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segunda-feira, 11 de maio de 2015

Pepe Escobar: A questão alemã

8/5/2015, [*] Pepe EscobarRT – Rússia Today
The German question
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
A Alemanha é a União Europeia?
 
Setenta anos depois do final da IIª Guerra Mundial, e 25 anos depois da queda do Muro de Berlim, a Alemanha está outra vez em surto de “sturm und drang” [lit. tempestade e ímpeto], mas dessa vez sem que praticamente ninguém, nem no leste, nem no oeste, dê-se conta do que está acontecendo. 
 
Sem esforço sério de detonação de mitos, é impossível discernir o que pode ser interpretado como nova tentativa, discreta, de alcançar a hegemonia. [1] 
 
Ao contrário de um mito atualmente muito propagandeado pela think-tankelândia norte-americana, a Berlim política, sob a chanceler Merkel, não é mediadora entre EUA ainda hegemônicos e uma Rússia dita “agressiva”. 
 
A realidade é que Berlim, pelo menos por enquanto, dá mais a impressão de cantar pela música de Washington – com mínimas variações – enquanto açoita a Rússia. É o caso, mesmo que se considerem os sólidos laços de energia/ comércio/ negócios com Moscou (a Alemanha importa 1/3 de todo o gás natural que consome; e empresas/ indústrias/ conglomerados alemães investiram pesadamente na Rússia). 
 
Diferente também de um segundo mito muito difundido, a Berlim política não está interessada em “estabilidade” nas fronteiras orientais da Europa, mas, isso sim, quer ali a mais inconteste vassalagem. A incansável integração da Europa Oriental à União Europeia, liderada por Berlim, foi estratégia para abrir novos mercados para as exportações alemãs, assim como para erguer uma proteção intermediária entre Alemanha e Rússia. Quanto aos estados do Báltico, já são vassalos; a Alemanha é a principal parceira comercial dos três. 
 
Também nada há que comprove mais um mito, de que Berlim não poderia levantar as sanções – contraproducentes – que impôs a Moscou, enquanto a “segurança” da Europa Central e da Europa Oriental não estiver “garantida”. A verdade é que a Alemanha, se pudesse, preferiria ter total controle político/ econômico sobre toda a periferia do que foi a URSS. 
 
Quanto à União Europeia, agora afundada em ambiente tóxico, varrida pela “austeridade”, pós-democrática e anti-igualitarista, sem saída à vista, a Alemanha já reina ali, politicamente e economicamente. 
 
Deutschland sob controle? 
 
Nas brumas do atual pântano intelectual em que se debate a União Europeia, para citar Yeats “aos melhores falta convicção, e os piores estão cheios da mais apaixonada intensidade”. – Considerados os esquálidos ideólogos neoliberais, que se escafedem pelos cantos, agarrados às suas sinecuras naquele kafkiano templo de mediocridade que é Bruxelas – até um Diógenes moderno teria dificuldade para encontrar observador bem informado, capaz de dar conta do jogo alemão. 
 
Daí a luminosa exceção que é o historiador e antropólogo Emmanuel Todd, autor do ensaio seminal Depois do Império, de 2002, onde faz sua impiedosa cartografia do declínio dos EUA. Em longa entrevista em 2014 ao site Les Crises, sobre a Alemanha, Todd manda a bolinha geopolítica à estratosfera
 
Todd preocupa-se profundamente com a disfunção do ocidente – manifesta, para ele, em a Europa estar “virtualmente em guerra com a Rússia”. Vê a fixação ansiosa, doentia, do ocidente, contra a Rússia, como a tentativa de encontrar um bode expiatório, ou, melhor, 
 
(...) a criação de um inimigo, necessário para o ocidente poder mostrar alguma, qualquer, mínima racionalidade, coerência. A União Europeia foi criada contra a URSS; não vive sem a Rússia no papel de inimigo inventado.

Mas, por trás da UE, lá está o negócio verdadeiro: o projeto alemão, que Todd identifica como um projeto de poder, levado adiante para 
 
(...) comprimir a demanda na Alemanha, escravizar os países do sul, devorados pela dívida, pôr a trabalhar os europeus do leste, atirar uns poucos amendoins ao sistema bancário francês.

E esse projeto de poder só abrirá escandalosa porta que dá passagem ao “imenso potencial da Alemanha para irracionalidade política” – tema muito proeminente agora, com todos aqueles plágios de queda do Reich

Todd identifica o que Lacan chamaria de o grande não dito europeu (“não enunciado”): 
 
A chave para que os EUA controlem a Europa, herança da vitória de 1945, é controlarem a Alemanha.

 
Angela Merkel
Mas atualmente esse controle vem-se dissolvendo, embora caoticamente, e isso significa “o começo da dissolução do império norte-americano”. E o declínio imperial – visível em incontáveis declinações – leva Todd a conclusão explosiva: a verdadeira ameaça contra os EUA, muito mais perigosa que a Rússia – “que é externa ao império” – é a Alemanha. 

E quanto à ameaça da Alemanha contra a Rússia? Para Todd não há dúvida alguma de que as populações de idioma, cultura e identidade russos estão sendo atacados no Leste da Ucrânia com “aprovação e apoio” da União Europeia – o que é fato. Ao mesmo tempo, interpreta o “silêncio” russo sobre isso, “como no caso do que fazem a França e os EUA [no leste da Ucrânia], recusa a ver a realidade”, mas como ato de boa diplomacia: “os russos precisam de tempo. O autocontrole dos russos, o profissionalismo, são dignos de admiração”. Agora, tente encontrar esse tipo de leitura na empresa-mídia europeia infestada pela CIA

Sai a “Europa”, entra em cena a Alemanha

Por tudo isso, o que Todd está dizendo aqui, em essência é que 
 
(...) está emergindo um novo cara-a-cara entre dois grandes sistemas: o do continente-nação EUA, e esse novo império alemão, império político-econômico cujo povo chama o próprio país de “Europa”, por força do hábito.

Ah, sim, o que Todd diz faz perfeito sentido. 

Servindo-se de um conceito de ciência política cunhado pelo antropólogo belga Pierre van den Berghe, Todd qualifica o sistema alemão como “dominação não igualitária”; qualquer igualdade que reste ali concerne exclusivamente aos dominantes, por exemplo, aos cidadãos alemães. Bem-vindos, pois, à democracia Herrenvolk – “democracia para o povo dos senhores”. [2] 
 

Todd argumenta a favor de sua hipótese destacando que o dinamismo da economia alemã baseia-se nos ex-satélites da URSS: 
 
Parte do sucesso de nossos vizinhos alemães repousa sobre a evidência de que os comunistas sempre cuidaram muito bem a educação popular. Deixaram atrás de si não só sistemas industriais obsoletos, mas também populações notavelmente bem educadas.
Por isso, ao “anexar” as populações de Polônia, República Tcheca, Eslováquia, Hungria etc., significou que a Alemanha reorganiza sua base industrial servindo-se de trabalho barato. Mas, sim, há um imenso “se”: Todd acredita que a Alemanha pode também “anexar” uma população ativa de 45 milhões na Ucrânia,  
 
(...) com seu bom nível de formação e treinamento herdado ainda do período soviético.

Nada sugere que possa acontecer assim. Moscou já deixou perfeitamente claro que aí há uma linha vermelha inultrapassável. Além do mais, “Ucrânia” é estado fracassado, em desintegração terminal, hoje, na verdade, colônia de facto do FMI, que tem, como único “atrativo” para o “ocidente”, suas ricas terras agricultáveis a serem saqueadas por Monsanto & comparsas. 

“Ele não viu que a Alemanha se aproximava”

A coisa começa a ficar realmente divertida, quando Todd examina a confusão total em que estão metidos “os geopolitólogos norte-americanos clássicos”, em tudo que tenha a ver com tradição “europeia”. Falava, evidentemente, sobretudo, do famoso Dr. Zbig “Grande Tabuleiro de Xadrez” Brzezinski: 
 
(...) obcecado contra a Rússia, ele não viu que a Alemanha se aproximava. 

Todd observa, corretamente, como o Dr. Zbig 
 
(...) não percebeu que os militares norte-americanos, ao estender a OTAN até os estados do Báltico, até a Polônia (...) estavam, de fato, recortando um império para a Alemanha, de início, só império econômico, mas agora já império político. 

E, paralelamente ao que venho examinando já há anos, Todd sugere que: 
 
(...) a extensão da OTAN para o leste pode, no fim, trazer uma espécie de versão B do pesadelo, para Brzezinski: a reunificação da Eurásia, independente dos EUA.

O final, com suspense, é para ser saboreado como o melhor Armagnac: 
 
Fiel às suas origens polonesas [Zbig] temia só uma Eurásia sob controle russo. Agora está exposto ao risco de passar à história como mais um daqueles poloneses absurdos que, de tanto que odeiam a Rússia, promoveram a grandeza da Alemanha.

 
Reichstag, Câmara Baixa do Parlamento alemão
Por enquanto, a Alemanha política – embora não os homens da indústria – escolheram continuar subjugados por EUA/OTAN como a chanceler Merkel parece estar promovendo, com seu cerco à Rússia. 
 
Como Todd observa com acerto, a Alemanha dolorosamente ergueu sua hegemonia sobre a União Europeia sobre a noção de que uma cesta disparatada de nações proveria Berlim com a economia de escala para derrubar seu principal concorrente industrial, os EUA. Mas a Alemanha não tem energia – nem petróleo nem gás. O fornecimento que lhe vem da África e do Oriente Médio é inerentemente instável. 
 
E assim se chega a mais um cenário que circula entre os que Bauman chamou de “elites nômades da modernidade líquida”, não nos think-tanks nem nas agências ocidentais de inteligência. 
 
Segundo esse cenário, em vez de uma União Europeia tentando trabalhar com a Rússia, o que há é Berlim tentando minar Moscou para, no fim, passar a mão no controle financeiro sobre os imensos recursos russos: de volta àqueles bons velhos tempo do capitalismo de desastre de Yeltsin, quando tudo desabava em total colapso, menos a extração de recursos naturais da Rússia. 
 
Afinal de contas, o “Novo Grande Jogo” tem a ver, sobretudo, com o controle dos recursos naturais de petróleo, gás e outros, da Rússia e da Ásia Central. Serão controlados por frentes de oligarcas supervisionados pelos seus patrões em Londres e em New York? Ou serão controlados pelo estado russo? E, depois de a Rússia ter sido subjugada, então os “-stões” da Ásia Central, principalmente a república do gás, o Turcomenistão, também estará exposta para entrar no jogo alemão. 
 
Mas por enquanto é jogo de sombras. Merkel só faz declarar platitudes sobre o cessar-fogo de Minsk – quando todos os atores sérios sabem que Kiev trai o acordo diariamente. Berlim trabalha nas coxias para manter a bordo os proverbiais “atores relutantes” –Itália, Grécia, Hungria – com sanções contra a Rússia, enquanto faz constar que faz o que pode para conter as histéricas Polônia e Lituânia. 
 
Merkel sabe perfeitamente bem que os EUA processam grande parte de sua guerra de drones a partir da Alemanha, e que a inteligência alemã espiona os franceses para a Agência de Segurança Nacional dos EUA, a Comissão Europeia e até a indústria alemã. 
 
Portanto, ela jamais antagonizará diretamente Washington – porque o que ela mais teme são os atlanticistas alemães, enquanto repete que Putin e o Kremlin viveriam “num mundo diferente”. Berlim e Moscou continuam a falar-se diplomaticamente, mas o humor tende ao silêncio qualificado. 
 
O novo excepcionalismo
 
Todd é um dos poucos que afinal começam a fazer soar os sinos de alarme. Como ele próprio formula: 
 
A cultura alemã é não igualistarista, o que torna difícil para os alemães aceitarem um mundo de iguais. Quando sentirem que são os mais fortes, os alemães receberão muito mal qualquer recusa a obedecer, dos mais fracos; para os alemães, esse tipo de recusa é antinatural, antirracional.


Excepcionalismo Germânico

Mais uma vez, estamos no reino do excepcionalismo, mas agora com o problema extra dessa tendência dos alemães, que historicamente sempre causou tumulto, à irracionalidade política. O novo lebensraum [ambiente circundante] remixado pode revolver em torno de uma usina de exportação sempre em expansão – que se agregará ao comércio global, servindo-se de mão de obra bem educada e barata. Quando o Reich desintegrou-se, em doideira maior que a vida há 70 anos, o novo pacto realizava um sonho. Como diz Todd, há hoje “dois mundos industriais desenvolvidos”, os EUA e “esse novo império alemão”. 
 
Para ele, a Rússia é “questão secundária” e ele ainda não examinou o longo jogo da China. Portanto, ele não está focado – como eu estou – nos muitíssimos movimentos rumo à integração da Eurásia. Mas o que captura a atenção de Todd é, também, um thriller para muito tempo, “um futuro completamente diferente para os próximos vinte anos, que não é o conflito Oriente-Ocidente”: a Alemanha cresce; e EUA e Alemanha inevitavelmente colidirão, tudo outra vez. Afinal, parece que a história se repete mesmo como farsa (letal).
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Notas dos tradutores
[1] Sobre o mesmo assunto, ver também 8/5/2015, redecastorphoto: Novo livro de Jean-Luc Mélenchon e o arenque de Bismark [Le Hareng de Bismarck. Le poison alemand [O arenque de Bismark. O veneno alemão], Paris: Plon, 2015 [artigo traduzido].
[2] [Melhor falar de] democracia Herrenvolk, ou seja, de democracia que vale somente para o “povo dos senhores” [Domenico Losurdo, em 7/6/2013, resistir.info: A “democracia para o povo dos senhores”, no passado e no presente
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: SputinikTom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009. 
− Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Pepe Escobar – Rússia: Jogo de poder por trás da “mudança de regime”

16/3/2015, [*] Pepe EscobarSputnik
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Império do Caos

Com “amigos” como o Presidente do Conselho da Europa, Donald Tusk e o comandante da OTAN general Philip Breedlove [literalmente “filho do amor”, ou, mais, “da raça do amor” (NTs)], a União Europeia (UE) com certeza não precisa de inimigos.

O general Breedhate [literalmente “filho do ódio”, ou, mais, “da raça do ódio”(NTs)] anda encarnando seu melhor arremedo de Dr. Fantástico, a alertar que a Rússia-do-mal está invadindo a Ucrânia todos os dias. O establishment político alemão não está gostando.

Tusk, no encontro com o presidente Obama dos EUA, virou de cabeça para baixo a máxima “Divide e Impera”: insistiu que “adversários estrangeiros” tentam dividir os EUA e a União Europeia (EU) – por mais que, na verdade, sejam os EUA que só fazem tentar dividir a Rússia e a União Europeia. Na mesma linha, culpou a Rússia – que se teria aliada ao falso Califato do ISIS/ISIL/Daesh.

O que Tusk está(ria) fazendo? A UE que assine o sistema fraudulento concebido pelos EUA-empresa, conhecido como Tratado Transatlântico de Parceria para Comércio e Investimento [orig. Transatlantic Trade and Investment Partnership (TTIP)], nada além de uma OTAN comercial. E daí em diante o “ocidente” reinará para sempre.

A OTAN pode, sim, realmente, encarnar o paradoxo geopolítico/existencial máximo: uma aliança que existe para administrar o caos que ela mesma cria e ceva.

E ainda, orbitando em torno da OTAN, há muitas outras táticas diversionistas até onde a vista alcança. Considerem-se as mais recentes jaculatórias do conhecido russófobo Dr. Zbigniew “Grande Tabuleiro de Xadrez” Brzezinski. Em conferência no Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais, o Dr. Zbig pregou que EUA e Rússia devam acertar entre elas que, no caso de a Ucrânia vir a ser membro da UE, ela nunca será membro da OTAN.

Zbigniew Brzezinski
Ora, ora, caro Doctor, temos um problema. A UE tem interesse zero em incorporar um estado falido, mantido vivo artificialmente (sistema caríssimo de vida artificial) pelo FMI, e mergulhado, tecnicamente, numa guerra civil.

Por outro lado, os EUA têm interesse monolítico, não diviso, em meter a Ucrânia como membro da OTAN: aí está todo o fundamento digamos “racional” para a incansável demonização pós-Maidan, do Presidente Putin da Rússia.

Digamos que seja manobra do Dr. Zbig; pensamento maníaco-desejante de neoconservador; coisa pela qual algumas facções do Império do Caso/Masters of the Universe morreriam; ou todas as anteriores; o alvo definitivo, radical, é conseguir “mudar o regime” na Rússia e esquartejar a Rússia. A inteligência russa sabe tudo dessa “história secreta”.

A reação igual e contrária, da Rússia, exige que, para haver qualquer acordo, só se se acabarem as sanções contra a Rússia; fim do ataque especulativo contra o rublo/guerra dos preços do petróleo; todos os países do leste europeu fora da OTAN; a Crimeia reconhecida como parte da Federação Russa; o leste da Ucrânia convertido em região autônoma, mas ainda como parte da Ucrânia.

Todos sabemos que, tão cedo, não acontecerá (se algum dia acontecer). Assim, o mais provável é que continue essa horrível atmosfera de Guerra Fria 2.0 – além de campanha de incansável demonização da Rússia, que já começa a dar seus frutos.

Uma nova pesquisa Gallup mostra que mais americanos veem hoje a Rússia – mais que a Coreia do Norte, a China e o Irã – como inimigo público n. 1 dos EUA e como principal ameaça contra o ocidente.


O sonho do Império do Caos, de conseguir “mudança de regime” na Rússia, sempre foi condição absoluta para que os EUA controlem grandes porções da Eurásia. Um fantoche em Moscou – cópia carbono de Yeltsin, o pateta beberrão – facilmente “liberaria” todos os imensos recursos naturais da Rússia para o “ocidente”, junto com os dos “-stões” contíguos, na Ásia Central, como brinde.

Oleogasodutostão - transporte dos tubos
Se, por outro lado, a Rússia mantém sua influência, mesmo indireta, na Ucrânia e sobre o petróleo e gás natural da Ásia Central, Moscou é capaz de se projetar outra vez como superpotência. Como se vê, é sempre sobre a dominação do Oleogasodutostão Eurasiano; tudo que não seja isso significa como ameaça direta ao mundo unipolar.

inteligência russa está bem consciente da incansável pressão dos EUA sobre a Rússia, com vistas a arrancar pedaços da Rússia, enfraquece-los, até que a Rússia seja convertida em terra devastada e caos, não diferente de Iraque ou Iêmen – com seus recursos naturais fluindo livremente para o “ocidente”.

Esse é o motivo pelo qual a pressão continua gigantesca, já alcançando proporções de guerra nuclear. Mas alguns adultos na UE, parece, estão começando a entender do que realmente se trata.

A UE simplesmente não tem dinheiro para realmente investir nos “-stões” da Ásia Central ou para bombear bilhões de euros (desvalorizados) em oleogasodutos através do Azerbaijão. Líbia, Nigéria e o Oriente Médio (do Iraque até o Iêmen) são uma confusão só. A UE não recebe nenhuma garantia de fornecimento de energia, nem do Oriente Médio nem do Norte da África. E se não receber garantias da Rússia, de que a energia continuará a fluir até lá, não terá nenhuma garantia, de coisa alguma.

Esse conjunto de circunstâncias expõe o fantasma de uma Guerra Fria 2.0 que vai esquentando muito perigosamente. Desnecessário dizer, Polônia, Ucrânia e outros leste-europeus desamparados nunca passarão de peões, se explodir guerra civil total na Ucrânia – objetivo explícito daquela Terra do Nunca, o Kaganato de Nulands, ou Nulandistão.

Num cenário – admitidamente aterrorizante – de guerra, a Rússia fechará o espaço aéreo do leste da Ucrânia servindo-se de seus sofisticados mísseis de defesa. Pela primeira vez na história seriam usadas armas nucleares táticas. A Europa lá ficaria, basicamente sem defesas, no caso de os Drs. Fantásticos da OTAN serem tentados a iniciar guerra nuclear total.

Seja como for, os Mísseis Balísticos Cruzadores Intercontinentais e mísseis cruzadores e jatos de caça da OTAN não fariam nem cócegas nos sistemas S-400 e S-500 de mísseis russos de defesa.

S-400 - Mísseis anti-aéreos (2009)
(clique na imagem para aumentar)
S-500 - Mísseis anti-aéreos (2014)

Provocar o urso russo é posição perdedora. A Rússia já desligou-se do Tratado sobre Forças Convencionais na Europa – o que é negócio realmente sério (a OTAN está mais que muito alarmada). E, isso, ainda sem falar que Moscou já anunciou que tem pleno direito de instalar (e talvez já tenha instalado) armas nucleares na Crimeia. Enquanto isso, os militares russos continuam a testar as defesas inimigas, mandando seus aviões voar sobre o perímetro protegido pela OTAN.

A Eurásia balança de um minuto para outro, entre reconciliação e provocação. Cui bono?Quem ganha com isso? Moscou é mestra em manter Washington e OTAN cercadas, num mar de palpites.

Isso é que é cantar! (vídeo a seguir)


Putin foi o primeiro a propor, anos atrás, que se criasse uma rota comercial que iria de Lisboa a Vladivostok, incluindo também a China, usando trens de alta velocidade para evitar os oceanos e mares controlados pelos EUA. Foi o plano original movido a comércio, em vez de alguma aliança China-Rússia contra a OTAN.

O que o Império do Caos conseguiu na Ucrânia, pelo menos por enquanto, foi dividir a Eurásia em três blocos em disputa entre eles: Alemanha-França aliadas aos EUA (mas os dois países já muito preocupados com os “desenvolvimentos” da “aliança”); a Rússia; e a China perturbada pelo Japão. Mais uma vez, é “Divide e Impera” – com os EUA como hegemon perpétuo, sempre capaz de adaptar e acionar sua proverbial estratégia de política exterior: “Bombardeie e Abuse”.

Mas a ópera (geopolítica) só acaba depois que a dama gorda canta. [2] A parceria estratégica Rússia-China continua a evoluir – bastará ver as próximas reuniões dos BRICS e da Organização de Cooperação de Xangai na Rússia, nesse verão.

A riqueza de petróleo e gás natural da Rússia e Ásia Central continuará a fazer a volta, de volta, para China e Ásia. E em poucos anos o mantra dos “Excepcionalistas que reinam sobre as ondas” deixará de ser fator determinante pró excepcionalistas.

Mudar o regime? Vão sonhando.
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[1] “Venha passear no meu cruzeiro”: Frankie Ford, em "Sea Cruise" (cruzeiro marítimo). Levado ao ar no programa Saturday Night Beech-Nut Show, 21/3/1959. Vídeo a seguir:


[2] No orig. Yet it ain’t over till the fat (geopolitical) lady singsSobre “Depois que a dama gorda canta”, vide Edward Hugh, 25/11/2012:

Os jornalistas financeiros em todo o mundo ficaram surpreendidos e intrigados quando ouviram, muito recentemente, Christine Lagarde utilizar uma estranha expressão. “Sabem: a coisa só termina depois que a dama gorda canta, como diz o ditado” – disse ela aos espantados jornalistas numa conferência de imprensa em Manila. Que senhora gorda, e o que é que ela canta, devem ter sido questões que atravessaram a mente de muitos dos presentes. Se fossem ver, descobririam que, longe de ser alguma nova deixa de sabedoria feminina que a Diretora-Geral do FMI quisesse transmitir, a frase, na verdade, tem origem no mundo machista dos negócios e dos comentadores desportivos de jogos cujo resultado se mantém incerto até ao último minuto, e, nos negócios, para significar que um negócio não está efectivamente fechado até que seja feito o último lance.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: SputinikTom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Adquira seu novo livro, Empire of Chaos, que acaba de ser publicado pela Nimble Books.  

quarta-feira, 4 de março de 2015

Três diabos-velhos senis & o fascismo de Vestfália

1/3/2015, [*] Wayne MADSENStrategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Nunca houve, não há hoje nem jamais haverá posição neutra da OTAN ou da União Europeia, sobre nenhuma questão na qual forças antiunipolares – como Rússia, China, Irã, Venezuela, Brasil e outras – se oponham às elites militares-bancárias de inteligência da aliança ocidental.


John McCain... 
O falcão-de-guerra-em-chefe Republicano e presidente da Comissão das Forças Armadas no Senado dos EUA, senador John McCain do Arizona, deu, numa única semana, extensivo mau uso à sua posição, para arregimentar opiniões de duvidosa validade de três agentes decrépitos da política de poder dos EUA.

Em rápida sucessão, o ex-Secretário de Estado Henry Kissinger; o general (aposentado) Brent Scowcroft, Conselheiro de Segurança Nacional dos presidentes Gerald Ford e George H. W. Bush; e Zbiginiew Brzezinski, Conselheiro de Segurança Nacional do presidente Jimmy Carter, falaram à Comissão presidida por um radiante McCain, sobre a necessidade de manter-se o sistema do Tratado de Vestfália, numa era em que as redes sociais e a internet ameaçam diretamente o sistema do estado-nação westfaliano concebido em 1648, depois da Guerra dos Trinta Anos.

É claro que o que McCain, Kissinger, Scowcroft e Brzezinski querem ver mantida é uma União Europeia federalizada e sempre em expansão, que agora está absorvendo lentamente como seus mais novos estados-nação westfalianos a Ucrânia, a Geórgia e a Moldávia.

Tratado da Westfália - Europa em 1648
(clique na imagem para aumentar)
A União Europeia, que mistura federalismo secular westfaliano com dogma do neo-Sacro-Império Romano, é militarmente apoiada por uma Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que age como os centuriões dos corretores do poder atlanticista de Washington, Londres e Berlim. Esse status quo tem de ser mantido a qualquer custo, segundo Kissinger, Scowcroft e Brzezinski – precisamente os três responsáveis pela conversão da Guerra Fria bloco-soviético vs OTAN do passado, na neo-Guerra Fria que hoje pôs a Rússia à beira da guerra contra a OTAN.

Embora não se possa adivinhar o que os três diabos-velhos senis da política de poder ocidental teriam em mente no apoio que dão ao sistema westfaliano, pode-se presumir com razoável certeza que estão defendendo um sistema mundial no qual uns poucos regimes elitistas ditam a política internacional para o resto do mundo.

Kissinger disse à comissão do Senado que vê a Europa do início dos anos 1600s e a Europa de hoje como entidades semelhantes, porque, nesses dois casos vê-se “uma multiplicidade de unidades políticas, nenhuma suficientemente poderosa para derrotar as demais, muitas aderidas a filosofias contraditórias com suas práticas internas, em busca de regras de neutralidade para regular as condutas e mitigar o conflito”. É claro que Kissinger trabalha para fazer-crer que a União Europeia e a OTAN fornecem “regras neutras” para que países em competição mitiguem seus conflitos.

É bem possível que Kissinger, que sofre de demência senil em estado avançado, realmente creia na panaceia da “governança” internacional que se discute naqueles conclaves elitistas tipo Grupo de Bilderberg, Conselho de Relações Exteriores e Fórum Econômico Mundial de Davos. 

PROCURADO
por crimes
contra a humanidade
Henry A. Kissinger
Nunca houve, não há hoje nem jamais haverá posição neutra da OTAN ou da União Europeia, sobre nenhuma questão na qual forças antiunipolares – como Rússia, China, Irã, Venezuela, Brasil e outras – se oponham às elites militares-bancárias-de-inteligência da aliança ocidental.

Mr. Kissinger destacou principalmente a necessidade de “construir o bloco da ordem europeia”, coisa que, disse ele, foi tão necessária depois da Guerra dos Trinta Anos quanto é necessária hoje. Kissinger defendeu o sistema de Vestfália como “injustamente atacado como sistema de manipulação cínica do poder, indiferente a requisitos morais”. Até parece que a longa história de Mr. Kissinger sempre apoiando ditaduras fascistas teria feito dele autoridade qualificada para falar sobre “moralidade” nas relações internacionais.

Para não ficar para trás, atropelado por Kissinger e seu elogio da ordem westfaliana, o general Scowcroft declarou que duas ameaças gêmeas – a sociedade da informação (especialmente o uso das mídias sociais para organizar a massa contra o status quopolítico) e a mudança climática – trazem o máximo perigo para a manutenção do Tratado de Vestfália. Scowcroft defendeu aplicadamente o sistema do estado-nação westfaliano, para delícia de McCain que o ouvia sorridente.

É o mesmo McCain que trabalhou para que houvesse guerras na Líbia, no Iraque e na Ucrânia – as quais realmente levaram à destruição desses três legítimos e bem constituídos estados-nação. Mas coerência nunca foi qualidade que se encontre em neoconservadores do tipo de McCain e outros, os mesmos que apoiam a ala do intervencionismo norte-americano que McCain coordena (?!) em todo o planeta.

Para Brzezinski, a ideia de Vestfália é unir a Europa contra a “ameaça” russa. Brzezinski, nacionalista polonês nada mitigado, que partilha a mesma filosofia com outro polonês nacionalista de direita, Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, nunca perdeu chance de culpar a Rússia, de acusá-la de crimes e ardis, e de ‘'exigir'’ a subjugação política, econômica e militar da Rússia à OTAN e à União Europeia.

Zbigniew Brzezinski
Na mente de Kissinger, Scowcroft e Brzezinski, a Europa hoje não é muito diferente da Europa do século XVII do Sacro Imperador Romano, Ferdinando III de Habsburgo; do cardeal Richelieu da França; do cardeal Mazarin, regente do rei infante Luiz XIV de França; e os diplomatas foram enviados pelos líderes de Espanha, Suécia, Países Baixos, Suíça e outros ducados e reinos menores, para Osnabruck e Munster, na Vestfália, com ordens de não sair de lá sem o Tratado de Vestfália firmado.

Em outras palavras – igualmente senis – diplomacia e destinos de nações sempre estarão em boas mãos, se entregues a elites não eleitas, como se fazia no século XVII. Os “três decrépitos” – Kissinger, Scowcroft e Brzezinski – não mudariam uma linha naquele século XVII. De fato, as políticas desses três foram, durante décadas, determinar o futuro do mundo em conclaves como os de Bilderberg, de Davos e outros desses encontros secretos.

O objetivo dos que montaram a marteladas o sistema westfaliano em 1648 era a continuação do feudalismo e do regime de servos-da-gleba na Europa. Depois que Vestfália reconheceu a independência da Holanda e da Suíça, com os direitos dos judeus holandeses perfeitamente preservados, Holanda e Suíça rapidamente se converteram em quartel-general do mercantilismo internacional mais livre-mercadista – que incluía o tráfico de escravos e os serviços internacionalizados de banking; na Holanda, o primeiro; na Suíça, os segundos.

Vestfália em 1648 e suas derivações de hoje são ardis montados para proteger os interesses das elites e da classe rica. Murmúrios de privilégio real ainda se ouvem hoje, na Europa, com o príncipe Henrik da Dinamarca, marido francês da rainha dinamarquesa, reclamando para si o direito de ser chamado de “Rei Consorte”, não “Príncipe Consorte”, título inferior.

Críticas contra o envolvimento da monarquia espanhola em negócios fraudulentos, e em torno de acusações de que a monarquia belga teria acobertado escândalos de pedofilia resultaram, de fato, em as “realezas’”se porem a atacar quem as criticasse, porque teriam incorrido no crime ancestral de lèse-majesté, que define como violação da lei qualquer crítica contra a realeza e a monarquia.

Os que advogam a favor de Vestfália tentam proteger uma plutocracia corrupta composta de monarquistas, militaristas, magnatas, inescrupulosos em geral na Europa, que trabalham em falange com fantoches neocolonialistas nos países em desenvolvimentos que devem para o FMI e o Banco Mundial. Como se viu com a manipulação das mídias sociais operada pela CIAe por George Soros para alcançar seus objetivos vestfalianos, a mídia social pode também ser usada contra as elites do poder que se agarram ao conceito de moderno estado-nação como seu único meio de sobrevivência.

Brent Scowcroft
Os defensores dos arranjos vestfalianos pretendem que o sistema deles advogaria sempre a favor de três princípios centrais:

(1) soberania do estado;
(2) igualdade dos estados; e
(3) não intervenção de um estado nos assuntos de outro.

Mas a subjugação da soberania de Grécia, Irlanda, Espanha, Itália e Portugal aos desígnios de eurobanqueiros e empresas financeiras globalistas obriga a descartar qualquer ideia de que respeitem alguma soberania de algum estado.

A aliança ocidental interveio nos assuntos internos da Sérvia, do Iraque, da Líbia, da Síria e, mais recentemente, também da Macedônia – o que mostra a falta de consideração à cláusula da não intervenção – que, para os vestfalianos, seria sua mais importante marca.

As potências da OTAN, sempre a ameaçarem a independência de Abkhazia, Ossetia do Sul, Transdnistria e Nagorno-Karabakh e a autodeterminação da Crimeia e do Donbass, mostram que o princípio vestfaliano da igualdade entre os estados não passa de amontoado de palavras vazias.

O mundo está mudando e deriva, em velocidade vertiginosa, para bem longe do grotesco pensamento de Vestfália.

Os únicos seres humanos que clamam ainda por governo vestfaliano são três diabos-velhos senis – Kissinger, Scowcroft e Brzezinsk – que deveriam estar cuidando, isso sim, de envelhecer com, afinal, alguma decência.

[*] Wayne Madsen é jornalista investigativo, autor e colunista. Tem cerca de vinte anos de experiência em questões de segurança. Como oficial da ativa projetou um dos primeiros programas de segurança de computadores para a Marinha dos EUA. Tem sido comentarista frequente da política de segurança nacional na Fox News e também nas redes ABC, NBC, CBS, PBS, CNN, BBC, Al JazeeraStrategic Culture e MS-NBC. Foi convidado a depor como testemunha perante a Câmara dos Deputados dos EUA, o Tribunal Penal da ONU para Ruanda, e num painel de investigação de terrorismo do governo francês. É membro da Sociedade de Jornalistas Profissionais (SPJ) e do National Press Club. Reside em Washington, DC.