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quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Hagel demitido sugere mais e mais guerra

25/11/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Susan Rice
(por Rob Bates)
Ontem, a Conselheira de Segurança Nacional dos EUA Susan Rice demitiu o Secretário de Defesa, Chuck Hagel. Foi erro terrível, do presidente Obama, ter concordado com a jogada. Há muitos problemas na política externa, que a Casa Branca criou. Nenhum deles foi criado por culpa de Hagel, e praticamente todos eles podem ser rastreados até a própria Susan Rice e seu estilo surreal de administrar:

No início deste ano, a decisão sobre quantos soldados norte-americanos permaneceriam no Afeganistão em 2015 foi objeto de 14 reuniões de membros do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, quatro reuniões de secretários do gabinete e outros “figurões” do CSN, e duas sessões do CSN com o presidente, como informou um ex-alto funcionário da administração.

Consequência dessas reuniões foi que o número de soldados a permanecer no Afeganistão caiu de 10.500 para 9.800: 700 soldados a menos.

Ilustração distribuída pelo Daily Mail (UK)
Depois que Obama e Rice, contra todas as promessas feitas, prorrogaram secretamente o combate dos EUA no Afeganistão, o número de soldados a ficar lá, decidido depois de 20 reuniões do CSN, já está outra vez em discussão, e deve aumentar. Esse processo de decisão mostra o sistema ensandecido de governar de Susan Rice – não de Hagel.

Rice exigiu que Hagel fosse demitido, porque ela enlouqueceu quando Hagel recomendou que os EUA deixassem de lado, para sempre, a (não)política perfeitamente enlouquecida que Rice desenvolvera contra o Estado Islâmico e para a Síria. Homem realista, Hagel sabe que os EUA precisarão do exército sírio, comandado pelo presidente Assad, para devolver o Estado Islâmico ao fundo dos infernos. Contra todos os conselhos dos militares, Rice, que é “intervencionista democrática” insiste em [continuar a esfalfar-se, tentando] derrubar Assad.

Michèle Flournoy
Os neoconservadores, inclusive os redatores das páginas de piadas que Fred Hiatt edita no Washington Post, querem ver Michèle Flournoy no lugar de Hagel. Ela é ativa propagandista das Operações de Contra-insurgência [COIN], sempre em campanha a favor das duas”‘avançadas’, no Iraque e no Afeganistão. As duas avançadas e toda a COIN fracassaram e não chegaram nem perto dos resultados que Flournoy e outros tanto prometeram.

O ato de nomear Flournoy, que só acrescentará mais incompetência e sandice à política externa dos EUA, não favorecerá a paz no mundo: só favorecerá guerra e mais guerra.


[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como  “Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ver/ouvir versão em performance de David Johansen com legendas em português.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Pepe Escobar: OTAN precisa desesperadamente de guerra

8/8/2014, [8] Pepe EscobarAsia Times Online – Yhe Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Relaxe! Essas bombas estão aqui para nos socorrer... Elas são da OTAN
A Organização do Tratado do Atlântico Norte está desesperada; comicha de desejo de guerra no campo de combate ucraniano, quer-que-quer custe o que custar.

Comecemos pelo Supremo do Pentágono, Chuck Hagel, secretário de Defesa dos EUA, que entrou em surto poético ao falar da “ameaça” do Urso Russo:

Quando se veem aquelas tropas chegando, a sofisticação daquelas tropas, o treino daquelas tropas, o equipamento militar pesado acumulado ali, naquela fronteira... ah, claro que é real, é ameaça, é possibilidade – com certeza. É.

Oana Lungescu
Oana Lungescu, porta-voz da OTAN, não conseguiu decidir se era “ameaça” ou “realidade”, “com certeza” ou sem, mas ela viu tudo:

Não vamos nos pôr a adivinhar o que anda pela cabeça dos russos, mas se vê, sim, o que a Rússia está fazendo em campo – e o que se vê é muito preocupante. A Rússia postou cerca de 20 mil soldados prontos para combate na fronteira leste da Ucrânia.

Em OTANês, língua de OTAN, marca registrada de absoluta precisão e rigor, Lungescu então acrescentou que a Rússia “bem provavelmente” estaria enviando tropas para o leste da Ucrânia disfarçadas como “missão humanitária ou de paz”. E estamos conversados.

Hagel e Lungescu, sua assecla romena telecontrolada, obviamente não leram o boletim de informação detalhada distribuído pelo porta-voz das Forças Armadas Russas: a “ameaça” e a “acumulação de exércitos” acabarão nessa 6ª-feira (8/8/2014), último dia de exercícios militares que os russos anunciaram com antecedência.

Anders “Fog(h) da Guerra”  Rasmussen
Fog(h) da Guerra está muito nervoso, preocupado, desagradavelmente excitado

Imediatamente na sequência, o secretário-geral da OTAN Anders “Fog(h) da Guerra” Rasmussen chegava a Kiev praticamente espumando guerra pela boca, pronto para lançar os fundamentos da reunião de cúpula da OTAN que acontecerá em Gales, dia 4/9/2014, quando a Ucrânia, já entronizada como principal aliado não membro da OTAN, deve ser lançada avante, à velocidade da luz, já armada (até os dentes) pela OTAN. E, além do mais, a OTAN está pronta para ser seriamente “ampliada” na Polônia, Romênia, nos Bálticos e até na Turquia.

Mas foi quando todas as variantes derivadas do Khaganato dos Nulands (“Nuland” como em “Victoria Nuland”, secretária-assistente de Estado para Assuntos Europeus e Eurasianos dos EUA) saltaram fora dos parafusos, completamente fora de controle. Pode-se imaginar o vaidoso, presunçoso Fog(h) da Guerra tentando em vão exibir alguma compostura.

Exigiu considerável esforço, quando teve de assistir ao show que lhe apresentou o presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko – oligarca de carteirinha, praticante obstinado das práticas menos decentes – que furiosamente tentava expulsar da Praça Maidan os manifestantes originais, que estão de volta ao centro de Kiev; é o mesmo povo que no final do ano passado começou a protestar e que depois foi sequestrado pelos patrões dos neoconservadores dos EUA e nazistas do Setor Direita do Banderastão (tipo príncipe Bandar bin Sultan).



Praça Maidan em 7/8/2014
Os manifestantes originais da Praça Maidan em Kiev – uma espécie de “Occupy Kiev” – opunham-se à monstruosa corrupção e queriam o fim da dança sem fim dos oligarcas ucranianos. Só conseguiram ainda mais corrupção; a mesma dança dos oligarcas; um estado falido, em guerra civil e que já assumiu que promove limpeza étnica de pelo menos 8 milhões dos próprios cidadãos; e, além do mais, estado falido-falhado a caminho de ser ainda mais empobrecido pelo “ajuste estrutural” promovido pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Não surpreende que não arredem pé da Praça Maidan.

Petro Poroshenko
Quer dizer: Maidan – O Retorno – já começou, antes até da chegada do General Inverno. Poroshenko-rei-do-chocolate tem de conseguir esvaziar aquela praça o mais depressa possível, porque a volta dos protestos de rua em Kiev absolutamente não combina com a narrativa histérica da imprensa-empresa ocidental segundo a qual “é tudo culpa de Putin”. Na verdade, a corrupção é hoje ainda pior que antes – porque incorporou muitos sobretons neonazistas.

Com Fog(h) da Guerra já espumando porque “a Rússia não invade”, o pomposamente denominado “Secretário” de Segurança Nacional e do Conselho de Defesa da Ucrânia, o neonazista Andriy Parubiy – que é candidato nato à acusação de ter ordenado o tiro que derrubou mês passado um avião civil malaio [MH17] – resolveu renunciar; é rato confirmado que abandona navio que afunda, movimento provocado provavelmente por o rato não ter conseguido estender sua limpeza étnica para toda o leste da Ucrânia e estar tendo de engolir um cessar-fogo. Poroshenko não é idiota; depois de toneladas de números péssimos nas pesquisas de aprovação popular, já viu que o “apoio amplo” com que contou está evaporando minuto a minuto.

Completando toda essa agitação, um míssil cruzador entra no Mar Negro novamente para “promover a paz”. O Kremlin e a inteligência russa facilmente veem aí o que há para ver.

Vitaly Churkin
E há ainda a horrenda crise de refugiados que cresce no leste da Ucrânia. 3ª-feira passada (5/5/2014), Moscou, em reunião do Conselho de Segurança da ONU, exigiu que se tomem medidas humanitárias de emergência – sem resultado, como se pode prever. Washington bloqueou a ação, porque Kiev a bloqueou (“Não há crise humanitária alguma”). O embaixador russo Vitaly Churkin descreveu a situação em Donetsk e Lugansk como “desastrosa”; e disse que Kiev está intensificando as operações militares.

Segundo a própria ONU, pelo menos 285 mil pessoas já se tornaram refugiadas no leste da Ucrânia. Kiev insiste que o número de refugiados internos é de “apenas” 117 mil; a ONU duvida. Moscou continua a afirmar que assustadores 730 mil ucranianos fugiram para a Rússia; o Alto Comissariado da ONU para Refugiados confirma. Alguns desses refugiados, em fuga de Semenivka, em Sloviansk, informaram detalhes sobre o N-17 que Kiev está usando: é versão ainda mais mortífera do fósforo branco.

Quando o embaixador Churkin mencionou Donetsk e Lugansk, referiu-se aos bandidos de Kiev que se preparam para atacar massivamente. Já estão bombardeando os arredores de Petrovski em Donetsk. Quase metade dos moradores de Lugansk já fugiram, a maioria para a Rússia. Os que ficaram são quase todos aposentados idosos e famílias com filhos pequenos.

Falar de “crise humanitária” é muito pouco: não há água, nem eletricidade, nem comunicação, nem combustível, nem remédios em Lugansk. A artilharia pesada de Kiev destruiu quatro hospitais e três clínicas. Para resumir: Lugansk é a Gaza ucraniana.

Numa simetria sinistra, assim como dá passe livre para Israel destruir Gaza, o governo Obama também está dando passe livre para os açougueiros de Luhansk. É há até uma variante. Obama estava sem saber se bombardeava os bandidos do Estado Islâmico do Califa no Iraque, ou se, quem sabe, jogava pacotes de ajuda humanitária. Optou por (talvez) bombardeio “limitado” com correspondentes, podem-se prever, doses também limitadas de água e comida.

Assim sendo, em palavras bem claras: para o governo dos EUA “pode ser que haja uma catástrofe humanitária” no Monte Sinjar no Iraque, envolvendo 40 mil pessoas. Como também pelo menos 730 mil leste-ucranianos, aqueles iraquianos têm pleno direito de serem bombardeados, detonados, atacados por aviões armados, e de serem convertidos em mortos ou em refugiados.

A nova Somália

A linha vermelha de Moscou é bem explícita: a OTAN não põe os pés na Ucrânia. A Criméia é parte da Rússia. Nenhum soldado dos EUA põe os pés perto das fronteiras russas. Integral proteção à identidade cultural russa no sul e leste da Ucrânia.

De qualquer modo a crise humanitária – real (mas Washington nega) – é completamente outro assunto muito grave. As forças de Kiev não estão equipadas para sustentar prolongado confronto de guerra urbana. Mas, assumindo que aquelas forças – misto de militares regulares; esquadrões-da-morte/terrorismo financiados pelos oligarcas; guarda nacional “voluntária” ucraniana infestada de neonazistas; mercenários de várias nacionalidades treinados pelos EUA – decidam atacar em carnificina-de-massa para tomar Donetsk e Luhansk, pode-se argumentar que Moscou terá de considerar o que os “especialistas” da OTAN chamam de “limitada intervenção por solo” na Ucrânia.

Vladimir Putin
Os “especialistas” da OTAN são suficientemente tolos a ponto de crer que, se Putin pode disfarçar a intervenção sob a máscara de uma missão humanitária ou para preservar a paz, ele conseguiria também convencer, da mesma falcatrua, também a opinião pública russa. A verdade é que Putin ainda não “invadiu” porque a opinião pública russa não quer a invasão. A popularidade de Putin já alcançou espantosíssimos 87%. Só uma carnificina em massa (improvável) perpetrada em Kiev poderia alterar esses números e separar a opinião pública e o governo russos. Considerando que esse afastamento é precisamente o que a OTAN mais deseja, Fog(h) da Guerra estará trabalhando horas-extras para forçar seus vassalos a produzir a tal carnificina em massa.

De qualquer modo, considerando-se desenvolvimentos recentes, o que os fatos em campo apontam é que a atual dança dos oligarcas em Kiev já começou a desandar – como se vê nesse evento, em que mulheres queimam os documentos de alistamento militar  obrigatório bem diante dos militares. Moscou nem terá de se incomodar com avaliar a possibilidade de “invadir”. Enquanto isso, o genocídio em câmera lenta de Poroshenko no leste da Ucrânia e os ataques contra Maidan “O Retorno” em Kiev continuarão a usufruir direitos de passe livre. Aí está, diante de todos, a Ucrânia como nova Somália; adequada Criatura gerada pelo Frankenstein Império do Caos excepcionalista.


[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire, Counterpunch e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today,The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Red Zone Blues: A Snapshot of Baghdad During the Surge,  Nimble Books, 2007.    
 Obama Does Globalistan,  Nimble Books, 2009.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

O que significa(ria) o excepcionalismo sem meios excepcionais?

31/5/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Barack Obama
O governo de Obama quer conseguir seu “pivô para a Ásia” – é o plano dele para reagir ao crescimento da China – sem usar força militar. Não vai funcionar. Países locais, que os EUA querem usar como “procuradores”, temem que, sem ameaça crível de que os EUA darão cobertura militar aos respectivos rabos deles, com as bombas atômicas norte-americanas, não haverá limite ao que a China pode fazer e fará para proteger o próprio quarteirão. Estão cobertos de razão.

Chuck Hagel
Por isso os EUA viram-se metidos em confusão braba na recente conferência de segurança em Cingapura:

Mas, uma vez que o secretário de Defesa Chuck Hagel visitou aquela cidade-estado para uma conferência de segurança com todas as partes interessada na 6ª-feira, a tão falada política para a Ásia pareceu estar virando, isso sim, briga de rua, com os EUA tendo, ao mesmo tempo, de ter lado e  de fazer-se de juiz.

Mas por que, afinal, o que acontece no Pacífico, para lá do Havaí, seria assunto dos EUA? O que leva os EUA a intervir é nada além do tal “excepcionalismo” – a fissura por dominação global e o desejo por governar o mundo.

O recente discurso de Obama na Academia de West Point foi saudado por Pat Lang como um chega-p’rá-lá contra neoconservadores e neoliberais, e um passo de volta à racionalidade na política exterior:

Pat Lang
A decisão sábia embora tardia do presidente, de não atacar forças armadas sírias; sua firme procura por solução negociada com o Irã, contra a pressão dos sionistas; sua relutância em meter o país nas profundas da crise ucraniana; e sua insistência em perseverar na retirada do Afeganistão, tudo isso aponta para uma volta ao tipo de política externa racionalista que os EUA seguiram depois da 2ª Guerra Mundial, até que a histeria da vida pós-11/9 varreu para longe qualquer consideração mais atenta de riscos e benefícios que comandava a política dos EUA.

O discurso político do presidente Obama em West Point anuncia o fim, em Washington, da política dominada pelo jacobinismo imperialista.

É passo nessa direção, mas não vai suficientemente longe. Esperto, em termos retóricos, é possível até que o discurso tenha dado um passo para afastar-se do uso financeiramente ruinoso de forças militares em larga escala, mas, apesar de restringir o uso de força militar, lá estava, no discurso, a velha conversa estúpida sobre o “excepcionalismo” e o desejo de “comandar”:

Acredito no excepcionalismo dos EUA com cada fibra do meu ser. Mas o que nos torna excepcionais não é nossa capacidade para burlar as normas internacionais e o estado de direito; é nossa disposição para afirmá-los mediante nossas ações. [Aplausos]

(E por quê, diabos, alguém aplaudiria tais e tamanhamente óbvias mentiras?) Há uns cinco anos, Obama tinha visão bem diferente desses “temas”:

Acredito no excepcionalismo dos EUA, como desconfio que os britânicos creiam no excepcionalismo britânico, e os gregos creiam no excepcionalismo grego.

Proclamar algum próprio extraordinário excepcionalismo, como Obama vive a fazer, sem o ânimo para usar meios excepcionais para resolver os problemas, não vai funcionar, por três razões. É pouco provável que corte o impulso para novas guerras; o mais provável é que gere mais danos, sem gerar qualquer efeito positivo; e levará os aliados a darem as costas ao autoproclamado excepcional.  Muito melhor seria não falar nem pensar, e esquecer totalmente as duas coisas: tanto o excepcionalismo quanto o uso de força militar.

Não é bom sinal que Obama esteja outra vez a falar do excepcionalismo dos EUA como algo especialíssimo. Como observa Billmon:

Se alguém crê que os EUA sejam “excepcionais”, seria natural crer que teriam o direito e o dever de comandar.

Se alguém assume que os EUA teriam o direito e o dever de comandar o mundo, pode-se logicamente concluir que se opor à liderança dos EUA seria moralmente errado...

... e que os “valores” norte-americanos (definidos não importa como nem onde) seriam valores universais que o mundo pode(ria) e deve(ria) abraçar.

Daí em diante, nem é preciso grande salto para assumir que os valores norte-americanos podem e devem ser exportados – e, se necessário, impostos à bala.

E isso, diz Billmon, criará resistência natural e, portanto, novos inimigos e novas guerras. Se os EUA afastam-se do uso da força, é preciso que também se afastem dessa declaração irracional de um próprio “excepcionalismo”. O discurso de Obama é pura contradição, porque não faz nada disso.

Como Chinahand destaca, há outro problema com esse excepcionalismo contraditório de Obama. Até quando rejeita o uso direto de força militar, nem por isso passa a oferecer discurso de pacificação e continua a provocar danos tremendos, sem garantir qualquer resultado razoável:

Peter Lee
(Chinahand)
Infelizmente, o lado B [orig. the flip side] da doutrina Obama [usar força militar só como último recurso] é que os EUA permanecem comprometidos com uma postura de promover o contraterrorismo e com uma “liderança” norte-americana, isto é,. declaram a capacidade para modelar eventos do outro lado do mundo, mesmo sem usar poder militar.

Mesmo quando evitam usar o poder militar, há muitos meios pelos quais os EUA podem paralisar um adversário que lhes interesse paralisar. Há sanções econômicas; há guerra financeira, econômica e comercial que se faz pelo sistema da banqueiragem internacional; há a subversão, mediante a Internet, apoio a partidos dissidentes e grupos insurrecionais; e há guerras por procuração. Há o Comando Conjunto das Operações Especiais [orig. Joint Special Operations Command, JSOC]. E, claro, há os drones.

...

Em outras palavras, os EUA reservam-se o direito de cruelmente e contraproducentemente F*DER qualquer país, servindo-se para isso de qualquer meio exceto o envolvimento físico direto das forças armadas norte-americanas.

E isso significa muitas, muitas Sírias a mais.

...

Pergunta: De um ponto de vista ético, será política melhor, mais humana, destripar lentamente um país, usando procuradores que simplesmente mandam seus soldados para brutalizar os locais com rapidez e eficiência e o façam com boa chance de contar com supervisão internacional?

Se se considera a Síria, acho que a resposta é não. Nada disso é ou jamais será eticamente recomendável.

Em termos práticos, temo que a Doutrina Obama não decolará como questão de geopolítica realista.

Ao retirar da mesa a possibilidade de ação militar dos EUA no caso de objetivos de baixa prioridade, afasta-se também todo o caráter de contenção da máquina militar dos EUA.

É verdade, afasta-se sim. E é bom, mesmo, que se afaste. Não há qualquer necessidade de os EUA conterem a China nos negócios chineses locais, a menos que algum doido “invoque” o tal ridículo papel “excepcional” dos EUA. Os EUA não só devem não usar em larga em escala o poder militar: devem também parar de declarar que teriam algum papel especial no mundo.

Há um terceiro problema com essa conversa de ser “excepcional”, se o autoproclamado excepcional deixa de usar força militar excepcional. Outros países em coalizão, ainda que inclinados a trabalhar em harmonia com os EUA, não gostam de ser mandados para lá e para cá, como se fossem criancinhas. Se os EUA não querem usar sua força militar excepcional, que interesse esperam que algum dos aliados dos EUA venha a ter por deixar-se liderar pelos EUA?!

É bem pouco provável que o desejo de mandar em tudo e todos, sem o desejo de usar os meios para mandar, venha a gerar mais desejo de obedecer e trabalhar como subordinados, entre os aliados de qualquer coalizão com os EUA.

Se os EUA não querem expor-se aos riscos físicos de mandar e fazer-se obedecer, como reagirão os japoneses, os sul-coreanos e os vietnamitas, agora que já apareceram chamados de “crianças”, DUAS VEZES, em matéria de primeira página do New York Times?

Funcionários do governo Obama alertaram privadamente seus contrapartes japoneses a pensar muito cuidadosamente antes de agir, e a evitar qualquer ação que encurrale a China.

“Como crianças correndo no pátio da escola, estão correndo com tesouras na mão” – disse Vikram J. Singh, que até fevereiro foi vice-secretário assistente da Defesa para o Sul e Sudeste Asiático e, hoje, é vice-presidente para segurança nacional do Center for American Progress.

...

Andrew L. Oros
Hagel e o maior contingente militar à mão [...] passaram horas falando de delegação em delegação, para assegurar que em nenhuma circunstância aqueles contingentes seriam enviados a agir.

“Bons professores sabem que o melhor é conseguir que as crianças comportem-se bem desde o começo, em vez de ter de viver a apartar brigas” – disse Andrew L. Oros, professor associado de ciência política do Washington College em Chestertown, Md., e especialista em Leste da Ásia.

As “crianças” já entenderam que os EUA não têm interesse algum em provocar a China. Todas aceitaram ser lideradas pelos EUA, desde que a “liderança” viesse acompanhada de suprema força. Sem a suprema força, esses países não mais aceitarão fazer o papel de “as crianças” nos jogos de poder dos EUA. Pequenos e desunidos demais para, sozinhos, conterem a China, todos terão naturalmente de acomodar-se ao crescimento da China e ao nascimento do século eurasiano.

Seria bom para o mundo se os EUA finalmente encontrassem meio para voltar a alguma política externa realista, que se abstivesse de ameaças militaristas e de usar a força. Mas enquanto o excepcionalismo é cultuado como doutrina, as contradições inerentes entre a declaração de excepcionalismo e a nenhuma disposição para usar a força (financeiramente ruinosa), a alardeada ‘excepcionalidade’ continuará a rasgar ao meio a política de que Obama fala. Para dar passo efetivo de volta ao realismo, é preciso esquecer as duas coisas: a força militar e a fantasia de excepcionalidade.





[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça  Hauspostille  (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera  A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ouvir versão em performance de Tim van Broekhuizen.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

China calibra seu distanciamento da Rússia

16/4/2014, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O MRE da Rússia, Sergey Lavrov e o Presidente da China, Xi Jinping  (Pequim, 15/4/2014)
Do cuidado com as palavras nas declarações e notícias; do tom contido da cobertura pelos jornais; e até da linguagem corporal dos dois principais personagens, na “visita de trabalho” que o Ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, fez a Pequim, ontem, se depreende que a China mostrou relutância e não quer ver-se arrastada para as tensões atuais com o Ocidente, sobre a Ucrânia. Detalhe interessante: deixando Pequim, Lavrov viajou para o Vietnã.

Em declaração lacônica, comentada pela televisão chinesa, o Presidente Xi Jinping destacou a importância de trocas de alto nível entre os dois países, com reforço na “colaboração” em assuntos internacionais e regionais. Mas Xi apenas “trocou algumas ideias” com Lavrov “sobre a crise na Ucrânia”.

Wang Yi
A agência de notícias chinesa Xinhua está dando integral cobertura à narrativa oficial ucraniana, segundo a qual haveria “mão dos russos” nas agitações no leste e no sul da Ucrânia. Durante a visita de Lavrov, o Ministro chinês de Relações Exteriores, Wang Yi, não arredou pé da posição de Pequim, de atitude justa e sem vieses em relação à crise ucraniana, e manifestou desaprovação a qualquer movimento que possa desestabilizar a situação na Ucrânia.

Wang repetiu a sugestão chinesa, de que que crie um “mecanismo multilateral de diálogo”. A versão da rede Xinhua apenas menciona rapidamente, de passagem, a Ucrânia. O contraste entre o que dizem a imprensa russa (na divulgação da viagem de Lavrov) e a imprensa chinesa (durante e depois da visita) não poderia ser maior. 

Chama a atenção que qualquer movimento que os russos façam agora, para cancelar a reunião “dos 4” em Genebra, na 5ª-feira (17/4/2014), motivados pelo ataque militar contra o leste da Ucrânia, já estará em oposição à posição declarada dos chineses. Antes de viajar, Lavrov havia dito que ataque militar, como o que aconteceu, levaria Moscou a afastar-se da reunião em Genebra.

Gennady Gatilov
Parece que Moscou começa a descartar a reunião de Genebra e começa a preferir iniciar mais uma sessão no Conselho de Segurança da ONU. O Vice-Primeiro-Ministro de Relações Exteriores da Rússia, Gennady Gatilov sugeriu que Moscou está considerando as opções. Pela narrativa russa, a reunião de Genebra seria inútil, porque o que se vê desenrolar-se na Ucrânia é, nada mais nada menos, que ampla operação da CIA, item da agenda para empurrar a OTAN para bem próximo das fronteiras leste da Rússia.

A manifesta reserva de Pequim durante a visita de Lavrov pode ser atribuída a três fatores principais.

Primeiro, a situação da Ucrânia está evoluindo de tal modo que Pequim não pode excluir a possibilidade de, em algum momento, se a situação de segurança no leste e sul da Ucrânia dominados pela Rússia se agravar, ou se houver banho de sangue, a Rússia ser obrigada a intervir. Se isso acontecer, Pequim será fortemente pressionada a assumir publicamente a defesa da soberania e da integridade territorial da Ucrânia.

Chuck Hagel
Segundo, Washington já começou a explorar o mal-estar latente na região do Pacífico Asiático e o “perigo” de a China fazer-se “de Ucrânia” contra os países vizinhos. Faltou um milímetro para que o Secretário de Defesa dos EUA, Chuck Hagel pronunciasse a palavra “China”.

Mais uma vez, o governo Obama usou a ocasião do 35º aniversário da Lei de Relações com Taiwan para apresentar os EUA, por implicação, como amigo, guia e guardião confiável dos países regionais que venham a ter disputas com a China.

Dito de outro modo: os EUA estão explorando o espectro de uma China potencialmente beligerante, para reforçar seu próprio “pivô” na direção do Pacífico Asiático.

Terceiro, sem dúvida alguma a China tem razões para fixar-se nessa “atitude justa e sem vieses” na questão da Ucrânia: assim fazendo, deixa espaço para que EUA e Rússia interpretem a posição chinesa, cada um, como se favorecesse um dos lados e as respectivas narrativas sobre a Ucrânia.

De fato, a China tem relutado consistentemente em permitir que a Rússia apareça como fator de peso na configuração do “novo tipo de relacionamento” entre China e EUA. Mas há aí também uma contradição fundamental: por um lado, a Rússia aparece como potência “demandada” na ordem mundial; mas, por outro, a China é acionista daquela mesma ordem “demandante” e só tem a perder num mundo em desordem e caos.

Pode-se dizer que há aí uma curiosa inversão de papéis em relação à Guerra Fria, quando Moscou rejeitou a insistência de Mao Tse-tung, que entendia que a União Soviética devia arriscar uma guerra nuclear contra os EUA para fazer avançar a causa comunista. Conta-se que Nikita Khrushchev teria dito:

Há gente [Mao] que diz que se pode construir uma nova sociedade sobre os cadáveres e a ruína do mundo. Será que sabem que, se se dispararem as ogivas nucleares, o mundo acabará de tal modo arruinado, que os sobreviventes invejarão os mortos?
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Comentário de uma moradora da Vila Vudu (Chica Cerva): De fato, a grande “inversão de papéis” não é essa, que o embaixador Bhadrakumar comenta, mas outra.
Hoje, são os EUA que tentam empurrar Rússia e China para guerra (nuclear, claro, mas pode ser qualquer guerra) entre ambas, para fazer avançar a causa do capitalismo norte-americano, que é capitalismo belicista de predação e é causa reles.
Retóricas de Guerra Fria & Khrushchevs à parte, nunca saberemos se Mao não estava, então, coberto de razão!
Primeiro, porque, bem feitas as contas, naquele tempo as “ogivas nucleares” eram bombinhas-de-traque, comparadas às que há hoje.
Segundo, porque o capitalismo à chinesa NÃO É capitalismo belicista de predação e NÃO É causa reles.



[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.