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quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Começou a desamericanização do mundo - 2015: emergem soluções para um mundo multipolar

16/10/2013, Global Europe Anticipation Bulletin, GEAB, n. 78  
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Há momentos em que a história acelera. Sejam quais forem os resultados da negociação sobre o “fechamento” do governo dos EUA e sobre o teto da dívida pública dos EUA, o mês de outubro de 2013 é um desses momentos. O impasse no Congresso, prorrogado por tempo demais, abriu os olhos de muitos dos que ainda apoiam os EUA. Segue-se líder no qual se creia; não se segue líder ridicularizado.

“Construir um mundo des-americanizado” é palavra de ordem que, há poucos anos, seria risível. No máximo, teria soado como provocação ao estilo de Hugo Chávez. Mas, se se assiste em tempo real à bancarrota dos EUA, e se quem fala em “mundo des-americanizado” é o jornal oficial do Partido Comunista Chinês, [1] o impacto é de outra natureza. De fato, o que se vê é um processo que já está em andamento e bem adiantado; apenas que, antes, ninguém se atrevia a falar dele publicamente. O ‘trancamento’ do governo dos EUA teve a serventia de, pelo menos, liberar as manifestações. [2] E, para que ninguém se engane: a palavra de ordem para a construção de mundo des-americanizado não surgiu por acaso na mídia oficial chinesa; e, sim, é indício de que Pequim está endurecendo o tom.

De fato, se o mundo inteiro prende a respiração à espera do desfecho do “trancamento” do governo dos EUA, esse jogo patético da elite norte-americana, não é por compaixão, mas, sim, para evitar de ser arrastado para dentro do mesmo sumidouro, na queda da primeira potência mundial. Todos tentam livrar-se da influência dos EUA e distanciar-se dos EUA já desacreditados para sempre, depois dos eventos na Síria, as das gravações clandestinas, da vigilância sem qualquer controle, do “trancamento” do governo e, agora, do problema do teto do endividamento. O legendário poder dos EUA já não passa de grave incômodo para o mundo; e o mundo começa a compreender que é hora de se des-americanizar.

Essa perspectiva e a possibilidade de dizer o “indizível” [3] e de discutir o “indiscutível” estão finalmente abrindo caminho para uma série de soluções que, até agora, estiveram absolutamente reprimidas e cujos mais simples sinais, em alguns casos, permaneciam silenciados e proibidos. Essas soluções aceleram já a construção do mundo futuro e a abertura para um mundo multipolar organizado em torno de grandes blocos regionais.

Depois de fazer uma sinopse-revisão dos vários revezes que os EUA sofreram recentemente, nossa equipe de analistas propõe, nesta edição de GEAB, algumas análises das forças que vão modelando esse mundo em mutação. (...)

“Não. Não podemos”

Como os tempos mudam! O mundo já esqueceu as palavras “liberdade”, “esperança” e o afamado slogan “Yes we can” [Sim, podemos] que representou a sociedade norte-americana aos olhos de gerações passadas; hoje, só se ouve falar de “arapongas”, “grampos”, “escutas ilegais”, espionagem comercial, “trancamento” ou “fechamento” ou “teto da dívida”. Não é exatamente a mesma dinâmica e a imagem, antes positiva, tornou-se muitíssimo negativa.

Chama a atenção o quanto a atual situação dos EUA confirma o velho dito segundo o qual a desgraça nunca chega sozinha. Num período de seis semanas, que começou pela humilhação que a Rússia impôs aos EUA, no caso da Síria; depois o banco central dos EUA, a admitir que não é possível reduzir a injeção de mais dinheiro público na economia (o chamado “alívio financeiro quantitativo”, ing. quantitative easing) [4]; a dificuldade extrema, a incapacidade de o Congresso aprovar um Orçamento, que levou ao ‘trancamento’ do governo federal norte-americano, que perdurou por bem mais tempo que o razoável. [5] As negociações em torno do teto da dívida ainda emperradas, a dois dias da data limite [na data do artigo]; o G20 a ordenar aos EUA que ratifique a reforma proposta pelo FMI, ratificação bloqueada há já três anos; e pelo Banco Mundial e o FMI, para que ponham ordem nas finanças norte-americanas. [6] E agora, o tiro de alerta dos chineses, à frente da proa, para conter o desastre em marcha.

Sucessão de crises

Essa sucessão de crises é altamente preocupante para o país e indica aceleração sem precedentes, e choque à vista. Há algo de fatalidade nessas crises. Mas há também uma dose de “recuperação estratégica”. [7] O “trancamento” do governo explorado por Obama, para pressionar os Republicanos a favor do aumento do teto da dívida – esse, sim, um prazo muito mais importante para os EUA. É obviamente sucesso apenas parcial, mas ainda se pode esperar aumento pelo menos temporário no endividamento, o que adiará os problemas por algumas semanas; [8] mas ainda é possível que o Congresso opte pela via da tragédia, porque já não opera no domínio de decisões racionais e já nada se pode prever.

Custo de securitizar US$ 10 mi da dívida pública dos EUA, contra calote. Fonte: Markit. 
De fato, muitos observadores têm-se focado no movimento Tea Party o qual, como acionistas minoritários que podem controlar uma empresa mediante participação em empresa maior, conseguiu sequestrar o Partido Republicano e a sociedade norte-americana; mas também é possível interpretar o mesmo quadro, pela via oposta. Muitos norte-americanos já veem a realidade exposta ante seus olhos: os EUA estão falidos. Assim sendo, será mais razoável adiar o confronto com a realidade, sob o risco de ver os problemas crescerem? Ou o melhor é resolver os problemas já? Para a maioria da população, o calote da dívida dos EUA não é o pior dos males. [9] Além do mais, que outra solução haverá? Os Republicanos não querem precipitar a crise? É a situação ideal, porque podem culpar o Tea Party, que disse, com todas as letras, que “melhor nenhum acordo, que um mau acordo”. [10]

O que queremos dizer é que, dessa vez, ou numa próxima ocasião no futuro próximo, os Republicanos podem, sim, ser tentados a cortar o nó górdio.

Do mesmo modo, parece haver aí alguma recuperação estratégica, quando o Fed voltou atrás, depois de reduzir o “alívio quantitativo” [orig. quantitative easing]. Por que o Fed deixou que todos acreditassem que não haveria o terceiro “alívio quantitativo”... apenas pouco antes de começar... o terceiro “alívio quantitativo”, que, afinal, começou?

Não há notícia de ação semelhante, pela qual os investidores são deixados no escuro, depois são desencaminhados e, na sequência, são completamente colhidos de surpresa, com 100% deles convencidos pelas “orientações” que lhe dava o governo, até descobrirem que não, que aconteceria o contrário! É possível não haver qualquer conexão entre uma vasta negociata e essas idas-e-vindas até o anúncio oficial final, pelo Fed, [11] e que renderia bilhões de dólares aos envolvidos?

Todas essas pistas e evidências confirmam nossa hipótese de instituições financeiras norte-americanas desesperadas, que têm de ser resgatadas discretamente mediante essas operações, para que a credibilidade do Fed não seja mortalmente ferida. Mais uma vez, são soluções de curto prazo que só pioram a situação geral, mas empurram um pouco para adiante o prazo fatal.

Não somos os únicos a tocar o sino de alarme e de máxima atenção contra esses bancos norte-americanos: o Banco da Inglaterra também já espera a quebra de grandes bancos que, para os ingleses, já perderam o status de “grandes demais para falir”. [12] De fato, estamos repetindo um alerta que já publicamos.

Como no caso de luta de boxe, todos esses golpes contra o mesmo boxeador acumulam-se, e o país já está grogue; mais um golpe, e estará na lona. Acontecerá, se os EUA derem “calote” na dívida externa em outubro [já se sabe que, dessa vez, não deram (NTs)], ou adiante, no prazo limite posterior que já tenha sido adiado e não pode ser adiado eternamente.

O “trancamento”: risadas (mas forçadas) em todo o mundo

Quando escrevemos, em GEAB n. 77, sobre a votação do orçamento: “não há dúvida de que algum acordo surgirá, no último momento ou, mais provavelmente, algumas horas ou dias depois de esgotado o prazo”, é inevitável que se perceba que continuamos a não dar grande importância às diferenças políticas em Washington, sobretudo depois que os “vários dias” em que se pensava no início já viraram semanas de “trancamento”. O diário francês Le Monde, oferecia a seguinte manchete em sua página na Internet: “Washington: triste espetáculo”. [13] Mas, afinal, esse “trancamento” não teve impacto fortíssimo sobre os mercados financeiros, [14] o que indica que muitos Republicanos parecem supor que todos se estão adaptando bem a uma paralisia no governo federal e aos cortes de gasto público que se seguirão.

Mas essa não é a opinião de países que detêm grande volume de bônus do Tesouro dos EUA, que se sentem como reféns sequestrados pelos EUA. [15] Esses se mostram boquiabertos ante a indefensável leviandade dos EUA e pela atitude irresponsável de quem, até recentemente, era “o patrão”. Se os EUA derem calote em suas dívidas, as ondas de choque sem dúvida serão terríveis. Mas não será o fim do mundo, porque o calote pode assumir a forma de simples atrasos de alguns dias nos pagamentos; além disso, e sobretudo, diferentes partes do mundo serão afetados de modos diferentes, conforme a extensão da separação em relação à economia dos EUA. Não há qualquer dúvida de que o país que mais sofrerá com o calote das dívidas norte-americanas (e, de fato, também se se adotar qualquer outra solução) serão os próprios EUA. Afinal de contas, os EUA são proprietários de 2/3 do total de papéis de sua própria dívida pública.

Detentores da dívida pública dos EUA - Fonte: npr.org.
Vermelho: detentores estrangeiros
Marrom: detentores domésticos
Azul: governo federal

Essa é a razão pela qual os países mais bem administrados já começaram a separar suas respectivas economias da economia dos EUA, com a China à frente. A China sabe, aprendido de Sun Tzu, que “quando se ouve a trovoada, já é tarde demais para cobrir as orelhas”. [16]



Notas de rodapé
[1] 16/10/2013, Fracasso fiscal nos EUA obriga a trabalhar para um mundo des-Americanizado, Liu Chang, Xinhuanet (traduzido).
[2] Até o Financial Times manifestou-se (2/10/2013): “O sistema baseado no dólar é inerentemente instável”, afirmação absolutamente sem precedentes e quase inacreditável em jornal financeiro em língua inglesa.
[3] A reação mundial ao artigo de Xinhuanet aqui citado mostra o interesse que despertou a manifestação da segunda maior potência mundial, e confirma que aquele artigo quebrou um tabu “de silêncio” e ajudará a implementar soluções que a maioria dos países aguardam há muito tempo. Ver, por exemplo, a excelente análise de Pepe Escobar, no Asia Times, 15/10/2013 em:O nascimento do mundo des-Americanizado”, (traduzido)
[4] Fonte: Bloomberg, 18/09/2013.
[5] Fonte: CNN, 14/10/2013. 
[6] Fonte: por exemplo, dentre outras, PressAfrik, 12/10/2013.
[7] Recuperação estratégica (def.) – Metodologia que uma organização usa para devolver operações e sistemas criticamente importantes ao estado normal de operação, depois de um desastre.
[8] Fonte: New York Times, 15/10/2013. 
[9] “58% dos norte-americanos votariam contra a elevação do teto da dívida”. Fonte: Fox News, 8/10/2013. 
[10] Fonte: Le Monde, 15/10/2013. 
[11] Fonte: USA Today, 24/9/2013. 
[12] Fonte: The Telegraph, 12/10/2013. 
[13] Le Monde, 14/10/2013.
[14] Obviamente, dado que o Fed continua a insistir em seu desembestado “alívio quantitativo” (ing. quantitative easing) = emissão de moeda sem lastro.
[15] Seja como for, são reféns “por decisão própria”, porque massiva e voluntariamente financiaram o país...

[16] SUN TZU, The Art of War, 6th century BC [A arte da guerra (traduzido)].

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Desastre ideológico: uma nação de cristãos fundamentalistas

20/10/2013, [*] Lawrence Davidson, Information Clearing House
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Cidade Medieval e suas várias guildas de trabalhadores
No século 18, o ocidente mudou do mercantilismo para o capitalismo. O mercantilismo era o sistema econômico que dava aos governos amplos poderes regulatórios sobre o comércio, sobretudo para garantir um equilíbrio comercial favorável. Também permitia que se organizassem poderosas guildas de trabalhadores, e protegia as indústrias domésticas. Mas a Revolução Industrial pôs fim ao mercantilismo e trouxe ao poder uma categoria de comerciantes que desejavam poder operar livremente, sem qualquer supervisão pelos governos.

Com o tempo a visão de mundo capitalista acabou por converter o “livre mercado” em fetiche, e passou a ver o governo como, no máximo, um mal necessário. Qualquer regulação era vista como equivalente à escravidão, e o papel do estado ficava reduzido a manter a ordem interna (polícia), defender o reino (militares) e fazer cumprir contratos (as cortes). Qualquer tipo de intromissão do governo nas questões sociais era reprovável, porque, como se dizia, promoveria a preguiça entre os pobres – ou foi esse o mito conveniente que então se implantou. A real razão pela qual era preciso manter num mínimo absoluto a ação do governo sempre foi que a então ascendente classe comercial temia – de fato, odiava e maldizia – os impostos.

Na Europa, as racionalizações pró-capital permaneceram basicamente seculares, buscando maximizar a eficiência, em nome do lucro. Mas nos EUA, onde praticamente nenhum bem ou nenhuma felicidade acontecem que não sejam da responsabilidade de um Deus que tudo vê, as racionalizações seculares passaram rapidamente a ser complementadas com a noção do desejo divino. Deus desejava liberdade econômica sem regulações e que prevalecesse o estado mínimo.

Charge by Bennett
Esse tipo de visão religiosa ainda existe. Hoje, a luta para que voltemos ao governo mínimo e ao máximo de “liberdade” econômica é conduzida por uma coleção de cristãos fundamentalistas de direita, e pelos doidos do movimento Tea Party.

No Brasil, há também a DETESTÁVEL bispa Marina Silva, a doida da “ecologia” à moda Al Gore, Banco Itaú & empresa Natura.

Chris Hedges delineia o que lhe parece o pior cenário imaginável, ao qual chegaremos comandados pela ânsia de poder da direita cristã, em seu recente artigo The Radical Christian Right and the War on the Government[A direita cristã radical e a guerra contra o governo]. Diz que “a face pública” dessa força política “aparece na Câmara de Deputados” e que seu principal objetivo ideológico é “trancar o governo”. Hedges também aponta o senador Ted Cruz do Texas como o político fundamentalista arquetípico, que comanda o ataque contra o “grande governo”. Para Hedges, seria só o primeiro passo com vistas ao real objetivo de homens como Cruz, que querem fazer dos EUA uma nação cristã fundamentalista.

Parte II – A luta

Na luta que se seguiu, o inimigo dos conservadores radicais é o Partido Democrata (ou “o governo grande”) em geral, e o presidente Obama em particular. Como indicação de o quando distorsiva e isolacionista a ideologia pode ser, pesquisas feitas com grupos focais [orig. focus groups] de Republicanos conservadores revelaram um medo profundamente fixado neles: uma teoria conspiracional.

Segundo os pesquisadores autores do estudo, “O que move a base Republicana (...) é uma crença sincera, genuína, de que Obama tem uma agenda secreta na qual trabalha e que visa e empurrar os EUA na direção do socialismo”. Eles também creem que Obama é o cabeça da conspiração. Parece ser um político que “veio não se sabe de onde” e, assim, é “movido por forças ocultas”. O grupo focal também revelou que a mesma crença existe em “dois de cada três que se identificaram como Republicanos”.

Nas eleições de 2010, uma violenta propaganda combinada para todos os distritos eleitorais ajudou a eleger Republicanos, e uma forte virada conservadora deu ao Partido Republicano o controle da Câmara de Deputados. Também levou para lá, eleitos, uma forte pluralidade de conservadores de direita. Unidos, esses políticos radicais e muitos de seus eleitores detonaram o tipo de concessão que há, ou deveria haver, no coração da democracia. Para os radicais, os seus princípios (radicais) são mais importantes que qualquer tipo de concessão democrática.

Sen. Ted Cruz (R-Texas) fala aos repórteres após derrota do "trancamento"
Essa atitude levou à recente confrontação política, com o trancamento do governo federal nos EUA e o quase-calote da dívida pública.

Poucos dias antes do calote, Republicanos moderados começaram a abandonar os conservadores radicais e manifestaram disposição de abrir mão de exigências como o fim do subsídio federal para o atendimento à saúde (popularmente conhecido como “Obamacare”); a eliminação do déficit do governo; e uma redução radical em todos os programas oficiais e no poder regulatório do Estado. Mas só quando o líder da maioria Republicana John Boehner afinal permitiu que se convocasse o plenário para votação aberta na Câmara de Deputados, é que aqueles moderados puderam somar-se aos seus colegas no Senado e produzir uma resolução que, afinal, restaurou o fluxo de dinheiro dentro do governo e salvou os EUA de terem de dar calote em suas dívidas públicas. Mas, ao fazê-lo, os moderados racharam ao meio o Partido Republicano.

Parte III – Uma vitória negada

O que os Republicanos moderados fizeram foi negar a vitória aos conservadores radicais. Porque, sim, os conservadores viam como vitória o fechamento do governo federal e o calote público. Ideologicamente, o objetivo desses radicais é reduzir ao mínimo o papel do governo na sociedade. Contavam com que a capacidade para “trancar” todo o funcionamento do governo federal dos EUA os poria em posição para negociar a minimização daquele governo.

Em segundo lugar, a campanha para reduzir impostos federais ao mínimo, pela construção de orçamentos esqueléticos, seria ajudada pela capacidade dos radicais conservadores para empurrar o Departamento do Tesouro até o fundo do despenhadeiro do calote. Todos os Republicanos conservadores teriam de sustentar essa dupla pressão tática, até que os Democratas cedessem. Exatamente o que os Democratas não podiam fazer, mas só não fizeram, em boa parte, graças à deserção dos Republicanos moderados.

Essa batalha ainda não acabou. A Resolução apoiada pelos Republicanos moderados abre o governo federal dos EUA até dezembro de 2013 e libera pagamentos dos juros da dívida até fevereiro de 2014. Então, o EUA enfrentaremos um segundo round de confrontação mortal.

Mas no longo prazo, as coisas não parecem bem paradas para o Partido Republicano. Muitos radicais conservadores já veem seus compatriotas moderados como piores do que qualquer Democrata liberal. Veem-nos como traidores “do princípio” – como políticos que se renderam, apavorados, à agenda “socialista” de Obama. Nessas circunstâncias, grande parte das energias do Partido serão consumidas em lutas internas autodestrutivas. O Partido Republicano corre agora o risco de ver sua base encolher, com moderados derrotados nas primárias correndo para o Partido Democrata, ou firmando posição como independentes. Eleitores democráticos poderão não se sentir motivados, ante o recente espetáculo do “trancamento”, a reeleger maioria Republicana para a Câmara de Deputados. Se isso acontecer, o Partido Republicano terá muito trabalho para manter-se vivo como entidade coesa.

Part IV – Conclusão

As ideologias são forma debilitante de visão rasa. A ideologia substitui a realidade por uma versão idealizada, que em geral pouco tem a ver com o mundo real e, portanto, é difícil pô-la em ação.

O aspecto econômico da ideologia dos radicais conservadores padece de anacronismo fatal. Antes, no século 19, levou a ciclos devastadores de crescimento e de desfalecimento, e deixou grande parte da população sem os serviços básicos. A Grande Depressão aí está, para não ser esquecida.

Quanto ao tamanho do governo e o alcance de suas atividades, é preciso ter em mente que há quase 317 milhões de pessoas nos EUA. Fazer retornar a estrutura do governo ao período pré-Grande Depressão (pior ainda: ao que foi no século 18) minaria completamente a estabilidade social, retirando todas as proteções sociais que mantêm ao largo a miséria mais total, e daria rédea solta a todos os preconceitos que a atual legislação federal desestimula. Ignorem tudo isso, e logo estarão enfrentando revolução de verdade. Os radicais conservadores são obsessivamente cegos a esses problemas, porque esses problemas põem abaixo os seus tais “princípios”.

Todas essas ideologias de visão curta, sejam de direita ou de esquerda, já se comprovaram pouco realistas, e falharam por isso. Infelizmente, geraram problemas terríveis, antes de morrer. Até aqui só vimos uma pálida sombra do potencial de desgraça do desafio ideológico que os EUA temos pela frente. Cabe desejar que consigamos evitar a grande tempestade. 
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[*] Lawrence Davidson é professor de História na West Chester University na Pennsylvania. É autor de Foreign Policy Inc.: Privatizing America’s National Interest;America’s Palestine: Popular and Offical Perceptions from Balfour to Israeli Statehood; e Islamic Fundamentalism.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Pepe Escobar - China: Nada de “shutdowns” e trancamentos

4/10/2013, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online – The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Xi Jinping sendo presenteado na Indonésia
(clique na imagem para aumentar)
O mais recente espetacular evento da superpotência disfuncional, o chamado shutdown, “trancamento”, forçou o presidente Barack Obama a cancelar uma viagem inteira à Ásia. Primeiro, a Casa Branca anunciou que Obama estava ‘'trancando'’ a viagem à Malásia e às Filipinas – pressupostas estrelas do “pivoteamento” “para a Ásia”. Depois, se confirmou que toda a viagem de Obama para participar da reunião da APEC (Asia-Pacific Economic Co-operation) em Bali, na 3ª-feira, e da ASEAN (Association of Southeast Asian Nations) e Leste da Ásia, na 5ª-feira seguinte, no Brunei, seria ‘'trancada'’.

Assim sendo, o presidente chinês Xi lá ficou, sozinho, para brilhar sem rivais no centro do palco mundial. Como se ele precisasse de alguma “ajuda”extra, e como se Xi já não lá estivesse, de pleno brilho próprio.

Mapa com os países da ASEAN (Association of Southeast Asian Nations)
Ontem, 5ª-feira (3/10/2013), Xi tornou-se o primeiro governante estrangeiro, em todos os tempos, a falar ao Parlamento indonésio, em Jakarta. Disse que Pequim deseja a todo custo elevar o comércio com as nações da ASEAN a impressionantes US$1 trilhão, até 2020 – e constituir um banco regional de infraestrutura.

Peng Liyuan
A mensagem de Xi, resumidamente, é: a China e “alguns países do Sudeste da Ásia” têm de resolver pacificamente as suas disputas de soberania territorial e direitos marítimos (traduzido: discutiremos aquele caso complicado do Mar do Sul da China; mas Xi não fez, no discurso, qualquer referência direta àquela questão); mas não permitiremos que aqueles problemas interfiram nos nossos negócios comerciais e de investimento (que são coisa séria). E quem seria a ASEAN para discordar?

Em seguida, já tendo chegado antes de Obama à Indonésia (e se poderiam escrever gordos livros só sobre isso), e depois de ter assinado negócios de mais de $30 bilhões (quase todos, de mineração), Xi partiu rumo à Malásia.

Comparem-se o triunfo indonésio de Xi – ao qual não faltaram o glamour da esposa, Peng Liyuan, e o casal metido em panos estampados em batik [1] – e uma recente visita do primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, o qual, para todas as finalidades práticas, queria convencer os indonésios a cercar a China. Elaboradamente polidos como sempre, os indonésios descartaram Abe. A China é o maior parceiro comercial da Indonésia, depois do Japão, e prevê-se que, em pouco tempo, ultrapassará Tóquio.

Shinzo Abe
Pequim já aceitou discutir um Código de Conduta legal e cogente com a ASEAN, para o Mar do Sul da China. Mês passado, um grupo já começou a trabalhar em Suzhou. Quatro dos dez membros da ASEAN (mas não a Indonésia) estão envolvidos na disputa no Mar do Sul da China – a qual, como se adivinha facilmente, tem a ver exclusivamente com muito petróleo e gás ainda a ser explorado. Os filipinos continuarão a acusar Pequim, como já fizeram mês passado, de violar o código de conduta (que por enquanto ainda é informal). A Indonésia ofereceu-se para servir como mediadora. Não será um jardim de rosas, mas fato é que a China e a ASEAN já estão conversando.

Pivoteio-me, eu sozinho...

É problema, e não é pequeno, se você anuncia – com muita fanfarra, e no Pentágono, nada mais nada menos! – um “pivoteamento” na direção da Ásia, para fortalecer o papel da “Ásia do Pacífico para a prosperidade e a segurança dos EUA”... mas você não consegue pivotear-se, nem só você e só por uns dias! Para começar, nem há, de fato, qualquer pivoteamento – não, pelo menos, agora. O governo Obama está focado em dois dossiês imensamente complexos – Síria e Irã; e, como se não bastasse, tem de tentar conter a demência do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu de Israel; e a Casa de Saud, cada dia mais paranoica e com mais medo.

O papel de Obama
Assim sendo, o que Obama teria a fazer na Ásia? Ora. Nas Filipinas, para começar, teria tentado armar um negócio para dar “maior flexibilidade” ao Pentágono para usar bases militares. Dizer que o projeto é “controverso” é dizer pouco sobre o que o projeto é.

E na Malásia, Obama teria podido pressionar ainda mais a favor da já infame Parceria Trans-Pacífico [orig. Trans-Pacific Partnership (TPP)] – essencialmente uma ação corporativa que é grande negócio para as multinacionais norte-americanas, embora não exatamente para os interesses dos asiáticos. A TPP é a resposta norte-americana ao projeto chinês de ampliar ainda mais os seus já massivos laços comerciais com a Ásia.

Mahathir Mohammad
O ex-ministro da Malásia, Mahathir Mohammad já viu a TPP – que exclui a China – pelo que ela de fato é, e não se mostra absolutamente convencido de que a TPP dê à Malásia qualquer acesso mais livre ao mercado norte-americano.

Feitas todas as contas, o que se viu foi o palco asiático deixado absolutamente livre para que Xi ali encenasse mais um triunfo chinês no Sudeste Asiático. Pequim pôde oferecer a Kuala Lumpur vasta riqueza de investimentos, sem a mal-vinda interferência à moda TPP sobre o modo como o país administra as empresas estatais ou distribui os contratos do governo. Sobretudo, Xi conseguiu trunfo importante, no trabalho de atrair a Malásia para o seu campo, nas negociações sobre o Código de Conduta no Mar do Sul da China.

Xi, é claro, será a estrela da reunião da APEC em Bali. Na sequência, o premiê Li Keqiang conduz a equipe chinesa para a Cúpula do Leste da Ásia no Brunei e, dali, estende sua viagem de negócio também para a Tailândia e o Vietnã.

Comparem, pois, essa ofensiva chinesa, potente como um Lamborghini Aventador em marcha acelerada, com a percepção palpável, embora não declarada em todo o Sudeste Asiático, de que o “pivô” norte-americano não passa de Chevrolet velho e enferrujado. Pode-se apostar que a think-tank-lândia nos EUA por-se-á outra vez a choramingar sobre confiabilidade que os EUA estão perdendo, ou, melhor ainda, sobre a “credibilidade” moribunda – mesmo que continue a defender o futuro da “pivotagem”, apresentada não só como decisão norte-americana estratégica, mas como se também fosse de alto interesse para os cidadãos do Sudeste Asiático.

Tudo isso é disparate. O líder da torcida uniformizada a favor de os EUA pivotearem-se muito, muito, para a Ásia é o Japão. – E o Japão é visto por todo o Sudeste Asiático, sob diferentes tons de cinza, como fantoche dos EUA. O que é garantido é que o sumiço de Obama só reforça a percepção predominante, de que a atual política externa dos EUA é absoluta confusão. E de que, enquanto os EUA fazem shutdown e “trancamento”, a China faz negócios.
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Nota dos tradutores
[1] Na Indonésia, o presidente chinês foi presenteado com um grande quadro a óleo, no qual o artista, especialista em pintura em tecidos, pintou o casal Jinping, Xi e Peng Liyuan, usando roupas estampadas em batik. Vê-se o quadro sendo entregue no topo deste artigo.
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista e correspondente das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu, no blog redecastorphoto.
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