Mostrando postagens com marcador FBI - Federal Bureau of Investigation. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador FBI - Federal Bureau of Investigation. Mostrar todas as postagens

domingo, 17 de novembro de 2013

Declaração de Jeremy Hammond ao Tribunal de New York em 16/11/2013

16/11/2013, Jeremy Hammond, OEN – OpEdNews
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Jeremy Hammond

Declaração ao Tribunal, New York, EUA, 16/11/2013

Bom dia. Obrigado por essa oportunidade. Meu nome é Jeremy Hammond e estou aqui para ser sentenciado por atividades de hacking que executei durante meu envolvimento com os Anonymous. Estou preso no Centro Correcional de Manhattan há 20 meses, e tive muito tempo para pensar sobre como explicaria minhas ações.

Antes de começar, quero usar parte desse tempo para reconhecer e agradecer o trabalho das pessoas que me apoiaram. Quero agradecer a todos os advogados que trabalharam no meu caso: Elizabeth Fink, Susan Kellman, Sarah Kunstler, Emily Kunstler, Margaret Kunstler e Grainne O'Neill. Agradeço também a National Lawyers Guild, à Comissão de Defesa e Rede de Apoio Jeremy Hammond, aos Free Anons, à Rede de Solidariedade com os Anonymous, ao Grupo Anarquista Black Cross e a todos os demais que ajudaram com uma carta de apoio, escrevendo para mim, assistindo às audiências do Tribunal e divulgando minha causa e meu caso.

Agradeço também aos meus irmãos e irmãs trancafiados em prisões e aos que estão fora das prisões, ainda lutando contra o poder.

Os atos de desobediência civil e ação direta pelos quais estou sendo hoje sentenciado alinham-se todos pelos princípios de comunalidade e igualdade que guiaram minha vida.

Invadi os computadores de dúzias de empresas gigantes e instituições do Estado, entendendo muito claramente que o que fazia era contra a lei, e que minhas ações podiam jogar-me diretamente numa prisão federal. Mas senti que tinha a obrigação de usar minhas habilidades e competências para expor e denunciar a injustiça – e para trazer à luz a verdade.

Poderia ter alcançado os mesmos objetivos por meios legais? Tentei de tudo, de abaixo-assinados e campanhas eleitorais a manifestações pacíficas, e descobri que os que estão no poder não querem que a verdade seja exposta. Quando dizemos a verdade ao poder, somos ignorados, no melhor dos casos; ou brutalmente reprimidos, no pior. Estamos em luta contra uma estrutura de poder que não respeita nem os seus próprios mecanismos de fiscalização e equilíbrio, imaginem se respeitam os direitos dos seus próprios cidadãos ou a comunidade internacional.

Minha iniciação política aconteceu quando George W. Bush roubou uma eleição presidencial em 2000 e, na sequência tirou vantagem das ondas de racismo e patriotismo depois do 11/9, para lançar guerras imperialistas, não provocadas, contra o Iraque e o Afeganistão. Saí às ruas para protestar, acreditando, ingenuamente, que nossas vozes seriam ouvidas em Washington e que conseguiríamos parar a guerra. Em vez disso, fomos rotulados como traidores, espancados e presos.

Fui preso por numerosos atos de desobediência civil nas ruas de Chicago, mas só em 2005 comecei a usar minhas habilidades com computadores para quebrar a lei, em ação de protesto político. Fui preso pelo FBI por invadir os computadores de um grupo de direita, pró-guerra, chamado “Protest Warrior” – organização que vendia camisetas racistas em sua página Internet e agredia grupos antiguerra. Fui acusado, nos termos da Lei de Fraudes e Abusos por Computadores, e o “dano visado” no meu caso foi arbitrariamente calculado, multiplicando por US$500, os 5.000 cartões de crédito com os quais operava a base de dados de “Protest Warrior”, o que resultou num total de $2,5 milhões.

Minha sentença foi calculada a partir desse “dano”, embora nenhum cartão de crédito tenha sido usado ou algum dado tenha sido divulgado – por mim ou por qualquer outra pessoa. Fui condenado a dois anos de cadeia.

Na prisão, vi com meus próprios olhos a feia realidade de como o sistema de justiça criminal destrói a vida de milhões de pessoas mantidas em prisões fechadas. A experiência reforçou minha oposição contra as formas repressivas de poder e a favor de agir na defesa daquilo em que cada um acredite.

Quando fui solto, estava ansioso para retomar meu envolvimento nas lutas por mudanças sociais. Não queria voltar à prisão. Então, me dediquei ao trabalho de organizar comunidades, trabalho de superfície. Mas, com o tempo, frustrei-me com as limitações das manifestações pacíficas, que me parecem reformistas e inefetivas. O governo Obama continuou as guerras no Iraque e no Afeganistão, aumentou o uso de drones e não fechou a prisão da Baía de Guantánamo.

Por essa época, eu acompanhava o trabalho de grupos como WikiLeaks e Anonymous. Era inspirador e estimulante ver as ideias do hack-ativismo afinal dando resultados. Fiquei particularmente motivado pela ação heroica de Chelsea Manning, que revelou ao mundo as atrocidades cometidas pelos militares norte-americanos no Iraque e no Afeganistão. Ela assumiu enorme risco pessoal para vazar essa informação – porque acredita que a opinião pública tem o direito de saber, e por esperar que suas revelações seriam passo positivo para pôr fim àqueles abusos. Fica-se com o coração apertado, só de ouvir contar sobre o tratamento cruel que ela recebeu numa prisão militar.

Refleti profunda e longamente sobre escolher outra vez esse caminho. Tive de perguntar a mim mesmo: se Chelsea Manning mergulhou no pesadelo abismal da prisão, porque lutava pela verdade, como poderia eu, de boa consciência, fazer menos que ela, já que eu era capaz? Concluí que o melhor modo de demonstrar solidariedade era dar continuidade ao trabalho de expor fatos e enfrentar a corrupção.

Aproximei-me dos Anonymous, porque acredito em ação direta, descentralizada e anônima. Naquele momento, os Anonymous estavam envolvidos em operações de apoio aos levantes da Primavera Árabe, contra a censura, e em defesa de WikiLeaks. Eu tinha muito a oferecer como contribuição, incluindo competências técnicas, e podia articular melhor ideias e objetivos. Foram tempos entusiasmantes – o nascimento de um movimento digital de resistência, quando os conceitos e as competências do hack-ativismo estavam ganhando forma.

Interessava-me especialmente o trabalho dos hackers de LulzSec, que estavam quebrando alguns alvos importantes e iam-se tornando cada vez mais políticos. Por essa época, falei pela primeira vez com Sabu, que era muito aberto sobre as ações de hacking que ele dizia ter cometido, e estimulava os hackers a unir-se para atacar sistemas de computadores de grandes unidades do governo e de megaempresas, sob a bandeira do movimento “Anti Security”. Mas logo no início do meu envolvimento, os outros hackers de Lulzsec foram presos; restei eu, para quebrar sistemas e escrever press releases.

Hector Xavier Monsegur,
o traidor Sabu
Adiante, eu descobriria que Sabu foi o primeiro a ser preso, e que, durante todo o tempo em que eu falava com ele, ele já era informante do FBI.

Os Anonymous também se envolveram nos estágios iniciais de Occupy Wall Street. Participei regularmente nas ruas, como militante de Occupy Chicago, e entusiasmei-me ao ver um movimento mundial de massa contra as injustiças do capitalismo e do racismo. Ao final de uns poucos meses, as “Occupations” chegaram ao fim, destruídas por ataques da Polícia e prisões em massa de manifestantes, arrancados de suas próprias praças públicas.

A repressão contra os Anonymous e o Movimento Occupy deu o tom da ação dos Antisec nos meses seguintes – a maior parte de nossas ações de hacking contra alvos da Polícia foram retaliações contra as prisões de nossos camaradas.

Eu, pessoalmente, tomei por alvo os sistemas policiais, por causa do racismo e da desigualdade com que se aplica a lei criminal. Tomei por alvo as indústrias e distribuidores de equipamentos militares e policiais, que lucram com a fabricação e a venda das armas que os EUA usam para impor seus interesses políticos e econômicos por todo o mundo, e para reprimir cidadãos norte-americanos aqui mesmo. Tomei por alvo empresas privadas de segurança da informação, porque trabalham secretamente para proteger interesses do governo e de empresas privadas, à custa de atacarem direitos civis individuais, minando e desacreditando ativistas, jornalistas e outros que trabalham para conhecer e divulgar a verdade; e porque vivem de disseminar a desinformação.

Nunca tinha ouvido falar de Stratfor, até que Sabu falou sobre eles. Sabu estava encorajando pessoas a invadir sistemas, e ajudando a facilitar e dar organização estratégica aos ataques. Chegou a fornecer-me pontos vulneráveis dos alvos, passados a ele por outros hackers. Por isso, foi grande surpresa quando soube que, durante todo o tempo, Sabu trabalhava com o FBI.

Dia 4/12/2011, Sabu foi contatado por outro hacker que já havia invadido a base de dados dos cartões de crédito de Stratfor. Sabu, então, sob o olhar atento dos agentes do governo que o estavam manipulando, levou o hack para o movimento Antisec, convidando aquele hacker para nossa sala privada de bate-papo, onde ele forneceu os links para baixar toda a base de dados dos cartões de crédito, além dos pontos iniciais de vulnerabilidade para acessar os sistemas de Stratfor.

Passei algum tempo pesquisando Stratfor e revisando a informação que nos fora fornecida, e decidi que suas atividades e a base de clientes tornavam a empresa alvo bem merecido. Achei curioso que os ricos e poderosos clientes da base de dados de Stratfor só usassem seus cartões de crédito para doar para organizações humanitárias, mas meu principal papel no ataque era obter as pastas dos e-mails privados de Stratfor, onde, tipicamente, estão os segredos mais sujos.

Demorei mais de uma semana para conseguir mais acesso aos sistemas internos de Stratfor, mas acabei entrando no servidor principal. Era tanta coisa, que precisamos de vários servidores nossos para transferir os e-mails. Sabu, que estava envolvido em todos os passos da operação, ofereceu um servidor – que ele recebera do FBI e era monitorado pelo FBI. Nas semanas seguintes, os e-mails foram transferidos, os cartões de crédito usados para doações, e os sistemas de Stratfor foram desconfigurados e destruídos.

Por que o FBI nos apresentou o hacker que descobrira a vulnerabilidade inicial e por que o FBI permitiu que ele continuasse o que havia começado são coisas que, para mim, continuam a ser mistério total.

Resultado da ação de hacking contra os sistemas de Stratfor, conhecem-se hoje alguns dos perigos de haver uma indústria privada de inteligência sem qualquer tipo de regulação. Revelou-se através de Wikileaks e do trabalho de outros jornalistas pelo mundo, que Stratfor mantinha uma rede de informantes pelo mundo, informantes que a empresa usava para todos os tipos de atividade ilegal de vigilância, sempre a serviço de grandes empresas multinacionais.

Depois de Stratfor, continuei a quebrar outros sistemas-alvos, usando uma poderosa “zero day exploit” que me permitia acesso de administrador a sistemas que rodavam a popular plataforma Plesk de hospedagem de rede. Várias vezes, Sabu me pediu que lhe desse acesso a essa exploração. Recusei sempre. Sem ter seu próprio acesso independente, Sabu continuou a me fornecer listas de alvos vulneráveis. Invadi inúmeras páginas que ele me sugeriu, descarreguei as contas de e-mails e bancos de dados roubados no servidor FBI de Sabu; e passei a ele senhas e backdoors que permitiram que Sabu (e, portanto, também o FBI que controlava Sabu) controlassem aqueles alvos.

Essas intrusões, as quais foram todas sugeridas por Sabu quando já cooperava com o FBI, afetaram milhares de nomes de domínio; na grande maioria eram páginas oficiais de governos estrangeiros, dentre os quais XXXXXXX, XXXXXXXX, XXXX, XXXXXX, XXXXX, XXXXXXXX, XXXXXXX e XXXXXX XXXXXXX. [1]

Num caso, Sabu e eu demos informação de acesso a hackers que trabalharam para desconfigurar e destruir muitas páginas oficiais de governo em XXXXXX.

Não sei como outras informações que lhes forneci podem ter sido usadas, mas penso que a coleta e o uso desses dados, pelo FBI e, portanto, pelo governo dos EUA, têm de ser investigados.

O governo hoje está celebrando minha condenação e minha prisão, na esperança de que fechará a porta e encerrará a história para sempre. Eu assumi plena responsabilidade pelos meus atos, quando me declarei culpado. Quando o governo dos EUA será forçado a responder pelos seus crimes?

Os EUA inflam a ameaça que os hackers representariam, para justificar os negócios multibilionários do complexo industrial da cibersegurança, mas, ao mesmo tempo, o próprio governo é também responsável pela mesma conduta que ele mesmo processa e condena, e diz que trabalha para prevenir. A hipocrisia da “lei e da ordem” e as injustiças causadas pelo capitalismo não podem ser “curadas” por reformas institucionais; só podem ser corrigidas por desobediência civil e ação direta. Sim, eu violei a lei. Mas acredito que às vezes as leis têm de ser violadas, para criar espaço para a mudança.

Frederick Douglas
!818-1895
Nas palavras imortais de Frederick Douglas,

O poder não dá nada que não lhe seja exigido. Nunca deu e nunca dará. Descubra a quê algum povo submeteu-se em silêncio, e você terá a exata medida da injustiça e dos malfeitos impostos àquele povo, e a injustiça e os malfeitos continuarão, até que o povo se levante contra eles, seja com palavras, seja com armas, ou com ambos. Os limites de cada tirano podem ser medidos pela capacidade de tolerar dos que eles oprimem.

Não estou dizendo que não me arrependo de nada. Percebo que divulguei informação pessoal de gente inocente, que nada tinha a ver com as operações das instituições que tomei como alvos. Peço desculpas pela divulgação de dados que tenha ofendido pessoas e eram irrelevantes para meus objetivos. Acredito no direito individual à privacidade – contra a vigilância do Estado e contra agentes como eu; e vejo bem a ironia de eu ter-me envolvido em ataques contra esses direitos.

Meu compromisso é trabalhar para fazer desse mundo um lugar melhor para todos nós. Ainda acredito na importância do hack-ativismo como forma de desobediência civil, mas é hora, para mim, de mudar para outros modos de buscar a mudança. O tempo de cadeia pesa muito sobre minha família, meus amigos e a comunidade. Sei que precisam de mim em casa. Reconheço que, há sete anos, já estive à frente de um juiz federal, enfrentando acusações semelhantes, mas isso não diminui a sinceridade do que digo aqui hoje.

Custou-me muito escrever isso, para explicar minhas ações, sabendo que o que fiz – sinceramente – pode custar-me ainda mais anos de vida na cadeia. Sei que posso ser condenado a dez anos, mas espero que não seja, porque acredito que há muito trabalho a ser feito.

Mantenham-se fortes e continuem a lutar.




Nota dos tradutores
[1] Ontem (15/11/2013), Jeremy Hammond distribuiu documento por Pastebin, intitulado Targets supplied by FBI to Jeremy Hammond [Alvos fornecidos pelo FBI a Jeremy Hammond] em que todos esses nomes aqui censurados aparecem listados. No documento de pastebin, fica muito claro que Hammond não tem dúvidas de que as invasões “orientadas” por Sabu estavam sendo, de fato, orientadas pelo FBI, para alvos que interessavam ao FBI, inclusive a empresa Strafor.



segunda-feira, 22 de abril de 2013

Pepe Escobar: “A trampa Boston-Chechênia do FBI”


22/4/2013, Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Pepe Escobar
LONDRES – As bombas em Boston foram tiro pela culatra. Disso já não há qualquer dúvida. O que ainda não se sabe é que nível de tiro saiu-lhes pela culatra.

Pode ter sido operação clandestina que deu/saiu totalmente errada. Pode ter sido tiro que saiu pela culatra de ex “combatentes da liberdade” – nesse caso chechenos étnicos – reconvertidos em terra-rists [como Bush pronunciava a palavra terrorists (NTs)]. Pode ter sido tiro saído diretamente pela culatra da política externa dos EUA contra muçulmanos, que só existe para mandá-los para Guantánamo, Abu Ghraib ou Bagram, entregá-los “extraordinariamente” (mas frequentemente) para serem torturados em solo estrangeiro ou para assassiná-los “legalmente”.

O FBI, como se poderia facilmente prever que faria, não admite nenhuma dessas opções. Mantém-se agarrado a um roteiro enroladíssimo, digno desse pessoal mais completamente movido à cocaína. Noites hollywodianas dos anos 1980s: uma dupla de bandidos que “odeiam nossas liberdades”, porque... odeiam.

Como já escrevi, numa espécie de preâmbulo ao que aqui se lê, há buracos de dimensões intergalácticas na história dos irmãos Tsarnaev. Já se sabe – pela mãe dos dois rapazes (vídeo, em inglês, no final do parágrafo) – que o FBI (Federal Bureau of Investigation) seguia o irmão mais velho, Tamerlan, há, no mínimo, cinco anos. Em entrevista posterior a Piers Morgan da CNN, a mãe falou, sim, claramente, sobre “orientações” que o filho recebera.


Simultaneamente, o FBI foi obrigado a admitir que, no início de 2011 aceitou o pedido de “um governo estrangeiro” (expressão-código para “Rússia”) para não perder de vista o mais velho dos irmãos, Tamerlan. Aparentemente foi o que fizeram – e nada encontraram que sugerisse atividade terrorista.

Assim sendo, o que aconteceu depois? Alguém no FBI, dos que têm QI superior a 50, devem ter percebido que, por causa do pedido dos russos, o FBI “descobrira” um precioso “operativo” checheno-americano. E Tamerlan tornou-se informante do FBI. Podia ser tocado como se toca rabeca, para produzir qualquer som – como tantos outros tolos antes dele.

Portanto, se não o afinaram corretamente, pode-se acusar o FBI, com todo o direito, de incompetência devastadora (e não seria a primeira vez). Porque o FBI está dizendo agora que jamais suspeitou de que seu “operativo” estivesse construindo alguma bomba, que desejasse testá-la ou que andasse de bomba da mochila pelas calçadas da Maratona de Boston.

O que o FBI jamais, em tempo algum, dirá é quando monitoraram/ controlaram/ chantagearam Tamerlan pela última vez. Não esqueçamos: trata-se do mesmo FBI que nos ofereceu aquele “plano” tipo “Velozes e Furiosos”, mancomunado com um cartel mexicano para assassinar um embaixador saudita – plano que foi desmascarado e exposto apenas em alguns dias.

Tamerlan, é claro, pode ter dado uma de FBI p’ra cima do FBI (embora, talvez, nem tanto) e, depois de anos de monitoramento/ controle/ chantagem, passou a trabalhar como agente duplo. Ao que se sabe, trocou os EUA pela Rússia por longo período – de janeiro a julho de 2012. Ninguém sabe o que fez nesse período; o FBI adoraria provar que participou de treinamento terrorista tático. Mas, se era de fato “operativo” tão interessante, bem pode ter sido mandado infiltrar-se nos grupos de jihadis chechenos comandados por Doku Umarov no vizinho Daguestão.

Sibel Edmonds
Quanto às relações complexas, cheias de nuances, como são todas as relações muito íntimas, desde os anos 1990s, entre Washington e os terra-rists chechenos – absoluto tabu na imprensa-empresa dos EUA – ninguém precisa ler mais que o interessantíssimo e surpreendente Sibel Edmonds [19/4/2013, USA: The Creator & Sustainer of Chechen Terrorism (EUA: Criador e mantenedor do terrorismo checheno)].  
Sobre o tal exercício

O FBI tem poder suficiente para impor aos EUA e ao planeta qualquer roteiro fantasioso sobre “dois jovens chechenos do mal”. Consideremos então um cenário alternativo crível, para ver a que nos leva.

Em vez de dois sujeitos (estrangeiros) do mal, totalmente americanizados, que repentinamente são inoculados pelo vírus do ódio “contra nossas liberdades” mediante doutrinação jihadista feita principalmente online, vejamos quem realmente se beneficia com o que aconteceu em Boston.

O Boston Globe foi forçado a “fazer desaparecer” a informação sobre um exercício de contraterrorismo – que incluiria cães que farejam bombas – e que aconteceria durante a maratona. O FBI bem pode ter dito ao seu “operativo” Tamerlan que ele participaria do exercício. Tamerlan podia ser sujeito durão, mas seria facilmente chantageado, se sua família fosse ameaçada no caso de ele não cooperar.

Então, entregaram a Tamerlan uma mochila preta com uma falsa bomba de panela-de-pressão e disseram-lhe que a pusesse num local determinado – como um dos procedimentos incluídos no exercício. Nesse ponto, todo o (nosso) cuidado é pouco: não há nenhuma prova conclusiva que autorize a confirmar que se tratasse de simples exercício. Não há como saber se a bomba era falsa ou se estava armada para explodir ou ser explodida.


Digamos que Tamerlan, homem durão, e seu irmão, o impressionável Dzhokhar, tenham sido realmente responsáveis (sem o FBI no quadro). Depois de tanto planejamento, com certeza haveria rota de fuga planejada – transporte, passaportes, dinheiro, bilhetes de avião. E nada disso havia. Dzhokhar foi à escola, treinou na academia, enviou mensagens por Twitter.

Não há absolutamente nenhuma testemunha que diga ter visto os irmãos depositarem as bombas. Eles puseram as bombas onde as puseram, porque essa foi a instrução que receberam do FBI. E dali em diante, já ninguém entende mais nada. Roubaram um Mercedes num posto de gasolina e deixaram partir o motorista – depois de dizerem a ele que eram responsáveis pelas bombas da Maratona. Dzhokhar e a Mercedes conseguem sair vivos de tiroteio cerrado, furando uma muralha de policiais – mas, no percurso, o Mercedes passa por cima do corpo de Tamerlan enrolado em explosivos. Dzhokhar deixa uma trilha de sangue. Mas nenhum cachorro seguiu a trilha.

E há o saborosíssimo exercício em cidade sob lei marcial: toda a cidade foi esvaziada e paralisada – o prejuízo gerado por essa operação é incalculável – por causa de um adolescente em fuga pela cidade. Atenção, EUA! A coisa está só começando!

O que é certo é que os irmãos Tsarnaev absolutamente não eram militantes jihadis; só os viciados nos veículos de esgoto de Murdoch algum dia engolirão a ideia de que fossem.

Basta passar os olhos por uma página de jihadistas autênticos, como o Kavkaz Center, muito bem estabelecidos e plenamente representativos do que se conhece como o Emirado Islâmico do Cáucaso, de insurgentes. Ali se fazem boas perguntas. E o Centro Caucasiano desmonta completamente a versão de que os irmãos seriam jihadistas empedernidos.

A [empresa] Craft, que tudo sabe

Poucas empresas paramilitares e respectivas griffes no ocidente industrializado são mais sinistras que The Craft Craft foi responsável pelo exercício de guerra. O símbolo é uma caveira, parecida, até, com O Justiceiro, personagem Marvel. O motto chega a ser tímido, ante o que a empresa faz: “Não importa o que sua mãe diga: a violência resolve”. A imprensa-empresa nos EUA fez simplesmente sumir qualquer vestígio da multidão de empregados-agentes da Craft que estavam em todos os pontos, muitos deles, no local da Maratona. Pode-se falar em um blecaute, pelas empresas-imprensa.

Mas a imprensa independente não se intimidou. Encontram-se fotos, em Natural News, um achado, um perfeito tesouro de fotos e mais fotos que mostram empregados da Craft no local da Maratona, em uniforme completo de combate, mochilas pretas, equipamento tático, portando até detector de radiação. As fotos, portanto, existem. E como reagiu o FBI? Impôs total blecaute. Censura total de imagens, coisa do tipo “nenhuma outra imagem será confirmada” – só imagens que mostrem os irmãos Tsarnaev. A empresa Craft é intocável.

O problema é que tudo que tenha a ver com a empresa Craft nesse cenário é problema.

(1) A invisibilidade da Craft – toda a imprensa-empresa obedecendo como ovelhinhas ao que o FBI ordenou e apagando do noticiário todos os fatos.
(2) A qualidade da expertise “de segurança” – um exército de mercenários ao qual se paga uma fortuna... e os tais hiper treinados “especialistas” armados com o mais pesado armamento high-tech do planeta não conseguem capturar uma dupla de amadores?! E
(3) a sinistra possibilidade de tudo tenha sido operação clandestina executada pela empresa Craft.

Se nos mantivermos fieis à realidade, deixando de lado as histórias em quadrinhos by Marvel, todas as evidências apontam para alguma coisa bem semelhante ao modus operandi da galáxia soturna de franquias da al-Qaeda. Consideradas as provas recolhidas da história e do comportamento dos irmãos – nenhuma atividade passada, nem militar, nem de sabotagem – elas também sugerem que não teriam experiência suficiente para planejar e executar tudo aquilo, sozinhos. Mas pode-se entender sem dificuldade uma operação copiada da al-Qaeda e atribuída a dois rapazes que não teriam como defender-se – algo que, pelo menos em teoria, a empresa Craft poderia facilmente planejar.

Por tudo isso, eis a que nos leva um cenário perfeitamente realista: falsa operação construída por FBI/Craft, a qual:

(1) pode ter dado terrivelmente errado, motivo pelo qual os autores tiveram de encontrar dois bodes expiatórios, no prazo de algumas horas; ou
(2) a sinistra possibilidade de que tudo tenha sido planejado como joguinho de gato-e-rato para produzir exatamente o resultado que produziu – e levar à militarização, agora já quase total, de toda a vida civil nos EUA.

Vale o escrito (em sangue). Estão sumindo os últimos vestígios de Estado de Direito nos EUA – agora que um painel bipartidário de especialistas já descobriu que todos os funcionários em postos de comando do governo George W. Bush estiveram, sem dúvida possível, implicados em torturas; e que a tortura foi prática sistemática, mesmo que jamais tenha conseguido impedir qualquer ato terrorista.

Washington está a um passo de ver-se incluída na lista cintilante de estados como o Egito na era Mubarak, Bahrain e Uganda. Como o coronelão-senador Lindsay Graham já declarou, “a pátria é o campo de batalha”. E você, leitor, é “combatente inimigo”. Se decidirmos que é.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Bradley Manning vence uma batalha na disputa pelos documentos secretos


25/6/2012, AFP (19h37), Mistic Politics
Traduzido pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu

Bradley Manning
FORT MEADE, Maryland — Uma juíza militar dos EUA ordenou hoje que os advogados de acusação exibam todos os documentos que, segundo a acusação, comprovariam que o vazamento causou dano irreparável aos EUA, depois que a defesa denunciou que a acusação não lhe deu acesso a documentos que podem auxiliar na defesa do acusado.

Durante meses, os advogados que defendem Manning vêm pedindo acesso a relatórios de agências governamentais, inclusive da CIA, indispensáveis para avaliar o efeito do vazamento de informação sigilosa pela página WikiLeaks. (...)

Juíza Denise Lind
A juíza Denise Lind determinou que a acusação exiba os relatórios da CIA, do Departamento de Estado, do FBI, do Oncix (Office of the National Counterintelligence) e outros documentos que sejam relevantes para a defesa.

A juíza, acolhendo pedido dos advogados de Manning, também ordenou que a acusação comprove o que tem alegado (que deu acesso à defesa a todos os documentos que a defesa solicitou).

Em declaração-ordem de “devida diligência”, a acusação terá de exibir os documentos que tenha recebido e terá de explicar por que todos os arquivos não foram partilhados com a defesa, desde o início do julgamento.

A juíza determinou prazo, até 25 de julho, para que a acusação cumpra o que lhe foi ordenado, mas disse que pode dar mais tempo à acusação. Os advogados da defesa também poderão solicitar mais tempo para examinar novos documentos que lhes sejam entregues.

O advogado civil que trabalha na defesa de Manning, David Coombs, disse hoje, no início da sessão, que a acusação exibira “padrão de obstrução do requerimento de vistas a documentos, que deveria provocar alarme na corte de justiça”.

Ativistas que acompanham as sessões do julgamento em Fort Meade, nordeste de Washington, festejaram a decisão.

É um alívio que, afinal, a juíza tenha ouvido os argumentos da defesa” – disse Zach Pesavento, um dos porta-vozes da rede de apoio a Bradley Manning.

Tudo faz crer que a acusação tem mentido repetidamente à corte” (sobre os documentos jamais exibidos e que foram sonegados à defesa).

Acreditamos que a verdade está com Bradley e, agora, será mais fácil comprovar isso” – concluiu.
  

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Em livro épico-falhado sobre os Anonymous, o abismo ri de nós


13/6/2012, Quinn Norton, Wired, Threat Level blog
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Sobre: OLSON, Parmy. We Are Anonymous. Inside the Hacker World of LulzSec, Anonymous, and the Global Cyber Insurgency, New York: Little, Brown & Company, 2012, 498 pp. $26.99

Quinn Norton
Não é fácil escrever sobre os Anonymous.

É uma não-organização de “gozadores-que-viraram-ativistas-que-viraram-hackers-que-se-complicaram-feio-com-a-Polícia-no-drama-da-lei-tem-de-ser-respeitada[1] — história difícil de compreender-capturar e difícil de narrar.

Trabalhar sobre grupo clandestino caçado pela Polícia obriga a fazer escolhas não óbvias. Um dos hackers sem nome, mas citado longamente no livro We Are Anonymous  [2] de Parmy Olson, jornalista chefe da sucursal de Londres da revista Forbes, disse-me uma vez que os anons “são dissimulados por natureza” – e são. (Como sei que é a mesma pessoa? Reconheci o modo de se expressar. Depois, perguntei).

Os anons mentem, quando não há qualquer razão para mentir. Tecem longas narrações fictícias, que são uma espécie de performance artística. Depois, nas horas mais inesperadas e menos recomendáveis, dizem a mais pura verdade, destruindo-se, eles mesmos, no processo. São imprevisíveis. O furor niilista com que Olson descreve o modo de vida dos anons mais jovens atira para todos os lados, inclusive para dentro de casa, e os tiros muitas vezes espirram sobre jornalistas como Olson e eu, por motivos que nada têm de óbvios.

É impossível “seguir o dinheiro” no não-grupo dos Anonymous, ou analisar as estruturas do poder, ou buscar uma linha geral de pensamento constitutivo, num coletivo que jamais, praticamente, os tem. Mesmo assim, é preciso escolher alguns itens nos quais se creia, um por quê, um como se enquadram num quadro maior. Usam-se o contexto, as circunstâncias, os instintos mais viscerais e muito do que os hackers chamam de “engenharia social”, para extrair as evidências necessárias para escrever jornalisticamente sobre o coletivo, para cumprir nosso papel nessa história.

Que ninguém se engane: os jornalistas temos um papel nessa história. Você não pode simplesmente não se envolver. É impossível não ser parte da coisa, se a coisa usa a imprensa e todos os veículos para falar e pensar sobre ela mesma.


Por tudo isso, o que torna tão frustrante o livro We Are Anonymous  [3] de Parmy Olson é que ali a narrativa segue em frente, como se nenhuma dessas questões existisse.

Mas Olson e eu, como a professora Biella Coleman; como a ex-correspondente da rede CNN, Amber Lyon; como Brian Knappenberger, cineasta documentarista; e até como Adrian Chen, da revista Gawker, nunca conseguimos nos impedir de dar uma cara à coisa, enquanto a coisa vai-nos dando, também a nós mesmos, uma cara. Somos o veículo que o coletivo usa para se autodefinir, e sempre acabamos por guardar para nós alguma partícula (ou muito) daquilo que o coletivo se vai tornando. É sempre assim, sejam quais sejam as regras que definamos para impedir que aconteça. Somos órgão da Cabeça-de-Enxame. Somos a paisagem-de-Schrödinger da mídia, e nossas observações afetam fatalmente o resultado observado.

Por isso precisamente é vitalmente importante expor as regras pelas quais trabalhamos e nossos métodos. Que nomes dar aos que tenham nome e, mais importante, que nomes manter secretos? Para não ter de lidar com essa questão ética tão absolutamente complicada, tomei a decisão de não identificar ninguém; nomes, só dos que, como dizem os Anons, já sejam “nomefodidos” (ing. namefagged  [4] e vídeo). Olson escreve centenas de páginas sem sequer um aceno para essa questão.


Como Olson escolheu as fontes nas quais confia, e em que casos? E nem uma palavra, tampouco, sobre métodos. Suas observações não aparecem em nota ou referência, mas escondidas na narrativa. É como se ela não estivesse escrevendo o que escreve. Embora essa seja tradicional regra da escrita jornalística, no estranho caso de escrever sobre os Anonymous qualquer tentativa de fingir-se de anônimo e impessoal abala a credibilidade do/a jornalista e do jornalismo. Em ambiente no qual todas as fontes declaram que estão mentindo, o jornalista tem o dever de declarar ao mundo, abertamente, todas as suas próprias crenças e fés pessoais. O jornalista “nomefodido” é, nessa situação, a única fonte legítima de opinião que pode aspirar a ser legítima e merecer credibilidade. A isenção jornalística passa a ser aí, além de mito, erro: se o jornalista não se expõe pessoalmente, se não declara que crê no que creia... quem (e sobretudo: por quê?) precisaria acreditar em algum jornalista?

Os sistemas sociais da internet, dos quais os Anonymous são exemplo altamente evoluído, rompem as vias da causa&consequência estabelecidas. Em vez de buscar o especialista ou a mais alta autoridade presente para colher “declarações”, a alma da matéria pode estar, de fato, em qualquer palavra e nunca se sabe em qual palavra estará. Procurar a fonte “certa” ou a “melhor fonte” nos Anonymous é, frequentemente, muito mais como investigar um assassinato; e muito menos como escalar a cadeia de comando à caça de uma entrevista ou de alguma “declaração” ou do “furo”.

Mediafag
Os Anonymous expuseram os jornalistas [viados-da-mídia, mediafags, como eles dizem] como especialistas em “fala-escudo” [5]. As frases bombásticas e as declarações hiperbólicas têm de ser reproduzidas exatamente como saem das telas ou da boca de cada anon, não podem ser copiadas de jornais, depois de já convertidas em discurso indireto. E, mesmo com todos esses cuidados, ainda assim se cometem erros e publicam-se “conclusões” ou inferências que escapam a qualquer controle e entram no nosso texto jornalístico.

Um pouco disso existe em qualquer jornalismo, por melhor que seja, mas em mundo no qual nada “precisa” ser verdade, porque tudo é permitido, como o mundo dos Anons, é constante ameaça existencial a pesar sobre todo o jornalismo. Por isso, precisamente, tão poucos jornalistas dedicam qualquer legítima atenção jornalística aos Anonymous.

O jornalismo é parte de um mundo de instituições, hierarquias e tradições sociais que são codificadas por estados-nação e por empresas. Criamos leis e regras para controlar os que sejam autorizados a chegar aos assuntos que contam, para que seja possível concentrar nosso poder de fogo midiático nos pontos em que queremos que ele se concentre. O mecanismo visa a criar um mundo previsível no qual todos possamos viver a salvo (ou viver da ilusão de que ali estamos a salvo) dos caprichos da natureza. As ferramentas que há, para o jornalismo que há, foram concebidas para esse mundo – o qual, por sua vez, modelou nossa retórica e nossas narrativas. É o que explica que jornalistas gostemos tanto de identificar as pessoas pelos títulos (presidente, deputado, bispo, comandante), pela idade, pela religião ou por etnias, localizando nossos personagens numa hierarquia – para que o leitor convença-se de que o veículo que lhe fala ouviu gente “importante”, o que, por contaminação, gera a ilusão de que o leitor seria igualmente importante.

As técnicas do jornalismo contemporâneo são a teoria da história de alguns, em letra de forma, em redação esperta, compacta e rápida, para leitura veloz e superficial.

Os Anonymous rompem todos esses pactos – e são terrível dor de cabeça.

Contudo, para jornalistas forçados a escrever sobre eles, o surgimento do grupo Lulzsec – clube fechado e exclusivíssimo de uma elite de hackers que vivem e trabalham como o resto do mundo normal, embora incluídos no grande coletivo – foi como dádiva caída do céu. Afinal, ali estava o atalho para construir matéria de vasta repercussão popular. E muitos jornalistas reagiram com o previsível entusiasmo.

Essa é a via pela qual Parmy Olson consegue fugir do problema de escrever sobre os Anonymous: escreveu sobre os Anonymous, sem escrever realmente sobre os Anonymous.

Seu assunto é outro: Olson escreve só sobre Lulzsec. Nas 414 páginas do livro de Olson, só se considera o coletivo mundial quando é inescapável, para explicar a formação, dentro do grande coletivo, de um pequeno grupo de seis personagens, que estiveram nas manchetes por poucas semanas no verão de 2011, atraindo atenções como nenhum outro grupo de hackers jamais atraíra.

LulzSecs
Mas nem os seis Lulzsecs são adequadamente investigados. Olson deve ter passado semanas mergulhada em postados antigos – embora nem sempre se possa saber onde encontrou os postados aos quais teve acesso nem como (nem se) fez qualquer movimento para comprovar a autenticidade do material que encontrou. Jornalistas de tecnologias, todos nós, mais dia menos dia temos de enfrentar o problema de confiar em postados ou arquivos cuja origem não se consegue rastrear com precisão, encontros em chats, e-mails repassados. Como fornicação e agiotagem [6], esse é mais um dos pecados sobre os quais todos concordamos que não nos podem paralisar, nem merecem laudas e laudas de reportagem. Mas Olson peca vezes demais. Usa, sem qualquer registro ou resguardo crítico, fontes como o Chanarchive – página que alguns /b/tards do próprio 4chan criaram para arquivar discussões que consideram particularmente interessantes.

Olson alcança velocidade de cruzeiro quando começa a contar detalhadamente a história dos Lulzsecs, narrando evento após evento sobre esse específico grupo secretivo. É quando renuncia a qualquer ambição de analisar e faz reportagem de eventos – seu forte.

Trata-se, exclusivamente, de uma conversa com Jake Davis — conhecido pelo apelido “Topiary”, o talentoso porta-voz e agente de retórica dos Lulzsecs. Nessa seção intermediária, o livro melhora dramaticamente, e é o que o livro inteiro deveria ter sido: relato jornalístico escrito por jornalista que conseguiu bom acesso até bem perto dos Lulzsecs.

Mas nem essa melhor parte do livro chega a ser bem-sucedida, porque não passa de biografia não comentada do jovem Jake Davis. A autora dá a impressão de passar adiante cada historieta que ouviu da fonte, sem qualquer análise sobre se a historieta contribui ou não para melhor compreensão do que seja o grupo e do significado do grupo. São estradas vicinais que levam a lugar nenhum e acabam de repente. E isso, num vasto exercício de acreditar em tudo que Davis diz.

Davis se autoacusa de um crime depois de outro, sem parar, em dúzias de páginas de arremedo de diálogo, mas Olson jamais se pergunta por que ele lhe estaria contando tudo aquilo. Davis admite incontáveis vezes que costuma mentir a jornalistas... E nem assim Olson lhe faz a pergunta óbvia (ou, se perguntou, não perguntou na presença de testemunhas, quer dizer, dos leitores): “E aqui, você está mentindo ou não?”

Essa é parte das razões pelas quais We Are Anonymous dá a impressão de relato mal construído, mal acabado, apesar das quase 500 páginas. Os eventos não são narrados em sequência cronológica, mas não se sabe que outra lógica rege a narrativa e, a menos que já se conheça detalhadamente os eventos ali narrados, fica-se sem saber quando aconteceu o quê. Mais um mês de edição bem feita e menos umas 150 páginas produziriam livro muito melhor.

Ataque DDoS
Por exemplo, há uma estranha repetição de historietas “técnicas”. Num desses casos, somos informados mais de uma vez que “ataque DoS é parecido com “ataque DDoS”, sem o D de “Distribuído”. Não é só a repetição: é repetir informação errada. O ataque “DoS” [Denial of Service/Negação de serviço] é, de fato, parecido com o ataque “DDoS” [Distributed Denial of Service/Negação de serviço distribuída] sem o D inicial, mas só quanto aos resultados. As técnicas são muito diferentes e exigem recursos muito diferentes.

Ataque DoS
As explicações técnicas são forçadas e repetitivas, no livro de Olson. Redigidas em tom descuidado de quem não conhece bem o idioma em que trabalha e que não se interessa por conhecê-lo melhor, para conseguir ser o mais precisa e clara que possa, as explicações técnicas são o ponto mais fraco do livro, e pintam muito mal a paisagem na qual vivem os Anonymous (inclusive os LulzSecs). Ataque DDoS significa inundar uma página-alvo com pedidos de acesso e com mensagens-lixo; é como 15 pessoas querendo passar ao mesmo tempo por uma porta giratória estreita, uma catarata de visitantes – tudo explicado num único pequeno parágrafo no capítulo 5.

Esse tipo de jornalismo desrespeita, para começar, a cultura técnica. É como popstar britânico cantar como criança africana; é sequestrar e descartar tudo que realmente faria alguma diferença. Desse tipo de atitude brotou e disseminou-se a ideia de que todos os hackers adolescentes seriam malucos de porão. É frustrante desserviço que o jornalismo presta a um grupo cada dia mais diversificado, que já tem de enfrentar não só o preconceito e a discriminação das forças da ignorância, mas também a violência policial dos estados mais repressivos, inclusive dos EUA, embora, noutros lugares, a repressão seja ainda mais violenta.

Por exemplo, tome-se a sequência de eventos, no capítulo 21, em que os LulzSecs hackearam o FBI associated Infraguard, quando Olson narra o modo como Sabu apagou o conteúdo de um servidor: “E, fácil, digitou rm -rf /*. Um código simples, mas mal afamado: quem digite esse código no back end do próprio computador apaga, de fato, tudo que haja no sistema. Nenhuma janelinha popping up para perguntar “Você tem certeza?” Aconteceu. Muitos trolls conseguiram que suas vítimas digitassem o código ou apagassem o crucial arquivo32 de sistema do Windows”.

Se você não tem nenhum saber técnico, a coisa parece bobagem. Se você tem algum saber técnico, você tem certeza de que é bobagem. “rm” é comando UNIX, não é “código”, faz command line interface (o que em nenhum caso abriria janelinhas...). E nada tem a ver com Windows. E o 32 é diretório, não é arquivo. Esse exemplo é excepcional, do pior que há no livro; mas não é caso isolado.

É exigir demais, esperar que jornalistas que escrevam sobre os Anonymous conheçam a diferença entre UNIX e Windows? Ou que saibam explicar o que é um endereço IP [Internet Protocol]? A mídia especializada, com certeza, responde que “sim”, há 15 anos; é esperar demais, nessa e em todas as demais áreas da cobertura jornalística em áreas tecnológicas. Ninguém tem qualquer direito de exigir que jornalistas entendam as complexas tecnologias sobre a quais vivam de escrever. É privilégio histórico dos jornalistas ganhar a vida escrevendo o melhor que possam sobre o que conheçam o melhor que possam. OK. Mas tem limite. Com os geeks ocupando o planeta, a ignorância vai-se tornando cada dia menos historicamente admissível.

Vivemos pressionados pelos prazos, com orçamentos cada dia mais apertados, com demandas sempre crescentes por informação atualizada. Mas, de um limite em diante, a coisa vira negligência; em seguida, cruza a fronteira e converte-se em exploração. O jornalista ser explorado não o autoriza a explorar o leitor. Estamos lendo mal o mundo. Estamos tratando mal o leitor.

Nada me faz pensar que Olson seja esse tipo de jornalista negligente e exploradora, mas é o que se vê, incorporado, no jornalismo que oferece nesse livro-reportagem. Os Lulzsecs/Antisecs atraem leitores; mesmo sem qualquer sutileza ou análise. Mas também atraem – assim como há quem diga que eles próprios procuraram por isso – jornalismo-espetáculo, de sensacionalismo, a mais antiga profissão no ramo de escrever para viver.

Todos os clichês dos postados fast-food que reagem à propaganda pelo Twitter estão presentes em We Are Anonymous. Por todos os lados, chovem apoios, disparam-se comandos de resposta-repetição, e muita gente dos e à volta dos Anonymous deve estar terrivelmente machucada, porque parecem sempre dispostos a se chutarem e se espancarem, eles mesmos, o mais que possam.

Em geral, para o bem e para o mal, esses pecados literários são deixados sem comentar, na era da moderna narrativa de não ficção. Mas, nesse caso, eles saltam à vista, pelo contraste muito visível com a linguagem vibrante dos anons que a reportagem cobre.

A linguagem dos Anonymous é imprópria, de baixo calão, mas é deliberadamente o que é. Suas metáforas estão vivas, são criativas e efetivas, porque os anons nunca param de tentar romper a linguagem e o pensamento convencionais. De tanto querer fazer e tentar, acabaram por aprender a fazer. Quando distorcem uma imagem, distorcem como querem e o quanto querem, e para um objetivo determinado.

Anonymous IRC
Quando @AnonymousIRC se autodescreve como “cavaleiro sem cabeça montado num cavalo ASCII [7] com um halo de Gato Nyan [8] e espada de Lulz em bainha de tolerância”, a imagem é construída para fundir a cuca de quem leia. E funde. Mas é imagem construída e você vê o que é para ver. A escrita dos Anonymous encheria de orgulho o George Orwell do clássico Politics and the English Language (A política e a língua inglesa [9]), não porque obedeça aquelas regras, mas porque sabe por que e quando desobedecê-las e escapar delas. É má sorte, que a prosa de Olson tenha de expor-se ao lado da prosa dos anons.


***
Os Antisecs e, antes deles, os Lulzsecs, receberam vastíssima atenção midiática de jornalistas como Olson e eu, atenção que chegou a deixar marginalizados outros anon ops mais efetivos, que trabalhavam no apoio a movimentos da Primavera Árabe e na resistência política contra leis anti-internet, como a ACTA – mesmo no caso em que essas operações foram conduzidas pelas mesmas pessoas. Olson e eu cobrimos tudo isso, mas do jeito errado. Deveríamos, desde o início, ter sabido ver os Antisecs como uma manifestação dentre muitas, não como grupo que, afinal, poderia ser tratado pelos jornalistas como estrelas do rock, grupo que facilita muito o trabalho jornalístico.

Muitos anons, de visão mais criativa, cujo trabalho encaminhou-se para objetivos mais claros (nem sempre louváveis, mas objetivos e, sim, claros) acabaram afogados na gritaria niilista dos Antisecs e na incansável cobertura que os jornalistas lhes dávamos. Àquela altura, os Antisecs pouco nos preocupavam.


Quando, dia 3 de junho, anunciou-se que remanescentes daquele antigo exclusivo grupo de hackers haviam capturado 3 terabytes de dados do governo, inclusive material do FBI e do Departamento de Estado, a mídia deu de ombros. É excesso, dados demais. Mais dados do que alguém pode ler e, menos ainda, avaliar; e são dados inúteis, quando o noticiário diário já oferece tantas notícias péssimas. Em ambiente no qual todos sabemos que o presidente tem sobre a mesa uma lista de pessoas a serem assassinadas, entre as quais há cidadãos norte-americanos, difícil supor que um .d0x traria algo que fizesse diferença. Depois de milhões de logins e e-mails vazados e de bancos de dados invadidos, estamos em crise de fadiga de dados.

Desse oceano de vozes de Anonymous, todos experimentando novos modos de estar no mundo, as únicas vozes que se ouvem no livro de Olson são as de um pequeno grupo de hackers que sequestraram o palco onde todos deveriam poder ver uma legião; que desafiaram os valores do coletivo; e que colidiram frontalmente contra o muro da lei. Foi história que a própria mídia gerou, sem dúvida, mas não é a verdadeira história dos Anonymous. Não é, sequer, história que faça qualquer real sentido.




Notas dos tradutores

[1]  8/11/2011, redecastorphoto em: Anonymous: Introdução ao lulz, Quinn Norton,

[2]  OLSON, Parmy. We Are Anonymous. Inside the Hacker World of LulzSec, Anonymous, and the Global Cyber Insurgency, New York: Little, Brown & Company, 2012, 498 pp. $26.99.

[3]  Há crítica (preconceituosa, jornalístico-conservadora) ao mesmo livro no New York Times em: The Secret Lives of Dangerous Hackers, Janet Maslin, 31/5/2012.  
[4]  Namefag [Substantivo 2 g. Verbo necessariamente reflexivo derivado: Nomefoder-se]. Designa todos que se deem nomes próprios nos postados no 4chan. O procedimento de nomefoder-se é considerado péssimo, altamente não recomendável, embora o fórum /tg/ seja mais descontraído que outros, nos quais três postados nomefodidos levam a longos debates de mais de 300 postados, sobre os méritos e as desvantagens do anonimato na rede. A regra geral é nunca se autonomefoder, a menos que seja indispensável distinguir-se, pessoalmente, do enxame sem nomes [ing. anonymous] e separar-se do enxame (comentário dos tradutores).

[5]  Hedging language ou Verbal Hedge [fala-escudo]: Colunistas, repórteres e jornalistas em geral mostram-se cada dia mais conscientes de que há risco de serem processados por crimes que cometam ao noticiar. Resultado disso, são cada dia mais frequentes, em todos os veículos, expressões que visam exclusivamente a proteger o jornalista e a empresa para a qual trabalha, contra acusações criminais e processos por difamação e calúnia (dentre outros crimes). Às expressões que se usam para essa exclusiva finalidade defensiva, chama “fala-escudo”, porque visam a distanciar o jornalista e a empresa jornalística de qualquer compromisso com o que esteja sendo divulgado ou comentado. É onde a isenção jornalística vira arma e é usada contra o consumidor do discurso jornalístico.
Por isso, abundam hoje matérias jornalísticas em que tudo é dito “suposto”:

 

Suposta amante do executivo da Yoki deve depor segunda-feira (15/6/2012, O Estado de S.Paulo);
Foto de suposta nova camisa reserva do Corinthians vaza na internet (3/5/2012, O Estado de S.Paulo)  – e esse, aliás, é exemplo extremo de uso absolutamente absurdo, do absurdo “suposto”, porque se fica sem saber, até, o que seria “suposto”: (a) “suposta nova (camisa)” ou (b) “suposta camisa (nova)”; ou (c) “suposta (camisa nova) reserva”; ou (d) suposta (nova camisa reserva) do Corinthians)”?!

O que se vê aí é, de fato, só e sempre, o suposto jornalismo do Estadão suposto jornal [risos, risos, porque essa foi booooa!]. E “O presidente sofre de suposta doença terminal” (vários veículos, no Brasil, a propósito de doença dos presidentes Lula e Chávez). Há zilhões de exemplos, mas bastam esses, por hora.

Esse movimento discursivo de dissimulação exaure, de fato, a relevância jornalística e social de qualquer notícia.

Mas esse tipo de fala-escudo nem seria necessário, se o jornalismo, o jornalista ou o repórter realmente investigassem os assuntos sobre os quais vivem de inventar notícias. Essa fala-escudo, que mata qualquer notícia, seria desnecessária se realmente houvesse o que noticiar, em cada notícia (suposta existente, mas que não existe) que é noticiada.

Assim, se a investigação policial já estiver completada, a notícia é: “fulano será julgado por ter matado sicrano” (e não se falaria de “suposto assassino” – que é perfeito absurdo lógico e também gera objeto para processo por calúnia e difamação, dentre outros). Se já houver laudo médico, não há “suposta doença” e a notícia é outra, que não foi noticiada.

Afinal de contas, em todos os casos, o que seriam, no mundo, se existissem, uma “suposta amante”?! E/ou uma “suposta doença terminal”?! E/ou uma “suposta camisa”?! \o/ \o/ \o/ \o/.

[6]  Prôs que pensem que essas proibições-tabu religiosas só tenham a ver com “fundamentalistas muçulmanos”, acordem: deu na Bíblia (Deuteronômio 23-19: “Do teu irmão não exigirás juros [...] e Colossenses 3-5: “Exterminai, pois, as vossas inclinações carnais; a prostituição, a impureza, a paixão [...]).

[7 ASCII, American Standard Code for Information Interchange/ Código Padrão Norte-americano para Intercâmbio de Informação) é uma codificação de caracteres de oito bits baseada no alfabeto inglês. Os códigos ASCII permitem “desenhar” em computadores, equipamentos de comunicação, entre outros dispositivos que trabalham com texto. Desenvolvido a partir de 1960, grande parte dos modernos códigos de caracteres foram criados a partir do ASCII . Vê-se um dentre os quase infinitos possíveis “cavalos ASCII”.

[8  Pode ser visto em: Nyan Cat

[9]  Ensaio de 1946. Pode ser lido em português europeu em: A política e a língua inglesa