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domingo, 17 de maio de 2015

Paul Craig Roberts – Seymour Hersh sucumbe à desinformação

11/5/2015, [*] Paul Craig Roberts – IPE, Institute for Political Economy
Seymour Hersh Succumbs To Disinformation–Paul Craig Roberts
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu




Seymour Hersh publicou um longo relato do assassinato de Osama bin Laden. Hersh conclui que o relato que o governo Obama distribuiu sobre a morte de bin Laden é totalmente mentiroso, exceto que bin Laden foi assassinado. 
 
Não acredito em nada do que Hersh escreveu, por três razões: 
 
A primeira é que bin Laden sofria de uma doença com a qual ninguém sobrevive por dez anos. A morte dele foi amplamente noticiada em 2001. 

A segunda é que também o relato dito “verdadeiro” de Hersh do que “realmente aconteceu” é desmentido por testemunhas oculares e pelas primeiras entrevistas que a TV paquistanesa publicou com aquelas testemunhas oculares. 

A terceira razão é que a história de Hersh é excessivamente cheia de peripécias e reviravoltas, para uma missão rotineira, nos EUA, de assassinato. Desmascara pequenas mentiras dentro de mentiras maiores, explica uma indecisão com outra, resultados inesperados com resultados inesperados, e reporta tal número de gente que sabia com antecedência do raid, que de modo algum se manteria qualquer segredo sobre qualquer coisa relacionada ao assassinato, por tanto tempo.

Mentindo para a America (EUA)
Poderia ainda acrescentar uma quarta razão: a total falta de credibilidade do governo dos EUA. Washington mente sobre tudo. Por exemplo: as armas de destruição em massa de Saddam Hussein, o uso de armas químicas pelo presidente Assad, as bombas iranianas, a invasão russa na Ucrânia. 

SE, como diz Hersh, 99% de tudo que Washington diz ou disse sobre o ataque em Abbottabad é falso, por que acreditar que 1% desse mar de mentiras seria verdade, e que bin Laden foi assassinado? É muito difícil comprovar um assassinato, se não há corpo. 
 
A única prova de que bin Laden foi morto é a palavra do governo.

Em minha opinião, as agências de desinformação de Washington conseguiram afinal engambelar Seymour Hersh e o fizeram crer numa “história interna” que confirma o que Washington diz, que matou bin Laden; e prova que o governo dos EUA é extraordinário mentiroso e violador de leis. 

O que Hersh escreveu prova, sim, que o governo dos EUA é mentiroso, mas não prova que aqueles SEALs mataram Osama bin Laden.
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 [*] Paul Craig Roberts (nascido em 3/4/1939) é um economista norte-americano, colunista do Creators Syndicate. Serviu como Secretário-Assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da ReaganomicsEx-editor e colunista do Wall Street Journal,Business Week e Scripps Howard News ServiceTestemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica. Durante o século XXI, Roberts tem frequentemente publicado em Counterpunch Information Clearing House, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que ele diz ter destruído a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos. Roberts é graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, com pós-graduação na Universidade da Califórnia, Berkeley e na Faculdade de Merton, Oxford University.
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[*] Seymour Myron “Sy” Hersh (Chicago, 8/4/1937) é jornalista de investigação norte-americano, ganhador do prêmio Pulitzer e especializado em geopolítica, atividades dos serviços secretos e assuntos militares dos Estados Unidos.

Principais feitos jornalísticos
  • Revelação do massacre de My Lai, no Vietnam, em novembro de 1969, o que lhe valeu o prêmio Pulitzer de 1970.
  • Revelação do projeto Jennifer (tentativa de resgate dos destroços do submarino soviético K-129 promovida pela CIA, também em 1969, visando recuperar, em proveito dos Estados Unidos, dados e tecnologias soviéticas).
  • Revelação das atividades ilegais da CIA contra organizações pacifistas e outros movimentos políticos de oposição, nos Estados Unidos, em 1974, o que resultou na demissão de James Jesus Angleton, chefe da contraespionagem da CIA.
  • Revelação da existência do Office of Special Plans (OSP) do Departamento de Defesa norte-americano, ao publicar o artigo “Selective Intelligence”, em 2003.

sábado, 16 de maio de 2015

O misterioso assassinato de Bin Laden

 14/5/2015, [*] John GardnerConsortiumNews 
The Bin Laden Murder Mystery
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu 

 
 
Entreouvido no Salão Debelê na Vila Vudu: A Grande Revelação não é Sy Hersh “informar” que Obama mente. E quem não sabe que Obama mente?! A Grande Revelação é que Hersh está re-escondendo a mesma coisa já escondida antes. Tudo que nos “informam” é falso. 
Vamos, vamos, pessoal, caminhando, a fila tem de andar! Aí, nada há que nos interesse.
 

Obama! Makekiéiiisso:-D))))) [1]
No livro sem fim que estou escrevendo sobre a história da Região Norte-americana dos Grandes Lagos, um dos mais persistentes enigmas é a Pedra de Kensington. A Pedra é ou 
  1. documento histórico radicalmente importante que desmente a narrativa padrão sobre o primeiro encontro entre nativos americanos e europeus, ou a pedra é 
  2. pura farsa. 
Trata-se do que parece ser uma pedra-runa que foi desenterrada nos anos 1880s por um fazendeiro sueco-norte-americano semianalfabeto; a pedra mostra sinais gráficos que, depois de afinal decifrados por especialistas em runas medievais, falam de um massacre que indígenas teriam cometido contra um grupo de aventureiros nórdicos em 1341, perto do Rio Vermelho em Minnesota. 
 
Há muitas razões pelas quais se pode dizer que a pedra é pura farsa, inclusive anacronismos muito convincentemente demonstrados nos caracteres rúnicos – futmarks [lit. marcas de pés, pegadas], como dizem os arqueólogos – e a ausência de qualquer outro sinal que comprove que alguma expedição houve naquele período. Pela datação, sabe-se que nenhuma expedição viajaria até o outro lado do planeta sem o patrocínio oficial do rei Magnusson III, sobre cuja corte há documentação comparativamente farta. Além da alta implausibilidade de marinheiros nórdicos do período medieval terem chegado a ponto tão distante de qualquer mar. 
 
Os aventureiros nórdicos eram homens intrépidos, que viajaram distâncias consideráveis, contornaram o Cabo Horn, é possível que tenham chegado à China. Mas de forma alguma se pode crer, por razões óbvias, que abandonariam seus barcos – a única conexão que os ligava ao mundo do qual partiram – para aventurar-se terra (tão) adentro. Diferente de Fernão de Magalhães, eles não sabiam construir os próprios barcos. Se os seus fossem destruídos, estariam perdidos para sempre. 
 
A razão pela qual voto pela total implausibilidade da Pedra-runa de Kensington é mais simples que tudo isso. Por que 24 exploradores-soldados nórdicos, chegando de volta ao acampamento e encontrando todos os seus camaradas mortos ou esvaindo-se em sangue, dar-se-iam o trabalho de parar, esculpir um monumento em pedra e cobri-lo de sinais que, os próprios aventureiros sabiam que, com altíssima probabilidade, jamais seriam compreendidos, mesmo supondo que alguém, algum dia, encontrasse a pedra? É exigir demais de homens que, naquele momento só tinham tempo para cuidar de enterrar os mortos, e escafeder-se antes que os nativos voltassem. 
 
Pedra de Kensington
A evidência oposta, porém, é igualmente estranha. Por que um fazendeiro sueco-norte-americano semianalfabeto participaria da tal farsa? E, se participou, como é possível que tenha construído farsa tão perfeita que atravessou os séculos? Como poderia ele 
  1. esculpir a Pedra, cobri-la até com “pegadas” que especialistas, depois de um século, diagnosticaram como precisamente correspondentes às de outras épocas?
  2. pôr a Pedra entre as raízes de uma árvore que um dia seria derrubada por seus filhos, na faina de abrir uma clareira no mato; e, o mais impressionante de tudo?
  3. entregar a Pedra aos especialistas em runas escandinavas na University of Minnesota, perfeitamente gratuitamente? 
Quando a Pedra, já declarada falsa, foi devolvida ao fazendeiro que a encontrara, ele não pareceu frustrado ou desapontado; apenas virou a parte “escrita” para baixo e a pôs na trilha para a porta dos fundos da casa dele. Adiante, apareceu por lá um jovem estudioso, que manifestou grande entusiasmo pela pedra. O fazendeiro vendeu-lhe a pedra, por dez dólares. Nem o fazendeiro nem seus filhos jamais revelaram qualquer coisa que indicasse complô para burlar alguém. Nem jamais, em tempo algum, manifestaram qualquer interesse pela pedra. 
 
Aí está, pois, uma história com possível alta relevância histórica que é, simultaneamente, implausível e irrefutável. É exatamente o que me parece o novo discurso de Seymour Hersh sobre o assassinato de Bin Laden. 
 
Por um lado, a história oficial sempre foi implausível. Quem, afinal, no planeta algum dia acreditou que Bin Laden estaria vivendo na Academia Militar de West Point do Paquistão, a 20 minutos de uma grande base militar onde agentes d’A hora mais escura costumavam treinar os guardas do arsenal nuclear do Paquistão; e que ele lá continuaria a viver, sem que ninguém, nem nas Forças Armadas nem nos Serviços Secretos do Paquistão de nada soubessem? 
 

E, além do mais, quem poderia jamais acreditar que dois Blackhawks invadiriam o espaço aéreo do Paquistão, atacariam naquele local determinado e sairiam do Paquistão, sem que nenhuma segurança paquistanesa tomasse qualquer atitude... 
 
... a menos que tenha havido, como Hersh afirma, colaboração efetiva e massiva com os militares e com o serviço secreto paquistanês? 
 
Claro que a história oficial é implausível; e, se você para e pensa, a total inexistência de qualquer vídeo ou filme do tal funeral encenado em alto mar também é implausível. (Por que ninguém filmou o funeral, pelo menos para acalmar as ansiedades dos islamistas sobre a correção da cerimônia? Coisa mais fácil não há, de fazer; impossível acreditar que a Marinha dos EUA não registre rotineiramente esse tipo de evento.) Há outras inconsistências e discrepâncias todas plausíveis na história “de antes”, que dão ares de plausibilidade à “nova” história de Hersh. 
 
Pelo outro lado, imaginemos que tudo que Hersch escreveu seja verdade: 
 
Por que os altos funcionários do serviço secreto paquistanês algum dia admitiriam que sua óbvia colaboração fosse exposta, concordando com que os SEALS da Marinha dos EUA inventassem toda aquela encenação, que tornaria implausível o não envolvimento deles?! 
 
E mais: por que urdiriam, como Hersh diz que eles e o governo dos EUA teriam urdido, a tal história de que Bin Laden teria sido morto no Waziristão num ataque de drone? Por que não o levaram para o Waziristão, passando aos norte-americanos as coordenadas do local onde o cadáver os esperava e deixando que os “eventos” se desenrolassem lá mesmo? É feito a Pedra de Kensington: nem a farsa conhecida, nem a verdade conhecida fazem qualquer sentido. 
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Nota dos tradutores
[1] A foto foi distribuída por Pepe Escobar, em sua página de Facebook.
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[*] John Gardner está trabalhando em uma história dos Grandes Lagos da América do Norte. Ele pode ser contatado pelo e-mail: personalgardnerjohn@gmail.com 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Síria: Aleppo cercada − Ocidente procura “coringa” que salve seus terroristas

23/1/2015, [*] Tony CartalucciNew Eastern Outlook, NEO
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Exército da Síria atacado em Aleppo
Notícias seguras informam que o Exército Sírio Árabe está muito perto de cercar completamente os terroristas que ocuparam a cidade de Aleppo, no norte da Síria, depois que a cidade foi invadida a partir de território da OTAN, em 2012. Tão logo o cerco se complete, analistas entendem que a cidade será rapidamente libertada, em processo semelhante à retomada de Homs, mais ao sul.

O desespero dos terroristas nessa fase final na Batalha por Aleppo é bem visível na tentativa que fazem seus patrocinadores ocidentais para negociar um cessar-fogo e conseguir que alguma “ajuda” chegue até onde estão. Houve tentativas semelhantes, e semelhantemente vãs, nas fases finais da Batalha por Homs em meados de 2014 – com a cidade de Homs convertida em epicentro do terrorismo a partir de 2011, e hoje já sob controle do governo sírio. Pequenos bolsões de terroristas foram isolados dentro de Homs, possibilitando que a ordem fosse restaurada na maior parte da cidade e da região circundante.

Ao tempo em que o governo sírio vai sistematicamente recuperando o controle de nação que havia sido “condenada” pelo ocidente e seus terroristas, que entravam aos borbotões no país, seguidos sempre de torrente que parecia inexaurível de dinheiro, armas e equipamento, cresce visivelmente o desespero daqueles mesmos interesses “ocidentais”.

O jornal The Guardian, dos mais importantes agentes de propaganda dedicados a distorcer a verdade sobre o conflito desde que começou em 2011, tenta agora construir uma narrativa de exortação de uma dita “segurança global”, e insiste que a OTAN teria de estabelecer uma zona aérea de exclusão sobre Aleppo e repelir as forças do governo sírio, de modo que “rebeldes moderados” permaneçam no controle da cidade para repelir as forças do Estado Islâmico (ISIS).

Prédio bombardeado no centro de Aleppo

Desde então os pequenos ganhos do regime foram resultado de muita luta, com vários avanços convertidos em retrocessos por ação de combatentes rebeldes e locais, essas duas forças ainda se ressentindo das perdas que o ISIS lhes impôs. O ISIS escondeu-se a 20 milhas de distância dali e provoca a Frente Islâmica com uma estação de rádio que instalou ali e transmite regularmente cantos islâmicos para insultar os membros do grupo.

Foram perdas estratégicas para nós” disse o comandante de Aleppo, sobre os ganhos do ISIS. E os norte-americanos ainda duvidam do nosso empenho para combater contra eles? Quando os EUA voltaram à Síria, pensávamos que o mínimo que poderiam fazer seria impedir que a Força Aérea de Assad nos matasse. Mas eles bombardearam a cidade muito mais do que antes de os norte-americanos chegarem. Não temos dúvida alguma de que os EUA já estão “acertados” com Assad. É óbvio.

A única coisa “óbvia” é que os EUA simplesmente usaram o ISIS como pretexto para violar o espaço aéreo da Síria; e o segundo passo seria implantar as tais tão longamente planejadas zonas aéreas de exclusão, para, sendo possível, “conter” o Exército Árabe Sírio. Exatamente como na Líbia, a zona aérea de exclusão só faria entregar o restante da Síria ao ISIS e a outros grupos terroristas afiliados à Al-Qaeda – claramente a força de militantes terroristas dominante dentre as que combatem contra o governo do presidente Assad, e bem claramente também, os terroristas militantes que recebem a vastamente maior parte do apoio material que a OTAN e seus parceiros regionais, sobretudo a Arábia Saudita, o Qatar e Israel, entregam aos terroristas.

Rua de Aleppo bombardeada
Deve-se observar que, por mais que The Guardian “informe” que militantes terroristas cercados em Aleppo estariam lutando contra o ISIS, a mesma matéria reconhece que aqueles mesmos militantes [terroristas amigos dos EUA] estão aliados à Frente Al-Nusra, listada pelos EUA como organização terrorista. The Guardian admite:

A luta por Zahraa, um dos poucos enclaves xiitas no norte da Síria, está sendo comandada pela Frente al-Nusra alinhada da al-Qaeda, com a qual a Frente Islâmica mantém entendimento, mas não aliança formal. Depois de mal ter conseguido manter-se no local durante boa parte do ano passado, recentemente a al-Nusra tomou grandes porções de território próximo da fronteira turca, impondo-se como ator poderoso, à custa de grupos não jihadistas. A dinâmica que muda muito rapidamente está forçando um novo entendimento com a Frente Islâmica, que diz que se cansou de esperar pela ajuda que estados árabes prometeram, mas nunca entregaram.

Essas mesmas forças do ISIS que estariam “em luta” contra os “rebeldes moderados” já receberam em suas fileiras milhares dos tais ditos “moderados” que desertaram recentemente e levaram com eles grandes quantidades de dinheiro e armas “ocidentais”. O fato de a Al-Qaeda – nos dois “ramos”, Al-Nusra e ISIS – parecer prosperar tanto junto à fronteira turca indica que o apoio da OTAN não está indo, de modo algum, para os “rebeldes moderados”, mas, em vez disso, está sendo intencionalmente entregue à Al-Qaeda, ou a grupos “moderados” que a OTAN sabe que trabalham, ou logo estarão trabalhando, com a Al-Qaeda.

Com uma ameaça que ele mesmo inventou – perpetuada até hoje ao longo das fronteiras da OTAN, buscando paraíso-seguro em território da OTAN e recebendo linha ininterrupta de suprimentos que lhes chegam de território da OTAN – o “ocidente” procura arrancar do resto do mundo uma intervenção militar direta sempre maior, por causa de um medo sempre crescentemente inflado que o ISIS provocaria. Essa grande intervenção militar direta incluiria zonas aéreas de exclusão e talvez políticas mais agressivas, incluindo a implantação de mais “paraísos seguros”, de dentro dos quais o ISIS possa montar operações militares maiores, mais efetivas e mais profundas dentro da Síria.

Tropas do Exército da Síria em Aleppo
Como o veterano jornalista Seymour Hersh, duas vezes Prêmio Pulitzer, expôs em 2007 na revista New Yorker, em coluna intitulada The Redirection [1], o “ocidente” conspirou (intencionalmente) para construir e lançar grupos mercenários de terroristas afiliados à Al-Qaeda em todo o mundo árabe, para lutar guerra “por procuração” dos EUA contra o Irã e o crescente arco de influência dos xiitas. O apoio dos EUA seria “lavado” na Arábia Saudita, para manter um verniz de negabilidade plausível e compartimentação operacional. É claramente o que se vê em desdobramento hoje na Síria, manifestação item a item, etapa a etapa, do meticuloso trabalho jornalístico, de nove páginas, de Hersh.

Para derrotar essa conspiração criminosa, a Síria e seus aliados têm de conseguir que o conflito em curso seja exposto como o que é: invasão terrorista, não alguma “guerra civil”.

Por isso mesmo, qualquer estratégia formulada para combater a violência terrorista terá necessariamente de incluir o governo sírio – comprovadamente a única força legalmente constituída capaz de enfrentar e derrotar a Al Qaeda no Levante, desde 2011. Assim, quanto mais o “ocidente” e seus aliados regionais apoiarem essa frente terrorista, mais e mais apoio terá de ter a Síria, no cenário global, para combater contra todos os terroristas – deslocando a política externa do “ocidente” para um canto, e abrindo caminho para que os sírios, afinal, recuperem a ordem de sua nação agredida.


Nota dos tradutores

Seymour Herch
[1] “Nos últimos meses, com a situação no Iraque deteriorada, o governo Bush, tanto a diplomacia pública quanto as operações clandestinas, mudou significativamente sua estratégia no Oriente Médio. A “redireção” [versão de 2007, do tal “pivô” de Obama (NTs)], como alguns dentro da Casa Branca batizaram a nova estratégia, pôs os EUA muito mais perto de aberta confrontação com o Irã e, em partes da região, empurrou os EUA para um conflito sectário que não para de crescer entre muçulmanos xiitas e sunitas.
Para minar o Irã, que é predominantemente xiita, o governo Bush decidiu, de fato, reconfigurar suas prioridades no Oriente Médio. No Líbano, o governo havia cooperado com o governo saudita, sunita, em operações clandestinas que visavam a enfraquecer o Hezbollah, a organização xiita apoiada pelo Irã. Os EUA também participaram de operações clandestinas contra o Irã e sua aliada, a Síria. Efeito colateral dessas atividades foi o crescimento muito rápido de grupos extremistas sunitas que têm uma visão militante do Islã, são hostis aos EUA e simpáticos à Al-Qaeda” [5/3/2007, The Redirection. Is the Administration’s new policy benefitting our enemies in the war on terrorism?,  Seymour M. Hersh. New Yorkertrecho aqui traduzido, nós sublinhamos ].

[*] Tony Cartalucci é pesquisador de geopolítica e escritor sediado em Bangkok, Tailândia. Seu trabalho visa cobrir os eventos mundiais a partir de uma perspectiva do Sudeste Asiático, bem como promover a auto-suficiência como uma das chaves para a verdadeira liberdade.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Linha vermelha e linha de rato

Sobre Obama, Erdoğan e os rebeldes sírios

6/4/2014, [*] Seymour M. Hersh, London Review of Books (online)
Seymour M. Hersh on Obama, Erdoğan and the Syrian rebels
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Síria e as "linhas vermelhas" de Obama (por Steve Bell/2013)
Em 2011, Barack Obama comandou uma intervenção de aliados contra a Líbia, sem consultar o Congresso dos EUA. Em agosto passado, depois de um ataque com gás sarín em Ghouta, subúrbio de Damasco, estava pronto para ordenar ataque aéreo de norte-americanos e aliados, dessa vez para castigar o governo da Síria por, supostamente, ter infringido uma “linha vermelha” que Obama demarcara em 2012 sobre uso de armas químicas.

Então, faltando menos de dois dias para o planejado ataque, Obama anunciou que pediria a aprovação do Congresso para a intervenção. O ataque foi adiado para que o Congresso realizasse audiências e, na sequência, foi cancelado, quando Obama aceitou a oferta, por Assad, de entregar seu arsenal químico, em negociação intermediada pela Rússia.

Por que Obama adiou e depois cancelou o ataque à Síria, se não teve cuidado algum no momento de atacar a Líbia?

A resposta está na disputa dentro do governo Obama, entre os que queriam fazer valer a “linha vermelha” e os líderes militares que entendiam que ir à guerra seria ao mesmo tempo injustificável e potencialmente desastroso.

A mudança, em Obama, começou em Porton Down, o laboratório que a Defesa britânica mantém em Wiltshire, Inglaterra. A inteligência britânica obtivera uma amostra do gás sarín usado no ataque do dia 21, e análises demonstraram que o gás não era o mesmo que se sabia que existia no arsenal químico sírio. A mensagem de que os sírios não mentiam e que o caso contra o exército de Assad logo seria desmontado, chegou rapidamente aos chefes do Estado-Maior dos EUA. O relato britânico fez aumentar as dúvidas dentro do Pentágono; os chefes militares já preparavam para avisar Obama de que seus planos para atacar com mísseis e bombas a infraestrutura síria levaria a guerra muito mais ampla no Oriente Médio. Consequência da notícia recém-chegada, os militares norte-americanos apressaram-se a levar ao presidente mais aquele alerta de cuidado, o qual, na visão dos militares, levou o presidente a cancelar o ataque.

Primeiro-Ministro da Turquia Recep Tayyp Recep Erdoğan (por Medi Belortaja)
Há muitos meses os altos comandantes militares e a comunidade de inteligência preocupa-se com o papel da guerra na convivência com os vizinhos da Síria, especialmente o papel da Turquia. Sabia-se que o Primeiro-Ministro Recep Erdoğan estava apoiando a Frente al-Nusra, grupo jihadista incorporado à oposição rebelde, e a outros grupos rebeldes islamistas.

Sabíamos que havia alguns, no governo turco, disse-me um ex-alto funcionário da inteligência dos EUA, com acesso à inteligência atual, que acreditavam que poderiam enredar Assad, provocando um ataque com gás sarín dentro da Síria – o que forçaria Obama a fazer valer a ameaça da ‘linha vermelha.  

Os altos chefes militares também sabiam que o que o governo Obama andava dizendo, que só o exército sírio tinha acesso ao sarín, era falso. As comunidades de inteligência norte-americana e britânica já sabiam, desde a primavera de 2013, que algumas unidades rebeldes na Síria estavam desenvolvendo armas químicas. Dia 20/6, analistas da Agência de Inteligência da Defesa dos EUA [orig.DIA] distribuíram documento altamente secreto de cinco páginas, dos “pontos de conversa” [(orig. talking points): são os itens que podem ser falados à imprensa e discutidos em público e os que não podem], para atualizar o vice-diretor da Agência DIA, David Shedd, no qual se lê que a Frente al-Nusra mantinha célula de produção de gás sarín; o programa, dizia o documento, era:

(...) o plano mais avançado para uso de sarín desde o esforço da al-Qaeda antes de 11/9. (Segundo um consultor do Departamento de Defesa, a inteligência dos EUA sabia, há muito tempo, que a al-Qaeda estava trabalhando em testes com armas químicas, e tem um vídeo de um de seus testes, com cachorros).

O documento da Inteligência da Defesa prosseguia:

Antes, o foco da comunidade de inteligência se mantivera quase completamente fixo sobre as armas químicas sírias; agora já sabemos dos esforços da Frente al-Nusra para produzir suas próprias armas químicas (...) A relativa liberdade de operação da Frente al-Nusra dentro da Síria nos leva a estimar que, no futuro, será difícil conter as ambições desse grupo.

O documento reunia informação secreta de várias agências:

Agentes facilitadores baseados na Turquia e na Arábia Saudita – dizia o documento – tentaram obter os precursores do sarín em grande quantidade, dezenas de quilos, antecipando o esforço para produção em grande escala na Síria.

(Perguntado sobre o documento da Inteligência da Defesa, porta-voz do diretor da Agência Nacional de Inteligência disse: Tal documento jamais foi solicitado ou entregue pela comunidade de analistas de inteligência).

Em maio passado, mais de dez membros da Frente al-Nusra foram presos no sul da Turquia, com o que a polícia local informou a jornalistas que seriam dois quilos de sarín. Em documento de acusação de 130 páginas, o grupo foi acusado de tentar comprar pavios e detonadores para construção de morteiros e produtos químicos precursores do gás sarín. Cinco dos detidos foram libertados logo depois. Os demais, inclusive o líder, Haytham Qassab, para quem o procurador pediu sentença de 25 anos de prisão, foram postos em liberdade condicional à espera de julgamento. Ao mesmo tempo, a imprensa turca fervia com especulações sobre se o governo Erdoğan estaria ocultando a extensão de seu envolvimento com os rebeldes. Numa conferência de imprensa no verão passado, Aydin Sezgin, embaixador da Turquia em Moscou, não deu importância às prisões e disse aos jornalistas que o suposto gás sarín não passaria de “anticongelante”.

Terroristas da Frente al-Nusra na Síria
Segundo o documento da Inteligência da Defesa, as prisões seriam sinal de que a Frente al-Nusra estava expandindo seu acesso a armas químicas. Dizia que Qassab se “autoidentificara” como membro da Frente al-Nusra e que era diretamente conectado a Abd-al-Ghani, “o emir da Frente al-Nusra para produção de equipamento militar”. Qassab e seu associado Khalid Ousta trabalharam com Halit Unalkaya, empregado de uma empresa turca, Zirve Export, que ofereceu “cotação para preços de grandes quantidades de precursores de sarín”. O plano de Abd-al-Ghani era que dois associados aperfeiçoassem a produção de sarín e, na sequência, fossem para a Síria para treinar outros e iniciar a produção em larga escala num laboratório não identificado, na Síria”. O documento da Inteligência da Defesa dizia que um de seus operadores comprara um precursor no “mercado químico de Bagdá”, o qual “dera servira de base a pelo menos sete esforços para produzir armas químicas desde 2004”.

Uma série de ataques com armas químicas em março e abril de 2013 foram investigados nos poucos meses seguintes, por uma comissão especial da ONU enviada à Síria. Uma pessoa com conhecimento bem próximo da atividade da ONU na Síria disse-me que havia provas que ligavam a oposição síria ao primeiro ataque com gás, dia 19/3, em Khan Al-Assal, vila próxima de Aleppo. No relatório final, em dezembro, a missão disse que pelo menos 19 civis e um soldado sírio estavam entre as vítimas fatais, além de muitos feridos. A Comissão não tinha a atribuição de determinar a responsabilidade pelo ataque, mas a mesma pessoa, muito bem informada sobre a missão da ONU, disse:

Os investigadores da ONU entrevistaram o povo que estava lá, inclusive os médicos que atenderam as vítimas. Era perfeitamente claro que os rebeldes lançaram o gás. Não veio a público, porque ninguém quis saber.

Nos meses antes do início dos ataques, um ex alto funcionário do Departamento da Defesa contou-me que a Agência de Inteligência da Defesa estava fazendo circular um relatório secreto diário, conhecido como SYRUP [2] com toda a inteligência relacionada ao conflito na Síria, incluindo material sobre armas químicas. Mas na primavera, a distribuição da parte do relatório sobre armas químicas foi suspensa, por ordens de Denis McDonough, Chefe de Gabinete da Casa Branca. “Havia alguma coisa ali que fez McDonough entrar em surto”, disse o ex-funcionário do Departamento da Defesa. “Num dia, era grande coisa. De repente, depois dos ataques com sarín em março e abril” – ele estalou os dedos – “sumiu”. A decisão de restringir a distribuição de informações foi tomada quando o Estado-Maior dos comandantes militares ordenou intensa planificação de urgência para uma possível invasão por terra contra a Síria, cujo principal objetivo seria eliminar armas químicas.

Meu informante, o ex alto oficial da inteligência, disse que muitos, no establishment de segurança nacional dos EUA há muito tempo estavam tendo problemas com interpretar a tal “linha vermelha” do presidente:

Os comandantes militares perguntaram à Casa Branca “o que significa essa linha vermelha?”, “Como se traduz em termos de ordens para os militares? Coturnos em solo? Ataque massivo? Ataque limitado?”. A inteligência militar recebeu ordens de estudar um modo de cumprir a ameaça. Nunca obtiveram qualquer resposta sobre o que o presidente estaria pensando.

Obama e a "linha vermelha" na Síria (por A.F.Branco)
Logo depois do ataque de 21 de agosto, Obama ordenou que o Pentágono listasse os alvos a serem bombardeados. No início do processo, disse meu informante, “a Casa Branca rejeitou 35 alvos propostos pelos comandantes militares, por serem insuficientemente dolorosos para o regime de Assad”. Esses primeiros alvos só incluíam alvos militares e nada próximo da infraestrutura civil. Sob pressão da Casa Branca, o plano de ataque dos EUA evoluiu para um “ataque monstro”: dois bombardeiros B-52 e tripulações foram deslocadas para bases aéreas próximas à Síria, além de submarinos e outras naves da Marinha equipadas com mísseis Tomahawk.

A cada dia, a lista ficava mais longa – disse-me meu informante – Os estrategistas do Pentágono disseram “não se pode usar só Tomahawks para atacar os silos de mísseis na Síria, porque o equipamento está protegido muito fundo, no subsolo. Por isso foram designados para a missão os dois B-52, com bombas de uma tonelada. E precisaremos de equipes de resgate para pilotos derrubados, e de drones para alvos selecionados. Virou operação monstro”.

As novas listas de alvos estavam pensadas para “erradicar qualquer capacidade militar que Assad tenha”, disse-me meu informante, o ex funcionário da Inteligência. Os principais alvos envolviam redes elétricas, depósitos de petróleo e gás, todos os depósitos conhecidos de armas e logística, todos os comandos e controles de instalações e todos os prédios conhecidos da estrutura militar e de inteligência.

Grã-Bretanha e França teriam ambas de participar. Dia 29 de agosto, dia em que o Parlamento britânico rejeitou o pedido de Cameron para que a Grã-Bretanha se integrasse ao ataque, o jornal The Guardian noticiou que Cameron já ordenara que seis jatos de combate RAF Typhoon fossem deslocados para Chipre e oferecera um submarino capaz de disparar mísseis Tomahawk. A Força Aérea francesa – que teve papel crucial em 2011 no ataque à Síria – estava também profundamente comprometida, segundo matéria publicada no Le Nouvel Observateur; François Hollande ordenara que vários jatos Rafale se unissem à força de ataque norte-americana. Seus alvos, segundo o noticiário, estavam no oeste da Síria.

Nos últimos dias de agosto, o presidente dera aos comandantes militares uma data final para o início do ataque.

A hora H estava marcada para algum momento antes da -feira [2/9/2013] de manhã, o ataque massivo para neutralizar Assad – continua meu informante.

Por isso, foi surpresa para muitos quando, em discurso no Jardim das Rosas na Casa Branca, dia 31/8, Obama disse que o ataque estava suspenso, e que ele pedira autorização do Congresso, a ser votada.

Naquela altura, a premissa de Obama – de que só o exército sírio tinha capacidade para usar sarín – já estava em farrapos. Em poucos dias depois do ataque de 21 de agosto, disse-me meu informante, agentes da inteligência militar russa já haviam recolhido amostras do agente químico, em Ghouta. Analisaram tudo e passaram as amostras para a inteligência militar britânica. Esse é o material recebido em Porton Down, Inglaterra. (Um porta-voz de Porton Down disse: “Muitas das amostras analisadas na Grã-Bretanha deram resultado positivo para o agente de efeito neurológico, sarín. O MI6 disse que não comenta assuntos de inteligência”).

O mesmo ex funcionário da inteligência dos EUA disse que o russo que entregou as amostras ao Reino Unido, era “fonte segura – alguém com acesso, conhecimento e currículo de confiabilidade”. Depois dos primeiros usos noticiados de armas químicas na Síria, ano passado, agências de inteligência norte-americanas e aliadas

(...) fizeram um esforço para encontrar a resposta sobre o que fora usado, se algo tivesse sido usado – e a origem do material – disse-me meu informante. – Usamos a troca de dados como parte da Convenção sobre Armas Químicas.
A linha básica sobre a qual trabalhava a DIA consistia em conhecermos a composição de cada linhagem de armas químicas fabricadas pelos soviéticos. Mas não sabíamos que linhagens havia então nos arsenais do governo Assad. Poucos dias depois do incidente em Damasco, pedimos a uma fonte no governo sírio que fornecesse uma lista das armas químicas realmente existentes no arsenal sírio. Por isso conseguimos confirmar tão rapidamente que o sarín usado em Damasco não era do governo sírio.

Na primavera anterior o processo não dera muito certo, disse-me meu informante, porque os estudos da inteligência ocidental “eram inconclusivos para o tipo de gás. Ninguém, então, falou em “sarín”. Discutiu-se muito sobre isso, mas dado que não se podia concluir que gás fora usado, não se podia dizer que Assad tivesse cruzado a tal “linha vermelha” do presidente”. Em 21/8/2013, continuou meu informante, “a oposição síria com certeza já sabia disso e anunciou, antes de qualquer análise, que teria sido usado “sarín” do exército sírio. E a imprensa-empresa e a Casa Branca saltaram para apanhar aquela chance: se era sarín, então... “Foi Assad”.

A equipe de Defesa da Grã-Bretanha que divulgou os resultados das análises feitas em Porton Down para os comandantes militares estava, simultaneamente, mandando um “recado”, disse meu informante: “Nós estamos sendo enganados nessa história”. (Isso explica uma mensagem tensa, que um alto funcionário da CIA distribuiu no final de agosto: “Não é coisa do atual regime [sírio]. Grã-Bretanha e EUA sabem”.) Mas naquele momento, faltavam poucos dias para o ataque, e aviões, navios e submarinos dos EUA, Grã-Bretanha e França já estavam em prontidão.

Martin Dempsey por Webb Murray 
O comandante responsável geral pelo planejamento e execução do ataque à Síria era o general Martin Dempsey, Comandante do Estado-Maior das forças conjuntas.

Desde o início da crise, disse meu informante, os Comandantes do Estado-Maior mantiveram sérias dúvidas quanto ao argumento do governo Obama de que havia fatos a confirmar sua certeza de que Assad era culpado. Pressionaram a Agência de Inteligência da Defesa e outras agências, para que apresentassem provas mais substanciais.

Não havia o que os convencesse de que a Síria teria usado gás sarín, porque sabiam que Assad estava vencendo a guerra – disse meu informante.

Dempsey irritou muita gente no governo Obama, de tanto que repetiu, também no Congresso, sobre o risco de um envolvimento militar dos EUA na Síria. Em abril, depois de uma avaliação otimista sobre avanços dos rebeldes feita pelo secretário de Estado John Kerry diante da Comissão de Assuntos Estrangeiros da Câmara de Deputados, Dempsey disse à Comissão de Forças Armadas do Senado que “há risco de esse conflito estar em empate”.

A ideia inicial de Dempsey depois de 21/8/2013 era que um ataque dos EUA à Síria – baseado na certeza de que o governo Assad fosse responsável pelo ataque com sarín – seria completa estupidez, do ponto de vista militar, disse meu informante. Mas depois que chegaram as informações de Porton Down, os chefes militares viram-se obrigados a levar ao presidente uma preocupação ainda mais grave: que o ataque que a Casa Branca tanto estava querendo, seria injustificado e injustificável ato de agressão.

Foram os chefes militares que levaram Obama a mudar completamente de curso. A explicação oficial da Casa Branca para dar meia volta – a história que a imprensa-empresa contou – foi que o presidente, em caminhada pelo Jardim das Rosas com seu chefe de Gabinete, Denis McDonough, repentinamente, decidiu buscar aprovação para o ataque, num Congresso ferozmente dividido, com o qual Obama vivia em conflito já há anos.

Meu informante contou-me que a Casa Branca deu outra explicação, diferente, aos membros do comando civil do Pentágono: o bombardeio havia sido suspenso, porque haveria inteligência que informava que “o Oriente Médio pegaria fogo”, se o ataque acontecesse.

A decisão do presidente de ir ao Congresso foi vista inicialmente pelos principais assessores na Casa Branca − disse meu informante − como replay do gambito de George W. Bush no outono de 2002, antes da invasão do Iraque:

Quando ficou claro que não havia armas de destruição em massa no Iraque, o Congresso, que havia apoiado a guerra do Iraque, e a Casa Branca, ambos, partilharam a culpa e sempre falaram de inteligência errada. Se o atual Congresso fosse obrigado a votar para apoiar o ataque, a Casa Branca conseguiria o que queria, e ainda mais – varreria a Síria com ataque massivo e validaria a palavra do presidente sobre a tal “linha vermelha”; e o presidente ainda poderia atribuir metade da culpa ao Congresso, no caso de algum dia vir a público que o governo sírio nada tivera a ver com o uso de gás em Goutha.

Nanci Pelosi, líder do Partido Democrata no Congresso dos EUA
O “meia volta, volver” colheu de surpresa até as lideranças Democratas no Congresso. Em setembro, o Wall Street Journal noticiou que três dias antes do discurso do Jardim das Rosas, Obama telefonara a Nancy Pelosi, líder dos Democratas na Câmara de Deputados, “para discutir as opções”. Mais tarde, ela mesma disse a deputados, segundo o WSJ, que não sugeriu ao presidente que pusesse o bombardeio em votação no Congresso.

Rapidamente, o movimento de Obama de buscar a aprovação do Congresso chegou a um beco sem saída.

O Congresso não poderia deixar que aquilo prosseguisse – disse meu informante. O Congresso, então, decidiu que, diferente do que fora feito quando da autorização para guerra ao Iraque, dessa vez haveria uma série de audiências públicas.

Nesse ponto, a Casa Branca foi tomada por uma espécie de desespero − diz meu informante − e foi quando surgiu o Plano B. Não se fala mais de bombardear a Síria, e Assad concordaria em assinar unilateralmente o tratado sobre guerra química e aceitaria entregar seu arsenal químico para ser destruído sob supervisão da ONU.

Numa conferência de imprensa em Londres, dia 9/9/2013, Kerry ainda falava sobre intervenção: “O risco de não agir é maior que o risco de agir”. Mas quando um repórter perguntou-lhe se haveria algo que Assad pudesse fazer para deter o bombardeio, Kerry disse:

Claro! Ele que entregue cada pedacinho [orig. every single bit] de seu arsenal químico à comunidade internacional semana que vem... Mas não vai acontecer, não pode ser feito, obviamente.

Como o New York Times noticiou dia seguinte, o acordo negociado pelos russos que emergiu em seguida já teria sido discutido antes entre Obama e Putin, no verão (julho) de 2012. Mas embora os planos de ataque tivessem sido arquivados, o governo Obama não mudou sua versão pública da justificativa para ir à guerra. “Naquele nível, ninguém nunca erra” – disse o ex funcionário da inteligência com quem conversei, falando dos altos funcionários da Casa Branca. “Ninguém ali jamais declarará: Nós estávamos errados”. (O porta-voz da Inteligência Nacional da Defesa disse: “O regime Assad, e só o regime Assad, pode ter sido responsável pelo ataque químico que aconteceu dia 21/8/2013”).

***
Ainda demorará para que venha à luz a extensão da cooperação entre EUA, Turquia, Arábia Saudita e Qatar, na ajuda que deram e dão à oposição rebelde na Síria. O governo Obama jamais admitiu publicamente o papel que teve na criação do que a CIA chama “um caminho de rato” – um caminho clandestino, de fato, uma ampla rodovia, que leva direto à Síria.

O caminho de rato, autorizado no início de 2012, foi usado para infiltrar armas e munições vindas da Líbia, pelo sul da Turquia e pela fronteira com a Síria, para a oposição síria. Muitos dos que, no fim da trilha, na Síria, receberam as armas eram jihadistas, alguns dos quais afiliados à al-Qaeda. (O porta-voz da Inteligência da Defesa disse: “A ideia de que os EUA forneceram a quem quer que fosse armas vindas da Líbia é falsa”).

Em janeiro, a Comissão de Inteligência do Senado distribuiu documento sobre o assalto, por uma milícia local, em setembro de 2012, ao consulado norte-americano e a uma instalação clandestina da CIA que funcionava na mesma área, em Benghazi, e que resultou na morte do embaixador Christopher Stevens dos EUA e três outros. A crítica que o documento fez ao Departamento de Estado, por não ter dado adequada segurança ao consulado; e à comunidade de inteligência, por não ter alertado os militares sobre a presença da CIA na mesma área, recebeu manchetes de primeira página e reacendeu animosidades em Washington, com os Republicanos acusando Obama e Hillary Clinton de operarem na clandestinidade.

Homenagem póstuma ao Embaixador Christopher Stevens
O documento divulgado veio acompanhado e um anexo, que não foi divulgado, e que informa sobre um acordo secreto, assinado no início de 2012, entre o governo Obama e o governo Erdoğan. É o acordo que criou a linha do rato. Pelos termos desse acordo, o dinheiro veio da Turquia, da Arábia Saudita e do Qatar; a CIA, com apoio do MI6, ficou responsável por infiltrar na Síria armas retiradas do arsenal de Gaddafi. Várias empresas de fachada foram criadas na Líbia, algumas criadas como se fossem entidades australianas. Soldados norte-americanos aposentados, que nem sempre souberam quem realmente os empregava, foram contratados para administrar despacho e embarque. Essa operação era comandada por David Petraeus, diretor da CIA que logo renunciaria, quando se divulgou que mantinha um affair com sua biógrafa. (Porta-voz de Petraeus negou que essa operação tenha algum dia existido).

Essa operação jamais foi informada, quando foi montada, às comissões de Inteligência do Senado e da Câmara de Deputados no Congresso, nem às lideranças do Congresso, como a lei exige, desde os anos 1970s. O envolvimento do MI6 permitiu à CIA burlar a lei, apresentando a missão como operação de ligação. Meu informante explicou que durante muitos anos havia uma exceção reconhecida na lei que permite que a CIA não informe ao Congresso suas atividades de ligação, porque implicaria revelar atividade de terceiros. (Operações clandestinas da CIA [que não sejam operação de ligação] têm de ser informadas num documento escrito, chamado finding, submetido às lideranças no Congresso, e têm de ser aprovadas).

Esse anexo só foi lido pelos redatores do documento e por oito pessoas no Congresso: os líderes Republicano e Democrata na Câmara, no Senado e nas Comissões de Inteligência da Câmara e do Senado. Não se pode dizer que haja aí alguma genuína prestação de informação ou possibilidade de controle: não há instância, no governo dos EUA, na qual esses oito líderes encontrem-se para discutir informação secreta que só eles, em todo o governo, recebem.

O anexo não conta toda a história do que aconteceu em Benghazi antes do ataque nem explica por que o consulado dos EUA foi atacado.

A única missão daquele consulado era dar cobertura ao movimento de armas – disse meu informante, ex funcionário da inteligência, que leu o anexo − não tinha nenhuma real função política.

Depois do ataque ao consulado, Washington pôs fim repentinamente ao trabalho da CIA na transferência de armas da Líbia para a Síria, mas a linha de rato continuou ativa.

Os EUA já não têm qualquer controle sobre o que os turcos estão entregando aos jihadistas – disse meu informante.

Em poucas semanas, cerca de 40 lançadores portáteis de mísseis terra-ar, conhecidos como manpads, estavam em mãos de rebeldes sírios.

Joby Warrick
Dia 28/11/2012, Joby Warrick do Washington Post noticiou que, na véspera, rebeldes na região de Aleppo haviam, quase com certeza, usado um manpads para derrubar um helicóptero de transporte sírio.

O governo Obama − escreveu Warrick − muito se opôs a que se armasse a oposição síria com esses equipamentos, alertando que essas armas facilmente cairiam em mãos de terroristas e poderiam a qualquer momento ser usadas para derrubar aviões comerciais.

Dois funcionários da inteligência do Oriente Médio apontaram o Qatar como fonte das armas, e um ex-analista de inteligência dos EUA especulou que os manpads poderiam ter sido roubados de depósitos de armas do exército sírio assaltados por rebeldes. Não há qualquer indicação de que a posse desse tipo de armamento pelos rebeldes possa ser algum tipo de consequência não desejada de alguma operação clandestina dos EUA que tenha escapado do controle dos EUA.

No final de 2012, toda a inteligência norte-americana entendia que os rebeldes estavam perdendo a guerra.

Erdoğan estava furioso – continua meu informante – Sentia-se deixado para trás, pendurado no galho. Era dinheiro dele. E a saída da CIA foi interpretada como traição.  

Na primavera de 2013, a inteligência dos EUA soube que o governo turco – usando elementos de sua agência nacional de inteligência, MIT, e a Gendarmerie, unidade policial militarizada – estava trabalhando diretamente com a Frente al-Nusra e seus aliados para desenvolver capacidade de armas químicas.

O MIT fazia a ligação política com os rebeldes, e a Gendarmerie cuidava da logística militar, aconselhamento e treinamento em campo – inclusive treinamento para guerra química. Ampliar o papel da Turquia na primavera de 2013 foi visto como movimento chave − disse meu informante.

Erdoğan sabia que, se ele suspendesse o apoio aos jihadistas, a coisa estaria acabada. Os sauditas não têm como apoiar diretamente a guerra na Síria, por causa da logística – as grandes distâncias envolvidas e a dificuldade para mover armas e suprimentos. A esperança de Erdoğan era criar um fato que forçasse os EUA a acionar a linha vermelha. Mas em março e abril, Obama não respondeu.

Recep Erdoğan e Barack Obama
Não houve nenhum sinal público de discordância, quando Erdoğan e Obama encontraram-se, dia 16/5/2013 na Casa Branca. Em conferência de imprensa, depois, Obama disse que os dois concordavam que “Assad tem de sair”. Perguntado sobre se entendia que a Síria tivesse cruzado a linha vermelha, Obama disse que havia evidência de que aquelas armas haviam sido usadas, mas acrescentou: “É importante para nós garantir que obtenhamos informação mais específica sobre o que, exatamente, está acontecendo lá”. A linha vermelha continuava ainda intacta.

Um especialista em política externa dos EUA, que fala regularmente com funcionários em Washington e Ancara contou-me sobre um jantar de trabalho que Obama ofereceu a Erdoğan, durante sua visita em maio. O jantar foi dominado pela insistência, dos turcos, de que a Síria já ultrapassara a linha vermelha, e suas reclamações de que Obama relutava em fazer alguma coisa quanto a isso. Obama estava acompanhado por John Kerry e Tom Donilon, o conselheiro de segurança nacional que pouco depois deixaria o cargo. Erdoğan estava com Ahmet Davutoglu, Ministro de Relações Exteriores da Turquia, e Hakan Fidan, chefe do MIT. Fidan é conhecido por ser fortemente leal a Erdoğan, e tem sido visto como dedicado apoiador da oposição rebelde na Síria.

Esse especialista em política externa dos EUA contou-me que o que ouviu ele ouviu de Donilon. (Adiante a informação foi confirmada por um ex-funcionário do governo dos EUA, que ouviu o mesmo relado de um alto diplomata turco). Segundo esse especialista, Erdoğan quis o encontro para demonstrar a Obama que a linha vermelha fora infringida, e levou Fidan para expor os detalhes de sua posição. Quando Erdoğan tentou introduzir Fidan na conversa e Fidan começou a falar, Obama o interrompeu: “Já sabemos”. Erdoğan tentou outra vez introduzir Fidan, uma segunda vez, e, pela segunda vez, Obama cortou-lhe a palavra: “Nós sabemos”.

Nesse ponto, furioso, Erdoğan disse “Mas sua linha vermelha já foi ultrapassada!”, e Donilon contou ao especialista, meu informante:

(...) aquele filho da puta do Erdoğan meteu o dedo no nariz do presidente, dentro da Casa Branca.

Obama então se virou para Fidan e disse: “Nós sabemos o que você está fazendo com os radicais na Síria”. (Donilon, que passou a integrar o Conselho de Relações Exteriores em julho passado (2013) não responde perguntas sobre esse jantar. O Ministério de Relações Exteriores da Turquia não responde perguntas sobre esse jantar. Um porta-voz do Conselho de Segurança Nacional confirmou que o jantar aconteceu e enviou uma fotografia em que se vê Obama, Kerry, Donilon, Erdoğan, Fidan e Davutoglu à mesa. Disse que “além do que aí vai, não há detalhes das discussões”).

Nem por isso Erdoğan saiu de mãos abanando. Obama continua a permitir que a Turquia explore um furo numa ordem executiva do presidente que proíbe exportar ouro para o Irã, item do regime de sanções dos EUA contra o país. Em março de 2012, respondendo a sanções contra bancos iranianos impostas pela União Europeia, o sistema de pagamento eletrônico SWIFT, que facilita pagamentos trans-fronteiras, expulsou dúzias de instituições financeiras iranianas, o que restringiu severamente a capacidade do país para atuar no comércio internacional. Os EUA vieram logo depois, com a ordem executiva, em julho, mas deixaram aberta uma porta que viria a ser conhecida como “furo dourado”: podem continuar os embarques de ouro para entidades privadas iranianas. A Turquia é a maior compradora de petróleo e gás iranianos, e beneficia-se do “furo dourado”, depositando seus pagamentos pela energia que compra em liras turcas, numa conta iraniana na Turquia; esse dinheiro então é usado para comprar ouro turco que é exportado para empresas no Irã. Sabe-se que entraram US$13 bilhões em ouro, no Irã, por essa via, entre março de 2012 e julho de 2013.

US$ 13 bilhões em ouro entraram no Irã vindos da Turquia
Esse programa rapidamente se converteu em vaca de tetas fartas para políticos corruptos e comerciantes na Turquia, no Irã e nos Emirados Árabes Unidos.

Os intermediários fazem o que sempre fazem – disse o ex funcionário da inteligência, meu informante – Ficam com 15%. A CIA estimou em cerca de 2 bilhões de dólares a parte não oficial desses negócios. Ouro e liras turcas grudam nos dedos.

O escândalo do “gás por ouro” veio a público na Turquia em dezembro, e resultou em denúncias criminais contra duas dúzias de pessoas, empresários conhecidos e familiares de altos funcionários do governo, além de ter gerado renúncia de três ministros, um dos quais exigiu que Erdoğan também renunciasse. O principal executivo de um banco estatal turco envolvido no escândalo insistiu que os mais de US$ 4,5 milhões em dinheiro que a polícia encontrou em sua casa, metidos em caixas de sapato, destinavam-se a doações para instituições de caridade.

No final do ano passado, Jonathan Schanzer e Mark Dubowitz em matéria para a Foreign Policy noticiaram que o governo Obama fechara o “furo dourado” em janeiro de 2013, mas “trabalhou para garantir que a legislação só começasse a viger depois de seis meses”. Os autores especulam que o governo quis usar aquele tempo “extra” como “incentivo para trazer o Irã à mesa das barganhas sobre seu programa nuclear, ou para acalmar seu aliado turco na guerra civil síria. Os seis meses garantiram alguns bilhões a mais, em ouro, ao Irã, e minaram ainda mais o regime de sanções”.

*****

A decisão dos EUA de pôr fim ao apoio da CIA ao embarque de armas para a Síria deixou Erdoğan exposto politicamente e militarmente.

Uma das questões da reunião de maio era o fato de que a Turquia é a única via para fazer chegar armas aos rebeldes na Síria – disse meu informante ex funcionário da inteligência. As armas não podem chegar pela Jordânia porque o terreno ao sul é aberto e há sírios por toda parte. Não podem ser deslocadas pelos vales e colinas do Líbano – porque ninguém nunca sabe o que encontrará do outro lado.” Sem o apoio militar dos EUA aos rebeldes – disse ele – o sonho de Erdoğan de ter na Síria um estado cliente está evaporando. Depois de a Síria vencer a guerra, Erdoğan sabe para onde irão aqueles milhares de rebeldes. E para onde iriam?! Erdogan está a um passo de ter milhares de radicais bem ali, no quintal dele.

Um consultor de inteligência dos EUA contou-me que poucas semanas antes de 21/8/2013, viu um documento altamente secreto preparado para Dempsey e o Secretário de Defesa, Chuck Hagel, que falava da “aguda ansiedade” do governo Erdoğan quanto às perspectivas sombrias para os rebeldes. A análise alertava que a liderança turca expressara “a necessidade de fazer alguma coisa que precipite uma resposta militar dos EUA”.

Chuck Hagel
No final do verão (agosto/setembro 2013), o exército sírio ainda estava em vantagem sobre os rebeldes, disse o ex funcionário da inteligência, e só o poder aéreo norte-americano conseguiria inverter a maré. No outono, prosseguiu ele, analistas de inteligência dos EUA que continuavam a trabalhar sobre os eventos de 21/8/2013,

(...) já sentiam que a Síria não era responsável pelo ataque com sarín. Mas o gorila gigante continuava ali, diante deles: quem teria feito aquilo, em Goutha? Os suspeitos, de imediato, foram os turcos, porque só os turcos tinham todas as peças para fazer acontecer o que aconteceu.

Com mais dados e novas comunicações interceptadas relacionadas aos ataques de 21/8/2013, a comunidade de inteligência viu provas que apoiavam suas suspeitas.

Agora já sabemos que foi operação clandestina planejada por gente de Erdoğan, para forçar Obama a atacar, por “infração à linha vermelha” – disse-me meu informante, ex funcionário da inteligência dos EUA. – Eles tinham de escalar para um ataque a gás, em Damasco ou perto de Damasco, quando os inspetores da ONU (que chegaram a Damasco dia 18/8, para investigar ataques anteriores) – “estivessem lá”. Era indispensável fazer algo espetacular. Nossos mais altos funcionários militares foram informados pela Agência de Inteligência da Defesa e outras fontes de inteligência, de que o sarín chegou até lá através da Turquia – que só poderia ter chegado lá com apoio da Turquia. Os turcos também deram treinamento para produzirem e manusearem o gás sarín.

Muita da informação que dá apoio a essa avaliação veio dos próprios turcos, através de conversas interceptadas logo depois do ataque.

A principal prova veio das muitas manifestações de alegria e felicitações mútuas, claras em numerosas conversas interceptadas. Operações secretas sempre são muito supersecretas durante o planejamento, mas milhares de moscas voam para todos os lados, na hora das comemorações. Não há vulnerabilidade maior que os autores, depois, quando começam a querer parabéns pelo sucesso, disse meu informante.

Para Erdoğan, seus problemas estariam, no dia seguinte, resolvidos: Soltem o gás, Obama declara “pisou na linha vermelha’, EUA atacam a Síria... Ou pelo menos, a ideia era essa. Mas não funcionou como o esperado, concluiu.

A inteligência sobre a Turquia, depois do ataque, não chegou à Casa Branca.

Hakan Fidan
Ninguém quer falar sobre isso – disse o ex oficial de inteligência, meu informante. – Há muita relutância em contradizer o presidente, embora a comunidade de inteligência jamais tenha apoiado unanimemente a versão da culpa dos sírios. Jamais surgiu nem fiapo de prova posterior do envolvimento dos sírios no ataque com sarín que tenha sido apresentada pela Casa Branca, desde que o bombardeio foi cancelado. O governo de Obama nada pode dizer, porque eles mesmos agimos de modo muito irresponsável. Além do mais, já que culpamos Assad, agora não podemos nos desdizer e culpar Erdoğan.

A presteza com que a Turquia manipula os eventos na Síria na direção de seus próprios objetivos foi bem demonstrada no final do mês passado (março/2014), alguns dias antes de eleições locais na Turquia, quando a gravação de uma conversa, supostamente entre Erdoğan e seus associados, foi postada em YouTube. Incluía discussão sobre uma operação a ser atribuída a terceiros, que justificaria uma incursão de militares turcos na Síria. A operação girava em torno do túmulo Suleyman Shah, avô do reverenciado Osman I, fundador do Império Otomano, localizado perto de Aleppo, mas túmulo que foi cedido à Turquia em 1921, quando a Síria estava sob governo francês. Uma das facções islamistas rebeldes ameaçava destruir o túmulo, como local de idolatria, e o governo Erdoğan ameaçava publicamente retaliar, se o túmulo sofresse qualquer ataque. Segundo matéria distribuída pela Reuters, sobre a conversa que vazou, uma voz, que se suspeita seja Fidan, falava de criar uma provocação:

Olhe aqui, meu comandante [Erdoğan], se precisa de justificativa, a justificativa é eu mandar quatro homens até o outro lado. Mando dispararem oito mísseis em terra vazia [perto do túmulo]. Isso não é problema. A justificativa, se cria.

O governo turco reconheceu que houve uma reunião de segurança nacional, sobre ameaças vindas da Síria, mas disse que a gravação fora manipulada. Na sequência, o governo turco bloqueou completamente o acesso público ao canal YouTube.

Exceto essa ação, que foi barrada por Obama, o mais provável que a intromissão da Turquia na Síria prossiga.

Perguntei a colegas meus se há algum modo de vedar o continuado apoio de Erdoğan aos rebeldes, sobretudo agora, que tudo está tomando rumo tão ruim” – disse-me meu informante, ex funcionário da inteligência dos EUA. A resposta deles foi “Estamos ferrados”. Até poderíamos tentar ir a público, se fosse outro. Mas a Turquia é caso especial. A Turquia é aliada na OTAN. Os turcos não confiam no ocidente. Não continuariam conosco se adotássemos qualquer procedimento ativo contra interesses turcos. Se fôssemos a público com o que sabemos sobre o papel de Erdoğan no caso do gás, seria um desastre. Os turcos nos odiariam. Diriam “Não nos digam o que podemos ou não podemos fazer”.
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Notas dos tradutores

[1] A expressão original rat line é corrente no jargão militar e da espionagem-inteligência, em inglês. Adiante, nesse artigo, o autor retoma e explica a expressão.

[2] Pode ser acrônimo [sigla] de System Resource Utilization Package. A verificar.
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[*] Seymour Myron “Cy” Hersh (Chicago, 8/4/1937) é jornalista de investigação norte-americano, ganhador do prêmio Pulitzer e especializado em geopolítica, atividades dos serviços secretos e assuntos militares dos Estados Unidos.
Principais feitos jornalísticos
  • Revelação do massacre de My Lai, no Vietnam, em novembro de 1969, o que lhe valeu o prêmio Pulitzer de 1970.
  • Revelação do projeto Jennifer (tentativa de resgate dos destroços do submarinosoviético K-129 promovida pela CIA, também em 1969, visando recuperar, em proveito dos Estados Unidos, dados e tecnologias soviéticas).
  • Revelação das atividades ilegais da CIA contra organizações pacifistas e outros movimentos políticos de oposição, nos Estados Unidos, em 1974, o que resultou na demissão de James Jesus Angleton, chefe da contraespionagem da CIA.
  • Revelação da existência do Office of Special Plans (OSP) do Departamento de Defesa norte-americano, ao publicar o artigo “Selective Intelligence”, em 2003.