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segunda-feira, 4 de maio de 2015

1º de maio de 2015: Vergonha para a inteligência dos EUA na Síria e no Iêmen


2/5/2015, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Houthis fazem manifestação em Sanaa contra o bombardeios sauditas em 27/4/2015

Os militares e grupos de inteligência dos EUA envolvidos com o Comando Central no Oriente Médio celebraram o 1º de maio com uma disputa entre eles e duas inacreditáveis seleções de alvos:

Ataques aéreos comandados pelos EUA que lutam contra o grupo Estado Islâmico mataram hoje pelo menos 52 civis numa vila no norte da Síria, disse no sábado um grupo de monitoramento.

“Ataques aéreos da coalizão, no início da manhã da 6ª-feira contra a vila de Birmahle na província de Aleppo mataram 52 civis” – disse Rami Abdel Rahman, do Laboratório Sírio de Direitos Humanos.

“Sete crianças foram mortas e há 13 pessoas ainda presas nos escombros” – disse ele.

Abdel Rahman disse à AFP que milícias curdas e rebeldes sírios estavam combatendo contra o Estado Islâmico numa cidade a menos de dois quilômetros do ponto que foi atacado.

“Mas em Birmahle só há civis, nenhuma posição do EI nem qualquer luta” – disse Rahman.

Abdel Rahman disse que “nem um único terrorista do Estado Islâmico morreu no ataque dos EUA à vila”.

Bem feito!

O bombardeio saudita visa tão somente áreas civis
Mas ainda pior serviço apresentou o grupo de inteligência militar do CentCom que apoia a guerra dos sauditas contra o Iêmen:

Uma série de ataques aéreos sauditas atingiu um hospital e instalações de socorro médico no sul do Iêmen na 6ª-feira (1/5/2015), matando pelo menos 58 civis e ferindo pelo menos 67, informaram funcionários do governo no Iêmen no local.

A maioria dos mortos e feridos eram médicos e pacientes – informaram as mesmas fontes.

Hospital Raheda é um dos maiores e mais lotados que há na área. As instalações de socorro médico são parte do hospital.
...

Três funcionários do governo do Iêmen informaram que o hospital não é usado por rebeldes houthis e que não morreu nenhum rebelde no ataque saudita ao hospital.

Pelo que se vê, o grupo que define alvos no Iêmen venceu a disputa: 58 a 52 civis mortos.

O melhor balanço geral da guerra no Iêmen apareceu hoje no The Independent. O artigo especula um pouco em torno da motivação dos sauditas, e sugere que o rei Salman e o filho teriam visto a guerra contra o Iêmen “como modo de firmar o próprio poder e remover do poder facções rivais da família real”. É possível que esse seja um dos motivos colaterais, mas o motivo real é o sugerido por Hillary Mann Leverett:

O que estamos vendo é um produto da desorientação e do terror saudita, numa região que poderia vir a ser mais representativa em termos da própria governança, mais independente em termos da própria política exterior. Os sauditas estão tentando impedir que esse tipo de independência surja no Iêmen. E mais uma vez seguiram os EUA por essa trilha que leva a guerra sem fim.

Essa explicação está adequada ao fato de que os sauditas iniciaram o bombardeio exatamente quando a ONU já negociara um acordo de partilha de poder no Iêmen. Como se lê no Independent:

O início dos ataques aéreos pelos sauditas há cinco semanas, pôs fim às negociações que estavam próximas de resultar num acordo de partilha de poder na capital Sanaa, como informou o enviado especial da ONU, Jamal Benomar. Benomar disse ao The Wall Street Journal em entrevista que “quando essa campanha começou, detalhe significativo mas que não foi noticiado, era que os iemenitas estavam próximos de chegar a um acordo que institucionalizaria um poder partilhado com todos os grupos, inclusive os houthis”.

 Bombardeio saudita no Iêmen nos recorda o genocídio praticado por Israel em Gaza
Os EUA apoiaram o bombardeio desde o primeiro momento, fornecendo aos sauditas a inteligência necessária. Com os ataques, acabaram-se as negociações que poderiam levar a solução pacífica para a disputa política no Iêmen. Não surpreende que o enviado da ONU tenha renunciado, em sinal de protesto. De 26 de março/2015:

A Arábia Saudita disse ao governo Obama e aliados no Golfo Pérsico no início da semana, que estava preparando operação militar no vizinho Iêmen e que confiava fortemente nas imagens da vigilância e informações sobre alvos a serem fornecidas pelos EUA para o prosseguimento da operação, segundo altos funcionários norte-americanos e do Golfo Pérsico.

Daí em diante, o apoio que a inteligência dos EUA dá aos sauditas aumentou. De 10 de abril/2015:

Os EUA estão expandindo a partilha de informação de inteligência com os sauditas, para garantir-lhes mais dados sobre alvos potenciais na campanha aérea que o reino move contra as milícias houthis no Iêmen – informaram à Reuters funcionários dos EUA.

...

Os mesmos funcionários norte-americanos disseram que a assistência ampliada inclui dados sensíveis de inteligência, que permitirão que os sauditas definam melhor os seus alvos na luta que já matou centenas e destruiu moradias de dezenas de milhares desde março.

O que pensarão os iemenitas cujos parentes foram mortos no hospital atacado ontem, dos serviços de inteligência dos EUA e o apoio para seleção de alvos que os EUA dão aos sauditas?


O artigo em The Independent citado acima também traz a seguinte frase, que eu creio que esteja surgindo pela primeira vez na empresa-imprensa dominante:

[O rei Salman] não apenas começou uma guerra aérea no Iêmen como, além disso, deu forte apoio à Frente al-Nusra, afiliada da al-Qa’eda, e a outros grupos jihadistas na Síria. Esses terroristas obtiveram recentemente várias vitórias na província de Idlib, contra o exército sírio e forças leais ao presidente Bashar al-Assad.

Os sauditas também estão apoiando a Al-Qaeda no Iêmen, e até pressionando para que outros se unam eles:

Haykal Bafana @BaFana3
Jornalistas têm de acordar & escrever sobre a pressão que os sauditas estão aplicando contra tribos e líderes em Hadhramaut para que aceitem que a Al Qaeda os comande.


Os sauditas exigem mais apoio à Al-Qaeda, e a inteligência dos EUA está selecionando alvos civis para serem bombardeados. 

Alguém aí acredita que isso possa acabar bem?


[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Barou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ver/ouvir versão em performance de David Johansen com legendas em português.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Bashar al-Assad em entrevista à RTP


4/3/2015, 22:31 − atualizado em 5/3/2015, 14:28 – Rádio e TV Portuguesa
Enviado pelo pessoal da Vila Vudu



Entreouvido no Salão da Chicabunda na Vila Vudu: 
A entrevista é uma merda, o jornalista é perfeito imbecil (pleonasmo!). Mas é muuuuuuuito menos imbecil que o “correspondente” da Globo na Europa. E o Presidente Bashar al- Assad, sempre equilibrado e calmo.



A imprensa−empresa ocidental descreve o Presidente Assad como um ditador brutal e sanguinário. A Síria está convulsionada por uma guerra que já dura 4 anos, com milhares de mortos e milhões de refugiados.

Os massacres apoiados pelo ocidente via terrorismo jihadista não intimidaram o povo sírio nem Bashar al-Assad que continuam a resistir e vencer os prepostos dos EUA e União Europeia (Estado Islâmico e “Exército Sírio Livre”).

A Síria completa no próximo dia 16 de março quatro anos desde que mergulhou nessa espiral devastadora patrocinada pelo ocidente.

Este é o olhar do Presidente sírio numa entrevista exclusiva à RTP, a primeira de sempre a um órgão de comunicação social em Língua Portuguesa.

A seguir o vídeo de 26’27” falado em inglês e com legendas em português:

Departamento de Estado e o “vácuo sírio” [sic]

6/3/2015, [*] Josh RoginBloombergview
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Entreouvido no Açougue do Carniça, na Vila Vudu: O artigo abaixo absolutamente não interessaria, interesse ZERO, se não fosse caso tão EXEMPLAR de como jornalistas e comentaristas das empresasimprensa norte-americanas enrolam e enganam, quando  para conseguir promover a máfia pró-guerra dentro do governo e da “mídia” dos EUA – eles têm de reconhecer que os EUA meteram os pés pelas mãos na Síria e que o presidente Bashar al Assad SEMPRE teve razão. Não fosse jornalismo tão repugnante, seria jornalismo cômico.

Atenção aos sintagmasgolpe!

Prossegue nesse artigo o festival de sintagmasgolpe. “Sintagmasgolpe” são expressões de substantivo + adjetivo ensinados e divulgados e incansavelmente repetidos na/pela empresaimprensa, como, dentre outros, “ajuda letal”, “assistência letal”, “vácuo sírio”.

No plano lógico, os sintagmasgolpes são expressões absolutamente contraditórias, em que o adjetivo desmente o substantivo. Assim, a expressão tem significado-zero, mas mesmo assim é sempre usada e repetida porque, mesmo com significado-zero, ainda assim a expressão conserva alto impacto como propaganda de fascistização (e propaganda que se mantém ativada em todas as línguas latinas, com certeza).

Quem ouve esses sintagmasgolpe tem a impressão de que, sendo ajuda, qualquer ajuda é boa. Isso é quase verdade, ou é verdade em grande número de casos. mas absolutamente NÃO É VERDADE se se tratar de ajuda que mata, ainda mais no caso excepcionalmente degradante em que alguém dê a outra pessoa ajuda PARA MATAR. Além do impedimento lógico há, aí, o impedimento moral absoluto.

Naaaada disso faz qualquer diferença, e os macaquitos adestrados no “jornalismo” só fazem cantar loas e elogios à sua tal “assistência letal”.

O absurdo dessas expressões  e o golpe nelas atuante − aparece claramente quando se invertem as posições de substantivo e adjetivo: “letalidade assistencial”, por exemplo, que pode ser sinônimo de “degola filantrópica” etc.. Assim se vê que evidentemente: se fosse “ajuda”, não seria “letal”; se fosse “assistência” não seria “letal”; se é “letal” não é ajuda; se é “letal” não é assistencial. E absolutamente não se trata de vácuo “sírio”  que não existe. 

O que existe é “vácuo norteamericano”, o vácuo que tem vergonha de dizer o próprio nome.


Daniel Rubinstein
O enviado especial do Departamento de Estado à Síria, Daniel Rubinstein [pelo nome, parece ser muçulmano xiita (NTs)], já se prepara para assumir outro posto, fazendo crescer as preocupações sobre o interesse do governo em resolver o conflito, além de apenas combater o Estado Islâmico.

Dois funcionários do governo confirmaram que o Presidente Barack Obama tem planos de, em algumas semanas, nomear Rubinstein para a embaixada na Tunísia. Embora a nomeação ainda não esteja decidida, o Departamento de Estado já começou a procurar outro nome que ocupe o posto na Síria, cargo e posto que perderam status e autoridade no decorrer do ano passado.

Rubinstein comandou a equipe do Departamento de Estado para a Síria a partir de março de 2014, por menos de um ano. Oficial de carreira do Serviço Diplomático, fluente em árabe, é egresso do gabinete de inteligência do Departamento de Estado, e substituiu o Embaixador dos EUA na Síria, Robert Ford. Mas Rubinstein não recebeu status de embaixador, e acabou desautorizado pela Casa Branca, que mantém controle exclusivo e estrito sobre a política para a Síria. Ao mesmo tempo, teve de contrapor-se a uma nova equipe do Departamento de Estado e funcionários militares, cuja prioridade era combater o Estado Islâmico, não buscar alguma solução para a crise na Síria.

O arquivo Síria é hoje mais complicado, porque há duas questões: lidar com a oposição e com o problema Assad, e, agora, também a missão de combater contra o ISIL na Síria – disse Ford. O desafio que Danny enfrentou e o desafio que há agora é garantir que se trate, de fato, de um único esforço unificado.

Brett McGurk, John Allen, Obama e Susan Rice
O novo esforço anti-EI [Estado Islâmico] no Departamento de Estado está sendo comandado pelo general aposentado John Allen e o embaixador Brett McGurk, que declarou publicamente que seguem estratégia de “primeiro o Iraque”. Os EUA já começaram um novo programa para treinar e equipar um exército rebelde sírio. O programa de US$ 500 milhões é comandado pelos militares e não é coordenado com os grupos da oposição síria com os quais Rubinstein trabalhou.

Líderes da oposição disseram que Rubinstein manteve dedicadamente boas relações com uma variedade de grupos da oposição, mas não foi proativo e não conseguiu chegar a oficiais de nível mais alto dentro do governo dos EUA.

O coração de Danny [sic] estava com a nossa luta, mas não tinha o apoio de uma política coerente que ele realmente pudesse explicar aos seus interlocutores síriosNão conseguiria jamais ser bem-sucedido, se trabalhava para um governo que continua a ver a Síria como show colateral [orig. side show], não, como a Síria é (sic), o principal front na luta contra o ISIL e a expansão iraniana − disse Oubai Shahbandar, ex-conselheiro da Coalizão de Oposição Síria, trabalhando agora para a empresa de consultoria Dragoman Partners.


Rubinstein jamais teve projeto claro para uma estratégia ampla para a Síria. Depois que os EUA fecharam a embaixada em Damasco, no início de 2012, o principal projeto do embaixador Ford foi construir e mobilizar apoio para a Coalizão da Oposição Síria, um grupo de líderes civis que vivem na Turquia, e que Obama uma vez declarou “legítimo representante do povo sírio” (sic).

Mas esse grupo fracassou, não conseguiu arregimentar apoio e credibilidade dentro da Síria, e seu braço militar, o Supremo Conselho Militar, nunca conseguiu controlar os grupos em campo. Os maiores grupos de “insurgentes” sustentados pelos EUA foram dizimados em meses recentes, inclusive a Frente Revolucionária Síria e Harakat Hazm, desmantelados  semana passada.

(...)

Sem encontrar entusiasmo nos níveis superiores do governo dos EUA para corrigir a política norte-americana para a Síria, e com a Casa Branca cada dia mais frustrada com aquela oposição, a missão do substituto de Rubinstein se limitará a explicar uma estratégia impopular, a insurgentes que, cada dia mais, sentem-se frustrados e abandonados.

É trabalho duro, e está hoje realmente difícil alcançar a oposição síria, especialmente porque a influência dos EUA parece estar evanescendo – disse Ford.

Bashar al-Assad em entrevista à RTP 
O governo Obama diz, com razão, que os EUA forneceram mais ajuda à oposição síria moderada que qualquer outro país. Mas aqueles grupos estão hoje em desintegração, com o apoio ocidental encolhendo dia a dia, e a deserção de militantes recrutados para lutar contra Bashar al-Assad, e que agora buscam as organizações islâmicas.

A menos que Rubinstein seja rapidamente substituído, e que seu substituto tenha meios e autoridade para trabalhar, o mais provável é que, em breve, já não haja oposição moderada para os EUA apoiarem. Assim, ganharia cada vez mais prestígio e credibilidade a ideia de que Assad é a única alternativa aos terroristas – ideia que o presidente da Síria tem muito interesse em promover.

[*] Josh Rogin é redator e revisor de textos do Foreign Policy Magazine, BloombergNews, Asahi Shimbun. Reside em Washington, DC. Durante 4 anos fez a Cobertura do Pentágono em assuntos de segurança dos EUA em relação ao Oriente Médio e Ásia Oriental. Durante 3 anos fez reportagens sobre o Congresso. É o atual titular da coluna eletrônica diária The Cable do Foreign Policy.

sábado, 28 de junho de 2014

Síria: Obama prolonga a guerra

27/6/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



O presidente Obama pediu $500 milhões ao Congresso na 5ª-feira (26/6/2014), para treinar e equipar “membros da oposição síria adequadamente selecionados”, como disse a Casa Branca, mostrando crescente preocupação com o “respingamento” do conflito sírio sobre o Iraque.

É ideia de doidos e movimento lunático. Injetar mais armas e mais rebeldes armados no conflito sírio só fará aumentar o conflito e afetará negativamente a situação da segurança na Síria, no Iraque, no Líbano, na Turquia e na Jordânia. Assim se comprova que ninguém está preocupado com qualquer “respingamento”.

Em agosto do ano passado, Edwald Luttwak escreveu que os EUA ganham, se os dois lados continuarem a lutar; e que os EUA portanto deveriam estender o conflito o mais possível:

O objetivo dos EUA deve ser manter o impasse. E o melhor meio possível para conseguir manter o conflito é armar os rebeldes quando parecer que as forças do Sr. Assad estejam em ascensão; e cortar o suprimento, se os rebeldes parecerem estar realmente vencendo. 

Civis sírios assassinados com gás SARIN pelo ESL, financiados pelos EUA (ago/2013)

Tudo sugere que Obama, mesmo ao preço de fracasso regional mais amplo, está seguindo essa política.

Os porta-vozes de Obama merecem outra medalha Orwell:

Apesar de continuarmos a crer que não há solução militar para essa crise e que os EUA não devem pôr soldados norte-americanos em combate na Síria, esse pedido marca mais um passo para ajudar o povo sírio a defender-se contra ataques do regime – disse Caitlin Hayden, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, em declaração.

O maior perigo para os civis e para o Exército Sírio Livre, cujo principal comandante oficial foi (outra vez) demitido por corrupção, não são as forças do governo de Assad, mas os terroristas jihadistas.

Terrorista (sniper) do ESL, treinado pelos EUA com fuzil belga FAL, com luneta
Os EUA já treinam e armam rebeldes “adequadamente selecionados” há, no mínimo, dois anos! E já entregaram a eles toneladas de armas. Aquelas armas acabaram em mãos dos terroristas jihadistas e os rebeldes “selecionados” estão hoje ou mortos ou já se uniram a grupos associados à al-Qaeda. O novo treinamento tomará seis meses, antes de os “treinados” estarem, digamos, “prontos”. Em seis meses, o exército sírio legal estará em melhor posição do que está hoje e o principal inimigo para todos naquele campo de batalha será o ISIS.

Não será surpresa para mim quando os tais rebeldes “adequadamente selecionados” e já treinados se unirem ou às tropas de Assad ou às tropas do ISIS, tão logo retornem à Síria, no final do “treinamento” que os EUA desejam que tenham.


[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar” ou  “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille  (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ouvir versão em performance de Tim van Broekhuizen.


segunda-feira, 28 de abril de 2014

Síria hoje, e EUA há 150 anos: Eleições em tempo de guerra civil

25/4/2014, [*] Caleb Maupin, Russia Today,
Traduzido peloo pessoal da Vila Vudu

O mais provável é que, em 2014, Bashar al-Assad seja reeleito presidente da República Árabe Síria. A história síria o recordará para sempre, como governante civilizado e herói do seu povo.
(14/9/2013, redecastorphoto: Uma breve história da guerra dos EUA contra a Síria: 2006-2014, Moon of Alabama, traduzido)

Membro da Defesa Civil e residente afastam-se de local bombardeado por terroristas - Aleppo, Distrito de al-Shaar  em 24/4/2014 (foto: Hosam Katan)
A Síria terá eleições presidenciais dia 3 de junho. A imprensa-empresa ocidental “midiática” zomba da ideia de haver eleições em tempo de guerra civil que já fez mais de 100 mil vítimas, entre mortos e refugiados.

Toda a imprensa-empresa já se prepara para pôr-se a tentar desqualificar o resultado – que, como tantos sírios desejam e esperam, mostrará Bashar al-Assad reeleito.

Curioso, nisso, é que tantos jornalistas e “especialistas” midiáticos norte-americanos esqueçam parte tão importante da própria história dos EUA.

Há 150 anos, em 1864, os EUA fizeram uma eleição presidencial, apesar de estarem mergulhados, há três anos, numa muito sangrenta guerra civil.

Abraham Lincoln
Abraham Lincoln governava os EUA e enfrentava batalha cruel contra uma insurgência armada interna. Lincoln, membro do recém constituído Partido Republicano, fora eleito com plataforma em que se comprometia a conter e pôr fim à expansão da escravidão. Em 1861, os ricos proprietários de escravos do sul dos EUA armaram-se em guerra contra o governo federal, na esperança de preservarem para eles o direito de propriedade sobre milhões de escravos que consideravam “propriedade privada” deles.

No processo da guerra, Lincoln foi forçado a relutantemente abolir a escravatura, primeiro com a Proclamação de Emancipação, depois com Emendas à Constituição dos EUA. A Guerra Civil foi, realmente, a Segunda Revolução Americana, que mudou completamente o contexto econômico dos EUA. Os capitalistas industriais dos EUA do Norte, com apoio de sindicatos, bem amados guerrilheiros antiescravidão como Frederick Douglas, e escravos rebeldes armados como Harriet Tubman, esmagaram a escravocracia dos EUA do Sul. No processo, foram mortos 750 mil soldados, e o número de civis norte-americanos mortos não é conhecido até hoje.

Os dois lados acusaram-se mutuamente de brutais crimes de guerra – os EUA do Norte usaram até a fome, como arma, contra os EUA do Sul – tortura e assassinato de civis.

Enquanto a maioria dos EUA do Norte apoiava o governo eleito de Lincoln na luta contra a Confederação dos Proprietários de Escravos dos EUA do Sul, a cidade de New York abrigava um poderoso núcleo de militantes pró-escravatura, porque Wall Street, até hoje centro do sistema capitalista mundial, estava fazendo milhões de dólares com as empresas financeiras do comércio escravista. E muitos ricos capitalistas britânicos e conhecidos políticos, como William Gladstone, também apoiavam os insurgentes pró-escravatura dos EUA do Norte. As indústrias britânicas viam as fazendas do sul, movidas à mão de obra escrava, como importantes fornecedoras de algodão barato e de outras matérias primas.

Karl Marx
Na cidade de New York, o jornal mais popular, do Partido Republicano, era o The New York Tribune. O correspondente em Londres, da Tribune, era Karl Marx, autor do Manifesto Comunista e líder da Associação Internacional de Trabalhadores. Karl Marx escreveu carta a Lincoln, em nome da Associação Internacional de Trabalhadores, entregue ao embaixador dos EUA em Londres, Charles Francis Adams, dia 28/1/1865:

Os trabalhadores europeus têm certeza de que, assim como a Guerra da Independência Americana iniciou uma nova era de ascensão para a classe média, o mesmo fará a Guerra Americana contra a Escravidão, pelas classes trabalhadoras. Consideram um trunfo da Guerra Americana contra a Escravidão, que tenha cabido a Abraham Lincoln, filho dedicado da classe trabalhadora, conduzir seu país ao longo dessa guerra terrível, até o resgate da raça acorrentada e a reconstrução de um mundo social. (trecho traduzido)

Os jovens que se alistavam no exército dos EUA do Sul cantavam “John Brown's Body” [O cadáver de John Brown] (vídeo a seguir) canto dedicado àquele carismático militante antiescravidão, que foi enforcado depois de uma tentativa de levante dos negros em Harper's Ferry.


Entre os comandantes do exército que Lincoln usou para derrotar a escravocracia havia muitos comunistas declarados. O General de Brigada Joseph Wedemeyer, o Secretário-Assistente de Guerra Charles A. Dana, o General de Brigada August Willich e o Coronel Richard Hinton sequer eram nascidos nos EUA, mas sentiram que, em nome de suas convicções comunistas, tinham de alistar-se na batalha contra a escravidão. Foram comandantes militares dos EUA do Norte, durante a batalha contra os EUA do Sul dos proprietários de escravos. E foram também assumidos apoiadores de Karl Marx e das ideias do comunismo.

“Não troque de cavalo no meio da corredeira!”

Lincoln foi atacado por fazer eleições durante a Guerra Civil. Os Estados Unidos do Sul, que estavam sob total controle dos insurgentes da “Confederação”, não tiveram eleições, porque seria impossível o governo central responsabilizar-se por eleições em território inimigo.

Terroristas carregam arma anti-tanque para posições na cidade cristã-americana de Kasab em 23/4/2014
Nas urnas, Lincoln enfrentou dois principais oponentes. Os Democratas concorreram com uma “plataforma pela paz”, entendendo que o governo dos EUA deveria render-se aos insurgentes e deixar que a escravidão prosseguisse nos sul. O Partido Radical Democrático concorreu com uma plataforma segundo a qual Lincoln seria ‘mole demais’, não suficientemente agressivo, e que deveria abolir imediata e completamente a escravidão. Lincoln temia não ser reeleito. Durante a campanha, cunhou seu famoso slogan “Não troque de cavalo no meio da corredeira!”, clamando pela unidade nacional para pôr fim à guerra.

Contados os votos, Lincoln foi reeleito. Continuou a comandar o país na luta contra os insurgentes e, afinal, venceu-os. A escravidão foi oficialmente abolida, e milhões de negros afro-norte-americanos livraram-se dos grilhões.

Bashar al-Assad
O presidente Bashar Assad enfrenta situação semelhante à que Lincoln enfrentou há 150 anos. A República Árabe Síria enfrenta insurgência armada brutal, financiada por interesses bilionários em Wall Street e Londres, além dos autocratas em Omã, Qatar, Arábia Saudita e Jordânia. Com armas e dinheiro estrangeiro jorrando sobre eles, o chamado “Exército Sírio Livre”, a Frente Al-Nusra e outros grupos terroristas armados estão degolando gente, recrutando crianças, sequestrando para receber resgate e cometendo outros horrendos crimes de guerra. Os insurgentes ainda controlam partes do país, e continuam empenhados em abolir a diversidade e a liberdade de religião que definem a Síria ao longo das últimas várias décadas.

Diferente da Guerra Civil nos EUA, a maioria dos insurgentes na Síria não são cidadãos do próprio país, mas mercenários importados. A República Árabe Síria sempre defendeu o povo palestino em sua luta contra os crimes dos colonos sionistas israelenses. A economia Síria é em larga medida controlada pelo Estado, sem que empresas ocidentais tenham conseguido implantar ali a “rédea solta” neoliberal com que tanto sonham, para maximizar seus lucros. O governo sírio garante assistência à saúde e educação universais e gratuitas, para todos os sírios. Na Síria, cristãos, sunitas, xiitas e alawitas sempre viveram lado a lado e em paz. Tudo isso fez da República Árabe Síria alvo escolhido dos imperialistas de Wall Street, que tentam converter a Síria em outra Arábia Saudita, outro Qatar ou Bahrain, onde as ordens do Ocidente podem ser impostas por governo fantoche autocrático.

Na Síria, a “oposição” move campanha de terror e violência para desestabilizar o país e estraçalhar a República Árabe Síria, para que Wall Street e Londres assumam o controle do país.

Os sírios estão unidos em torno de seu presidente e resistem contra a campanha de terror apoiada de fora da Síria. Além do Exército Sírio, o país também constituiu milícias comunitárias de autodefesa. A Síria se une para derrotar a campanha de violência movida contra ela.

Manifestação na Casa Branca -  Guerra contra a Síria: construindo uma MENTIRA.
Quando o Comitê Nacional Unido Contra a Guerra e o Centro de Ação Internacional [orig. United National Anti-War Committee e International Action Center] convocou um protesto diante da Casa Branca, quase mil sírios reuniram-se ali para desfraldar sua bandeira. Muitos cartazes mostravam imagens do presidente al-Assad. Sírios-americanos da PennsylvaniaNew JerseyCalifórnia e outras partes dos EUA cantaram “Estamos com nosso presidente Bashar Al-Assad”.

Assim como Lincoln acertava ao insistir em que se realizassem eleições em 1864, assim também Assad acerta em não abrir mão da próxima eleição presidencial de 3 de junho próximo. É indispensável que o povo sírio tenha garantido o direito de manifestar-se, apesar da terrível guerra civil em que os sírios foram colhidos.

Nas próximas eleições, Assad enfrentará pelo menos um oponente forte, e é preciso esperar que os votos sejam contados.

Mas, assim como milhões de pessoas nos EUA votaram em Lincoln em 1864, é muito provável que milhões de sírios reelejam o homem que os conduziu durante uma batalha feroz contra terroristas e contra uma campanha de terror sustentada por agentes de fora da Síria. Pode-se prever que a lógica dos sírios em 2014 será a mesma dos norte-americanos em 1864: a maioria não trocará de cavalo “no meio da corredeira”.



[*] Caleb Maupin é jornalista, analista e comentarista político e embora originário de Ohio, tendo estudado e se formado e Ciência Política no Baldwin-Wallace College, vive atualmente em New York. É ativista e membro do Workers World Party e do Fight Imperialism – Stand Together (FIST). É um dos organizadores da juventude do International Action Center e do movimento Occupy Wall Street desde 2011. Milita contra a brutalidade policial, encarceramento em massa, e a guerra imperialista dos EUA.