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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Matt DeHart:Privacidade Coletiva e o Arquipélago Anônimo


Missivas de uma prisão de segurança máxima

Abril/2014, National PostMatt DeHart
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Dica de Biella Colleman pelo twitter, em: “Eloquente, apaixonada e poética defesa do anonimato, por Matt DeHart”

Matt DeHart é soldado norte-americano, atualmente preso no Canadá, depois de pedir asilo, fugindo dos EUA, onde é condenado por seu trabalho com os Anonymous.


Matt DeHart
O mar está subindo e as colinas que nos restam são poucas e muito distantes umas das outras. Mas essa não é discussão sobre a mudança climática, apesar dos perigos. Essa é discussão sobre o arquipélago anônimo no mar global da vigilância e da perda de nossa privacidade coletiva. Apesar de nossa privacidade individual estar hoje sob grave perigo, ainda há contramedidas para preservar nossos pensamentos e ideias contra olhos e ouvidos hostis. Ainda não podem ouvir a voz dentro da nossa cabeça, nem podem seguir todos, todo o tempo. Não podem roubar ideias de dentro da nossa cabeça, nem podem prever acuradamente nossas intenções imediatas nem nosso comportamento público. Eles ainda não têm esse poder, mas tentarão. Tentarão, porque cedemos a eles nosso direito à privacidade coletiva.

Parte 1

Porque “privacidade” não é coisa claramente definida na Constituição dos EUA, é o direito mais vulnerável que há. Embora como sociedade os norte-americanos ainda lutemos para definir e consagrar na Constituição ou criar limites à invasão à privacidade individual, nós já perdemos a batalha para proteger nossos direitos como comunidades, como grupos. Na verdade, só muito raramente pensamos sobre o nosso direito à privacidade coletiva.

Pensemos um pouco.

Dez indivíduos exercendo o direito de votar não podem ser contados como se fossem nove. O governo não pode entrar numa igreja, numa mesquita ou numa sinagoga e lá ficar, impedindo que quem queira entrar entre (à parte os que já estão infiltrados nas mesquitas), nem pode negar a uma parte dos membros o direito de rezar na igreja porque são muitos. Assim, ideias partilhadas por duas ou 20 pessoas são ainda menos protegidas que as ideias dentro da nossa cabeça. Nossos direitos coletivos diminuem, conforme aumentem as coletividades?

O governo responderá com o argumento da “expectativa razoável" para limitar a privacidade. É posição defensável, embora acabe sempre desmesuradamente exagerada, quando se aplica a protestos públicos ou fóruns públicos. Infelizmente, alguns governos habitualmente infiltram agentes em reuniões privadas, sem causa provável ou motivo razoável para suspeitas.

A solução restante foi reunir-nos em grupos menores ou tomar ainda mais cuidado com aqueles com os quais partilhamos ideias. É precisamente quando nosso círculo de contatos confiáveis encolhe, de um grande grupo para apenas uns poucos, até que só temos, de contato confiável, nós mesmos, que nosso conceito de privacidade e correspondentes expectativas começam a falhar. Não é legal ler meus pensamentos, mas é legal ler os pensamentos que partilho com um amigo, com dois, com dez? Qual a massa crítica a partir da qual se torna necessário vigiar ideias, algumas das quais são secretas?

Se o governo decidiu arbitrariamente que, digamos, grupos de dez ou mais, reunidos em segredo, têm de ser vigiados, o que impede o mesmo governo de diminuir o número arbitrariamente para cinco, depois dois, até chegar, no fim, a um só? Porque a ideia é que a singularidade deve ser observada e, sendo o caso, pode ser indispensável intervir contra ela, e a singularidade começa, pela própria natureza, com pequenos números.

Matt DeHart - Anonymous

Ideias em estado embrionário são vulneráveis. Para serem expressas, manifestadas, discutidas, aceitas ou rejeitadas, elas precisam de um coletivo, no qual possam ou diminuir ou crescer. Algumas ideias impopulares exigem espaço ainda mais restrito de privacidade, uma privacidade de coletivo, ou fenecem e morrem, ou permanecem sem serem jamais realmente formadas.

O governo dos EUA usa cinco argumentos gerais pelos quais ataca esse espaço restrito de privacidade coletiva, não importa que ideia esteja sob a específica proteção de um ou outro coletivo. São eles: terrorismo, segurança nacional, crime organizado, pornografia infantil e propriedade intelectual. Esses são os argumentos (mais geralmente) aceitos legitimamente e socialmente.

O problema que enfrentamos é que algumas das ideias que o governo considera mais perigosas e associadas a interesses do governo dos EUA não se encaixam em nenhuma dessas categorias aceitas. Num sistema tradicionalmente totalitário, as pessoas são presas e encarceradas por ideias políticas. Numa sociedade falsamente democrática, “ofensas” políticas podem ser rotuladas pelos termos de uma daquelas categorias socialmente aceitáveis. De um modo ou de outro, as pessoas acabam encarceradas.

Talvez infelizmente, ou desagradavelmente, é verdade que ideias políticas impopulares, assim como provas de crimes cometidos pelo estado podem, sim, ser igualmente protegidas naqueles pequenos coletivos, onde também se podem proteger comportamentos realmente ilícitos.

Mesmo assim, temos de manter a privacidade de nossos coletivos, ou a civilização ocidental deixará de existir.

Em Os Miseráveis, Victor Hugo descreve esses tipos que se reúnem em segredo em quartinhos dos fundos de estabelecimentos privados. Os homens urdiam em segredo mudanças positivas. Embora seja ficção, Hugo falava ali de eventos acontecidos.

A República Constitucional dos EUA não existiria sem quartos dos fundos privados e espaços coletivos secretos nos quais se reuniam os conspiradores que conspiravam contra a Coroa Britânica. Se o rei George tivesse um informante em cada grupo de conspiradores ou houvesse alguma coisa como a Agência de Segurança Nacional, a Revolução Americana jamais teria acontecido. Quando perdemos essa privacidade para manter coletivos, perdemos a capacidade para desafiar em massa o estado– sobretudo quando o estado, nos EUA, viola a própria Constituição. Isso é o que vemos acontecer hoje, aqui.

O último bastião para resistir contra a total perda de privacidade é o anonimato. Mediante o anonimato, podemos restaurar a privacidade coletiva.


*****
Parte 2, em breve (Arquipélago Anônimo).



Para saber mais sobre o caso de Matt, leia a matéria de Adrian Humphreys no National Post, Hacker, Creeper, Soldier, Spy: The Story of Matt DeHart (ing.).

Links


segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Sobre Snowden

23/8/2013, [*] Gabriella ColemanPrinceton University Press, USA
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Edward Snowden em Moscou
De todas as acusações arregimentadas contra Edward Snowden, considero o diagnóstico de narcisismo” a mais espúria e intrigante. Em que sentido, exatamente, arriscar a própria vida – e prisão perpétua – seria caso de personalidade narcísica? Embora se tenha exposto em público, em parte para sua autoproteção, Snowden limitou ao mínimo possível suas interações com a mídia, bem claramente sem buscar atenção indevida. Dado que não há sinais dessa patologia, rotulá-lo como narcisista soa, isso sim, como assassinato de reputação, para desqualificar “preventivamente” questões mais graves que a ação de Snowden trouxe à tona.

Se se contextualiza o que ele fez, não em termos de personalidade, mas à luz do momento histórico contemporâneo, o que se vê, sem sombra de dúvida, é que Edward Snowden não está só. Ele é parte de um cortejo crescente de indivíduos que há anos já diagnosticaram o crescimento explosivo do estado de vigilância e segredo como problema tão grave, que todos se dispõem a assumir riscos pessoais para forçar o debate e as mudanças. O mais notável desse cortejo é que nele se reúnem pessoas de dentro do sistema (William Binney, Thomas Drake, Edward Snowden, Bradley Manning) e marginais (Julian Assange, Barrett Brown e James Bamford).

O fato de que já se ouça um coro de vozes é significativo.

Julian Assange
A opinião pública talvez se mantivesse mais cética, se só se ouvisse uma voz, ou se só os Julian Assanges do mundo – ativistas há muito tempo, que sempre se mantiveram fora do aparelho do estado – estivessem tocando o apito e dando o alarme. O fato de que no mesmo cortejo se reúnam jornalistas investigativos, pessoal militar, empregados de agências de segurança e ativistas sinaliza eloquentemente a extensão do problema: indivíduos sem qualquer conexão entre eles, emergindo de diferentes campos da vida, todos estão identificando problemas semelhantes.

Isso nos leva rumo às margens da segunda questão: a “santidade” da lei. Parece-me, agora já bem claramente, que os programas revelados violam aspectos da lei, tanto no espírito da lei, quanto na letra da lei. Foi o que advogados disseram, sem meias palavras: Os dois programas violam a letra e o espírito da lei federal. Não há lei nos EUA que explicitamente autorize a vigilância em massa.

Num mundo ideal, nós simplesmente usaríamos mecanismos legais para eliminar leis nocivas e combater injustiças graves. Os críticos seguiriam essa trilha, antes de infringir a lei. Exatamente o que aconteceu nesse caso.

Desde a aprovação da Lei Antiterrorismo [orig. Patriot Act], aprovada em tempos de grande agitação e muito medo nos EUA, vimos inúmeras tentativas, empreendidas por organizações que defendem as liberdades civis, contra a vasta empreitada das escutas e gravações clandestinas sem mandado e sem supervisão judicial. Um primeiro processo, movido pela EFF e ACLU em 2006 contra a empresa AT&T foi não apenas descartado, mas acabou por ser mumificado por uma lei dúbia, que garantiu às grandes empresas de telecomunicações que cooperassem com o governo um tipo jamais visto de imunidade retroativa. A lei foi adulterada de tal modo, que perdeu qualquer serventia real.

Além dos esforços legais empreendidos por organizações civis, alguns indivíduos usaram canais legais que encontraram à disposição deles para forçar mudanças, sem qualquer resultado.

Thomas Drake
Não é preciso ir além do caso de Thomas Drake, empregado da Agência de Segurança Nacional por longos anos e que, num certo momento, passou a se sentir incomodado com as incontáveis violações da lei a que assistia quase diariamente, e de primeira mão. Seu primeiro ato teve caráter reformista. Procurou seus superiores, disse das suas preocupações e ouviu que parasse imediatamente de meter-se no que não era de sua contaProcurou então a imprensa, com informação não sigilosa. Por isso, pagou caro, virou alvo de uma investigação do Departamento de Justiça – a qual depois foi suspensa, mas não antes de a carreira de Drake como funcionário público ter sido arruinada.

Até agora, as únicas ações que geraram debate substantivo e esperanças de alguma mudança foram os vazamentos de Snowden. Por quê? Em primeiro lugar, porque não existe a tal maioria inventada que apoiaria a vigilância desmedida.

Quando surgiram as primeiras notícias sobre o programa PRISM e fizeram-se as primeiras pesquisas, só 56% se declararam a favor da vigilância irrestrita pelo Estado, mas a pesquisa não informava que os próprios cidadãos entrevistados estavam sendo também vigiados clandestinamente. Seja como for, como um número que expressa apenas a metade da população poderia ser apresentado como “maioria”? Não pode. E a questão da “aprovação” pelos cidadãos permanece aberta.

Bradley Manning
Além do mais, conforme vinham à tona as revelações mais graves, os números mudaram, e mais e mais norte-americanos opõem-se hoje aos programas de vigilância, sobretudo quando já se sabe que a vida digital dos norte-americanos está sendo capturada e armazenada.

As razões de Snowden para revelar o que revelou não podem ser reduzidas a simples “não deve haver segredos”. Suas palavras sobre porque fez o que fez e os documentos que vazou mostram raciocínio muito mais complexo, que não pode ficar de fora de nossa análise.

O que Snowden fez foi abrir a torneira, para que informação valiosa possa jorrar sobre uma opinião pública que tem do direito de saber. Só se obtiver informação verídica e confiável, o público poderá construir avaliação realista dos acontecimentos e decidir sobre o que fazer de uma agência do governo que, hoje, tem ilimitados poderes para vigiar tudo e todos; que ativamente sonega informação; e que mentiu ao Congresso dos EUA sobre o que faz.

O debate apaixonado que Snowden gerou, a fervente coalizão que se vai construindo e a militância que já chega à imprensa exigindo mudanças depois daquelas revelações – não alguma reverência cega a leis duvidosas – são a própria vida da democracia, em seu pulso mais vital. Todos devemos muito a Snowden, que abriu as portas. Agora, cabe a nós concluir o trabalho.
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[*] Gabriella Coleman ou Biela Coleman (nascida Enid Gabriella Coleman) é uma antropóloga, acadêmica e ensaísta cuja obra incide em “cultura hacker”, estudo sobre os “Anonymous”e ativismo online em geral. Atualmente ocupa a Cátedra Wolfe em Scientific & Technological Literacy na McGill University, Montreal, Canadá. Seu trabalho The Chronicle of Higher Education é considerado o mais importante do mundo sobre os “Anonymous”. Graduou-se na Columbia University, fez mestrado e doutorado na University of Chicago.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Sou Anonymous?


Gabriella (Biella) Coleman, LIMN, n. 2: Crowds and Clouds
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Máscara de Guy Fawkes 
Aprender como funcionam os Anonymous significa aprender a ser um. Gabriella Coleman narra sua experiência de viver entre mundos.
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Biella Coleman

A1: todos confiam em você, então você ’tá fazendo direito alguma coisa
A1: uma menina me disse uma vez
A1: “oh, você anda conversando com aquela biella outra vez”
A1: “ela é o mááááááximo”

Era dezembro de 2010, e meus planos eram simples: terminar o manuscrito do meu livro sobre a política do hacking dos programas gratuitos de fonte aberta e passar algum tempo com minha família numa ilha no litoral do estado de Washington. Isso, até que os Anonymous novamente ergueram a cabeça na toca. Enquanto a família andava de bicicleta dias inteiros e assistia a filmes até a madrugada, eu vivia sobre meu laptop, obcecada com os Anonymous, um nome e um feixe de ideais tomados por diferentes indivíduos e grupos, para organizar ações distintas, muitas vezes sem qualquer relação entre elas, desfechando ataques temerários de ativismo pelos direitos humanos da tecnologia.

Embora no inverno de 2008, várias pessoas tenham surgido em diversas manifestações e atividades políticas sob a bandeira dos Anonymous (antes disso, o nome aparecia só, quase exclusivamente, associados a ações por Internet), só em dezembro de 2010 o nome chegou plenamente à discussão pública.

Desenrolando-se ante os meus olhos, ali estava uma campanha de “negação de serviço distribuída” [orig. distributed denial of service (DDoS)], a Operação Dar o Troco, #operationpayback. Meu trabalho de pesquisa, é claro, apareceu bem sem graça aos que me cercavam; mas o que eu estava vendo acontecer no Internet Relay Chat (IRC) – o sistema nervoso central de tantas interações de geeks e hackers – tinha muita, muita graça, e nada de tédio. Normalmente sede de conversação viva, mas comum e mundana, legiões de indivíduos escreviam sem parar na sala de bate-papo da #operationpayback, onde se discutiam e coordenavam as ações. A certa altura, o canal chegou a 7 mil participantes e entradas. Muitos estavam contribuindo para a campanha de DDoS dedicada diretamente a derrubar os servidores de Visa, Mastercard e PayPal.

A organização WikiLeaks de Julian Assange acabava de provocar vasta tempestade política, ao distribuir 220 telegramas diplomáticos confidenciais, e aquelas empresas estavam sendo alvejadas na #operationpayback, porque se haviam recusado a aceitar doações para Wikileaks.

Durante todo o mês de dezembro, assisti em silêncio ao frenesi de trabalho dos AnonOps, insegura, sem saber como ou quando intervir, dado o ritmo frenético das conversas, que disparavam vários tópicos que iam, da secular tradição de fazer piadas com o FBI, a discussões densas, nas deliberações éticas sobre os ataques DDoS usados como tática de protesto. No início de janeiro, meu silêncio chegou ao fim, quando um punhado de Anons puseram-se a falar de mim:

A1: Alguém aí conhece [confirma] biella?
A2: Falei com ela hoje, mas...
A3: Você conhece ela, A2?
A2: Se ela me mandou mensagem direta pelo Twitter, talvez conheça.
A3: “biella está fora. Não estou aqui agora” e nem sinal de @ em nenhum dos 7 canais...
A2: Se é a biella do Twitter, já falei com ela antes 
A1: Talvez logo logo precisemos de jornalistas daqui.
A1: (Temporariamente.)
A3: Quem sabe ela volta mais tarde.
Você está sendo chamada por A2: (oi, biella, pode me escrever na MD do Twitter por favor? Obrigado!)

[Entrei na conversa, muito nervosa]

biella: Oi A2 A1
biella: Desculpe, mas estava na cozinha
biella: aqui sou eu
[...]
biella: mandei vários jornalistas para cá
biella: e atualmente estou escrevendo sobre os Anonymous
[...]
A2: Oi, biella, desculpe o mau jeito.
biella: Não, tudo bem, ok
biella: você avisou :-) e eu demorei muito, ando parada
biella: mais do que gostaria
A1: Nós somos muito seletivos e às vezes meio paranoicos, com usuários que entram e não aparecem [não escrevem]  

Foi momento de tudo ou nada. Se aqueles Anons me definissem sob luz desfavorável (como não confiável, atrapalhativa ou as duas coisas), minha pesquisa acabaria ali. Mas aqueles Anons não só não pareciam incomodados com a minha presença, como pareciam estar gostando de ter-me por ali. Depois dessa conversa, aproximei-me mais, passando cerca de cinco horas por dia no IRC, acompanhando de seis a 12 canais do IRC ao mesmo tempo, sete dias por semana.

Máscara dos Anonymous - Amplie, imprima, recorte e use
Seguir a atividade de AnonOps e algumas outras redes de Anonymous foi, simultaneamente, entusiasmante e frustrante. Os Anonymous são clandestinos e sempre crescentes, com uma arquitetura labiríntica em constante mutação. A qualquer momento pode haver de duas a cinco redes IRC ativas, cada uma delas com dúzias de canais, nos quais os Anons interagem, às vezes à sério, às vezes brincando. Às vezes as duas coisas, sem que se possa saber o que é uma, o que é a outra.

Em apenas quinze minutos, numa única sala de bate-papo, pode haver gente fazendo piadas sobre fapping(“masturbação”, para o mundo exterior), em discussão séria sobre a mais recente legislação antipirataria em votação no Congresso, respondendo perguntas de algum jornalista que apareceu de visita, lançando as mais virulentas acusações contra pessoas, e saudando a antropólogo que apareceu por ali. A sequência abaixo é bom exemplo da vida conversacional no IRC, de múltiplas camadas, às vezes caótica e quase sempre em tom de brincadeira ou farra:

S: Três policiais foram levados ao hospital com ferimentos graves, segundo a Polícia. Varsóvia. [notícias dos confrontos na Polônia, no Dia da Independência]
anonreporterX: Os Anonymous indicam ou indicaram algum tipo de liderança ou porta-voz? Sim? Por quê? Não? Por quê?
j: se não há líderes, e a massa não lidera nada.
j: quem teria capacidade para “apontar líderes”
j: ?
anonreporterX: Perguntei primeiro.
S: Verdadeiros líderes sempre falam por qualquer um.
anonreporterY: Mesmo assim. Aqui é Neil Young. Seria um grande presente #anonspoxNYoung
M: Anonymous deixa de ser anonymous se tiver líder nomeado...
j:anonreporterX, eu sei. Estou querendo mostrar a você, só usando senso comum e raciocínio lógico
j: poder raciocinar [para demonstrar] que nunca haverá nem pode haver um líder
j: mesmo sem perguntar se há
j: :)
k: ^mode (+v biella) by S
j: aparece uma biella selvagem!
P: Pegue ela!
***x pega a biella selvagem 
x: :p
biella::-)))
j: lol
biella: uma biella com sono/acordei agora 
biella: bom ver que voltaram [porque um canal estivera fora do ar por algum tempo]
j: então bom dia :P
[...]
M: Aloha!
x: lol
P: lol
x: aloha!
anonreporterX: não me parece realista: 1. Anonymous já está tendo de lidar [com o problema] de definir quem representa e quem não representa as intenções do movimento (bloco negro em Oakland) e...
x: não
j: anonreporterX, onde está dito quem representa e quem não representa os Anonymous?
j: da última vez que verifiquei, todos os que estavam tentando, levavam chutes na bunda :P

Enquanto prosseguia a conversa, provocada pela pergunta de AnonreporterX sobre liderança, contei a um Anon que gostaria de escrever um ensaio antropológico sobre a obsessão dos jornalistas com líderes e lideranças. Nessa conversa privada, ele fez uma pergunta e comentou:

A8: sobre o quê?
biella: o desejo dos jornais e mídias, de encontrar um líder, diz mais sobre a relação entre repórteres e editor, e algumas obsessões internas da cultura norte-americana
biella: que qualquer outra coisa
A8: pura verdade
A8: Nunca vi europeus e outras mídias, obcecados, como nós, com lideranças
biella: EXATAMENTE
A8: Mas o Reino Unido também tende a sensacionalizar a coisa

Como parece óbvio, muito do tempo que passo com os Anonymous são conversas pelos canais públicos, canais privados ou com Anons “pessoais” e raramente escrevo com objetivos claros; quando faço perguntas diretas aos Anons, também estou seguindo o fluxo, fazendo como todos à volta parecem fazer.

Esse flanar sem objetivo claro é importante, porque captura um dos dois mais importantes tipos de trabalho e de interatividade que os Anons prezam. Um deles é uma forma de socialidade carismática muito comum no IRC onde a esperteza, o “jeito”, a “manha” e a capacidade de brincar e surpreender chama a atenção e, não raras vezes, gera reverência e respeito.

Roger Abrahams
A forma de interatividade e destreza verbal comum no IRC é semelhante a um tipo de conversa descrita como típica do “homem de palavras” [orig. “man of words”], pelo conhecido folclorista e estudioso de culturas afro-americanas Roger Abrahams. “Um homem de palavras é nada”, explica Abrahams, “a menos que consiga, por um lado, alinhavar uma surpreendente peça de retórica oratória; e, por outro lado, capturar a atenção, a adesão e a admiração da audiência pela fluência, potência da voz, capacidade de manobrar a sociedade e resistência psicológica”.

Abrahams identifica duas categorias de homem de palavras: o que exibe floreios retóricos altamente trabalhados em cenários formais; e outro, que brota informalmente e espontaneamente na esquina, no quinta, sobretudo quando bebe [orig. over rum], discurso caracterizado por conversa mais engraçada, de mais baixo calão e não refinada. Não surpreendentemente, esse segundo tipo de brincadeira-duelo verbal é o mais frequente no IRC, embora com algumas importantes diferenças, dados os traços especificamente tecnológicos desse espaço técnico.

Apesar da atmosfera às vezes barulhenta, de gargalhadas, prazer e jogos verbais comum no IRC, mesmo assim os Anonymous são assunto bastante sério, o que nos leva à segunda forma de trabalho e interatividade considerada essencial para conquistar prestígio e respeito na rede.

Na rede AnonOps, como em outras redes Anonymous, os Anons ganham respeitabilidade e prestígio quanto mais se engajem em intervenções de ativismo, algumas ilegais e arriscadas; muitos têm sido presos. Trabalhando em ações políticas definidas coletivamente, e trabalhando na infraestrutura que suporta esse tipo de trabalho (cuidando, por exemplo, do servidor IRC), os indivíduos constroem confiança entre eles. Um dos operadores e organizadores chaves de uma operação chave no Oriente Médio, que deu assistência tecnológica aos ativistas que estavam em campo em janeiro de 2011 e ajudou a catalisar a cadeia de intervenções coordenadas por Anonymous no Oriente Médio – que recebeu o nome de Freedom Ops [Operação Liberdade], explicou, como segue, essa dinâmica:

biella: mas estou tentando entender como acontece de as pessoas começarem a trabalhar juntas e a confiar umas nas outras 
biella: você me pareceu a pessoa certa para perguntar, porque você anda nessa há muito tempo, conhece muita gente etc etc. É um enigma. Talvez seja mesmo um enigma 
a: bom... acho que se vai fazendo alguma coisa e assim se ganha respeito e, no processo, você ganha "amigos"
a: também acontece de, se alguém me ajuda, eu sinto vontade de ajudá-lo também, em troca
biella: e você pode dar um exemplo de alguma coisa que você fez e que lhe valeu esse respeito (se foi coisa legal, claro :-))
biella: e, por favor, pode comentar também a questão dos “amigos”? 
a: bom... eu criei e coordenei a op ##
biella: ok, claro! Entendo muito bem por que aquilo o tornou muito respeitado ;-)
biella: não sabia que você... 
a: é que trabalhei muito, mais de 20 horas por dia, dormindo 4 horas à noite
a: por quase duas semanas 
biella: e os outros começaram a ajudar e o resultado é que todos se sentiram próximos e unidos
a: é. E apareceram uns sujeitos – que hoje são “famosos” – e disseram “posso ajudar”, e trabalhei com eles, porque eles ajudaram mesmo
biella: você quer dizer, hackers?
a: é ;)

Se os Anons ganham respeito público por uma combinação de socialidade carismática e especialmente muito trabalho... E eu? Não mantenho ativo um servidor IRC nem estou engajada em ações políticas. Com certeza, todas as horas que passei no IRC foram essências para forjar linhas de comunicação e construir confiança entre (pelos menos alguns) Anons. Sei me ‘segurar’ no IRC e gosto de conversar ali, o que explica por que escolhi estudar os mundos geek e hacker: mundos coletivos inseparáveis, em algum nível fundamental, dessa arquitetura comunicacional.

Mas num certo ponto, ficou absolutamente claro que minha pesquisa era bem mais complicada do que simplesmente “conversa dura pelo IRC”. Eu também estava acrescentando trabalho no panelão coletivo. De fato, tenho o duvidoso mérito de ter encaminhados umas duas dúzias de repórteres até lá, ensinando-os a encontrar os Anonymous e a entrevistá-los pelo IRC. Durante quase todo o inverso e a primavera de 2011, ajudei a reunir repórteres no canal designado para eles. Obriguei-me à rotina das perguntas infinitamente repetidas, em mais de 80 entrevistas a jornalistas. Respondi as mesmas perguntas muitíssimas vezes, por escrito, na televisão e em entrevistas filmadas. Depois de alguns meses desse tipo de trabalho “midiático” – que pode viciar, como alguns tipos de trabalho – já era bem claro que eu também estava conquistando acesso mais fácil, algum respeito e confiança, tantas vezes fui vista na televisão. Os Anons passaram a fazer muitos comentários, reflexões, elogiavam e criticavam depois de cada noticiário que viam pela TV, ou liam na imprensa ou em aulas e conferências às quais compareciam.

Minha mágica etnográfica, tomando emprestada a expressão famosa criada por Bronislaw Malinowski há muito tempo, pode estar no modo como me comporto nas aulas, palestras e com a imprensa – algo que jamais esperei que acontecesse, quando esse projeto começou. O trabalho etnográfico não raras vezes trata de vidas e pensamentos privados de indivíduos, ou tem a ver como modalidades públicas de interação; não se trata do agir em público, nem da face pública dos sujeitos ou, como nesse caso, da não face dessa entidade sem rosto.

Alcancei algum respeito entre os Anons, porque trabalhei aplicadamente para dissipar mitos. E tive de, literalmente, aprender algumas “manhas”, para fazer isso, porque tantos jornalistas, sobretudo nos EUA e no Reino Unido, mais fizeram reduzir e recortar as questões, do que tentar vê-las pelo que são: apresentaram os Anonymous no papel de hackers-“bandidos”, conduzidos por uma coorte de líderes, dentre outras distorções.

Em muitas aparições na mídia e entrevistas, sempre disse coisas que os próprios Anonymous não diriam (ou diriam em outros termos). Algumas vezes, os contradisse declarada e abertamente. Por exemplo, no passado, muitos Anons costumavam dizer “não somos hackers,” afirmação que se tornou muito mais difícil, depois do início das operações de hacking-vazamentos, a partir de março de 2011. Expliquei várias vezes: há hackers, mas Anonymous não é simplesmente um coletivo de hackers. E algumas vezes, mais significativamente, fiquei calada. Há muito que não digo nem, hoje, gravo ou escrevo.

Recentemente, expliquei a um simpático repórter, numa longa entrevista, sobre o vai-e-vem de estudar os Anonymous: “Há coisas sobre os Anonymous sobre as quais de fato não posso escrever, porque ainda não as entendo suficientemente bem. É preciso discriminar e manter-me discreta, porque há muita política de fundo de salão, que precisa de tempo para desenvolver-se, antes de poder ser discutida”. Também expliquei que acontece de me sentir colhida em redes de duplicidades, também eu: “Sei que estou operando dentro de redes de duplicidade”.

“Aprendi a confiar em alguns Anons e mais vezes há do que não há empatia, mas também sei que duplicidade é o nome do jogo – desinformação e engenharia social – e também esperneio nessa rede” – disse Coleman. “Mas se as coisas fossem claramente definidas e transparentes, não seriam tão politicamente efetivas”. [1]

Se Abraham identificou o “homem de palavras”, uma modalidade de conversa também integral da vida comunicacional no IRC, melhor seria descrever-me, eu mesma, como a mulher das palavras comedidas, pelo menos na mídia ou quando falo. Embora eu seja do tipo super-atento que os Anons avaliarão criticamente, quando, vez ou outra, dissecam o que escrevo, cuido muito deliberadamente do que digo e não digo em público, porque sei que tudo que eu diga ou não diga afetará e modelará o tipo de acesso que os Anonymous tem-me garantido. Não significa que me encolherei em silêncio.

De fato, falar com clareza sobre algumas questões – como reconhecer que também a informação de que disponho pode não ser acurada – tem-me valido boa aprovação. Mas tudo é, sempre, questão de “jeito”, de “manha, quando se trata de o que dizer, quando e onde, sobre os Anonymous.

No IRC, como todos à volta, muitas vezes cedo à espontaneidade dos jogos verbais e das conversas sem rumo, ou cifrada. Nos contatos com a imprensa, nunca: sempre assumo posição distanciada e moderada. Muitos Anons atentos a essas minúcias (muitos absolutamente não tomam conhecimento) conhecem esses dois lados, cada um deles performativo de pleno direito, embora exijam diferentes quantias de ‘'jeito'’ ou de ‘'manha'’. 

Será que assim – com trabalho deliberado para a mídia e socialização espontânea no IRC – vou-me convertendo em mais um (a) Anonymous?



Nota dos tradutores