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segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Obama afastou-se dos progressistas: culpa de quem?!


29/10/2012, Robert E. Prasch, Translation Exercises
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Falguni A. Sheth
Comentário de Falguni A. Sheth (Translation Exercises): “Como muitos sabem, a mais recente coluna de Matt Stoller em Salon [1] e outras publicações críticas, inclusive a minha, enfrentaram a ira de muitos, ao sugerir a possibilidade de nem os Democratas nem o presidente Obama estarem precisamente muito interessados em satisfazer as carências e necessidades ou interesses da esquerda e de liberais progressistas que ajudaram a elegê-los. Agora, o professor Robert Prasch e blogueiro de TransEx, resolveu entrar na discussão”.



Robert E. Prasch
Os que acompanham a blogosfera política sabem, sem dúvida, dos muitos ataques que sofreram vozes tradicionalmente muito respeitadas do campo da esquerda norte-americana, que concluíram que, afinal, é hora de votar em “outros” partidos. Fartos de, mais uma vez, como aconteceu em 1996, 2000 e 2004, serem forçados a votar “no mal menor” cansaram-se, de vez, da “velha lenga-lenga”. E que é velha, é. Alguns leitores lembrarão dos bottons que nos mandavam votar no neoliberal e pró-guerra do Iraque, John Kerry, contra o neoliberal e pró-guerra do Iraque, George W. Bush, em que se lia: “Kerry é menos merda”.

Mas queria falar de outra questão, relacionada a essa. O que, exatamente, diziam esses novamente muito falantes apoiadores de Obama, no final de 2008 e início de 2009, quando o governo estava montando e alocando seu pessoal, para implantar as políticas e as decisões que prepararam o campo para o que se vê hoje e para a disputa que eles mesmos enfrentam hoje? Não se perguntam, sequer, como é possível que um presidente que mobilizou entusiasmo tão apaixonado e tanta esperança há apenas poucos anos, esteja hoje a um passo de perder as eleições?

Timothy Geithner
Afinal de contas, Obama compete contra sujeito que passou praticamente toda a sua vida adulta agindo como o mais rematado, o mais consumado predador capitalista. E está acontecendo, apesar de a maioria dos norte-americanos excluídos do topo, que não são a elite que paga 10-20% de impostos, continuarem a viver os piores tempos da economia de toda a vida de todos os norte-americanos hoje vivos. Será que todos concordam, pelo menos, com que – exceto Richard Nixon – a queda vertiginosa na popularidade de Obama, apesar dos golpes de mão que a tem disfarçado, representa um dos mais completos fracassos na história dos líderes políticos nos EUA de toda a história do pós-guerra?

Não é difícil encontrar a causa subjacente desse fracasso monumental. Obama-presidente-eleito e seu círculo íntimo de conselheiros erraram completamente na avaliação do momento político. A nação realmente queria mudanças significativas – e a tal ponto queria, que o país dispôs-se a eleger um presidente “não regular”, um negro (o que é evento notável, se se considera a ininterrupta história de racismo nos EUA).

Lawrence Summers
Então, não se sabe como, Obama e seu círculo mais próximo deram jeito de convencerem-se, eles mesmos, de que bastaria dar uma reciclada na desgastada ideia de fazer uma “triangulação” [2] a partir do primeiro mandato de Clinton, e tudo daria certo. A partir desse exato momento, Barack Obama e seus principais conselheiros nada fizeram, além de se distanciar de sua principal base de apoio. Duas semanas depois da eleição, o governo anunciou que Lawrence Summers e Timothy Geithner – indivíduos cujo currículo recente, individual e coletivamente, já bastava para assegurar que ambos seriam fracasso gigantesco como servidores públicos – foram nomeados para conduzir a recuperação econômica.

A nomeação da dupla mostrava e o desempenho da dupla confirmou amplamente que “esperança e mudança” nunca haviam passado de slogan e que não, de modo algum, haveria nem qualquer mudança nem qualquer esperança nas políticas econômicas de Obama. A dupla, sem dúvida possível, cuidou de recuperar as fortunas de Wall Street e só. Não deram sequer um passo na direção de recuperar a riqueza de mais ninguém nos EUA.

Dia 1/12/2008, o governo Obama anunciou que Robert Gates permaneceria como Secretário de Defesa. Gates, caso alguém tenha esquecido, é mais que o homem que George W. Bush nomeou para dar rumo às guerras imorais, infindáveis e absolutamente sem rumo de Bush, com a missão extra de estendê-las para o resto do planeta, via o (então nascente) programa dos aviões-robôs armados, os drones. É mais que isso. Como ex-vice-diretor da CIA, Gates escapou por um fio de ser julgado e condenado por sua atuação no escândalo dos “contra” iranianos. Ainda que se conceda que as investigações, em 1991, sobre sua atuação tivessem sido excessivas (e talvez não tenham sido), Gates sempre foi muito intimamente associado à criminalidade rampante durante o governo Reagan, para ser nomeado até recolhedor de cachorro sem dono, muito menos, é claro, poderia ter sido nomeado para o cargo de Secretário da Defesa. Que homem daqueles jamais poderia participar de governo do Partido Democrata, nem é preciso dizer.

E quanto à reforma financeira? A indicação de ex-gerentões de Goldman Sachs e Citibank para inumeráveis cargos na Commodity Futures Trading Commission (CFTC) ou na Securities & Exchange Commission (SEC) e por todos os cantos, sugere a qualquer dos mais resistentes e obcecados seguidores de Obama que “esperança e mudança” teria papel decisivo na agenda governamental? Se sugere, ainda falta explicarem como conseguiram chegar àquela conclusão.

Rahm Emanuel
Para não perdermos o foco: alguém aí, entre os obamistas, realmente pensa que Rahm Emanuel liderará mudança à esquerda, dentro do Partido Democrata? Não há quem não saiba que Emanuel consumiu a vida inteira como pau mandado, na era Clinton, para combater a ala mais progressista dentro do Partido Democrata. Alguém esperava que mudasse radicalmente, só porque foi nomeado braço direito do Presidente? É? Alguém acredita nisso? E nem vou começar a falar sobre o empenho apaixonado com que Obama deu andamento à agenda de “livre comércio” de Bush ou aos planos (afinal, nunca foram tão secretos assim!) de cortar os benefícios da Seguridade Social e do Medicare.

Repetindo: todas as nomeações listadas acima foram anunciadas depois da eleição e antes da posse. Foram anunciadas antes de Obama revelar que não tinha qualquer intenção de cumprir o núcleo duro das promessas de campanha. Antes de Obama começar a perseguir os valentes “vazadores” de informação correta que distribuíram a verdade sobre os crimes de guerra da era Bush e os sistemas e programas ilegais de vigilância sobre os cidadãos. Antes de Obama silenciar as acusações contra os que realmente cometeram aqueles crimes. Essas violências, como hoje se sabe, faziam pleno sentido, porque, em seguida, o próprio governo Obama se poria a cometer os mesmos crimes, em versão ainda pior – de fato, em modalidade grotesca – do que o país algum dia conheceu, em matéria de violentar a Constituição dos EUA, durante a era Bush.

Sejamos claros: nenhum presidente dos EUA reclamou para si mesmo, em tempo algum, o direito de assassinar cidadãos norte-americanos, selecionados de uma lista de alvos, das quais o presidente pode escolher quem bem entenda, sem ter de informar a quem quer que seja e sem que nenhuma outra instância possa revisar a decisão presidencial de matar norte-americanos.

Matt Stoller
Meu ponto é bem simples: os norte-americanos já foram traídos. A traição não foi instigada por Glenn Greenwald, Matt Stoller, pelo blog Black Agenda Report, ou por qualquer outra voz do campo progressista ou da esquerda. O que esses autores fazem é expor as traições, para que os eleitores as vejam.

O pessoal que traiu a antes vibrante e esperançosa coalizão que, em 2008, elegeu Barack Obama à presidência está lá, abrigada na Casa Branca. Aquela traição não é coisa de acaso ou das circunstâncias. Já estava em processo inevitavelmente, modelando as decisões que foram tomadas antes de 20/1/2009. O que escrevi aqui apenas amplifica um pouco o que Barack Obama e seus principais assessores e conselheiros já sabiam no momento em que tomaram posse: que suas prioridades e agendas seriam em grande parte, se não totalmente ou principalmente, opostas às agendas e prioridades de seus eleitores e apoiadores. Sempre seria, naquele momento e depois, um copo “meio cheio” ou, mesmo, só ¼ cheio. Se ouvirem coisa diferente, mandem que lhe mostrem o copo. [3]

O fato é que o governo Obama, como, antes dele, o governo Clinton, entraram, sabendo onde entravam, num movimento cínico. Apostaram que conseguiriam impor uma corte de desatinos, políticas fundamentalmente odiosas do ponto de vista dos seus eleitores e, apesar disso, seriam reeleitos. O cálculo baseou-se sempre na premissa de que Democratas “de partido” jamais teriam alternativa. [4] Não surpreendentemente, o governo Obama e seus prepostos investiram considerável tempo e energia para convencer os apoiadores de que não há alternativa.

Qualquer um que algum dia tenha comprado sabe que o poder de barganha depende, em última instância, da disposição do comprador para não comprar. A capacidade de dar as costas ao mau fornecedor explica por que obtemos bons serviços da lavanderia da esquina e péssimos serviços do nosso provedor de televisão a cabo. Quando se tem alternativa, o consumidor ganha poder como consumidor (e devo dizer que a regra vale para o mercado de trabalho, o que explica por que a maioria dos empregadores gosta muito mais de altas taxas de desemprego, que os seus empregados).

Nesse momento, campanha eleitoral profundamente cínica está apostando que os progressistas e a esquerda em geral terá tanto medo de um governo de Romney, que nem tentará mobilizar o poder que tem. Essa, vale relembrar, já foi a estratégia adotada por Comissões Nacionais Democratas cada vez mais de direita, ao longo de, já, quase 30 anos. A cada quatro anos, nos convocam a votar pelo mal menor. Em algumas semanas saberemos se a jogada deu certo, para eles, mais uma vez.

A pergunta é: e teremos aprendido? Teremos aprendido a barganhar contra uma liderança desencantada, sem fé, do Partido Democrata? Se não aprendermos agora... aprenderemos quando?

Mas sejamos bem claros. Vençam ou percam, Rahm Emanuel, Robert Gibbs, David Axelrod, David Plouffe, Bill Clinton e Barack Obama estarão com a vida ganha. Eles sempre ganham, com ou sem os votos. Há magníficos empregos em agências de lobbying, em bancos, como conselheiros, todos com excelentes salários. Convites para “Conferências”, que venderão a peso de ouro, choverão sobre eles. A grana conhece seus caminhos e tudo continuará a prosperar. Quanto a isso, que ninguém se preocupe. E quanto à vida da vasta maioria do povo dos EUA? Os que apoiaram Obama. Os que votaram em Obama. Os desempregados. Os que tiveram as casas alagadas e destruídas? Os sem casa? As vítimas das ações fraudulentas de despejo?

Bem, há novidades: somos adultos. Eles não podem nos enganar sempre. Não se deixe enganar mais. Caia fora do velho golpe. Você nada deve a Obama, porque Obama nada fez por você e nada planeja fazer por você, nem fará – a menos que você veja alguma vantagem em perder o benefício da Segurança Social e em ser coadjuvante da farsa da Parceria Trans-Pacífico. Se votar em Obama o deixa menos desanimado, OK, vote. Mas não há dúvida de que já há muita gente que começa a pensar de outro modo.





Notas de tradução

[1] 27/10/2012, The progressive case against Obama [O que os progressistas têm contra Obama], Matt Stoller, Salon.

[2] Orig. Triangulation: é o nome dado ao que faz o candidato, em disputa política, que se apresente como “acima” e “entre” a esquerda e a direita do espectro político tradicional nos EUA e na Grã-Bretanha. Implica adotar parte das ideias de algum adversário (quase sempre adversário apenas aparente). A lógica desse tipo de movimento é que os dois lados recebem créditos pelas ideias do oponente e o “triangulador” fica protegido contra ataques mais virulentos relacionados ao tema “triangulado”.

[3] Ver 27/12/2011, Where is My Half Glass? [Onde está a minha metade do copo”, Robert E. Prasch, Translation Exercises.

[4] Ver 30/7/2012, On Voting Strategically in 2012: The Ultimatum Game[Sobre votar estrategicamente em 2012: o jogo do ultimatum”] Robert E. Prasch, Translation Exercises

sábado, 8 de setembro de 2012

Afinal, assinado, publicado, sacramentado e provado: “Obama, Hilária & Co. é D’us”


O Brasil no relatório/plataforma política do Partido Democrata (EUA)


Comentário do pessoal da Vila Vudu

No documento divulgado dia desses, chamado “Plataforma Nacional dos Democratas – Moving America Forward [Movendo os EUA à frente] 2012”, uma espécie de relatório de feitos passados e promessas eleitoreiras dos Democratas à Obama & Clinton, a palavra “Brasil” ocorre quatro vezes:

(1)           No item “As Américas”, The Americas, lê-se:

“Nas Américas, aprofundamos nossos laços econômicos e de segurança com países de todo o hemisfério, do Canadá e México ao Brasil e Chile e El Salvador. Fortalecemos a cooperação com o México, Colômbia e pela América Central para combater narcotraficantes e gangues criminosas que ameaçam os cidadãos deles e os nossos. Também trabalhamos para quebrar redes de crime organizado que usam o Caribe para contrabandear drogas para nosso país. Dado que são desafios que se impõem coletivamente, continuaremos a apoiar as forças de segurança, segurança das fronteiras e a polícia, com equipamento, treinamento e tecnologias de que necessitam para manter seguras suas comunidades. Melhoraremos a coordenação e a partilha de informações, para que os que traficam drogas e seres humanos tenham menos locais onde se esconder. E continuaremos a aplicar pressão sem precedentes contra cartéis financeiros, inclusive nos EUA” (p. 27).

(2) No item “Enfrentando a Crise Financeira Global”, Addressing the Global Financial Crisis, lê-se.

“Continuando a trabalhar com tradicionais centros de influência, alcançamos também economias emergentes para dar-lhe mais voz e mais peso na economia global. Fizemos o G-20, primeiro fórum internacional de coordenação econômica, como reconhecimento do fato de que discussões econômicas no século 21 têm de incluir países como China, Índia, Indonésia e Brasil. E, juntas, as nações do G-20 salvaram a economia mundial que estava à beira de outra depressão” (p. 28).

(3) No item “Avançando valores universais”, Advancing universal values, lê-se:

“Nas Américas vemos vibrantes democracias em países do México ao Brasil e Costa Rica ao Chile. Vimos também históricas transferências pacíficas de poder em lugares como El Salvador e Uruguai. Contudo, apesar dos progressos democráticos da região, persistem graves desigualdades de poder político e econômico. Continuaremos a pressionar por governança mais transparente e melhor prestação e cobrança de contas. E promoveremos mais liberdade em Cuba e Venezuela, até que todos seus cidadãos gozem os direitos universais que merecem” (p. 30).

(4) No item “Promovendo governança transparente e melhor prestação e cobrança de contas, e o Estado de Direito, sob o império da lei”, Promoting Transparent, Accountable Governance and the Rule of Law, lê-se:

“Para promover governança transparente e melhor prestação e cobrança de contas em todo o mundo, nos unimos ao Brasil para lançar e co-coordenar a Parceria Governo Aberto (Open Government Partnership). 55 países pertencem à parceria – representando ¼ da população mundial – cada um dos quais delineou passos concretos, confiáveis, para abrir o trabalho do governo, de modo que os cidadãos sejam empoderados, problemas resolvidos e a democracia fortalecida” (p. 31).

A palavra “Israel” ocorre 16 vezes, 400% mais que “Brasil” – o que, pior do que ser bandeira-poka, é sintoma; e, dessas, várias vezes se fala de “Israel estado judeu democrático” – quer dizer, só rindo. 

Alguém aí se lembra de, algum dia, ter ouvido/lido amontoado tão grande, só de imbecilidades autistas e arrogantes?! 

quarta-feira, 9 de maio de 2012

A emergência das forças teocratas nos EUA


Idelber Avelar

09 de maio de 2012 
Por Idelber Avelar no Blog “Outro olhar


Num momento em que o Brasil atravessa uma assustadora onda teocrata, com níveis inéditos de violência homofóbica, uma enxurrada de projetos de lei inconstitucionais, em clara violação do Artigo 19 da Carta Magna, e sucessivas concessões do governo ao neopentecostalismo mais reacionário, vale a pena revisitar a ascensão recente da direita religiosa nos Estados Unidos. Trata-se de uma história bem diferente da brasileira, sem dúvida, mas talvez ela contenha alguma lição.

Das sete eleições presidenciais realizadas nos EUA entre 1980 e 2004, os Republicanos venceram cinco. A direita religiosa foi chave em cada uma dessas cinco vitórias. Mais importante ainda, a atuação do neoevangelismo e a recusa do Partido Democrata em combatê-lo de frente foram decisivas no movimento do centro político dos EUA na direção da direita.

Posições acerca de temas econômicos e culturais que, até os anos 70, teriam sido consideradas de um conservadorismo extremista passaram a transitar pelo discurso político como se fossem centristas e razoáveis.

A emergência de um discurso que, em termos latino-americanos ou europeus, chamaríamos de esquerda, era uma possibilidade nos EUA até aquele momento (à raiz da grande mobilização dos anos 60), mas ela foi soterrada com a eleição de Ronald Reagan em 1980 e só voltaria a dar sinais de vida trinta anos depois, com o Ocupar Wall Street.

De certa forma, a hegemonia Republicana não foi interrompida por Clinton ou Obama, na medida em que seus governos foram adaptações Democratas do programa Republicano (lembre-se, por exemplo, que foi Clinton quem desmantelou o sistema de bem-estar social e foi Obama quem legalizou o assassinato extra-judicial de cidadãos acusados de “terrorismo”). Muitos fatores contribuíram para essa longa hegemonia conservadora, mas a atuação da direita neopentecostal foi decisiva.

Somente a partir da eleição de Reagan se unifica o tripé reacionário que constituiria a nova face do Partido Republicano. Esses três segmentos do conservadorismo eram, até então, relativamente independentes entre si e nem todos possuíam vida partidária ativa. A partir da década de 1980, eles se unem e formam um bloco temível: falo daquilo que, nos EUA, chamamos de conservadores econômicos (defensores do “livre mercado” e do Estado mínimo, que passam por uma trajetória de aproximação crescente a um fundamentalismo à la Ayn Rand), os falcões da política externa (representantes da indústria bélica e proponentes de um destino manifesto dos EUA de controle sobre o resto do planeta) e os conservadores sociais, que se mobilizam em torno de bandeiras como a proibição do aborto e do casamento gay, o ensino de criacionismo nas escolas e a promoção de abstinência sexual. A direita neopentecostal é o grande motor deste último grupo, até o ponto em que o rótulo “conservadores sociais” se tornou, nos EUA, uma espécie de outro nome para os teocratas.

O apoio incondicional a Israel tem sido um dos eixos da aliança entre os três setores.

Pode parecer paradoxal à primeira vista, mas o sionismo mais extremista nos EUA não tem sua base na comunidade judaica, e sim no cristianismo neopentecostal. Os que mais se mobilizam na promoção e financiamento da colonização ilegal na Palestina são os chamados cristãos renascidos, que creem que aqueles que não se reconciliarem com Cristo na sua segunda vinda à Terra estão condenados ao inferno. Note-se que se trata de um ensinamento fundamentalmente antissemita. Mas a acusação de antissemitismo, claro, nunca é feita a esses grupos, já que seu apoio a Israel é incondicional. A “resolução” desse bizarro paradoxo se dá através da doutrina do chamado “dispensacionalismo”, que preconiza que o controle completo de toda a Palestina pelo estado de Israel é um prerrequisito para a segunda vinda do Messias.

Um dos equívocos mais comuns na compreensão dos teocratas ocidentais de hoje em dia é acreditar que eles são um mero resquício, uma sobrevivência medieval ou pré-moderna, fadada a desaparecer quando as sociedades se secularizarem por completo. Nada é mais falso. Trata-se de uma operação especificamente moderna, com raízes no colonialismo inglês do século XIX e muito ancorada nas novas tecnologias.

Pat Robertson, por exemplo, um dos principais líderes da direita religiosa dos EUA, construiu seu império como evangelista televisivo, começando com o estabelecimento do Christian Broadcasting Network (CBN), em 1960, uma intensa campanha para a compra de receptores de TV a cabo entre neopentecostais nos anos 60, a fundação do Canal da Família nos anos 70 e a explosão de programas de TV evangélicos nos anos 80.

Nessa mesma década, Robertson se consolidaria como arrecadador para os contras da Nicarágua e parceiro de Ronald Reagan na confecção da aliança que selou o pacto entre falcões da política externa, conservadores sociais e conservadores econômicos. Seria em 1983, justamente na convenção da Associação Nacional de Evangélicos, que Ronald Reagan faria o pronunciamento... 
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