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domingo, 16 de março de 2014

Conflicts Fórum: Comentário semanal de 28/2-7/3/2014

14/3/2014, [*] Conflicts Forum’s
Traduzido pelo pessoal da  Vila Vudu

Países do CCG - Conselho Consultivo do Golfo (Pérsico), em amarelo
O estresse e o torvelinho que se veem no centro do mundo sunita estão arrastando outros membros do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) para o mesmo vórtice. O grupamento político, o CCG, liderado pela Arábia Saudita, está sendo pressionado, e literalmente desconjuntado por pressões exercidas sobre ele pela repentina reconfiguração da política saudita – a saber, um decreto real que criminaliza os sauditas que estejam lutando fora do país e que classifica como “terroristas” vários grupos jihadistas (mas, importante, não todos os grupos) e, em separado, também inclui a Fraternidade Muçulmana. A Arábia Saudita (sentindo o despertar da Fraternidade Muçulmana depois do uso, pelo Egito, de força repressiva e munição viva) está pressionando todos os Estados do Golfo, e outros estados onde haja membros ativos da Fraternidade Muçulmana, a “decretar” que o grupo é organização terrorista. Como observou um comentarista sobre o Golfo, a Arábia Saudita parece determinada a “varrer” a FM na região, de uma vez por todas.

A Arábia Saudita não está decidida a “varrer” só a Fraternidade Muçulmana, mas, também, a crítica indireta das políticas sauditas, particularmente as críticas que o Marechal de Campo Sisi (Presidente do Egito após o golpe militar que derrubou o Presidente Mursi) vem distribuindo pelas ondas de televisão qataris. Qaradawi deve ser declarado persona non grata, e a rede al-Jazeera (da qual há muito tempo se diz que seria simpática à Fraternidade Muçulmana) contida, ou, preferentemente, fechada, insistem os sauditas.

A pressão sobre o Qatar é intensa. O Huffington Post noticia que os sauditas também exigem o fechamento de dois think-tanks norte-americanos baseados em Doha. Os embaixadores sauditas, do Kuwait e dos Emirados Árabes Unidos, já foram retirados de Doha – e o governo egípcio, agora anunciado como futuro membro do GCC, alinhou-se ombro a ombro, com a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos contra o Qatar e a Fraternidade Muçulmana.

Subjacentes contudo ao torvelinho no CCG, há duas questões separadas, nas quais a Arábia Saudita mudou de posição dramaticamente e repentinamente (de modo que vai bem além da específica rixa com o Qatar), que afetam de modos muito diferentes os interesses dos estados do Golfo, e que os põem em rota de colisão com a Arábia Saudita.

Manifestação no Cairo dos apoiadores da Fraternidade Muçulmana em 14/2/2014
Quanto à Fraternidade Muçulmana, a Arábia Saudita, nos anos 60s e 70s usou os intelectuais da Fraternidade (exilados do Egito) para dar credibilidade e respeitabilidade intelectual ao wahhabismo. Foi conseguido, através de uma virada historicista dos ancestrais crentes (os salafistas) na direção de uma concepção ideológica que dava um contexto ao wahhabismo. A FM também foi usada como muito efetiva ferramenta de propaganda pró-sauditas, contra o nasserismo e o baathismo.

Mas, nos anos 1990s, a Arábia Saudita virou-se fortemente contra os Irmãos, convencida de que a Fraternidade “aproveitara-se” da Arábia Saudita (introduzindo-se na artéria dos petrodólares sauditas), e não considerando só interesses sauditas: também com vistas a objetivos específicos da própria Fraternidade Muçulmana. Ainda pior, a FM contestou a narrativa “salafista”, ao sugerir que a soberania pertence ao povo, não ao monarca saudita. Essa “contestação” desperta temores especialmente fortes entre os nobres sauditas, não só por causa de movimentos da FM para minar diretamente o regime saudita, mas porque, sobretudo, aí está o mais poderoso desafio possível contra a legitimidade da própria família saudita reinante. Foi “traição” pela qual a Arábia Saudita jamais perdoou a Fraternidade Muçulmana.

A experiência do Qatar (e do Kuwait) com a Fraternidade Muçulmana foi muito diferente: a FM qatari se autodissolveu em 1999, com o que foi removida qualquer ameaça interna (ou assim considerada) contra o emirado. O Kuwait, por outro lado, conseguiu conter o movimento islamista mediante seu próprio sistema constitucional de governo, que permite a manifestação de diferentes posições políticas e a realização de protestos. Resultado disso – e diferente da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos – esses estados não se preocuparam com a FM instalar-se no Cairo nem com a crescente influência de islamistas na região. Assim também, o arranjo muito especial que se vê em Omã, onde os grupos e seitas não se organizam segundo categorias muito polarizadas, mitiga o impacto da rivalidade sunitas/xiitas, o que leva o país a preocupar-se muito menos com a Fraternidade Muçulmana que a Arábia Saudita ou os Emirados Árabes Unidos (EAU).

Mas os EAU, por sua vez, veem suas ameaças internas como derivadas diretamente da FM: a partir das células que implantaram no Golfo há décadas, quando a FM gozava da alta benevolência dos sauditas, e quando os intelectuais da FM estavam firmando pé em instituições educacionais e de imprensa em todo o Golfo.

Da esq. —› dir.: Secretário Geral Assistente do CCG, Abdullah bin Juma al–Shibli; Ministro do Petróleo dos EAU, Suhail Mohamed Al Mazrouei; Ministro de Energia e Indústria do Qatar, Mohammed Saleh al-Sada; Ministro Saudita do Petróleo, Ali al-Naimi; Ministro das Finanças do Bahrain, Sheikh Ahmed Bin Mohammed al-Khalifa; Ministro das Finanças do Kuwait, Mustafa al-Shamali; e o Ministro do Petróleo de Omã, Mohamed bin Hamad Al Rumhi durante a reunião em Riad em 24/9/2013. 
Qatar, diferente da Arábia Saudita, assumiu a liderança (com a Turquia) no início dos levantes de 2011 na promoção da Fraternidade Muçulmana na Síria e em outros pontos da região – mas, dito claramente, o foco do Qatar jamais se limitou só à Ikhwan, mas estendeu-se também ao apoio a grupos jihadistas radicais. Depois, a Arábia Saudita deslocaria o Qatar, para instalar seus próprios salafistas favoritos, de orientação saudita, em posições chaves na oposição síria. A íntima relação entre o Qatar e o CentCom [Comando Central dos EUA] e com o general Petraeus, quando esteve no comando, pode ter convencido Riad de que o Emir falava diretamente aos norte-americanos, e passava a comandar o chamado “Despertar”. Mas, na sequência, os EUA pareceram ter formado a convicção de que o Emir estava “enganando” os EUA: por um lado, apoiava movimentos islamistas de reforma “democrática”; por outro lado, apoiava grupos sunitas (antidemocráticos). Até que a competição armada entre grupos jihadistas que acontecia na Síria produziu uma reação norte-americana – e a tentativa de reorientar a infraestrutura de segurança na região, para passar a combater o jihadismo

Os principais gatilhos para toda essa comoção foram, basicamente, o Egito e a associação dos sauditas à condenação da FM pelo marechal de campo egípcio; e, em segundo lugar, o dramático decreto saudita, que desautorizou os jihadistas – para grande fúria dos jihadistas‘abandonados no “altar” na Síria, aos seus colegas salafistas e da Fraternidade e facilitadores no Líbano.

A Arábia Saudita colocou a Frente al Nusra, a ISIS, os Hutis e a Fraternidade Muçulmana na lista de organizações terroristas.
Mas ainda há muita coisa que não sabemos sobre esse movimento articulado no CCG contra o Qatar. Qual o conteúdo do acordo escrito entre sauditas-qataris (mediado pelo emir do Kuwait) e assinado em Riad, ano passado, e acordo cujos termos o governo do Qatar está sendo acusado de ter renegado?

No Egito, o Qatar opôs-se ao golpe de 3 de julho; Arábia Saudita e EAU apoiaram sem restrições, na linha de que o sucesso e a estabilidade do novo regime egípcio (com repressão contra a FM) são vitais; e não podem de modo algum ser abalados por qualquer tipo de crítica. O Qatar diz que sua posição no caso do Egito não constitui qualquer interferência em assuntos internos sauditas ou dos EAU – o que sugere fortemente que o Acordo sauditas-qataris assumisse o apoio ao golpe egípcio, especificadamente, como imperativo interno do CCG – mais do que cuidava de alguma questão de política externa. Só isso explica que se exija agora total adesão a decisões do CCG.

O segundo gatilho foi, provavelmente, a indicação do príncipe Mohammad bin Nayef para substituir o príncipe Bandar, para conduzir a nova política saudita para a Síria.

Talvez caiba concluir aqui que a perspectiva da próxima visita do presidente Obama a Riad tenha catalisado o “reset” nas políticas sauditas, para dirigi-las contra o jihadismo takfiri.

O príncipe Mohammad é, ao mesmo tempo, preferido dos EUA; e traz credenciais no campo do contraterrorismo – nova prioridade ocidental. Mas, e significativamente, ele e o pai são muito conhecidos por detestarem a Fraternidade Muçulmana.

É possível que a Arábia Saudita esteja concedendo, tacitamente, algo à Síria, mas simultaneamente está aumentando a aposta a favor de “varrer” a Fraternidade Muçulmana. Se a Arábia Saudita persuadir outros na região a tornar proscritos os Irmãos, Mohammad bin Nayef pode estar pensando corretamente ao assumir que os europeus, tão afinados sempre aos interesses do Golfo, podem ser contados entre os aliados, e seguirão os seus passos.

Não é lógico supor que Qatar, Omã (e até o Kuwait, que está sob pressão das demandas sauditas de que implemente um acordo de segurança amplo) possam permanecer como parte da mesma organização de segurança que Arábia Saudita e EAU, quando há entre os grupos divergências tão fortes no diagnóstico de onde vêm os perigos para uns e outros.

O Ministro das Relações Exteriores do Qatar, Chalid al-Atija (E) realiza uma conferência de imprensa conjunta após assinatura do Acordo de Cooperação com o seu homólogo iraniano, Mohammad Javad Zarif , 26 /3/ 2014, em Teerã. (Foto: Atta Kenare)
A maioria dos estados do CCG entende que a “ameaça iraniana” – supostamente a própria razão de ser do CCG – pode ser mediada com eficácia via EUA e seu continuado empenho na segurança do Golfo, o que o secretário de Defesa dos EUA jamais deixa de sublinhar.

Em resumo, a Arábia Saudita está em campo oposto ao de outros estados do Golfo sobre a natureza e a extensão de alguma “ameaça” que venha do Irã; em campo oposto ao do Qatar, em várias questões; em campo oposto a Omã por sua rejeição aos movimentos do CCG na direção da união e por sua mediação com o Irã; em campo oposto ao do Kuwait por tumultuar o compacto de segurança; e o reino está em oposição até aos EAU, porque rejeitaram a Arábia Saudita como sede do Banco Central do Golfo.

É visível que a Arábia Saudita está em estado de humor irascível e volátil, e os estados do CCG estão visivelmente preocupados.

O que significa isso em termos de geopolítica?

Em primeiro lugar, parece que essas tensões no CCG repercutirão diretamente na Síria, onde as fricções entre estados do Golfo tendem a se manifestar nos antagonismos e conflitos entre diferentes gangues armadas – o que beneficia o exército sírio.

Em segundo lugar, a perda de coesão do CCG enfraquecerá a própria organização como tal, e, por outro lado, afetará a posição política dos sauditas, que é decorrência do controle sobre o próprio CCG.

Em terceiro lugar, as hostilidades contra Omã e Qatar, longe de operar como fator que os desestimule de se aproximarem do Irã, estão, precisamente, empurrando-os naquela direção.

Em quarto lugar, o assalto contra a Fraternidade Muçulmana está aprofundando a solidão do Primeiro-Ministro Erdogan da Turquia e sua vulnerabilidade política.

Por fim, a Arábia Saudita realmente se excedeu, ao depositar parte tão significativa de sua credibilidade sobre os ombros do marechal de campo Sisi e no curso imprevisível dos eventos no Egito.

Alezander Zaspikin, Embaixador da Rússia no Líbano
Claro, EUA e Europa estão recorrendo à retórica da Guerra Fria no caso da Ucrânia e mostram-se determinados a fazer todo o possível para separar a Ucrânia do campo russo, o que está impondo um outro fator, que se sobrepõe às tensões na região: como a Rússia responderá? Um embaixador russo já sugeriu que o caso da Ucrânia muda tudo. E o que tudo isso implicará para a Síria e o Irã, e o bloco mais adesivo no front rival?

Se a Rússia se torna mais assertiva, talvez alguns estados do CCG sintam-se tentados a olhar naquela direção – dada a percepção generalizada na região de que a Rússia mantém forte constância em suas políticas – e na direção dos amigos da Rússia.



[*] Conflicts Forum’s visa mudar a opinião ocidental em direção a uma compreensão mais profunda, menos rígida, linear e compartimentada do Islã e do Oriente Médio. Faz isso por olhar para as causas por trás narrativas contrastantes: observando como as estruturas de linguagem e interpretações que são projetadas para eventos de um modelo de expectativas anteriores discretamente determinam a forma como pensamos - atravessando as pré-suposições, premissas ocultas e até mesmo metafísicas enterradas que se escondem por trás de certas narrativas, desafiando interpretações ocidentais de “extremismo” e as políticas resultantes; e por trabalhar com grupos políticos, movimentos e estados para abrir um novo pensamento sobre os potenciais políticos no mundo.


sábado, 8 de março de 2014

Árabes do Golfo desembainham as espadas longas

8/3/2014, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Dirigentes máximos dos países do CCG - Conselho de Cooperação do Golfo em 2010
O mais recente movimento da Arábia Saudita, que incluiu mais grupos em sua lista de “organizações terroristas”, pode parecer parte de algum novo pensamento em Riad, para livrar-se de seus velhos laços com grupos extremistas; na realidade, está começando um novo capítulo da política no Oriente Médio.

Em particular, a inclusão da Fraternidade Muçulmana e do movimento Houthi do Iêmen, na “lista” de vigilância saudita, é muito visivelmente baseada em considerações políticas, muito mais do que motivada por alguma ameaça de segurança.

O desafio imposto pela Fraternidade é sobretudo ideológico e político. A atratividade do grupo político transnacional espalha-se entre a classe média letrada saudita e o regime vê, aí, um perigo existencial.

Curiosamente a Fraternidade está usando o Qatar como base de operações (desde depois do golpe no Egito, ano passado), para disseminar sua mensagem política para outros estados árabes do Golfo. Criaram-se por isso tensões nas relações sauditas-qataris, mas Doha não deu atenção às repetidas demandas, por Riad, para que cercasse os Irmãos.

CCG - Logo
Na 4ª-feira passada (26/2/2014), em movimento coordenado, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Bahrain retiraram de Doha os seus embaixadores, em protesto contra o apoio do Qatar à Fraternidade Muçulmana. Os qataris manifestaram desapontamento, mas mais nada; e seguiram adiante.

Mas não há dúvidas de que surgiu uma grave divisão dentro do Conselho de Cooperação do Golfo, que pode vir a revelar-se letal para a própria existência, que já dura 33 anos, do grupamento.

Entrementes, Omã e Kuwait dissociaram-se do movimento dos sauditas, de retirar os embaixadores. Mas não se veem sinais de que esses dois países estejam interessados em acompanhar o ataque dos sauditas contra os Irmãos. Essa é a mais recente evidência de que a capacidade saudita para comandar as decisões dentro do CCG está corroída.

As antigas tensões entre sauditas e qataris, que já vêm de há um século, tomaram nova direção com o advento da Primavera Árabe. O Qatar identifica-se com o programa político da Fraternidade, para a transformação democrática do Oriente Médio.

Nisso, tem um aliado no atual governo da Turquia do primeiro-ministro, Recep Erdogan.

Não surpreendentemente, a junta militar que governa o Egito já rebaixou os laços diplomáticos do Cairo com Ankara e Doha – o que não parece ter abalado os dois países, que permanecem convencidos de que estão do lado certo da história.

Assim também, o movimento Houthi no Iêmen é essencialmente movimento de libertação nacional e é, mais uma, ameaça política, para a Arábia Saudita; as credenciais dos houthis como “grupo terrorista” são difíceis de comprovar.

Menino passa por casa danificada durante confrontos recentes entre Houthis e salafistas 
armados pelos sauditas no distrito Dammaj, província iemenita de Saada (14/1/2014).
Os houthis são conectados a uma plataforma que exige que Riad devolva territórios do Iêmen, fabulosamente ricos em petróleo, que a Arábia Saudita anexou em 1934, e que são contíguos ao território tradicional dos houthis. É claro que a Arábia Saudita não devolverá aqueles fantásticos campos de petróleo. Agora, com o advento da Primavera Árabe no Iêmen, os houthis identificaram-se com as aspirações democráticas do povo.

De fato, o Qatar apoia os houthis (e o Irã também é simpático ao grupo). A ameaça comum, que liga os Irmãos (que são sunitas) aos Houthis (que são xiitas) é que ambos são movimentos progressistas com extensas e profundas raízes de apoio popular de base, que pregam princípios democráticos e tolerância política; e ambos foram vítimas de repressão pelo estado.

Pode-se dizer que o que tem de ser olhado de perto e examinado é o passado apoio que a Arábia Saudita deu a grupos salafistas e ao Al Islah no Iêmen afiliado da al-Qaeda. De fato, os houthis efetivamente resistiram contra esses, sim, grupos terroristas.

Logicamente a Arábia Saudita aumentará, agora, a pressão contra o Qatar. Talvez classifique o Qatar como “estado patrocinador de terroristas”? Riad pode esfriar as relações com o Qatar. Mas, seja como for, o Qatar não pode ser facilmente isolado.

O Qatar é o país mais rico do mundo em termos de riqueza per capita e mantém política externa pragmática, que se alinha com os EUA (e às vezes negocia abertamente com Israel), mas que também cuida de manter boas relações com o Irã e com o Hezbollah no Líbano. O Comando Central dos EUA está baseado no Qatar, o que não impede o Irã de manter contatos com Doha (e vice-versa).

Com a aproximação da Copa do Mundo da FIFA de 2022, as frustrações sauditas só crescerão. Qatar, como país anfitrião, espera usar o evento para integrar-se ainda mais à comunidade internacional. E mobilizará tudo que o dinheiro possa comprar.

Também nisso o Qatar agarra-se à modernidade como peixe às águas; em comparação, a Arábia Saudita parece poça de água podre. Mas as ambições do Qatar permanecem como enigma, envoltas em mistério. Como explicar as afinidades do Qatar com a Fraternidade e com os houthis?

A verdade nua e crua é que ambos, os Irmãos e os Houthis, são perigo existencial aos olhos da família real saudita. Mas o Qatar não é exatamente uma pujante democracia.

Para entender paradoxos, às vezes, é útil remexer na história e recordar, nesse caso, que, em 1913, o fundador do moderno estado saudita, Abdul Aziz, tomou a fatídica decisão de ocupar o Qatar e anexá-lo à província Ahsa da Arábia Saudita; foi necessária imensa pressão, pelo então patrão imperial britânico por dois anos, para dissuadir o saudita de sua intenção, e convencê-lo a, em vez da anexação, fazer o reconhecimento formal das fronteiras do Qatar.

Mesmo assim, muitos anos depois, já em 1965, Riad usou forças militares para tomar do Qatar o posto de fronteira de al-Khafous. E, claro, o Qatar fez muito barulho para expor o papel dos sauditas como articuladores de um golpe militar abortado, em 1995. Como tantas vezes acontece, há memórias históricas que simplesmente se recusam a morrer e permanecem aninhadas na consciência dos povos.




[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Nova Análise: Eleições antecipadas no Egito “podem aliviar pressão estrangeira”

27/1/2014, [*] Mahmoud Fouly, Xinhuanet, China
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Karl Marx explica, no seu celebrado 18 brumário de Luis Bonaparte [1], que as experiências de 1848-51 comprovaram-se muito valiosas para a bem-sucedida revolução de trabalhadores de 1871. E o Egito? Terá interlúdio de 20 anos, antes que volte a revolução real? Ou pode acontecer muito antes? Perguntem à Esfinge (...). Quando se trata de anatomia de revoluções, ninguém provavelmente sabe mais que Moscou e Pequim. E ambas estão apoiando robustamente a antecipação de eleições presidenciais no Egito (o que implica que estão, hoje, com o general Sisi e o que ele representa). (MK Bhadrakumar, Arab Spring speaks through graffiti -9/1/2014, Indian Punchline)

Adly Mansour
CAIRO, 26/1/2014 (Xinhua) – A decisão do presidente interino do Egito, Adly Mansour, anunciada domingo, de realizar eleições presidenciais antes das eleições parlamentares, “pode aliviar pressões estrangeiras” contra o Egito relacionadas ao mapa do caminho do atual governo apoiado pelos militares, dizem alguns especialistas em segurança.

Dr. Gamal Salama
Nações estrangeiras estão encarando o Egito como estado “acéfalo”, porque tem presidente provisório e governo de transição; nesse contexto, a decisão sobre antecipar eleições dará ao Egito mais peso e mais credibilidade nas relações com a comunidade internacional - disse Gamal Salama, diretor do Departamento de Ciência Política na Universidade de Suez.

Salama observou que a decisão aliviará pressões de estrangeiros sobre o Egito, na implementação de seu mapa do caminho para o futuro, depois da derrubada do presidente islamista, Mohamed Mursi, por golpe militar, em julho de 2013.

O presidente interino assinou também no domingo um decreto presidencial, baseado na Constituição recentemente aprovada, no qual ordena que a comissão eleitoral comece, no prazo de 90 dias, os procedimentos para a eleição.

Eleições presidenciais antes das eleições parlamentares podem acelerar o processo de cristalizar uma personalidade egípcia, no relacionamento com outros países – disse Salama em entrevista à rede Xinhua.

Imagem aérea mostra vista geral da manifestação pelo terceiro aniversário da revolta que derrubou o autocrata Hosni Mubarak na praça Tahrir, no Cairo comício pró-militar. 49 pessoas foram mortas, 247 feridos, 1.079 presos em 25 de janeiro 2014 (Foto: AP)
A decisão também teve efeito interno positivo, segundo o especialista; para ele

(...) a mentalidade egípcia tende a acreditar no poder do presidente, mais que em qualquer outra autoridade.

A decisão de antecipar as eleições presidenciais e o decreto foram noticiados um dia depois que egípcios pró-militares organizaram manifestações de massa para comemorar o 3º aniversário do levante popular que derrubou o governo do ex-presidente Hosni Mubarak.

Durante as celebrações do sábado (25/1/2014), houve confrontos em todo o país, entre manifestantes antigoverno, tanto islamistas como secularistas, e forças de segurança, que dispersaram várias passeatas e tentativas de organizar bloqueios à passagem de pessoas e veículos [orig. sit-ins], deixando 49 mortos e cerca de 250 feridos. No sábado, a polícia também prendeu mais de 1.000 suspeitos de apoiar Mursi e manifestantes de grupos de esquerda acusados de incitar tumultos e violência.

Um enorme buraco em frente à sede da polícia egípcia depois que uma bomba explodiu - Cairo, 24 de janeiro de 2014. Uma série de quatro explosões atingiu Grande Cairo, no mesmo dia, matando pelo menos seis pessoas e ferindo dezenas de outras pessoas (Foto: Mai Shaheen)
Na 6ª-feira (24/1/2014) e no domingo (26/1/2014), houve atentados terroristas contra prédios e pessoal da polícia, inclusive várias explosões, na capital, Cairo, em Suez e no Sinai, que mataram pelo menos 20 pessoas e feriram cerca de 120.

Yousri al-Azabawi, pesquisador do Al-Ahram Center for Political and Strategic Studies, concorda com Salama, e também entende que modificações no mapa do caminho no que se refere à ordem das eleições podem, sim, “aliviar as pressões estrangeiras sobre o Egito”.

A decisão também pode reduzir o tamanho do financiamento para a Fraternidade Muçulmana de Mursi, já declarada organização terrorista - disse Azabawi em entrevista à rede Xinhua.

Enfrentamento entre partidários do Governo e da Fraternidade Muçulmana em 22/1/2014
Para Azabawi, a realização de eleições livres e justas para eleger um presidente dará ao eleito e às forças de segurança “chance real no enfrentamento contra o terrorismo e para adotar procedimentos mais efetivos apoiados pela população egípcia”.

Mas Azabawi entende que fazer eleições presidenciais antes das eleições parlamentares “dificilmente afetará a Fraternidade Muçulmana ou fará diminuir os protestos antigoverno que organizam regularmente”. Para ele, “muitos ainda acreditam na possibilidade de reconduzir Mursi à presidência”.

Abdel-Fattah al-Sisi
Eleger um novo presidente enviará mensagem forte à comunidade internacional, de que o Egito está, sim, implementando seu mapa do caminho pós-Mursi, com vistas a construir um estado forte, civil e democrático – disse à rede Xinhua o general Mohamed Okasha, especialista em segurança.

Sobre a popularidade entre os egípcios do chefe militar e Ministro da Defesa, general Abdel-Fattah al-Sisi, e rumores de que se candidará à eleição presidencial, Okasha disse que “as urnas terão a palavra final”.

Sobre isso, ver também:
O Egito realizará eleições presidenciais antes das eleições parlamentares – disse o presidente interino do Egito, Adly Mansour, em discurso transmitido pela televisão, no domingo [26/1/2014, Xinhua.net, China, em inglês]



Nota dos tradutores
[1] MARX, Karl [1851-1852]. O 18 de brumário de Luís Bonaparte. Prefácio: Friedrich Engels. São Paulo: Boitempo, 2011, 176 pp. Trad. Nélio Schneider, ISBN: 978-85-7559-171-0. Ou online na Edições Avante (2ª Edição – Abril de 1984) Trad. de José Barata-Moura e Eduardo Chitas.
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[*] Mahmoud Fouly é correspondente do Xinhuanet no Egito 

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Conflicts Fórum, Comentário Semanal (3-10/1/2014)

17/1/2014, [*] Conflicts Forum
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Milhões se enfrentam nas ruas das cidades egípcias. Imensa fratura social-religiosa
Egito: Mesmo antes do golpe militar que derrubou o presidente Mursi, já era claro que a sociedade egípcia estava em processo de fratura – e fratura profunda, de modo talvez irrecuperável. Uma reunião (da qual este Conflicts Fórum participou) dos principais grupos políticos do Egito (islamistas e liberais/seculares) naquele momento foi simplesmente incapaz sequer de comunicarem-se uns com os outros: muralhas de pesada artilharia verbal lançada de um lado para outro na mesma sala, de um setor da sociedade egípcia para outro, cada um desejando acertar golpe mais arrasador contra o outro. Ânimos exaltadíssimos, emoções à solda; estado psicológico cristalizado, pétreo, pouco do que uns diziam aos outros faziam qualquer sentido, e nem um grão de sabedoria.

O ânimo para qualquer tipo de concessão, completamente ausente, nenhuma possibilidade de negociação democrática naquele torvelinho de paixões. Naquele momento, eram os liberais/seculares e os cristãos que manifestavam o terrível medo existencial, temendo pela própria sobrevivência: estavam a ponto de serem politicamente e culturalmente detonados pelos islamistas, seu modo de vida posto na ilegalidade, a relevância política deles varrida para o nada, como sentiam, acreditavam e temiam.

É preocupante o número de assassinatos de cristãos no Egito
Os cristãos mostravam-se particularmente amargos. Reclamavam que o ocidente cristão cometera um erro histórico: obcecadamente focado na segurança de Israel, o ocidente aliara-se a grupos sunitas radicais, para enfraquecer o que via como ameaças a Israel (o Hezbollah e o Irã); mas os cristãos do Oriente Médio é que teriam de pagar a parte pior do preço desse estímulo tresloucado ao Islã sunita. Exibiram números da migração de cristãos para fora do Egito. E o que ardia como sal esfregado nas feridas era que cristãos e liberais/seculares não viam qualquer possibilidade de que surgisse qualquer tipo de forças que os resgatassem e os salvassem do sítio a eles imposto pelos islamistas.

Pela primeira vez em séculos, nem França, nem Grã-Bretanha, nem EUA apareceriam para salvá-los. Seriam deixados morrer lá – ou que emigrassem! – ante a avançada dos islâmicos.

Imagine-se, pois, como se sentiram, quando, no último segundo, depois de tudo parecer completamente perdido, surgiu um deus ex machina: os estados do Golfo armaram um golpe de estado para “limpar e destruir” (no jargão militar) a Fraternidade Muçulmana e varrê-la do Egito. Viraram a mesa! Militantes seculares/liberais flanavam metro e meio acima do chão, em êxtase. O general Sisi foi saudado (acriticamente) como novo Saladino/ Nasser/ Sadat.

Abdul Fattah al-Sisi
Imediatamente depois do golpe, o general Sisi fez todos os ruídos politicamente corretos: falou de “transição”, “democracia civil” e “inclusão social”. Falar é uma coisa, fazer é que são elas! E Sisi fez diferente do que falava.

Em vez de transição para a democracia, parece que agora “o povo” vai exigir que Sisi se torne presidente por aclamação popular, não por alguma “democracia civil”. Está a poucos passos de conseguir aprovar duas novas leis, a saber: uma lei que torna ilegais os protestos de rua; e outra que amplia o alcance da lei antiterrorismo.

Sisi conseguirá matar dois coelhos com uma cajadada: seu objetivo principal é eliminar a Fraternidade Muçulmana e criminalizar seus muitos apoiadores; mas, além disso, ele efetivamente dá novo corpo e nova carne às regras do (odiado) “estado de emergência”, para permitir que o establishment de segurança elimine qualquer resistência ao governo da Junta militar.

Outra vez, tudo isso está sendo feito “por mandato popular”: como o jornal nacionalista Al-Watan escreveu semana passada: “Do povo a El-Sisi [chefe das forças armadas]: Garantimos seu mandato. Agora, é degolar os terroristas!”. Outro jornal, Al-Youm Al-Sabaa, exibiu manchete semelhante: “Povo exige que a Fraternidade seja executada”.

Mas, embora essas leis visem primariamente à Fraternidade Muçulmana, o efeito combinado das duas é suficientemente amplo para enquadrar também os primeiros movimentos de mal-estar entre os seculares/liberais. Alguns seculares/liberais (poucos, se comparados aos Irmãos) foram detidos por criticar (por falta de objetivo revolucionário) o governo da junta militar. Deve-se prever que, aumentando a desilusão e o fim das esperanças que depositaram em Sisi, aumente também o número de seculares/liberais nas prisões egípcias.

Khalil Al-Anani
Em resumo, a contrarrevolução que o Golfo orquestrou no Egito contra os levantes árabes de 2011, agora sob o comando do General Sisi, está sendo empurrada na direção da mais ampla, total e irrestrita repressão.

Como Khalil Al-Anani comenta, a proscrição da Fraternidade Muçulmana fortalece “a ideia de um inimigo comum, de uma ameaça existencial ao estado e à sociedade”. “Outra razão para a proscrição”, continua ele, “é mobilizar o público para que vote “sim” no referendo da Constituição, que o governo provisório vê como meio para resolver a própria falta de legitimidade. Fechar o espaço público para qualquer tipo de ação de protesto, sob a alegação que o fechamento é ação de contraterrorismo (...) e declarar a Fraternidade “grupo terrorista”, fecha a porta para qualquer reaproximação futura entre a Fraternidade e os grupos revolucionários”.

Não se trata apenas de criminalizar parte muito substancial da população egípcia (pelo crime de enunciar apoio direto ou indireto à Fraternidade Muçulmana – crime que passa a receber pena de cinco anos de cadeia), mas os “vigilantes” já estão sendo encorajados por jornalistas e outras figuras “midiáticas”, pelos jornais e pelas televisões, a incendiar residências de Irmãos e depredar suas empresas e escritórios. Criaram-se linhas de disque-denúncia, para que todos possam facilmente denunciar nomes e endereços de pessoas suspeitas de simpatia com a Fraternidade Muçulmana. Empresas-imprensa, em toda a “mídia”, ecoam e repercutem o incitamento contra os “terroristas”. Pessoas suspeitas de contatos com os Irmãos estão sendo sequestradas, torturadas e mortas. A fratura na sociedade egípcia de que falamos no início, já se expande: agora se vê um cisma.

Líderes da Fraternidade Muçulmana discurso quando do golpe militar que derrubou o presidente democraticamente eleito, Mohamed Mursi
Qual será a resposta? No Egito tudo anda devagar, mas já se veem alguns indicadores claros. A Fraternidade Muçulmana já mergulhou na clandestinidade. As lideranças (membros da Shura e o Gabinete de Orientação) já foram presas ou sumiram na clandestinidade. O movimento sobrevive reativando seu antigo sistema de “células”, de sete, oito pessoas, que se reúnem na cada do líder da célula. Mas também esse sistema, que manteve vivo o movimento em outros momentos de perseguição cerrada, está sob forte estresse, e os líderes de célula encontram grandes dificuldades para manter ativas as comunicações entre as células e para cima, na hierarquia, para quem quer que ainda esteja ativo na liderança.

A geração mais velha da Fraternidade Muçulmana não quer guerra aberta contra Sisi: sabem que não têm qualquer chance de vitória. Em vez disso, a estratégia é manter a liderança com manifestações “relâmpago” (“Não temos escolha: Sisi nos encurralou”) e esperar que a própria Junta se autodesmoralize, enquanto a economia despenca. A FM sabe que há tempos muitos difíceis adiante, para a economia egípcia; e acredita que nada tenham a fazer, além de esperar e capitalizar o inevitável (segundo os Irmãos) tombo da Junta, aos olhos da opinião pública. Simultaneamente, a FM está trabalhando com seus apoiadores dentro do Exército, para inflar o descontentamento, entre os militares, contra o alto comando. (Um quadro político russo de alto escalão diz que a Rússia estima que cerca de 70% dos quadros inferiores da hierarquia militar egípcia opõem-se ao rumo que o comando está dando ao exército).

Mas essa “opção segura” nem está funcionando, nem satisfaz os membros mais jovens da FM. A política de não violência da FM não está se implantando em todo o movimento como os líderes esperavam que se implantasse. O recente ataque à bomba em Mansour, no qual morreram 16 policiais, quase com certeza não foi obra da FM (um grupo salafista do Sinai já se apresentou como responsável, e é perfeitamente possível que sejam os autores), mas a FM já foi imediatamente acusada – e jornalistas e “especialistas” da imprensa-empresa governista já conseguiram persuadir significativa maioria dos egípcios de que a FM, sim, é o “grupo terrorista” responsável pelo atentado.

Os jovens  da Fraternidade Muçulmana lutam diuturnamente contra o golpe militar
Os Irmãos mais jovens, que perderam amigos e parentes nos confrontos à bala contra a polícia, não admitirão essa posição “contemplativa” da ala mais velha. Para esses jovens, a lição a aprender do Golpe é que os Irmãos foram ingênuos. Entendem que a FM deveria ter “destruído o sistema” no instante em que chegou ao poder. Teriam de ter promovido um expurgo no exército; e que todo o “estado profundo” teria de ter sido destruído. Essa, dizem eles, é a lição da Argélia, do Hamas em 2006, e, agora, também do presidente Mursi. Muitos desses – impossível avaliar quantos – tomarão o rumo dos movimentos islamistas revolucionários violentos que partilham e defendem a “ideia” da al-Qaeda. Essa não é tendência que exploda repentinamente, mas crescerá com o tempo – e contará com armas e combatentes vindos da Líbia, que já se disseminam por todo o norte da África.

O caso dos salafistas é mais complicado. Financiados por Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Kuwait, a liderança quase toda apoiou a Junta, exibindo notável “flexibilidade” nas questões constitucionais em respeito ao Islã. Mas eles também já perderam os membros jovens. Muitos desses salafistas veem o ataque das forças de segurança contra os Irmãos, e a deposição do presidente Mursi, não como ataque à Fraternidade Muçulmana per se; mas como ataque contra o próprio Islã. Esse grupo dos salafistas portanto virou-se contra a Arábia Saudita – tanto quanto também contra Sisi.

Por fim, partes do Egito (Sinai, partes de Alexandria e Suez) estão-se convertendo numa Idlib egípcia – sob o “controle” (não há palavra adequada para descrever a ambígua ‘'rede'’ de intimidação posta em ação) de grupos jihadistas de várias tendências – todos eles ferozmente hostis à Fraternidade Muçulmana, vendo os Irmãos como apóstatas.

Mapa ferroviário do norte do Egito e as distâncias entre as cidades envolvidas
A que tudo isso leva o Egito? O problema é que, por mais que Sisi tenha conseguido criar um culto que toma grandes fatias da população, para esmagar os chamados “terroristas” (a FM), ainda não se vê solução suficiente para os profundos problemas econômicos que o país enfrenta. Os estados do Golfo deram (embora nem tudo sejam doações) cerca de US$ 12 bilhões, mas a maioria dos especialistas estimam que o Egito precisa de mais de US$ 50 bilhões para manter-se à tona. Cerca de 43% da população vive em condições desesperadoras de miséria (com renda familiar de menos de US$ 2/dia, e muitos desses pobres são ex-beneficiários dos serviços caritativos da Fraternidade, apoio que agora foi cortado).

E que visão Sisi oferecerá: reformas econômicas “liberais” à moda do FMI – com metade da população sobrevivendo com menos de US$ 2/dia? O nacionalismo árabe (estilo neonasserista) é hoje viável? Difícil supor que sim. Não há dinheiro para isso. E o nacionalismo árabe entrou em fase de longo declínio depois da Guerra de 1973, da qual não se recuperou.

E que visão a Fraternidade Muçulmana pode oferecer? Um retorno à Da’wa e aos serviços sociais caritativos? Nisso, tampouco, já quase ninguém acredita. Nem a FM poderá esperar passivamente que o colapso econômico do Egito mate a fome dos que esperam qualquer “solução” para suas muitas misérias e alguma visão de futuro promissor.

A única visão que parece ressoar na rua é a récita salafista de simples “certezas” às quais as pessoas possam pendurar-se, em desespero, num momento de tumulto e ordem em liquefação. Paradoxalmente, nesse nível, vê-se convergirem os salafistas e Irmãos mais jovens, que se vão aproximando entre eles em torno de uma visão de mundo salafista, e emergindo, talvez, como únicos reais beneficiários do atual estado de coisas.

O ocidente adotou visão de curto prazo:

Todos temos pequena influência; tratamos a questão como assunto interno do país (como os eventos na Síria) e apoiamos Sisi, porque tem o único instrumento (o exército e as forças de segurança) capazes de prover (a palavra é péssima) “segurança”.

Mas a brutal repressão garantirá a tal “segurança” de que fala o ocidente, no longo prazo. A lição do colapso de Sykes-Picot a que assistimos em toda a região não é prova, precisamente, de que não?

O sinal de aviso e alarme é cuidado para não criarem novas al-Qaedas.

O Egito parece a caminho de mais e mais fraturas, e de tornar-se mais violento no confronto com a ressurreição do “sistema árabe”, sob a forma do general (e provável presidente) Sisi.


[*] Conflicts Fórum visa mudar a opinião ocidental em direção a uma compreensão mais profunda, menos rígida, linear e compartimentada do Islã e do Oriente Médio. Faz isso por olhar para as causas por trás narrativas contrastantes: observando como as estruturas de linguagem e interpretações que são projetadas para eventos de um modelo de expectativas anteriores discretamente determinam a forma como pensamos - atravessando as pré-suposições, premissas ocultas e até mesmo metafísicas enterradas que se escondem por trás de certas narrativas, desafiando interpretações ocidentais de “extremismo” e as políticas resultantes; e por trabalhar com grupos políticos, movimentos e estados para abrir um novo pensamento sobre os potenciais políticos no mundo.