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sexta-feira, 22 de agosto de 2014

O dilema dos sionistas liberais

Uma posição insustentável

20/8/2014, [*] Lawrence DavidsonCounterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Gaza - subúrbio de Shejaia bombardeado por Israel em 25/7/2014
O liberalismo, exposto como ideal sociopolítico, diz que os seres humanos são bons, e que o progresso social é alcançável. É uma visão de “copo meio cheio”. Dentro desse paradigma, todos os indivíduos, não só os membros de uma específica religião, raça ou nacionalidade deve ter direitos civis e políticos. Aqui tampouco o estado ou a lei são fins neles mesmos. São instrumentos para criar e manter um ambiente que promova a liberdade ao mesmo tempo em que reduz ao mínimo as desigualdades sociais. Perseguir esse ideal não impede ninguém de identificar-se com algum grupo religioso específico ou com algum grupo étnico. Mas impede, sim, qualquer aspiração a direitos exclusivos para o próprio grupo, em detrimento de todos os demais.

No ambiente ocidental, muitos judeus abraçam esse ideal liberal. Entendem que seja do seu próprio melhor interesse trabalhar na direção de construir ambiente no qual os direitos civis e humanos apliquem-se igualmente a todos, ao mesmo tempo em que trabalham para reduzir as desigualdades. Por exemplo, em meados do século XX, nos EUA, muitas organizações de judeus eram aliadas a organizações de negros, na luta dos negros norte-americanos por seus direitos civis e igualdade. Mas, como adiante se viu, era aliança complexa, que acabou por romper-se. O fim daquela aliança marcou o fim do movimento ativista dos judeus liberais nos EUA. O que teria acontecido?

Parte da resposta logo ficou evidente, depois da guerra israelenses-árabes de 1967. Naquele momento, muitos líderes da luta por direitos civis nos EUA deram-se conta de que Israel absolutamente não era, como dizia ser, sociedade muito liberal. Era sociedade que só acolhia um único grupo de seres humanos e discriminava contra todos os demais seres humanos que não se incluíssem naquele grupo. Quando essa questão começou a ser discutida dentro das comunidades e grupos das lutas por direitos civis, muitas organizações de judeus separaram-se do movimento e de suas lutas. E o que aconteceu aos liberais judeus? Viram-se forçados a escolher uma de três possibilidades:

(1) conservar o compromisso consciente com o ideal liberal e deixar de apoiar o estado sionista; ou
(2) renunciar ao ideal liberal e continuar a apoiar Israel, não liberal, de todo coração; ou
(3) calar-se em público enquanto, no privado, criticava a natureza cada vez mais racista de Israel. Muitos deles escolheram essa terceira via.

Um velho dilema

Considerada essa história, é simplesmente errado pensar sobre o atual dilema que os judeus liberais enfrentam, ante o comportamento dos israelenses, que traria alguma espécie de novidade. Os chamados sionistas liberais, como Peter Beinart, Amos Oz, Ari Shavit e Jonathan Freedland com certeza sabem, há décadas, que a noção de direitos civis e políticos iguais para judeus e não judeus nunca foi objetivo ou alvo do movimento sionista e que, portanto, tem baixa chance de vir a ser incorporada como noção e comportamento do estado israelense.


Pois agora, depois de três invasões massivas contra Gaza, depois do bloqueio desumano que continua, depois de repetidos massacres por israelenses, de civis palestinos, que se repetem incontáveis vezes desde, no mínimo, a “guerra de independência de Israel”, depois de incontáveis ações de roubo repetido de propriedades e de terra palestina, com implantação jamais contida de colônias ilegais em terra roubada, e depois de mais de 60 anos de estado israelense de inspiração policial e totalitária na Cisjordânia, reaparecem, dizendo-se afogados, repentinamente, num dilema liberal sionista digno de ocupar manchetes dos jornais.

Um dos argumentos que surgiram para explicar essa super adiada repentina angústia sionista liberal é que só recentemente esses indivíduos concluíram que a solução de Dois Estados está realmente sob grave ameaça. Por esse argumento, enquanto acreditaram que a solução de Dois Estados fosse possível, os sionistas liberais ainda podiam ter esperança de alcançar direitos civis e políticos iguais para judeus e palestinos, cada um no seu respectivo estado – e haveria dois. Essa explicação é enganosa.

Não é verdade que só recentemente a solução de Dois Estados tenha chegado às portas da morte. De fato, se essa “solução” algum dia esteve viva e foi possível (o que é questionável), já foi assassinada há tempos, no momento em que Menachem Begin mentiu ao presidente Jimmy Carter que garantiria “autonomia” progressiva aos palestinos. Foi em 1979. É difícil acreditar que liberais sionistas tão notáveis como os acima listados não tenham notícia desse evento.

Por tudo isso, por que, então, esse dilema liberal volta a ser assunto agora? Resposta mais acurada pode ser uma mudança na opinião pública. Só nos últimos dez anos, mais ou menos, é que a narrativa sionista sobre o conflito israelenses-palestinos perdeu o monopólio. Nesse mesmo período de tempo cresceu em todo o mundo o movimento de boicote contra Israel.

Menachem Begin mentindo para Jimmy Carter em 1979
Com os traços nada liberais do caráter de Israel cada dia mais publicamente criticados, ficou difícil manter a opinião de “terceira via”, acima. Como Jonathan Freedman nos diz no artigo que publicou na New York Review of Books, “The Liberal Zionists” ,[Os Sionistas Liberais], esse pessoal passou a ser atacado por todos os lados. O movimento sionista está-se fechando em posição de defesa, pode-se dizer, e já não está gostando de ouvir as críticas dos sionistas liberais, nem privadamente. Quer ver todo mundo batendo continência à bandeira de Israel.

Ari Shavit, autor e jornalista israelense mostra até onde essas pressões nacionalistas extremas podem levar os que ainda tentam manter-se liberais e sionistas. No seu livro mais recente, My Promised Land  ele escreve:

A escolha é clara, ou rejeitar o sionismo [o estado sionista de Israel] por causa de Lydda [um dos casos de civis massacrados por militares israelenses, usado como exemplo], ou aceitar o sionismo [o estado sionista] com Lydda e tudo. (...) Sendo preciso, ficarei ao lado dos condenados. Porque sei que sem eles o estado de Israel jamais teria nascido. (...) Fizeram o serviço sujo, imundo que permite que meu povo, eu, minha filha, meus filhos, vivamos.

Aí, se acabou totalmente o ideal liberal.

Encarar as contradições

Na verdade, a expressão “sionista liberal” jamais fez pleno sentido. O único modo de explicar que tenha sobrevivido é considerar a própria narrativa do sionismo como tal – a história de Israel como democracia que levaria o modelo ocidental para o coração do Oriente Médio. Se se acredita nisso, pode-se esquecer a brutalidade dos israelenses como escorregadelas eventuais, numa trilha de pensamento político predominantemente progressista e de respeito a princípios democráticos que supostamente dariam sustentação ao estado. Nesse contexto, poderia haver sionistas liberais que, vez ou outra, criticassem o mau comportamento dos israelenses.

Os Liberais Sionistas
Mas essa narrativa sionista é falsa. Jamais se deu o caso de uma ou outra ocasional escorregadela. O que há em Israel é a brutalidade inerente num estado que tem políticas e práticas racistas brutais que se repetem sempre e que visam a alcançar objetivos racistas (um país só para um grupo) – ao mesmo tempo em que repete uma história falsa, de encobrimento, excepcionalmente duradoura e resistente, segundo a qual Israel seria, afinal de contas, uma democracia liberal. Nunca foi. A direita israelense, tanto quanto os palestinos, sempre souberam que a história contada é falsa, que sempre foi engodo.

Agora, ante o mais recente massacre em Gaza, grande parte do mundo também já viu. Essa exposição pública, combinada às exigências dos sionistas que cobram lealdade cega, deixaram os liberais em situação absolutamente insustentável.

Ninguém consegue manter-se fiel ao princípio dos direitos civis e políticos iguais para todos, e, ao mesmo tempo, apoiar a existência de um estado sionista. Tentar tal coisa obriga o sujeito a amarrar-se dentro de uma contradição. Isso, exatamente é o que os liberais estão descobrindo a propósito do sionismo.

Agora, afinal, terão de fazer escolha verdadeira: ou deixam de ser sionistas ou deixam de ser liberais. Temo que, como Ari Shavit, muitos daqueles liberais optarão por alistar-se no “lado dos condenados”.
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[*] Lawrence Davidson, é professor aposentado de História da Universidade de West Chester, em West Chester, PA. Sua pesquisa acadêmica foi focada na história das relações exteriores americanas com o Oriente Médio. Ministrou cursos de História do Oriente Médio, História da Ciência e História Intelectual da Europa Moderna.
Lawrence Davidson nasceu em 1945 na Filadélfia, PA, em uma família judia secular. Em 1963, foi para a Universidade de Rutgers onde obteve seu bacharelato. Na Rutgers desenvolveu seu ativismo relativamente aos problemas que os EUA enfrentaram na década de 1960. Em 1967 se mudou para a Universidade de Georgetown onde concluiu o Mestrado.
Na Universidade de Georgetown, estudou História Intelectual Europeia Moderna com o Professor Hisham Sharabi de origem palestina. Sharabi e Davidson, posteriormente, se tornaram amigos íntimos e pode-se datar o seu interesse na Palestina, assim como as questões judaicas e sionistas, a partir daquele momento. Ainda em Georgetown (1968-1970) coincidiu com o auge da guerra do Vietnã e Davidson se tornou um dos membros fundadores dos Estudantes para uma Sociedade Democrática (SDS). Davidson conseguiu liderar grande mobilização contra a guerra do Vietnã e até teve que abandonar os EUA. Passou os seis anos seguintes no Canadá e obteve seu Ph.D. (1976), também em História Intelectual da Europa Moderna, na Universidade de Alberta, em Edmonton. Voltando aos EUA trabalhou muitos anos como professor adjunto em várias Universidades. Em 1989, Davidson ingressou na Faculdade de História na Universidade de West Chester (WCU), como professor adjunto. Permaneceu na instituição por 27 anos tendo mantido um registro de publicação cada vez mais produtivo. Aposentou-se da WCU em maio de 2013. Durante este período publicou inúmeros artigos em diferentes áreas, incluindo a História Médica, História da Educação e Política Externa dos EUA. Hoje escreve artigos para um sem número de publicações, entre as quais o Counterpunch.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Desastre ideológico: uma nação de cristãos fundamentalistas

20/10/2013, [*] Lawrence Davidson, Information Clearing House
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Cidade Medieval e suas várias guildas de trabalhadores
No século 18, o ocidente mudou do mercantilismo para o capitalismo. O mercantilismo era o sistema econômico que dava aos governos amplos poderes regulatórios sobre o comércio, sobretudo para garantir um equilíbrio comercial favorável. Também permitia que se organizassem poderosas guildas de trabalhadores, e protegia as indústrias domésticas. Mas a Revolução Industrial pôs fim ao mercantilismo e trouxe ao poder uma categoria de comerciantes que desejavam poder operar livremente, sem qualquer supervisão pelos governos.

Com o tempo a visão de mundo capitalista acabou por converter o “livre mercado” em fetiche, e passou a ver o governo como, no máximo, um mal necessário. Qualquer regulação era vista como equivalente à escravidão, e o papel do estado ficava reduzido a manter a ordem interna (polícia), defender o reino (militares) e fazer cumprir contratos (as cortes). Qualquer tipo de intromissão do governo nas questões sociais era reprovável, porque, como se dizia, promoveria a preguiça entre os pobres – ou foi esse o mito conveniente que então se implantou. A real razão pela qual era preciso manter num mínimo absoluto a ação do governo sempre foi que a então ascendente classe comercial temia – de fato, odiava e maldizia – os impostos.

Na Europa, as racionalizações pró-capital permaneceram basicamente seculares, buscando maximizar a eficiência, em nome do lucro. Mas nos EUA, onde praticamente nenhum bem ou nenhuma felicidade acontecem que não sejam da responsabilidade de um Deus que tudo vê, as racionalizações seculares passaram rapidamente a ser complementadas com a noção do desejo divino. Deus desejava liberdade econômica sem regulações e que prevalecesse o estado mínimo.

Charge by Bennett
Esse tipo de visão religiosa ainda existe. Hoje, a luta para que voltemos ao governo mínimo e ao máximo de “liberdade” econômica é conduzida por uma coleção de cristãos fundamentalistas de direita, e pelos doidos do movimento Tea Party.

No Brasil, há também a DETESTÁVEL bispa Marina Silva, a doida da “ecologia” à moda Al Gore, Banco Itaú & empresa Natura.

Chris Hedges delineia o que lhe parece o pior cenário imaginável, ao qual chegaremos comandados pela ânsia de poder da direita cristã, em seu recente artigo The Radical Christian Right and the War on the Government[A direita cristã radical e a guerra contra o governo]. Diz que “a face pública” dessa força política “aparece na Câmara de Deputados” e que seu principal objetivo ideológico é “trancar o governo”. Hedges também aponta o senador Ted Cruz do Texas como o político fundamentalista arquetípico, que comanda o ataque contra o “grande governo”. Para Hedges, seria só o primeiro passo com vistas ao real objetivo de homens como Cruz, que querem fazer dos EUA uma nação cristã fundamentalista.

Parte II – A luta

Na luta que se seguiu, o inimigo dos conservadores radicais é o Partido Democrata (ou “o governo grande”) em geral, e o presidente Obama em particular. Como indicação de o quando distorsiva e isolacionista a ideologia pode ser, pesquisas feitas com grupos focais [orig. focus groups] de Republicanos conservadores revelaram um medo profundamente fixado neles: uma teoria conspiracional.

Segundo os pesquisadores autores do estudo, “O que move a base Republicana (...) é uma crença sincera, genuína, de que Obama tem uma agenda secreta na qual trabalha e que visa e empurrar os EUA na direção do socialismo”. Eles também creem que Obama é o cabeça da conspiração. Parece ser um político que “veio não se sabe de onde” e, assim, é “movido por forças ocultas”. O grupo focal também revelou que a mesma crença existe em “dois de cada três que se identificaram como Republicanos”.

Nas eleições de 2010, uma violenta propaganda combinada para todos os distritos eleitorais ajudou a eleger Republicanos, e uma forte virada conservadora deu ao Partido Republicano o controle da Câmara de Deputados. Também levou para lá, eleitos, uma forte pluralidade de conservadores de direita. Unidos, esses políticos radicais e muitos de seus eleitores detonaram o tipo de concessão que há, ou deveria haver, no coração da democracia. Para os radicais, os seus princípios (radicais) são mais importantes que qualquer tipo de concessão democrática.

Sen. Ted Cruz (R-Texas) fala aos repórteres após derrota do "trancamento"
Essa atitude levou à recente confrontação política, com o trancamento do governo federal nos EUA e o quase-calote da dívida pública.

Poucos dias antes do calote, Republicanos moderados começaram a abandonar os conservadores radicais e manifestaram disposição de abrir mão de exigências como o fim do subsídio federal para o atendimento à saúde (popularmente conhecido como “Obamacare”); a eliminação do déficit do governo; e uma redução radical em todos os programas oficiais e no poder regulatório do Estado. Mas só quando o líder da maioria Republicana John Boehner afinal permitiu que se convocasse o plenário para votação aberta na Câmara de Deputados, é que aqueles moderados puderam somar-se aos seus colegas no Senado e produzir uma resolução que, afinal, restaurou o fluxo de dinheiro dentro do governo e salvou os EUA de terem de dar calote em suas dívidas públicas. Mas, ao fazê-lo, os moderados racharam ao meio o Partido Republicano.

Parte III – Uma vitória negada

O que os Republicanos moderados fizeram foi negar a vitória aos conservadores radicais. Porque, sim, os conservadores viam como vitória o fechamento do governo federal e o calote público. Ideologicamente, o objetivo desses radicais é reduzir ao mínimo o papel do governo na sociedade. Contavam com que a capacidade para “trancar” todo o funcionamento do governo federal dos EUA os poria em posição para negociar a minimização daquele governo.

Em segundo lugar, a campanha para reduzir impostos federais ao mínimo, pela construção de orçamentos esqueléticos, seria ajudada pela capacidade dos radicais conservadores para empurrar o Departamento do Tesouro até o fundo do despenhadeiro do calote. Todos os Republicanos conservadores teriam de sustentar essa dupla pressão tática, até que os Democratas cedessem. Exatamente o que os Democratas não podiam fazer, mas só não fizeram, em boa parte, graças à deserção dos Republicanos moderados.

Essa batalha ainda não acabou. A Resolução apoiada pelos Republicanos moderados abre o governo federal dos EUA até dezembro de 2013 e libera pagamentos dos juros da dívida até fevereiro de 2014. Então, o EUA enfrentaremos um segundo round de confrontação mortal.

Mas no longo prazo, as coisas não parecem bem paradas para o Partido Republicano. Muitos radicais conservadores já veem seus compatriotas moderados como piores do que qualquer Democrata liberal. Veem-nos como traidores “do princípio” – como políticos que se renderam, apavorados, à agenda “socialista” de Obama. Nessas circunstâncias, grande parte das energias do Partido serão consumidas em lutas internas autodestrutivas. O Partido Republicano corre agora o risco de ver sua base encolher, com moderados derrotados nas primárias correndo para o Partido Democrata, ou firmando posição como independentes. Eleitores democráticos poderão não se sentir motivados, ante o recente espetáculo do “trancamento”, a reeleger maioria Republicana para a Câmara de Deputados. Se isso acontecer, o Partido Republicano terá muito trabalho para manter-se vivo como entidade coesa.

Part IV – Conclusão

As ideologias são forma debilitante de visão rasa. A ideologia substitui a realidade por uma versão idealizada, que em geral pouco tem a ver com o mundo real e, portanto, é difícil pô-la em ação.

O aspecto econômico da ideologia dos radicais conservadores padece de anacronismo fatal. Antes, no século 19, levou a ciclos devastadores de crescimento e de desfalecimento, e deixou grande parte da população sem os serviços básicos. A Grande Depressão aí está, para não ser esquecida.

Quanto ao tamanho do governo e o alcance de suas atividades, é preciso ter em mente que há quase 317 milhões de pessoas nos EUA. Fazer retornar a estrutura do governo ao período pré-Grande Depressão (pior ainda: ao que foi no século 18) minaria completamente a estabilidade social, retirando todas as proteções sociais que mantêm ao largo a miséria mais total, e daria rédea solta a todos os preconceitos que a atual legislação federal desestimula. Ignorem tudo isso, e logo estarão enfrentando revolução de verdade. Os radicais conservadores são obsessivamente cegos a esses problemas, porque esses problemas põem abaixo os seus tais “princípios”.

Todas essas ideologias de visão curta, sejam de direita ou de esquerda, já se comprovaram pouco realistas, e falharam por isso. Infelizmente, geraram problemas terríveis, antes de morrer. Até aqui só vimos uma pálida sombra do potencial de desgraça do desafio ideológico que os EUA temos pela frente. Cabe desejar que consigamos evitar a grande tempestade. 
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[*] Lawrence Davidson é professor de História na West Chester University na Pennsylvania. É autor de Foreign Policy Inc.: Privatizing America’s National Interest;America’s Palestine: Popular and Offical Perceptions from Balfour to Israeli Statehood; e Islamic Fundamentalism.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Liberdade e Alta Ansiedade nos EUA


22/4/2013, Lawrence Davidson, Media With Conscience - MWC
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Lawrence Davidson
Os norte-americanos vivem a repetir que a insegurança pública é coisa que se vê em ditaduras, onde agentes do Estado podem arrombar a porta de sua casa e arrastar você preso, sem ordem judicial. Pois agora já acontece também nos EUA, mas só contra quem o governo decida chamar de “terrorista”. Talvez por ingenuidade, as pessoas comuns veem-se como imunes a esse tipo de tratamento. Mas a insegurança pública tem muitas raízes.

Os norte-americanos vivem hoje, mas quase nunca se dão conta, a evidência de que há uma correlação entre o conjunto relativamente amplo de liberdades que a democracia oferece nos EUA e uma população que vive em situação de alta ansiedade.

Eis alguns modos como isso funciona:

  • A liberdade econômica pode, em teoria, romper barreiras de classe e abrir oportunidades aos cidadãos que desejem empreender. Mas também deixa muita gente abjetamente pobre e produz um ambiente sociopolítico no qual líderes ideologicamente motivados hesitam em usar o poder do Estado para resolver as consequências da pobreza. Ser pobre é, quase sempre, estado de alta ansiedade.

  • As liberdades políticas podem ser viradas de cabeça para baixo em favor de interesses especiais bem organizados, com capacidade financeira para corromper o sistema político. Pode acontecer que 90% ou mais dos norte-americanos apoiem reformas nas leis sobre armas; é possível que se sentissem mais seguros se houvesse controle geral sobre os comerciantes de armas de fogo. Mas não faz diferença, porque essa maioria não sabe como usar com eficácia a própria liberdade política para alcançar esse objetivo. Por isso, os grupos de lobby que se especializam em fazer funcionar a máquina (como a Associação Nacional do Rifle [orig. National Rifle Association, NRA]) conseguem facilmente descartar os desejos da maioria e, como acaba de acontecer nos EUA, derrotam, no Senado, mesmo uma lei tão fraca que é quase inútil, de reforma da legislação sobre armas. Comandado pelo mesmo lobby de influência, o Senado rejeitará o recém criado Tratado da ONU para o Comércio de Armas [orig. UN Arms Trade Treaty]. Assim, o resto de nós e nossos filhos ficamos presos numa situação que é plenamente livre para os proprietários de armas, que podem dar asas às suas fantasias e delírios, mas que, para o resto de nós só gera alta ansiedade.

  • A liberdade de imprensa, como existe hoje, é talvez o fator que mais contribui para a insegurança pública, porque produz uma consistente concentração de tudo que há de pior. Acontece assim, ou porque os proprietários das empresas-imprensa e seus empregados, que literalmente selecionam as notícias que chegam até nós, ou têm, eles próprios uma visão de mundo que produz ansiedade ou, então, entendem que produzir ansiedade seja bom negócio. Tudo que seja espetaculosamente péssimo parece vender jornais e fazer crescer a audiência.

A essa altura, já se deve perguntar: e quem são os mais inclinados a usar a liberdade que lhes caiba – seja como fazedores e implantadores de medidas econômicas ou políticas, sejam os fabricantes de notícias nos veículos de imprensa-empresa, ou líderes de grupos de interesses – para promover práticas e políticas que estão gerando alta ansiedade para a vasta maioria?

Todos esses são protagonistas rígidos, gente de discurso único e problema único, que são qualquer coisa menos gente de mentalidade livre. E, de fato, é essa obcecação, essa fixação no discurso único e no problema único, que os torna cegos para os interesses e necessidades mais amplas da comunidade.


Tomem-se por exemplo os ideólogos cristãos e judeus que se reúnem em confrarias como Cristãos Unidos por Israel [orig. Christians United for Israel] e o Comitê Americano-Israelense de Negócios Públicos [orig. American Israeli Public Affairs Committee (AIPAC)]. O primeiro é uma clássica organização cristã-sionista que se diz “a maior organização pró-Israel nos EUA, que atende mais de 1,3 milhão de membros”. E o AIPAC, claro, é um dos grupos de lobby mais influentes no país. E como é que esses grupos “atendem” seus seguidores?


Um dos modos é porem-se a falar pelo país, tentando convencer o resto da população de que todos vivemos sob risco mortal, por causa de um Irã nuclear (para Israel, o Irã é país inimigo). Deram-se muito bem. Conseguiram implantar essa fantasia, geradora de ansiedade, na mente do público menos bem informado, mas também na mente de muitos membros do Congresso dos EUA.

Como eu sei que a ideia de um Irã que estaria construindo bombas atômicas é fantasia? Porque cada vez que os serviços de segurança do governo dos EUA são mandados investigar, eles vão, investigam, e declaram que nada disso existe. Muito estranhamente, esses diagnósticos não chegam às manchetes de jornais e redes de televisão.

Essas mesmas organizações sionistas também disseminam insegurança pública mediante a promoção da islamofobia – outra fantasia – que declara que todo e qualquer muçulmano nos EUA seria um agente da al-Qaeda. Como escreveu meu amigo Peter Loeb, de Boston: A palavra “terrorista” tornou-se sinônima de “árabe/muçulmano” na mentalidade norte-americana. A tal ponto que, se referindo às bombas na Maratona de Boston, jornalistas da rede ABC noticiam que: O mais terrível ataque em solo dos EUA desde o 11/9 deixou muitas pessoas ansiosas. Mas os muçulmanos norte-americanos esperam pela identidade do criminoso com particular terror.

O exemplo da Maratona de Boston

A recente ansiedade que atingiu a nação, por causa das bombas na Maratona de Boston, é bom exemplo do mundo exageradamente apavorante que a nossa liberdade (nesse caso a liberdade das empresas-imprensa) criou para nós.

Instante exato da explosão da bomba caseira na maratona de Boston
Se alguém ainda dedicar mais atenção aos fatos que ao que publica a imprensa-empresa, saberá que ataques terroristas não são numerosos, nem frequentes nos EUA; que, de fato, acontecem hoje em menor número que em outras épocas. Que a maioria deles não são obra de muçulmanos, mas de militantes que defendem os direitos dos animais. E que, de fato, a polícia norte-americana consegue hoje, melhor do que em outras épocas, enfrentar esse tipo de incidente. Mas nenhuma dessas boas notícias causa qualquer impacto, ante o impacto criado por qualquer evento que a imprensa-empresa produza e que gere ansiedade.

O caso da Maratona de Boston foi obra de dois jovens irmãos imigrados, chechenos étnicos. O mais velho, provavelmente o líder, parecia desencantado. Era atleta boxeador talentoso, que sonhava em competir pela equipe olímpica dos EUA. Mas soubera, recentemente, que, como “atleta estrangeiro” (ainda não era cidadão), nunca poderia competir em campeonatos nacionais oficiais dos EUA. Concluiu que “já não há valores” e que “as pessoas não podem controlar a própria vida”. Vale a pena anotar que não são sentimentos que floresceriam na mente de um muçulmano devoto.

Liberdade e Responsabilidade

Infelizmente, a liberdade, como é praticada nos EUA tem inúmeras falhas. Estimulou um individualismo impiedoso, que facilmente esquece os muitos pobres que vivem aqui, em níveis muito graves de pobreza. Permitiu que prosperasse uma mentalidade política de grupos de interesse que não rara vezes opera contra os interesses dos EUA, tanto no plano da política doméstica como nos planos das políticas externas.

E, sob a carapuça das livres empresas-imprensa, produziu um ambiente favorável ao exagero, ao delírio, à concentração em torno do mais espetacular, mais feio, mais sujo, mais negativo – que é só o que se encontra nas matérias jornalísticas.

Será que tudo isso torna as liberdades norte-americanas, em princípio, coisas ruins? Não. De modo algum. Mas nos obriga a encarar o fato de que essas liberdades, praticadas incondicionalmente, podem abrir espaço e dar rédea livre aos aspectos mais egoístas, menos comunitários, da psicologia humana. O resultado pode ser uma espécie de tiro pela culatra, de revide do negativo. Comunidade madura e inteligente saberia disso e imporia regulações não abusivas, para garantir que, ao lado das liberdades econômicas, políticas e de imprensa, viesse também um comportamento socialmente responsável.

É triste, mas a sociedade norte-americana não é muito inteligente nem madura. O que torna bem pouco esperáveis quaisquer movimentos para estimular algum comportamento socialmente responsável.

A ironia disso tudo é que é em nome de preservar as liberdades norte-americanas – nessa modalidade local de individualismo radical – que as elites mais poderosas e poderosos grupos organizados de interesses especiais continuarão a opor-se a qualquer esforço para criar regras que os obriguem a dar uso responsável às liberdades de que gozam. Consequência disso, os EUA estamos condenados a ver andar, sempre lado a lado, alta liberdade e alta ansiedade.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Lawrence Davidson: “Algo de podre no estado de Israel”


25/3/2013, Lawrence Davidson, To the point analysis 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Lawrence Davidson
Diz-se que o diabo arrasta com ele um fedor de fogo e enxofre. Os feitos do diabo são frequentemente descritos como “o mal mais alucinado” [1]. E quem pareça (seja ou não seja) inocente é sempre descrito como “cheirando a rosas”. Parece haver, pois, associação antiga entre feitos e fedores.

O exército israelense recentemente se empenhou em demonstrar essa associação. Dia 6 de março, o Middle East Monitor noticiou que:

...o exército de Israel atacou casas de palestinos na vila de Nabi Saleh com jatos de água podre de esgoto, como punição aos palestinos que organizavam protestos semanais contra o Muro do Apartheid construído em terra roubada. O grupo de defesa de direitos humanos B’Tselem publicou um vídeo (a seguir) no qual se veem caminhões-tanques blindados israelenses, armados com “canhões d’água”, lançando água podre de esgotos sobre casas de palestinos.


A água podre de esgoto é líquido tão mal-cheiroso que não há quem não se afaste para o mais longe que possa, de quem feda como fede aquela água podre. Não é a primeira vez que o exército de Israel usa esse tipo de tática imunda.

Os colonos sionistas orgulham-se muito da prática de lançar os esgotos bem longe das próprias colônias, quase sempre erguidas nas áreas mais altas, diretamente nos campos e cidades palestinas, nos vales abaixo. Ao que tudo indica, são práticas conhecidas e, muito provavelmente, aprovadas pelo estado de Israel.

Duvido que muitos dos israelenses envolvidos nessas manobras tenham algum dia lido O Inferno, de Dante. Naquele poema épico, o inferno é lugar afogado em esgoto e podridão: as ações dos israelenses parecem desejar reproduzir o mesmo cenário. Estarão os israelenses dedicados a converter em inferno a Terra Santa? Sim, pelo menos no que tenha a ver com os palestinos. Por isso os colonos e os soldados copiam os passos dos amaldiçoados de Dante.

David Ward
Até onde vai o fedor das ações dos israelenses? Com certeza chega até Londres. Recentemente, o deputado David Ward, do partido Democrático Liberal escreveu num livro de visitas do Memorial do Holocausto que:  

...tendo visitado Auschwitz duas vezes (...) muito me entristece ver que os judeus, vítimas de níveis inacreditáveis de perseguição durante o Holocausto, já estivessem, poucos anos depois de libertados daqueles campos de morte, a infligir tais atrocidades aos palestinos no novo Estado de Israel e que continuem a fazer o mesmo até hoje, diariamente, na Cisjordânia e em Gaza.

A referência que Ward fez a “os judeus” é qualificada, porque nem todos os judeus apoiam o sionismo, nem a ideia de que Israel tenha algum direito a ocupar “Judéia e Samaria”, muito menos a comandar pogroms  como se veem hoje, em ações de limpeza étnica em áreas que o estado israelense controla. A verdade é que cada dia mais e mais judeus norte-americanos manifestam-se contra o que Israel faz na Palestina.

Mas Ward acerta no que diz do comportamento do “estado judeu”. E é possível que a generalização errada, na frase de Ward, seja resultado da propaganda israelense, que nunca se cansa de repetir que Israel representa(ria) todos os judeus do mundo.

Mas nem todos dão sinais de desgostar do fedor que emana do estado de Israel: há os que gostam. O partido Liberal Democrático do deputado Ward chamou-o às falas, pelo crime de ter denunciado que os crimes do mal mais alucinado continua a ser praticados contra os palestinos, por autoproclamados representantes de todos os judeus.

Teria bastado uma advertência discreta, que lembrasse Ward de que, em todos os casos, devem-se evitar generalizações. Mas, usando processo semelhante ao que se vê nos regimes totalitários, o partido Liberal Democrático ordenou que o deputado

...procure a divisão do partido chamada Amigos de Israel, para informar-se sobre o correto linguajar que os deputados devem empregar sempre que falarem sobre o conflito Israel-palestinos.

O deputado obedeceu e distribuiu as exigidas desculpas públicas. Meu nariz fareja aí um horrível fedor de censura.

Mas uma coisa é punir alguém por chamar a atenção para o abjeto comportamento de Israel. Outra, diferente, é insistir no desatino de pretender que o que é insano e abjeto seria justo e bom. Haveria alguém suficientemente cínico, impiedoso, a ponto de impor a outros seres humanos esse tipo de castigo nauseabundo e em seguida elogiar o castigo e todo o fedor, ante as câmeras de televisão de todo mundo? Parece que há. Parece que vive em Washington, onde negar os fedores que emanam de Israel é prática quase unânime. Parece que é presidente dos EUA.

Dia 15/3, antes de partir para visitar Israel, o presidente Obama disse, em entrevista ao Canal 2 da televisão israelense (ver a seguir, em inglês e legendado em ídiche), que admira muito “os valores centrais” de Israel.


Em análise que publicou depois, o jornalista israelense Gideon Levy – que tem nariz honesto e fareja podridões onde as haja – perguntou:

Gideon Levy
...de que valores Obama falava? De desumanizar os palestinos? Da atitude contra migrantes africanos? Da arrogância? Do racismo? Do nacionalismo? Obama admira isso? Será que jamais, antes, ouviu falar de ônibus segregados (palestinos não entram)? Será que jamais antes ouviu falar de comunidades convivendo no mesmo território, uma com todos os direitos, a outra sem nenhum direito? Terá esquecido... tudo?!

Dizer que admira “os valores centrais” de um dos países mais racistas do mundo, onde há muro e políticas de apartheid, significa, isso sim, trair todos os valores centrais do movimento pelos direitos civis nos EUA – o movimento que tornou possível o milagre-Obama.

O caso é que, chegado a Israel, o presidente Obama disse que o apoio dos EUA àquela Israel que Levy descreve será “eterno”, forever. Deve-se acrescentar que, ao mesmo tempo, o presidente insistiu que os palestinos parem de querer o fim das construções nas colônias em território ocupado e das correspondentes políticas de esgoto podre... ou jamais terão qualquer conversação de “paz” com os israelenses.

No que tenha a ver com Israel, nem o presidente Obama, nem a maior parte dos políticos no Congresso dos EUA são capazes de ver a diferença entre o certo e o errado, entre o justo e o “mal mais alucinado”. Por isso vivem num mundo à parte, estanque, só deles, cujos parâmetros e “valores” são definidos e “ensinados” a eles por um lobby sionista ao qual se deram poderes orwellianos.

Nesse mundo excepcional, abunda o duplipensar. Racismo, apartheid, limpeza étnica e o uso tático de água podre de esgotos e Skunk desaparecem, substituídos por imaginários “valores centrais” que cheiram a rosas.

O presidente, se quiser, que se afogue o quanto queira, privadamente, nos fedores mais nauseabundos, e chame-os de cheiro de rosa o quanto queira. Mas quando tenta vender a nós todos a falcatrua, é a credibilidade de seus discursos que se vai pelo esgoto. Lembremos o que George Orwell ensinou sobre o mau uso do discurso político 

Usada para o mal mais desatinado, a fala política torna possível “defender o indefensável” e “foi construída para fazer mentiras soarem como verdades, para tornar respeitável o assassinato e para dar ao vento aparência de solidez”. A isso está reduzida a fala da maioria dos políticos, no que tenha a ver com Israel/Palestina.

Que isso continuará forever, como quer o presidente Obama, é puro exagero, hipérbole. Considere-se um recente relatório da CIA, que questiona a capacidade do estado sionista para conseguir sobreviver outros vinte anos.

A verdade é que o fedor que emana de Israel indica podridão sociopolítica intestina, tão podre quanto as táticas podres que Israel usa contra moradores não judeus. Mais cedo ou mais tarde, qualquer homem, qualquer mulher que ainda preserve boa consciência humana (e melhor se mantiverem também nariz honesto e em funcionamento) passarão a recusar a ter qualquer associação ou contato com esse estado, na prática, já estado de apartheid.



Nota dos tradutores

[1] Orig. most foul”. A expressão aparece em Hamlet, ato 1, cena 5, quando o espectro do rei assassinado conta a Hamlet sobre o crime de que foi vítima: Murder most foul, as in the best it is, but this most foul, strange and unnatural” [aprox. “Assassinato é sempre [o mal] mais alucinado, mas esse do qual falo é o mais alucinado de todos, estranho, contra a natureza”]. Foul sempre significa “mau”, em algum sentido. O espectro diz a Hamlet que, dentre os assassinatos, sempre o pior dos crimes, assassinar o próprio irmão é o crime pior.