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segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Desastre ideológico: uma nação de cristãos fundamentalistas

20/10/2013, [*] Lawrence Davidson, Information Clearing House
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Cidade Medieval e suas várias guildas de trabalhadores
No século 18, o ocidente mudou do mercantilismo para o capitalismo. O mercantilismo era o sistema econômico que dava aos governos amplos poderes regulatórios sobre o comércio, sobretudo para garantir um equilíbrio comercial favorável. Também permitia que se organizassem poderosas guildas de trabalhadores, e protegia as indústrias domésticas. Mas a Revolução Industrial pôs fim ao mercantilismo e trouxe ao poder uma categoria de comerciantes que desejavam poder operar livremente, sem qualquer supervisão pelos governos.

Com o tempo a visão de mundo capitalista acabou por converter o “livre mercado” em fetiche, e passou a ver o governo como, no máximo, um mal necessário. Qualquer regulação era vista como equivalente à escravidão, e o papel do estado ficava reduzido a manter a ordem interna (polícia), defender o reino (militares) e fazer cumprir contratos (as cortes). Qualquer tipo de intromissão do governo nas questões sociais era reprovável, porque, como se dizia, promoveria a preguiça entre os pobres – ou foi esse o mito conveniente que então se implantou. A real razão pela qual era preciso manter num mínimo absoluto a ação do governo sempre foi que a então ascendente classe comercial temia – de fato, odiava e maldizia – os impostos.

Na Europa, as racionalizações pró-capital permaneceram basicamente seculares, buscando maximizar a eficiência, em nome do lucro. Mas nos EUA, onde praticamente nenhum bem ou nenhuma felicidade acontecem que não sejam da responsabilidade de um Deus que tudo vê, as racionalizações seculares passaram rapidamente a ser complementadas com a noção do desejo divino. Deus desejava liberdade econômica sem regulações e que prevalecesse o estado mínimo.

Charge by Bennett
Esse tipo de visão religiosa ainda existe. Hoje, a luta para que voltemos ao governo mínimo e ao máximo de “liberdade” econômica é conduzida por uma coleção de cristãos fundamentalistas de direita, e pelos doidos do movimento Tea Party.

No Brasil, há também a DETESTÁVEL bispa Marina Silva, a doida da “ecologia” à moda Al Gore, Banco Itaú & empresa Natura.

Chris Hedges delineia o que lhe parece o pior cenário imaginável, ao qual chegaremos comandados pela ânsia de poder da direita cristã, em seu recente artigo The Radical Christian Right and the War on the Government[A direita cristã radical e a guerra contra o governo]. Diz que “a face pública” dessa força política “aparece na Câmara de Deputados” e que seu principal objetivo ideológico é “trancar o governo”. Hedges também aponta o senador Ted Cruz do Texas como o político fundamentalista arquetípico, que comanda o ataque contra o “grande governo”. Para Hedges, seria só o primeiro passo com vistas ao real objetivo de homens como Cruz, que querem fazer dos EUA uma nação cristã fundamentalista.

Parte II – A luta

Na luta que se seguiu, o inimigo dos conservadores radicais é o Partido Democrata (ou “o governo grande”) em geral, e o presidente Obama em particular. Como indicação de o quando distorsiva e isolacionista a ideologia pode ser, pesquisas feitas com grupos focais [orig. focus groups] de Republicanos conservadores revelaram um medo profundamente fixado neles: uma teoria conspiracional.

Segundo os pesquisadores autores do estudo, “O que move a base Republicana (...) é uma crença sincera, genuína, de que Obama tem uma agenda secreta na qual trabalha e que visa e empurrar os EUA na direção do socialismo”. Eles também creem que Obama é o cabeça da conspiração. Parece ser um político que “veio não se sabe de onde” e, assim, é “movido por forças ocultas”. O grupo focal também revelou que a mesma crença existe em “dois de cada três que se identificaram como Republicanos”.

Nas eleições de 2010, uma violenta propaganda combinada para todos os distritos eleitorais ajudou a eleger Republicanos, e uma forte virada conservadora deu ao Partido Republicano o controle da Câmara de Deputados. Também levou para lá, eleitos, uma forte pluralidade de conservadores de direita. Unidos, esses políticos radicais e muitos de seus eleitores detonaram o tipo de concessão que há, ou deveria haver, no coração da democracia. Para os radicais, os seus princípios (radicais) são mais importantes que qualquer tipo de concessão democrática.

Sen. Ted Cruz (R-Texas) fala aos repórteres após derrota do "trancamento"
Essa atitude levou à recente confrontação política, com o trancamento do governo federal nos EUA e o quase-calote da dívida pública.

Poucos dias antes do calote, Republicanos moderados começaram a abandonar os conservadores radicais e manifestaram disposição de abrir mão de exigências como o fim do subsídio federal para o atendimento à saúde (popularmente conhecido como “Obamacare”); a eliminação do déficit do governo; e uma redução radical em todos os programas oficiais e no poder regulatório do Estado. Mas só quando o líder da maioria Republicana John Boehner afinal permitiu que se convocasse o plenário para votação aberta na Câmara de Deputados, é que aqueles moderados puderam somar-se aos seus colegas no Senado e produzir uma resolução que, afinal, restaurou o fluxo de dinheiro dentro do governo e salvou os EUA de terem de dar calote em suas dívidas públicas. Mas, ao fazê-lo, os moderados racharam ao meio o Partido Republicano.

Parte III – Uma vitória negada

O que os Republicanos moderados fizeram foi negar a vitória aos conservadores radicais. Porque, sim, os conservadores viam como vitória o fechamento do governo federal e o calote público. Ideologicamente, o objetivo desses radicais é reduzir ao mínimo o papel do governo na sociedade. Contavam com que a capacidade para “trancar” todo o funcionamento do governo federal dos EUA os poria em posição para negociar a minimização daquele governo.

Em segundo lugar, a campanha para reduzir impostos federais ao mínimo, pela construção de orçamentos esqueléticos, seria ajudada pela capacidade dos radicais conservadores para empurrar o Departamento do Tesouro até o fundo do despenhadeiro do calote. Todos os Republicanos conservadores teriam de sustentar essa dupla pressão tática, até que os Democratas cedessem. Exatamente o que os Democratas não podiam fazer, mas só não fizeram, em boa parte, graças à deserção dos Republicanos moderados.

Essa batalha ainda não acabou. A Resolução apoiada pelos Republicanos moderados abre o governo federal dos EUA até dezembro de 2013 e libera pagamentos dos juros da dívida até fevereiro de 2014. Então, o EUA enfrentaremos um segundo round de confrontação mortal.

Mas no longo prazo, as coisas não parecem bem paradas para o Partido Republicano. Muitos radicais conservadores já veem seus compatriotas moderados como piores do que qualquer Democrata liberal. Veem-nos como traidores “do princípio” – como políticos que se renderam, apavorados, à agenda “socialista” de Obama. Nessas circunstâncias, grande parte das energias do Partido serão consumidas em lutas internas autodestrutivas. O Partido Republicano corre agora o risco de ver sua base encolher, com moderados derrotados nas primárias correndo para o Partido Democrata, ou firmando posição como independentes. Eleitores democráticos poderão não se sentir motivados, ante o recente espetáculo do “trancamento”, a reeleger maioria Republicana para a Câmara de Deputados. Se isso acontecer, o Partido Republicano terá muito trabalho para manter-se vivo como entidade coesa.

Part IV – Conclusão

As ideologias são forma debilitante de visão rasa. A ideologia substitui a realidade por uma versão idealizada, que em geral pouco tem a ver com o mundo real e, portanto, é difícil pô-la em ação.

O aspecto econômico da ideologia dos radicais conservadores padece de anacronismo fatal. Antes, no século 19, levou a ciclos devastadores de crescimento e de desfalecimento, e deixou grande parte da população sem os serviços básicos. A Grande Depressão aí está, para não ser esquecida.

Quanto ao tamanho do governo e o alcance de suas atividades, é preciso ter em mente que há quase 317 milhões de pessoas nos EUA. Fazer retornar a estrutura do governo ao período pré-Grande Depressão (pior ainda: ao que foi no século 18) minaria completamente a estabilidade social, retirando todas as proteções sociais que mantêm ao largo a miséria mais total, e daria rédea solta a todos os preconceitos que a atual legislação federal desestimula. Ignorem tudo isso, e logo estarão enfrentando revolução de verdade. Os radicais conservadores são obsessivamente cegos a esses problemas, porque esses problemas põem abaixo os seus tais “princípios”.

Todas essas ideologias de visão curta, sejam de direita ou de esquerda, já se comprovaram pouco realistas, e falharam por isso. Infelizmente, geraram problemas terríveis, antes de morrer. Até aqui só vimos uma pálida sombra do potencial de desgraça do desafio ideológico que os EUA temos pela frente. Cabe desejar que consigamos evitar a grande tempestade. 
_____________________


[*] Lawrence Davidson é professor de História na West Chester University na Pennsylvania. É autor de Foreign Policy Inc.: Privatizing America’s National Interest;America’s Palestine: Popular and Offical Perceptions from Balfour to Israeli Statehood; e Islamic Fundamentalism.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Karl Rove gera fúria dentro do “Velho Grande Partido” (GOP)


15/2/2013, DSWright, Firedoglake
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido numa conversa do “orelhão” da Vila Vudu: ... o ex-José Serra & o ex-FHC devem ler.. e APRENDER A LIÇÃO!

DSWright
Karl Rove poderia ter metido a viola no saco e dado por encerrado o seu trabalho, quando re-elegeu George W. Bush em 2004. Entraria para a história como uma das mais bem-sucedidas carreiras na moderna política dos EUA. Ficaria para sempre como estrategista mestre, temido pelos inimigos, admirado pelos amigos, convertido em mito por observadores de todos os partidos e orientações políticas.

Em vez disso, Rove insistiu em permanecer em cena além do tempo que lhe cabia e, hoje, já passa vergonha.

Depois de conseguir arrecadar centenas de milhões de dólares de doadores Republicanos sob a promessa de que Mitt Romney seria presidente, Rove afundou-se definitivamente (e publicamente), quando se recusou a aceitar que o presidente Obama vencera as eleições no estado de Ohio. Em vez de fazer-se ver como alguém cujo legado de mestria política perduraria como exemplo, deixou-se ver, ao vivo, ridículo, como caso lastimável de desespero e de incompetência.

Karl Rove, antigo assessor do ex-presidente George W. Bush
E agora, ainda se recusando a admitir que é mais do que hora de sumir de cena, Rove está gerando furiosa guerra civil dentro do Partido Republicano.

Karl Rove passou uma semana tentando explicar-se – aos Republicanos.

Desde que anunciou planos, dia 4/2, para gastar dinheiro nas primárias do Congresso Republicano para promover candidatos “elegíveis”, Rove consome-se tentando apagar incêndio em mato seco, depois que ativistas conservadores declararam-se em “guerra civil” contra Republicanos do establishment.

Na essência, Rove tenta afirmar-se como fazedor de reis, num partido que já sofreu consideráveis derrotas eleitorais – resultado do ‘'legado Bush'’. No novo projeto, Rove espera conseguir vetar candidatos ao Parlamento ou, no caso de os vetados não se conformarem, desqualificá-los.

A "carga" do Tea Party 
Não surpreendentemente, o Tea Party está furioso.

Grupos do Tea Party, âncoras conservadores de programas de rádio, ativistas conservadores e inúmeros Republicanos, vendo no grupo que Rove tenta criar uma tentativa de distorcer a manifestação eleitoral dos eleitores conservadores, reagiram furiosamente pela imprensa, nas páginas conservadoras na Internet e, claro, também pelo Twitter, onde a fúria já tem hashtag oficial: #CrushRove [esmague Rove].
Quem inventou que Karl Rove seria rainha do baile?” – ladrou Mark Levin, pelo rádio.

Se continuar a ira que Rove está criando, não só os Conservadores se revoltarão contra candidatos Republicanos, mas pode acontecer até de o Partido Republicano rachar ao meio, caso os ativistas do Tea Party sintam que ficaram sem voz. Rove está a ponto de destruir o Partido para o qual sonhou inventar maioria permanente. Patética herança do ex-grande guru!



domingo, 20 de janeiro de 2013

Direitonas: o passado vos condena


18/1/2013, Robert Parry, Consortium News
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Robert Parry
Um dos pilares em que se apoia a direita dos EUA é que respeitariam a história norte-americana e, especialmente, a Constituição, mais e melhor que o resto dos norte-americanos.

O que se vê cada dia mais claramente é que a direita nos EUA não apenas absorveu uma ideia gravemente distorcida do que seja a Constituição, como também muitos conservadores destacados têm compreensão aberrante da história dos EUA, como o demonstrou recentemente o senador Rand Paul.

Na 4ª-feira, o Republicano do Kentucky apareceu no noticiário da rede Fox News, insistindo em comparar as ordens executivas assinadas pelo presidente Barack Obama sobre armas e segurança, ao que fez Franklin Delano Roosevelt (FDR), presidente dos EUA durante grande parte da Grande Depressão e da Segunda Guerra Mundial.

Franklin Delano Roosevelt
Na “versão Paul” daquela história, “FDR tinha um pouco desse “complexo de rei”, como Obama. Então “tivemos de conter FDR, porque governou por tanto tempo que achou que seria presidente perpétuo. Hoje me preocupa muito que o presidente [Obama] acumule tantos poderes e tanta arrogância, que ‘'parece que pensa'’ que pode fazer o que quiser”.  

No que tenha a ver com FDR, Paul referia-se à 22ª Emenda, que passou a limitar a presidência a dois mandatos de quatro anos. Roosevelt foi o único presidente eleito mais de duas vezes (elegeu-se quatro vezes). Mas a 22ª Emenda nada teve a ver com “conter” o presidente Roosevelt.

Roosevelt morreu logo no início de seu quarto mandato, em 1945. A 22ª Emenda foi aprovada no Congresso em 1947 e ratificada pelos estados em 1951. Em outras palavras: Roosevelt já estava morto há vários anos, quando foi aprovada a 22ª Emenda.

Rand Paul
A história errada de Paul o põe em companhia de importantes Republicanos que se jactam de conhecer a história dos EUA e a Constituição, mas jamais se interessam por apresentar com correção os fatos históricos. Por exemplo, inúmeros candidatos potenciais à presidência pelo “Velho Grande Partido” [ing. Great Old Party, GOP] em 2012, inclusive o governador de Massachusetts, manifestaram perfeita ignorância de fatos básicos da Revolução Americana.

Mitt Romney, que foi governador durante quatro anos do estado onde começou a guerra revolucionária, escreve, em seu livro No Apology: The Case for American Greatness [Sem pedir desculpas: pela Grandeza Americana], que a Guerra Revolucionária teria começado em abril de 1775, quando os britânicos atacaram Boston, pelo mar. “Em abril de 1775, navios britânicos sitiaram o porto de Boston, e conseguiram tomar o comando da cidade” – escreveu Romney.

Sam Adams
A história real é outra: os militares britânicos já controlavam Boston desde muito antes de abril de 1775; os Redcoats [jalecos vermelhos] britânicos já cercavam a cidade rebelde desde 1768. O cerco fechou-se ainda mais depois do movimento Tea Party em Boston, dia 16/12/1773, depois do qual foram impostas as chamadas “Leis Intoleráveis” [orig. “Intolerable Acts”] em 1774, que reforçaram o cerco da cidade e interromperam o comércio pelo porto de Boston.

As ações agressivas dos britânicos forçaram os líderes dissidentes, Sam Adams e John Hancock, a escapar da cidade e refugiarem-se em Lexington, quando as milícias da colônia criavam arsenais de armas e munição em Concord, cidade próxima.

John Hancock
A Guerra Revolucionária não começou com o cerco de Boston, em abril de 1775, como Romney escreveu, mas quando os Redcoats aventuraram-se para fora de Boston, dia 19/4/1775, tentando capturar Adams e Hancock em Lexington e, em seguida, avançaram mais para o interior, tentando destruir os arsenais de armas dos colonos em Concord.

Os britânicos fracassaram nas duas tentativas, mas levaram à guerra, depois de matar oito homens de Massachusetts em Lexington Green. Depois disso, os Redcoats britânicos enfrentaram resistência feroz dos Minutemen [1] perto da Ponte Concord e foram forçados a recuar muito, até de volta a Boston, sofrendo baixas pesadas. Assim, a Guerra Revolucionária começou com retumbante vitória dos colonos, não com derrota – como se lê em livro que Romney diz ter escrito ele próprio.

Minutemen
A interpretação errada que Romney faz e divulga do início dessa guerra é ainda mais surpreendente, porque o estado de Massachusetts celebra anualmente as batalhas de Lexington e Concord, com feriado dito “Dia dos Patriotas”; a equipe dos Boston Red Sox faz um raro jogo matinal, em horário adequado para que a torcida possa deixar o [estádio] de Fenway Park a tempo para assistir o fim da Maratona de Boston [2].

Século errado, Estado errado

Rick Perry
Outros rivais, que disputavam a indicação Republicana à presidência, em 2012, também leram errado outros fatos históricos da fundação da nação.

O governador Rick Perry meteu a Revolução Americana nos anos 1500s. “A razão pela qual nós fizemos a revolução no século 16 foi para acabar, pode-se dizer, com aquela Coroa que nos roubava muito dinheiro” – disse Perry, errando por dois séculos, até a data da Guerra de Independência. Para ele, teria acontecido antes de a primeira colônia inglesa ser estabelecida no Novo Mundo, em Jamestown, Virginia, em 1607, no início do século 17!

Michele Bachman
No serviço de adular eleitores do movimento Tea Party em New Hampshire, a deputada Michele Bachmann de Minnesota pontificou: “Vocês são o estado de onde partiu o tiro que foi ouvido em todo o mundo, em Lexington e Concord”. (Confundiu-se, provavelmente, porque há uma cidade chamada Concord, New Hampshire, que nada tem a ver com outra, também Concord, mas em Massachusetts).

Ainda mais significativo, a Direita norte-americana meteu na cabeça de seus seguidores uma ideia-delírio sobre o que fez a Constituição dos EUA. A narrativa da fundação, no discurso da Direita, pula, da Declaração de Independência, em 1776, diretamente para a Constituição, que foi redigida em 1787 e ratificada em 1788. Eles apagam da história os “Artigos da Confederação”, que regeram a nação de 1777 a 1787.

Ao apagar os “Artigos”, a Direita pode inventar que a Constituição teria sido escrita com o objetivo de estabelecer um sistema dominado pelos estados, com governo central mantido pequeno e fraco. Em seguida, essa versão da história é citada em apoio de um discurso da Direita norte-americana, segundo o qual funcionários federais – como Roosevelt e Obama – estariam violando a Constituição quando procuram solução nacional para os problemas econômicos e sociais dos EUA.

George Washington
Mas, na história real, os homens que redigiram a Constituição [orig. Framers of the Constitution], especialmente George Washington e James Madison, rejeitavam ali a estrutura de unidades estaduais “independentes” e “soberanas” (e governo central fraco e a “liga de amizades”) que os “Artigos da Confederação” haviam estabelecido. Os Framers já haviam testemunhado o fracasso daquele sistema e sabiam o quando ameaçava o futuro da nova nação que acabava de declarar-se independente.

Por isso, Washington e Madison lideraram o que bem se pode chamar de “um golpe de Estado” na Convenção Constituinte, na Filadélfia. Embora só tivessem representação e instruções para sugerir emendas aos “Artigos” e devolver suas sugestões às Assembleias Estaduais, Washington e Madison descartaram integralmente os “Artigos” e produziram estrutura nova e dramaticamente diferente.

James Madison
Nesse movimento, foi-se pelo ralo o palavrório dos “Artigos” sobre unidades estaduais “soberanas” e “independentes”. E toda a soberania nacional foi direcionada para “Nós, o Povo dos Estados Unidos”. A nova Constituição tornou a lei federal superior a todas as outras, e assegurou a existência de um governo central, dando-lhe novos poderes sobre a moeda e o comércio e ampla autoridade para agir em nome do “Bem-estar geral” [orig. “general Welfare”].

Washington e Madison também cuidaram de cercar as Assembleias estaduais, impondo a primazia da nova Constituição, antes de qualquer convenção especial, e requerendo, para que a Constituição fosse ratificada, o apoio de apenas nove, dentre 13 estados [as 13 colônias de então, que enviaram representantes à Assembleia Constituinte na Filadélfia]. Eram mudanças tão absolutamente radicais, que surgiu uma oposição ali mesmo, os chamados “Anti-Federalists”.

Para salvar seu plano, Madison colaborou na redação de uma série de artigos, chamados “Federalist Papers”, trabalho no qual ele mesmo cuidou de baixar um pouco o tom da nova Constituição, tão radicais eram as mudanças inicialmente propostas. Concordou também com a redação de uma Lei de Direitos [“Bill of Rights”], pela qual se davam algumas garantias específicas aos indivíduos e aos estados.

E as Emendas também são erradamente interpretadas 

Algumas das primeiras dez emendas àquela Constituição foram substantivas; outras, quase só retóricas. Por exemplo, a 10ª Emenda determina que poderes não garantidos pela Constituição ao governo central permanecem como poderes “do povo” e dos estados. Mas o núcleo duro de qualquer Constituição é limitar os poderes dos governos – e os poderes que a Constituição dava ao governo central eram extraordinariamente amplos.

Assim, a 10ª Emenda – apesar dos esforços que a Direita faz hoje, sempre exagerando o significado dela – visava, principalmente, a conter os Anti-Federalistas. Para que se veja como sempre foi pouco significativa, basta compará-la com o texto do 2º artigo dos “Artigos da Confederação”, que a 10ª Emenda substituiu. (Sobre isso, ver Robert Parry, America’s Stolen Narrative).   

Hoje, a Direita também distorce o sentido do objetivo original da 2ª Emenda, que diz: “Uma milícia bem regulamentada sendo necessária à segurança de um estado livre, o direito de o povo ter e portar armas não será infringido”. Sempre foi concessão feita aos estados, que queriam ter polícias estaduais para manter “a segurança”; jamais significou armar os cidadãos.

A sangrenta batalha da Rebelião dos Shays
O contexto dessas preocupações era a experiência então recente da Rebelião dos Shays no oeste de Massachusetts (em 1786-87); o medo de rebeliões chefiadas por escravos, no sul; e o medo de ataques de populações norte-americanas nativas, nas fronteiras. Os estados queriam o direito de ter polícias armadas, para enfrentar essas ameaças.

Nos primeiros dias da República, a 2ª Emenda jamais foi vista como direito universal para todos os cidadãos, individualmente considerados. Por exemplo, alguns estados aprovaram “Leis Negras” [orig. “Black Codes”] que proibiam negros de serem proprietários de armas. Quando o Segundo Congresso aprovou a “Lei das Milícias” [orig. “Militia Act”] de 1792, a lei mandava armar especificamente “homens brancos em idade de prestar serviço militar”.

Mesmo assim, apesar de algumas horrendas concessões que entraram na redação da Constituição dos EUA – como tolerar a escravidão – o principal objetivo dos que a redigiram foi criar o quadro geral de uma República democrática, em cujos limites a nova nação pudesse aprovar outras leis necessárias ao crescimento e ao sucesso do novo país.

Naquele momento, as monarquias europeias previam o fracasso daquela experiência de autogoverno. E Washington, Madison e outros assemelhados quiseram mostrar que os norte-americanos conseguiriam se autogovernar sem recorrer à violência. Como um dos principais objetivos da Constituição, lá está: “garantir a Tranquilidade doméstica” [orig. “domestic Tranquility”].

Os que redigiram a Constituição dos EUA também reconheceram o fracasso dos “Artigos” e a necessidade de um governo central vibrante em país tão vasto como os EUA (e que continuava a se expandir). Jamais lhes passou pela cabeça ter população armada que resistisse pela violência contra o governo constitucionalmente constituído e eleito dos EUA. Na verdade, esse comportamento foi declarado “traição” (Sobre isso ler em: Second Amendment Madness.

Constituição dos EUA (fac-símile)
O que hoje se vê são neo-Confederados e outros movimentos da Direita nos EUA, a gastarem somas fabulosas de dinheiro para distorcer a história dos EUA e enganar cidadãos, fazendo-os crer que teriam de fazer todo o possível para “retomar” o próprio país das garras de “Obamas” [expressão que, em vários contextos, significa ainda “dos negros” (NTs)].

Quaisquer tímidos passos na direção de qualquer racionalidade com vistas à segurança, na questão das armas – inclusive leis aprovadas pela maioria conservadora da Suprema Corte dos EUA – são apresentadas como “atos de tirania”, como se ainda se tratasse de a Coroa Britânica tentar impor sua vontade às Treze Colônias, depois de as ter impedido de ter representantes no Parlamento Britânico.

O que é mais imediatamente perigoso, no movimento de a Direita des-escrever a história dos EUA é que – quando os EUA têm, afinal, seu primeiro presidente negro – milhões de brancos tratam de armar-se enlouquecidamente, convencidos de que teriam algum dever de “defender” a Constituição, mas sem ter na cabeça qualquer ideia aproveitável sobre o que os autores da mesma Constituição tentavam fazer, ao redigir aquela Constituição.

O que se vê, não é apenas a virulenta, viciosa retórica da Direita – que compara um presidente duas vezes eleito nos EUA, que tenta implementar uma tímida, modesta legislação sobre porte de armas nos EUA, imediatamente depois de um bárbaro massacre de crianças, ao monarca inglês; vê-se também que muitos, como Rand Paul e vários de seus companheiros Republicanos insistem em continuar a difundir uma visão distorcida dos fatos e não dão um passo, na direção de conhecer a história real.



Notas dos tradutores

[1]  Minuteman [aprox. “minuteiro”]. Na história da Revolução Norte-Americana, designa membro de milícias de cidadãos armados que tinham de manter-se preparados para engajar-se em combate “em minutos”, ao serem convocados. Os primeiros “minuteiros” foram organizados no condado de Worcester, Massachusetts, em setembro de 1774, quando os líderes revolucionários tentavam substituir os soldados britânicos das antigas guardas municipais, exigindo a demissão dos antigos oficiais e a reorganização de todos os regimentos, para que passassem a ser constituídos exclusivamente por “minuteiros” [colonos nativos, não britânicos]. Em seguida, outros condados passaram a adotar o mesmo procedimento; quando o Congresso Provincial de Massachusetts reuniu-se em Salem, em outubro, ordenou que a reorganização fosse completada em todo o estado. O primeiro grande teste dos “minuteiros” foram as Batalhas de Lexington e Concord, em 19/4/1775. Em 18/7/1775, o Congresso Continental ordenou que outras colônias organizassem unidades de resistência revolucionária de “minuteiros”, o que as colônias de Maryland, New Hampshire e Connecticut logo fizeram (trad. da Encylopaedia Britannica).

ATENÇÃO: Essa longa nota histórica nos pareceu importante, para ajudar a entender a “questão das armas em mãos de civis” nos EUA, que hoje tanto se discute. Ajuda a entender também o significado LOCAL que tem, nos EUA, a legislação “antiarmas” que Obama acaba de assinar. Nos EUA, essa discussão tem raízes históricas (e imaginárias) profundas.
É discussão, portanto, que significa uma coisa dentro dos EUA e significa outra coisa, absolutamente diferente, fora de lá. De fato, é discussão que significa NADA – quando é apenas papagueada, de segunda, terceira, quarta mão (e aumentando), por exemplo, pelos jornais, jornalistas e “analistas” brasileiros, que só fazem ler, copiar e reproduzir incansavelmente material produzido e publicado nos EUA.

[2] Mais uma vez, são informações que ajudam a começar a entender o sentido imaginário (e histórico) profundo de uma resistência de cidadãos armados, contra um exército imperial na Revolução Americana, que sobrevive entre os norte-americanos nossos contemporâneos.

Por um lado, não há “pacifismo” e “democratismo” liberal, de superfície, moralista e metido a “ético”, que consigam facilmente convencer esses norte-americanos “patriotas” de que se deveriam desarmar cidadãos armados que resistiram (armados) contra uma potência colonial e a derrotaram. Tudo isso é mobilizado no imaginário político e histórico, dentro da sociedade norte-americana, quando se fala em “armas”, lá, em 2012.

Mas, por outro lado, os Republicanos não têm qualquer interesse em fazer lembrar a importância de haver cidadãos armados em luta de resistência popular contra o Estado e suas instituições e apoiadores, se se candidatam à presidência do mesmo Estado. Então, num movimento muito frequente dentro do imaginário da mais pura má-consciência, da mais pura ideologia, defendem a indústria de armas. Para fazê-lo, são obrigados a apagar, do próprio argumento, o significado POLÍTICO das armas que tanto defendem.

Tudo vira conversa de doidos, que a imprensa-empresa apresenta como se se discutissem “fatos” e houvesse aí alguma discussão “democrática”.

Difícil imaginar “ideias no lugar”, tão artificialmente tratadas pela imprensa-empresa como se estivessem “fora de lugar”, por um lado; e, por outro, “ideias fora do lugar”, artificialmente tratadas como se estivessem “no lugar”. E tudo é apresentado como se aí houvesse algum “fato jornalístico” noticiável e tudo é “discutido” como se houvesse o que discutir nos termos em que a imprensa-empresa discute e ensina a discutir. A imprensa-empresa, que se constrói sobre o “atual” e o “diário”, em busca neurótica de uma “atualidade” inalcançável, é espaço privilegiado para promover esse papo de malucos e dar-lhe foro de verdade.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

A emergência das forças teocratas nos EUA


Idelber Avelar

09 de maio de 2012 
Por Idelber Avelar no Blog “Outro olhar


Num momento em que o Brasil atravessa uma assustadora onda teocrata, com níveis inéditos de violência homofóbica, uma enxurrada de projetos de lei inconstitucionais, em clara violação do Artigo 19 da Carta Magna, e sucessivas concessões do governo ao neopentecostalismo mais reacionário, vale a pena revisitar a ascensão recente da direita religiosa nos Estados Unidos. Trata-se de uma história bem diferente da brasileira, sem dúvida, mas talvez ela contenha alguma lição.

Das sete eleições presidenciais realizadas nos EUA entre 1980 e 2004, os Republicanos venceram cinco. A direita religiosa foi chave em cada uma dessas cinco vitórias. Mais importante ainda, a atuação do neoevangelismo e a recusa do Partido Democrata em combatê-lo de frente foram decisivas no movimento do centro político dos EUA na direção da direita.

Posições acerca de temas econômicos e culturais que, até os anos 70, teriam sido consideradas de um conservadorismo extremista passaram a transitar pelo discurso político como se fossem centristas e razoáveis.

A emergência de um discurso que, em termos latino-americanos ou europeus, chamaríamos de esquerda, era uma possibilidade nos EUA até aquele momento (à raiz da grande mobilização dos anos 60), mas ela foi soterrada com a eleição de Ronald Reagan em 1980 e só voltaria a dar sinais de vida trinta anos depois, com o Ocupar Wall Street.

De certa forma, a hegemonia Republicana não foi interrompida por Clinton ou Obama, na medida em que seus governos foram adaptações Democratas do programa Republicano (lembre-se, por exemplo, que foi Clinton quem desmantelou o sistema de bem-estar social e foi Obama quem legalizou o assassinato extra-judicial de cidadãos acusados de “terrorismo”). Muitos fatores contribuíram para essa longa hegemonia conservadora, mas a atuação da direita neopentecostal foi decisiva.

Somente a partir da eleição de Reagan se unifica o tripé reacionário que constituiria a nova face do Partido Republicano. Esses três segmentos do conservadorismo eram, até então, relativamente independentes entre si e nem todos possuíam vida partidária ativa. A partir da década de 1980, eles se unem e formam um bloco temível: falo daquilo que, nos EUA, chamamos de conservadores econômicos (defensores do “livre mercado” e do Estado mínimo, que passam por uma trajetória de aproximação crescente a um fundamentalismo à la Ayn Rand), os falcões da política externa (representantes da indústria bélica e proponentes de um destino manifesto dos EUA de controle sobre o resto do planeta) e os conservadores sociais, que se mobilizam em torno de bandeiras como a proibição do aborto e do casamento gay, o ensino de criacionismo nas escolas e a promoção de abstinência sexual. A direita neopentecostal é o grande motor deste último grupo, até o ponto em que o rótulo “conservadores sociais” se tornou, nos EUA, uma espécie de outro nome para os teocratas.

O apoio incondicional a Israel tem sido um dos eixos da aliança entre os três setores.

Pode parecer paradoxal à primeira vista, mas o sionismo mais extremista nos EUA não tem sua base na comunidade judaica, e sim no cristianismo neopentecostal. Os que mais se mobilizam na promoção e financiamento da colonização ilegal na Palestina são os chamados cristãos renascidos, que creem que aqueles que não se reconciliarem com Cristo na sua segunda vinda à Terra estão condenados ao inferno. Note-se que se trata de um ensinamento fundamentalmente antissemita. Mas a acusação de antissemitismo, claro, nunca é feita a esses grupos, já que seu apoio a Israel é incondicional. A “resolução” desse bizarro paradoxo se dá através da doutrina do chamado “dispensacionalismo”, que preconiza que o controle completo de toda a Palestina pelo estado de Israel é um prerrequisito para a segunda vinda do Messias.

Um dos equívocos mais comuns na compreensão dos teocratas ocidentais de hoje em dia é acreditar que eles são um mero resquício, uma sobrevivência medieval ou pré-moderna, fadada a desaparecer quando as sociedades se secularizarem por completo. Nada é mais falso. Trata-se de uma operação especificamente moderna, com raízes no colonialismo inglês do século XIX e muito ancorada nas novas tecnologias.

Pat Robertson, por exemplo, um dos principais líderes da direita religiosa dos EUA, construiu seu império como evangelista televisivo, começando com o estabelecimento do Christian Broadcasting Network (CBN), em 1960, uma intensa campanha para a compra de receptores de TV a cabo entre neopentecostais nos anos 60, a fundação do Canal da Família nos anos 70 e a explosão de programas de TV evangélicos nos anos 80.

Nessa mesma década, Robertson se consolidaria como arrecadador para os contras da Nicarágua e parceiro de Ronald Reagan na confecção da aliança que selou o pacto entre falcões da política externa, conservadores sociais e conservadores econômicos. Seria em 1983, justamente na convenção da Associação Nacional de Evangélicos, que Ronald Reagan faria o pronunciamento... 
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