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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Matt DeHart:Privacidade Coletiva e o Arquipélago Anônimo


Missivas de uma prisão de segurança máxima

Abril/2014, National PostMatt DeHart
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Dica de Biella Colleman pelo twitter, em: “Eloquente, apaixonada e poética defesa do anonimato, por Matt DeHart”

Matt DeHart é soldado norte-americano, atualmente preso no Canadá, depois de pedir asilo, fugindo dos EUA, onde é condenado por seu trabalho com os Anonymous.


Matt DeHart
O mar está subindo e as colinas que nos restam são poucas e muito distantes umas das outras. Mas essa não é discussão sobre a mudança climática, apesar dos perigos. Essa é discussão sobre o arquipélago anônimo no mar global da vigilância e da perda de nossa privacidade coletiva. Apesar de nossa privacidade individual estar hoje sob grave perigo, ainda há contramedidas para preservar nossos pensamentos e ideias contra olhos e ouvidos hostis. Ainda não podem ouvir a voz dentro da nossa cabeça, nem podem seguir todos, todo o tempo. Não podem roubar ideias de dentro da nossa cabeça, nem podem prever acuradamente nossas intenções imediatas nem nosso comportamento público. Eles ainda não têm esse poder, mas tentarão. Tentarão, porque cedemos a eles nosso direito à privacidade coletiva.

Parte 1

Porque “privacidade” não é coisa claramente definida na Constituição dos EUA, é o direito mais vulnerável que há. Embora como sociedade os norte-americanos ainda lutemos para definir e consagrar na Constituição ou criar limites à invasão à privacidade individual, nós já perdemos a batalha para proteger nossos direitos como comunidades, como grupos. Na verdade, só muito raramente pensamos sobre o nosso direito à privacidade coletiva.

Pensemos um pouco.

Dez indivíduos exercendo o direito de votar não podem ser contados como se fossem nove. O governo não pode entrar numa igreja, numa mesquita ou numa sinagoga e lá ficar, impedindo que quem queira entrar entre (à parte os que já estão infiltrados nas mesquitas), nem pode negar a uma parte dos membros o direito de rezar na igreja porque são muitos. Assim, ideias partilhadas por duas ou 20 pessoas são ainda menos protegidas que as ideias dentro da nossa cabeça. Nossos direitos coletivos diminuem, conforme aumentem as coletividades?

O governo responderá com o argumento da “expectativa razoável" para limitar a privacidade. É posição defensável, embora acabe sempre desmesuradamente exagerada, quando se aplica a protestos públicos ou fóruns públicos. Infelizmente, alguns governos habitualmente infiltram agentes em reuniões privadas, sem causa provável ou motivo razoável para suspeitas.

A solução restante foi reunir-nos em grupos menores ou tomar ainda mais cuidado com aqueles com os quais partilhamos ideias. É precisamente quando nosso círculo de contatos confiáveis encolhe, de um grande grupo para apenas uns poucos, até que só temos, de contato confiável, nós mesmos, que nosso conceito de privacidade e correspondentes expectativas começam a falhar. Não é legal ler meus pensamentos, mas é legal ler os pensamentos que partilho com um amigo, com dois, com dez? Qual a massa crítica a partir da qual se torna necessário vigiar ideias, algumas das quais são secretas?

Se o governo decidiu arbitrariamente que, digamos, grupos de dez ou mais, reunidos em segredo, têm de ser vigiados, o que impede o mesmo governo de diminuir o número arbitrariamente para cinco, depois dois, até chegar, no fim, a um só? Porque a ideia é que a singularidade deve ser observada e, sendo o caso, pode ser indispensável intervir contra ela, e a singularidade começa, pela própria natureza, com pequenos números.

Matt DeHart - Anonymous

Ideias em estado embrionário são vulneráveis. Para serem expressas, manifestadas, discutidas, aceitas ou rejeitadas, elas precisam de um coletivo, no qual possam ou diminuir ou crescer. Algumas ideias impopulares exigem espaço ainda mais restrito de privacidade, uma privacidade de coletivo, ou fenecem e morrem, ou permanecem sem serem jamais realmente formadas.

O governo dos EUA usa cinco argumentos gerais pelos quais ataca esse espaço restrito de privacidade coletiva, não importa que ideia esteja sob a específica proteção de um ou outro coletivo. São eles: terrorismo, segurança nacional, crime organizado, pornografia infantil e propriedade intelectual. Esses são os argumentos (mais geralmente) aceitos legitimamente e socialmente.

O problema que enfrentamos é que algumas das ideias que o governo considera mais perigosas e associadas a interesses do governo dos EUA não se encaixam em nenhuma dessas categorias aceitas. Num sistema tradicionalmente totalitário, as pessoas são presas e encarceradas por ideias políticas. Numa sociedade falsamente democrática, “ofensas” políticas podem ser rotuladas pelos termos de uma daquelas categorias socialmente aceitáveis. De um modo ou de outro, as pessoas acabam encarceradas.

Talvez infelizmente, ou desagradavelmente, é verdade que ideias políticas impopulares, assim como provas de crimes cometidos pelo estado podem, sim, ser igualmente protegidas naqueles pequenos coletivos, onde também se podem proteger comportamentos realmente ilícitos.

Mesmo assim, temos de manter a privacidade de nossos coletivos, ou a civilização ocidental deixará de existir.

Em Os Miseráveis, Victor Hugo descreve esses tipos que se reúnem em segredo em quartinhos dos fundos de estabelecimentos privados. Os homens urdiam em segredo mudanças positivas. Embora seja ficção, Hugo falava ali de eventos acontecidos.

A República Constitucional dos EUA não existiria sem quartos dos fundos privados e espaços coletivos secretos nos quais se reuniam os conspiradores que conspiravam contra a Coroa Britânica. Se o rei George tivesse um informante em cada grupo de conspiradores ou houvesse alguma coisa como a Agência de Segurança Nacional, a Revolução Americana jamais teria acontecido. Quando perdemos essa privacidade para manter coletivos, perdemos a capacidade para desafiar em massa o estado– sobretudo quando o estado, nos EUA, viola a própria Constituição. Isso é o que vemos acontecer hoje, aqui.

O último bastião para resistir contra a total perda de privacidade é o anonimato. Mediante o anonimato, podemos restaurar a privacidade coletiva.


*****
Parte 2, em breve (Arquipélago Anônimo).



Para saber mais sobre o caso de Matt, leia a matéria de Adrian Humphreys no National Post, Hacker, Creeper, Soldier, Spy: The Story of Matt DeHart (ing.).

Links


domingo, 28 de dezembro de 2014

Sony hackeada? A “mídia” dos EUA e Obama não dizem coisa com coisa

24/12/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

"Embarcou" na mentira de Obama
Os EUA tentam fazer crer, absolutamente sem apresentar qualquer prova, que a [empresa] Sony teria sido hackeada pela República Popular Democrática da Coreia (RPDC). Os editores do New York Times acreditaram em mais esse conto de Armas de Destruição em Massa e “exigiram” guerra contra a RPDC.

Moon of Alabama, como muitos outros, duvidamos seriamente, desde o início, do conto que o governo Obama pôs-se a repetir:

As ferramentas para hackear a empresa são bem conhecidas e de domínio público. A empresa Sony têm rede vagabundíssima de segurança interna e já foi hackeada várias vezes antes. Os hackers provavelmente tinham informantes internos. Para infiltrar-se, usaram servidores na Bolívia, na China e na Coreia do Sul. Não há prova alguma, zero-prova, até agora, de que a ação tenha sido patrocinada pelo estado.

Kurt Stammberger
Na sequência, apareceu o FBI para “explicar a prova” – mas também não convenceu. Agora, uma empresa séria de segurança anunciou que já identificou o verdadeiro hacker:

Kurt Stammberger, vice-presidente da empresa Norse de cibersegurança, disse à CBS News que sua empresa tem dados que desmentem o que o FBI divulgou.

“A Sony não foi hackeada: é dessas empresas que pede para ser detonada de dentro para fora” – disse Stammberger.
...

“Temos certeza de que não houve ataque algum coordenado pela RPDC, e que houve insiders ativos na implementação desse que foi um dos ataques mais devastadores de que se tem notícia” – Stammberger continuou.

Disse que os dados da empresa Norse estão apontando para uma mulher que se autoidentifica como “Lena” e diz ter conexões com um grupo de hacking conhecido como “Guardiões da Paz”. Norse acredita ter identificado “Lena” como alguém que trabalhou na Sony em Los Angeles por dez anos, e deixou a empresa em maio passado.

“Essa pessoa estava na posição exata e tinha o profundo background técnico necessário para localizar os específicos servidores que foram atingidos” – disse-me Stammberger.


O artigo diz também que os hackers só estavam interessados em dinheiro, e nada tinham a ver com esse filme [horroroso!] patrocinado pela Sony, que prega o assassinato de um chefe de Estado soberano, e com cuja propaganda [horrorosa] pró-assassinato o presidente dos EUA burramente se comprometeu publicamente.

Encontrar autores de ciberataques é processo difícil, impossível, mesmo, segundo muitos, e que quase sempre oferece só conclusões parciais. Sem outros tipos de provas, a identificação de autores de ciberataques errará mais vezes do que acertará.

Que haja já uma pessoa identificada com o conhecimento e possivelmente também com um motivo interno para o ataque, e sem qualquer conexão com a Coreia do Norte, torna cada vez menos confiável a “conclusão” do governo Obama, de que a RPDC seria “culpada” pelo ataque.

Tudo sugere que Obama, interessado em iniciar um conflito com a Coreia do Norte, simplesmente mentiu sobre a “prova”, exatamente como Bush mentiu sobre “armas de destruição em massa de Saddam”.

Nos dois casos, os jornalistas e editores do The New York Times participaram como repetidores crédulos e tolos, ou como cúmplices, no crime.


[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ver/ouvir versão em performance de David Johansen com legendas em português.


domingo, 17 de novembro de 2013

Declaração de Jeremy Hammond ao Tribunal de New York em 16/11/2013

16/11/2013, Jeremy Hammond, OEN – OpEdNews
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Jeremy Hammond

Declaração ao Tribunal, New York, EUA, 16/11/2013

Bom dia. Obrigado por essa oportunidade. Meu nome é Jeremy Hammond e estou aqui para ser sentenciado por atividades de hacking que executei durante meu envolvimento com os Anonymous. Estou preso no Centro Correcional de Manhattan há 20 meses, e tive muito tempo para pensar sobre como explicaria minhas ações.

Antes de começar, quero usar parte desse tempo para reconhecer e agradecer o trabalho das pessoas que me apoiaram. Quero agradecer a todos os advogados que trabalharam no meu caso: Elizabeth Fink, Susan Kellman, Sarah Kunstler, Emily Kunstler, Margaret Kunstler e Grainne O'Neill. Agradeço também a National Lawyers Guild, à Comissão de Defesa e Rede de Apoio Jeremy Hammond, aos Free Anons, à Rede de Solidariedade com os Anonymous, ao Grupo Anarquista Black Cross e a todos os demais que ajudaram com uma carta de apoio, escrevendo para mim, assistindo às audiências do Tribunal e divulgando minha causa e meu caso.

Agradeço também aos meus irmãos e irmãs trancafiados em prisões e aos que estão fora das prisões, ainda lutando contra o poder.

Os atos de desobediência civil e ação direta pelos quais estou sendo hoje sentenciado alinham-se todos pelos princípios de comunalidade e igualdade que guiaram minha vida.

Invadi os computadores de dúzias de empresas gigantes e instituições do Estado, entendendo muito claramente que o que fazia era contra a lei, e que minhas ações podiam jogar-me diretamente numa prisão federal. Mas senti que tinha a obrigação de usar minhas habilidades e competências para expor e denunciar a injustiça – e para trazer à luz a verdade.

Poderia ter alcançado os mesmos objetivos por meios legais? Tentei de tudo, de abaixo-assinados e campanhas eleitorais a manifestações pacíficas, e descobri que os que estão no poder não querem que a verdade seja exposta. Quando dizemos a verdade ao poder, somos ignorados, no melhor dos casos; ou brutalmente reprimidos, no pior. Estamos em luta contra uma estrutura de poder que não respeita nem os seus próprios mecanismos de fiscalização e equilíbrio, imaginem se respeitam os direitos dos seus próprios cidadãos ou a comunidade internacional.

Minha iniciação política aconteceu quando George W. Bush roubou uma eleição presidencial em 2000 e, na sequência tirou vantagem das ondas de racismo e patriotismo depois do 11/9, para lançar guerras imperialistas, não provocadas, contra o Iraque e o Afeganistão. Saí às ruas para protestar, acreditando, ingenuamente, que nossas vozes seriam ouvidas em Washington e que conseguiríamos parar a guerra. Em vez disso, fomos rotulados como traidores, espancados e presos.

Fui preso por numerosos atos de desobediência civil nas ruas de Chicago, mas só em 2005 comecei a usar minhas habilidades com computadores para quebrar a lei, em ação de protesto político. Fui preso pelo FBI por invadir os computadores de um grupo de direita, pró-guerra, chamado “Protest Warrior” – organização que vendia camisetas racistas em sua página Internet e agredia grupos antiguerra. Fui acusado, nos termos da Lei de Fraudes e Abusos por Computadores, e o “dano visado” no meu caso foi arbitrariamente calculado, multiplicando por US$500, os 5.000 cartões de crédito com os quais operava a base de dados de “Protest Warrior”, o que resultou num total de $2,5 milhões.

Minha sentença foi calculada a partir desse “dano”, embora nenhum cartão de crédito tenha sido usado ou algum dado tenha sido divulgado – por mim ou por qualquer outra pessoa. Fui condenado a dois anos de cadeia.

Na prisão, vi com meus próprios olhos a feia realidade de como o sistema de justiça criminal destrói a vida de milhões de pessoas mantidas em prisões fechadas. A experiência reforçou minha oposição contra as formas repressivas de poder e a favor de agir na defesa daquilo em que cada um acredite.

Quando fui solto, estava ansioso para retomar meu envolvimento nas lutas por mudanças sociais. Não queria voltar à prisão. Então, me dediquei ao trabalho de organizar comunidades, trabalho de superfície. Mas, com o tempo, frustrei-me com as limitações das manifestações pacíficas, que me parecem reformistas e inefetivas. O governo Obama continuou as guerras no Iraque e no Afeganistão, aumentou o uso de drones e não fechou a prisão da Baía de Guantánamo.

Por essa época, eu acompanhava o trabalho de grupos como WikiLeaks e Anonymous. Era inspirador e estimulante ver as ideias do hack-ativismo afinal dando resultados. Fiquei particularmente motivado pela ação heroica de Chelsea Manning, que revelou ao mundo as atrocidades cometidas pelos militares norte-americanos no Iraque e no Afeganistão. Ela assumiu enorme risco pessoal para vazar essa informação – porque acredita que a opinião pública tem o direito de saber, e por esperar que suas revelações seriam passo positivo para pôr fim àqueles abusos. Fica-se com o coração apertado, só de ouvir contar sobre o tratamento cruel que ela recebeu numa prisão militar.

Refleti profunda e longamente sobre escolher outra vez esse caminho. Tive de perguntar a mim mesmo: se Chelsea Manning mergulhou no pesadelo abismal da prisão, porque lutava pela verdade, como poderia eu, de boa consciência, fazer menos que ela, já que eu era capaz? Concluí que o melhor modo de demonstrar solidariedade era dar continuidade ao trabalho de expor fatos e enfrentar a corrupção.

Aproximei-me dos Anonymous, porque acredito em ação direta, descentralizada e anônima. Naquele momento, os Anonymous estavam envolvidos em operações de apoio aos levantes da Primavera Árabe, contra a censura, e em defesa de WikiLeaks. Eu tinha muito a oferecer como contribuição, incluindo competências técnicas, e podia articular melhor ideias e objetivos. Foram tempos entusiasmantes – o nascimento de um movimento digital de resistência, quando os conceitos e as competências do hack-ativismo estavam ganhando forma.

Interessava-me especialmente o trabalho dos hackers de LulzSec, que estavam quebrando alguns alvos importantes e iam-se tornando cada vez mais políticos. Por essa época, falei pela primeira vez com Sabu, que era muito aberto sobre as ações de hacking que ele dizia ter cometido, e estimulava os hackers a unir-se para atacar sistemas de computadores de grandes unidades do governo e de megaempresas, sob a bandeira do movimento “Anti Security”. Mas logo no início do meu envolvimento, os outros hackers de Lulzsec foram presos; restei eu, para quebrar sistemas e escrever press releases.

Hector Xavier Monsegur,
o traidor Sabu
Adiante, eu descobriria que Sabu foi o primeiro a ser preso, e que, durante todo o tempo em que eu falava com ele, ele já era informante do FBI.

Os Anonymous também se envolveram nos estágios iniciais de Occupy Wall Street. Participei regularmente nas ruas, como militante de Occupy Chicago, e entusiasmei-me ao ver um movimento mundial de massa contra as injustiças do capitalismo e do racismo. Ao final de uns poucos meses, as “Occupations” chegaram ao fim, destruídas por ataques da Polícia e prisões em massa de manifestantes, arrancados de suas próprias praças públicas.

A repressão contra os Anonymous e o Movimento Occupy deu o tom da ação dos Antisec nos meses seguintes – a maior parte de nossas ações de hacking contra alvos da Polícia foram retaliações contra as prisões de nossos camaradas.

Eu, pessoalmente, tomei por alvo os sistemas policiais, por causa do racismo e da desigualdade com que se aplica a lei criminal. Tomei por alvo as indústrias e distribuidores de equipamentos militares e policiais, que lucram com a fabricação e a venda das armas que os EUA usam para impor seus interesses políticos e econômicos por todo o mundo, e para reprimir cidadãos norte-americanos aqui mesmo. Tomei por alvo empresas privadas de segurança da informação, porque trabalham secretamente para proteger interesses do governo e de empresas privadas, à custa de atacarem direitos civis individuais, minando e desacreditando ativistas, jornalistas e outros que trabalham para conhecer e divulgar a verdade; e porque vivem de disseminar a desinformação.

Nunca tinha ouvido falar de Stratfor, até que Sabu falou sobre eles. Sabu estava encorajando pessoas a invadir sistemas, e ajudando a facilitar e dar organização estratégica aos ataques. Chegou a fornecer-me pontos vulneráveis dos alvos, passados a ele por outros hackers. Por isso, foi grande surpresa quando soube que, durante todo o tempo, Sabu trabalhava com o FBI.

Dia 4/12/2011, Sabu foi contatado por outro hacker que já havia invadido a base de dados dos cartões de crédito de Stratfor. Sabu, então, sob o olhar atento dos agentes do governo que o estavam manipulando, levou o hack para o movimento Antisec, convidando aquele hacker para nossa sala privada de bate-papo, onde ele forneceu os links para baixar toda a base de dados dos cartões de crédito, além dos pontos iniciais de vulnerabilidade para acessar os sistemas de Stratfor.

Passei algum tempo pesquisando Stratfor e revisando a informação que nos fora fornecida, e decidi que suas atividades e a base de clientes tornavam a empresa alvo bem merecido. Achei curioso que os ricos e poderosos clientes da base de dados de Stratfor só usassem seus cartões de crédito para doar para organizações humanitárias, mas meu principal papel no ataque era obter as pastas dos e-mails privados de Stratfor, onde, tipicamente, estão os segredos mais sujos.

Demorei mais de uma semana para conseguir mais acesso aos sistemas internos de Stratfor, mas acabei entrando no servidor principal. Era tanta coisa, que precisamos de vários servidores nossos para transferir os e-mails. Sabu, que estava envolvido em todos os passos da operação, ofereceu um servidor – que ele recebera do FBI e era monitorado pelo FBI. Nas semanas seguintes, os e-mails foram transferidos, os cartões de crédito usados para doações, e os sistemas de Stratfor foram desconfigurados e destruídos.

Por que o FBI nos apresentou o hacker que descobrira a vulnerabilidade inicial e por que o FBI permitiu que ele continuasse o que havia começado são coisas que, para mim, continuam a ser mistério total.

Resultado da ação de hacking contra os sistemas de Stratfor, conhecem-se hoje alguns dos perigos de haver uma indústria privada de inteligência sem qualquer tipo de regulação. Revelou-se através de Wikileaks e do trabalho de outros jornalistas pelo mundo, que Stratfor mantinha uma rede de informantes pelo mundo, informantes que a empresa usava para todos os tipos de atividade ilegal de vigilância, sempre a serviço de grandes empresas multinacionais.

Depois de Stratfor, continuei a quebrar outros sistemas-alvos, usando uma poderosa “zero day exploit” que me permitia acesso de administrador a sistemas que rodavam a popular plataforma Plesk de hospedagem de rede. Várias vezes, Sabu me pediu que lhe desse acesso a essa exploração. Recusei sempre. Sem ter seu próprio acesso independente, Sabu continuou a me fornecer listas de alvos vulneráveis. Invadi inúmeras páginas que ele me sugeriu, descarreguei as contas de e-mails e bancos de dados roubados no servidor FBI de Sabu; e passei a ele senhas e backdoors que permitiram que Sabu (e, portanto, também o FBI que controlava Sabu) controlassem aqueles alvos.

Essas intrusões, as quais foram todas sugeridas por Sabu quando já cooperava com o FBI, afetaram milhares de nomes de domínio; na grande maioria eram páginas oficiais de governos estrangeiros, dentre os quais XXXXXXX, XXXXXXXX, XXXX, XXXXXX, XXXXX, XXXXXXXX, XXXXXXX e XXXXXX XXXXXXX. [1]

Num caso, Sabu e eu demos informação de acesso a hackers que trabalharam para desconfigurar e destruir muitas páginas oficiais de governo em XXXXXX.

Não sei como outras informações que lhes forneci podem ter sido usadas, mas penso que a coleta e o uso desses dados, pelo FBI e, portanto, pelo governo dos EUA, têm de ser investigados.

O governo hoje está celebrando minha condenação e minha prisão, na esperança de que fechará a porta e encerrará a história para sempre. Eu assumi plena responsabilidade pelos meus atos, quando me declarei culpado. Quando o governo dos EUA será forçado a responder pelos seus crimes?

Os EUA inflam a ameaça que os hackers representariam, para justificar os negócios multibilionários do complexo industrial da cibersegurança, mas, ao mesmo tempo, o próprio governo é também responsável pela mesma conduta que ele mesmo processa e condena, e diz que trabalha para prevenir. A hipocrisia da “lei e da ordem” e as injustiças causadas pelo capitalismo não podem ser “curadas” por reformas institucionais; só podem ser corrigidas por desobediência civil e ação direta. Sim, eu violei a lei. Mas acredito que às vezes as leis têm de ser violadas, para criar espaço para a mudança.

Frederick Douglas
!818-1895
Nas palavras imortais de Frederick Douglas,

O poder não dá nada que não lhe seja exigido. Nunca deu e nunca dará. Descubra a quê algum povo submeteu-se em silêncio, e você terá a exata medida da injustiça e dos malfeitos impostos àquele povo, e a injustiça e os malfeitos continuarão, até que o povo se levante contra eles, seja com palavras, seja com armas, ou com ambos. Os limites de cada tirano podem ser medidos pela capacidade de tolerar dos que eles oprimem.

Não estou dizendo que não me arrependo de nada. Percebo que divulguei informação pessoal de gente inocente, que nada tinha a ver com as operações das instituições que tomei como alvos. Peço desculpas pela divulgação de dados que tenha ofendido pessoas e eram irrelevantes para meus objetivos. Acredito no direito individual à privacidade – contra a vigilância do Estado e contra agentes como eu; e vejo bem a ironia de eu ter-me envolvido em ataques contra esses direitos.

Meu compromisso é trabalhar para fazer desse mundo um lugar melhor para todos nós. Ainda acredito na importância do hack-ativismo como forma de desobediência civil, mas é hora, para mim, de mudar para outros modos de buscar a mudança. O tempo de cadeia pesa muito sobre minha família, meus amigos e a comunidade. Sei que precisam de mim em casa. Reconheço que, há sete anos, já estive à frente de um juiz federal, enfrentando acusações semelhantes, mas isso não diminui a sinceridade do que digo aqui hoje.

Custou-me muito escrever isso, para explicar minhas ações, sabendo que o que fiz – sinceramente – pode custar-me ainda mais anos de vida na cadeia. Sei que posso ser condenado a dez anos, mas espero que não seja, porque acredito que há muito trabalho a ser feito.

Mantenham-se fortes e continuem a lutar.




Nota dos tradutores
[1] Ontem (15/11/2013), Jeremy Hammond distribuiu documento por Pastebin, intitulado Targets supplied by FBI to Jeremy Hammond [Alvos fornecidos pelo FBI a Jeremy Hammond] em que todos esses nomes aqui censurados aparecem listados. No documento de pastebin, fica muito claro que Hammond não tem dúvidas de que as invasões “orientadas” por Sabu estavam sendo, de fato, orientadas pelo FBI, para alvos que interessavam ao FBI, inclusive a empresa Strafor.



terça-feira, 12 de novembro de 2013

Os revolucionários que vivem entre nós

Não deixem a paranoia e o medo afastá-los do ativismo. Trabalhem anônimos!

11/11/2013, [*] Chris Hedges, Truthdig
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Jeremy Hammond
NEW YORK – Jeremy Hammond estava sentado no Centro Correcional Metropolitano de New York, semana passada, numa pequena sala reservada para visitas dos advogados. Vestia o macacão de prisioneiro, largo demais. Muito alto e muito magro, o cabelo cai-lhe sobre as orelhas e está com uma barbicha rala. Falou com a clareza e a intensidade que se espera de um dos mais importantes prisioneiros políticos hoje presos nos EUA.

Sexta-feira, o ativista, de 28 anos, comparecerá para ouvir a sentença ante a Corte Distrital Sul de New York em Manhattan. Depois de ter-se declarado culpado, em troca de um acordo para reduzir a sentença, encara agora a possibilidade de ser condenado a 10 anos de prisão, por ter invadido os computadores da empresa de segurança privada Strategic Forecasting Inc., ou Stratfor, do Texas, que presta serviços sob contrato ao Departamento de Segurança Interna dos EUA; ao Marine Corps; à Agência de Inteligência do Departamento de Defesa e a inúmeras empresas entre as quais a Dow Chemical e a Raytheon.

Quatro outros envolvidos na mesma ação de hacking foram condenados na Grã-Bretanha, e todas as penas deles somadas – a mais longa foi de 32 meses – são muitíssimo menores que a pena possível de 120 meses que ameaça Hammond.

Hammond entregou o material todo à página WikiLeaks e à revista Rolling Stones e a outras publicações. Os três milhões de e-mails, quando tornados públicos, expuseram as ações de infiltração, monitoramento e vigilância contra manifestantes e dissidentes, sobretudo do movimento Occupy, feitas a serviço de empresas privadas e do estado de segurança nacional. Foi quando todos ficamos sabendo, comprovadamente, e talvez seja a revelação mais importante, que as leis antiterrorismo estão sendo aplicadas rotineiramente pelo governo federal dos EUA para criminalizar dissidentes democráticos não violentos, e para associar, falsamente, dissidentes norte-americanos e organizações internacionais terroristas. Hammond não procurava ganho financeiro. E nada recebeu.

Os e-mails que Hammond tornou de conhecimento público são parte das provas que instruem a ação que movi contra o presidente Barack Obama, nos termos da seção 1.021 da Lei de Autorização de Defesa Nacional [orig. National Defense Authorization Act (NDAA)]. Essa seção 1.021 permite que militares prendam cidadãos que o estado acuse de serem terroristas, permite negar-lhes o devido processo legal e mantê-los presos por tempo indefinido em instalações militares. Alexa O'Brien, estrategista de conteúdo e jornalista, co-fundadora de US Day of Rage [Um dia de Fúria-EUA], organização criada para reformar o processo eleitoral, é um dos coautores, comigo, naquela ação.

Katherine Forrest
Empregados da empresa Stratfor tentaram – e sabe-se pelos documentos que Hammond vazou – associar falsamente ela e sua organização a islamistas radicais e respectivas páginas de Internet, e à ideologia jihadista, pondo-a sob a ameaça de ser presa, nos termos da nova lei. A juíza Katherine B. Forrest decidiu, em parte por causa das informações vazadas, que nós tínhamos motivos razoáveis para ter medo, e anulou os efeitos da lei – decisão que foi anulada num tribunal de apelação, quando o governo Obama recorreu contra ela.

O estado-empresa já cancelou a liberdade de imprensa e a proteção legal a quem exponha abusos e mentiras praticados pelo estado e pelo governo. Daí resultaram o autoexílio de jornalistas investigativos como Glenn Greenwald, Jacob Appelbaum e Laura Poitras, além do processo contra Barret Brown. Todos os atos de resistência – inclusive o protesto não violento – já foram decididos, pelo estado-empresa, como atos terroristas. A imprensa foi castrada pelo uso repetido, pelo governo Obama, da Lei Antiespionagem [orig. Espionage Act], para acusar e condenar os tradicionais “tocadores de alarme” [orig. whistle-blowers].

Funcionários do estado e do governo norte-americano, que tenham consciência, estão aterrorizados e não procuram jornalistas, sabendo que o controle “no atacado” de tudo que se diga ou escreva pelos veículos de comunicação eletrônica é material rastreado e os torna facilmente identificáveis. E políticos eleitos ou o Judiciário já não impõem qualquer restrição à espionagem contra os cidadãos, ou eles mesmos nos espionam.

A última linha de defesa que nos resta são gente como Hammond, Julian Assange, Edward Snowden e Chelsea Manning, capazes de entrar dentro dos registros do estado de vigilância e controle, e que têm a coragem para entregar aos cidadãos o que lá encontrem. Mas o preço da resistência é muito alto.

Sarah Harrison
Nesses tempos de secretude e abuso de poder, só há uma solução: a transparência, escreveu Sarah Harrison, a jornalista britânica que acompanhou Snowden à Rússia e, de lá, partiu para o exílio, em Berlin.

Se os nossos governos já estão tão comprometidos a ponto de não dizer jamais a verdade, temos de avançar e pegá-la. Desde que se tenha em mãos as provas inequívocas, documentos, fontes primárias, é possível lutar e resistir. Se o governo não nos dá informação verdadeira, temos de tomá-la, nós mesmos.

Quando os “vazadores”, “tocadores de alarme”, nossos sentinelas, avançam e chegam à verdade, temos de lutar por eles, para que outros se sintam encorajados a avançar, continua ela...

Quando caem, temos de ser a voz deles. Quando são caçados, temos de garantir-lhes abrigo e escudo. E quando são encarcerados, temos de libertá-los. Dar a verdade à maioria não é crime. Os dados são nossos, a informação é nossa, é nossa história. Temos de lutar por eles. Coragem é contagiosa.

Bradley (Chelsea) Manning e Julian Assange
Hammond sabe desse contágio. Estava em casa, em Chicago, vivendo em regime de prisão domiciliar das 7h às 19h, condenado pela prática de vários atos de desobediência civil, quando Chelsea (então ainda Bradley) Manning foi presa por entregar a WikiLeaks informação secreta sobre crimes de guerra praticados por militares e mentiras do governo. Hammond, naquela época tocava programas sociais de ajuda para alimentar pobres famintos e enviar livros a prisioneiros. Ele tem, como Manning, especial talento para ciências, matemática e linguagens de computador, e sempre teve, desde menino. Invadiu os computadores de uma loja local da Apple, aos 16 anos. Invadiu a página do departamento de ciência computacional da University of Illinois-Chicago, no primeiro ano de universidade, ato pelo qual a universidade não o admitiu à universidade no ano seguinte, quando voltou das férias.

Foi precoce apoiador da “ciber-libertação” e em 2004 iniciou um jornal “jornal de desobediência eletrônica(o)” que batizou de Hack This Zine. Conclamou os hackers, em palestra na Convenção DefCon, em 2004, em Las Vegas, a usar suas competências e talentos para tumultuar a Convenção Nacional Republicana anual. Quando foi preso, em 2012, era uma das invisíveis estrelas do underground do ativismo hacker, dominado por grupos como Anonymous e WikiLeaks, nos quais só o anonimato e rígidas regras de segurança eletrônica, com frequentes troca de apelidos, garantiam o sucesso e a sobrevivência. A coragem de Manning induziu Hammond a praticar o seu próprio grande gesto de ciber-desobediência civil, embora soubesse que corria alto risco de ser identificado.

Vi o que Chelsea Manning fez – disse Hammond, quando falou na 5ª-feira (1/11/2013) passada, sentado a uma mesa de metal.

Com seu hacking, ela entrou no jogo e tornou-se alguém que mudou o mundo. Correu riscos tremendos, para mostrar a feia verdade sobre a guerra. Perguntei a mim mesmo: se ela pode correr esse risco, por que eu não poderia? Não estaria errado eu, ali, confortavelmente sentado, trabalhando nas páginas de “Comida, não bombas”, quando eu tinha competência para fazer algo parecido? Eu também podia fazer diferença. A coragem dela empurrou-me a agir.

Black Bloc Anarquistas
Hammond – que tem tatuagens pretas nos dois antebraços, num o símbolo do movimento de ciberativistas a favor da fonte aberta, conhecido como “o glider[1]; no outro, o hexagrama 7 do I Ching, “A Multidão” – é versado no pensamento radical. Na adolescência, migrou sem conflito, da ala liberal do Partido Democrata para a militância dos Black Bloc anarquistas. Foi leitor ávido, no ginásio, de material publicado pelo coletivo anarquista CrimethInc, [2] que publica literatura e manifestos anarquistas. Seu pensamento foi moldado por radicais da velha escola, como Alexander Berkman e Emma Goldman e revolucionários negros como George Jackson, Elaine Brown e Assata Shakur, além de membros do Weather Underground.

Disse que, enquanto esteve em Chicago fez várias viagens para visitar o Monumento aos Mártires de Haymarket, que homenageia quatro anarquistas enforcados em 1887 e outros que lutaram nas guerras do trabalho nos EUA. Aos pés do monumento de mais de 4m de altura, leem-se as últimas palavras de um dos condenados, August Spies: “Dia virá, quando nosso silêncio será mais poderoso que a voz que vocês sufocam hoje”. Emma Goldman está sepultada ao lado.

Monumento aos Mártires de Haymarket
Hammond tornou-se bem conhecido do governo por uma série de atos de desobediência civil ao longo da última década. Vão de pintar graffitis antiguerra em muros de Chicago, para protestar contra a Convenção Nacional do Republicanos em 2004, a invadir a página do movimento direitista Protest Warrior, ação pela qual foi condenado a dois anos de prisão no Instituto Correcional em Greenville, Illinois.

Disse que hoje luta como “comunista anarquista” contra “a autoridade do estado centralizado” e contra “corporações exploradoras”. Seu objetivo é construir “coletivos sem líderes baseados na livre associação, no consenso, na ajuda mútua, na autossuficiência e na harmonia com o meio ambiente”. É essencial, ele disse, que todos cortemos nossos laços pessoais com o capitalismo e nos engajemos na “organização de protestos, greves e boicotes de massa”. Hackear e vazar, ele disse, são parte dessa resistência – “ferramentas eficientes para revelar as feias verdades do sistema”.

Hammond passou meses dentro do movimento Occupy em Chicago. Abraçou suas “estruturas sem liderança nem hierarquia, como as assembleias gerais e os consensos, e ocupando espaços públicos”. Mas criticou fortemente a, como disse, “política vaga” em Occupy, que acolheu seguidores do libertarista Ron Paul, gente do Tea Party, além de “liberais reformistas e Democratas”. Hammond disse que não estava interessado em movimento que queria “apenas uma forma “mais suave” de capitalismo, e trabalhava por reformas, não por revolução”. Permanece firmemente enraizado no ethos do Black Bloc.

Disse que: Estar preso foi o que realmente abriu meus olhos para a realidade do sistema da justiça criminal...

(...) não é sistema de justiça criminal que tenha algo a ver com segurança ou reabilitação. Só fazem recolher os lucros do encarceramento em massa. Há dois tipos de justiça – uma para os ricos e poderosos que cometem os grandes crimes e se safam; outra para o resto de nós, especialmente para pretos pobres e os que perderam tudo. Julgamento justo é coisa que não existe. Em mais de 80% dos casos as pessoas são pressionadas para confessar, em vez de se beneficiar do direito de serem julgadas, sob a ameaça de sentenças longuíssimas. Acredito que não há reforma satisfatória possível. Temos de fechar todas as prisões e libertar todos os presos, sem condições.

Disse que (...) esperava que seu ato de resistência encorajasse outros, como a coragem de Manning o inspirou. Disse que os ativistas têm de conhecer e aceitar a repercussão pior possível antes de iniciar qualquer ação, e que têm de estar conscientes das operações de contrainteligência/vigilância que existem contra nossos movimentos.

Hector Xavier Monsegur,
o traidor Sabu
Um informante que se fez passar por companheiro, Hector Xavier Monsegur, conhecido online como “Sabu”, entregou Hammond e outros, réus no mesmo processo, ao FBI. Monsegur armazenou dados obtidos por Hammond num provedor externo em New York. Essa tênue conexão com a cidade permitiu que o governo processasse Hammond em New York, por ação de hacking feito de sua casa, em Chicago, contra uma empresa privada de segurança cuja sede está no Texas. New York é o centro das ações judiciais que o governo Obama move, em sua chamada ciberguerra; é exatamente onde as autoridades federais, pelo que se viu, queriam que Hammond fosse investigado e acusado.

Hammond disse que continuará a resistir de dentro da prisão. Algumas infrações menores, como ter tido resultado “positivo” em testes para consumo de drogas, com outros prisioneiros de sua ala, que contrabandearam maconha para dentro da prisão, custaram-lhe o direito de receber visitas por dois anos e “tempo na caixa” [cela solitária]. Pode ver jornalistas, mas meu pedido de entrevista demorou dois meses para ser aprovado. Disse que prisão implica “muito tédio”. Joga xadrez, ensina guitarra e ajuda outros prisioneiros nos estudos para os exames do General Educational Development (GED). Quando nos encontramos, ele estava trabalhando na redação da declaração, um manifesto pessoal, que lerá no tribunal, essa semana.

Insistiu que não se vê como diferente dos demais prisioneiros, especialmente os negros pobres, presos por crimes comuns, quase todos relacionados a drogas. Disse que há ali muitos outros prisioneiros políticos, encarcerados injustamente por um capitalismo totalitário que sufocou as oportunidades básicas para a divergência democrática e a sobrevivência econômica.

Disse que:

(...) a maioria dos pobres que estão na prisão fizeram o que fizeram, para sobreviver.

Quase todos eram muito pobres. Foram apanhados na guerra às drogas que, hoje, é o modo de ganhar a vida se você é pobre. A razão verdadeira por que estão na cadeia por tanto  tempo é que, assim, as empresas que administram as cadeias podem lucrar muito. Não se trata de justiça. Não vejo diferença alguma entre eles e eu.

Cadeia é, na essência, aguentar abuso e condições de desumanização, com frequentes solitárias e espancamentos. Você tem de constantemente lutar pelo respeito dos guardas, às vezes já sabendo que vai acabar na solitária. Mas não é porque estou preso que vou mudar o modo como vivo. Continuarei a desafiar, agitar e organizar sempre que conseguir.

Disse que a resistência tem de ser um modo de vida. Planeja voltar às tarefas de organização de comunidades quando for solto, embora, disse, vá fazer o possível para não ser novamente preso. “A verdade”, disse, “sempre aparece”.

Alertou os ativistas para manterem-se hipervigilantes e conscientes de que “um erro pode ser para sempre”. Mas, ele completou:

Não deixem a paranoia e o medo afastá-los do ativismo. Trabalhem anônimos!




Notas dos tradutores

[1] O glider (lit. “uma espécie de asa, para voo controlado; variante do paraquedas”) não tem nem marca registrada nem copyrights. Se quiser usá-lo em sua página, aqui vão as linhas que você pode copiar-colar:
hacker emblem

Entre os dias 8-23/11, a organização está promovendo um circuito de palestras, por várias cidades dos EUA, a serem apresentadas por “companheiros do Brasil”, que falarão sobre “Os levantes de 2013 no Brasil”. Bom serviço prestariam se falassem aqui. Mas... pois é.
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Chris Hedges escreve regularmente coluna no blog Truthdig.com. Formou-se na Harvard Divinity School e foi durante quase duas décadas correspondente no exterior do The New York Times. É autor de muitos livros, incluindo: War Is A Force That Gives Us Meaning, What Every Person Should Know About War, e American Fascists: The Christian Right and the War on America. Seu livro mais recente é Empire of Illusion: The End of Literacy and the Triumph of Spectacle.

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Saiba mais sobre Jeremy Hammond e o traidor Sabu (Hector Xavier Monsegur):


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