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terça-feira, 12 de novembro de 2013

Os revolucionários que vivem entre nós

Não deixem a paranoia e o medo afastá-los do ativismo. Trabalhem anônimos!

11/11/2013, [*] Chris Hedges, Truthdig
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Jeremy Hammond
NEW YORK – Jeremy Hammond estava sentado no Centro Correcional Metropolitano de New York, semana passada, numa pequena sala reservada para visitas dos advogados. Vestia o macacão de prisioneiro, largo demais. Muito alto e muito magro, o cabelo cai-lhe sobre as orelhas e está com uma barbicha rala. Falou com a clareza e a intensidade que se espera de um dos mais importantes prisioneiros políticos hoje presos nos EUA.

Sexta-feira, o ativista, de 28 anos, comparecerá para ouvir a sentença ante a Corte Distrital Sul de New York em Manhattan. Depois de ter-se declarado culpado, em troca de um acordo para reduzir a sentença, encara agora a possibilidade de ser condenado a 10 anos de prisão, por ter invadido os computadores da empresa de segurança privada Strategic Forecasting Inc., ou Stratfor, do Texas, que presta serviços sob contrato ao Departamento de Segurança Interna dos EUA; ao Marine Corps; à Agência de Inteligência do Departamento de Defesa e a inúmeras empresas entre as quais a Dow Chemical e a Raytheon.

Quatro outros envolvidos na mesma ação de hacking foram condenados na Grã-Bretanha, e todas as penas deles somadas – a mais longa foi de 32 meses – são muitíssimo menores que a pena possível de 120 meses que ameaça Hammond.

Hammond entregou o material todo à página WikiLeaks e à revista Rolling Stones e a outras publicações. Os três milhões de e-mails, quando tornados públicos, expuseram as ações de infiltração, monitoramento e vigilância contra manifestantes e dissidentes, sobretudo do movimento Occupy, feitas a serviço de empresas privadas e do estado de segurança nacional. Foi quando todos ficamos sabendo, comprovadamente, e talvez seja a revelação mais importante, que as leis antiterrorismo estão sendo aplicadas rotineiramente pelo governo federal dos EUA para criminalizar dissidentes democráticos não violentos, e para associar, falsamente, dissidentes norte-americanos e organizações internacionais terroristas. Hammond não procurava ganho financeiro. E nada recebeu.

Os e-mails que Hammond tornou de conhecimento público são parte das provas que instruem a ação que movi contra o presidente Barack Obama, nos termos da seção 1.021 da Lei de Autorização de Defesa Nacional [orig. National Defense Authorization Act (NDAA)]. Essa seção 1.021 permite que militares prendam cidadãos que o estado acuse de serem terroristas, permite negar-lhes o devido processo legal e mantê-los presos por tempo indefinido em instalações militares. Alexa O'Brien, estrategista de conteúdo e jornalista, co-fundadora de US Day of Rage [Um dia de Fúria-EUA], organização criada para reformar o processo eleitoral, é um dos coautores, comigo, naquela ação.

Katherine Forrest
Empregados da empresa Stratfor tentaram – e sabe-se pelos documentos que Hammond vazou – associar falsamente ela e sua organização a islamistas radicais e respectivas páginas de Internet, e à ideologia jihadista, pondo-a sob a ameaça de ser presa, nos termos da nova lei. A juíza Katherine B. Forrest decidiu, em parte por causa das informações vazadas, que nós tínhamos motivos razoáveis para ter medo, e anulou os efeitos da lei – decisão que foi anulada num tribunal de apelação, quando o governo Obama recorreu contra ela.

O estado-empresa já cancelou a liberdade de imprensa e a proteção legal a quem exponha abusos e mentiras praticados pelo estado e pelo governo. Daí resultaram o autoexílio de jornalistas investigativos como Glenn Greenwald, Jacob Appelbaum e Laura Poitras, além do processo contra Barret Brown. Todos os atos de resistência – inclusive o protesto não violento – já foram decididos, pelo estado-empresa, como atos terroristas. A imprensa foi castrada pelo uso repetido, pelo governo Obama, da Lei Antiespionagem [orig. Espionage Act], para acusar e condenar os tradicionais “tocadores de alarme” [orig. whistle-blowers].

Funcionários do estado e do governo norte-americano, que tenham consciência, estão aterrorizados e não procuram jornalistas, sabendo que o controle “no atacado” de tudo que se diga ou escreva pelos veículos de comunicação eletrônica é material rastreado e os torna facilmente identificáveis. E políticos eleitos ou o Judiciário já não impõem qualquer restrição à espionagem contra os cidadãos, ou eles mesmos nos espionam.

A última linha de defesa que nos resta são gente como Hammond, Julian Assange, Edward Snowden e Chelsea Manning, capazes de entrar dentro dos registros do estado de vigilância e controle, e que têm a coragem para entregar aos cidadãos o que lá encontrem. Mas o preço da resistência é muito alto.

Sarah Harrison
Nesses tempos de secretude e abuso de poder, só há uma solução: a transparência, escreveu Sarah Harrison, a jornalista britânica que acompanhou Snowden à Rússia e, de lá, partiu para o exílio, em Berlin.

Se os nossos governos já estão tão comprometidos a ponto de não dizer jamais a verdade, temos de avançar e pegá-la. Desde que se tenha em mãos as provas inequívocas, documentos, fontes primárias, é possível lutar e resistir. Se o governo não nos dá informação verdadeira, temos de tomá-la, nós mesmos.

Quando os “vazadores”, “tocadores de alarme”, nossos sentinelas, avançam e chegam à verdade, temos de lutar por eles, para que outros se sintam encorajados a avançar, continua ela...

Quando caem, temos de ser a voz deles. Quando são caçados, temos de garantir-lhes abrigo e escudo. E quando são encarcerados, temos de libertá-los. Dar a verdade à maioria não é crime. Os dados são nossos, a informação é nossa, é nossa história. Temos de lutar por eles. Coragem é contagiosa.

Bradley (Chelsea) Manning e Julian Assange
Hammond sabe desse contágio. Estava em casa, em Chicago, vivendo em regime de prisão domiciliar das 7h às 19h, condenado pela prática de vários atos de desobediência civil, quando Chelsea (então ainda Bradley) Manning foi presa por entregar a WikiLeaks informação secreta sobre crimes de guerra praticados por militares e mentiras do governo. Hammond, naquela época tocava programas sociais de ajuda para alimentar pobres famintos e enviar livros a prisioneiros. Ele tem, como Manning, especial talento para ciências, matemática e linguagens de computador, e sempre teve, desde menino. Invadiu os computadores de uma loja local da Apple, aos 16 anos. Invadiu a página do departamento de ciência computacional da University of Illinois-Chicago, no primeiro ano de universidade, ato pelo qual a universidade não o admitiu à universidade no ano seguinte, quando voltou das férias.

Foi precoce apoiador da “ciber-libertação” e em 2004 iniciou um jornal “jornal de desobediência eletrônica(o)” que batizou de Hack This Zine. Conclamou os hackers, em palestra na Convenção DefCon, em 2004, em Las Vegas, a usar suas competências e talentos para tumultuar a Convenção Nacional Republicana anual. Quando foi preso, em 2012, era uma das invisíveis estrelas do underground do ativismo hacker, dominado por grupos como Anonymous e WikiLeaks, nos quais só o anonimato e rígidas regras de segurança eletrônica, com frequentes troca de apelidos, garantiam o sucesso e a sobrevivência. A coragem de Manning induziu Hammond a praticar o seu próprio grande gesto de ciber-desobediência civil, embora soubesse que corria alto risco de ser identificado.

Vi o que Chelsea Manning fez – disse Hammond, quando falou na 5ª-feira (1/11/2013) passada, sentado a uma mesa de metal.

Com seu hacking, ela entrou no jogo e tornou-se alguém que mudou o mundo. Correu riscos tremendos, para mostrar a feia verdade sobre a guerra. Perguntei a mim mesmo: se ela pode correr esse risco, por que eu não poderia? Não estaria errado eu, ali, confortavelmente sentado, trabalhando nas páginas de “Comida, não bombas”, quando eu tinha competência para fazer algo parecido? Eu também podia fazer diferença. A coragem dela empurrou-me a agir.

Black Bloc Anarquistas
Hammond – que tem tatuagens pretas nos dois antebraços, num o símbolo do movimento de ciberativistas a favor da fonte aberta, conhecido como “o glider[1]; no outro, o hexagrama 7 do I Ching, “A Multidão” – é versado no pensamento radical. Na adolescência, migrou sem conflito, da ala liberal do Partido Democrata para a militância dos Black Bloc anarquistas. Foi leitor ávido, no ginásio, de material publicado pelo coletivo anarquista CrimethInc, [2] que publica literatura e manifestos anarquistas. Seu pensamento foi moldado por radicais da velha escola, como Alexander Berkman e Emma Goldman e revolucionários negros como George Jackson, Elaine Brown e Assata Shakur, além de membros do Weather Underground.

Disse que, enquanto esteve em Chicago fez várias viagens para visitar o Monumento aos Mártires de Haymarket, que homenageia quatro anarquistas enforcados em 1887 e outros que lutaram nas guerras do trabalho nos EUA. Aos pés do monumento de mais de 4m de altura, leem-se as últimas palavras de um dos condenados, August Spies: “Dia virá, quando nosso silêncio será mais poderoso que a voz que vocês sufocam hoje”. Emma Goldman está sepultada ao lado.

Monumento aos Mártires de Haymarket
Hammond tornou-se bem conhecido do governo por uma série de atos de desobediência civil ao longo da última década. Vão de pintar graffitis antiguerra em muros de Chicago, para protestar contra a Convenção Nacional do Republicanos em 2004, a invadir a página do movimento direitista Protest Warrior, ação pela qual foi condenado a dois anos de prisão no Instituto Correcional em Greenville, Illinois.

Disse que hoje luta como “comunista anarquista” contra “a autoridade do estado centralizado” e contra “corporações exploradoras”. Seu objetivo é construir “coletivos sem líderes baseados na livre associação, no consenso, na ajuda mútua, na autossuficiência e na harmonia com o meio ambiente”. É essencial, ele disse, que todos cortemos nossos laços pessoais com o capitalismo e nos engajemos na “organização de protestos, greves e boicotes de massa”. Hackear e vazar, ele disse, são parte dessa resistência – “ferramentas eficientes para revelar as feias verdades do sistema”.

Hammond passou meses dentro do movimento Occupy em Chicago. Abraçou suas “estruturas sem liderança nem hierarquia, como as assembleias gerais e os consensos, e ocupando espaços públicos”. Mas criticou fortemente a, como disse, “política vaga” em Occupy, que acolheu seguidores do libertarista Ron Paul, gente do Tea Party, além de “liberais reformistas e Democratas”. Hammond disse que não estava interessado em movimento que queria “apenas uma forma “mais suave” de capitalismo, e trabalhava por reformas, não por revolução”. Permanece firmemente enraizado no ethos do Black Bloc.

Disse que: Estar preso foi o que realmente abriu meus olhos para a realidade do sistema da justiça criminal...

(...) não é sistema de justiça criminal que tenha algo a ver com segurança ou reabilitação. Só fazem recolher os lucros do encarceramento em massa. Há dois tipos de justiça – uma para os ricos e poderosos que cometem os grandes crimes e se safam; outra para o resto de nós, especialmente para pretos pobres e os que perderam tudo. Julgamento justo é coisa que não existe. Em mais de 80% dos casos as pessoas são pressionadas para confessar, em vez de se beneficiar do direito de serem julgadas, sob a ameaça de sentenças longuíssimas. Acredito que não há reforma satisfatória possível. Temos de fechar todas as prisões e libertar todos os presos, sem condições.

Disse que (...) esperava que seu ato de resistência encorajasse outros, como a coragem de Manning o inspirou. Disse que os ativistas têm de conhecer e aceitar a repercussão pior possível antes de iniciar qualquer ação, e que têm de estar conscientes das operações de contrainteligência/vigilância que existem contra nossos movimentos.

Hector Xavier Monsegur,
o traidor Sabu
Um informante que se fez passar por companheiro, Hector Xavier Monsegur, conhecido online como “Sabu”, entregou Hammond e outros, réus no mesmo processo, ao FBI. Monsegur armazenou dados obtidos por Hammond num provedor externo em New York. Essa tênue conexão com a cidade permitiu que o governo processasse Hammond em New York, por ação de hacking feito de sua casa, em Chicago, contra uma empresa privada de segurança cuja sede está no Texas. New York é o centro das ações judiciais que o governo Obama move, em sua chamada ciberguerra; é exatamente onde as autoridades federais, pelo que se viu, queriam que Hammond fosse investigado e acusado.

Hammond disse que continuará a resistir de dentro da prisão. Algumas infrações menores, como ter tido resultado “positivo” em testes para consumo de drogas, com outros prisioneiros de sua ala, que contrabandearam maconha para dentro da prisão, custaram-lhe o direito de receber visitas por dois anos e “tempo na caixa” [cela solitária]. Pode ver jornalistas, mas meu pedido de entrevista demorou dois meses para ser aprovado. Disse que prisão implica “muito tédio”. Joga xadrez, ensina guitarra e ajuda outros prisioneiros nos estudos para os exames do General Educational Development (GED). Quando nos encontramos, ele estava trabalhando na redação da declaração, um manifesto pessoal, que lerá no tribunal, essa semana.

Insistiu que não se vê como diferente dos demais prisioneiros, especialmente os negros pobres, presos por crimes comuns, quase todos relacionados a drogas. Disse que há ali muitos outros prisioneiros políticos, encarcerados injustamente por um capitalismo totalitário que sufocou as oportunidades básicas para a divergência democrática e a sobrevivência econômica.

Disse que:

(...) a maioria dos pobres que estão na prisão fizeram o que fizeram, para sobreviver.

Quase todos eram muito pobres. Foram apanhados na guerra às drogas que, hoje, é o modo de ganhar a vida se você é pobre. A razão verdadeira por que estão na cadeia por tanto  tempo é que, assim, as empresas que administram as cadeias podem lucrar muito. Não se trata de justiça. Não vejo diferença alguma entre eles e eu.

Cadeia é, na essência, aguentar abuso e condições de desumanização, com frequentes solitárias e espancamentos. Você tem de constantemente lutar pelo respeito dos guardas, às vezes já sabendo que vai acabar na solitária. Mas não é porque estou preso que vou mudar o modo como vivo. Continuarei a desafiar, agitar e organizar sempre que conseguir.

Disse que a resistência tem de ser um modo de vida. Planeja voltar às tarefas de organização de comunidades quando for solto, embora, disse, vá fazer o possível para não ser novamente preso. “A verdade”, disse, “sempre aparece”.

Alertou os ativistas para manterem-se hipervigilantes e conscientes de que “um erro pode ser para sempre”. Mas, ele completou:

Não deixem a paranoia e o medo afastá-los do ativismo. Trabalhem anônimos!




Notas dos tradutores

[1] O glider (lit. “uma espécie de asa, para voo controlado; variante do paraquedas”) não tem nem marca registrada nem copyrights. Se quiser usá-lo em sua página, aqui vão as linhas que você pode copiar-colar:
hacker emblem

Entre os dias 8-23/11, a organização está promovendo um circuito de palestras, por várias cidades dos EUA, a serem apresentadas por “companheiros do Brasil”, que falarão sobre “Os levantes de 2013 no Brasil”. Bom serviço prestariam se falassem aqui. Mas... pois é.
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Chris Hedges escreve regularmente coluna no blog Truthdig.com. Formou-se na Harvard Divinity School e foi durante quase duas décadas correspondente no exterior do The New York Times. É autor de muitos livros, incluindo: War Is A Force That Gives Us Meaning, What Every Person Should Know About War, e American Fascists: The Christian Right and the War on America. Seu livro mais recente é Empire of Illusion: The End of Literacy and the Triumph of Spectacle.

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Saiba mais sobre Jeremy Hammond e o traidor Sabu (Hector Xavier Monsegur):


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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

WikiLeaks e os arquivos da “CIA nas sombras”


27/2/2012, Plaza Pública, Guatemala
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Ler também:


Comentário:
15 meses depois de publicar 250 mil telegramas das embaixadas norte-americanas em todo o mundo, WikiLeaks volta a lançar luz sobre as relações obscuras entre uma empresa global, informantes dentro das forças de segurança dos estados e ex-agentes da inteligência/espionagem dos EUA: a empresa Stratfor. WikiLeaks, que tem sede em Londres, obteve 5 milhões de e-mails da empresa Stratfor, especializada em segurança, e selecionou 25 jornais em todo o mundo, para divulgá-los e comentá-los para a opinião pública. O jornal Plaza Pública, na Guatemala, é um deles.


Nenhuma publicação de mercado do Brasil está incluída nessa seleção de 25 publicações decentes, em todo o mundo.



De um dos e-mails agora publicados, de 8/3/2011:

“Abriu-se a caixa de Pandora (com a candidatura de Sandra Torres como candidata). O setor privado vai tratar de matá-la. Los Zetas vão protegê-la. Logo será o Apocalipse. E então? Como tiramos dinheiro disso tudo?
Abraços
[assina] Jaime Rivera, CEO de Bladex



“Os Arquivos da Inteligência/espionagem Global” que começaram a ser publicados hoje em todo o mundo são e-mail s dessa empresa de “inteligência global” com sede no Texas e revelam como opera uma empresa que vende serviços de inteligência confidencial a grandes empresas e agências de governos nos EUA. Os e-mails mostram a rede de informantes, a estrutura de pagamentos, as técnicas de lavagem de dinheiro e de métodos psicológicos para obter informação.

Há quase 30 mil e-mails nos quais se discute a Guatemala, entre 2004 e 2011. Plaza Pública os publicará ao longo dos próximos meses, oferecendo a nossos leitores, como fez com os telegramas diplomáticos do Cablegate no ano passado, o contexto necessário no qual cada e-mail está inserido.

Como advertimos no ano passado, nada garante que o que se lê nos e-mails de Stratfor seja verdade. Do nosso ponto de vista, Stratfor é uma fonte. Nesse caso, é uma fonte que tem acesso a dados e informações que se compram e vendem-se, no limite entre a legalidade e a ilegalidade. E Stratfor é também, por vocação empresarial, “fonte de outras fontes”, sem que ninguém, até agora, se tenha preocupado com a veracidade da “inteligência” que Stratfor vende, regida, como empresa, por seus próprios interesses empresariais.

Nesses “Arquivos da Inteligência/espionagem Global” vê-se o processo pelo qual Stratfor paga aos seus informantes através de contas na Suíça e cartões de crédito pré-pagos.

Dentre os e-mails sobre a Guatemala, já encontramos coisas que dão calafrios, sem qualquer credibilidade, mas que, tanto quanto se sabe, bem poderiam ser tratados como informação “de inteligência”. Por exemplo, um e-mail recente, que ainda não completou um ano, datado de 8/3/2011:

“Abriu-se a caixa de Pandora (com a candidatura de Sandra Torres). O setor privado vai tratar de matá-la. Los Zetas vão protegê-la. Será o Apocalipse. E então? Como tiramos dinheiro disso tudo?
Abraços. 
 [assina] Jaime Rivera, CEO de Bladex

O problema para a Guatemala é que, embora o comentário acima nada tenha a ver com a realidade, o e-mail é assinado por ninguém menos que o hoje presidente do Banco Latino-americano de Comercio Exterior, ouvido recentemente pela revista Forbes. Em seu perfil, aparece como assessor da Bolsa de Valores de Nova York, com renda anual de quase um US$1 milhão.

Essa é apenas uma amostra de quem são as fontes e informantes de Stratfor e do que dizem; muitos deles em postos de decidir, por exemplo, se o país recebe ou não investimentos externos e o que se faz com o dinheiro.

E Stratfor – diferente do que dizem os telegramas que chegam dos EUA – serve-se de métodos pouco ortodoxos. George Friedmann, fundador, gerente financeiro e diretor de Stratfor, resume numa frase: “Você tem de controlar [sua fonte]. Controlar quer dizer controle financeiro, sexual ou psicológico”, Friedman explicava à analista Reva Bhalla, dia 6/12/2011, que quer extrair, de um informante israelense, informação sobre o estado de saúde do presidente Hugo Chávez.

Stratfor também menciona o jornal Plaza Pública pelo menos uma vez, quando zomba de uma coluna de David Martínez Amador na qual David critica o modo de os norte-americanos obterem informações em campo no México e na América Central, que só conseguem de informantes infiltrados. “David não gosta de nós porque somos gringos”, dia 19/8/2011.

O que WikiLeaks faz agora está sendo feito apesar do bloqueio econômico que lhe foi imposto por Bank of America, Visa, Mastercard, PayPal e Western Union, o que dificultou muito o processo de as doações de colaboradores chegarem até WikiLeaks.

Simultaneamente, as mesmas empresas nada fazem para impedir que seus serviços sejam usados para financiar organizações antissemitas, sionistas, racistas suprematistas brancos e criminosas de todos os tipos. Julian Assange continua em prisão domiciliar em Londres, há seis meses.

A falta de ética de algumas empresas jornalísticas, como o jornal The Guardian, destruiu a relação cooperativa que WikiLeaks havia construído com o jornal britânico, e obrigou a organização a publicar, de uma só vez, todos os telegramas diplomáticos dos EUA que tinha em seu poder. Diferente do que divulgaram os maiores jornais do mundo, os telegramas diplomáticos tiveram de ser divulgados em bloco, porque jornalistas, entre os quais jornalistas do TheGuardian, publicaram em livro as senhas de acesso ao material; e um desertor de WikiLeaks vendeu as senhas que tinha em seu poder.

Para salvar a integridade dos telegramas, antes de que fossem manipulados, WikiLeaks decidiu liberar todos. Na nossa avaliação, do jornal Plaza Pública, não foi a melhor opção, mas entendemos os motivos de WikiLeaks.

Assim aconteceu que, um ano depois, a própria embaixada dos EUA na Guatemala, para expor argumentos seus, citou artigos do jornal Plaza Pública que usavam informação dos telegramas vazados por WikiLeaks.

O que temos agora é mais um esforço a favor da transparência da informação, e esforço mundial. Jornais de prestígio em todo o mundo, como Público na Espanha; a revista Rolling Stone nos EUA; The Hindu na Índia; La Nación na Costa Rica; Página 12 na Argentina, La Jornada no México ou Plaza Pública na Guatemala são alguns dos parceiros de WikiLeaks nessa ocasião.

Cobertura mais completa sobre temas globais pode ser encontrada, no jornal Público/WikiLeaks, espanhol.

Ao longo das próximas semanas, Plaza Pública distribuirá, comentada, informação que haja nos e-mails de Stratfor sobre a Guatemala e alguns dos países vizinhos.

Stratfor: Por dentro de uma CIA privada


28/2/2012, Yazan al-Saadi, Al-Akhbar, Líbano
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Apoiadores de Julian Assange, fundador de WikiLeaks, exibem faixa em que se lê “Na guerra, a primeira vítima é a verdade”, à frente do prédio da Suprema Corte, no Centro de Londres, dia 1º de fevereiro de 2012, primeiro dia do julgamento do apelo de Assange, contra a extradição para a Suécia  (Foto: AFP – Miguel Medina)

A divulgação de mais de 5 milhões de e-mails de uma empresa privada de inteligência/espionagem com escritórios nos EUA, Stratfor, incluindo detalhes de cartões de crédito, senhas e identidade das fontes, lança nova luz sobre a realidade, em rápida transformação, do mundo da coleta de informações de inteligência/espionagem e expõe pessoas e interesses por trás daquela realidade. O jornal Al-Akhbar recebeu os dados obtidos e publicados por WikiLeaks, que incluem material sensível sobre o Oriente Médio.


Strategic Forecasting Inc., mais conhecida como Stratfor, é empresa privada que opera no lucrativo negócio da coleta e análise de informação de inteligência/espionagem.

Fundada em 1996, a empresa tornou-se globalmente conhecida durante o bombardeio da OTAN contra o Kosovo, em 1999, quando as análises publicadas por Stratfor, consideradas bem informadas e aprofundadas, foram divulgadas por várias agências de notícias. Mas foram os eventos do 11/9 e a subsequente “guerra ao terror” que inflaram o prestígio da empresa, convertendo-a em fonte sempre procurada pelas grandes redes e conglomerados da imprensa comercial, como Bloomberg, Associated Press, Reuters, The New York Times e também pela BBC.

Descrita muitas vezes como uma “CIA privada”, a empresa Stratfor repete que as informações que vende são obtidas de grande número de fontes públicas acessíveis, como serviços de notícias online, fóruns de discussão e outros tipos de páginas da Internet e estudos e pesquisas governamentais não sigilosos, além do que lhe dizem suas próprias fontes, sempre bem localizadas em todo o mundo. A empresa diz ter cerca de 300 mil assinantes, além dos dois milhões de interessados que recebem gratuitamente uma Newsletter, por correio eletrônico.

Até recentemente, parte significativa da atividade da empresa Stratfor permanecia cercada de mistério. Mas em dezembro último hackerativistas do coletivo Anonymous invadiram o sistema de comunicações da empresa, na campanha chamada “LulzXmas”, concebida para chamar atenção para as condições desumanas em que estava preso o cabo Bradley Manning, acusado pelo governo dos EUA de fornecer informações secretas à organização WikiLeaks.

Contato inicial com os e-mails agora distribuídos começa a lançar luz, afinal, sobre como a empresa está estruturada, sobre o processo de atrair, alistar e construir fontes e sobre o estranho modo de relacionamento que liga entre eles os empregados da empresa. Em contraste flagrante com a imagem que Stratfor tenta projetar dela mesma, o que se vê nos e-mails é uma empresa com inúmeros problemas de organização, com empregados muitas vezes surpreendentemente desinformados e super dependentes de determinadas fontes para fabricar previsões e diagnósticos que, não raras vezes, não têm qualquer fundamento fatual ou de investigação ou pesquisa.

O que é a empresa Stratfor?

A Stratfor foi fundada há mais de dez anos em Austin, Texas, por George Friedman, ex-professor de ciência política. Friedman é o principal agente de inteligência/espionagem, o gerente financeiro e o presidente executivo da empresa.

Autoapresentado como “autor de livros best-seller” na página “Sobre nós” do website da empresa, Friedman tem longo currículo de serviços prestados aos militares norte-americanos nas áreas de segurança e defesa, e trabalhou também com a conhecida RAND Corporation.

Friedman também é autoproclamado discípulo de ícones dos neoconservadores, como Leo Strauss; e sempre enfatiza em suas análises, a “ameaça jihadista” da al-Qaeda. De fato, o relatório de prognóstico publicado pela empresa Stratfor para a década 2005-15 trata, predominantemente, do posicionamento dos EUA como potência hegemônica global e do conflito com a al-Qaeda [1].

As fontes são indispensáveis para a empresa Stratfor. São como linha de abastecimento pra o think tank, sejam apenas amigos ou conhecidos de empregados da empresa, ou indivíduos em altos postos políticos ou empresariais. A esposa de Friedman, Meredith, tem envolvimento ativo nas operações da empresa. É principal gerente internacional e vice-presidente de comunicações. A julgar pelos e-mails, parece ter a missão de expandir a rede de relações públicas de Stratfor, marcar entrevistas e participação em eventos públicos, sempre com contato com a mídia, para o marido e para outras personalidades do mundo acadêmico e político. Além disso, Meredith é encarregada de organizar o braço internacional de Stratfor (empregados da empresa são enviados ao exterior, para conferências).

Fred Burton, vice-presidente de Stratfor para questões de segurança empresarial e contraterrorismo, é o terceiro na cúpula dirigente da empresa/think tank. Foi agente especial do Serviço Diplomático de Segurança dos EUA, indicado por Washington para investigar o assassinato do primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin; o assassinado do rabino Meir Kahane e inúmeros casos de explosões atribuídas à al-Qaeda antes do 11/9.

Burton é apoiador visível e empenhado pró-Israel e faz a ligação com os setores militares e de inteligência/espionagem de Israel. Na discussão que se lê num dos e-mails, sobre a Flotilha “Liberdade para Gaza”, Burton, abraçando a narrativa israelense, argumenta que a Flotilha seria financiada por fontes questionáveis.

As fontes: espadas de dois gumes

Há, sem dúvida, algum tipo de relacionamento entre a empresa Stratfor e agências oficiais de segurança, sobretudo nos EUA. Vários e-mails internos carregam, como documentos anexados, publicações (não sigilosas) do FBI e de outras agências [2]. Pesquisa mais aprofundada nos e-mails agora publicados poderá trazer à tona mais provas desse laço direto.

A empresa tem organização piramidal. No topo, como já se comentou, estão os Friedmans e Burton, que tomam todas as decisões. Abaixo deles, ficam os WOs [Watch Officers, aprox. “encarregados da vigilância/busca”], que peneiram as várias fontes à procura de qualquer informação significativa. Em seguida vem os analistas, às vezes também chamados “handlers” [aprox. “operadores”, que discutem e examinam os informes de inteligência/espionagem, com a tarefa de encontrar e construir relacionamentos com indivíduos, para explorar/aprofundar informações. Na base da pirâmide, afinal, ficam as fontes. 

As fontes são classificadas em escala: “A” para as melhores e “F” para as piores [3]. Também são codificadas segundo a região ou o tópico, e recebem um número [4].

Contudo, os e-mails internos de Stratfor sugerem certo nível de frustração, às vezes de confusão, quando se trata de os empregados apenas obedecerem a regras [5]. Em abril, afinal, aconteceu um processo de completa revisão/reavaliação das fontes. Nos grupos de e-mails em que se discute essa revisão, vê-se bem evidente a frustração dos que receberam a missão de reunir as listas de fontes. Em um caso, uma lista de fontes vazou, erroneamente, para a lista de “Fonte Aberta” [orig. Open-Source (OS)].

Há desconexão total entre os fatos e as vastas complexidades em campo nas regiões, e os tópicos em que são classificados. Numa troca de e-mails entre Anya Alfano, que trabalha como relatora-resumista [orig. briefer], e Meredith Friedman, Alfano esboça uma avaliação geral do processo de revisão das fontes [6]. Essa avaliação geral sugere que Stratfor não é tão bem informada como gostaria de fazer crer. Muitas fontes são conectadas a determinados países e questões específicas, não têm como cobrir questões regionais nem questões menos específicas. Uma das principais fontes de Stratfor no Oriente Médio, codinome ME1, é exemplo disso.
Segundo vários emails, ME1 trabalha ativamente com Stratfor desde 2006, talvez desde antes. Parece que é militar do exército libanês; fala/escreve bom inglês; e fornece a Stratfor informações também de várias outras fontes, entre as quais parece haver membros do Hamás e vários diplomatas árabes no Líbano, dentre outros.

A importância de ME1 é destacada, também, porque, em outubro de 2011 recebeu aumento de salário (passou a receber $6.000 mensais) [7]. A lista de transferências [de dinheiro] de 2011 mostra que ME1 é o terceiro mais alto salário entre as fontes remuneradas [8].

Em dois e-mails vê-se o quanto a empresa confia em ME1. O primeiro mostra que membros da empresa Stratfor acreditam ter “jornalistas-contatos (editores) para praticamente todas as agências significativas de mídia no Líbano, via ME1” [9]. O segundo – e talvez seja o melhor exemplo do pouco conhecimento real com que a empresa Stratfor conta, e do quanto a empresa superconfia na terceirização da coleta de informações – mostra um debate sobre a identidade sectária de Assef Shawkat, vice-ministro de Defesa da Síria e marido de Bushra Assad [irmã de Bashar-al-Assad], e de Ali Mamlouk, diretor geral da Inteligência síria [10]. Apesar de a Fonte Aberta (Open Source, OS) ter informado que Shawkat e Mamlouk seriam sunitas (são alawitas!), como um analista destaca, o agente de operação encarregado do contato com ME1, Reva Bhalla, confirma o que sua fonte lhe disse: “Nessa questão, confio em ME1. Odeio essa região, aaaaargh.”

Stratfor, por trás da fachada 

Mesmo sem considerar a embaraçosa e obviamente grave quebra na segurança da empresa Stratfor, que não se cansa de repetir que zela pela segurança de suas fontes, o conhecimento geral entre os empregados parece resumir-se a um único paradigma.

Stratfor é empresa ideologicamente construída sobre as ideias de pragmatismo dos neoconservadores norte-americanos. Há em todas as linhas uma visível euforia e imensa delícia, sempre que se destaca, nos relatórios e estudos (e também nos e-mails agora divulgados) o poder que EUA e seus aliados projetam sobre o mundo. Em mais de um ponto, vê-se desconexão total entre os fatos e as vastas complexidades em campo nas regiões, e os tópicos em que são classificados – como, por exemplo, em vários casos em que o objeto das análises ou discussões é o Oriente Médio. 

Muitos dos documentos internos de Stanford, agora divulgados, vêm de agências ocidentais ou israelenses. Num e-mail redigido por um dos analistas da empresa Stratfor, um editor palestino é descrito como “doido varrido” [orig. nut job], por ter dito que acreditava que Jerusalém seria libertada “com honra militar” [11]. E, apesar do evidente conteúdo racista antiárabe, na informação fornecida por um oficial da inteligência israelense, a informação é considerada valiosa e relevante [12]. No e-mail sobre aquele oficial israelense, o analista admite que a empresa Stratfor e a Inteligência da Defesa israelense são assemelhadas... porque ambas “mantêm-se desconectadas das políticas domésticas” das regiões onde operam. 

A maioria dos analistas empregados de Stratfor tem conhecimento apenas superficial sobre os tópicos que cobrem. Parece que, de praxe, os analistas recebem, para analisar, tópicos sobre os quais não têm conhecimento prévio. Numa troca informal de e-mails, além de os missivistas trocarem piadas de gosto muito duvidoso sobre AIDS, lê-se, logo na primeira linha, que a analista encarregada da América Latina não é absolutamente especialista na região, mas, mesmo assim, ela conseguiu reunir informação de inteligência/espionagem que agradou aos seus superiores [13].

Muitos dos documentos internos distribuídos para os clientes da empresa Stratfor foram produzidos por agências ocidentais ou israelenses, não por fontes da região – o que reforça a desconexão interna na empresa.

Os informes, relatórios, análises e diagnósticos vendidos pela empresa Stratfor a seus clientes têm servido como base e ferramenta crítica do noticiário distribuído por agências ocidentais de jornalismo e notícias e do trabalho de várias organizações de inteligência. 

Agora, quando afinal se começa a conhecer por dentro as empresas privadas que trabalham no campo da inteligência/espionagem, pode-se começar a entender por que as agências jornalísticas e de notícias ocidentais jamais dão qualquer sinal de entender adequadamente sociedades não ocidentais. 

A maior parte do pensamento analítico desenvolvido em empresas privadas como Stratfor, em seguida distribuído automaticamente em escala maior pela imprensa global, reproduz uma narrativa sempre muito superficial, que de modo algum captura as complexidades e os sentimentos individuais envolvidos na vida da região, nem as estruturas políticas, econômicas e sociais locais.

É exatamente o contrário do que diz Friedman, principal executivo e proprietário da empresa Stratfor, no vídeo em que “vende” sua empresa a clientes potenciais. Friedman desqualifica a cultura, para ele característica de Washington, de longos documentos e relatórios políticos que, segundo ele, ninguém lê. Para ele, os serviços de inteligência superam o jornalismo, que “tem um olhar atrasado” sobre o mundo; só as empresas de inteligência/espionagem tratariam do que “está prestes a acontecer e acontecerá” e do “por quê”.

Mal sabia Friedman que agora, com jornalistas e internautas em todo o mundo podendo afinal examinar diretamente e por dentro o modo como operam as empresas privadas de inteligência/espionagem, todos aprenderemos muito sobre o tal “porquê” que tanto interessaria à Stratfor – o que afetará muito o modo como o ocidente recolhe e distribui informação sobre o oriente e sobre muitas outras regiões do mundo.

A partir da próxima semana, o jornal Al-Akhbar examinará o que a empresa Stratfor reuniu (e distribuiu) como informação sobre o Oriente Médio.

Uma pirâmide de colaboradores 

Stratfor é um think tank privado, que vive de reunir informações de inteligência/espionagem, que são analisadas, discutidas, consolidadas e distribuídas. Praticamente todas as informações que a empresa considera relevantes são relacionadas a questões militares, políticas e econômicas; e a mensagem de e-mail é a principal ferramenta para toca de conhecimentos dentro da equipe.

A informação de inteligência/espionagem que é extraída das fontes é em geral confrontada com dados públicos acessíveis, chamados “de Fonte Aberta” [Open Source, OS], e em seguida incorporada a avaliações, diagnósticos e prognósticos, e relatórios em geral, que são divulgados. Essas avaliações, diagnósticos e prognósticos, e relatórios são distribuídos para uma lista de assinantes, em recortes específicos conforme os interesses regionais do assinante, ou num pacote ‘geral’.

No plano interno, a empresa depende pesadamente de listas de distribuição de mensagens. Da lista dos privilegiados “ALFA”, à lista dos analistas regionais, denominadas “MESA” [Middle East South Asia], “LATAM” [Latin America] e “Eurasia”, cada peça de informação de inteligência/espionagem é distribuída por canais específicos nos quais é processada.

Hoje, trabalham na empresa think tank Stratfor mais de 130 empregados, a maioria dos quais faz trabalho operacional e trabalho administrativo. Por exemplo, Jennifer Richmond é Diretora de China e de Projetos Internacionais. Os e-mails mostram que ela também trabalhou – e talvez ainda trabalhe – na administração, tentando organizar e coordenar listas de fontes para avaliação, e garantir que os empregados obedeçam ao critério de classificação interno das informações [14].

A rapidez é fator chave para o sucesso, no jogo de inteligência/espionagem da Stratfor, e para isso trabalham os WOs [Watch Officers, aprox. “encarregados da vigilância/busca”]. Os WOs são “avaliadores objetivos de fontes” que comentam informação oferecida pelas fontes e a comparam com o que haja já divulgado publicamente. Nas palavras de um funcionário, em e-mail de discussão interna, os WOs “guardam as joias da família da empresa” [15]. Esse departamento é comandado por Michael Wilson.

A engrenagem seguinte da mesma máquina são os “analistas”. Cabe a eles reunir as fontes e classificá-las numa grade de confiabilidade, produção, acessibilidade/posição, credibilidade e originalidade das opiniões, ideias e pareceres que a fonte ofereça. O sistema de recrutamento de fontes varia, mas, em geral, a fonte é seduzida, às vezes com muito trabalho e empenho, para que coopere [16].

Descritos como “handlers” [aprox. ‘operadores’], os analistas têm contato direto com a fonte; sua prioridade é garantir que o relacionamento continue.

Além disso, os analistas a serviço da empresa Stratfor devem também interagir com os assinantes, e extrair deles o máximo de informação possível, para uso futuro. Lê-se isso claramente em uma troca de e-mails na qual um analista tático de nível inferior expõe o que fez para desenvolver uma nova fonte – um indivíduo, dentro de um serviço alemão não identificado de segurança, que há mais de nove anos era assinante das publicações da empresa Stratfor.

Os analistas táticos, dentro da empresa Stratfor, dedicam-se a observar e comentar operações militares, de inteligência/espionagem e outras operações de segurança, nos EUA e fora de lá. Scott Stewart, vice-presidente de Inteligência/Espionagem Tática, carinhosamente apelidado “Stick” [porrete], dirige o departamento.

Todos os e-mails citados (em inglês)