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domingo, 26 de abril de 2015

Pepe Escobar: OTAN mata africanos no Club Med

23/4/2015, [*] Pepe EscobarSputnik
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Ver também: 
16/4/2015, Wayne MadsenStrategic Culture em: The Hillary Doctrine: «We Came, We Saw, They Died» (Doutrina Hillary: “Viemos, vimos, todos morreram”  traduzido no blog redecastorphoto)


Restos do naufrágio que matou mais de
300 migrantes africanos no Mediterrâneo
Todos recordam a coalizão OTAN/AFRICOM [Organização do Tratado do Atlântico Norte / Comando dos EUA na África] de vontades, “comandada” pelo rei Sarkô I da França, com o presidente Barack Obama dos EUA “liderando da retaguarda”, e o mote “Viemos, vimos, ele morreu” cunhado por uma ex-Secretária de Estado, hoje candidata à presidência dos EUA, com US$ 2,5 bilhões para gastar na campanha.

Pois bem, essa fabulosa coleção de imperialistas humanitários ainda está solta, agora matando – por procuração – nas águas do Mediterrâneo, também conhecido como “Club Med”, também conhecido como Mare Nostrum, depois de os mesmos imperialistas humanitários terem destruído um estado viável – a Líbia, república árabe secular – sob o falso pretexto de que estariam impedindo “um genocídio”.

Perguntado sobre o assunto hoje, uma vez que anda pontificando pontifica sobre o genocídio dos armênios, esse patético arremedo de Secretário-Geral da ONU, Ban-Ki Moon [1] talvez dissesse que o potencial massacre na Líbia não poderia – e a palavra decisiva aqui é “poderia” – de modo algum ser descrito nem como “crime atroz” [a definição genérica, pela ONU de três crimes: genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra(NTs)]

Os seis meses de ininterrupto bombardeio humanitário contra a Líbia, concebido para impedir que se consumasse um “crime atroz” absolutamente hipotético e improvável, terminou por “libertar” dessa vida para o outro mundo pelo menos 10 vezes mais pessoas que todas as escaramuças prévias entre tropas do coronel Gaddafi e “rebeldes” armados, a maioria dos quais milícias islamistas linha-duríssima, que hoje também já estão bem “libertadas” para disseminar o inferno dos jihadistas, da Líbia, no leste, até a Síria, no norte.

Os praticantes do imperialismo humanitário criaram, como lhes interessava, uma terra arrasada “libertada” – o que eles chamam de “vitória” – atravessada por milícias armadas; instalaram ali o mais absoluto caos, que alcança grande parte do Magreb e da África Ocidental, e desencadearam massiva crise humanitária.

Encalhados no MENA (Middle East-North of Africa)

O imperialismo humanitário que se vê aplicado à área que o Pentágono adora definir como MENA (Middle East-Northern Africa) [Oriente Médio-Norte da África] – da Líbia ao Iraque, Síria e agora também Iêmen, além das subguerras por procuração no Mali, Somália e Sudão – levou, segundo a Anistia Internacional, “ao maior desastre com refugiados desde a IIª Guerra Mundial”. A Anistia estima que, até 2014, não menos de 57 milhões de pessoas foram convertidas em refugiados.

Barco com migrantes de porto africano
Uma subtrama crucialmente importante é que, segundo a Organização Internacional sobre Migração [orig. International Organization on Migration (IOM)], o número de refugiados que morrem na tentativa de penetrar na Fortaleza Europa aumentou mais de 500% entre 2011 e 2014.

É que o imperialismo humanitarista, como o aplica o Pentágono/ OTAN/ AFRICOM, entregou as águas do Club Med ao reais vencedores: uma vasta rede de traficantes de seres humanos que inclui contrabandistas, policiais corruptos e até muitos “tera-ristas”. [2]

Em toda a Europa, só a Itália – para mérito dela – está indignada e disposta a receber pelo menos uma fração, de fato bem poucos, do massacrado povo africano dos botes. Afinal, o privilegiado porto de partida deles é a “libertada” Líbia, e o privilegiado porto de chegada é a Sicília italiana. França, Alemanha, a Grã-Bretanha e a Suécia vêm depois da Itália, com propostas ainda mais modestas.

Essa afásica parede de silêncio da UE/OTAN deve-se ao fato de que a Europa está convertida em saco de gatos de partidos políticos anti-imigrantes. Afinal os pressupostos imigrados são bodes expiatórios perfeitos. Como “nacionalistas” assustadiços os definem, eles achatam os salários; vivem dos serviços públicos; quase todos eles são criminosos; reproduzem-se como coelhos; destroem a “identidade nacional”; e, claro, há tantos “tera-ristas” entre eles, todos interessados em submeter a Europa ao chador e à lei da Xaria.

Dificilmente essa União Europeia assustada, devastada pela “austeridade”, subjugada pelo autoritarismo militarista da OTAN conseguirá mobilizar suficiente desejo e força para construir uma política comum, que dê resposta à tragédia do Club Med putrefato, afogado numa tsunami de cadáveres africanos. Grande parte da União Europeia, de fato, já suspendeu a Operação Mare Nostrum – e optou por policiar/controlar as águas da Fortaleza Europa, em vez de agir por princípios humanitários.

Chame a cavalaria de drones

Proposta modesta implica bombardear os barcos dos contrabandistas [de migrantes] ainda nos portos de origem, antes que se encham de sua trágica carga humana; sob a proteção da ONU, estabelecer ao longo do litoral “libertado” da Líbia estações de socorro humanitário para triar os elegíveis para receber asilo político na União Europeia; facilitar para esses a viagem por ar ou mar para as nações dispostas a recebê-los; ou – servindo-se da metodologia dos EUA – dronar o “inimigo” até reduzi-lo a farelo, os contrabandistas e seus financiadores. Afinal de contas, os drones norte-americanos são especialistas no assunto, operando sobre a tal para sempre infame “lista de matar” sob as ordens de Obama, e sem que a lei internacional tome conhecimento.

Drones usados na Líbia em 2011
Isso, contudo, jamais acontecerá. Como Nick Turse demonstra em livro recente que abre novos caminhos, a Líbia foi apenas a primeira guerra do AFRICOM (depois transferida para a OTAN, como examinei); o Pentágono tem planos muito mais sórdidos no seu crescente pivoteamento para a África.

Enquanto isso, aquelas gangues fabulosamente ricas em petróleo e gás no Golfo Pérsico – os mesmos que estão comprando todos os signos ostensivos de luxo entre Paris e Londres – estão ocupadas “criando” o cerne na maior crise de refugiados desde a IIª Guerra Mundial: na Síria, teatro privilegiado da próxima guerra daquelas mesmas gangues, contra o Irã.

E a hacienda de petróleo da Casa de Saud, com o Império do Caos “liderando pela retaguarda”, mas fornecendo as bombas, os jatos bombardeiros, a inteligência e a escalada (graças a nove naves de guerra dos EUA já despachadas para águas do Iêmen) – também está muito ocupada dando andamento à sua bombástica “Tempestade Decisiva” contra a mais pobre das nações árabes do planeta, preparando a cena para outro capítulo da crise de refugiados sempre em crescimento.

A OTAN permanece ocupadíssima treinando os bandidos de Kiev. Demonizar a Rússia rende muito mais “Relações Públicas” que lidar com os africanos.

No Afeganistão, os Talibã já anunciaram que a nova ofensiva da primavera começa nessa 6ª-feira (24/4/2015); a OTAN, cujo traseiro coletivo já foi chutado a valer por um punhado de Talibã armados com Kalashnikovs falsificadas, não estará, sequer, “liderando pela retaguarda”.

No fundo do Mare Nostrum, metido nos uniformes de putrefata gala, jaz o cadáver da União Europeia/OTAN civilizada.
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Notas dos tradutores:

[1] Sobre o jovem príncipe da Jordânia, que presidiu uma reunião do Conselho de Segurança da ONU, Ban-Ki Moon, a sumidade, declarou: O príncipe ainda nem completou 21 anos e já é um líder do século XXI. IMPRESSIONANTE!

[2] Tentativa de traduzir “terarists”, que é transliteração do modo como Bush pronuncia a palavra “terroristas”. Todas as correções e sugestões são bem-vindas.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: SputinikTom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Adquira seu novo livro, Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Pepe Escobar: Nova Rota da Seda encontra a União Eurasiana

10/4/2015, [*] Pepe EscobarSputnik News  
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


A Rota da Seda
(foto: Martha Jong-Lantink)
Qualquer delírio desejante – excepcionalista – de que Rússia e China abandonem sua sólida parceria estratégica “ganha-ganha”, cuidadosamente arquitetada para atender aos interesses nacionais dos dois países, foi atropelado por uma visita crucial que Wang Yi, Ministro de Relações Exteriores da China, fez a Moscou.

Em Moscou, Wang destacou que a política russa de “Olhar para o Leste” e a política chinesa de “Rumo ao Oeste” – que essencialmente inclui projeto massivo de Nova(s) Rota(s) da Seda – “criaram oportunidades históricas para incorporar as estratégias de desenvolvimento dos dois países”.

E que estão bem “incorporadas”, isso estão. A estratégia da Rússia de “Olhar para o Leste” não diz respeito só à China. É também sobre a integração eurasiana, que conta com as Novas Rotas da Seda da China – como Moscou precisa também da Ásia-Pacífico para desenvolver a Sibéria Oriental e o Extremo Oriente da Rússia.

A parceria estratégica em constante evolução não tem a ver só com energia – incluindo a possibilidade de investimentos controlados pela China em projetos russos cruciais de petróleo e gás – assim como na indústria da defesa; é cada vez mais assunto de investimentos, banking, finança e alta tecnologia.

O alcance da parceria é extremamente amplo, desde a cooperação Rússia-China dentro da Organização de Cooperação de Xangai, até a participação Rússia-China no novo banco de desenvolvimento dos BRICS e o apoio russo ao Banco Asiático de Investimentos em Infraestrutura, BAII [orig. Asian Infrastructure Investment Bank (AIIB)] liderado pelos chineses, passando pelo apoio russo à Fundação Rota da Seda que os chineses controlam.


Pequim e Moscou, com outros países BRICS, estão andando rapidamente em direção ao comércio independentemente do dólar norte-americano, usando suas próprias moedas. Paralelamente, estão estudando a criação de sistema alternativo ao sistema SWIFT de compensações internacionais – ao qual as nações europeias terão necessariamente de aderir, agora que já se integraram ao BAII. Por exemplo, em teoria a Alemanha poderia suportar perder seu comércio com a Rússia por causa da política de Berlim – embora para extremo desagrado dos industriais alemães. Mas em nenhum caso a Alemanha poderia deixar de comprar a energia russa. E perder seu comércio com a China é, para a Alemanha, absolutamente impensável.

O Trem Transiberiano com esteroides 

Dois dias antes de sua visita a Moscou, Wang já avançara vários passos quando, em reunião com o Ministro de Relações Exteriores da Mongólia, Lundeg Purevsuren, o chinês destacou que a Nova Rota da Seda desenvolverá uma “nova plataforma”, um corredor econômico trilateral unindo Rússia, China e Mongólia.

Wang fazia referência ao planejado corredor de transporte eurasiano – que será constituído de uma nova Estrada de Ferro Transiberiana, moderníssima, de alta velocidade, ao preço de US$ 278 bilhões, que conectará Moscou e Pequim, além de tudo que haja entre uma e outra, em apenas 48 horas.   

TGV Pequim-Moscou 7.000km e US$ 278 bi
Assim, inexoravelmente, coube ao próprio Wang ligar os pontos que Washington recusa-se a ver: “A construção do corredor econômico China-Mongólia-Rússia conectará o Cinturão Econômico da Roda da Seda da China, à estrada de ferro transcontinental que a Rússia planeja e ao programa da “Estrada da Pradaria” da Mongólia.

O que temos aqui, sobretudo, é(são) a(s) Nova(s) Estrada(s) da China diretamente conectada(s) à União Econômica Eurasiana (UEE) [orig. Eurasia Economic Union (EEU)]. China e UEE estão dedicadas a criar uma zona de livre comércio. Nada mais praticamente natural, uma vez que tudo aí tem a ver com a integração eurasiana. Detalhes serão discutidos na visita que o presidente Xi Jinping da China fará a Moscou em junho, para o Fórum Econômico de São Petersburgo.

A conexão chinesa do [gasoduto] Irã-Paquistão (IP)

Essa vertiginosa política chinesa de “Rumo ao Oeste” está, finalmente, desbloqueando um ponto difícil do jogo no Oleogasodutostão na Nova Rota da Seda: o gasoduto Irã-Paquistão (IP), que começou como IPI (incluindo a Índia) e foi incansavelmente atacado por dois presidentes norte-americanos, Bush e Obama, e bloqueado por sanções dos EUA.

O braço iraniano de 900 km, até a fronteira com o Paquistão, já está pronto. O que ainda falta construir do IP – quase 700 km, ao custo de US$ 2 bilhões – será quase integralmente financiado por Pequim, com o trabalho técnico realizado por uma subsidiária da China National Petroleum Corporation (CNPC). O presidente Xi deve anunciar o negócio em Islamabad, no final do mês.

Oleogasodutos existentes e propostos na Ásia
Assim sendo, o que temos aqui é o estilo ativo de interferência chinesa – “ganha-ganha” – para facilitar a construção de um cordão umbilical de aço e energia entre o Irã e o Paquistão, mesmo antes de as sanções contra o Irã serem levantadas, gradualmente ou não. Pode-se dizer que é o espírito empreendedor das Novas Rotas da Seda – capítulo sul da Ásia – em ação.

Claro que há também incontáveis benefícios para Pequim. O Irã já é questão de segurança nacional para a China – como grande fornecedor de petróleo e gás. O gasoduto passará pelo estratégico porto de Gwadar no Oceano Índico, que já é administrado pelos chineses. O gás pode assim ser embarcado para a China por mar ou – melhor ainda – se pode construir nos próximos anos um novo gasoduto, de Gwadar a Xinjiang, paralelo à autoestrada Karakoram, que contornará portanto o Estreito de Malacca, um dos objetivos cruciais da complexa estratégia chinesa de diversificação no campo da energia.

E há também o Afeganistão – o qual, do ponto de vista de Pequim, encaixa-se no projeto da Nova Rota da Seda como corredor para recursos, entre o sul e o centro da Ásia.

Idealmente, Pequim quer investir no desenvolvimento da infraestrutura, para ter acesso aos recursos do Afeganistão e assim firmar mais uma ponte por terra de Xinjiang à Ásia Central e dali até o Oriente Médio. Atualmente, produtos Made in China têm de ser exportados para o Afeganistão via Paquistão. 

Bacia do rio Amu-Darya, petróleo
As empresas CNPC e China Metallurgical Group Corp. já estão no Afeganistão, investindo na bacia de petróleo do rio Amu Darya e na mina gigante de cobre em Anyak. Não tem sido fácil, mas já é um começo. Ambas, Rússia e China, dentro da Organização de Cooperação de Xangai, têm profundo interesse em um Afeganistão estável, maduro para os negócios da Nova Rota da Seda e da UEE. A questão chave, aí, é como manter os Talibã “satisfeitos” (sem dúvida, sim, mas sem usar métodos de Washington).

Enquanto isso, a “proposta” do Pentágono para o que o novo chefe Ash Carter descreve como “essa parte do mundo” é meter lá – e o que seria, senão isso?! – novas armas, desde o sistema de mísseis de defesa THAAD ainda em produção, até os mais modernos bombardeiros stealth e unidades de ciberguerra. Cooperação econômica eurasiana? Esqueçam! Para o Pentágono e para a OTAN – a qual, por falar dela, acaba de ser derrotada pelos Talibã numa guerra que durou 13 anos – cooperação econômica é coisa para mariquinhas.

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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: SputinikTom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.

− Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Pepe Escobar – Rússia: Jogo de poder por trás da “mudança de regime”

16/3/2015, [*] Pepe EscobarSputnik
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Império do Caos

Com “amigos” como o Presidente do Conselho da Europa, Donald Tusk e o comandante da OTAN general Philip Breedlove [literalmente “filho do amor”, ou, mais, “da raça do amor” (NTs)], a União Europeia (UE) com certeza não precisa de inimigos.

O general Breedhate [literalmente “filho do ódio”, ou, mais, “da raça do ódio”(NTs)] anda encarnando seu melhor arremedo de Dr. Fantástico, a alertar que a Rússia-do-mal está invadindo a Ucrânia todos os dias. O establishment político alemão não está gostando.

Tusk, no encontro com o presidente Obama dos EUA, virou de cabeça para baixo a máxima “Divide e Impera”: insistiu que “adversários estrangeiros” tentam dividir os EUA e a União Europeia (EU) – por mais que, na verdade, sejam os EUA que só fazem tentar dividir a Rússia e a União Europeia. Na mesma linha, culpou a Rússia – que se teria aliada ao falso Califato do ISIS/ISIL/Daesh.

O que Tusk está(ria) fazendo? A UE que assine o sistema fraudulento concebido pelos EUA-empresa, conhecido como Tratado Transatlântico de Parceria para Comércio e Investimento [orig. Transatlantic Trade and Investment Partnership (TTIP)], nada além de uma OTAN comercial. E daí em diante o “ocidente” reinará para sempre.

A OTAN pode, sim, realmente, encarnar o paradoxo geopolítico/existencial máximo: uma aliança que existe para administrar o caos que ela mesma cria e ceva.

E ainda, orbitando em torno da OTAN, há muitas outras táticas diversionistas até onde a vista alcança. Considerem-se as mais recentes jaculatórias do conhecido russófobo Dr. Zbigniew “Grande Tabuleiro de Xadrez” Brzezinski. Em conferência no Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais, o Dr. Zbig pregou que EUA e Rússia devam acertar entre elas que, no caso de a Ucrânia vir a ser membro da UE, ela nunca será membro da OTAN.

Zbigniew Brzezinski
Ora, ora, caro Doctor, temos um problema. A UE tem interesse zero em incorporar um estado falido, mantido vivo artificialmente (sistema caríssimo de vida artificial) pelo FMI, e mergulhado, tecnicamente, numa guerra civil.

Por outro lado, os EUA têm interesse monolítico, não diviso, em meter a Ucrânia como membro da OTAN: aí está todo o fundamento digamos “racional” para a incansável demonização pós-Maidan, do Presidente Putin da Rússia.

Digamos que seja manobra do Dr. Zbig; pensamento maníaco-desejante de neoconservador; coisa pela qual algumas facções do Império do Caso/Masters of the Universe morreriam; ou todas as anteriores; o alvo definitivo, radical, é conseguir “mudar o regime” na Rússia e esquartejar a Rússia. A inteligência russa sabe tudo dessa “história secreta”.

A reação igual e contrária, da Rússia, exige que, para haver qualquer acordo, só se se acabarem as sanções contra a Rússia; fim do ataque especulativo contra o rublo/guerra dos preços do petróleo; todos os países do leste europeu fora da OTAN; a Crimeia reconhecida como parte da Federação Russa; o leste da Ucrânia convertido em região autônoma, mas ainda como parte da Ucrânia.

Todos sabemos que, tão cedo, não acontecerá (se algum dia acontecer). Assim, o mais provável é que continue essa horrível atmosfera de Guerra Fria 2.0 – além de campanha de incansável demonização da Rússia, que já começa a dar seus frutos.

Uma nova pesquisa Gallup mostra que mais americanos veem hoje a Rússia – mais que a Coreia do Norte, a China e o Irã – como inimigo público n. 1 dos EUA e como principal ameaça contra o ocidente.


O sonho do Império do Caos, de conseguir “mudança de regime” na Rússia, sempre foi condição absoluta para que os EUA controlem grandes porções da Eurásia. Um fantoche em Moscou – cópia carbono de Yeltsin, o pateta beberrão – facilmente “liberaria” todos os imensos recursos naturais da Rússia para o “ocidente”, junto com os dos “-stões” contíguos, na Ásia Central, como brinde.

Oleogasodutostão - transporte dos tubos
Se, por outro lado, a Rússia mantém sua influência, mesmo indireta, na Ucrânia e sobre o petróleo e gás natural da Ásia Central, Moscou é capaz de se projetar outra vez como superpotência. Como se vê, é sempre sobre a dominação do Oleogasodutostão Eurasiano; tudo que não seja isso significa como ameaça direta ao mundo unipolar.

inteligência russa está bem consciente da incansável pressão dos EUA sobre a Rússia, com vistas a arrancar pedaços da Rússia, enfraquece-los, até que a Rússia seja convertida em terra devastada e caos, não diferente de Iraque ou Iêmen – com seus recursos naturais fluindo livremente para o “ocidente”.

Esse é o motivo pelo qual a pressão continua gigantesca, já alcançando proporções de guerra nuclear. Mas alguns adultos na UE, parece, estão começando a entender do que realmente se trata.

A UE simplesmente não tem dinheiro para realmente investir nos “-stões” da Ásia Central ou para bombear bilhões de euros (desvalorizados) em oleogasodutos através do Azerbaijão. Líbia, Nigéria e o Oriente Médio (do Iraque até o Iêmen) são uma confusão só. A UE não recebe nenhuma garantia de fornecimento de energia, nem do Oriente Médio nem do Norte da África. E se não receber garantias da Rússia, de que a energia continuará a fluir até lá, não terá nenhuma garantia, de coisa alguma.

Esse conjunto de circunstâncias expõe o fantasma de uma Guerra Fria 2.0 que vai esquentando muito perigosamente. Desnecessário dizer, Polônia, Ucrânia e outros leste-europeus desamparados nunca passarão de peões, se explodir guerra civil total na Ucrânia – objetivo explícito daquela Terra do Nunca, o Kaganato de Nulands, ou Nulandistão.

Num cenário – admitidamente aterrorizante – de guerra, a Rússia fechará o espaço aéreo do leste da Ucrânia servindo-se de seus sofisticados mísseis de defesa. Pela primeira vez na história seriam usadas armas nucleares táticas. A Europa lá ficaria, basicamente sem defesas, no caso de os Drs. Fantásticos da OTAN serem tentados a iniciar guerra nuclear total.

Seja como for, os Mísseis Balísticos Cruzadores Intercontinentais e mísseis cruzadores e jatos de caça da OTAN não fariam nem cócegas nos sistemas S-400 e S-500 de mísseis russos de defesa.

S-400 - Mísseis anti-aéreos (2009)
(clique na imagem para aumentar)
S-500 - Mísseis anti-aéreos (2014)

Provocar o urso russo é posição perdedora. A Rússia já desligou-se do Tratado sobre Forças Convencionais na Europa – o que é negócio realmente sério (a OTAN está mais que muito alarmada). E, isso, ainda sem falar que Moscou já anunciou que tem pleno direito de instalar (e talvez já tenha instalado) armas nucleares na Crimeia. Enquanto isso, os militares russos continuam a testar as defesas inimigas, mandando seus aviões voar sobre o perímetro protegido pela OTAN.

A Eurásia balança de um minuto para outro, entre reconciliação e provocação. Cui bono?Quem ganha com isso? Moscou é mestra em manter Washington e OTAN cercadas, num mar de palpites.

Isso é que é cantar! (vídeo a seguir)


Putin foi o primeiro a propor, anos atrás, que se criasse uma rota comercial que iria de Lisboa a Vladivostok, incluindo também a China, usando trens de alta velocidade para evitar os oceanos e mares controlados pelos EUA. Foi o plano original movido a comércio, em vez de alguma aliança China-Rússia contra a OTAN.

O que o Império do Caos conseguiu na Ucrânia, pelo menos por enquanto, foi dividir a Eurásia em três blocos em disputa entre eles: Alemanha-França aliadas aos EUA (mas os dois países já muito preocupados com os “desenvolvimentos” da “aliança”); a Rússia; e a China perturbada pelo Japão. Mais uma vez, é “Divide e Impera” – com os EUA como hegemon perpétuo, sempre capaz de adaptar e acionar sua proverbial estratégia de política exterior: “Bombardeie e Abuse”.

Mas a ópera (geopolítica) só acaba depois que a dama gorda canta. [2] A parceria estratégica Rússia-China continua a evoluir – bastará ver as próximas reuniões dos BRICS e da Organização de Cooperação de Xangai na Rússia, nesse verão.

A riqueza de petróleo e gás natural da Rússia e Ásia Central continuará a fazer a volta, de volta, para China e Ásia. E em poucos anos o mantra dos “Excepcionalistas que reinam sobre as ondas” deixará de ser fator determinante pró excepcionalistas.

Mudar o regime? Vão sonhando.
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[1] “Venha passear no meu cruzeiro”: Frankie Ford, em "Sea Cruise" (cruzeiro marítimo). Levado ao ar no programa Saturday Night Beech-Nut Show, 21/3/1959. Vídeo a seguir:


[2] No orig. Yet it ain’t over till the fat (geopolitical) lady singsSobre “Depois que a dama gorda canta”, vide Edward Hugh, 25/11/2012:

Os jornalistas financeiros em todo o mundo ficaram surpreendidos e intrigados quando ouviram, muito recentemente, Christine Lagarde utilizar uma estranha expressão. “Sabem: a coisa só termina depois que a dama gorda canta, como diz o ditado” – disse ela aos espantados jornalistas numa conferência de imprensa em Manila. Que senhora gorda, e o que é que ela canta, devem ter sido questões que atravessaram a mente de muitos dos presentes. Se fossem ver, descobririam que, longe de ser alguma nova deixa de sabedoria feminina que a Diretora-Geral do FMI quisesse transmitir, a frase, na verdade, tem origem no mundo machista dos negócios e dos comentadores desportivos de jogos cujo resultado se mantém incerto até ao último minuto, e, nos negócios, para significar que um negócio não está efectivamente fechado até que seja feito o último lance.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: SputinikTom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Adquira seu novo livro, Empire of Chaos, que acaba de ser publicado pela Nimble Books.