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domingo, 29 de dezembro de 2013

“Omertá” “high-tech” e colusão com a Agência de Segurança Nacional dos EUA

28/12/2013, [*] Peter Lee, China Matters
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido na Vila Vudu: Traduzimos o que aí vai, mesmo sem entender várias tech-coisas. Mas entendemos muito bem que há uma determinada tech-coisa, que os fabricantes incluem em programas, que é fabricada e foi vendida e comprada como item de PROTEÇÃO de arquivos e programas. Mas a mesma tech-coisa, se ligeiramente modificada (“batizada”, como se diz no Brasil, de bebidas falsificadas), pode FACILITAR a invasão de arquivos e programas [e parece ser o que se chama, “porta dos fundos”, (backdoor)] pela qual o tech-ladrão pode entrar e – como já se sabe, depois das revelações de Snowden – a ASN-EUA sempre entrou, entra e quer continuar a entrar).

Parece que todo mundo sabe que a ASN-EUA, como compradora, “incentivou” o fabricante dessa tal coisa, já alterada para FACILITAR a invasão de programas e arquivos, a metê-la programas que aquela empresa fabricante vendeu (como proteção) a consumidores do universo inteiro, para facilitar a invasão, que a ASN-EUA tinha e tem interesse em fazer.

Isso, além de detonar o próprio business da tech-segurança no mercado planetário, DETONA qualquer fantasia de “proteção de sua privacidade” que tantos vivem de tentar NOS vender. E, sem “segurança”, ninguém mais comprará porcaria nenhuma pela internet – e esses negócios JÁ DESABARAM em todo o planeta.

Ante o risco do fim do próprio negócio, as gigantes da Internet estão enlouquecidas. Mas, sim, parece que todo mundo já sabe que aconteceu exatamente como parece que aconteceu.

Em setembro passado, Snowden distribuiu documentos que comprovam QUE O NEGÓCIO FOI FEITO EXATAMENTE ASSIM, sim senhor. Até a Reuters já noticiou, como se lê abaixo.

Desnecessário dizer que a questão da “privacidade” – pessoal, dos usuários, a nossa privacidade – é café pequeno liberal, absolutamente sem importância alguma. As empresas do mundo não estão preocupadas com alguém saber dos NOSSOS segredos (e, de fato, tampouco NÓS AQUI temos qualquer ilusão de que elas não possam conhecer todos os nossos segredos, se decidirem conhecê-los – e logo nós, que estamos na rede há vinte anos, visitando páginas e páginas, e escrevendo sem parar! \o/ \o/ \o/ \o/ \o/).

As empresas do mundo estão preocupadas, isso sim, é com os concorrentes saberem dos segredos DELAS.

ISSO, sim, está pondo fogo no mundo da “segurança” e da “espionagem” que são, como sempre foram no mundo, sempre, no mínimo TAMBÉM, puro sujo business.

Outro aspecto também muuuuuito interessante disso tudo, é que a imprensa-empresa liberal como a conhecemos – que sempre viveu de publicar mais ficção e opinião-de-jabores, que fatos; e que, em matéria de informação, sempre publicou muuuuuito menos do que sabia e sabe, sempre muito menos dedicada a informar sobre algum suposto “fato”, do que à promoção dos seus próprios interesses políticos e empresariais – está, também, com a corda no pescoço.

Se Snowden e Greenwald constituírem mesmo a imprensa-empresa que estão constituindo, estaremos diante do estranhíssimo fato de que haverá no mundo, afinal, UMA empresa-imprensa, que possui documentos suficientes para alimentar a opinião pública com fatos REALMENTE documentados sobre praticamente TODOS os eventos sobre os quais as editorias de “internacional” de todos os jornais-e-televisões-como-os-conhecemos no mundo inteiro vivem cheios de opiniõezinhas. E contra ela haverá legiões de outras empresas que, de material “noticioso” a publicar, só terão as opiniõezinhas-de-jabores-waacks-&-villas! \o/ \o/ \o/ \o/ \o/

O Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estado), no caso do Brasil, estará convertido, monolíticamente sempre igual e previsível, como já é, numa espécie de mega-Pravda sionista totalmente golpista visível, quer dizer, super “transparente”! \o/ \o/ \o/ \o/ \o/

Que consumidor continuará interessado EM PAGAR para ler uma espécie de mega-Pravda sionista golpista do tucanato privateiro paulista, DEPOIS de ter sido informado dos fatos como os fatos realmente aconteceram?!

Ou, perguntado de outro modo: até quando o consumidor dos produtos do Grupo GAFE – que, no Brasil, é obrigatoriamente também eleitor – continuará disposto a PAGAR PARA LER:

(a) propaganda de empreendimentos imobiliários;
(b) propaganda de novos modelos de carros; e
(c) propaganda eleitoral antecipada e ilegal (na maior parte do tempo) dos candidatos da privataria tucana udenista sem votos?!

FELIZ ANO NOVO!
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Manifestação de 6a. feira (27/12/2013) em Berlim contra a espionagem dos EUA
Com RSA, [1] nome grande e respeitado (de fato, só as iniciais) na criptografia, já virando manchete de escândalo na imprensa, por ter arrancado 10 milhões de dólares da Agência de Segurança Nacional dos EUA e, em troca, ter metido um RNG (Random Number Generator), um gerador de números aleatórios, só que “batizado”, codinome DUAL EC EBRG, em seus produtos (os RNGs ajudam a gerar chaves de encriptação; um RNG “batizado” gera número limitado, mais facilmente quebrável, de conjuntos de chaves), algumas observações:

Primeiro; como provavelmente todos lembrarão, o “batismo” nos RNGs da ASN-EUA foi revelado numa fornada de documentos de Snowden em setembro, e uma empresa RSA embaraçada e gaguejante lançou imediatamente uma recomendação para que os seus clientes e usuários deixassem de usar aquele específico gerador de números aleatórios (RNG), que compraram para encriptar e proteger suas mensagens.

Segundo; já no mês de outubro havia rumores sobre considerações financeiras operantes na disposição da empresa RSA para incluir o RNG (“batizado”) em seus produtos. Aqui, um trecho do que escrevi naquela época:

Ira Flatow
[Em recente episódio de Science Friday] Ira Flatow perguntou a Philip Zimmerman [criador do sistema PGP de chave aberta para encriptação de e-mails] por que a empresa RSA faria tal coisa. Houve um longo, longo, incômodo silêncio e uma risada estranha, antes de Zimmerman deslizar para a voz passiva e falar como terceiro não envolvido:

ZIMMERMAN: E a RSA fez uma segurança – usou mesmo como seu gerador padrão de números. E eles têm criptógrafos competentes trabalhando lá... Não sei.

FLATOW: Mas como você explica isso?

ZIMMERMAN: Bom, não vou... Acho melhor não ser eu a dizer.

(RISOS)

FLATOW: Mas se outra pessoa dissesse, diria o quê?

ZIMMERMAN: Ora... outra pessoa talvez dissesse que eles podem, talvez, ter sido incentivados...

Phil Zimmermann
Zimmerman talvez já tivesse recebido alguma “dica” sobre os documentos mais importantes de Snowden. Acho mais provável que já tivesse ouvido alguma coisa nos círculos high-tech, mas não tinha interesse algum em chamar sobre si toda a fúria legalista e corporativa, acusando abertamente a empresa RSA de ter recebido dinheiro público. (Aí está uma interessante questão legal: é crime publicar que uma empresa norte-americana concluiu transação comercial legal com o governo dos EUA, que queria comprar só maçãs podres?).

Terceiro; A Culpa é dos Engravatados! Como a Reuters expôs:

Não houve protesto, disseram ex-empregados, porque o negócio foi conduzido por empresários das empresas, não por puros tecnologistas (sic).

O grupo do laboratório teve papel muito intrincado no BSafe [a linha de produtos vendidos pela empresa RSA, que continham o gerador de números “batizado”] e todos, basicamente, já não estavam lá – disse o veterano do laboratório, Michael Wenocur, que saiu em 1999.

Na verdade, Bruce Shneier, analista externo de segurança e outros, levantaram muitas graves preocupações sobre o DUAL EC EBRG em 2007 num fórum público e, como Zimmerman disse, a RSA tinha criptógrafos competentes no prédio. O DUAL EC EBRG “batizado” foi oferecido apenas como uma opção; usuários entendidos em questões de segurança, teriam escolhido outro RNG padrão, melhor. E os criptógrafos da RSA poder-se-iam consolar, com a consciência tranquila, porque, mesmo que o Usuário Final Sem Noção mantivesse o DUAL EC EBRG como padrão, provavelmente a única entidade com capacidade para coletar e analisar e efetivamente explorar o que encontrasse, seria a própria Agência de Segurança Nacional dos EUA.

Art Coviello
Em outras palavras, não foi só o Diretor Executivo da RSA e já declarado “Vilão” Art Coviello, que se esgueirou para dentro do laboratório e “batizou” o produto, inserindo nele o código letal, enquanto os “tecnologistas” inocentemente embalavam e embarcavam o produto podre.

Quarto; acho que há crescente consciência de que elemento significativo da história de Snowden é a colusão entre as empresas Big Tech e a Agência de Segurança Nacional dos EUA, alimentada pela consciência de que os dois lados queriam a mesma coisa: uma boa porta dos fundos instalada na Internet inteira, aberta para dados que permitam traçar “perfis” individuais [de consumo, dos usuários], e que permita ao aparelho de vigilância tudo invadir. O “sistema”, assim, tolera as quebras de segurança resultantes (como o custo a pagar para obter o negócio e/ou como “dano colateral”). [2]

Duvido muito que essa história continue a aparecer nos jornais e televisões, porque há consideráveis interesses econômicos, políticos e ideológicos aí investidos, que vão diretamente até o Salão Oval, dedicados a perpetuar a imagem de um poder benigno, democrático-do-povo que cuidaria de prover segurança da informação.

Os eleitores interessados em ver a Google e outras tech-gigantes dividindo a culpa, com a Agência de Segurança Nacional dos EUA, por terem, todas elas, arruinado a Internet – e, no processo, fazendo evaporar algumas poucas centenas de bilhões de dólares do dinheiro dos cidadãos, do mercado e das ações – são, por outro lado impotentes e em número cada vez menor.

Dentro da tech-indústria, a atitude parece ser de controle de danos, quer dizer, iniciativas, pelos veículos da imprensa-empresa, para convencer a opinião pública de que as empresas de Internet cuidam de VOCÊ e odeiam ajudar esse governo sujo e autoritário que nos espiona.

Quanto à questão de se surgirá ou não uma empresa-imprensa Snowden, a atitude parece ser, como diria Phil Zimmerman – autêntico, legítimo herói das guerras da encriptação nos anos 1990s – de “Acho melhor não ser eu a dizer”. Parece que o código da Omertá vive na indústria de tecnologia.

Quinto; acho engraçado, às vezes meio irritante, que, desde que comecei a escrever sobre a empresa RSA em outubro, sou bombardeado com anúncios pop-up da mesma RSA, no meu próprio blog e por toda a internet. É o equivalente Internet de um Golden Retriever farejador que me persegue pelas ruas, movido pelo irresistível impulso de cheirar os fundilhos das minhas calças. Alguém tire esse bicho daqui! Já!



Notas dos tradutores

[1] RSA é um algoritmo de criptografia de dados, que deve o seu nome a três professores do Instituto MIT (fundadores da actual empresa RSA Data Security, Inc.), Ronald Rivest, Adi Shamir e Leonard Adleman, que inventaram este algoritmo — até a data (2008), a mais bem sucedida implementação de sistemas de chaves assimétricas; fundamenta-se em teorias clássicas dos números. É considerado dos mais seguros, já que mandou por terra todas as tentativas de quebrá-lo. Foi também o primeiro algoritmo a possibilitar criptografia e assinatura digital, e uma das grandes inovações em criptografia de chave pública. Pode-se também saber algo sobre a empresa RSA Data Security, Inc..

[2] É exatamente o que Foucault disse que já era nos anos 70s: “A terceira forma não é típica do código legal ou do mecanismo disciplinar, mas do apparatus (dispositivo) de segurança (...) [Em vez de impor um conjunto binário de proibidos e permitidos], “estabelece-se uma média considerada ótima, de um lado; e, do outro, uma largura de banda do aceitável (...)”. Michel FOUCAULT, “Segurança, Território, População”: Conferências no College de France, 1977-1978.
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[*] Peter Lee é jornalista norte americano de origem chinesa que escreve sobre assuntos dos países do sul e leste da Ásia e a intersecção de negócios entre essa região e os EUA. Além de articulista de várias publicações anima o blog China Matters.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Por que o Brasil se atrasa


Texto escrito e enviado por *Adriano Benayon - 16.07.2012

1. A desindustrialização do Brasil não tem sido explicada adequadamente, sequer pelos economistas menos vinculados à ideologia das corporações transnacionais.

2. Em entrevista à BBC (13.07.2012), Gabriel Palma, professor da Universidade de Cambridge, Inglaterra, lembrou que, em 1980, a produção industrial no Brasil superava a do conjunto formado por China, Índia, Coreia do Sul, Malásia e Tailândia e que, em 2010, já não representava senão 10% do total produzido nesses países.

3. O economista Leonardo Guimarães Neto, publicou artigo no portal do Centro Celso Furtado, Ano 6 - Edição 8, Recife, 13.04.2012, intitulado A retomada da indústria brasileira: o recado de Antônio Barros de Castro”.

4. Nele aprecia o pacote estímulos, de R$ 60 bilhões, à indústria brasileira (sic), incluindo: desoneração fiscal, ampliação e barateamento do crédito; redução de até 30% do imposto sobre produtos industrializados para o setor automobilístico; redirecionamento de compras governamentais para bens produzidos internamente; redução de impostos na tecnologia da informação.

5. Deixa de denunciar mais esse absurdo presente à predadora indústria automobilística estrangeira, que não cessa de descapitalizar o País, enviando ao exterior os ganhos oligopolistas arrancados dos consumidores nacionais.

6. Omite também que, sob a presente estrutura industrial, dominada pelas transnacionais, os investimentos e subsídios aos centros de pesquisa tecnológica significam desperdício de recursos públicos, porquanto, não havendo empresas nacionais viáveis no mercado, só ínfima fração do resultado das pesquisas resultará em inovação tecnológica.

7. Observa Guimarães, que, embora bem recebido, o pacote foi considerado insuficiente por sindicatos patronais e de trabalhadores. Esses reclamam:

  • (I) desvalorização cambial,
  • (II) redução dos juros e dos spreads bancários e
  • (III) redução do preço de insumos fundamentais para a atividade industrial, como a energia elétrica.
8. Segundo Guimarães, a perda de competitividade da indústria nacional [sic] não se deve só ao custo Brasil: enorme carga tributária; juros e spreads bancários altos; elevados preços da energia elétrica; enormes déficits de infra-estrutura de transporte e logística.

9. A perda estaria associada à reduzida capacidade de inovação da grande maioria dos segmentos produtivos da indústria nacional (sic), em contexto de acelerado avanço tecnológico nos países competidores, tais como a China.
10. Precisamos, porém, ir mais fundo. Entender por que essa capacidade é reduzida. Daí, inseri três vezes o advérbio latino “sic”, após “indústria brasileira ou nacional, porque a questão básica, intocada nas discussões correntes; é a desnacionalização, o fato de a produção realizada no Brasil não ser nacional, mas subordinada às matrizes das transnacionais estrangeiras que a controlam.

11. É ridículo falar em inovação tecnológica com a indústria desnacionalizada e com os seus centros das decisões sobre produção e mercados, situados no exterior.

12. Se não há inovação tecnológica no Brasil é porque as transnacionais se apropriaram de tecnologias no exterior, amortizaram-nas com as vendas em outros mercados e as utilizam aqui a custo real zero, tal como acontece com as máquinas e equipamentos importados a preços superfaturados.

13. Por que, então, tais indústrias não são competitivas, se seus custos reais de produção são extremamente baixos, ademais de as transnacionais receberem colossais subsídios prodigalizados pelos governos federal, estaduais e municipais?

14. Porque o valor contábil das despesas das subsidiárias no Brasil é levado às alturas, através dos preços que estas pagam às matrizes nas importações dos bens de produção (inclusive o da tecnologia, jamais transferida): os bens de capital e os insumos, tudo é superfaturado, além de serviços sobrefaturados e até fictícios.

15. Em suma, as políticas de favorecimento às transnacionais, inauguradas em 1954, e intensificadas desde então, fazem que os brasileiros paguem para se tornarem pobres. Os fabulosos lucros reais obtidos pelas transnacionais são transferidos ao exterior, não apenas como tal, mas também através desses superfaturamentos e do subfaturamento de exportações.

16. Estando a economia concentrada por empresas transnacionais e bancos, na maioria desnacionalizados, e os “nacionais” associados aos estrangeiros e com eles ideologicamente alinhados, é esse sistema imperial que elege os “governantes” nos poderes do Estado brasileiro, pois as eleições dependem dos dinheiros para as campanhas e do acesso às redes de TV comerciais, vinculadas aos mesmos interesses.

17. Em tais condições, tornam-se inócuos os votos piedosos dos economistas, quando recomendam reformular a infra-estrutura de transportes e logística, baixar os juros até o patamar internacional (o que viabilizaria reduzir a carga tributária), desvalorizar a taxa cambial etc..

18. Mantendo-se a atual estrutura de poder, essas medidas seriam irrealizáveis, além de que, para funcionarem, acarretariam a necessidade do controle de capitais e da estatização dos principais bancos, ou seja, políticas ainda menos toleráveis para os aproveitadores dessa estrutura.

19. Assim, o governo que empreendesse tais políticas, seria desestabilizado e derrubado antes de promover a indispensável a passagem do controle da indústria para capitais nacionais, privados e públicos.

20. Se a indústria não for realmente nacional, jamais terá chance de ser competitiva. O mesmo se aplica à infra-estrutura econômica (energia, transportes e comunicações) e à social (saúde, educação e cultura). Há que desmercadorizar os serviços públicos e eliminar as agências “reguladoras”, devolvendo o poder delas ao Estado.

21. Também importante para o Estado é recuperar funções perdidas com o modelo do “consenso de Washington” é a total reformulação da administração pública, generalizando-se os concursos públicos, a formação de técnicos e administradores, e instituindo a aferição de desempenho, com possibilidade de demissão, seleção de quadros desde a escola primária, etc..

22. Voltando a Guimarães: “Segundo Antônio Barros de Castro ...não se trata hoje de superar um hiato em relação a concorrentes que evoluíam lentamente em termos tecnológicos e de produtividade. Para ele, esta premissa não existe mais, e os concorrentes do Brasil, notadamente a China, ainda estão alcançando novos patamares de produtividade e aumentando o esforço tecnológico para acelerar sua eficiência”. China teria superado a fase de “made in China” para outra de “created in China”.

23. Ora, como assinalei no artigo Tecnologia, Desenvolvimento e Ilusões, publicado em maio, é incrível que até os economistas que não se restringem a discutir política macroeconômica, conclamem para a necessidade de inovação tecnológica sem reconhecerem a impossibilidade dela num país cujos mercados estão sob controle praticamente total de empresas transnacionais. 

24. Em artigo próximo tentarei resumir a avassaladora ocupação da economia brasileira, a qual prossegue em tal velocidade, que a empresa nacional é, cada vez mais, espécie em extinção.

25. De novo, Guimarães: Castro acredita que o Brasil, de início, deve ganhar tempo até induzir as grandes transformações, garantindo superávits no balanço de pagamento por 10 ou 15 anos com petróleo e matérias primas agrícolas, além da expansão do mercado interno “colocando areia para limitar a ocupação do mercado interno por importações ...”.

26. Isso seria, na realidade, perder tempo. E o Brasil já se atrasou demasiado nos últimos 58 anos! Proteção para a indústria, na atual estrutura, só favorece as transnacionais e eleva os incalculáveis prejuízos que vêm causando ao País.

27. De resto, enquanto se dilapidam os recursos naturais através das exportações primárias, as receitas são usadas para pagar por serviços superfaturados e fictícios, às matrizes das transnacionais, e para importar bens de alto valor agregado e insumos grandemente superfaturados. Nem se fica sabendo o que valem as matérias-primas exportadas, nem o balanço de pagamentos se equilibra sem endividamento.

28. Isso implica fomentar a estrutura econômica atrasada, como a da Venezuela, por mais de um século, antes de Chávez: exportar quantidades fabulosas de petróleo e ficar com a estrutura econômica mais primitiva da América do Sul, para gáudio do império anglo-americano.

29. Com governos acomodados às imposições do império, até por carecerem de consciência nacional, as transnacionais estão ocupando até os espaços recomendados por Barros de Castro e seguidores, como a agroindústria do etanol e a química baseada na energia vegetal. Note-se que nem falam dos óleos vegetais, como o dendê, capaz de produzir mais óleo – melhor que o de petróleo - do que a Arábia Saudita.


*Adriano Benayon é Doutor em Economia e autor de “Globalização versus Desenvolvimento”

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Oposição social na era da Internet: Militantes “de teclado” e intelectuais públicos


James Petras

por James Petras [*]

A relação entre as tecnologias da informação, e mais precisamente a internet, com a política é uma questão central para os movimentos sociais contemporâneos. Tal como outros avanços tecnológicos no passado, as tecnologias da informação (TI) servem um duplo propósito: por um lado contribuem para acelerar os movimentos de capitais (sobretudo de capitais financeiros), facilitando uma globalização imperialista. Por outro, a internet fornece importantes fontes alternativas de análise, assim como uma forma fácil de comunicação, que pode servir para a mobilização dos movimentos populares.

A indústria das tecnologias da informação criou uma nova classe de multimilionários, que se estende de Silicon Valey na California até Bangalore na India. Estes desempenham um papel central na expansão do colonialismo econômico através do controle monopolista que exercem sobre as mais diversas esferas de difusão da informação e do entretenimento.

Parafraseando Marx: “a internet tornou-se o ópio do povo”. Novos e velhos, empregados e desempregados, todos eles passam horas passivamente contemplando espetáculos, pornografia, videojogos, consumindo online e até acedendo a “notícias”, isolados dos restantes cidadãos e trabalhadores.

Em muitas ocasiões, a superabundância de “notícias” na internet, absorve tempo e energia, desviando os “observadores” da reflexão e da ação propriamente dita. Assim como a escassa e tendenciosa informação dos meios de comunicação de massas distorce a consciência popular, o excesso de mensagens na internet pode imobilizar a ação dos cidadãos.

A internet, propositadamente ou não, “privatizou\particularizou” a vida política. Muitos ativistas potenciais foram levados a acreditar que o envio de manifestos a outros cidadãos é um ato político, esquecendo-se que apenas a ação pública, incluindo a confrontação com os seus adversários no espaço público, nos centros das cidades assim como no campo, é a base da transformação política.

As tecnologias da informação e o capital financeiro

Recordemos que o ímpeto original que presidiu ao crescimento das tecnologias da informação partiu das necessidades das grandes instituições financeiras, bancos de investimento e dos especuladores, que pretendiam mover bilhões de dólares, de um país para o outro, de uma empresa para outra, de uma mercadoria para outra, com um simples toque de dedos.

A Internet foi a tecnologia motora do crescimento da globalização ao serviço do capital.

As tecnologias da Informação desempenharam um papel central na precipitação das duas crises financeiras da última década (2001-2002; 2008-2009). A bolha das ações de empresas ligadas às tecnologias da informação em 2001 foi o resultado da promoção e da sobrevalorização das empresas de software, desligadas da economia real. O crash financeiro global de 2008-2009, que se extende até hoje, foi consequência de pacotes computadorizados de ativos fraudulentos e de empréstimos imobiliários sub-financiados. As “virtudes” da internet, a velocidade com que transmite informação, revelaram-se, no contexto da especulação capitalista, um fator determinante da pior crise do capitalismo desde a Grande Depressão dos anos 30.

A democratização da Internet

A internet tornou-se acessível às massas enquanto mercado aberto à exploração comercial, alargando-se posteriormente a usos sociais e políticos, e, mais importante ainda: tornou-se um meio fundamental para informar o grande público da exploração e pilhagem que os bancos multinacionais impunham aos mais variados países e aos seus habitantes. A internet ajudou também a expor as mentiras que subjazem às guerras imperialistas dos Estados Unidos e da União Europeia no Médio-Oriente e no Sul da Ásia.

A internet tranformou-se assim num terreno contestado, numa nova forma de luta de classes, que engloba movimentos pró-democracia e de libertação nacional. Os maiores movimentos e os seus líderes, desde os guerrilheiros no Afeganistão aos ativistas pró-democracia no Egito, passando pelo movimento estudantil chileno e pelo movimento pela habitação popular na Turquia, todos eles contam com a internet para informar o mundo das suas lutas, dos seus programas, da repressão estatal de que são alvos, bem como das suas vitórias. A internet liga as diferentes lutas muito para lá das fronteiras nacionais – é uma ferramenta central para a construção de um novo internacionalismo que faça face à globalização capitalista e às suas guerras imperialistas.

Parafraseando Lenine poderiamos dizer que o socialismo do século XXI pode resumir-se na formula: “os sovietes mais a internet = socialismo participativo”.

A internet e a política de classe

É bom recordar que as tecnologias computadorizadas de informação não são “neutras” – o seu impacto político depende dos utilizadores e ativistas que determinam quem, e que interesses de classe, é que servem.

A internet serviu para mobilizar milhares de trabalhadores na China contra os exploradores corporativistas, na Índia mobilizou milhares de camponeses contra os especuladores latifundiários. Por outro lado, a OTAN utilizou sistemas de guerra fortemente computorizados para bombardear e destruir a Líbia independente. Os Estados-Unidos também utilizaram “drones” para enviar mísseis para matar civis no Paquistão e no Iêmen; ora esta técnica é controlada por uma inteligência computadorizada. A localização da guerrilha colombiana e os bombardeios aéreos utilizam a mesma tecnologia computadorizada. Em suma, as tecnologias da informação podem ter um duplo uso: podem ser utilizadas para a libertação dos povos, mas também podem servir os ataques imperialistas contra-revolucionários.

O neoliberalismo e o espaço público

A discussão acerca do “espaço público” assume frequentemente que “público” é sinônimo de uma maior intervenção estatal em prol do bem-estar da maioria: de uma maior regulação do capitalismo e de uma crescente proteção ao meio-ambiente. Por outras palavras aos atores “públicos” benignos opor-se-iam às forças privadas exploradoras dos mercados.

Num contexto de proliferação da ideologia e das políticas neoliberais, muitos autores progressistas escrevem sobre “o declínio da esfera pública”. Esta perspectiva negligencia o fato de a “esfera pública” ter vindo a ganhar uma importância crescente na sociedade, na política e na economia, beneficiando sempre o grande capital; mais concretamente o capital financeiro e os investidores estrangeiros. A “esfera pública”, neste caso o estado, é muito mais intrusiva na sociedade civil como força repressiva num momento em que as políticas neoliberais aumentam as desigualdades. Graças à intensificação e ao aprofundamento das crises financeiras, a esfera pública (o estado) assumiu um papel fundamental no resgate dos bancos falidos.

Devido aos enormes déficits fiscais provocados pela fuga aos impostos do capital, às despesas com as guerras coloniais e aos subsídios públicos às grandes empresas, a esfera pública (o estado) impõe uma austeridade de classe, cortanto despesas sociais e prejudicando os funcionários públicos, os reformados e os trabalhadores assalariados das empresas privadas.

A esfera pública reduziu o seu papel no setor produtivo da economia. No entanto, o setor militar cresceu com a expansão das guerras coloniais e imperialistas.

A questão fundamental que subjaz a qualquer discussão acerca da esfera pública e da oposição social não é a do seu crescimento ou declínio, mas antes a dos interesses de classe que definem o papel dessa esfera pública.

No contexto do neoliberalismo, a esfera pública está orientada para a utilização do tesouro público no resgate dos bancos, para o militarismo e para uma larga intervenção policial estatal. Uma esfera pública dirigida pela “oposição social” (trabalhadores, agricultores, profissionais, empregados) alargaria o campo de ação da esfera publica no que toca à saúde, à educação, às pensões, ao ambiente e ao emprego.

O conceito de “esfera pública” tem duas faces (como Jano): uma olha para o capital e para o setor militar; a outra para a oposição laboral/social. A internet está também subordinada a esta dualidade: por um lado, facilita grandes movimentos do capital e rápidas intervenções militares imperialistas; por outro, fornece à oposição social um fluxo de informação rápido que permite a sua mobilização. A questão fundamental é a de saber que tipo de informação é transmitida, a que atores políticos ela é transmitida e que interesse social serve?

A Internet e a oposição social: a ameaça da repressão estatal

Para a oposição social, a internet é antes de mais uma fonte vital de informação alternativa crítica, capaz de educar e mobilizar os dirigentes progressistas, os profissionais, os sindicalistas e os líderes camponeses, os militantes e os ativistas. A internet é uma alternativa aos meios de comunicação capitalistas e à sua propaganda, uma fonte de notícias e informações que transmite manifestos e informa os activistas acerca dos locais das intervenções públicas. Graças a este papel progressista como instrumento da oposição social, a internet está sujeita a uma forte vigilância por parte do aparelho repressivo policial e estatal.

Nos Estados Unidos, por exemplo, mais de 800 mil funcionários são utilizados pela policia de “Segurança Interna” para espiar milhares de milhões de emails, faxes e chamadas telefônicas de milhões de cidadãos americanos.

Saber quão efetivo é o policiamento diário de toneladas de informação é outra questão. Mas o fato é que a internet não é uma “fonte livre e segura de informação, debate e discussão”. Com efeito, quanto mais eficaz se torna a internet na mobilização de movimentos sociais que se opõem ao estado imperialista e colonial, mais provável se torna uma intervenção por parte da polícia e do estado com o pretexto de “combater o terrorismo”.

A internet e a luta contemporânea: uma relação revolucionária?

É tão importante reconhecer a importância da internet enquanto detonador de determinados movimentos sociais como relativizar a sua importância global.

A internet teve um papel fundamental na divulgação e mobilização de “movimentos espontâneos”, como o dos “indignados” espanhóis, na sua maioria jovens desempregados e sem filiação partidária, ou na americana “Ocupação de Wall Street”. Noutros casos, como o das massivas greves gerais em Itália, Portugal, na Grécia e em tantos outros sítios, as confederação sindicais organizadas tiveram um papel central e a internet um impacto apenas secundário.

Em países altamente repressivos, como o Egito, a Tunísia e a China, a internet tem um papel fundamental na divulgação de intervenções públicas e na organização de protestos de massas.

No entanto, a internet não levou a qualquer revolução bem sucedida – ela pode informar, ser um local de debate, e mesmo mobilizar, mas não pode oferecer a liderança e a organização necessárias a uma ação política consistente e muito menos fornecer uma estratégia de tomada do poder estatal. Comprova-se assim que a ilusão, alimentada por alguns gurus da internet, de que a ação "computadorizada" pode substituir um partido político disciplinado, é falsa: a internet pode facilitar o movimento, mas apenas uma oposição social organizada lhe pode dar uma direção tática e estratégica capaz de o manter vivo face à repressão do estado e de levá-lo a lutas bem sucedidas.

Ou seja, a internet não é um “fim em si mesmo” – a postura autocongratulatória dos ideólogos da internet, anunciando uma nova época de informação “revolucionária”, ignora o fato de que OTAN, Israel e os seus aliados e clientes utilizam a internet para lançar vírus e destruir economias, para programas de defesa anti-sabotagem e para promover levantamentos étnico-religiosos. Israel enviou vírus danosos para travar o programa nuclear pacífico do Irã; os Estados Unidos, a França e a Turquia instigam, na Líbia e na Síria, uma oposição social capaz de servir os seus interesses.

Em resumo, a internet tornou-se um novo terreno de luta de classes e de luta antiimperialista. A internet é um meio e não um fim. A internet é parte dessa esfera pública, cujos objetivos e resultados são determinados pela estrutura de classe em que se integra.

Comentários finais: “militantes de teclado” e intelectuais públicos

A oposição social é definida pela intervenção pública: pela presença das coletividades nos comícios políticos, pelos indivíduos que discursam em encontros públicos, por ativistas que se manifestam em praças públicas, sindicalistas militantes que defrontam os patrões, pessoas pobres que exigem aos governantes locais para morar e serviços públicos...

Discursar ativamente num comício público, formular ideias e programas, propor estratégias através da ação política, constitui o papel de um intelectual público. Sentar-se a uma secretária num escritório para, num esplêndido isolamento, enviar cinco manifestos por minuto define um “militante de teclado”. Esta é uma forma de pseudo-militância que separa as palavras dos atos. A “militância” de teclado é um ato de inação verbal, de "ativismo" inconsequente, uma revolução mental de faz-de-conta.

A comunicação via internet torna-se um ato político quando se enquadra em movimentos sociais que desafiam o poder. Necessariamente, isto envolve riscos para um intelectual público: desde ataques policiais no espaço público até represálias econômicas na esfera privada. Os “ativistas de teclado" não arriscam nada e pouco realizam. O intelectual público faz a ligação entre o descontentamento dos indivíduos e o ativismo social da coletividade. O professor universitário vem ao local de ação, fala e regressa ao seu gabinete. O intelectual público fala e faz um compromisso pedagógico de longo termo com a oposição social na esfera pública, tanto através da internet como de frequentes encontros diários cara a cara.
20/Novembro/2011

[*] Intervenção como convidado no “Symposium on Re-Publicness”, Patrocinado pela Chamber of Electrical Engineers. Ancara, Turquia, 9-10/Dezembro/2011

Tradução de MQ.

Esta tradução foi extraída de Resistir.