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domingo, 21 de junho de 2015

Pepe Escobar: Partição do “Siriaque”


19/6/2015, [*] Pepe Escobar, RT – Russia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Atual partição do Siriaque
(clique na imagem para aumentar)

Faltando menos de duas semanas para um possível acordo nuclear entre o Irã e o P5+1, a arriscada diplomacia que opera nesse “deserto de espelhos” [orig. wilderness of mirrors] que é a inteligência sobre o Oriente Médio chega a picos sem precedentes de atividade febril. E nada é o que parece ser.
É claro que muito que hoje depende desse acordo nuclear com o Irã tem a ver com o Oleogasodutostão. O Irã, assumindo-se que as sanções entrem rapidamente em colapso, poderá afinal vender gás natural à União Europeia – fazendo, teoricamente, concorrência à Gazprom; mas demorará muito, até que a arruinada infraestrutura iraniana seja recuperada.
E há também o futuro do proposto gasoduto chave Irã-Iraque-Síria, de US$ 10 bilhões – rival de um projeto do Qatar. É fácil identificar os que não querem saber de Iraque estável, capaz de implantar gasodutos por todo o próprio território. O Qatar jacta-se de ter mais gás (que possa ser entregue) – e melhor infraestrutura que o Irã. A viabilidade de construir dutos desde o Qatar, via Arábia Saudita, Jordânia e Líbano já foi estudada. Se Teerã quer resultados rápidos, muito melhor negócio será exportar diretamente para a União Europeia (UE), via a Turquia, do que atravessando Iraque e Síria.
Quanto ao hegemon, as coisas eram muito mais fáceis antes da [operação] Choque e Pavor em 2003. Naquele momento, Washington era dona do mundo; era marchar e ocupar (e destruir) o que quisesse. Disso, afinal, tratava a Dominação de Pleno Espectro. Durou apenas uma fração (histórica) de segundo.
Agora, o autodescrito governo de “Não faça merda coisa estúpida” [orig. Don’t Do Stupid Stuff] de Obama praticamente já quase nem se qualifica, sequer, como espelho quebrado, naquele deserto de espelhos.
Aremos pois o deserto do “Siriaque”
Funcionários da OTAN em Bruxelas parecem crer nos sunitas linha-duríssima treinados pelo Pentágono na província de Anbar para usarem armamento pesado e com esse armamento derrubarem o governo do ex-Primeiro Ministro al-Maliki em Bagdá – que vinha causando problemas a Washington. Mas fato é que o treinamento facilitou a posterior “fusão” desses sunitas com o ISIS/ISIL/Daesh.
Oleogasoduto em operação no deserto

O Pentágono – ou, pode-se dizer, de fato, a OTAN – poderia facilmente esmagar o falso Califato. Não esmagam, porque não querem. Muito melhor é deixar prosperar o caos, a perfeita tática de Dividir para Governar que tão bem serve aos suspeitos de sempre. Já arruinaram a Síria. Já arruinaram o Iraque. Os comboios de suprimentos para o ISIS/ISIL/Daesh partem da fronteira de OTAN e Turquia-Síria, protegidos pela Força Aérea turca; o que equivale a dizer que a OTAN – e a CIA – estão “apoiando” de fato o Califato fake. O Egito está falido. O Irã, quase quebrado. As coisas nunca estiveram tão bem para os suspeitos de sempre.
Agora, vamos até uma alta fonte na inteligência saudita para complicar ainda mais o imbróglio. Segundo aquela fonte, Palmyra foi “dada” ao ISIS/ISIL/Daesh na Síria, assim como cidades chaves na província de Anbar no Iraque:
O Daesh já não é segredo, e os EUA têm tanto interesse nele quanto no [ex-] eixo do mal.
O fato de que o ISIS/ISIL/Daesh, depois de cada vitória em campo, rapidamente incorpora para si grandes quantidades de armamento norte-americano muito avançado, cuja operação exige meses de treinamento intensivo, pode sem dúvida indicar que os capangas do Califa sim, foram adestrados por gente da inteligência ocidental.
Ao mesmo tempo, a fonte na inteligência saudita alimenta a fantasia de um Califato de duas cabeças: uma na Síria, ligada ao governo de Assad em Damasco – o que é perfeita tolice, porque o Califato, no Iraque, combate contra o Irã.
O Presidente Barack Obama dos EUA, entrementes, procrastina e disse que:
(...) o ISIS/ISIL/Daesh pode ser derrotado, mas ao longo dos próximos três anos. Mais uma vez, como sempre, por que não deixar que viceje o caos?
Outra fonte na inteligência saudita está pelo que se poder ver muito desanimada: “Os EUA nunca permitirão mudança de regime” na Síria. Para esse agente, o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) teria a função de “salvar a Síria”, e ele culpa a CIA por “interferir na transferência de armas para o Exército Sírio Livre”. No final, as petromonarquias do CCG “mudaram as rotas das entregas de armas, para evitar as obstruções da CIA”. Quer dizer: atualmente, os islamistas linha-duríssima da Frente al-Nusra, estão, pode-se dizer, armados como melhor se recomenda.
Terroristas da Frente al-Nusra, mantidos por EUA- Arábia Saudita - Qatar, juntaram-se ao ISIS/ISIL/Daesh

A Casa de Saud continua obcecada com derrubar Assad (e “o exílio dele para um enclave que resultará da redivisão da Síria”). Seria golpe mortal contra o Hezbollah, combinado à divisão do Iraque “que dizimaria o sonho de Teerã de restabelecer o império farsi, que Obama ajuda obsessivamente”.
Os sauditas também parecem crer na noção fantasiosa de que os sunitas na província de Anbar teriam descoberto que o ISIS/ISIL/Daesh é uma espécie de cover – alimentado simultaneamente pelo ocidente e pelo Irã – para “provocar disputas sectárias e acelerar a decisão por uma partição do país”. Na verdade, a Casa de Saud não quer qualquer partição do “Siriaque.” Quer dois regimes fantoches e total controle sobre eles. Para dizê-lo em termos suaves, Riad está bastante “frustrada” com as trapalhadas que já são marca registrada de Washington.
Nossa fórmula é caos, cada vez mais caos
Digam o que disserem os “especialistas”, o remapeamento do Oriente Médio pós-Sykes-Picot prossegue sem parar.
A Frente al-Nusra e o grupo Ahrar al-Sham – outro grupamento de jihadismo linha duríssima – continuam a ser integralmente armadas por Turquia, Arábia Saudita e Qatar. É coisa diretamente conectada ao proverbial “papel ativo” do novo capo da Casa de Saud, rei Salman. Assim se vê que Assad em Damasco enfrenta ataque em movimento de pinça: ISIS/ISIL/Daesh no leste, controlando pelo menos metade do país (OK, quase toda essa área é deserto); e Frente al-Nusra, controlando uma “coalizão jihadista de vontades” no norte e no centro. Quanto àquelas armas que o Pentágono forneceu aos incansavelmente elogiados e promovidos “rebeldes moderados”, já foram todas absorvidas pela Frente al-Nusra.
Sabe-se que durante aquela reunião do dia 2/6/2015, perfeita “coalizão de vontades” em Paris, co-patrocinada meio a meio por EUA e França para discutir ISIS/ISIL/Daesh, houve uma discussão “secreta”, de portas fechadas, na qual as petromonarquias do Golfo exploraram características que um acordo para a Síria teria de ter.
A Rússia também está muito ativa nesse front, especialmente com Arábia Saudita e Qatar, tentando conseguir que levassem seus respectivos grupos para a mesa de negociações.
Países do CCG - Conselho de Cooperação do Golfo

O problema é que o CCG não se satisfaz com menos do que exílio para Assad – na Rússia ou no Irã. E Washington, como se poderia adivinhar, só aceita golpe: “mudança de regime” light, a ser perpetrado por oficiais alawitas já familiarizados com a operação da máquina administrativa do estado sírio.
Nem uma nem outra ideia parece ser sequer remotamente exequível, uma vez que Arábia Saudita, Qatar e Turquia têm agendas muito profundamente diferentes e estão obcecadas com assegurar que os respectivos próprios e específicos rebeldes que recebem ordens de cada um desses estados, os rebeldes “deles” – de jihadistas linha super dura a falsos “moderados” – sejam as únicas e indiscutíveis futuras potências por ali.
E isso nos leva de volta para o possível acordo nuclear Irã/P5+1, dia 30/6/2015. A Síria é moeda crucial de barganha discutida em salas fechadas. Mas no que tenha a ver com o Império do Caos – para nem falar das petromonarquias do Golfo – o melhor negócio é a situação atual, mutável, extremamente confusa: um “Siriaque” completamente enfraquecido, guerra em dois fronts, o Irã na defensiva, e o Califato fake impondo a partição em solo, como realidade consumada.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Síria: mídia ataca al-Assad como terroristas atacam civis


16/4/2015, [*] Brandon Turbeville, Global Research [dica de Brasil Helou]
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Bashar al-Assad, alvo prioritário da imprensa-empresa internacional
Enquanto se iam encerrando as celebrações da Páscoa na Síria, começavam, para os moradores de Aleppo, novos ataques de foguetes, claramente orientados para matar civis. Os ataques, que ocorreram em território controlado pelo governo, foram atos dos terroristas da Frente al-Nusra/ISIS financiados pelo Ocidente para derrubar o governo secular de Bashar al-Assad.

Repórteres sírios estavam em campo logo depois dos atentados, para colher imagens das vítimas sendo resgatadas de montes de entulhos e ruínas, e de outras, já em tratamento em hospitais.

Fontes dentro Síria descreveram os mísseis que atingiram o prédio em Aleppo como diferentes e mais avançados do que os antes utilizados pelos terroristas. Testemunhas descreveram o efeito do impacto dos mísseis, que “partiram o prédio pela metade”. Muitos já perceberam que os terroristas que operam em Aleppo receberam armamento muito mais sofisticado e poderoso do que o armamento a que tinham acesso antes.

Na verdade, quando se vê o filme divulgado pela mídia síria, do prédio destruído, a descrição de que o prédio foi “partido ao meio” é bastante precisa. O que se vê no filme, é um prédio de apartamentos cortado realmente de cima abaixo, com os dois lados ainda em pé.

Muitos moradores entrevistados pela mídia síria afirmaram que terroristas de grupos de extermínio os tomam como alvos, porque sabem que a população apoia o governo do presidente Assad ou, no mínimo, porque sabem que não apoiam os jihadistas.

Crianças fogem de escola bombardeada por terroristas do ISIS/al-Nusra que são financiados pelo "ocidente" (12/4/2015)
A área atingida por mísseis desta vez já esteve, antes, sob bombardeio dos terroristas, que resultou em de número estimado de mortos que varia entre 17 e mais de 40, segundo depoimentos de testemunhas.

A evidência de que os terroristas apoiados pelo ocidente já se dedicam deliberadamente a matar civis passou totalmente despercebida na mídia-empresa ocidental, que se concentrou exclusivamente em outro acidente que, esse sim, recebeu atenção integral.

No domingo (12/4/2015), uma escola foi destruída em Aleppo, em ataque que teria matado cinco crianças e quatro adultos, de acordo com “notícias” da Agência Reuters. A escola Saad Al-Ansari era localizada no bairro de Al-Mashhad, área controlada pelos terroristas.

A mídia-empresa ocidental imediatamente “concluiu” e “noticiou” que o governo Assad seria responsável pelo ataque à escola. Evidentemente, a única fonte que a Reuters consultou foi o conhecido esquadrão-da-morte e ONG mundialmente desacreditada [sempre repetidamente citada nas reportagens que se leem e ouvem no Brasil (NTs)] conhecida como “Observatório Sírio de Direitos Humanos” – que não passa de umas poucas pessoas que vivem no Reino Unido e só fazem “pesquisar” na Internet. O diretor e fundador dessa ONG, Rami Abdelrahman, vive de repetir e divulgar os ataques de propaganda construídos por governos da OTAN e contra o governo sírio, desde o início da crise. A própria ONG já admitiu que é financiada por um país europeu cujo nome não citou. Basta saber disso, para saber que as “informações jornalísticas” distribuídas por aquela ONG não são fidedignas.

Crianças feridas em escola de Aleppo após bombardeio do ISIS/al-Nusra financiados pelos EUA/UE (12/4/2015)
Além disso, deve-se salientar que as escolas na Síria permaneceram fechadas durante o feriado de Páscoa e que, no domingo, para começar, não haveria nenhuma criança na escola. Portanto, ainda que o governo Assad tivesse deliberadamente bombardeado o edifício, seria impossível que tivesse matado crianças, que não estavam na escola.

A mídia-empresa ocidental insiste que o ataque atribuído ao Exército Árabe Sírio teria tido o objetivo deliberado de matar crianças, mortes que a mesma mídia-empresa atribui ao presidente sírio, apesar da evidência óbvia de que esse tipo de ação seria extremamente contraproducente para a causa do governo sírio, tanto nacional como internacionalmente.

Apesar de a ONG londrina Observatório dos Direitos Humanos ter distribuído vídeo o qual, segundo a mesma ONG, seria prova do ataque (o vídeo mostra o rescaldo de um incêndio, com um homem segurando a perna decepada de uma criança e equipes de resgate levando um corpo coberto por um lençol), já se sabe que todas as atrocidades cometidas na Síria têm sido atribuídas sempre imediatamente a Assad e ao Exército Árabe Sírio, até que se investigue e descubra-se que configuram mais um dos já incontáveis crimes de guerra cometidos na Síria pelos terroristas de grupos de extermínio. Desde os ataques forjados com armas químicas no infame massacre de Houla, vê-se que há esforço organizado para retratar Assad não apenas como o inimigo, mas como cruel açougueiro de civis. Contudo, cinco anos depois daqueles ataques, ainda não há sequer algum mínimo fragmento de prova confiável que sugira que o Exército Árabe Sírio ou o governo Assad visem intencionalmente a atingir civis.

Com tudo isso em mente, deve-se concluir que a propaganda sobre o suposto bombardeio de uma escola pelo Exército Árabe Sírio não passa de tentativa para arregimentar apoio à ação da OTAN contra o governo sírio, exatamente como já aconteceu quando a imprensa-empresa ocidental tentou explorar outro bombardeio de prédio escolar, em maio de 2014.

Em Aleppo, civis e soldados do exército sírio examinam restos dos bombardeios dos terroristas do ISIS/ al-Nusra financiados pelos EUA-UE (12/4/2015)
Por tudo isso, é preciso ter em mente as muitas histórias inventadas e repetidas ad nauseum sobre supostas atrocidades de Assad, jamais acompanhadas dos correspondentes desmentidos, nem depois que já haja muitas provas de que aquelas atrocidades sempre foram obra dos esquadrões da morte apoiados pelo ocidente.

É preciso observar, sem perder a noção da lógica e do bom-senso, todos esses eventos noticiados pelos meios de comunicação da OTAN. Ainda mais importante, devemos sempre lembrar que os verdadeiros responsáveis pela tragédia da crise que a Síria enfrenta hoje são EUA, Israel, OTAN, e o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG). É urgente responsabilizar os governos desses países e os bolsos ricos do estado profundo que comanda as respectivas estruturas governamental, empresarial e bancária – pela terrível desgraça que atinge hoje o povo sírio.
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[*] Brandon Turbeville reside em Florence, Carolina do Sul. Tem bacharelado na Francis Marion University e é autor de seis livros:

Turbeville já publicou mais de 300 artigos que tratam sobre ampla variedade de assuntos, incluindo saúde, guerras, economia, corrupção governamental e liberdades civis. O programa Truth on The Tracksde Brandon Turbeville pode ser assistido todas as segundas-feiras 21:00 EST no UCYTV. Ele está disponível para entrevistas de rádio e TV.
Recebe e-mails em:  activistpost@gmail.com

segunda-feira, 16 de março de 2015

Pepe Escobar: Irã e EUA entrecruzam-se no “Siriaque”

11/3/2015, [*] Pepe EscobarRussia Today–RT
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

SIRIAQUE
Na 4ª-feira (11/3/2015), na Comissão de Relações Exteriores do Senado dos EUA, aconteceu debate carregado de suspense. Imaginem o Secretário de Estado, John Kerry, o novo supremo do Pentágono, Ashton Carter, e o Comandante do Estado-Maior dos EUA general Martin Dempsey, todos reunidos na mesma sala, para depor.

O cerne do assunto: um Castelo de Cartas [orig. House of Cards], desculpe, o Congresso dos EUA, ruminando o que há de real por trás da proposta do governo Obama de usar “força militar” na Síria, ou impor uma zona aérea de exclusão para proteger os “rebeldes” sírios.

Obama na verdade tem um “enviado especial da presidência” para a Coalizão (orwelliana) Global Contra o ISIL; é o general aposentado da Marinha, John Allen.

Allen jura que os EUA “protegerão” os “rebeldes” sírios treinados e armados por Washington; e é a favor de uma zona aérea de exclusão sobre o norte da Síria.

O enviado só faz papagaiar “A Voz do Dono”, cujo governo autodefinido como “Não façam merda coisa estúpida” está certo de que conseguirá aprovação para o projeto de lei que autoriza a usar força militar na Síria atualmente no Castelo de Cartas [orig. House of Cards], desculpe, no Congresso dos EUA.

Uma zona aérea de exclusão é precisamente o que o Sultão de Constantinopla, digo, o Presidente, Tayyip Erdogan, da Turquia, advoga desde sempre. O plano máster do “sultão” Erdogan é solidificar uma base para a oposição síria (armada) lutar contra não só o ISIS/ISIL/Daesh, mas também todas as Forças Armadas Sírias comandadas pelo presidente Bashar al-Assad.

O Ministro do Exterior da Turquia, Ahmet Davutoğlu já esteve na mídia, repetindo que os “rebeldes” sírios devem fazer exatamente isso. Mas... Ancara, temos um problema!

O Pentágono agora anda repetindo, via o porta-voz, Sub-Almirante John Kirby, que “o componente sírio dessa campanha é componente anti-Estado-Islâmico. O foco é esse, não o regime Assad. Nada mudou (...) na política de que não haverá solução militar dos EUA contra Assad”.

Assim sendo, há uma charada de desinformação, ou é Erdogan que vive numa Terra da Fantasia. De fato, pode bem ser mais um caso de “policial bonzinho” e “policial mauzão”.

E ainda no setor do policial mauzão, nada supera os “nossos félasdaputa” das monarquias do Golfo Pérsico.

Agentes da inteligência do Qatar já se reuniram com ninguém menos que o líder da frente al-Nusra na Síria, Abu Mohamad al-Golani, com aquela proverbial oferta que ele não pode recusar: você desiste do link direto com a al-Qaeda, e nós fazemos chover sobre você um tsunami de dinheiro.

Terroristas do ISIS/ISIL/Daesh na Síria
Não importa que a Frente al-Nusra seja considerada organização terrorista “do–mal”, pelo Departamento de Estado dos EUA. O Qatar, afinal, nunca afastou o pé de sua obsessão com “Assad tem de sair”, diferente do governo Obama. Assim sendo, o fim justifica os meios.

Enquanto isso, o “Império do Caos” mantém viva a manchete ambivalente de uma Coalizão Global que estaria em luta contra o ISIS/ISIL/Daesh – com a agenda de debilitar Assad, agora adiada.

Na Síria, conselheiros militares iranianos estão em coordenação com o Exército Árabe Sírio e experientes combatentes do Hezbollah e milicianos xiitas do Iraque.

Dado que não há mais qualquer “oposição síria moderada” – a última que restava já se bandeou para o lado do falso Califato – a agenda nada oculta do Império do Caos sob a autorização para “uso de força militar” será manter um punhado de “rebeldes” selecionados e armados pela CIA, só para manter a pressão sobre Damasco. Mas agora já é bem óbvio que não é algum “Império do Caos”, mas a aliança do Exército Árabe Sírio, combatentes do Hezbollah e milícias xiitas supervisionadas pelo Irã, que derrotarão o falso Califato.

Aquele “rock star” iraniano

Algo bem semelhante está acontecendo no teatro iraquiano. O Ministro de Defesa do Iraque, Khaled al-Obeidi, jura que Bagdá está bastante “confortável” com a ajuda que está obtendo de Teerã para realmente combater em campo contra ISIS/ISIL/Daesh.

E isso nos leva ao verdadeiro coração do assunto – o complexo balé que Washington e Teerã dançam no “Siriaque”. O poder que está realmente encurralando e submetendo o falso Califato em campo no Iraque não é a “hiperpotência”, mas o Irã – que está oferecendo apoio tático, estratégico e aéreo a Bagdá.

Uma vez que o exército iraquiano treinado pelos EUA está reduzido à mais total confusão, quem está encarregado dos combates mais pesados são as milícias. Há pelo menos 100 mil combatentes de milícias iraquianas totalmente mobilizados por poderosos clérigos xiitas para fazer uma contra–jihad, contra o falso Califato que rotula os xiitas de apóstatas cujo único destino justo seriam os sete palmos de chão.

General Qasem Soleimani
O comandante dessa contra-jihad é ninguém menos que aquele verdadeiro “rock star” no Irã, general Qasem Soleimani, Comandante da Força Quds de elite. Soleimani está em todos os canais de TV e rádios e jornais, tanto no Irã como no Iraque. Sua mais recente aparição foi em Samarra, ativamente encorajando os milicianos e os soldados iraquianos a combater contra os bandidos do Califa Ibrahim.

Por trás de Soleimani, veem-se dois personagens essenciais – Hadi al Ameri e Abu Mahdi Mohandes.

Ameri é ex-Ministro dos Transportes do governo do ex-Primeiro-Ministro, Nouri al-Maliki; agora, está no comando da principal milícia de iraquianos, a Brigada Badr.

Mohandes, ex-membro exilado da oposição a Saddam, é também ex-membro do Parlamento. Agora é uma espécie de mão direita de Soleimani – responsável também por supervisionar a volta dos sunitas a cidades já arrancadas da mãos do ISIL/ISIS/Daesh.

Esses são os comandantes e as forças que estão bem próximos de tomar Tikrit, o ex-privilegiado ninho do clã de Saddam Hussein, a menos de 200 km no norte de Bagdá. Tão logo Tikrit seja tomada, o caminho é curto até Mosul, população de 1,5 milhão, e que já deverá estar liberada no final da primavera.

O principal resumo da história: o “Império do Caos” está fazendo rigorosamente NADA para arrancar do Iraque o ISIS/ISIL/Daesh – além de o general Martin Dempsey pedir que o governo de Bagdá “reconcilie-se” com os sunitas e “explique” suas relações a Teerã.

Que tal explicar que eles é quem realmente estão nos ajudando a nos livrar do câncer que os EUA tanto contribuíram para aumentar e aumentar, e que os EUA, nos últimos tempos, só fazem repetir sandices?

Total pandemônio de pleno espectro

O governo de Obama, autodescrito como “Não faça merda coisa estúpida”, com sua atrabiliária política exterior, está enlouquecendo totalmente os verdadeiros Masters of the Universe que controlam o verdadeiro atual sistema mundo.

Aleppo, norte da Síria quase destruída pelo ISIS/ISIL/Daesh
Não surpreende, porque ninguém aí tem sequer alguma mínima ideia do que realmente deseja alcançar no “Siriaque”.

A Corporação RAND até que tentou esclarecer alguma coisa sobre quais seriam os objetivos.

Na sequência, o Conselho de Relações Exteriores indiretamente enfiou, de vez, os pés pelas mãos. A única saída seria arregimentar uma “coorte de sábios” – Henry Kissinger, Brent Scowcroft, Zbigniew Brzezinski e James Baker – para pôr em ordem a casa imperial. Foi a “ideia” que Andrew Bacevich dinamitou totalmente. [1]

Assim sendo, o que está(ria) realmente acontecendo? Está acontecendo que a nova Nova Estratégia de Segurança Nacional [ing. National Security Strategy] do governo Obama é deliberadamente vaga. Exalta os méritos da Coalizão Global – na verdade, não passa do “Império do Caos” aliado com “nossos” félasdaputa no Golfo Persa – para, mais ou menos, dar combate, só um pouco, ao ISIL/ISIS/Daesh; não acabar com eles, assim, às veras; só incomodar perpetuamente por ali, na “região”, para que continuem perpetuamente a enfraquecer Damasco.

Outras facções em Washington porém prefeririam ver o falso Califato “contido e destruído” primeiro no Iraque e depois na Síria; esses aceitam o apoio clandestino que Washington dá ao trabalho do Irã.

O Supremo do Pentágono, Ashton Carter, pode estar desenvolvendo roteiro particular seu. Só faz falar mal dos “especialistas” da avenida Beltway e agentes no Oriente Médio como o Embaixador dos EUA na Síria e conhecido agente de “Assad tem de sair” Robert Ford, que agora trabalha para (e quem mais seria?!) o AIPAC. Importante relembrar que o AIPAC considera o Irã, a Síria de Assad e o Hezbollah piores que a peste negra, e não acha que o ISIS/ISIL/Daesh seja ameaça a Israel.

A Coalizão Global, enquanto isso, mantém viva a ficção de que está(ria) bombardeando o falso Califato para acabar com ele. Mas quem está realmente vencendo a batalha em campo no “Siriaque” são as forças coordenadas pelo Irã.

É ingenuidade imaginar que, por seguir o curso em que está hoje, o “Império do Caos” necessariamente estaria desacelerando a demonização cruzada de Síria, Irã e Rússia.

“Assad tem de sair” é slogan que nunca saiu completamente do mapa do caminho. Uma détente real com o Irã depende de se haverá ou não acordo nuclear nesse verão – e Obama só faz aumentar a pressão com novas demandas que aparecem todos os dias. A demonização da Rússia só ficará cada vez mais vociferante.

Área residencial de Aleppo bombardeada pelo ISIS/ISIL/Daesh
O que mais intriga é que até generais-estrelas do Pentágono já estão enterrando as “conclusões” nada lógicas do pensamento rumsfeldiano (“Revolution in Military Affairs”  (RMA)]), segundo os quais um Pentágono high-tech sempre derrotaria facilmente qualquer inimigo.

Só que... bem... a RMA foi completamente derrotada em campo pelos afegãos e pelos iraquianos. E nada há que ela possa fazer contra os “irregulares” do ISIL/ISIS/Daesh. Implica que adeus Dominação de Pleno Espectro, se já se sabe que o único desastre que a tal dominação conseguiu completar foi destruir a Líbia com um misto de bombas da OTAN e um bando de jihadistas dementes.

Nota dos tradutores
[1] Imperdível, também 4/3/2015, redecastorphotoTrês diabos-velhos senis & o fascismo de Vestfália, Wayne Madsen, Strategic Culture (traduzido).
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: SputinikTom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Adquira seu novo livro, Empire of Chaos, que acaba de ser publicado pela Nimble Books.