachée : les cas Amazon et Apple  [8] (O fetichismo da mercadoria digital e exploração oculta: os casos de Amazon e Apple). As condições de trabalho nas empresas digitais – vida carregada de stress e depressões, e número alarmante de suicídios – indicam claramente que o que se produz nos armazéns da Amazon e nas fábricas de smartphones da chinesa Foxconn não é diferente, no fundo, dos implacáveis métodos de “ou aumenta a produção ou cai fora”, que forçam à competitividade até a última gota de sangue nos arranha-céus de La Défense [9].

Mesmo no setor das tecnologias digitais da informação e da comunicação, veem-se grandes investidores e investimentos, que vão das imensas, embora ocultadas e antiecológicas servers farms da empresa Google [10] e da Cloud Computing, até a oferta de novas redes (4G), e que, todos, utilizam as mesmas práticas possíveis de redução de custos e de discriminação do trabalho assalariado. A massiva deslocalização de fábricas na direção da Índia e de outros países onde os salários são menores e, também, a recente lei francesa que precariza e torna expulsáveis os jovens imigrados recém formados nas Faculdades de Engenharia privadas e pagas a preço de ouro, são provas desse processo.

O capitalismo digital está também fortemente implicado na governança global do capitalismo rentista. Esse capitalismo opera num continuum de produção e de circulação que, ao mesmo tempo, intensifica os ritmos da exploração e da proletarização do trabalho assalariado e se apropria de grande parte do trabalho livre produzido com os dispositivos (PCs, smartphones e tablets) não raras vezes comprados a prestações. Tudo isso força a utilização de meio de pagamento obrigatório (empresas iTunes, Ebay/Paypal, Amazon Oneclick) e empurra muitos compradores para as garras do endividamento e da exploração financeira.

Sem negar a existência da exploração da produção material, sobretudo nas fábricas e escritórios, queremos chamar a atenção para a evidência de que a grande rede é o atrator que catalisa e reorganiza o conjunto das configurações produtivas além de qualquer divisão ficcional entre trabalho material e imaterial, real e virtual, ou entre mídias verticais e horizontais. A grande rede, de fato, não é constituída só dos fluxos de dados, programação ou desenvolvimento e instalação de programas; também é constituída das infraestruturas, servidores, laptops, smartphones e outros tablets; e, como consequência implícita, a grande rede também é exposta à invasão pervasiva desses dispositivos.

Dado que não se vê qualquer choque entre esses dois capitalismos, mas um processo de reconfiguração que se organiza em torno da hegemonia das finanças, da informação e da circulação, parece bem claro que o único modo de alterar a situação presente passa pela auto-organização do trabalho vivo das multidões no território e nas redes.

ANONYMOUS e OCCUPY

Dentre os exemplos de auto-organização da multidão em rede que emergiram há alguns anos, a experiência dos Anonymous parece-nos absolutamente crucial. Esse grupo está no centro da grande reação-resposta ao fechamento da página Megaupload e da mobilização contra o tratado ACTA. Sem aspirar a refazer toda a história do grupo em poucas linhas, os Anonymous nasceram praticamente com a campanha contra a seita da Cientologia e afirmaram-se com o apoio que dão a Wikileaks, quando atacaram diretamente as plataformas nevrálgicas de pagamento online, como Visa, Mastercard, Paypal, que haviam bloqueado, por iniciativa das próprias empresas, e sem qualquer justificativa legal, todas as doações a WikiLeaks. [11]

Interessante destacar o quanto a ação dos Anonymous e de seus hackers ativos na grande rede é cada vez mais claramente complementar e integrada aos movimentos Occupy e 15M e, simultaneamente, surge como alternativa às plataformas empresariais de comunicação social como Facebook ou Twitter. Além da osmose e das evidentes diferenças de contexto e modo de ação entre as grandes instâncias do movimento global, já emergem semelhanças marcantes no campo dos princípios e das modalidades de organização.

A infraestrutura técnica na qual se trava o debate público provocado e feito pelos Anonymous é o IRC (Internet Relay Chat), a primeira modalidade surgida de comunicação instantânea (chat) por Internet, que permite o diálogo simultâneo de grupos de pessoas, em “salas de bate-papo” chamadas ali “canais”. A topologia da rede IRC, como escreveu Dmytri Kleiner [12], preserva os princípios da comunicação entre usuários (peer to peer, P2P), em oposição à configuração atual de tipo cliente/servidor das plataformas de rede social [orig. social networking] baseadas na rede.

Os Anonymous criaram e utilizam vários canais autônomos, como lugares de debates públicos e para outras atividades de fundo humorístico (“só pelo sarro”, Lulz, LoL, \o/) ou consagrados a discussões sobre o social. Os canais de debate têm função semelhante à das assembleias dos movimentos Occupy e 15M, e nos três casos a coordenação das discussões é não hierárquica.

Como lembrado em artigo recente [13], há um código ético de funcionamento dos Anonymous, segundo o qual nem a liderança, nem a celebridade, em nenhum caso, são fim em si. Os Anonymous oferecem o que Mike Wesch [14] definiu como “uma crítica virulenta contra o culto pós-moderno da celebridade, do individualismo e do conceito de identidade”. Tudo isso se manifesta, em primeiro lugar, na recusa a identificarem-se por nome e sobrenome civis, identificação que, em geral, define o modelo político-econômico de plataformas como Facebook. O anonimato, nesse caso, permite adotar, no ambiente eletrônico, o mesmo tipo de andamento e de procedimentos adotado nas assembleias do movimento 15M, para evitar comportamentos egocêntricos; e favorece a que se insista sempre em buscar, escrupulosa e incansavelmente, o consenso possível caso a caso.

Os canais IRC, onde se constituem as várias facções dos Anonymous, são abertos ao público, mas os Anons exigem um mínimo de competências técnicas e de conhecimento do ambiente, para entrar ou para tornar-se administrador (ops) de operações. Os Ops têm a tarefa de manter a ordem e podem excluir pessoas que desrespeitem as regras culturais e decisões vigentes: no canal Anonops, por exemplo, é proibido fazer apologia da violência e discutir com a mídia. Os Ops podem participar do debate, mas não determinam os planos de ação nem as operações (raids) dos Anonymous.

Como no movimento dos Indignados, também nos Anonymous são as pessoas que mais trabalham que acabam por ser investidas de alguma autoridade; mas não são liberadas para exercer influência específica. As regras são mais rígidas para os contatos com o exterior: um Anon que se recuse a participar das ações diretas, de tipo “Negação Distribuída de Serviço” (DDoS) [15], e que fale com jornalistas, corre risco de expulsão. Entre os Indignados, todos podem falar aos veículos verticais de comunicação de massa (rádios, jornais, revistas e televisões) sobre o movimento, mas sempre, exclusivamente, em seu próprio nome: ninguém pode apresentar-se como representante ou porta-voz do movimento.

Se se considera essa convergência real, pode-se esperar que, no futuro, as barreiras técnicas que ainda separam essas instâncias do movimento da multidão venham a diluir-se; hoje, carregamos dispositivos conectados cada dia mais potentes, que permitem que nosso corpo, nosso espírito, nossa inteligência interajam com as redes. As vidas (do grego bios) estão hoje mais socialmente integradas, de modo mais intenso e contínuo, pela internet portátil, mediante várias redes e milhões de aplicações. Esse é um novo paradigma, que definimos como “bio-hipermidiático” [16].

É nossa impressão hoje, nosso sentimento, que a bio-hipermídia será um meio chave que permitirá integrar ainda mais significativamente os movimentos da rua e que se manifestam em rede.



Notas dos tradutores

[1] A página-rede Savoirscommuns.org nasceu em fevereiro de 2011, durante a Reunião Transnacional de Paris, sobre a constituição da rede KLF (Knowledge Liberation Front / Frente para a Libertação do Conhecimento) e ao tempo dos levantes no Mediterrâneo. Essa página-rede visa a ser mais um dos vários espaços de expressão da multidão de trabalhadores precários, estudantes, assalariados, migrantes, que se queiram reapropriar da riqueza que produzimos juntos. O espaço de nossa ação política é transnacional, porque nossas lutas comuns travam-se contra o sistema mundial da dívida, contra as políticas de austeridade e contra a precariedade. Por essa razão, recusamos a captura de nossa vida pelo endividamento perpétuo e pela arrogância da finança e dos financistas globais e seus bancos, suas empresas de seguro, seus fundos de pensão (de Savoirs Communs, “Quem somos”).  
[2] Publicado originalmente em italiano, por Uninomade.org; em inglês na página Opendemocracy.net; em francês noLe MondeDiplo.com. Traduzido do italiano ao francês por Giorgio Griziotti. Traduzido do francês ao português do Brasil pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu, de: “Netwar 2.0 : Vers une convergence de la rue et du réseau (recebido por e-mail).
[3] Em: Yochai_Benkler.






[9]La Défenseé “a Wall Street de Paris”. O bairro está localizado no extremo oeste de Paris. É o maior centro empresarial desenvolvido na Europa. 
[10]Google Platform - Os conjuntos de milhares de computadores onde opera o “cérebro” computacional da empresa Google, sempre cercado de sigilo máximo. 

[11] Sobre os Anonymous, ver “Anonymous: A ética da ação digital direta”, 27/1/2012. A partir daquela página, pode-se ler também vários artigos publicados pelo blog redecastorphoto, sobre os Anonymous.

[12] Em: NetWork Cultures, The Telekommunist Manifesto  

[13] 6/4/2011, MediaCommons, Biella Coleman em: “Anonymous: From the Lulz to Collective Action

[14] Em: Michael_Wesch


[16] 11/5/2011, André Steidel e Giorgio Griziotti, Savoirs Communs em: “Production du commun, réseaux et bio-hypermedia

quarta-feira, 7 de março de 2012

Somos Legião: (R) Evolução Digital


#sxsw #Legion
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Agende-se: 13/3/2012, 3ª-feira, das 11h às 12h
Exibição do filme
SOMOS LEGIÃO: A história dos Hacktivists.
Austin Convention Center, sala 18ABCD
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SOMOS LEGIÃO: A história dos Hacktivists (SXSW 2012) nos leva para dentro do mundo dos Anonymous, o coletivo “hack-ativista” que redefiniu a desobediência civil para a era digital. O filme narra a evolução do coletivo, desde as primeiras trolagens, até o movimento desabrochado, de alcance planetário. No último ano, Anonymous tem sido associado a “raids” contra centenas de alvos, que vão de instituições financeiras e empresas de cyber-segurança a ditadores estrangeiros. Os Anonymous tiveram papel central no movimento “Occupy” e recentemente lançaram os maiores raids de ataques DDoS da história, contra Hollywood e a lei SOPA.

Armado com companheiros das comunidades digital e do cinema, o autor/diretor Brian Knappenberger discute os desafios para fazer o filme, as raízes dos Anonymous e suas batalhas contra Hollywood.

PRESENTES:
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Brian Knappenberger, diretor de WE ARE LEGION: The Story of the Hacktivists

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Gregg Housh, ativista de internet, envolvido com o não-grupo online Anonymous. Seu trabalho inclui a coordenação global de demonstrações contra abusos de direitos humanos cometidos pela Igreja da Cientologia e assistência a membros do “Movimento Verde” iraniano, para que abrissem caminho até a imprensa mundial. Construiu um forte elo de confiança entre vários sub-não-grupos de Anonymous e atua como intérprete “jornalístico” nas grandes iniciativas online. Quando a m****a atinge o ventilador, a imprensa sempre pede socorro a Gregg.
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